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Do ensino a aprendizagem

Peixoto, M.A.P. & Silva, R.N.M.B.
Extrato de: Aprendizagem: 
Estratégias e estilos. Rio de Janeiro, ABT, 2002

 

 

Como Paulo Freire afirma, ensinar e aprender devem ser vistas como duas entidades separadas, embora fortemente ligadas. Há atitudes e processos ligados ao ensinar, mas há também atitudes e processos ligados ao aprender. Hoje em dia este é um conceito cada vez mais aceito. No entanto, o entendimento da aprendizagem enquanto domínio separado, embora interdependente, é relativamente recente.

Historicamente, o binômio ensino-aprendizagem inicia-se e mantem-se durante longo tempo com marcante preponderância do seu primeiro termo. Ë nova a idéia de que a aprendizagem não é um mero produto do processo de ensino.

É possível encontrar no passado distante autores e idéias mais diretamente ligados ao papel do aprendiz. No entanto, em uma avaliação mais global; a ênfase tem sido mais dirigida à transmissão de valores pré-estabelecidos visando a formação de indivíduos harmônicos com um dado padrão.

A preocupação primária com processos específicos do aprendiz e como este indivíduo coleta / recebe a informação não tem muito tempo de vida. Visões educacionais onde se valorizam ações ativas do aprendiz na coleta, seleção e crítica de conteúdos são predominantemente oriundas deste último século.

O mundo primitivo

A educação primitiva tomava como centro as atividades diárias da aldeia. Era prática e plena de rituais de iniciação. Alem disto, era relativamente homogênea, todos sendo potenciais professores, e o "currículo" determinado pelas necessidades cotidianas. O aprendizado fazia-se pela real execução da tarefa a ser aprendida. Ainda mais era animista, tradicionalista, tendo o culto aos velhos grande importância

O objetivo da educação nos povos primitivos era de promover "o ajustamento da criança ao seu ambiente físico e social por meio da aquisição da experiência de gerações passadas" (Monroe). Os rituais de iniciação tinham valor moral, social, político, religioso e prático.

O mundo oriental

A educação formal surgiu diferenciando-se progressivamente da educação primitiva, na medida em que a sociedade tornava-se mais complexa. Passou-se a ter local específico para se aprender, os conteúdos especializaram-se e os professores e alunos tiveram papéis mais definidos, isto é mais específicos.

A prática educacional precedeu a formalização de qualquer pensamento pedagógico. Este surgiu na verdade, como uma tentativa de organizar e sistematizar uma prática preexistente, levando em conta a cultura onde esta prática se desenvolvia. No Oriente, caracterizava-se por ênfase na, na tradição e na meditação. A religião com suas doutrinas pedagógicas tinha papel de relevo como na China com o Budismo, o Taoísmo e o Confucionismo, na Babilônia com o Magicismo, na Índia o Hinduísmo e na Palestina e Egito com o Teocratismo, nas suas vertentes judaica e egípcia.

A educação chinesa era o padrão da educação oriental e girava em torno do domínio da linguagem escrita e da literatura, com o ensino centrado no professor. O aluno decorava, não importando o significado. A educação era conservadora e tradicionalista, e considerava que o mundo é como é e assim deve continuar. O professor era o responsável pela manutenção do status quo. Encontramos em Confúcio:

Os filhos, a serviço dos pais, ao primeiro canto do galo, devem lavar as mãos, enxugar a boca, pentear-se, pôr em cima do cabelo o lenço de seda, firmá-lo com o alfinete, amarrar o cabelo com a fita, escovar o que fica ao ar, então colocar o barrete, deixando pendurados os extremos da trança. Depois, colocar a jaqueta negra de forma quadrada, as joelheiras e o cinturão; fixando nele os seus tabletes (com inscrições ou para usos de escrita). Pendurar os utensílios dos lados esquerdo e direito do cinturão; do esquerdo, o pequenino espanador ou escova para remover o pó, e o lenço, a faca e a pedra de afiar, o estilete e o espelho de metal para obter fogo do sol; do direito, o dedal de agulhas para o polegar e a pulseira, o tubo para os instrumentos de escrever, a bainha para a faca, o grande estilete e a broca para obter fogo da madeira. Deverão então colocar suas polainas e ajustar os cordões dos sapatos”( Müller).

No entanto, mesmo nesta época foi possível encontrar alguns poucos traços do papel do aprendiz. A educação judaica é um exemplo. Embora em linhas gerais, mantivesse fortes ligações com os padrões acima descritos, esta se afastava dele em alguns pontos significativos.

Primeiramente, a importância da instrução – “O estudo da Tora é maior que o sacerdócio e a púrpura real”. Comparativamente, as tribos judaicas apresentavam uma disseminação do conhecimento maior que a médias de seus vizinhos – “Um sábio que não ensina aos outros é como um pé de mirra no deserto”. Particularmente pela forma de ensino – “O estudo e o ensino da Tora só podem prosperar e desenvolver-se por meio de uma incessante troca de idéias e pensamentos entre mestres e pessoas cultas”. O processo de aprendizado pode ainda ser entrevisto assim: “Quando virdes um aluno que carrega suas lições como se fossem barras pesadas de ferro, sabei que isso se dá porque seu mestre não o assiste com bondade e paciência”. “Aprendi muito com meus mestres, mais com meus companheiros, mais ainda com meus alunos”(Keller).

O mundo grego

A sociedade grega foi o berço da cultura, da civilização e da educação ocidental. Os gregos tinham visão ampla e refletiam sobre o que é o homem. Esses ideais entretanto, eram apenas para o homem livre, o cidadão da polis, em uma comunidade com expressiva parcela de escravos. O cidadão sem as preocupações menores do cotidiano, tarefas de homens inferiores, preocupava-se com o governo. O ensino estimulava a competição e as virtudes guerreiras, garantindo o domínio sobre as classes inferiores e as regiões dominadas.

A prática educacional na Grécia dizia que o homem educado manda e faz-se obedecer, cabendo a uns poucos aprender a governar. A Paidéia, maior avanço da Antigüidade, é a educação que integra e influencia reciprocamente a cultura da sociedade e aquela desenvolvida individualmente. Cria duas pedagogias: a da eficiência individual e liberdade, e a da convivência social e política. Forma o corpo pela ginástica, a mente pela filosofia e ciências e a moral e os sentimentos pela música e artes.

