Red Fox - 18/12/2020
Sei que é um pouco tarde, já que o jogo foi lançado em 2017, mas só tive oportunidade de jogar Hellblade: Senua's Sacrifice agora. A Ninja Theory é conhecida por seus jogos de ação e hack n' slash como DmC: Devil May Cry e Heavenly Sword, mas o que ela apresentou com esse título me surpreendeu muito em todas as questões enquanto jogava, não sendo somente bater em inimigos mas sim se envolver com a história de uma forma incrível.
A beleza do horror
Hellblade foi apresentado como um Triple-A indie, tendo todo cuidado e produção de um jogo de grande orçamento, mas com a criatividade e liberdade de um jogo independente. E o estúdio mostrou que não estava de brincadeira.
O jogo possui um dos melhores motion capture facial que já vi, com um detalhamento tão grande que é possível confundir o rosto de Senua com a própria atriz que a interpretou, Melina Juergens, mostrando todo o poder da Unreal 4. Além disso o motor se mostrou perfeito nos mais diversos detalhamentos de cenário, desde iluminação global e aplicação de sombras realistas, até na construção de polígonos e estruturas complexas muito bem dispostas pelo cenário, gerando assim paisagens lindas e fotografias deslumbrantes.
O jogo apresenta texturas em alta qualidade e objetos muito bem modelados, conseguindo uma qualidade visual extremamente bonita e transmitindo uma beleza realística que nunca vi em um jogo, mostrando seu lado Triple-A de uma forma magnífica. Notei somente alguns pequenos erros de física, como objetos sobre outros tremendo em cutscenes ou renderizações da areia extremamente perto da personagem, mas o jogo se mostrou muito sólido nesta questão.
E com todos os objetos e elementos gráficos extremamente detalhados postos no cenário, é inegável que o jogo consegue transmitir exatamente o que deseja ao jogador: um ambiente caótico, violento e aterrorizante. O estilo escolhido pelo estúdio concede um ar de terror a Hellblade (coisa que não esperava tanto!) que por muitas vezes intriga o jogador a se aprofundar ainda mais, por outras aterroriza a ponto de competir com títulos como Outlast ou Resident Evil. E o cenário é muito responsável por essa imersão, concedendo escuridão, sangue pelas paredes e muitos corpos desmembrados por todos os lados.
As vozes da sua cabeça
O jogo possui um sistema sonoro tridimensional, indicando a preferência pelo uso de fones de ouvido desde o início, e não é por menos. O áudio de Hellblade consegue dar ainda mais imersão ao jogo, com efeitos sonoros extremamente bem colocados e que concedem ao jogador a sensação de estar presente naquele local, com os mais diversos sons de folhagens ao fundo, ventos e fogo. Rugidos de animais e monstros fazem o jogador tremer só de ouvi-los, além das narrações de histórias e vozes muito bem escolhidas pelas Ninja Theory. E como se não bastasse durante a campanha inteira Senua é perseguida por diversas vozes em sua cabeça, podendo sentir tudo isso por meio do áudio e parecendo que elas conversam e até interagem com o jogador.
Tudo por um amor
A história de Hellblade é totalmente focada em Senua, uma guerreira celta que busca a alma de seu marido morto em batalha. E para isso carrega sua cabeça decepada consigo, buscando um jeito de recuperá-lo indo até Helheim, o mundo dos mortos. Para isso ela deve provar-se digna de abrir os portões do submundo, enfrentando o gigante do fogo Surt e o espírito da ilusão Valravn, quebrando o selo dos portões. Mas para continuar atravessando pela ponte de ouro ela deve recuperar a poderosa espada Gramr, capaz de matar Hela, a deusa dos mortos.
Além disso Senua acredita que sofre de uma maldição chamada de "a escuridão" herdado de sua mãe, a qual ela pode ouvir e conversar com vozes dentro de sua cabeça. Seu pai era curandeiro e acreditava que a maldição de Senua traria a desgraça de todos, e que a única forma de livrar era sacrificando-a para os deuses como fez com sua mãe. Mas Senua não acredita nisso, confrontando seu pai e fugindo com seu marido Dillion, o qual via como uma salvação para uma vida melhor.
Hellblade conta uma história trágica e sofrida, com uma personagem psicologicamente perturbada e o jogador sentindo tudo isso, seja por meio visual ou sonoro, com os cenários horrendos e as vozes incessantes. Porém Senua se mostra uma personagem forte e destemida, enfrentando seus medos e tudo o que acredita para salvar a única coisa que lhe importa: seu verdadeiro amor.
