DEDICATORIA
"Aos jovens, transmito as três melhores lições de minha experiência política.
Primeiro, na vida pública, como na ciência, os erros devem ser investigados e não escondidos. Só o debate e a crítica podem corrigir as falhas e promover o progresso.
Segundo, na vida pública, como na ordem natural, os verdadeiros progressos vêm das bases. É preciso crescer como as árvores, que das raízes recebem toda sua seiva.
Finalmente, se quiser saber se está no caminho certo da luta pela justiça e pela liberdade, pergunte a si mesmo: que pensam de mim os pobres."
André Franco Montoro em A luta pela Democracia na América Latina (1981)
ANDRÉ FRANCO MONTORO POR DONA LUCY
"Algo em que jamais pensaria em minha vida seria escrever apresentando o André. Como político, professor e pai de família numerosa, e sobejamente conhecido. Tenho prazer e muita saudade em relembrar sua figura e suas ações. Tentarei.
Conheci o André nas lides da Ação Católica, movimento religioso desenvolvido sob a inspiração de Pio XI nos idos dos anos 40. Fomos, também, colegas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento, que hoje faz parte da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Éramos amigos e frequentávamos o mesmo grupo (Helena Junqueira, Heloisa Malzone, Gilda Leça Melilo, Virgínia Bastos, Rubens Padim – Dom Cândido Padim, Nadir Kfouri entre muitos outros).
O André se salientava na compreensão rápida dos postulados do primeiro grupo de filósofos que estudamos – Tales de Mileto, Pitágoras, Sócrates, Santo Tomás de Aquino, até chegarmos à complicada teoria dos filósofos modernos: Kant, Spinoza, Leibniz etc.
Foi nosso grande professor o belga Dr. Leonardo van Acker, que veio lecionar em São Paulo. Ele dizia que a vocação do André era ser “filósofo” e não advogado ou político. Por quê? Talvez porque o André percebesse rapidamente o cerne das questões, o raciocínio que levava aos valores individuais de cada um e da sociedade no múltiplo e complexo processo da vida individual e social.
Seria como os diferentes tons de uma mesma cor; como azul claro, azul turquesa e azul marinho. São cores distintas, mas todas possuem a qualidade de ser azul.
Essa compreensão rápida e profunda, separando o essencial do acidental, fez do André um grande professor e um grande orador. Ele conseguiu falar às pessoas e dizer o que elas gostariam de ouvir, respeitando o valor individual de cada um.
Não era um homem de se preocupar em resolver somente casos isolados; seu esforço foi sempre modificar o “todo”, lidando com mais abrangência e profundidade, sempre dentro de uma doutrina que acreditava no valor do ser humano como tal – que não podia ser tratado como peça de uma engrenagem.
Jacques Maritain foi um de seus grandes mentores.
Uma de suas grandes iniciativas foi a luta para a volta do Brasil à democracia em 1984, no célebre comício da Praça da Sé. Lá nasceu de novo a democracia brasileira, acendeu-se o estopim da passagem da ditadura para a democracia, fato já tão comentado em sua biografia.
“Democracia é ainda o melhor regime para vivermos”, dizia. “Não podemos viver numa sociedade em que os direitos de todos os homens não sejam respeitados.”
Foi um pai que conversava com seus filhos e não passava pito. Sabia argumentar. Sempre deu exemplo daquilo que pregava: o respeito à pessoa humana.
Daí também seu controle e seu raciocínio nas lutas e discussões políticas.
Gostaria de transcrever o final de uma poesia de nossa filha Mônica:
Pois toma lá minhas mãos,
Ó sábio corajoso!
E saiba que meu canto fica orgulhoso,
Não por seres meu pai,
Nem por seres meu irmão.
Mas pelo respeito aos homens,
Que me deixas de lição.
Nos últimos meses em que viveu, quando falava a grupos maiores ou menores, gostava de terminar com a citação de uma frase que Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, pronunciara a respeito de um mundo melhor: Será isto apenas um sonho? Quando sonhamos sozinhos é só um sonho, mas quando sonhamos juntos é o começo de uma nova realidade."
Lucy Pestana Silva Franco Montoro
em POZZOLI (2001, pgs. 15 e 16)
BIOGRAFIA 2
"André Franco Montoro nasceu no dia 16 de julho de 1916, na cidade de São Paulo, filho de André de Bois Montoro e de Tomásia Alijostes Montoro.
