NOTAS FINAIS
Este trabalho abordou fundamentalmente os aspectos astronómicos presentes n’Os Lusíadas. No entanto, o poema vai muito, mas mesmo muito, para além disso. Quem se aperceba do detalhe com que Camões tratou este aspecto em particular, deve extrapolar para todos os outros tópicos como história de Portugal, literatura, geografia, experiência de navegação, etc. Todos eles tratados com as mesmas seriedade e competência e todos eles colocados em verso de forma rigorosa, interligada e musical. Consequentemente, sendo os aspectos astronómicos apenas uma das muitas dimensões da obra, a sua compreensão permite intuir a estratosférica magnitude do poema épico português. Essa foi uma ideia central, motivadora deste trabalho.
Mencionada a ideia central, também é importante referir que, em alguns casos, se pode tentar usar a faceta astronómica de Camões de forma utilitária, como seja descobrir a data de nascimento do poeta. Por exemplo, Manuel de Faria e Sousa indicou que Camões "nasceu por volta de 1524 ou 1525", seguindo um documento utilizado pelo poeta para embarcar para a Índia. Mário Saa, em 1939, analisando um soneto de Camões, deduziu ter sido 23 de Janeiro de 1524 a data do seu nascimento [14], tornando o soneto uma espécie de objecto astroarqueológico. Comecemos por ler a seguinte passagem do Livro de Job (Capítulo 3):
«Desapareça o dia em que nasci
e a noite em que foi dito:
'Foi concebido um varão!'
Converta-se esse dia em trevas!
Deus, lá do alto, não se preocupe com ele
nem a luz o venha iluminar.
Apoderem-se dele as trevas e a escuridão.
Que as nuvens o envolvam
e os eclipses o apavorem!
Que a sombra domine essa noite;
não se mencione entre os dias do ano
nem se conte entre os meses!
(...)»
Decerto inspirado nesta passagem, Camões faz uma paráfrase deste texto no soneto seguinte que, de acordo com Mário Saa, descreve o seu próprio nascimento:
«O dia em que eu nasci, morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!»
As parecenças entre os dois textos são evidentes. No entanto, este segundo texto vai para além da paráfrase, já que há uma especificidade interessante nos terceiro e quarto versos do soneto de Camões. O poeta português diz de forma explícita "Não torne mais ao mundo, e se tornar". Trata-se de uma condicional, ou seja, se o dia do seu nascimento não puder ser extinto e tiver que voltar a ver a luz do dia no ano seguinte, ao menos que seja numa situação de eclipse ("Eclipse nesse passo o sol padeça"). Esta é uma originalidade em relação ao Livro de Job. Não vai a bem, vai a mal; não se podendo acabar com a repetição do maldito dia, pelo menos que, no ano seguinte, se apague "artificialmente" a luz com um eclipse. O poeta é muito preciso quanto a ser no ano seguinte: "e, se tornar, Eclipse nesse passo o sol padeça". Observamos que, como já vimos na análise de Os Lusíadas, o "passo do Sol" é o caminho percorrido pelo Sol sobre a eclíptica (movimento aparente), durante um dia (sensivelmente um grau). Ou seja, "nesse passo" significa "nesse dia". Traduzindo os versos para linguagem não poética, "se tornar a haver o mesmo dia daqui a um ano, que o Sol padeça de um eclipse nesse dia".
Procurando todos os eclipses visíveis em Portugal em 1524 e em 1525, é possível concluir que o único eclipse compatível com o soneto é um eclipse anular que ocorreu em 23 de Janeiro de 1525. Camões deixou-nos uma informação astronómica sobre o seu nascimento. Este terá ocorrido a 23 de Janeiro de 1524, um ano antes do eclipse referido, que se sabe ter sido visível em Portugal [7].
É claro que a astroarqueologia é um pouco especulativa. Mas é uma actividade científica. O seu carácter especulativo depende do que sabemos sobre o objecto em estudo e não do que sabemos sobre os astros. Em relação a este exemplo, como visto ao longo do texto, Camões é alguém que trata a astronomia com enorme precisão. Por essa razão, esta análise torna-se bastante plausível. Em resumo, embora o mais importante da astronomia de Os Lusíadas seja o seu rigor, interligação e musicalidade, esta ainda é útil para os mais variados estudos, relacionados com os mais variados contextos. Trata-se de algo "sem princípio e meta limitada", como disse Tétis, com a voz do poeta.
REFERÊNCIAS
[1] Abel de Lacerda Botelho, "A Ilha dos Amores em Os Lusíadas é real? Ou imaginária?", Portugalidade, 2015. https://portugalidade.pt/author/abel-botelho
[2] Álvaro Velho, Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499), com prefácio, notas e anexos de A. Fontoura da Costa, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1940.
[3] António Costa Canas, "O Céu dos Homens do Mar na Época das Descobertas", Portal do Astrónomo, Tema do mês, Fevereiro de 2004.http://vintage.portaldoastronomo.org/tema.php?id=2
[4] António Fonseca, Os Lusíadas como nunca os ouviu: http://oslusiadasaudiolivro.wixsite.com/camoes
[5] António José Saraiva, Estudos sobre a arte d'Os Lusíadas, Gradiva, 1992.
[6] Carlota Simões, "A Astronomia dos Lusíadas de Luciano Pereira da Silva" (partes 1 e 2), Portal do Astrónomo, Tema do mês, Setembro de 2006 e Julho de 2007.
http://vintage.portaldoastronomo.org/tema.php?id=31 http://vintage.portaldoastronomo.org/tema.php?id=37
[7] Carlota Simões, "O primeiro aniversário de Camões", Rerum Natura, Junho de 2007.
http://dererummundi.blogspot.pt/2007/06/o-primeiro-aniversrio-de-cames.html
[8] Geogebra, Official Website: https://www.geogebra.org
[9] Henrique Leitão, "Uma nota sobre Pedro Nunes e Copérnico", Gazeta da Sociedade Portuguesa de Matemática, 143, 2002. http://www.gazeta.spm.pt/getArtigo?gid=59
[10] João Sacrobosco, Tratado da Esfera, tradução de Pedro Nunes, atualização e notas de Carlos Ziller Camenietzki, Unesp / Nova Stella / MAST, 1991.
[11] Luciano Pereira da Silva, "A Astronomia dos Lusíadas", Revista da Universidade de Coimbra, Vol. II a IV (1913 a 1915), Imprensa da Universidade, Coimbra, 1915.
[12] Luís de Albuquerque, "Estudos de História", Acta Universitatis Conimbrigensis, Volume III, 1975.
[13] Luís de Camões, Os Lusiadas, Impressos em Lisboa, casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572.
[14] Mário Saa, Memórias astrológicas de Luís de Camões, Edições do Templo, 1978.
[15] Pedro Nunes, Tratado da Sphera, primeira vez impresso em Lisboa, por Simão Galhardo, a 1 de Dezembro de 1537; Pedro Nunes, Obras, Vol. I, Tratado da Sphera, Academia das Ciências de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.
[16] Stellarium, Official Website: http://www.stellarium.org
[17] Torre do Tombo, Carta de Mestre João: http://digitarq.arquivos.pt/details?id=3813442