Parece existir um atalho que nos leva, por meio do raciocínio, a esta consideração: enquanto tivermos corpo e nossa alma estiver unida a esse elemento maléfico, jamais alcançaremos completamente aquilo que ardentemente desejamos, ou seja, a verdade.
Efetivamente, o corpo, pela sua necessidade de alimento, cria para nós infinitas preocupações; além disso, quando as doenças advêm, elas tolhem a busca do ser. A carne nos domina com seus amores, encantos, receios, as suas muitas quimeras, de bolhas de ar, e assim realiza-se plenamente o dito que é por sua causa que se introduz em nós a obstinada e contínua negação de pensar.
Guerras, revoltas batalhas, são todas provocadas pelo corpo e seus desejos. Todas as guerras encontram a sua origem na cobiça de riquezas que somos forçados a buscar devido ao corpo, visto que somos escravos a seu serviço.
Mas o pior de tudo é que, mesmo se nos é concedido um pouco de calma, de liberdade do corpo, e nos dedicamos à reflexão, eles se manifesta a cada momento enquanto pensamos, provocando confusão e desordem. E ao fim, por sua culpa, não conseguimos distinguir a verdade.
Temos assim uma demonstração realista de que, se alguma vez quisermos lançar um olhar límpido sobre alguma coisa, teremos que nos separar do corpo e contemplar somente por meio da alma as coisas em si mesmas. E apenas em determinado tempo, parece, poderemos ter o que desejamos e afirmamos amar – ou seja, o saber intelectual –, e esse tempo é o tempo da morte, não o da nossa vida.
A lógica o confirma. Se não é dado compreender claramente nada sob o peso da carne, não é possível adquirir a visão das coisas, ou então essa visão está reservada para depois da morte, pois somente então a alma estará sozinha consigo mesma, separada do corpo. Parece que, durante a vida, estaremos mais próximos da verdade quanto mais limitarmos o contato com o corpo, salvo nos casos de extrema necessidade.
Não nos deixaremos contaminar pela natureza do corpo, mas, ao contrário, deste nos manteremos apartados enquanto a própria divindade dele não nos libertar. Somente assim, limpos, livres da insensatez do corpo, entraremos em contato com seres de igual pureza, e conheceremos tudo o que é simples, aquilo que certamente é a própria verdade.
Fonte: NICOLA, U. Antologia Ilustrada de Filosofia: das origens à idade moderna. Ed. Globo. São Paulo, 2005.
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Se na Idade Média Platão foi interpretado no sentido religioso e visto até mesmo como um precursor do Cristianismo, isso se deve a textos como o que está abaixo, que emana uma espiritualidade ascética. O corpo, e tudo que ele significa (percepção, paixão, instinto, emoção), deve ser anulado para que a razão seja exercitada. Tudo aquilo que não é pura espiritualidade racional pode ser descrito em termos de patologia da alma. Importantes para a história da filosofia ocidental, essas tese rompem os limites da tradição platônica. (O trecho abaixo foi extraído de Fédon.)