JYB: O prêmio nasceu da convergência de duas experiências. A primeira foi a preparação do Congresso Mundial de Filosofia “What Is It? That’s the Question!” (“O que é isto? Eis a questão!”), concebido para reunir no Rio de Janeiro, em julho de 2026, pesquisadores de diferentes países, áreas e tradições em torno da pergunta fundadora da filosofia ti esti, “o que é isto?”. Apresentei uma conferência sobre essa questão no 25º Congresso Mundial de Filosofia, realizado em Roma em 2024; e venho desenvolvendo cursos de pós-graduação e uma série de artigos intitulados “O que é X?” (por exemplo "What is a diagram?"), além de uma metodologia geral composta por onze procedimentos de investigação conceitual.
A segunda experiência foi a criação, em 2014, do Prêmio Brasileiro de Lógica Newton da Costa, em homenagem ao meu ex-orientador. Essa iniciativa levou à constituição do Prêmio Mundial de Lógica, uma competição entre vencedores de prêmios nacionais. A primeira edição mundial ocorreu em 2018 em Vichy, França, com dez países; a terceira, em 2025, em Cusco, Peru, reuniu mais de vinte. Essa trajetória mostrou que um prêmio bem concebido pode revelar talentos, aproximar comunidades intelectuais e estimular a produção original.
Pareceu-me, portanto, natural criar no Brasil um prêmio de filosofia com vocação universal e, em seguida, construir uma competição internacional entre vencedores de diferentes países. A pergunta “O que é X?” oferece o eixo ideal para esse projeto: é simples, compreensível e aberta a qualquer tema, mas exige clareza, rigor, imaginação e capacidade de definição. Ela permite combinar unidade conceitual e pluralidade temática, justamente em um momento em que a filosofia contemporânea sofre com a fragmentação excessiva e a falta de diálogo entre suas áreas.
Pode-se perguntar por que criar mais um prêmio, já que tantos outros existem. A resposta é que não se trata de multiplicar distinções honoríficas, mas de preencher uma lacuna. Não existe um Prêmio Nobel de Filosofia, e muitos prêmios filosóficos existentes são altamente especializados ou distinguem sobretudo trajetórias já consagradas. O projeto “Filosofia Maravilhosa” procura valorizar a investigação em curso, a criação conceitual e a capacidade humana de compreender e transformar o mundo. Seu horizonte é amplo: a filosofia não é uma coleção de opiniões pessoais nem a simples comparação de autores, mas uma atividade racional que começa no espanto, avança por perguntas bem formuladas e pode culminar, inclusive, numa aporia fecunda.
A iniciativa também prolonga uma convicção que orientou a criação do Dia Mundial da Lógica, celebrado em 14 de janeiro e reconhecido pela UNESCO em 2019: lógica e filosofia são dimensões fundamentais da humanidade. Se a lógica organiza o raciocínio, a filosofia interroga o sentido, os conceitos e os fins. Um prêmio universal de filosofia pode dar visibilidade a essa potência comum e incentivar novas formas de pensar no Brasil e no mundo.
JYB: Minha impressão é extremamente positiva. Recebemos 26 ensaios provenientes de diferentes regiões do país e dedicados a uma ampla variedade de temas. Lançar um projeto novo envolve riscos e incertezas, mas a primeira edição mostrou que a proposta encontrou ressonância real. A fórmula “O que é X?” revelou-se capaz de mobilizar participantes de diferentes idades, formações e estilos, unindo trabalhos de lógica, ética, filosofia da tecnologia, linguagem e outros campos.
Eu não estou inteiramente surpreso, porque conheço de perto a vitalidade da filosofia brasileira. Minha relação com o país começou em 1991, quando passei um ano no Departamento de Filosofia da USP, a convite de Newton da Costa. Desde então, participei de eventos em muitas regiões, frequentei encontros da ANPOF e acompanhei a atividade de universidades, revistas, grupos de pesquisa e iniciativas de divulgação. O Brasil possui uma presença singular da filosofia no ensino, na edição de clássicos e no debate público. A coleção “Os Pensadores”, cuja importância foi recentemente destacada por Marly Bulcão e Marcelo de Carvalho em uma palestra sobre José Américo Motta Pessanha no seminário Filosofia na Praia no Leme, é um exemplo notável dessa história de difusão filosófica.
O que permanecia incerto era a recepção de uma competição centrada não numa escola, num autor ou numa subdisciplina, mas numa pergunta metodológica comum. O resultado foi encorajador. Alguns ensaios chamaram atenção pela escolha de objetos inesperados; outros, pela precisão lógica, pela sensibilidade literária, pela inventividade metodológica ou pela força argumentativa. O conjunto mostrou que a filosofia produzida no Brasil não se limita a importar ou comentar tradições: ela é capaz de formular problemas, construir conceitos e experimentar novas formas de investigação.
