As Mudanças nos Nomes de Família

A grafia dos nomes de família, os chamados sobrenomes, vem sofrendo alterações consideráveis com o passar do tempo. É comum encontrarmos várias formas gráficas de um mesmo nome de família, sabidamente originários de um mesmo tronco, isto é, descendentes de um mesmo ancestral. Mas por quê escritas diferentes para descendentes de um mesmo tronco comum?

É conhecida a imprecisão com que eram registrados os filhos de um mesmo pai, nos cartórios em que os escrivão não tinha grandes qualificações para exercer a função que lhe era destinada. Dessa forma foram perpetuando-se, de geração em geração, erros nos sobrenomes de família.

Mas esse tipo de erro passou a ocorrer somente a partir da instituição dos registros civis, que, por sua vez, somente tornaram-se obrigatórios com a Proclamação da República em 1889. Contudo, tais erros já existiam antes dessa data, quando o que valia era o registro eclesiástico, isto é, o registro feito pelos sacerdotes.

As colônias alemãs católicas foram, particularmente, muito atingidas por esse problema, quando configurou-se o seguinte situação: padres luso-brasileiros atendendo paroquianos teutos. Já nas colônias luteranas tal fato não verificou-se, dado que os primeiros pastores e até a 2ª Guerra Mundial, eram em sua grande maioria enviados da Alemanha, não encontrando dificuldades, portanto, em registrar nomes que lhes eram familiares.

Analisemos o caso de São Pedro d'Alcântara, a primeira colônia alemã de Santa Catarina, fundada em 1829 por 146 famílias, na sua quase totalidade de confissão católica, vindas do Hundsrück. Os primeiros registros de batismos dos filhos dos colonos, bem como casamentos, ocorreram na freguesia de São José da Terra Firme, obrigando os colonos a deslocarem-se de suas comunidades, haja vista a inexistência de pároco sediado em São Pedro d'Alcântara. São José era uma vila litorânea fundada por açoreanos e atendida espiritualmente por padres luso-brasileiros. Mais tarde, São Pedro d'Alcântara passou a receber visitas de sacerdotes de São José, que realizavam, então, os serviços religiosos da colônia e os conseqüentes registros eclesiásticos.

Nesse contexto é que foram aparecendo as primeiras distorções. Imaginemos um sacerdote luso-brasileiro, que não falava alemão, tendo como interlocutor um imigrante alemão analfabeto ou semi analfabeto, agricultor e sem documentos. Obviamente, a comunicação entre ambos não foi das mais perfeitas.

Assim, alguns nomes de família, tais como Zimmermann, não poucas vezes apareceu registrado como Simão. Wilvert soou como Vicente nos ouvidos do escrivão e em muitas vezes assim aparece grifado. Já o nome Kuhn algumas vezes foi aportuguesado para Cunha. E mesmo um sobrenome consagrado como o atual Koerich, originalmente tinha sua grafia Kehrig, sendo que aqui explica-se que o "ö" de Köhrig, que tem som de "e" aberto, é mais fácil ser escrito com "oe", que tem o mesmo som. Já o "ch" veio do vício que o alemão encerra ao pronunciar o "g" como sendo um som de "ch".


Licença para imigrar de Stephan Kehrig. Note-se a grafia inicial dos atuais Koerich.

Mas um sobrenome de família que vingou com uma forma gráfica bastante distinta de seu original é o "Junckes". Trata-se de uma família emigrada para São Pedro d'Alcântara em 1828, vinda dos arredores de Trier e que tem como genearcas Johann Junglas e Katharina Grundhoefer. O casal trouxe consigo 5 filhos da Europa e aqui teve mais um. Dos 5 filhos imigrantes, 4 eram mulheres e um homem, este de nome Nikolaus. O filho nascido no Brasil chamou-se Andreas, casou com Elisabeth Rodius, de Hilden, Nordheim Westphalen, e migrou em direção ao sul do Estado, pelo vale do Capivari.

Já as mulheres casaram na região e assumiram os nomes de família dos maridos. Entretanto, Nikolaus migrou para Alto Biguaçu, atual município de Antônio Carlos e ali, casando-se em idade bastante jovem, gerou imensa descendência. O nome de família, todavia, sofreu a alteração mais profunda de toda a descendência dos pioneiros. De Junglas ou Jungklaus, como seriam os primeiros, para Junckes ou Junkes. É verdade que vingaram outras escritas também, como Junglos, cuja principal concentração de pessoas com esse sobrenome encontra-se nos municípios de Vidal Ramos e Presidente Nereu. São descendentes de Ferdinand Jungklaus, filho de Andreas de São Pedro d'Alcântara.

Na região de Orleans, Tubarão e depois Florianópolis encontram-se os Juncklaus ou Junklaus, que são descendentes de Johann Jungklaus, mais um filho de Andreas, neto do Johann e Katharina, os imigrantes. Já os descendentes de Nikolaus, a partir de São Pedro d'Alcântara e Antônio Carlos, espalharam-se por Biguaçu, São José e Angelina, alguns para o vale do Itajaí, outros até para Criciúma e Forquilhinhas.

Um dos fatos que corrobora para atestar a pertinência e veracidade desta tese é o fato de que entre os Junckes das regiões citadas, principalmente entre os mais antigos, encontram-se muitos pré nomes Nicolau. É sabido que a prática de colocar o nome do pai no filho ou no neto, bem como do padrinho no batizando, era uma tradição muito forte no passado, permanecendo ainda em muitas famílias.

Nos dias de hoje a freqüência de erros originados a partir de registros, por certo é bem menor, posto que há um maior rigor ao se fazer o registro. O advento da informática também muito contribuiu para a redução desses erros.

Contudo, é sempre bom estarmos atentos nas ocasiões em que registramos nossos nomes de família, pois um pequeno descuido pode levar para gerações futuras distorções ortográficas que dificilmente serão corrigidas à porteriori.



José Raulino Jungklaus(1)

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(1) José Raulino Jungklaus, dedica-se ao estudo das genealogias e Histórias das famílias oriundas das colônias São Pedro de Alcântara, Theresópolis e Santa Isabel.
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