Esta é a primeira edição do Prêmio de Filosofia do Brasil, Filosofia Maravilhosa. Este prêmio ocorrerá a cada dois anos, contemplando os melhores trabalhos em filosofia do país, aberto a todas as áreas da filosofia, e a qualquer pessoa radicada no Brasil. Professores e estudantes de filosofia são todos bem-vindos, mas também acadêmicos de qualquer área, assim como pessoas não universitárias.
O objetivo deste prêmio é promover a filosofia articulando unidade conceitual e pluralidade temática, favorecendo o diálogo entre diferentes tradições filosóficas e incentivando a reflexão metafilosófica sobre definição, explicação e análise racional, sem excluir o recurso a metáforas, analogias, aporias. Diante da crescente fragmentação da filosofia contemporânea, marcada pela especialização excessiva e pela perda de comunicação entre áreas, torna-se necessário retomar uma questão estruturante capaz de integrar diferentes campos sem reduzi-los. A questão a partir da qual a filosofia se originou com Sócrates e Platão — “O que é isto?” (ti esti) — funciona, nesse sentido, como um núcleo metodológico transversal para o desenvolvimento do entendimento.
Este prêmio é organizado conjuntamente com o Congresso Mundial de Filosofia What is it? That's the Question! (O que é isto? Eis a questão!) realizado na cidade de Rio de Janeiro a cada dois anos.
Os candidatos deverão submeter um texto de 5 a 10 páginas, (2.500 / 5.000 palavras) em português, com o título “O que é X?”, tratando de uma noção X livremente escolhida.
• Recomenda-se aos candidatos consultar os detalhes do projeto ligado ao congresso, em particular os onze procedimentos metodológicos sugeridos.
• A utilização de imagens e diagramas é bem-vinda, cf. "Imaging Philosophical Discourse"
• Os candidatos deverão enviar, até o dia 21 de junho de 2026, o artigo em formato Word para: jyb.ppgf@gmail.com
Os critérios de avaliação para a atribuição dos prêmios serão os seguintes:
Originalidade
Qualidade do estilo
Adequação a metodologia do congresso O que é isto? Eis a questão!
Prof. Dr. Dr. André Martins Vilar de Carvalho, PPGF / UFRJ, Rio de Janeiro, RJ
“Foi muito bom ver o alto nível e a variedade de perspectivas e de objetos filosóficos abordados nos ensaios, a originalidade das abordagens, o esmero nos argumentos. Leituras agradáveis e enriquecedoras. Parabenizo a todos os participantes e aos organizadores do prêmio.”
Prof. Dr. André Leclerc, Posfil/UnB, Brasília, DF
“A qualidade dos ensaios inscritos no concurso é surpreendente. Não foi nada fácil selecionar os melhores trabalhos e, entre eles, aquele merecedor do Prêmio. A diversidade dos participantes mostra que a reflexão filosófica pode florescer em todas as idades, reunindo diferentes experiências, perspectivas e modos de pensar em torno de questões fundamentais.”
Prof. Dr. Andre Nascimento Pontes, Dpto de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) , Manaus, AM e PPGFIL da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), CE
“Foi uma satisfação contribuir com um projeto dedicado a uma das mais importantes ferramentas da atividade filosófica: a análise conceitual. Em muitos casos, o ponto de partida de grandes descobertas filosóficas é a mera demanda pela definição de um conceito. Perguntar 'O que é isto?' pode nos levar muito além do que possamos inicialmente conceber.”
Prof. Dr. Waldomiro José da Silva Filho, PPGF / UFBA , Salvador, BA
“A leitura dos artigos inundou o meu espírito de entusiasmo: é muito bom ver pessoas de diferentes gerações usando as velhas ferramentas da filosofia para inventar e enfrentar novos problemas nesse nosso mundo caótico e incerto. Isso me mostrou a vitalidade da nossa comunidade filosófica.”
Prof. Dr. Nythamar de Oliveira, PUC / Porto Alegre, RS
“Aprendi bastante com todos os ensaios, tendo sido provocado a pensar filosoficamente e a rever as minhas intuições e crenças ponderadas!”
Os três melhores artigos serão selecionados para apresentação de uma palestra no Congresso Mundial de Filosofia What is it? That's the Question! que ocorrerá no Rio de janeiro, de 27 a 31 de julho de 2026.
Medalha de Ouro (oferecido: passagem + hospedagem + isenção da taxa de inscrição + publicação do artigo pela Springer)
Gilberto Lourenço Gomes, Universidade Estadual do Norte Fluminense, "O que é um condicional ?"
O artigo “O que é um condicional?” merece a medalha de ouro da primeira edição do Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa por oferecer uma contribuição original, tecnicamente sofisticada e filosoficamente relevante.
O texto se destaca, em primeiro lugar, pela qualidade da análise lógica e semântica. O autor parte de definições correntes de dicionários, examina a estrutura da tabela-verdade do condicional material, discute os paradoxos da implicação material e da implicação estrita, e conduz o leitor, com clareza notável, até uma proposta formal própria. A exposição é rigorosa sem ser obscura: temas complexos como possibilidade, contingência, necessidade, pressuposição, negação de condicionais e relação entre linguagem natural e sistemas formais são apresentados com didatismo, precisão e elegância.
