Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, Vila Morena
Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, Vila Morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade
Grândola, a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz
Em silêncio, amor
Em tristeza enfim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficamos sós
La la la la la la
La la la la la la
La la la la la la
La la la la la la
Amigo, maior que o pensamento
Por essa estrada, amigo vem
Por essa estrada, amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras, em todas as fronteiras
Seja bem vindo, quem vier por bem
Bem vindo seja, quem vier por bem
Se alguém houver, que não queira
Trá-lo contigo, também
Aqueles, aqueles que ficaram
Em toda a parte, todo o mundo tem
Em toda a parte, todo o mundo tem
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo, também
Erguer a voz e cantar
É força de quem é novo
Viver sempre a esperar
Fraqueza de quem é povo
Viver em casa de tábuas
À espera dum novo dia
Enquanto que a terra engole
A tua antiga alegria
Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
O teu corpo é um barco
Que não tem leme, nem velas
A tua vida é uma casa
Sem portas e sem janelas
Não vás ao sabor do vento
Aprende a canção da esperança
Vem semear tempestades
Se queres colher a bonança
Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
Já que me chamas amigo
Prova-me lá que o és
Vem para a ceifa comigo
Na terra, sujar os pés
Eu vou contigo pro campo
Eu vou comer do teu pão
Tu dás-me a força da vida
Eu dou-te a minha canção
Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
Canta, canta, amigo, canta
Vem cantar a nossa canção
Tu, sozinho, não és nada
Juntos temos o mundo na mão
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
O vento nada me diz.
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.
Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
Ai rios do meu país
Minha pátria à flor das águas
Para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
Pede notícias e diz
Ao trevo de quatro folhas
Que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
Por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
Quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
Direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
Vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
Ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
Nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
Dos rios que vão pró mar
Como quem ama a viagem
Mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(Minha pátria à flor das águas)
Vi minha pátria florir
(Verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
E fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
Nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
Só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à Beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
Se notícias vou pedindo
Nas mãos vazias do povo
Vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
Dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
E o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
Liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
Aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
Cobre-te canalha na mortalha
Hoje o rei vai nu os velhos tiranos
De há mil anos morrem como tu
Abre uma trincheira companheira
Deita-te no chão sempre à tua frente
Viste gente doutra condição
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
Livra-te do medo que bem cedo
Há-de o Sol queimar e tu camarada
Põe-te em guarda que te vão matar
Venham lavradeiras mondadeiras
Deste campo em flor venham enlaçdas
De mãos dadas semear o amor
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
Venha a maré cheia duma ideia
P'ra nos empurrar só um pensamento
No momento p'ra nos despertar
Eia mais um braço e outro braço
Nos conduz irmão sempre a nossa fome
Nos consome dá-me a tua mão
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
“O Dinossauro, atrás da secretária dourada, sua varanda, suas patas leoninas, parecia um sonâmbulo pousado num sonho desértico. (…) Nunca alguém lhe diria que há muito tinha perdido o traço humano e que já projetava para longe uma sombra de monstro de solidão, dorso ondulante, a errar por paisagens crepusculares de cinza e metal”. Dinossauro Excelentíssimo foi editado pela primeira vez em 1972, com ilustrações e capa de João Abel Manta, provocando acesa discussão na Assembleia Nacional. “Devo-lhe a eles uma parte do êxito deste livro”, escreveria mais tarde Cardoso Pires. Trata-se de uma sátira à figura de Oliveira Salazar, ao seu regime e instituições. Uma fábula, como lhe chamou o autor, “porque se passa no tempo em que os animais falavam e os homens sufocavam”. Dinossauro Excelentíssimo, não deve, obviamente, ser pensado como um texto sobre o 25 de Abril, mas como uma expressiva alegoria que tem a revolução como horizonte.