Se nos fosse dado o privilégio de questionarmos o tempo, e perante sua majestade o perguntássemos: afinal, o que é a história? Indubitavelmente, ele nos responderia que a história nada mais é que uma ficção mal contada. Uma ficção sem o devaneio humano, preso ao racionalismo sisudo e pétreo da razão suprema, torna-se uma narrativa fadada ao esquecimento nas prateleiras empoeiradas dos arquivos históricos.
A história de Portugal, eivada de uma poesia, desde sua origem no famoso episódio de Ourique, só se explica mediante a suspensão do juízo crítico, todavia, sua permanência na mentalidade coletiva portuguesa não desmerece a sua capacidade explicativa. Ciência, religião, poesia e história nada mais são que formas diferentes de explicar a existência humana. Assim o é o sebastianismo que nasce em Portugal e é perpetuado na literatura. Este bebe do mesmo princípio providencialista da origem de Portugal e messiânico típico do cristianismo que se instala naquela península. O desaparecimento do rei Dom Sebastião, morto em combate, um rei há muito desejado, e a esperança do reino lusitano de alcançar o brilho de outrora, instauram na mentalidade coletiva portuguesa, já tão influenciada pelo providencialismo, um paradoxo que só é explicado pela espera, pela suspensão da razão e crença do retorno. Um retorno altivo, aliás, grandioso, que irá conduzir seu povo ao brilho eterno.
Aqui, a história sisuda e pétrea dá lugar à poesia, ao devaneio, às ilações, elucubrações, à tradição oral que se responsabiliza por pintar e desenhar novos contornos àquele rei tão esperado. É a tradição oral, móvel, transitória, sujeita a alterações que mantém o mito sebastianista vivo; atravessou os “mares nunca dantes navegados” e aportou no interior pernambucano, onde se misturou às crenças locais e moldou-se às aspirações daquele povo sertanejo, esquecido pela Coroa, aquela que deveria ser sua protetora.
O movimento sebastianista da Serra do Rodeador é um fato ímpar na história luso-brasileira. Primeiro, porque foi anterior ao famoso sebastianismo da Pedra do Reino, imortalizado no romance de Ariano Suassuna, e ao messianismo de Canudos, este eternizado nas épicas letras do republicano Euclides da Cunha, quando redigiu sua obra máxima Os Sertões. De fato, o Rodeador não teve seu literato, sua poesia que o imortalizasse, mas teve sua gente, seu povo, homens e mulheres, sangue, luta, crenças, enfim, história. Essa que se recusou a ficar esquecida nos arquivos empoeirados. A sua força, energia bem como a vitalidade, que não legaram àquele sangue de inocentes ao limbo do esquecimento, se perpetuou na oralidade daquele povo marcado pela fé, pela esperança, pela busca. Derrubou as barreiras impiedosas do tempo e se plenificou nas mais infinitas possibilidades do relato oral.
A história factual foi pintada com novas cores, novas possibilidades. Assim, o massacre do Rodeador chegou até nós, não como algo pétreo, mas pelo contrário, chegou-nos multifacetado, com inúmeras histórias possíveis que misturados constantemente nos brinda com aquilo que a mente humana tem de melhor, as infinitas possibilidades. Assim, o Rodeador não escreveu a única história, mas as inúmeras com que seu povo cresceu ouvindo, e passando, repassando, educando gerações e mais gerações; as infinitas histórias, tão infinitas quantos aqueles que a reproduzem com suas cores particulares e singulares.
O Rodeador não teve um Euclides ou um Suassuna, mas isso não era necessário porque teve seu próprio povo, sua própria história, a eterna história de um povo que aguarda seu Messias, seu Sebastião. A história dos inúmeros severinos, “iguais em tudo na vida”, que fundaram, nem que seja por um ínfimo momento, seu paraíso. Não um paraíso distante, além-mundo, mas sim, um paraíso verdadeiro, palpável, material, de fato um Paraíso Terreal.