Sócrates, Platão e Aristóteles foram os filósofos que exerceram a maior influência nos gregos. Estes eram educados pelos textos de Homero, onde o ideal era ser melhor e superior, com o espírito livre para criar. Nos gregos encontramos a base de quase todas as idéias que hoje discutimos. A aprendizagem não foge à regra.

A preocupação com a natureza do conhecimento fez parte da agenda grega. Sócrates questionava a possibilidade do aprender, dado que a seu ver as idéias eram inatas. Desta maneira, educar não seria transmitir conhecimento, mas relembrá-lo, anamnesis. Aqui é ilustrativa uma história sobre Sócrates. Este, pela pena de Platão mostra como o conhecimento, na verdade não é aprendido, e sim rememorado. E isto ele o faz através de perguntas dirigidas a um jovem escravo, ignorante das artes da geometria. Demonstra que mesmo desconhecendo o cálculo da área de um quadrado pode por si só obtê-la, baseado apenas em seu senso comum desde que encaminhado adequadamente (Gardner).

Muito conhecida, a alegoria da caverna nos mostra o caminho a seguir pela educação. Para Platão o homem seria como alguém preso no fundo de uma caverna, de costas para sua entrada. Fora dela estão as coisas na sua essência, na sua total e verdadeira natureza. Mas, pobre homem, preso, só pode delas entrever as suas sombras projetadas no fundo da caverna, pois está de costas para a entrada. Mesmo de si, só percebe a sua sombra, decorrente da luz que vem de fora. O homem, portanto viveria alienado, incapaz de perceber a verdadeira natureza das coisas.

Assim, a função da educação seria a de combater a alienação do aprendiz. O homem comum considera como real a aparência das coisas, pois é incapaz de perceber que o verdadeiramente real e eterno, a essência das coisas encontra-se em outro nível – o mundo das idéias. Abandonar a alienação, no entanto é doloroso. O homem, no fundo da caverna, habitua-se a um mundo de sombras e penumbra. Voltar os olhos para a luz causa dor e aversão. O homem então prefere o mundo mais confortável da meia luz. Neste contexto então é que desponta o professor, cuja função seria favorecer esta transição. Este demiurgo é aquele capaz de estabelecer a ponte entre o eterno e o transitório; entre a essência e a aparência.

Esta visão não é partilhada por Aristóteles, que defende a possibilidade de uma aprendizagem por condicionamento externo. Para ele, as idéias estão nas coisas, no concreto. Por isto elege como condições fundamentais para o desenvolvimento da virtude a disposição inata, o hábito e o ensino.

Preocupa-se com características individuais; na sua Arte Retórica e Arte Poética, discute entre outros, como elas variam com a idade. Mais preocupado com a política descreve os jovens como arrebatados e inconstantes, plenos de esperanças no futuro. Os velhos, ao contrário, conservadores e tradicionalistas. São desconfiados, obedecendo mais ao cálculo que à índole natural. Fiel ao princípio grego de que a virtude está no centro, apresenta a idade adulta como aquela em que os excessos das outras são coibidos.

Pitágoras pregava aplicar na vida a ordem do universo, a harmonia da matemática, Isócrates centrava o ato educativo na linguagem e na retórica e Xenofontes, influenciado por Sócrates, defendia a educação da mulher e a idéia da dignidade humana.

 De certa maneira, a dualidade corpo – mente, já se expressava na Grécia. Por um lado o humanismo ateniense; caracterizado pela ênfase nos valores intelectuais - verdade, belo e bem. Por outro, contrastando Esparta, que fazia a apologia do culto ao corpo.

Platão sonhava com a democracia, tendo a educação papel fundamental, ensino municipal e público, nos níveis primário, secundário e superior, impedindo assim as pretensões totalitárias e trazendo o controle o mais próximo da comunidade.

A filosofia da educação grega foi transmitida aos romanos quando estes conquistaram a Grécia. A Paidéia traduziu-se nos estudos humanistas, a humanitas - cultura geral que transcende os interesses locais e nacionais -, universalizada pelo cristianismo e a imposição do latim nas províncias conquistadas, caracterizando o processo de romanização.

O homem realizado – locuples, era o ideal do romano. Com o passar do tempo, a classe aristocrata cede espaço para outras classes e o Estado ocupa-se da educação, pela primeira vez na história, com o objetivo de formar administradores. A educação era organizada pela disciplina e justiça, paz só com vitórias, educação para a pátria. A escola tinha três níveis: ludi-magister – elementar; gramático - secundário e superior - espécie de Universidade.

Alguns teóricos romanos destacam-se no cenário educacional, como Quintiliano, que centra o ensino no conteúdo do discurso em um espaço de alegria, a schola, oferecido pelo ludi-magister - mestre do brinquedo. Um explícito reconhecimento da necessidade do prazer no processo de aprendizagem.

No entanto mesmo aqui, há que se considerar o conceito de alegria no contexto romano. Aqui o ludi-magister tinha como responsabilidade ensinar a criança a leitura e a escrita, atividades consideradas amenas, se comparadas ao aprendizado rígido e disciplinador da família. O importante neste caso era a moral e os ideais da sociedade. Rapidamente a criança deveria crescer e participar da condução dos negócios paternos ou maternos, conforme o seu sexo.

É nesta linha que encontramos Sêneca ao defender a educação para a vida e para a individualidade - non scholae, sed vitae est docendum, isto é, não se deve ensinar para a escola e sim para a vida. Plutarco diz que a educação deve ser feita com exemplos vivos de virtude e caráter baseada na biografia de grandes homens.

Outro aspecto importante em Quintiliano, é sua preocupação com as características do aprendiz. Em sua obra Instituto Oratória, trata entre outros, sobre a necessidade de ensinar conforme a natureza humana. Reconhecia nas diferentes características do aluno, fatores indicadores do tipo de ensino a implementar e do futuro do aprendiz.

“Trazido o menino para o perito na arte de ensinar, este logo perceberá sua inteligência e seu caráter[...]Não me dará esperança de boa índole uma criança que, em seu gosto pela imitação, não procurar fazer senão rir[...]Logo que tiver feito estas considerações, o mestre deverá perceber de que modo deverá ser tratado o espírito do aluno” (Rosa).

