Existem por aí poucas pessoas realmente autênticas. Pessoas em que se percebe uma assinatura seja no olhar, seja nas ações ou nas roupas. É diferente do querer chocar, se fazer diferente de todos de maneira não muito natural. Falo das pessoas que apenas são um tanto fora dos padrões e você convive com a pessoa sem se dar conta disso, pois aquilo não chama a sua atenção. Ela pode pintar o cabelo de verde, estar de pijama no meio da rua ou te servir um prato cheio de abacaxi e feijoada e você realmente não vai encontrar.
É um perfil típico dos filmes, onde personagens costumam demonstrar uma excentricidade natural para tornar as narrativas mais interessantes e ressaltar pontos importantes da obra. Mas na vida real? Em geral é aquele adolescente que com raiva do mundo sem um real motivo adota um visual que só chama a atenção. Poucos são realmente autênticos a ponto de normalizar a sua diferença em relação ao esperado.
E isso tem tudo a ver com este texto. Com a playlist e principalmente com quem me mandou. Primeiro uma deliciosa aula de jazz música a música. E aí a primeira surpresa, nem sempre achei os artistas indicados nos serviços de streaming. Pequenas adaptações foram necessárias e justo num ritmo onde as versões são tão importantes já que no jazz a liberdade é palavra de ordem na execução das músicas. Cada artista faz do seu jeito e cria muito em cima. São produzidas milhares de versões maravilhosas e diferentes em cima de um único tema.
E de onde vieram essas músicas autorais e delicadas? Justamente de alguém que conheci a muito tempo. Lembro da adolescência em tons de preto, bastante monocromática num visual de fazer inveja a qualquer metaleiro de plantão, com direito a coturno e tudo mais. Um visual radical? Talvez. Mas era só ouvir o que vinha dali para se ter acesso a uma bagagem cultural extremamente rica e variada, aqui não falo de conhecimento de elite, mas sim de conhecimento de verdade. Não é sobre ler 500 livros, mas sim sobre entender os 500 livros lidos.Nunca a expressão não julgue um livro pela capa fez tanto sentido!
E o legal disso tudo é que o mundo da voltas, se num momento você está perto, no outro a vida te afasta, mas de repente, de uma hora pra outra você acaba reencontrando nomes do seu passado. E se encanta quando vê que no fundo essas pessoas não mudaram, ou pelo menos, a essência que te fazia prestar atenção naquela pessoa continua ali, intacta.
Novas camadas de cultura e conhecimento foram sobrepostas, do popular ao acadêmico. Conversas poderiam versar sobre uma piada popular ou a forma como o jazz se faz presente na escrita de Júlio Cortázar. Assunto que eu confesso ser bem leigo, por sinal. Tudo isso sem descambar para o pedantismo ou execração do popular. Apenas conhecimento sendo discutido, sem juízo de valor.
Talvez por isso eu tenha achado tão bom o nome dessa playlist. Afinal de certa forma ela funciona mesmo como um mapa. Nos levando de maneira suave e divertida por um universo sonoro pouco explorado pela maioria das pessoas que eu convivo (eu inclusive, gosto de jazz, mas não tenho a profundidade e o conhecimento do tema de quem criou a playlist). Então esse mapa nos leva para um outro lado da música e da vida, onde você tem coragem pra ser quem você quiser porque sabe exatamente quem é e isso não te incomoda em ponto nenhum, pois você está tão certo de si que o julgamento do outro não faz diferença alguma!