A história é contada de diversas formas, com partes renderizadas durante o jogo misturadas com cenas gravadas, áudios e falas pronunciadas durante a campanha, além de momentos de lembranças e imersões na mente da personagem. Uma coisa que me chamou atenção foram as histórias de Druth, espalhadas pelo cenário em pedras, que contam sobre a mitologia nórdica, explicando deuses e personagens históricos.
Os monstros de Helheim
A primeira vista, Hellblade é um jogo imersivo onde a história prevalece sobre a ação. Porém a Ninja Theory incorporou o que aprendeu com sesus hack n' slashs, fazendo um combate dinâmico, rápido e violento. Senua luta com diversos monstros vindos diretamente do submundo, usando somente uma espada e um espelho mágico capaz de congelar o tempo por alguns segundos. E se você pensa que o combate é pouco ou fácil, saiba que a dificuldade dinâmica do jogo é extremamente boa, adaptando ao estilo do jogador e concedendo cada vez mais dificuldade com o passar do tempo.
Desde o início o jogo mostra a "escuridão" no braço de Senua que, a cada morte do jogador, ela cresce por seu corpo. Caso chegue na cabeça dela o jogador não poderá ressuscitar e o save será perdido, tendo que iniciar um jogo novo. Um sistema simples mas que sugere uma punição caso o jogador não se atente com seu progresso.
Na parte do combate Hellblade é rápido, preciso e pesado, utilizando ataques fortes, fracos, defesas e esquivas. Caso o jogador acerte um parry, é possível usar o espelho mágico, congelando os inimigos por alguns segundos. As lutas são intensas, longas e trabalhosas, mas muito prazerosas lembrando jogos como God of War ou até mesmo Dark Souls. E para ajudar na imersão, durante o jogo inteiro não existe hud ou nenhum indicativo que auxilie durante as batalhas, dependendo somente do jogador deduzir momentos certos.
Além disso o jogo se divide em partes de puzzle, com enigmas e quebra-cabeças no próprio cenário. Senua é capaz de utilizar o "foco", um poder que a permite perceber coisas ocultas ou enxergar através de ilusões. Em muitos momentos é possível reconstruir pontes, enxergar padrões e símbolos escondidos, ou até modificar a realidade para resolver os desafios e prosseguir no jogo.
Um jogo para poucos
Hellblade não inventa ou trás recursos inovadores, mas mostra uma história profunda e sombria de um modo único. O jogo me mostrou pela sua simplicidade um jeito de contar uma história perturbadora, com momentos extremamente malucos, outros desafiadores, mas todos fazendo sentido com a mente bagunçada da personagem.
Uma ambientação linda e horrível, com um áudio incrivelmente intrusivo e perturbador, e um sistema de combate desafiador torna Hellblade um jogo único, muito bem trabalhado e elaborado. No final a Ninja Theory criou um jogo para poucos pois nem todos irão gostar de Hellblade, mas ela conseguiu criar uma imersão tão profunda que chega a ser cinematográfico acompanhar a jornada de Senua até as profundezas do submundo para procurar seu amado.
Joguei o jogo em um PC e não pude deixar de notar algumas falhas. Coisas como objetos tremendo na física ou texturas de muita qualidade demorando para carregar são alguns dos pequenos problemas que encontrei. Mas nada se compara a mal otimização do jogo, parecendo que o sistema de renderização e pré loading é atrasado e não consegue acompanhar sequer o movimento pelo cenário. Com isso quedas de FPS e lentidões ao avançar são extremamente comuns, indicando um trabalho de certo modo relaxado ao portar o jogo para PCs.
Veredito
Hellblade pode não ser um jogo que agrade a todos, mas ele não pretende ser. Sua história é perturbadora, sombria e intrusiva, com toda a ambientação magnífica e o trabalho sonoro excelente ajudando ainda mais em uma das melhores imersões que já vi em um jogo. Além disso o combate é extremamente refinado e desafiador, tendo que o jogador cuidar muito para não perder seu progresso. Por fim o título da Ninja Theory consegue ser muito bom em tudo o que ele se propõe a ser, com a qualidade de um Triple-A, mas com a simplicidade de um indie.
HELLBLADE: SENUA'S SACRIFICE
Desenvolvedora: Ninja Theory
Publicadora: Ninja Theory
Lançamento: Agosto de 2017
Plataformas: PS4, XONE, Switch e PC