 

A Europa Medieval

Na Idade Média, o Cristo educador propunha uma pedagogia concreta. Parábolas criadas no calor dos fatos, a partir de um duplo domínio das linguagens erudita e popular; tradição mantida até hoje pelo sacerdócio. A educação medieval era dual, com as escolas catequéticas dirigidas para o povo e as escolas monacais garantindo a preservação da cultura greco-romana.

Neste ponto da história surge um fenômeno interessante. Até então, dentro de certos limites, as noções de aprendizagem cursavam próximas aos conceitos de liberdade e democracia. Estando a educação mais afastada dos desígnios divinos e mais próxima das necessidades humanas, o reconhecimento do outro na relação surgia em um contexto mais aberto. Modelos mais autoritários em sociedades mais autoritárias e tradicionalistas. Modelos tendendo a reconhecer no aprendiz e no processo de aprendizado, características a influenciar o ensino; acompanhando estruturas mais democráticas.

Na Europa medieval esta aproximação se desmancha. É inegável o poder da Igreja no homem medieval. As causas desta hegemonia são múltiplas; mas um fator a ser considerado foi a eficiência com que ela transmitiu e manteve suas idéias durante este período. Desta maneira, há que se considerar por um lado a eficiência citada, implicando no uso de processos adequados ao contexto. Por outro, na difusão de idéias que progressivamente retiravam do controle humano a gerência de suas vidas e da sociedade.

Esta educação religiosa era baseada nos dogmas cristãos, substituindo as culturas anteriores, baseadas na existência terrena, aristocratismo e heroísmo, pelo poder de Cristo - "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Todo o poder me foi dado"-. O novo ideal educacional concentra-se no aspecto moral do ser humano. A educação torna-se ainda mais autoritária. O conhecimento vem de Deus.Santo Agostinho afirma [...]“que não se chame a ninguém de mestre na Terra, pois o verdadeiro e único Mestre de todos está no céu [...]”. Constantino no século IV, centraliza o ensino, tornando-o pela primeira vez aparelho ideológico do Estado.

Para Tomás de Aquino, a educação permite habituar o educando a mostrar todas as suas potencialidades. Faz assim a síntese entre a educação cristã e greco-romana - educação integral. No entanto, entenda-se esta afirmativa no contexto medieval, onde a aspiração máxima era a imitação de Cristo. Assim é que não se está falando do desabrochar de individualidades, mas na capacidade de tornar-se um cristão melhor, do ponto de vista da cúpula eclesiástica. Ainda mais, a conciliação com os conhecimentos anteriores, faz-se a partir de uma leitura muito particular da filosofia grega, uma ênfase nas idéias platônicas em detrimento das aristotélicas.

Por outro lado a Igreja produz conhecimento de forma muito dinâmica no seu seio. O período medieval é efervescente em discussões teológicas. A Igreja de Roma, em particular, desenvolve brutal esforço (intelectual e policial), na defesa de sua visão particular das escrituras. Tal esforço implementa-se não só no interior da cristandade, haja visto o problema das heresias, como também em um contexto de conflitos externos entre muçulmanos e cristãos.

No período da formação do Império Árabe, século VI e VII, Maomé funda uma nova religião e seu seguidores são chamados de muçulmanos, que acreditam que este foi o último mensageiro de Deus. A doutrina de Maomé está no Alcorão, obra prima da literatura árabe e universal.

Assim é que no século XIII inicia-se uma nova vida intelectual. É nas escolas monacais, e em algumas universidades onde prosperam os Doutores da Igreja. Desenvolve-se aí não só o conhecimento como também o método, que caracterizaram a Filosofia Escolástica, que concilia a razão histórica com a fé cristã, tendo como maior expoente entre seus fundadores São Tomás de Aquino.

Este afirmava o conhecimento como supranatural, mas não anti-racional, o que permitia a análise teológica pelas ferramentas da lógica Aristotélica. A Suma Teológica é o exemplo máximo desta postura. O método tomista consistia no questionamento de uma proposição. Pode ser resumido em quatro etapas:

1.  Apresentação da proposição: Por exemplo, a Questão XVI Artigo 1º “Se a verdade existe somente no intelecto, ou antes, nas coisas”.(Aquino).

2. Argumentos contrários: Apresentação das posições de eruditos que sejam anteriores e antagônicas à solução proposta no texto.

3.   A solução: Onde o autor apresenta a sua tese.

4. A argumentação: Onde o autor apresenta as suas respostas às objeções apresentadas pelos eruditos contrários.

Este método tornou-se simultaneamente uma poderosa ferramenta de defesa das próprias idéias, como também se percebe, fortemente didático. Criava-se assim como que um “livro-texto”, onde aprendizes encontravam, de forma bem sistematizada, os diferentes argumentos com os quais seriam capazes de defender a fé cristã.

Se por um lado isto era uma solução para a intelectualidade, ao mesmo tempo, era necessário divulgar o ideário, em uma população de nobres e plebeus iletrados. Para tal a igreja valeu-se então de uma multiplicidade de recursos instrucionais. A transmissão oral era favorecida pelo desenvolvimento entre seus padres da retórica e da dialética, disciplinas onipresentes no Trivium universitário. Em que pese a distância no tempo e local, consulte-se o padre Vieira:

Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar, há de responder as dúvidas, há de satisfazer as dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários, e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto é falar de mais alto” (Vieira).

Mas a didática não parava aí. A idade média é o tempo das catedrais. Local centralizador da inteligência religiosa, mas também de outras habilidades. Uma delas a arquitetura. Visitar uma catedral é sentir a pequenez do homem frente à magnificência de Deus. Ao mesmo tempo, as esculturas, os ícones, em particular a via sacra, são todos meios visuais para ensinar uma doutrina para iletrados. As missas medievais eram sempre que possível, cheias de pompa e circunstância. O incenso e os sons, mobilizando emoções as mais diversas. Imagine-se o efeito no homem medieval, de estar em um catedral, escutando sermões intercalados ora pela música sacra vibrando através das centenas de tubos de um órgão, ora pelo coro de monges beneditinos entoando seu Kírie.

Do mesmo passo é nesta época que proliferam as xilogravuras, inicialmente sob a forma de figuras únicas e depois encadernadas. Obras religiosas que pelo seu formato podem ser considerados os precursores das histórias em quadrinhos atuais. Um exemplo (cerca de 1460), aBiblie Pauperum, obra que não era para ser lida, mas para ser vista (Fevbre & Martin; Manguel ).

