A herança pode estar associada tanto aos bens materiais, tal qual uma casa, um livro, uma jóia, como aos hábitos e tradições culturais — uma receita, a língua, o sotaque. Em ambos os casos, essa herança é transmitida de geração a geração e contribui para o fortalecimento de uma identidade, dos vínculos familiares, marcando temporalmente as relações e estabelecendo um lugar comum.
Desde a Antiguidade, encontramos registros de coleções formadas e acomodadas em espaços específicos, mas, ao longo do tempo, esses objetos vão ganhando novos significados e conferindo status aos seus proprietários. Durante a Baixa Idade Média e o Renascimento, as coleções, além de itens decorativos e obras de arte, também ganham o aspecto exótico com as pilhagens realizadas pelos colonizadores nas viagens marítimas.
Nos Museus da Energia, encontramos uma diversidade de acervos que vão dos documentos e fotografias aos objetos de uso cotidiano. As coleções podem nos falar tanto da história das empresas de energia quanto das pessoas que nelas trabalharam. Ainda há objetos que nos convidam a pensar sobre o acesso à energia elétrica e seus usos no interior da casa, desvelando nuances do cotidiano das pessoas em outras épocas.
Assim também são os objetos que estão em nossas casas, as “quinquilharias” que acumulamos, herdadas de nossos avós e pais, e que vão servindo como suporte da memória da nossa família.
A casa é um bom ponto de partida para se pensar sobre museus. Desde a Antiguidade a ideia de museu está associada à ideia de casa. O lugar em que se habita. De fato, casa e território atravessam a ideia de museu. [...] A casa ganha agora uma dimensão especial. Ganhamos a oportunidade de olhar para nossas casas com uma perspectiva museal. Seus elementos de memória, seus panos de prato, seus panos de chão, seus quadros na parede, seus talheres, e mais tantas coisas poéticas extraordinárias. Casas impregnadas de memórias. Talvez seja uma oportunidade de olhar nosso ‘museu pessoal’.
(Mário Chagas)