Lucas 23.33-43
Ciclo do Tempo Comum
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
você conhece esse brinquedo? Ele é um “cacto dançante” e funciona da seguinte maneira: você fala e ele repete o que você disse dançando. Vamos ver? (Divertida demonstração). Até pouco tempo atrás esse brinquedo foi uma febre entre as crianças – e eu também dei um de presente para uma das minhas afilhadas. É um brinquedo bem divertido. Fato é que tudo o que você fala, ele repete. Ele não pensa e não reflete se está dizendo a verdade, algo bom ou ofensivo – ele apenas automaticamente repete o que seu microfone ouviu.
Quando isso se aplica às nossas vidas, a brincadeira se torna algo bem sério: a fé da boca para fora não transforma a pessoa da boca para dentro! Jesus foi crucificado. O Rei está pendurado no madeiro. Sua cruz está fincada em um monte chamado em latim de Calvário; em hebraico, seu nome é Gólgota; em grego, Kraniou Topos – o morro das caveiras, possivelmente em alusão aos corpos que ali foram deixados sem serem sepultados ou ao formato da montanha que aparentava uma caveira. No Calvário, as bocas professam muitas coisas:
1 AS AUTORIDADES E OS SOLDADOS (v. 35-37)
As autoridades ali presentes dizem: “Salvou a outros; a si mesmo se salve, se é, de fato, o Cristo de Deus, o escolhido” (Lucas 23.35); da mesma forma, dizem os soldados após lhe darem o vinagre que na época servia como um calmante: “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo” (Lucas 23.37).
Que tentação! Em meio ao “se” dos seus zombadores, que tentação sair da cruz! Que luta interior: aceitar sua predestinação a ser o Salvador da humanidade ou abandonar sua missão para dominar como os poderosos deste mundo; permanecer na missão do Pai ou aceitar a proposta de Satanás (cf. Mateus 4.8-11).
As autoridades e os soldados falam de Jesus como o Cristo de Deus, o escolhido e como o rei dos judeus. Sem perceber, eles dizem a verdade – distantes da verdade! O coração não está cheio de fé, mas de zombaria e escarnecimento. Os olhos enxergam aquele que é a verdade, mas não conseguem crer na verdade – estão vendados pelas próprias ideias. Como “cactos dançantes”, eles repetem a verdade do Evangelho, mas sem fidelidade ao Evangelho. Fazem um escândalo no lugar de uma confissão pública de fé. Fazem festa aos pés do Crucificado – e repartem as suas vestes e lançam sortes! No lugar do choro de arrependimento e conversão, há quem faça diversão aos pés da cruz! Suas bocas falam – mas falam da boca pra fora! Da boca para dentro, só há vazio, deboche e escárnio.
2 PÔNCIO PILATOS (v. 39)
Então aparece Pôncio Pilatos, governador da Judeia – a maior autoridade na região. Um homem cheio de sangue nas suas mãos. E João 19.19 nos diz: “Pilatos escreveu também um título e o colocou no alto da cruz; o que estava escrito era: Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus”. No relato de Lucas, ouvimos que esta frase foi escrita em letras gregas, romanas e hebraicas. A marca dos gregos era a sabedoria; os romanos o poder; os judeus, a religião – e ali está pendurado Jesus: o mais sábio, o mais poderoso, o Deus-homem![1] Diante dele, o pobre Pilatos.
Pôncio Pilatos é aquele que perguntou a Jesus: “Que é a verdade?” (João 18.38). Agora, diante da cruz (por incrível que pareça), Pilatos testemunha a verdade: Este é o Rei dos Judeus. Pilatos testemunha a verdade sem crer na verdade. A fé da boca para fora não transforma a pessoa da boca para dentro!
3 O MALFEITOR PERDIDO (v. 39)
O olhar muda em direção aos crucificados com Jesus. Ali está um homem que viveu na criminalidade. E nem neste momento crucial ele foi capaz de desenvolver algum senso de moralidade. Ao contrário, o que lhe interessa é tirar algum proveito da situação. Ao invés de contemplar a possibilidade de viver eternamente nos céus, tudo o que ele enxerga é uma oportunidade de viver mais tempo na terra. Ao invés de olhar para cima, ele apenas olha para as coisas aqui de baixo. Ao invés de contemplar o Crucificado, ele só enxerga a sua própria vida.
Ele diz: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também” (Lucas 23.39). Também de sua boca provém a pergunta correta. Contudo, ele pouco está interessado na resposta – o que lhe interessa é o livramento da sua condenação! O malfeitor pergunta por Cristo sem interesse em crer em Cristo. A fé da boca para fora não transforma a pessoa da boca para dentro!
4 O MALFEITOR SALVO (v. 40-42)
Os discípulos que deveriam estar ali para testemunhar de Jesus sumiram! Silenciaram o seu testemunho. Calaram as suas bocas – mesmo convivendo três anos com o Senhor. Então, para a glória de Deus, o testemunho veio de um malfeitor moribundo. Na última hora – a hora crucial – ele apela para o temor a Deus. Ele sabe que a sua condenação é justa – e sabe que a condenação de Jesus é injusta. Da sua boca veio o humilde pedido: “Lembra-te de mim quando vieres no teu Reino” (Lucas 23.41). Ele confessou o reinado de Cristo crendo de todo o coração. Não olhou apenas para a terra, mas contemplou os céus; não viu apenas os poderes deste mundo, mas o Reino de Deus; sua justiça não estava na absolvição de Pilatos, mas na salvação em Jesus.
Esta não é uma confissão vazia, mas o testemunho de um coração cheio da graça de Deus – na última hora! Já não lhe interessava tudo o que este mundo poderia oferecer. Tudo que ele desejava era o reinado de Cristo. Sua fé não foi da boca para fora, mas uma confissão sincera a partir do que estava no seu coração.
Amados irmãos, amadas irmãs,
muitas pessoas confessam a fé apenas da boca para fora. Se sairmos nas ruas de Novo Hamburgo perguntando se as pessoas acreditam em Deus, é possível que a maioria responda que sim. Contudo, isso as autoridades, os soldados, Pilatos e o malfeitor perdido também responderam muito bem.
Muitos cristãos têm a fé na ponta da língua, mas Jesus distante do coração. Conhecem os Dez Mandamentos, decoraram o Credo Apostólico e a oração do Pai-Nosso, mas, na hora crucial, estão vazias de Cristo – e só pensam em si mesmas e nas coisas deste mundo. Conhecem racionalmente a fé, mas não vivem diariamente a fé cristã.
A glória de Deus não estava nas autoridades; a glória de Deus não estava nos soldados; a glória de Deus não estava no poder de Pôncio Pilatos; a glória de Deus está naquele que foi pendurado na cruz! Eis o nosso Rei! Seu trono é a cruz! Sua coroa é de espinhos! Você crê nele apenas com a sua boca? Ou crê em Jesus de todo o coração? Está disposto a viver sua vida com Deus? Está disposto a pagar o preço do discipulado? Você reflete a sua fé ou apenas a repete como o “cacto dançante”?
Concluo citando Romanos 10.10, 13: “Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. (Momento de Oração). E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes, em cristo Jesus. Amém.
[1] Teofilacto, cristão da Igreja Antiga. in: AQUINO, Tomás de. Catena Áurea. v. 3: O Evangelho de São Lucas. Campinas: Ecclesiae, 2020. p. 658.