Perceba-se nesta breve descrição o uso combinado e perfeitamente integrado de uma multiplicidade de recursos didáticos que faria inveja ao educador contemporâneo. Em um mesmo cenário, envolver aspectos afetivos e cognitivos. Uma instrução inserida na realidade do aluno. Múltipla, mobilizando a visão, a audição, o movimento. Simultaneamente, fornecendo, sob o argumento da autoridade, alívio para os mais recônditos receios do homem. Não surpreende portanto a hegemonia obtida nestes últimos séculos.

No século XIII acontece a criação das universidades de Nápoles, Paris, Bolonha, Salerno, Oxford, Heidelberg e Viena buscando a universalidade do saber. A Idade Média foi fecunda em lutas pela autonomia, gratuidade do ensino e pagamento de professores. O saber universitário foi aos poucos se elitizando; fechado nas Academias, submetido à censura da Igreja e burocratizado pelas Cortes, mas mesmo assim foi grande a influência da Universidade. Ela forneceu o primeiro exemplo de organização puramente democrática.

O Renascimento

A educação renascentista visava o homem burguês, o clero e a nobreza. Era elitista, aristocrata e nutria o individualismo liberal, não chegando as massas populares. Junto com a revalorização da cultura greco-romana, alguns fatos históricos nos séculos XIV e XV, influenciaram o pensamento pedagógico favorecendo a superação do próprio homem, o pioneirismo e a aventura.

Durante o Renascimento despontam três grandes áreas de interesse: a vida real do passado, o mundo subjetivo das emoções e o mundo da natureza física. Como uma das principais conseqüências destes novos interesses, desloca-se o centro de gravitação. Afastando-se das coisas divinas, dirige-se para o próprio homem. Opõe-se à escolástica, propondo situar o ideal da nova vida nos propósitos e atividades específicas das disciplinas de  humanidades. Como a literatura dos gregos e romanos era um meio para esta compreensão, o aprendizado da língua e da literatura torna-se o problema pedagógico mais importante.

Muito embora ainda elitista e aristocrático, o humanismo antropocêntrico renascentista ao dirigir-se ao indivíduo permite entrever uma maior participação do aprendiz na aprendizagem. De certa maneira retoma uma agenda interrompida durante o período medieval. Concretamente, isto não se implementa de forma abrangente. No entanto, como veremos em seguida, começam a surgir idéias onde características do aprendiz se tornam mais relevantes.

Feltre (séculos XIV e XV), em sua Casa Giocosa, propunha uma educação individualizada, o autogoverno dos alunos, a emulação. Preocupava-se, acima de tudo, com a formação integral do homem. Já aflorava a valorização da aprendizagem, pois assim dizia uma legenda da Casa Giocosa: “Vinde, ó meninos, aqui se instrui, não se atormenta”, ou seja aprender deveria ser algo prazeroso e também voltado para a realidade, pois assim falava: “Quero ensinar aos jovens a pensar, não a delirar”. Foi considerado um precursor da Escola Nova.

Vives (séculos XIV e XV), enfatiza as vantagens do método indutivo, o valor da observação rigorosa e da coleta de experiências. Do ponto de vista epistemológico, isto torna o conhecimento um produto do homem, sendo portanto passível de crítica pelos seus semelhantes. Ainda mais, a indução não possui a força lógica da dedução, o que torna ainda mais fácil a implementação da crítica. Mais um tijolo para a escola dos aprendizes ativos.

Na mesma linha, Rabelais (séculos XIV e XV), faz os franceses rirem da educação medieval através do gigante Gargântua. Ressalta a importância da natureza em oposição aos livros. Claramente contra-hegemônico, criticou a escolástica, valorizando a cultura popular em resistência à cultura oficial dominante.

Erasmo (séculos XV e XVI), pregador do humanismo, no seu Elogio da Loucura investiu contra o obscurantismo da cultura medieval. A sua ênfase no livre arbítrio, embora ligada a uma visão religiosa, abre ao aprendiz uma senda que este não ousava antever.

O ideal educativo de Montaigne é o homem para o mundo. É preciso educar o juízo do aluno. Aconselha:

[...]”As abelhas voam de flor em flor roubando-lhes parte dos delicados sucos que contêm, que não são o próprio mel; este as abelhas formam depois e é inteiramente seu. Da mesma forma devem os discípulos recolher idéias e conhecimentos dos demais, não para reproduzi-los como os recebem, mas para transformá-los e fundi-los em obra própria. Guarde em boa hora o que recebeu emprestado, mas revele ao mesmo tempo o que fez por sua parte”.

Reprova os que tratam alunos como sujeitos passivos, que recebem o conhecimento como "idéias já feitas". “Sua preocupação com um tipo de educação destinada a formar o juízo prático dos jovens para as coisas da vida coincide com as preocupações educativas de nosso tempo”.

O Renascimento valorizava as humanidades em oposição ao teocratismo da Idade Média. A reação de protesto repercutiu na educação e na Igreja com a Reforma Protestante. Iniciada pelo monge Lutero e considerada por Engels como a 1a revolução burguesa, transferiu a escola para o Estado.

A Igreja Católica reagiu dentre outras coisas com a criação da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola. Os jesuítas visavam a formação do homem burguês e tinham por missão converter hereges e alimentar cristãos vacilantes. Desprezaram a educação popular, e para o povo sobrou apenas o ensino dos princípios da religião cristã. Afora as questões ideológicas, o ensino jesuítico tinha princípios básicos que demonstravam preocupação com a qualidade da aprendizagem, pois pregava que era melhor aprender pouco, mas bem aprendido do que muito e superficialmente.

A Idade Moderna

As grandes transformações que ocorreram na passagem da Idade Média para a Idade Moderna - grandes navegações, desenvolvimento da burguesia e do capitalismo etc. - fortaleceram o movimento no sentido que a autoridade da Igreja ficasse restrita aos assuntos religiosos, deixando de controlar os outros assuntos, dentre eles a educação. Esse movimento cresceu durante toda a Idade Moderna, conseguindo impor-se a partir da Revolução Francesa (1789), com a separação entre a Igreja e o Estado. O homem buscou o domínio da natureza por técnicas, artes e estudos (matemática, astronomia, medicina e biologia) considerando tudo o que foi ensinado em épocas anteriores suspeito. A educação moderna caracterizava-se pelo realismo.

