Juízes 2.8-12
Ciclo do Natal
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Se eu desconectar o pinheirinho da extensão, o que acontece? Se eu cortar o fluxo de energia, quem está mais à frente não a recebe. Isso ensina uma grande verdade que queremos aprender hoje nos 194 anos da nossa querida Comunidade: Quando a Igreja se torna opcional para os pais, ela se torna desnecessária para os filhos. Essa é a verdade que o livro de Juízes “joga na nossa cara”.
1 JOSUÉ
Josué é descrito como “servo do Senhor” (v. 8). Sua história de vida refletiu essa verdade. Dos 12 espiões enviados por Moisés para vigiarem a Terra Prometida, apenas 2 – Josué e Calebe – afirmaram que pelo braço do Senhor era possível tomar a terra. Josué foi o sucessor de Moisés. E quando já estavam estabelecidos na Terra Prometida, muitos do povo de Israel começaram a adorar aos deuses dos povos vizinhos. Josué não se deixou levar pelos “modismos”, mas declarou com firmeza: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24.15).
Sob sua liderança, o povo de Deus venceu batalhas, derrubou o muro de Jericó e assumiu a Terra que o Senhor havia prometido a Abraão, Isaque e Jacó. Ele realmente foi “forte e corajoso” (Josué 1.9) e o Senhor esteve com ele por todos os caminhos que trilhou. Josué foi, de fato, um servo do Senhor em todos os caminhos da sua vida e em todas as decisões que tomou! E então faleceu bem-aventurado aos cento e dez anos de idade. Sua trajetória nunca foi esquecida, mas está bem guardada nas Escrituras Sagradas até hoje.
2 A NOVA GERAÇÃO
Josué morreu fiel ao Senhor. A sua geração também morreu, mas estes não haviam sido tão fiéis assim. Conforme Juízes 1.19, os israelitas não expulsaram os moradores do vale como o Senhor havia ordenado porque os moradores possuíam carros de ferro. Basicamente, eles estão dizendo: “Senhor, não conseguimos.” Contudo, Deus conhece o que está no coração humano e desmascara a mentira deles quando diz: “vocês não obedeceram à minha voz” (Juízes 2.2b). Os israelitas dizem “não conseguimos”; Deus responde: “não quiseram”.[1] As desculpas esfarrapadas caem por terra diante do Deus da verdade. O Senhor jogou a verdade “na cara” do povo. A verdade dói, mas transforma quando é ouvida e aceita.
A falta de vontade de uma geração de ser fiel ao Senhor de Abraão, Isaque e Jacó teve consequências drásticas. O erro pode ter sido pontual, mas a consequência foi geracional: “se levantou uma nova geração que não conhecia o Senhor, nem as obras que ele havia feito por Israel” (Juízes 2.10b). Apesar de Josué e sua casa serem fiéis ao Senhor, outras casas não cumpriram sua obrigação de passar a fé adiante. Temos diante de nós o fracasso de uma comunidade que não conseguiu manter viva a memória do agir salvador de Deus em sua história. Daniel Block, um comentarista bíblico, escreveu:
o complexo sistema de festas, memoriais e outros costumes, destinado a transmitir a rica tradição espiritual (Dt 6.20), ou havia caducado ou tinha sido reduzido à formalidade. Se é que o Shemaʿ (Dt 6.4) estava sendo recitado, as exigências à comunidade na sequência (6.5-6) para que instruíssem as crianças nos fundamentos da fé pactual evidentemente estavam mais concentradas em burlar do que em observar e obedecer.[2]
Os rituais eram feitos “por fazer”, porque “sempre foi assim” não porque eram significativos ou porque lembravam o agir salvador de Deus na história do seu povo. Quando a fé se torna opcional para os pais, ela é irrelevante para os filhos.
3 O NOVO CULTO A PARTIR DA NOVA CULTURA
Aquela nova geração não era ateia. Ao contrário, tinham sede por novas formas de espiritualidade – como muito acontece hoje em dia: “Deixaram o Senhor, Deus de seus pais, que os havia tirado da terra do Egito, e seguiram outros deuses, os deuses dos povos que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o Senhor à ira. Porque deixaram o Senhor e serviram a Baal e Astarote” (Juízes 2.12-13).
