O jovem rei D. Sebastião, aos 24 anos, foi combater no norte da África em 1578, vindo a desaparecer em combate contras as tropas mulçumanas na região de Alcácer-Quibir no Marrocos. O corpo nunca foi oficialmente localizado, apesar de ter sido entregue ao seu tio Felipe de Castela, Espanha, um cadáver, como sendo do seu real sobrinho, cuja ossada se encontra sepultada no Mosteiro do Jerônimos em Lisboa,Portugal. Todavia a cerimônia oficial do sepultamento não convenceu aos portugueses. E desde então a nação tem na figura mítica do monarca, a mística da espera e esperança, que um dia o rei volte numa manhã nublada, montado num cavalo branco. E chegue assim, para ditar uma nova ordem, instituindo um tempo de abundância e beneficiando toda a população portuguesa, de todos os continentes. Nesse caso, um bom momento seria o que hoje vive o mundo globalizado, com a crise que afeta as nações europeias numa verdadeira explosão de pontos de tensão além de conflitos, problemas econômicos, políticos e uma guerra santa islâmica que a cada dia afeta a vida no planeta.
O imaginário referente às lendas que retratam o fato histórico sebastianista ocorrido por volta de 1820 na Pedra do Rodeador em Bonito Pernambuco, foi tema de estudo de doutorado na Universidade de Salamanca - USAL, Espanha, desenvolvido dentro do programa de Antropologia Iberoamericana.
A oralidade local foi o que motivou a pesquisa. Partimos da observação direta das poucas recordações que ainda resistem na imaginação dos moradores, relativas ao fato histórico. Verificamos que à medida que o tempo passa, a história na longa duração está cada vez mais se perdendo com o desaparecimento das pessoas idosas, que antes recontavam para as gerações futuras, as histórias ouvidas dos seus antepassados. Os jovens com as novas tecnologias -televisão, celular, internet -, hoje em dia, não demonstram quase nenhum interesse em saber dessas narrativas, que pouco a pouco vão se perdendo com o desaparecimento dos mais antigos. Como foi o caso do nosso informante, morador da vila do Rodeador, José Alexandrino de Menezes, falecido aos 97 anos (in memoriam), detentor de uma memória do fato histórico, já se deteriorando com a idade. Conseguimos registrar suas lembranças nas duas ocasiões que tivemos oportunidade de entrevistá-lo. Podemos indagar se é possível no Rodeador ressignificar esse mito messiânico português, resistente aos séculos, tendo como referência, por exemplo, o ensino da história local nas escolas do município, além de outros campos da ciência?
Porém, com relação a outras disciplinas que, afinal de contas, podem contribuir em questões relativas à oralidade, lendas, narrativas míticas, preservação da cultura imaterial, além da resistência de um núcleo da crença sebástica preservado, até hoje não foi realizado um trabalho mais efetivo de investigação abordando o tema em toda sua amplitude e de forma holística, onde o mais importante de tudo seja a contribuição cientifica para a valorização do homem em toda sua essência que hoje habita a região. Há uma corrente que prega que a história já fez tudo o que poderia fazer, com relação ao fato histórico do Rodeador. Ou seja, já esgotou todas as possibilidades de contribuição para preservar resquícios e o conhecimento do primeiro evento sebastianista ocorrido no Brasil, e nada mais há que ser feito, dentro de um contexto histórico.
Contudo nosso ponto de vista de acordo com a investigação efetuada demonstra que nem tudo foi devidamente apurado e interpretado, no que respeito à história, sobretudo às questões referentes à oralidade no Rodeador. E há muito a se trabalhar em prol da preservação desse conjunto cultural imaterial importante, para que as futuras gerações locais possam vir a ter orgulho de sua história e cultura. O Rodeador continua com seu universo de lendas e imaginário quase inacessível, tendo como referencial o tempo espacial, a partir do evento que acabou na terrível Devassa que gerou o massacre das tropas imperiais contra os habitantes da cidadela conhecida naquela época, por “Paraíso Terreal”, que viviam na ilusão de um dia receberem o salvador na figura do Rei Dom Sebastião que ressuscitaria e surgiria de uma abertura da rocha sebástica do Rodeador, com todo seu exército, para oferecer uma melhor qualidade de vida àquelas pessoas, representantes de uma minoria na cosmovisão de um tempo, sofrendo formas de preconceito, que infelizmente ainda habitam muitas localidades nesse Brasil afora.
O mito sebastianista, no caso das manifestações no Brasil, se pode dizer que teve caráter transcendental, já que se expressou penetrando diversos contextos, se integrando à cultura do país. Numa junção dos elementos terra, água, fogo e ar unindo três continentes Europa (Portugal) África (Marrocos) e América do Sul (Brasil). Atuando com especificidade, reacendeu esperanças, criando um novo mundo empírico e paralelo, na mentalidade popular, com suas fantasias, cosmovisão e utopia. Como podemos constatar, nos movimentos ocorridos em solo brasileiro.
O Rei Dom Sebastião já chegou ao Brasil mitificado, pois no processo de colonização, muitos costumes da Península Ibérica, do ultramar, vieram no bojo das caravelas refugiarem-se na colônia. E nisso se herdou também, além de mitos, conflitos socioeconômicos e políticos, que atravessaram o Atlântico com o impulso às navegações. A nova terra ofereceu terreno fértil para movimentos diversos. Assim, esse conjunto foi se adaptando de forma híbrida, ao imaginário e à religiosidade popular, se mesclando ao mito tupi-guarani terra sem mal. Pregado de forma contundente nos discursos inflamados do Padre Antonio Vieira, catequizador jesuíta, o sebastianismo foi se difundindo.