Minha paixão pela Relatividade Geral surgiu quando eu ainda era um estudante de graduação. Antes de contar esta estória, é importante dizer que não sou especialista no assunto. Eu orientei dois alunos durante o TCC em temas de RG, alunos estes que posteriormente fizeram seus doutorados na Inglaterra nesta área e hoje nela trabalham, mas minhas publicações em RG são traduções comentadas, notas de aula ou textos para estudantes. De volta à estória: nos meados dos anos 80, quando comecei minha graduação, eu visitava muito frequentemente a biblioteca da UFSCar e lá encontrava muitos livros à disposição, livros estes que nunca eram retirados por uma razão simples: naquela época era muito raro algum(a) aluno(a) ser fluente em inglês e eu acabara de voltar dos EUA, onde terminei meu colegial. Livros mais avançados em inglês raramente eram emprestados, como eu podia ver pelas suas fichas (não havia ainda códigos de barra e a retirada era anotada em cartões que ficavam num envelope na contracapa). Não é uma tarefa simples aprender algo novo numa língua que não se domina. Foi numa destas visitas que descobri o livro Gravitation de Missner, Thorne e Wheeler, que me chamou a atenção pelo tamanho - algo em torno de 1300 páginas - e que, segundo a lenda, o torna tão massivo que ele acaba gerando o próprio campo gravitacional! Este livro estava sempre na biblioteca e eu o consultava frequentemente, embora na época nada fizesse muito sentido pois eu entendia muito pouco daquilo que estava ali escrito. À medida que o curso foi avançando, fui apresentado à coleção chamada Curso de Física Teórica de Lev D. Landau e Evgeny M. Lifshitz, dois gigantes da Física na Rússia. Não apenas os livros de L&L são excelentes como, por uma sorte do destino, havia em São Paulo uma livraria especializada em livros da extinta União Soviética, a Livraria Stepan Rozov, que ficava próxima à Praça da República. Boa parte de seu acervo era de livros técnicos e os preços eram muito acessíveis, pois eram subsidiados pelo governo soviético. Em se tratando de Física e Matemática, alguns dos clássicos russos são imbatíveis e de repente lá estava eu tendo acesso a livros superbos por um preço que cabia no meu bolso. Em 1986 comprei o livro Teoria Clássica de Campos, o vol. 2 do Curso de Landau e Lifshitz que trata, entre outras coisas, da Relatividade Geral. Eu nunca me esquecerei do dia em que li, no § 81 deste livro, a seguinte frase : "A teoria de campos gravitacionais, baseada na teoria da relatividade, foi elaborada por Einstein (e por ele finalizada em 1915). Ela é chamada de teoria da relatividade geral e representa provavelmente a mais bela de todas as teorias físicas existentes ". Este frase me acompanha até os dias de hoje.
Alguns anos depois, durante o doutorado na Alemanha, o instituto onde estudava era frequentemente visitado por cosmólogos da antiga União Soviética (muitos dos quais tinham trabalhado com Zeldovich ou Novikov) e que ficavam por longos períodos de tempo. Vez ou outra, apresentavam seminários com grande público. Isso me motivou a estudar mais a fundo o assunto e desde então nunca mais parei. Depois de me tornar professor do Instituto de Física da UFRGS, comecei a adquirir mais livros até formar uma biblioteca relativamente grande sobre o tema. Alguns destes livros foram adquiridos na Alemanha, pois a Akademie-Verlag da antiga DDR (Alemanha Oriental) tinha um acordo com a União Soviética e publicava traduções de altíssima qualidade em edições primorosas, como o livro Einstein-Räume (Espaços de Einstein) de A.Z. Petrov, um livro difícil de ser encontrado - isso sem falar de inúmeros livros de autores de língua alemã nunca traduzidos para outros idiomas. Finalmente, em 2020, surgiu a oportunidade de lecionar a disciplina. Destas aulas, da minha biblioteca particular e da minha paixão de décadas pela RG nasceram as notas de aula. Atualmente estou trabalhando na tradução de alguns trechos do Raum - Zeit - Materie de Hermann Weyl, em particular a introdução, onde Weyl faz uma digressão filosófica sobre o conceito de espaço, tempo e realidade, inspirado na Fenomenologia de Edmund Husserl. Esse tipo de discussão, neste nível de profundidade, dificilmente é encontrado em livros mais modernos de Física. Mas a verdade seja dita: Weyl assistiu os seminários de Husserl em Göttingen e essa familiaridade com a Filosofia era algo comum entre físicos e matemáticos alemães daquela época. A formação era mais humanística e no Gymnasium (equivalente ao nosso Ensino Médio) se estudava o Grego e Latim lendo os clássicos.
Dedicatória de punho próprio de A. S. Eddington a Hermann Weyl (foto: S. R. Dahmen).