A cultura está em constante transformação. Enquanto peregrinavam rumo à Terra Prometida, a principal cultura do povo de Deus era a pecuária (cuidado de animais). Como eles eram nômades, não era possível fazer plantações e aguardar as colheitas, pois mudavam de lugar após um determinado período e os animais os acompanhavam. O Senhor Deus já era visto como esse “Deus Pastor” que cuida do seu povo (Salmo 23, por exemplo).
Quando o povo chegou à Terra Prometida, há uma mudança na cultura de alimentos. Agora, fixos e sedentários, eles passam a cultivar o alimento da terra. É então que eles trocam o Senhor, Deus do pastoreio, por Baal, o deus da fertilidade da terra. A mudança na cultura transformou a maneira de cultuar. Como uma geração não passou a fé no único Senhor adiante, Israel passou por um processo de “libertinagem religiosa” e agora adoram os deuses que acreditam serem mais poderosos para a sua modalidade cultural – e o Senhor ficou irado com isso!
É verdade que em Pentecostes Deus usou as diferentes culturas para transmitir a mensagem do Evangelho em várias línguas diferentes. Uma das grandes características do Evangelho é sua capacidade de adaptação a diferentes culturas de diferentes lugares do mundo. Contudo, a adaptação jamais significa o sacrifício da mensagem a ser anunciada. Justo Gonzáles escreveu: “A cultura é boa. A cultura é bela. A cultura merece respeito. Mas a cultura, como toda realidade humana, carrega o selo do pecado e pode muito bem ser seu instrumento”[3].
Amados irmãos, amadas irmãs,
nossa Comunidade irá completar neste 06 de Janeiro seus 194 anos de fundação. Muitas gerações já passaram por este espaço. Muitas gerações foram batizadas nesta Pia Batismal. Muitas gerações já estiveram aqui sentadas para ouvir da Palavra de Deus. Muitas gerações estiveram diante deste altar recebendo a Ceia do Senhor. Muitas gerações foram sepultadas em nosso cemitério. E tudo isso é motivo de muita celebração, gratidão e festa. Mas, e quanto às novas gerações? Será que vamos ter uma Comunidade por mais 194 anos? Na Alemanha e na Europa é assustador o número de igrejas fechando e sendo transformadas em bares, restaurantes e baladas[4]. São igrejas grandes, belíssimas e históricas, com linda arquitetura e belos vitrais.
Nossa Comunidade vai continuar adiante? Sabe onde está a resposta dessa pergunta? Na sua casa! A Bíblia é aberta em sua casa? A oração é importante na rotina do seu lar? A adoração a Deus faz parte do seu dia a dia? Ou a adoração é só uma hora que você reserva para de vez em quando fazer na igreja pra se sentir bem com Deus? Obviamente que não há receitas prontas e que há muitas contingências. Muitas famílias cristãs têm filhos que deixaram a Igreja de Jesus – mas pelo menos ouviram a Palavra.
A continuação da nossa Comunidade depende hoje do compromisso dos membros com o Senhor, sua Palavra e Sacramentos e de um acordo entre os vivos, os mortos e os que ainda estão para nascer. Você até pode dar desculpas para o pastor, o presbitério, as secretárias – mas o Senhor sabe que suas desculpas são esfarrapadas.
Hoje o Senhor está te chamando a um compromisso com essa Comunidade. Faça de 2026 o ano da vivência da fé na sua família e na Comunidade. Não vai ser fácil. Como tudo na vida, pra chegar ao alvo é preciso esforço e treino. Traga seus filhos ao Culto Infantil. Traga seus filhos adolescentes e jovens na JEHVEL. Venha com a família inteira no culto. E aguarde em oração, pois os frutos vão aparecer e você os vai colher. Amém.
[1] Cf. KELLER, Timothy. Juízes para você: São Paulo: Vida Nova, 2026. p. 26. Edição do Kindle.
[2] BLOCK, Daniel. Juízes e Rute. São Paulo: Vida Nova, posição 4590-4594 Edição do Kindle. Grifo do autor.
[3] GONZÁLEZ, Justo. Cultura & Evangelho. São Paulo: Hagnos, 2011. p. 77.
[4] < https://www.dw.com/pt-br/alemanha-quando-igrejas-viram-hot%C3%A9is-moradias-e-at%C3%A9-lojas/a-75345504 >. Acesso em: 02. jan. 2026.