A seleção dos trabalhos premiados foi difícil justamente porque os melhores ensaios eram muito diferentes entre si. A medalha de ouro foi atribuída a um estudo tecnicamente sofisticado sobre o condicional; a medalha de prata, a um ensaio de grande qualidade literária e conceitual sobre inteligência artificial; e a medalha de bronze, a uma investigação inovadora sobre o ajudar, articulando ética normativa e filosofia moral experimental. Essa diversidade corresponde perfeitamente ao espírito do projeto: uma questão comum, muitos objetos e várias maneiras rigorosas de pensar.
A primeira edição foi, portanto, um sucesso. Ela confirmou a força da comunidade filosófica brasileira e demonstrou que há espaço para iniciativas que aproximem rigor conceitual, criatividade, diversidade regional e comunicação pública. O desafio agora é consolidar o prêmio, aperfeiçoar seu funcionamento e transformá-lo num ponto de encontro duradouro entre a filosofia brasileira e a filosofia internacional.
JYB: O Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa — continuará sendo um concurso nacional, aberto a pessoas radicadas no Brasil e centrado na pergunta “O que é X?”. Seus vencedores apresentarão os trabalhos no congresso realizado no Rio de Janeiro. Paralelamente, estamos criando prêmios com a mesma estrutura em outros países, para que seus vencedores possam participar de uma competição mundial durante uma futura edição do evento.
Já lançamos o prêmio no Brasil e na Suíça. A meta inicial é formar uma rede de pelo menos dez países. Tenho conversado com colegas de diferentes partes do mundo para desenvolver modelos locais que respeitem as particularidades linguísticas e institucionais de cada lugar, sem perder a unidade do projeto. Um prêmio japonês, por exemplo, poderá receber ensaios em japonês; um prêmio italiano, em italiano. Os vencedores, porém, deverão apresentar seus trabalhos em inglês no congresso mundial, a fim de assegurar uma língua comum de comunicação entre participantes de origens diversas.
A experiência simultânea do Brasil e da Suíça é particularmente interessante. No Brasil, os ensaios são submetidos em português, enquanto as apresentações dos premiados no congresso internacional são feitas em inglês. Na Suíça, país com quatro línguas nacionais, optou-se diretamente pelo inglês, que funciona como idioma de comunicação transversal. Não se trata de apagar as línguas nacionais, mas de combinar expressão local e circulação internacional.
O apoio institucional será decisivo. O Consulado da Suíça no Rio de Janeiro apoiou a primeira edição suíça e financiou a vinda do vencedor ao Brasil. Esperamos que outros consulados, universidades, fundações e associações filosóficas façam o mesmo. Esse modelo permite valorizar simultaneamente a filosofia de cada país e o diálogo mundial, sem impor uma organização excessivamente centralizada.
A frequência do congresso e do prêmio mundial — a cada dois ou três anos — ainda será definida à luz da experiência da primeira edição e do crescimento da rede internacional. O objetivo é construir o projeto de forma gradual, sólida e duradoura: primeiro consolidar os prêmios nacionais, depois reuni-los num verdadeiro Prêmio Mundial de Filosofia “What Is It?”.
JYB: A filosofia nasceu simbolicamente em Atenas, onde Sócrates percorria a ágora perguntando ti esti, “o que é isto?”. Outras cidades tornaram-se centros de determinadas ciências ou artes, mas a filosofia contemporânea não possui uma capital mundial inequívoca: um lugar que reúna regularmente pesquisadores de todos os continentes em torno de uma questão filosófica comum. O Rio de Janeiro pode ocupar esse espaço — não por decreto, mas pela criação progressiva de uma tradição.
A cidade reúne condições excepcionais. É internacionalmente conhecida, possui ampla infraestrutura hoteleira e cultural, uma paisagem na qual mar, montanha, floresta e vida urbana convivem de maneira singular e uma longa experiência na realização de grandes eventos. Também oferece, em comparação com muitas metrópoles do hemisfério norte, possibilidades relativamente acessíveis de hospedagem, alimentação e circulação, aspecto essencial para um congresso que pretende acolher pesquisadores de países com recursos muito diferentes.