A originalidade do artigo reside sobretudo na distinção entre condicionais implicativos e condicionais concessivos, bem como na proposta de definições formais específicas para ambos. Em particular, a tese de que um condicional implicativo pressupõe a contingência do antecedente e do consequente permite evitar dificuldades clássicas associadas ao condicional estrito de Lewis, especialmente os casos em que antecedentes impossíveis ou consequentes necessários geram condicionais verdadeiros sem relação semântica efetiva entre suas partes. Com isso, o artigo avança de modo próprio sobre a tradição de Filo, C. I. Lewis, Austin e Stalnaker, sem se limitar a uma mera revisão histórica.
Outro mérito importante é o uso exemplar de diferentes procedimentos metodológicos afinados com o espírito do congresso O que é isto? Eis a questão! O artigo mobiliza definições, análise conceitual, reconstrução histórica, formalização simbólica, exemplos da linguagem natural, distinções tipológicas e até um provérbio alemão — “Wenn das Wörtchen ‘wenn’ nicht wär’, wär’ mein Vater Millionär” (“se a palavrinha ‘se’ não existisse, meu pai seria milionário”) — como instrumento heurístico para iluminar a natureza do condicional. Esse recurso mostra sensibilidade filosófica, pois revela que a pergunta “O que é um condicional?” não pertence apenas à lógica formal, mas também à estrutura ordinária do pensamento, da linguagem e da imaginação de possibilidades.
A adequação metodológica é, portanto, muito forte. O texto responde diretamente à pergunta “O que é X?” por meio de uma investigação rigorosa sobre a essência de um conceito filosófico fundamental. Ele não trata o condicional apenas como um operador técnico da lógica, mas como uma forma de pensamento sobre possibilidades, explorando a relação entre linguagem natural, raciocínio ordinário e sistemas formais.
Por essas razões, o artigo merece a medalha de ouro: trata-se de um trabalho de filosofia de alto nível, tecnicamente sólido, conceitualmente original e metodologicamente exemplar, que combina clareza expositiva, sofisticação lógica e genuína contribuição filosófica.
Medalha de Prata (oferecido: hospedagem + isenção da taxa de inscrição):
Ana Flávia Silva Alves Pereira, Universidade Federal de São João del Rei, "O que é Inteligência Artificial?"
O artigo “O que é Inteligência Artificial?” merece a medalha de prata da primeira edição do Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa por reunir, de modo raro e feliz, qualidade literária, densidade conceitual e plena adequação ao espírito metodológico do projeto “O que é isto? Eis a questão!”.
Trata-se, antes de tudo, de um texto de excelente estilo filosófico. A autora constrói uma narrativa envolvente, iniciada em uma cena cotidiana — o café frio, a tela iluminada, o cursor que responde, o guardanapo rabiscado — e a transforma progressivamente em uma investigação filosófica sobre a natureza da Inteligência Artificial. Essa estratégia não é mero ornamento literário: ela cumpre uma função filosófica precisa, pois mostra que a questão “O que é Inteligência Artificial?” emerge da experiência concreta de nosso tempo, isto é, do encontro cotidiano com máquinas que falam, respondem, simulam raciocínio e nos obrigam a reconsiderar o que entendemos por inteligência, linguagem e compreensão.
A originalidade do artigo está em tratar a IA não simplesmente como problema técnico, computacional ou instrumental, mas como um espelho normativo: um dispositivo que reflete a estrutura de nossa razão sem propriamente habitá-la. A autora formula com grande força a ideia de que a IA contemporânea domina a sintaxe, manipula padrões, simula coerência e mobiliza a memória textual da humanidade, mas permanece separada da experiência vivida, da normatividade, da vulnerabilidade, do trauma e da forma de vida que tornam possível o sentido humano. Essa distinção entre desempenho linguístico e participação efetiva no espaço das razões constitui o núcleo filosófico mais forte do texto.
O diálogo com Turing, Searle, Descartes, Wittgenstein, Brandom, McDowell, Heidegger, Borges, Ogden e Richards é conduzido com fluidez e pertinência. A autora não acumula referências de maneira externa; ao contrário, integra-as organicamente ao desenvolvimento da questão. Turing aparece no contexto da performance do pensamento; Searle, na diferença entre sintaxe e semântica; Wittgenstein, na noção de forma de vida; Brandom e McDowell, na dimensão normativa da racionalidade; Heidegger, na ausência de uma existência situada; Borges, na imagem de uma biblioteca sem leitor interno. O resultado é uma reflexão conceitualmente articulada e ao mesmo tempo acessível.
A adequação metodológica é exemplar. O artigo responde diretamente à pergunta “O que é Inteligência Artificial?” por meio de diversos procedimentos valorizados pelo projeto: definição, análise de palavras, tipificação, analogia, provérbio, piada filosófica, diagrama de Venn, quadrado de oposições e reflexão metafilosófica. A IA é examinada não apenas como objeto técnico, mas como noção filosófica situada na interseção entre linguagem, lógica, consciência, corpo e normatividade. O uso dos diagramas reforça a clareza da argumentação e mostra como a exposição filosófica pode ganhar força por meio de imagens conceituais.