A pedagogia realista foi contra o formalismo humanista, o domínio do mundo exterior sobre o interior, supremacia das coisas sobre as palavras. De humanista, a educação torna-se científica. Foi influenciada por pensadores que contribuíram para o desenvolvimento da ciência moderna; independente da autoridade eclesiástica e construída a partir da observação e do estudo experimental da natureza.

Bacon opôs o método indutivo ao dedutivo de Aristóteles. Neste caminhamos do geral para o particular. Aristóteles afirmava que todos os conhecimentos deveriam ser derivados dedutivamente a partir de verdades universais e absolutas, preestabelecidas pelas autoridades. Já o empirismo baconiano defendia o caminho inverso, dirigir-se do particular par o geral. Para Bacon a produção de conhecimento deveria ocorrer através de um processo de observação da realidade, seguido de generalização indutiva. Distinção entre fé e razão, tornou-se a mola mestra da ciência moderna.

Embora sob outros pressupostos, Descartes  contribui no seu Discurso do método, com as regras que estabelecem os passos para o estudo e pesquisa. Fiel a seus pricípios considera a matemática modelo de ciência perfeita.

Locke em seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano” trouxe a idéia da experiência sensorial, onde nada existe em nossa mente sem originar-se dos sentidos. Segundo ele a criança ao nascer era uma tabula rasa, um papel em branco onde o mestre podia tudo escrever.

Embora mais orientados ao desenvolvimento da ciência, as contribuições destes pensadores tiveram repercussões na educação. Foram uma abordagem a mais sobre a aprendizagem, cujo método daí oriundo, induz a que o próprio aluno descubra o conhecimento e sistematize a sua forma de estudar e aprender cientificamente, segundo métodos bem planejados.

Comenius foi sem dúvida o mais importante pensador educacional do século XVII. Escreveu entre mais de cem livros e tratados, a obra Didática Magna que aborda numerosos assuntos, tendo atenção especial a finalidade da educação, o conteúdo da educação, o método e a organização das escolas. Foi um dos maiores reformadores sociais de sua época; o primeiro a propor um sistema articulado de ensino. Refere-se ao conceito de educação continuada quando afirma que a educação deveria ser permanente, durante toda a vida, pois a educação do homem nunca termina porque nós sempre estamos sendo homens e, portanto, estamos sempre nos formando.

A Idade Moderna (1453-1789) foi o período em que predominou o regime absolutista que concentrava o poder no clero e na nobreza. Assim é que, o cardeal Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII, considerava que, embora necessário numa República, o conhecimento das letras não deveria ser acessível a todos: Entende claramente o poder que o conhecimento proporciona aos homens.

"Assim como um corpo que tivesse olhos em todas as suas partes seria monstruoso, da mesma forma um Estado o seria, se todos os seus súditos fossem sábios; ver-se-ia aí tão pouca obediência, quanto o orgulho e a presunção seriam comuns"(Nunes).

A Revolução Francesa pôs fim ao absolutismo, discurso já presente nas idéias dos pensadores participantes do movimento chamado Iluminismo. Foi considerada a revolução pedagógica nacional francesa do final do século. Os grandes teóricos iluministas pregavam uma educação laica e gratuita oferecida pelo estado para todos. A escola pública é filha dessa revolução burguesa.

A Revolução Francesa baseou-se também nas exigências populares de um sistema educacional. O projeto mais importante é o de Condorcet que propôs o ensino universal para eliminar as desigualdades. Contudo, não era o mesmo para todos, pois se admitia a desigualdade natural entre os homens. A revolução da burguesia queria formar trabalhadores como cidadãos partícipes de uma nova sociedade liberal, democrata. Os pedagogos revolucionários foram os primeiros políticos da Educação. Apesar da filosofia, o sistema manteve-se dual. Dirigido à classe dirigente, a instrução centrava-se nas competências para governar. Já para a classe trabalhadora havia a educação para o trabalho.

Entre os iluministas destaca-se Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Para ele a felicidade e o bem estar são direitos naturais de todas as pessoas e não privilégios especiais de uma classe. A organização social e a educação existem para garantir esses direitos.

A influência dele no campo educacional deveu-se principalmente a seu livro Emílio ou de Educação, que se constituiu no marco que divide a velha e a nova escola. Nele descreve a educação de uma criança que é retirada da influência dos pais e da escola, isolada da sociedade e entregue a um professor ideal que a educa segundo os padrões da natureza e em contato permanente com esta.

“Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo que não temos ao nascer, e de que precisamos quando adultos, é-nos dado pela educação.

Essa educação nos vem da natureza, ou dos homens ou das coisas. O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e o ganho de nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas.

Cada um de nós é portanto formado por três espécies de mestres [...]” (Rousseau)

A educação não deve só instruir, mas permitir o desabrochar da natureza. Divide-a em três momentos: infância, adolescência, maturidade. Também por sua influência, a burguesia promove a transição do controle da educação da Igreja para o Estado, criando-se assim, o ensino público nacional não religioso.

Rousseau, contribuiu, influenciando a educação em épocas posteriores, principalmente em quatro aspectos (Monroe):

  •  Educação natural: que deve respeitar o desenvolvimento natural da criança. 
    "Aconteça o que acontecer abandonai tudo que torne penosa a tarefa da criança, porque só é de importância que ela nada faça contra a sua vontade e não que aprenda muito".
  • Educação como processo: porque se trata de um processo contínuo que dura toda a vida.
    "O que devemos pensar dessa educação bárbara que sacrifica o presente a um futuro incerto, que sobrecarrega a criança com cadeias de todas as espécies e começa por fazê-la infeliz visando prepará-la muito tempo antes para uma pretensa felicidade que provavelmente nunca chegará a gozar
      ?"
  • Simplificação do processo educativo: pois a educação deve ser tão simples quanto é simples a natureza.
    "Em geral, nunca substituir a coisa pela representação, salvo quando é impossível mostrar a coisa, porque a representação absorve a atenção da criança e a faz esquecer a coisa representada”.
  • A importância da criança: do ponto de vista da educação, até Rousseau a criança era considerada um adulto em miniatura. Foi o precursor da psicologia do desenvolvimento, dando atenção às diversas fases do desenvolvimento da criança, defendendo uma educação diferente para cada fase, determinada pela natureza da criança e seu crescimento.

