Visão Geral
Minha pesquisa sempre foi focada mais em um modus operandi específico do que um tema em particular, ou seja, buscar correlações e similaridades entre áreas aparentemente desconexas e assim usar métodos de uma área para elucidar problemas de outra. Interessei-me por este tipo de abordagem durante meu mestrado em São Carlos sob orientação do Prof. Francisco Alcaraz, onde estudei a Teoria de Campos Conformes para determinar o conteúdo de operadores de cadeias de spin quânticas integráveis. Neste trabalho também fui muito incentivado pelo prof. Roland Köberle, que considero meu avô acadêmico. Mais tarde, durante meu doutorado em Bonn sob orientação do Prof. Vladimir Rittenberg, estudei o mapeamento de modelos integráveis SU(p/q)-invariantes em redes de difusão-reação e superfícies de crescimento de cristais. Tenho também um grande interesse em história da Física e publiquei alguns artigos nesta área.
Além dos tópicos acima, durante minha carreira publiquei alguns artigos junto a físicos experimentais e um artigo sobre números primos. Também publiquei várias traduções comentadas de artigos de importantes cientistas diretamente do alemão para o português (também do inglês e francês para nossa língua). Alguns de meus projetos mais recentes são descritos abaixo.
Modelos quânticos de spin
Meu treinamento em física teórica (mestrado e doutorado) foi na interface entre Mecânica Estatística e Física Matemática, em particular no estudo do Ansatz de Bethe na solução do modelo XXZ de Heisenberg (tanto a versão hermitiana quanto a não hermitiana). A partir de 2007 estudei outros modelos da Mecânica Estatística em colaboração com meu colegal H. Hinrichsen, de Würzburg: percolação direcionada, processos de contato e propagação de epidemias. Em Duisburg, junto ao grupo de D. Wolf, estudei tribologia e o efeito de uma ponteira magnética de um microscópio de força atômica sobre uma superfície
magnética. Esses projetos foram financiados pelo programa CAPES/DAAD.
Teoria de Redes Temporais
MInha pesquisa nesta área foi feita em colaboração com Ana Bazzan (Informática, Porto Alegre), Sandra Prado (Física, Porto Alegre), Ralph Kenna (Física, in memoriam), Pádraig Mac Carron (Física, Maynooth), Julia Hillner (História, Bonn), Maírín Mac Carron (História Cork), Robert Gramsch-Stehfest (Historia, Jena) e Giuditta Parolini (Museu de Ciências Naturais, Berlim). A ideia por trás deste trabalhos era fornecer aos historiadores técnicas que pudem usar para melhor entender as relações sociais entre personagens de eventos históricos importantes. O trabalho com Robert Gramsch-Stehfest e Ana Bazzan estudou coalizões de governantes (reis) durante a crise de 1225 do Sacro Império Romano Germânico. O projeto com Julia Hillner e Maírín Mac Carron olhou para redes de mulheres durante o Império Romano Tardio e o Medioevo Baixo, particularmente na obra do Venerável Beda (Historia ecclesiastica gentis Anglorum). Este projeto foi financiado pela Leverhulme Foundation do Reino Unido. Com Giuditta Parolini estudei redes de cientistas nos primórdios da Meteorologia (pós I Grande Guerra). O trabalho com Pádraig Mac Carron, Ralph Kenna e Sandra Prado foi o estudo de redes sociais em textos de ficção (alguns deles mitológicos). Esta cooperação foi financiada pelo European Research Council (ERC) através da iniciativa Horizon 2016.
História e Filosofia da Física/Tradução de textos técnicos
Meu interesse pela História e Filosofia veio da leitura de fontes originais de físicos e filósofos e de alguns dos primeiros livros-texto sobre Relatividade Geral de Max von Laue, Hermann Weyl e Arthur S. Eddington. Ao ler estes trabalhos -- particularmente de Relatividade Geral, uma área que amo -- percebi o quanto, ainda estudante, deixara passar em branco insights profundos que podiam ser encontrados naquelas páginas. Mais tarde, visando melhorar minhas aulas, passei a estudar estes textos com mais afinco e traduzí-los para o português. A tradução de um texto técnico exige não apenas o conhecimento dos idiomas de partida e de chegada, por óbvio, mas exige do(a) tradutor(a) uma conhecimento profundo do assunto apresentado. Por isso, na minha opinião, a tradução não apenas é um dos melhores meios para se aprender sobre um determinado assunto como também serve um importante propósito: permitir que pessoas leiam artigos que de outra maneira não teriam como acessar. Isto se aplica particularmente ao alemão, a língua de Einstein, Schrödinger e tantos outros. Ele não tem o status de lingua franca que o inglês tem nos dias atuais e são poucas as pessoas que o dominam. Mas, quando conhecemos o rico vocabulário, sua sintaxe e sua propriedade característica de Wortbildung*, nota-se o quão apropriado seu campo léxico é para se escrever textos científicos e filosóficos, algo difícil de apreciar a menos que se domine o idioma. Traduzir esta precisão linguística para nossa língua é uma tarefa desafiadora, mas extremamente gratificante.
Embora tenha publicado artigos sobre história da Física e traduções comentadas de Diderot, Boltzmann, Planck, Einstein, Gödel e Lilienthal, não sou historiador ou filósofo da Física stricto sensu. No entanto, estudo estes assuntos com grande interesse e os abordo com muito respeito pela área.
Wortbildung, literamente "composição/construção de palavras" é uma das característica mais marcantes da língua alemã, por permitir que criemos novos vocábulos por meio de diferentes regras gramaticais de composição, num processo praticamente ilimitadol. Isso fica bastante evidente na Física e principalmente na Filosofia, onde neologismos como Fortbestimmung são, por vezes, de difícil tradução. Este termo em particular aparece na introdução da obra de Weyl Raum-Zeit-Materie (Espaço-Tempo-Matéria) mas foi introduzido pela primeira vez por Fichte na obra Grundlage der gesammten Wissenschaftslehre (Fundamentos de toda a doutrina da ciência) e adotado por Hegel, que lhe deu nova acepção, em Phänomenologie des Geistes (Fenomenologia do Espírito). Em português ela é traduzida pelos filósofos como "determinação progressiva". Mas para quem domina o alemão, ao ver adicionado ao substantivo feminino Bestimmung (definição, determinação, classificação) o prefixo fort, que indica continuação, ir além, o sentido vem à mente imediatamente.
Dedicatória de punho próprio de A. S. Eddington a Hermann Weyl (foto: S. R. Dahmen).