Mais importante ainda, o Rio e sua região metropolitana possuem uma comunidade filosófica numerosa e plural. UFRJ, UERJ, PUC-Rio e UNIRIO mantêm atividades regulares na cidade; UFF e UFRRJ ampliam esse ecossistema na região. A Universidade Livre do Leme, com o seminário “Filosofia na Praia”, idealizado pelo diplomata Jerônimo Moscardo, mostra que a filosofia também pode ocupar o espaço público. A Associação Carioca de Filosofia foi criada precisamente para fortalecer a articulação entre instituições, pesquisadores e público.
O projeto do congresso é especialmente adequado a essa vocação. Sua pergunta central — “O que é X?” — pode ser compreendida por pesquisadores de qualquer tradição e aplicada a todos os ramos da filosofia. Em vez de justapor sessões sem relação entre si, o evento procura responder à crescente fragmentação da disciplina por meio de um núcleo metodológico transversal. Os onze procedimentos propostos — entre eles enumeração, definição, tipificação, categorização, oposição, diagramatização e simbolização — permitem aproximar rigor conceitual e pluralismo metodológico.
Essa metodologia procura evitar dois extremos. De um lado, a simples enumeração de casos, que chamo de “polo norte”; de outro, a pretensão de encerrar um conceito numa definição abstrata e definitiva, o “polo sul”. A posição que proponho é “tropical austral”: valoriza exemplos, usos e variações, mas orienta a investigação para a compreensão conceitual. O Rio, situado próximo ao Trópico de Capricórnio, é também simbolicamente o lugar apropriado para essa posição filosófica.
O prêmio mundial reforçará essa centralidade, trazendo ao Rio os vencedores de concursos nacionais e transformando a cidade num espaço de convergência entre línguas, tradições e gerações. A filosofia precisa de um centro de gravidade não para se fechar nele, mas para dispor de um ponto de retorno: um endereço onde o diálogo mundial possa recomeçar regularmente.
A ambição, portanto, é concreta: organizar o Congresso Mundial de Filosofia “What Is It? That’s the Question!” a cada dois ou três anos, sempre no Rio de Janeiro; ampliar progressivamente a rede de prêmios nacionais; fortalecer a cooperação entre as instituições filosóficas cariocas; e criar uma experiência intelectual que associe pesquisa rigorosa, abertura cultural e participação pública. Se essa continuidade for assegurada, o Rio poderá tornar-se, no século XXI, a capital mundial da filosofia, uma cidade à qual os filósofos do mundo retornam para perguntar, juntos, “o que é isto?”.
Flawé de Lara Bone é uma pesquisadora, comunicadora, palestrante e divulgadora científica brasileira. É fundadora, curadora e produtora de conteúdo da plataforma Futuro Relativo, dedicada a temas como Filosofia, Ética, Inteligência Artificial e a Mente.
Sua trajetória acadêmica e profissional reúne, de modo original e interdisciplinar, filosofia, comunicação e tecnologia. Ela se dedica às transformações produzidas pelas tecnologias emergentes na cultura contemporânea e nos ambientes de trabalho. Sua pesquisa se volta especialmente para a maneira como a mudança tecnológica reconfigura a percepção humana, o conhecimento, a criatividade e a interação social.
Ela é também pesquisadora em Criatividade, Arte, Fotografia e Criação no IA/UNICAMP. Além disso, possui ampla experiência em divulgação científica, educação corporativa e informal, inteligência de mercado, ética e no estudo da cultura organizacional e social. Seu trabalho é marcado por um forte compromisso em criar pontes entre a pesquisa acadêmica e o discurso público, tornando ideias complexas acessíveis sem perder sua profundidade conceitual.
JYB é um lógico, filósofo e matemático suíço, doutor tanto em Matemática quanto em Filosofia. Ao longo de uma carreira acadêmica internacional, viveu e trabalhou na França, no Brasil, na Polônia, na Córsega, na Suíça e nos Estados Unidos (UCLA, Stanford e UCSD).
Atualmente é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ex-coordenador da pós-graduação em Filosofia e ex-presidente da Academia Brasileira de Filosofia. Criou o Dia Mundial da Lógica, reconhecido pela UNESCO e celebrado todos os anos em 14 de janeiro, bem como o Prêmio Mundial de Lógica.
Figura de destaque da lógica contemporânea, é fundador e editor-chefe de Logica Universalis e do South American Journal of Logic, fundador das coleções Logic PhDs e Studies in Universal Logic, e editor responsável pela área de lógica da Internet Encyclopedia of Philosophy. Desde 2000, organizou cerca de 100 eventos nos cinco continentes e fundou nove séries de congressos. Por meio dessas iniciativas, deu uma contribuição duradoura à promoção mundial da lógica e da investigação filosófica. Sua produção acadêmica inclui mais de 200 artigos de pesquisa, além de cerca de 30 livros organizados e números especiais de periódicos acadêmicos.