Muitas das suas propostas influenciaram o movimento da educação nova e são discutidas até hoje, já que, em muitos aspectos ainda se tenta realizar essas propostas.

Rousseau então trouxe à tona a questão fundamental de uma aprendizagem que reconhece a presença do aprendiz como partícipe no processo. Cabe ao mestre reconhecê-lo, respeitando as características individuais e sugerindo a aprendizagem como de caráter relacional. No entanto mesmo aí. a sua participação ocorre mais como objeto do ensino. Assim, em Locke e a “tabula rasa”; em Rousseau e sua opinião sobre a infância: "nascemos estúpidos, precisamos de juízo", entenda-se a percepção das características do aluno apenas como uma necessidade de melhorar o processo de ensino. Não implicam portanto, no reconhecimento do aprendiz como construtor da sua própria aprendizagem, idéia esta já presente em Rabelais e Montaigne.

Os contemporâneos

A segunda metade do século XVIII marcou um período de revoluções burguesas caracterizada entre outras pela ascensão política desta classe no contexto da crise do Antigo Regime europeu. A libertação social e política desta época passava pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia É aí que nasce no interior do Iluminismo, dentre outras, a corrente positivista que consolidou a concepção burguesa da educação, tendo como maior expoente Augusto Comte. O positivismo trouxe avanços para a Educação pela crítica que fez ao pensamento humanista cristão. Deu inegável contribuição ao estudo científico da educação.

Comte (1798-1857) sofreu influência de alguns intelectuais, como Laplace e Lagrange. Dizia que a verdadeira ciência analisa os fenômenos, mesmo o humano, como fatos. Deve-se afastar das ciências qualquer preconceito ideológico. A ciência precisa ser neutra. Para ele a humanidade passou por três etapas sucessivas: estado teológico, estado metafísico e estado positivo, e a partir da “lei dos três estados” deduziu uma proposta para o sistema educacional.

Émile Durkheim (1858-1917) sociólogo positivista considerava a educação como imagem e reflexo da sociedade, um fato social, e a pedagogia uma teoria da prática social. Em sua obra afirma que a regra fundamental é considerar fatos sociais como coisas. Opunha-se a Rousseau, quando dizia que o homem nasce egoísta e só a sociedade pela educação, pode torná-lo solidário.

“A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que ainda não se encontram preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos [...]” (Durkheim)

Em Whitehead, um dos maiores pensadores neopositivistas contemporâneos, percebe-se uma leve mudança no enfoque. Aqui já se visualiza um discurso mais centrado na aprendizagem, trazendo à tona a importância do aprender, de adquirir competência para construir o conhecimento. Na sua obra A ciência e o mundo moderno, afirma: “a educação é a aquisição da arte de utilizar os conhecimentos. É uma arte difícil de transmitir”.

Neste mesmo final de século XVIII, forma-se outra corrente, antagônica ao positivismo, nascida do movimento popular e socialista no interior da sociedade burguesa. Esta corrente chega ao século XIX sob o nome de marxismo norteada por princípios enunciados pelo seu expoente máximo, Karl Marx (1818-1883) em parceria com Friedrich Engels (1820-1895).

O pensamento pedagógico socialista introduz, no processo de aprendizagem um componente mais social isto expressou-se pelo menos de duas maneiras. Uma delas, a ênfase nos aspectos sociais e intervenientes no processo educativo. Pistrak, um dos primeiros educadores da Revolução Russa, parafraseando Lênin (não existe prática revolucionária sem teoria revolucionária), afirmava que "sem teoria pedagógica revolucionária não poderá haver prática pedagógica revolucionária". Ou seja, a escola passa a ser instrumento da consciência de classe, esta como núcleo programático central do currículo da escola socialista. O aluno tinha de se sentir participativo do progresso da produção. Não iria a fábrica para “trabalhar, mas para compreender a totalidade do trabalho”, é a “pedagogia da praxis.

Outra, representada por Vygotsky (1896-1934), neuropsicólogo e lingüista, preocupa-se com aspectos mais diretamente ligados à aprendizagem. Mostra a a importância fundamental ao domínio da linguagem na educação, meio pelo qual todos sistematizam suas percepções. Dizia que a expressão oral é a mais importante, pois é através da fala que o homem participa coletivamente da construção de uma outra sociedade.

No início do século XX surgiu o mais vigoroso movimento de renovação da educação depois da escola pública burguesa -  a Escola Nova. As suas idéias fundamentais já vinha se formando desde a Escola Alegre de Feltre, seguindo pela pedagogia naturalista e romântica de Rousseau. Fundamentava o ato pedagógico na ação, na atividade da criança. A teoria propunha que a educação fosse instigadora da mudança social e ao mesmo tempo se transformasse porque a sociedade estava em mudança.

O pensamento pedagógico antiautoritário, inspirado em Freud (1856-1939). Para este autor a educação tradicional seria um processo coletivo que visa modelar as crianças com valores dos que vão morrer. A escola seria portanto um agente transmissor do princípio da realidade (superego - externo) frente ao princípio do prazer (ego - interno). Assim, a escola nova e existencial produz um conjunto de críticas à escola tradicional. Sob este ponto de vista abrigaram-se tanto pedagogos liberais quanto marxistas, já que ambos afirmavam a liberdade como princípio e objetivo da educação.

Adolphe Ferrière (1879-1960), pioneiro da Escola Nova dizia que a educação nova seria integral, prática, ativa e autônoma colocando a criança no centro das perspectivas educativas. Criticava a escola tradicional por haver substituído a alegria de viver pela inquietude, o regozijo pela gravidade, a espontaneidade pela imobilidade e as risadas pelo silêncio.

O movimento da escola nova valoriza sobremaneira o aprender como questão fundamental do processo educacional. , Dewey (1859-1952), afirma que o ensino deveria dar-se pela ação e não pela instrução - learning by doing. De acordo com tal visão, a educação é essencialmente processo e não produto se confundiria com o próprio processo de viver.

