Isaías 63.7-9
Mateus 2.13-23
Ciclo do Natal
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
O Natal já passou. Aos poucos, a data tão esperada o ano inteiro vai ficando para trás enquanto já miramos o novo ano que de nós se aproxima.
Quando a “magia do Natal passar”, o que vai sobrar? O que sobrará quando a família se dispersar e a mesa estiver novamente com cadeiras vazias? O que sobrará quando as luzes de natal se apagarem? O que sobrará quando as canções natalinas silenciarem? O que sobrará quando chegar a hora de desmontar o pinheirinho? O que sobrará quando descobrirmos que a mesma rotina de sempre continuará sendo a mesma rotina de sempre? O que sobrará?
O profeta Isaías vive um momento difícil da história do seu povo. Estamos por volta do ano 587 a. C. Jerusalém foi dominada pelos babilônicos e o povo de Judá foi arrastado à força para a Babilônia. É um tempo de profunda desgraça e sofrimento. O povo de Deus está distante da sua terra e da sua identidade. O Templo de Jerusalém foi destruído. O cenário é um verdadeiro caos. A culpa da desgraça não é Deus, mas do povo que se afastou de Deus e fez o que era mau aos olhos do Senhor. Agora, chegou o tempo do juízo – e não há escapatória! A alegria acabou!
Sofrimento é também a marca do texto que ouvimos no Evangelho segundo Mateus. Soldados invadem lares. Mães gritam desesperadas. Crianças inocentes são mortas. A lembrança de que um tirano não conhece limites – e que sua principal arma é causar medo! Uma cena natalina cheia de dor onde parece que a “magia do Natal” acabou!
Quando as coisas começam a voltar ao normal, o que sobrará do Natal? O que restará quando o sofrimento bater novamente à nossa porta? Onde nos seguramos quando as superficialidades passam e a vida clama por um sentido mais profundo?
1 A RECORDAÇÃO
Mesmo em meio à desgraça, Isaías inicia o seu poema testemunhando da misericórdia do Senhor. A palavra “celebrarei” no hebraico hizkir também significa “recordarei”. Em meio às desgraças, é tempo de lembrar que o Senhor é misericordioso. O profeta traz à memória em forma de testemunho e louvor a recordação de que Deus já agiu no passado – e continua agindo. Misericórdia aqui significa que Deus está participando dos sofrimentos do seu povo. Deus não está distante dos sofrimentos, mas sofre com os que sofrem. Deus não tem prazer ou alegria no sofrimento do seu povo, mas sente compaixão pelo povo que sofre.
Nos dias de tristeza, o profeta recorda os atos gloriosos e os dias de alegria. Martinho Lutero pregou sobre Isaías 63 em 1530, dizendo:
Quando estou triste, devo evitar coisas aterrorizantes, para não ser consumido pela tristeza; devo recordar as bênçãos. Já quando estou feliz e seguro, devo recordar momentos difíceis, porque quando estamos felizes e seguros, facilmente ficamos soberbos.[1]
Essa alegria em meio à tristeza não é uma obra humana, mas algo que Deus opera através do agir do Espírito Santo. Lutero escreveu: “A natureza humana vê o mundo como perdido, por isso só reclama; o Espírito vê no mundo as bênçãos de Deus, por isso começa a cantar”[2]. Por isso, o que resta do Natal quando o sofrimento bate à porta? A misteriosa alegria que só o Espírito de Deus pode proporcionar – que a inteligência humana não consegue entender e que pode ser até chamada de loucura.
Mesmo nas dificuldades, Isaías e Lutero nos convidam a uma vida de gratidão pois o pessimismo é o imã do pessimismo. O profeta nos ensina que a gratidão não é um mero sentimento, mas uma habilidade que exige treino. Não significa ser ingênuo diante de circunstâncias difíceis, mas um exercício para ver o que há além delas – o Senhor que é rico em misericórdia e que sofre conosco.
