CATEDRAL DA GUARDA
C. 1390-1553
A diocese da Guarda foi fundada por D. Sancho I em 1199, na sequência da transferência da antiga sede episcopal de Egitânia (Idanha-a-Velha). As primeiras versões da catedral foram desmanteladas por razões de defesa e estratégia militar. O projeto do edifício definitivo iniciou-se no final do século XIV, sob o episcopado de D. Vasco de Lamego e incentivo de D. João I, no contexto de afirmação nacional após a crise de 1383–1385. As primeiras fases de construção da cabeceira e do transepto revelam a participação direta ou indireta de mestres ligados ao Mosteiro da Batalha, como o Mestre Huguet, prosseguindo com a direção de pedreiros como Gonçalo Martins. No reinado de D. Manuel I, concluíram-se os tramos das naves, o portal ocidental e o coroamento. Entre 1550 e 1553, a catedral recebeu o retábulo-mor, encomendado ao escultor João de Ruão.
A Catedral da Guarda reflete a transição entre o rigor do gótico de matriz batalhina e a linguagem decorativa manuelina e renascentista, condicionada pelo uso do granito beirão. A volumetria maciça, os fortes botaréus laterais, os contrafortes angulares e o coroamento integral por ameias e gárgulas, conferem ao edifício uma silhueta de fortificação militar. Apresenta planta de cruz latina de três naves com cinco tramos, transepto saliente e cabeceira tripartida, composta por abside e duas absidíolas de planimetria poligonal. A nave central sobressai pela altura em relação às laterais, recebendo iluminação através de janelões. Os pilares fasciculados sustentam abóbadas de cruzaria de ogivas. No transepto e no portal principal (de arcos policêntricos ladeados por finos colunetos e motivos vegetalistas), emergem elementos ornamentais do manuelino. Esculpido em pedra de Ançã, o Retábulo-Mor é uma obra estruturada em quatro ordens sobrepostas com dezenas de figuras em alto-relevo, e desenvolve um programa iconográfico focado na Paixão de Cristo e nas cenas da Vida da Virgem, inseridas em nichos de inspiração clássica.