"Mas o Montoro viu aquele negócio das diretas. Resolveu fazer um comício. Eu era presidente do partido. Ele me chamou e eu, descrente. Então, na casa da Ruth Escobar, aqui no Pacaembu, houve uma reunião da executiva da qual ela era membro. Montoro trouxe a ideia, que foi rejeitada por unanimidade. Aí eu fui ao Montoro e disse: “Montoro, ninguém quer esse comício, todo mundo acha que não virá ninguém.” “Então, vamos falar com os outros partidos”, respondeu Montoro. Recusaram o comício. O Montoro insistiu, insistiu, insistiu, insistiu: “Vai haver o comício”.
Eu me lembro perfeitamente que, por alguma razão, houve uma reunião em Ibiúna, sem o Montoro, mas estava o Ulysses, acho que estava o Jarbas Vasconcelos o Renato Archer... Enfim, várias pessoas estiveram na casa do Zé Gregori. E estávamos assistindo à televisão lá, à noite, quando o presidente Figueiredo disse que “Diretas Já é a mesma coisa que subversão”. Então, todo mundo na sala disse: “Morreu o comício”.
Voltamos para São Paulo, e o Montoro: “Vai ter o comício”, teimou. Todo mundo achava que não iria funcionar.
No dia 25 de janeiro fui com o Montoro para a USP, pois era aniversário da universidade, e o José Gregori, que era deputado, foi à Praça da Sé com Osmar Santos. Estavam organizando lá na Praça da Sé. Aí me telefonou o Zé Gregori: “Venha depressa porque está uma enchente aqui. Nós não aguentamos mais segurar”. E eu respondi: “É mesmo?” (...)
Nós ficamos pouco tempo na USP, porque tínhamos que correr para a Praça da Sé. E aquilo mudou o Brasil. Aquilo se deveu à teimosia visual do Montoro, porque ele tinha o sentimento da rua, que é uma coisa interessante. Aliás, o Ulysses falava do Montoro e dizia: “Você sabe, o Montoro é um professor; me desculpe, você é professor, mas num outro sentido. Ele é professor”. É um pedagogo, mas não é isso não. Ele era professor mesmo, mas tinha o sentimento do povo e coragem de fazer as coisas. E o Montoro podia se tornar muito bravo – quem quiser que se iluda. Muito bravo, enfrentava as situações."
FHC em depoimento a CUNHA LIMA (2009, pgs. 47-48)
CÂMARA DOS VEREADORES DE SÃO PAULO. A trajetória de Franco Montoro - Expoente da política brasileira, sua trajetória incluiu uma renúncia ao cargo de vereador e a luta pelas Diretas Já. Setembro de 2023.
CUNHA LIMA, Jorge. Franco Montoro: ensaio introdutório e seleção de textos. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados: 2009. 350 pgs.
MUYLAERT, Eduardo e PINHEIRO, Paulo Sérgio. Franco Montoro: democrata e estadista. In Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, nº 56, março de 2000 (pgs. 3-8).
MENDES THAME, Antonio Carlos e MONTORO, Ricardo (org.). Franco Montoro. São Paulo: PSDB, 2000. 256 pgs.
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MOREIRA ALVES, Márcio. São Paulo: sementes da democracia. São Paulo: Editora Nacional, 1985. 163 pgs.
MONTORO, André Franco. É preciso continuar a obra de Tiradentes. São Paulo: Governo do Estado, 1983, 11 pgs.
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CAMPINS, Luis Herrera; BORNE, Étienne; FERNANDES, Eduardo; MONTORO, Franco; e outros. Hay que reinventar la democracia. Buenos Aires: Fondo Editorial IRFES, 1976. 364 pgs.
MONTORO, Franco. Da ‘democracia’ que temos para a democracia que queremos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. 207 pgs.
Ação da liberação do Metrô para o ato da Praça da Sé - Diretas Já
VÍDEOS
Jornal Nacional, TV Globo. São Paulo: 430 anos e DIRETAS JÁ! (Comício da Praça da Sé), 25 de janeiro de 1984 (2’28’’)
Jornal Nacional, TV Globo. Trechos Diretas Já (Comício do Anhangabaú em 16 de abril de 1984), 11 de fevereiro de 2025. (21’09’’)