Sendo o aluno o autor da sua própria experiência, temos o paidocentrismo - aluno como centro - da escola nova. Esta postura gera a necessidade de criação de métodos ativos e criativos também centrados no aluno, sendo esses métodos de ensino, o maior avanço da escola nova. Kilpatrick (1871-1965), criou o método dos projetos centrado numa atividade prática dos alunos, de preferência manual. Ele preocupava-se sobretudo com a formação do homem para a democracia e para uma sociedade em constante mutação.

Outra contribuição foi a de Decroly (1871-1932) com o seu método dos centros de interesses (família, universo, mundo animal etc.), que difere do método dos projetos, porque este não possui um fim, uma tarefa a ser realizada, visa as necessidades fundamentais da criança: alimentar-se, proteger-se contra perigos, etc.

Outra experiência importante foi a de Maria Montessori (1870-1952), médica italiana, que transpôs para crianças normais  o seu método de recuperação de crianças deficientes, construindo uma enorme quantidade de jogos e materiais pedagógicos. Pela primeira vez se introduzia no ambiente escolar mobiliário e objetos pequenos para que a criança tivesse pleno domínio deles.

Outra experiência de escola livre foi a de Summerhill, levada a frente por Neill (1883-1973), liberal, não progressista, representando a perspectiva baseada no princípio da afirmação da liberdade sobre autoridade, só conhecendo “como limite o direito e a liberdade do outro.”

A valorização do trabalho entrou definitivamente na prática e teoria da educação, com Freinet (1896-1966). Ele diz que “a escola popular do futuro seria a escola do trabalho[...]Quando o povo chegar ao poder, terá sua escola e sua pedagogia”[...]. A igreja e a burguesia já tiveram as suas pedagogias. O professor teria que ser formado para não obstaculizar o impulso vital da criança.

Piaget (1896-1980) discípulo de Claparède investigou a natureza do desenvolvimento da inteligência na criança. Afirmava que:

[...]”é preciso que o mestre-animador não se limite ao conhecimento de sua ciência, mas também ao conhecimento das peculiaridades do desenvolvimento psicológico da inteligência da criança[...] Compreender é inventar, ou reconstruir através da reinvenção, e será preciso curvar-se ante tais necessidades se o que se pretende, para o futuro, é moldar indivíduos capazes de produzir ou de criar, e não apenas de repetir” (Piaget)

Em mais uma contribuição para a aprendizagem ativa, a crítica de Piaget à escola tradicional é ácida. Segundo ele, os sistemas educacionais objetivam mais acomodar a criança aos conhecimentos tradicionais que formar inteligências inventivas e críticas.

Rogers (1902-1987), valorizava a empatia, a autenticidade. Afirma que o processo educativo deveria centrar-se na criança, não no professor ou no conteúdo pragmático. Atribui grande importância ao educador como facilitador da aprendizagem. Em seu livro Liberdade para aprender, se refere a esse professor ressaltando as características que possui de apreço, aceitação e confiança no aprendiz

[...]”Pode aceitar sentimentos pessoais que, a um tempo, perturbam ou promovem a aprendizagem - rivalidade com um companheiro, aversão à autoridade, interesse por sua própria adaptação.[...]O apreço ou aceitação do facilitador em relação ao aprendiz é uma expressão operacional da sua essencial confiança e crédito na capacidade do homem como ser vivo”.

Descreve o caráter relacional da aprendizagem, e a necessidade de se respeitar as características individuais do aprendiz no processo. E ainda mais, no mesmo livro quando relaciona alguns princípios de aprendizagem traz para o processo também a questão da pertinência do que se aprende dizendo:

“A aprendizagem significativa verifica-se quando o estudante percebe que a matéria a estudar se relaciona com os seus próprios objetivos.”

Na segunda metade deste século uma visão crítica vem desmistificar o otimismo dos educadores novos, em relação à questão ideológica da classe dominante, preparando as crianças para reproduzirem a mesma sociedade e não para transformá-la. Certamente havia algo de errado na educação ao formar homens que se odiavam tanto. Já fizeram duas guerras mundiais[!]

Paulo Freire (1921-1997) denunciou o caráter conservador dessa visão pedagógica, servindo tanto para a prática da dominação quanto para a prática da liberdade. Entretanto, diz ele, ela representou na história das idéias e práticas pedagógicas, um considerável avanço.

O movimento da Escola Nova é complexo, com contribuições do positivismo e do marxismo e levou a desdobramentos importantes para os movimentos que se seguiram. Os teóricos progressistas atuais apontam para uma perspectiva integradora das correntes quer da Escola Tradicional, quer da Escola Nova.

Segue-se um período em que a crítica que o permeia este período afasta-se um pouco do eixo desta investigação. O processo de aprendizagem passa a um segundo plano, dada a ênfase no conteúdo e o seu uso na sociedade pelos egressos do sistema educacional.

A crítica à educação e à escola se acentuou radicalmente; entre os maiores críticos estão o filósofo francês Althusser e os sociólogos Bourdieu e Passeron, Baudelot e Estlabet. As obras desses autores demonstram que a educação reproduz a sociedade, daí serem chamados de críticos-reprodutivistas (Gadotti, 1997, p.187).

Althusser (1918-1990) é o autor da teoria da escola como um dos aparelhos ideológicos do Estado (1969), sendo toda ação pedagógica uma imposição arbitrária da cultura das classes dominantes. No livro Resposta a John Lewis diz que filosofia é a "luta de classes na teoria". A escola - família substituiu a dupla igreja - família como aparelho ideológico dominante, pois é a escola que tem por anos, uma presença obrigatória dos alunos (Gadotti, 1997, p.187-8).

Sociólogos franceses, Bourdieu e Passeron desenvolveram a teoria da reprodução baseada no conceito de violência simbólica. Toda ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica enquanto imposição por um poder arbitrário - divisão da sociedade em classes, e reproduz a cultura e a sociedade simultaneamente. Ação pedagógica primária é da família, e a criança recebe formação e informação de acordo com a posição desta na hierarquia social, levando determinado capital cultural para a escola (Gadotti, 1997, p.189).

Sociólogos franceses, Baudelot e Establet formularam a teoria da escola dualista, destruindo a ideologia da “escola única”. Na França dizem, há duas redes escolares, a secundária-superior (SS) para os 25% de filhos da classe dominante e a primária-profissional (PP) para os 75% que constituem as classes dominadas. Os conteúdos variam de uma rede para outra, PP se submete à ideologia dominante, a SS forma agentes desta ideologia. No entanto, J. Palácios, educador espanhol, na obra “La Cuestión Escolar” diz que a escola não é nem a causa, nem o instrumento da divisão social de classes, é sua conseqüência, se contrapondo ao discurso anterior.