Bacharelou-se na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1938, licenciando-se, nesse mesmo ano, em filosofia e pedagogia. Professor universitário, entre 1938 e 1940 foi secretário-geral do Serviço Social da Secretaria de Justiça de São Paulo, e procurador do Estado de São Paulo de 1940 a 1950.
Em 1947, filiou-se ao Partido Democrata Cristão (PDC), por cuja legenda elegeu-se vereador à Câmara Municipal de São Paulo em 1950, e foi eleito deputado estadual quatro anos depois. Neste período de mandato parlamentar estadual ocupou, a partir de 12 de março de 1955, a presidência da Assembleia Legislativa paulista. Em 1958, foi eleito pela primeira vez deputado federal. Por ocasião da renúncia do presidente Jânio Quadros (25/08/1961), Montoro integrava a comitiva do vice-presidente João Goulart em sua visita à China. Durante a crise decorrente do veto dos ministros militares à posse de Goulart, Montoro recomendou a este, ainda no exterior, que não antecipasse seu regresso. De volta ao Brasil, apoiou a Emenda Constitucional nº 4, que, votada pelo Congresso, implantou no país o Parlamentarismo, permitindo a Goulart assumir a presidência no dia 7 de setembro.
Tancredo Neves foi designado primeiro-ministro e Montoro ministro do Trabalho e Previdência Social. À frente da pasta, formou uma comissão para elaborar projeto de lei sobre o salário-família, que, submetido ao Congresso, seria aprovado em 1963. Com a renúncia de Tancredo e de todo o gabinete, em junho de 1962, Montoro retornou à Câmara dos Deputados, reelegendo-se deputado federal em outubro.
Em 31 de março de 1964, Goulart foi deposto por um golpe militar. Com a promulgação do Ato Institucional nº 2 (27/10/1965), que extinguiu os partidos políticos, e a posterior instauração do bipartidarismo, Montoro ingressou no oposicionista Movimento Democrático Brasileiro (MDB), pelo qual voltou a eleger-se deputado federal em novembro de 1966. Quatro anos depois, elegeu-se ao Senado, sendo um dos cinco únicos senadores oposicionistas vitoriosos. Em 1974, já no governo do presidente Ernesto Geisel, foi o organizador da bem sucedida campanha do MDB para o pleito de novembro. O partido, além de aumentar sua bancada na Câmara, elegeu senadores em 16 estados.
Em junho de 1978, Montoro apresentou no Congresso projeto de emenda constitucional destinado, entre outros pontos, a restabelecer eleições diretas para governador, que acabou sendo rejeitado no Congresso em outubro. No dia 15 desse mesmo mês, o Colégio Eleitoral elegeu João Figueiredo para a presidência da República. Em novembro, Montoro reelegeu-se senador. Empossado em 15 de março de 1979, o general Figueiredo logo ensaiou os primeiros passos para extinguir o bipartidarismo, concretizado em novembro, quando o Congresso aprovou a reforma partidária que acabou com o bipartidarismo e permitiu a formação de novos partidos. A maioria do MDB permaneceu unida, dando origem ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Em novembro de 1980, o Congresso aprovou emenda restabelecendo as eleições diretas para os governos estaduais em novembro de 1982. Montoro elegeu-se governador de São Paulo, com grande votação, sendo empossado em março de 1983. Com a aproximação das eleições presidenciais, discutia-se se o sucessor do general Figueiredo seria escolhido por via direta ou indireta. Por iniciativa de Montoro, foi organizado em janeiro de 1984 no centro de São Paulo, o primeiro comício a favor de eleições diretas, com a presença de mais de trezentos mil manifestantes. Apesar dessa grande mobilização, que repercutiu em várias cidades brasileiras, a emenda que previa o pleito direto para presidente em novembro de 1984 não foi aprovada na Câmara.
Com a derrota da emenda das Diretas, Montoro apoiou a candidatura de Tancredo Neves e José Sarney, lançados à presidência e à vice-presidência da República pela coligação oposicionista Aliança Democrática, e eleitos por grande maioria pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985. A doença e posterior morte de Tancredo Neves, em abril, levaram Sarney a assumir a presidência.
Em junho de 1988, junto com alguns dissidentes, Montoro deixou o PMDB, fundando o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). Em outubro de 1990, Montoro disputou uma vaga no Senado, mas foi derrotado. Em outubro de 1994, elegeu-se pela quarta vez deputado federal por São Paulo, reelegendo-se quatro anos depois.
Faleceu na cidade de São Paulo no dia 16 de julho de 1999.
Era casado com Lucy Pestana Silva Franco Montoro, com quem teve sete filhos."
Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001
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