2 A RECORDAÇÃO DE QUE O SALVADOR JÁ VEIO
Para Isaías, o Salvador era uma promessa; para nós, a promessa já foi cumprida. Apesar de sermos filhos desobedientes, o Pai não desistiu de nós. Diariamente fazemos o que é mau aos olhos do Senhor – e ainda assim ele decidiu enviar Jesus para ser o nosso Salvador. Quando a “magia do Natal” vai embora, Jesus permanece como Deus conosco em meio às tribulações. O Emanuel não veio apenas na noite de Natal quando tudo é lindo e maravilhoso. Ele permanece conosco! A magia do Natal é pontual. Ela desaparece. Jesus é eterno e prometeu estar conosco todos os dias até o fim dos tempos.
3 A RECORDAÇÃO DE QUE O SALVADOR JÁ VEIO PESSOALMENTE
Ao povo sofrido, Isaías lembra das promessas do Êxodo quando o povo de Deus estava atravessando o deserto rumo à Terra Prometida. Na sua recordação/celebração, Isaías lembra que Deus havia enviado um anjo adiante do seu povo para que fossem guardados no caminho (cf. Êxodo 23.20; 23.23; 32.34; 34.21). Isaías traz à memória do seu povo o agir do Senhor no passado da sua história. Contudo, agora há algo diferente: “Quem os salvou foi ele mesmo, e não um anjo ou qualquer outro mensageiro” (Isaías 63.9 NTLH[3]). Deus não enviou um anjo ou um mensageiro para morrer na cruz em nosso lugar e nos trazer Salvação; ao contrário, Deus decidiu vir pessoalmente! O Natal é a lembrança de que não podemos salvar a nós mesmos – e que Deus decidiu vir pessoalmente agir em favor da nossa Salvação. Isso permanece ainda que o mundo acabe e a eternidade chegue a nós ainda hoje.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Quando a “magia do Natal passar”, o que vai sobrar? Jesus! O mundo tem celebrado o Natal sem Jesus – e encontrado o vazio quando a “magia do Natal” vai embora. A Igreja celebra o Natal com Jesus não como um “evento mágico”, mas como o agir salvador de Deus para resgatar a humanidade caída no pecado – mas hoje é quase proibido falar de pecado!
O menino nascido em Belém é irmão das crianças inocentes massacradas por Herodes em sua tirania. No Natal, as crianças morrem no lugar de Jesus; na Páscoa, Jesus morreu por aquelas crianças – e por todos nós! Agostinho de Hipona escreveu: “Enquanto perseguia Cristo, Herodes ofereceu ao nosso Rei um exército de mártires vestidos de trajes brancos”[4]. Apesar do luto, dos sofrimentos e das angústias, lembremos/recordemos a misericórdia de Deus que agiu em nosso favor com poderosa obra de salvação.
O que fica do Natal é aquilo que foi cultivado no coração. Que Cristo continue sendo o centro, a orientação e o autor da sua Salvação. E que ele continue contigo sempre – Emanuel, Deus Conosco. Amém.
[1] LUTHER, Martin. Vorlesungen über Jesaja - 1530. in: LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werfe. Weimar Ausgabe. 31. Band. Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1914. p. 535-538. Tradução do latim: IA Chat GPT.
[2] LUTHER, 1914. p. 535-538. Tradução do latim: IA Chat GPT.
[3] A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) juntamente com a Bíblia de Jerusalém (BJ) e A Mensagem (MSG) provavelmente buscaram a tradução do texto hebraico com apoio no antigo texto grego da Septuaginta (LXX) que, diferentemente da Nova Almeida Atualizada (NAA) e da Nova Versão Internacional (NVI), traz a ideia de que não foi um anjo, mas o próprio Senhor quem salvou o seu povo. O texto hebraico do poema é denso e difícil de traduzir. Por isso, acredito que por estarem mais próximos do contexto original, os tradutores da LXX são de confiança no significado teológico dado à tradução do texto bíblico.
[4] AGOSTINHO. In sermonibus de Epiphania. in: AQUINO, Tomás de. Catena Aurea. v. 1: Evangelho de São Mateus. Campinas: Ecclesiae, 2018. p. 111.