Na mesma semana comemoramos o Dia das Mães e o fim da Escravidão. Pena ainda termos que mudar tanta coisa para que estas datas sejam realmente apenas motivo de festa.
Quando a mãe preta vai parar de sofrer?
Poucos dias atrás tivemos duas datas de peso no calendário brasileiro. Ou pelo menos duas datas que deveriam levar a uma reflexão que nunca ocorre. Comemoramos no domingo o dia das Mães depois de no sábado termos passado por um dia da Abolição da Escravatura.
Dia das Mães, segundo Natal do comércio, eu mesmo confesso que me aproveitei da data, vendi os produtos que produzo e não reclamo, acho que realmente temos que presentear as pessoas que gostamos (inclusive esse é o que me motiva a fazer os produtos, mas isso é outra história pra um outro texto). Mas a data como todas as outras deveria ir muito além disso.
Não que as pessoas realmente não valorizem suas mães, talvez seja a única figura realmente valorizada pelo brasileiro. O problema é como em geral ela é vista. Na sociedade moderna, as mulheres ganharam novos espaços e isso é sensacional. Porém, a que preço social? Mulheres são cobradas para serem mães perfeitas e ao mesmo tempo sustentarem a família, muitas vezes sem auxílio, já que ainda é bastante comum (isso não mudou ainda) o abandono paternal ou ainda as pensões fake, que não sustentam nem a parte que deveriam dos gastos de uma criança.
Num momento onde ainda tem bastante gente bradando por meritocracia, as mães são idolatradas, mas devem ganhar menos (mulheres votaram contra a paridade salarial) e ninguém quer emprega-las. É um contrassenso (como na questão do negro que virá logo a seguir) tremendo colocar mães como pilares da sociedade e não dar condições para que elas tenham o mínimo de renda para manterem seus filhos num país onde 31% das mães são solteiras e 46% de todas as mães trabalham. (dados https://www.cnm.org.br/index.php/comunicacao/radio_item/segundo-pesquisa-brasil-tem-mais-de-20-milhoes-de-maes-solteiras#:~:text=O%20Brasil%20tem%2067%20milh%C3%B5es,s%C3%A3o%20solteiras%20e%2046%25%20trabalham ).
Falam em proteger a criança, mas a mãe não pode faltar ao trabalho para levar ao médico (o pai deve fazer isso também, mas é outra discussão), ainda alegam que mulheres devem ganhar menos pois engravidam e mesmo assim, transformam o dia das mães num segundo Natal.
Raciocínio similar ao que pode ser feito em cima de comemorar a data do fim da escravidão no Brasil. Confesso que estranhei, nunca vi tanta gente postando fotos comemorando a data, alguns com total sentido, mas uma parcela dos que postavam me fizeram rir. Era uma postura similar a de comemorar o dia das Mães, desde que ela não trabalhe na sua empresa e queira ganhar igual aos homens, afinal engravida.
Vi postagem de quem ainda acredita em cabelo ruim, acha que negros não ascendem socialmente por preguiça e que todos realmente possuem as mesmas chances. Não faz sentido.
Pouco tempo atrás, mentorei num Hackathon voltado para pessoas negras, e me tornei fã de todas as pessoas que estavam ali, mentores e participantes. Só tinha fera! Acontece que se alguns dos que estavam ali, conseguiram já vencer bolhas e chegar ao topo, outros ainda tentam, e não por falta de capacidade, tem dificuldade de conseguir. Ai vem alguém, mostra uma reportagem de um prodígio que fez um esforço absurdo e desumano e conseguiu e diz, tá vendo, é só querer.
A meritocracia do ponto de vista de quem não tem mérito nenhum. Sempre é assim, pessoas que saem na frente acham justo uma disputa claramente desigual. Eu sou favorável sim a valorizar o mérito, mas desde que a disputa seja entre iguais. Pessoas que tiveram condições similares de preparo para aquela disputa. E nesse ponto, minorias econômicas sempre saem perdendo. Negros começam bem atrás, mulheres negras mais atrás ainda e se já forem mães então...
E mesmo assim comemoramos o dia do fim da escravidão, dia em que negros deixaram de ser escravos e passaram a ser desempregados, marginalizados, sem direitos a nada, livres, porém sem apoio mínimo estatal para realmente serem integrados a sociedade brasileira. Uma sociedade que o aplaude se ele for um bom jogador de futebol do seu time preferido, que o aceita como porteiro do prédio ou empregada doméstica, mas que atravessa a rua se caminhar ao seu lado a noite, vestido de terno, ele pode ser o segurança, nunca o CEO da empresa. Mulher negra liderando? Nem pensar. Das piadas totalmente racistas que ouvia nos programas de tv da minha infância, uma das mais recorrentes era que gente branca vestida de branco era médico, se fosse gente negra era pai de santo. Nada contra a posição de líder religioso, tudo contra o juízo de valor racial. Até hoje, raros são os médico negros e a forma como são tratados em comparação aos médicos brancos também não é digna de aplausos.
Políticos negros com lugar de destaque sempre foram poucos. Em cargos administrativos de peso então, menos ainda. Na minha memória surgem dois nomes. Celso Pitta e Benedita da Silva. Ambos ligados a espectros políticos opostos e igualmente ofendidos inúmeras vezes por sua raça. Não vou entrar no mérito da qualidade do trabalho de ambos no poder, político ruim é algo que ocorre no Brasil desde o início da nossa história, com uma ou outra rara exceção dependendo daquilo que você acredita.
A forma como o desrespeito ocorreu com ambos foi absurdo, nem a ex-presidente Dilma (que foi atacada de maneiras extremamente sexista) sofreu tanto. Aqui não digo que estas pessoas tinham que ser blindadas, devem ser criticados como qualquer político, a questão é que se deve criticar o seu trabalho e não sua raça, sexo ou orientação sexual. Negros não podem mais serem vistos como inferiores, afinal, nós nunca fomos inferiores a ninguém.
É preciso lembrar que datas comemorativas existem para fazer pensar. Raramente são motivo apenas de comemoração. Com as mães e o fim da escravidão isso funciona da mesma forma. Ser mãe ainda é muito difícil no Brasil, ser negro também, ser uma mãe negra então é quase um martírio, onde se tem problemas primeiro profissionais e depois enquanto os filhos crescem, a enorme preocupação de saber se seus filhos terão direito a um futuro livre e com oportunidades, algo que infelizmente não é comum nos dias atuais.
A imagem que abre o post foi gerada por IA pelo site https://creator.nightcafe.studio/ em breve eu volto falando sobre o peso real desse tipo de tecnologia.