O Pós-modernismo

Filósofos e educadores apontam tendências atuais, ao término do milênio com crises de paradigmas nas ciências, na cultura e na sociedade. Dentre alguns caminhos apontados, aparece um novo discurso, superando o conteudismo e o politicismo, é a escola oniforme (não uniforme), crítica e participativa, autônoma, com sadio pluralismo de idéias, onde ensino não se confunde com consumo de idéias. Busca desenvolver onilateralmente todas as potencialidades humanas.

Propõem uma escola oniforme, única e popular que seria o oposto da escola burguesa, doutrinadora e padronizada. Escola significa alegria e lazer, segundo Georges Snyders “esse é o ideal da escola: a alegria de construir o saber elaborado.”

Essa base filosófica coloca em um novo patamar as correntes e tendências da educação, divididas em questões políticas, metodológicas e epistemológicas, que hoje se definem como perspectivas, que somam e integram, ao contrário das tendências, que limitam. Situam o fenômeno da educação não mais nas questões políticas (iluminismo), não mais nas questões científicas (positivismo), não mais nas questões metodológicas (escolanovismo). Essa nova concepção da educação fundamenta-se na antropologia.

Dentre as teorias surgidas nos últimos anos, desperta o interesse dos educadores os paradigmas holonômicos, incluindo aí as reflexões de Edgard Morin, autor de O enigma do Homem, que propõe uma lógica do vivente, isto é, um princípio unificador do saber, do conhecimento em torno do homem, valorizando o seu cotidiano, o pessoal, a singularidade, o acaso e outras categorias como decisão, projeto, ruído, ambigüidade, escolha, síntese , vínculo e totalidade. Essas seriam as novas categorias dos paradigmas que se chamam holonômicos (holos - todo), que procuram não perder de vista a totalidade. Mais do que a ideologia, a utopia teria essa força de resgatar a totalidade do real. Pretendem restaurar a totalidade do sujeito individual, valorizando a iniciativa, a criatividade, o micro, a singularidade, a complementaridade, a convergência.

O novo brota do velho, no seio da crise da educação moderna surgem os elementos da educação do futuro, inserido no atual e recente movimento histórico-social chamado pós-modernismo, hoje considerado um movimento de indagação sobre o futuro.

A educação pós-moderna, que tem como identidade negação do modernismo e associação ao multiculturalismo, pretende transformá-la, tendo como concepção geral o respeito à diversidade, as minorias étnicas, etc. ampliando conhecimento, visão de mundo. Quer resgatar a unidade entre história e sujeito. Antes de conhecer, o homem está interessado em conhecer, isto é, trabalha mais com o significado do que com o conteúdo. Este, o conteúdo, não é negado o que se espera e que se torne significativo para o estudante. E esta é uma tarefa tanto do professor quanto do própio estudante. Na filosofia neo-humanista o conceito-chave é a equidade e a igualdade sem eliminar a diferença. O desafio é manter o equilíbrio entre a cultura local e a universal, patrimônio da humanidade.

A educação pós-moderna diz que a escola tem que ser local, como ponto de partida, e internacional/intercultural como ponto de chegada. A autonomia é peça chave para garantir o diálogo da escola com todas as culturas/concepções de mundo. Só assim será multicultural e cumprirá a sua nova função social. Os professores devem elaborar estratégias próprias para camadas populares, para compreendê-las na totalidade da sua cultura e de sua visão de mundo e abrir a possibilidade de abrir os horizontes para mostrar outras culturas. No entanto esta não é uma tarefa simples:

“Apesar de todas as idéias e propostas que surgiram, parece que a escola, em linhas gerais, resiste a transformar-se e mantém-se, em muitos aspectos, parecida com a escola tradicional: uma sala de aula com carteiras enfileiradas, lousa, giz e um professor tentando fazer das tripas, coração para ensinar alguma coisa. Os avanços tecnológicos do início do século parecem que ainda não chegaram à maioria das nossas escolas.[. . .]A escola deve representar uma vida que seja tão real para a criança quanto aquela que vive em sua casa, na rua, no campo de futebol, etc. A disciplina escolar deve surgir da vida da escola entendida como um todo e não diretamente do professor.[. . .]O aluno não pode continuar sendo paciente do processo, mas deve transformar-se em agente[. . .]substituir os métodos em que os alunos apenas ouve, apenas copia, apenas repete. Em seu lugar é preciso utilizar os métodos ativos, que levam o aluno a questionar, a procurar respostas para problemas, a ser estimulado a oferecer soluções para situações concretas, vividas no dia-a-dia.[...] Verifica-se também que não basta ensinar para que os alunos aprendam, muito menos quando este ensino é feito de forma a despejar conhecimentos sobre os alunos, para que estes os devolvam nas provas.[. . .]o ensino é mais eficiente quando leva em consideração as diferenças entre os alunos - de interesses, de aspirações, de hábitos de trabalho, etc. - e quando parte da realidade sócio-econômica vivida por eles, embora não se limite a ela” (Pilletti & Pilletti )

Na obra Sociedade sem escolas Illich faz a crítica ao mito da escola formal, quando afirma:

[...]”percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância.[...]O aluno é, desse modo, “escolarizado” a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de grau com educação, diploma com competência[...] O sistema escolar repousa ainda sobre uma segunda grande ilusão, de que a maioria do que se aprende é resultado do ensino. O ensino, é verdade , pode contribuir para determinadas espécies de aprendizagem sob certas circunstâncias. Mas a maioria das crianças adquire a maior parte de seus conhecimentos fora da escola[...]As crianças aprendem sua primeira língua casualmente[...]A maioria das pessoas que aprendem bem outra língua conseguem-no por causas de circunstâncias especiais e não de aprendizagem seqüencial[...] As escolas são fundamentalmente semelhantes em todos os países, sejam fascistas, democráticas ou socialistas, pequenos ou grandes, ricos ou pobres. Esta identidade do sistema escolar nos força a reconhecer a profunda identidade universal do mito, o modo de produção e o método de controle social, apesar da grande variedade de mitologias em que o mito é expresso [...]” (Illich ).

 

 

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