O ponto culminante do ensaio está na inversão final da pergunta socrática. A autora começa perguntando à máquina “O que és tu?”, mas termina mostrando que a verdadeira questão talvez seja dirigida a nós mesmos: “O que sou eu?”. Desse modo, a investigação sobre a IA converte-se em uma reflexão sobre a própria humanidade. A máquina torna-se um espelho no qual reconhecemos, ao mesmo tempo, a potência e o limite de nossa razão.
Por essas razões, o artigo merece a medalha de prata: é original, elegante, filosoficamente rigoroso e extremamente atual. Ele mostra que a pergunta “O que é Inteligência Artificial?” não pode ser respondida apenas por engenheiros ou cientistas da computação, mas exige uma investigação filosófica sobre linguagem, sentido, normatividade e vida humana.
Medalha de Bronze (oferecido: isenção da taxa de inscrição)
Celso de Oliveira Vieira, Universidade Federal de Minas Gerais, “O que é o ajudar?"
O artigo “O que é o ajudar?” merece a medalha de bronze da primeira edição do Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa por sua combinação rara de originalidade filosófica, rigor metodológico e relevância para a ética normativa contemporânea.
O texto se destaca por abordar a questão “O que é ajudar?” a partir de uma perspectiva inovadora: em vez de buscar apenas uma definição abstrata do conceito, procura determinar empiricamente onde as ações de ajuda se situam na taxonomia das ações morais. Para isso, examina se o ajudar deve ser compreendido como obrigação imperfeita, ato supererogatório ou cortesia cívica, retomando ainda os conceitos correlatos de suberogação e permissão imperfeita. Essa abordagem confere ao artigo uma dimensão simultaneamente ética, metaética e metafilosófica.
A originalidade do trabalho reside sobretudo no uso da filosofia moral experimental em um domínio no qual predominam análises conceituais tradicionais. O autor operacionaliza categorias ético-normativas complexas por meio das variáveis de custo e frequência, submetendo-as a testes empíricos com 120 participantes. Trata-se de um procedimento pouco comum em ética normativa, mas aqui aplicado de modo claro, bem estruturado e filosoficamente pertinente. O estudo não abandona a reflexão conceitual; ao contrário, procura enriquecê-la mediante dados sobre o senso comum moral.
O artigo também se mostra metodologicamente consistente. A discussão articula literatura especializada sobre supererogação, obrigações imperfeitas, cortesia cívica e suberogação, apresenta cenários experimentais bem delimitados, utiliza análise estatística cuidadosa e extrai consequências filosóficas relevantes dos resultados obtidos. A conclusão de que o ajudar moralmente relevante pertence principalmente ao campo das obrigações imperfeitas — devendo ser realizado “por vezes”, mas não necessariamente sempre — oferece uma contribuição original para o debate sobre a exigência moral da beneficência.
Além disso, o texto se ajusta de maneira exemplar ao espírito do prêmio e do congresso “O que é isto? Eis a questão!”, pois transforma a pergunta “O que é ajudar?” em uma investigação conceitual, normativa e metodológica. O artigo não apenas responde a uma questão filosófica; ele também propõe um modo de investigar conceitos morais, mostrando como a pergunta socrática pode dialogar produtivamente com métodos empíricos contemporâneos.
Por essas razões, o artigo merece a medalha de bronze: é original, bem fundamentado, metodologicamente ousado e filosoficamente fecundo, oferecendo uma contribuição singular à ética normativa e à reflexão metafilosófica sobre o modo como conceitos morais podem ser analisados.
Lançar um novo projeto é sempre um desafio. Há riscos, incertezas e imprevistos; há também a esperança de que uma ideia encontre ressonância. Por isso, é com grande satisfação que avaliamos positivamente a primeira edição do Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa.
Recebemos 26 ensaios, todos de boa qualidade, provenientes de diferentes regiões do país e dedicados a uma ampla variedade de temas. Esse resultado mostra não apenas o interesse despertado pela proposta do prêmio, mas também a originalidade, a diversidade e a vitalidade da filosofia praticada no Brasil. A pergunta “O que é X?”, simples em sua formulação e profunda em suas consequências, revelou-se um ponto de encontro fecundo entre estilos, áreas, tradições e modos distintos de fazer filosofia.
Agradeço sinceramente a todas as pessoas que participaram desta primeira edição, contribuindo para o sucesso do prêmio com seus textos e reflexões. Agradeço também aos membros do júri, que aceitaram a difícil tarefa de analisar cuidadosamente todos os trabalhos em um prazo bastante curto, com seriedade, competência e dedicação.
Esta primeira edição confirma que o Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa já nasceu como uma iniciativa promissora, capaz de valorizar a criação filosófica no país e de incentivar novas formas de reflexão conceitual.
Jean-Yves Beziau, PPGF/UFRJ, Rio de Janeiro, RJ
Organizador do Prêmio de Filosofia do Brasil — Filosofia Maravilhosa