Olá, caro(a) aluno(a) do Ensino Médio. Seja bem-vindo(a) a mais uma lição da disciplina de Empreendedorismo II, do curso Técnico em Agronegócio. Como vimos na última lição, nessa parte da disciplina, faremos uma retomada dos conteúdos. Neste momento, nos aprofundaremos mais em temas referentes a sua atuação profissional mais próxima.
Na lição passada, conhecemos algumas características do Empreendedor no mundo globalizado, atualizando, assim, as características aprendidas em nosso primeiro momento de aula, lá na primeira parte da disciplina. Na lição de hoje, o objetivo é trazer a você algumas características específicas do Empreendedor que atua no agronegócio, ou ainda do Empreendedor Rural, aquele empreendedor que trabalha com ações voltadas ao desenvolvimento e atuação no setor Rural. Vamos juntos seguir em nossa caminhada de construção conjunta do conhecimento!
Considere um empreendedor que atua no ramo do agronegócio. Será que suas experiências se equiparam às experiências de um empreendedor? Ele é o mesmo que o empreendedor que atua numa grande empresa? Será que é mais fácil empreender no setor rural ou será que os desafios enfrentados são mais difíceis? Quais serão os desafios encontrados pelos empreendedores que decidiram atuar no setor do agronegócio? Será que demanda por habilidades diferenciadas em relação aos outros tipos de empreendedores?
Pense comigo. Imagine que você é um pequeno produtor leiteiro, e agora decidiu diversificar e começar a produzir queijo. Será que essa mudança pode ser considerada uma inovação? Será que você pode passar a ser chamado de Empreendedor Rural? Vamos juntos explorar essas indagações na lição de hoje! Preparado(a) para mergulhar neste universo?
O case de hoje trata-se de um estudo real realizado por Menezes (2015), na cidade de Santa Maria (Rio Grande do Sul), e em seu distrito de Santa Flora. Na ocasião, foi relatado como ocorreu o processo de transformação dos pequenos produtores – sobretudo daqueles que atuavam com várias culturas – para empreendedores do agronegócio voltados à produção de soja.
Essa mudança de direção foi impulsionada por diversos fatores, entre eles, fatores ligados aos elevados custos de produção. O sojicultor de Santa Flora, antes um pequeno produtor policultor por meio do arrendamento, tornou-se um grande produtor de soja e empreendedor do agronegócio.
Esse redirecionamento de atividade ocorreu, principalmente, pelo fato deste produtor estabelecer relações com instituições financeiras – bancos – e cooperativas. Isso permitiu a mecanização de várias etapas do seu processo produtivo e possibilitou, assim, uma busca cada vez maior, por terras para arrendamento. Essa relação com bancos e cooperativas proporcionou a aquisição de insumos mais modernos, através da obtenção de financiamento, e também, possibilitou articular a produção, buscando obter o máximo de lucratividade.
Contudo, acontece que essa mudança desencadeou uma série de desafios. As máquinas começaram a ficar ociosas e, com isso, despertou-se um interesse em adquirir mais terras, com o objetivo de utilizar as máquinas e assim, maximizar sua utilidade. Dessa forma, segundo Menezes (2015), esses produtores passam de agricultores voltados à subsistência, ou ao pequeno comércio local, para grandes arrendatários sojicultores, buscando intensivamente a maximização dos lucros. O que também foi visto pelas empresas e organizações financeiras, uma vez que, ao se financiar a produção agrícola fomenta-se a obtenção de lucro da própria instituição financiadora.
Escolhi trazer esse estudo, pois ele demonstra muito bem a atuação do empreendedor no setor do agronegócio. Nele fica evidente a busca pelo aumento da produtividade e lucratividade no cultivo da soja, e demonstra como isso pode impactar em setores diversos como a territorialização de uma região ou as atividades desenvolvidas em cada período ou local.
Assim, como existem vários tipos empreendedores, o empreendedor que atua no agronegócio pode ser categorizado como um tipo bem específico. Esse indivíduo pode assumir a identidade de um agricultor ou pecuarista que se especializou ou apresentou características empreendedoras no desenvolvimento de sua atividade, ou ainda, ser um empreendedor que, inserido em sua rede de negócios, decidiu atuar no setor rural.
Embora tenha a sua relevância percebida há muito tempo, até os anos 1990, no Brasil, o setor rural não era muito desenvolvido. A principal causa era a falta de crédito e políticas voltadas para o setor, mas a transformação começou com a implementação de programas como o PRONAF (Programa Nacional da Agricultura Familiar), que embora possua muitas limitações, fomenta comportamentos empreendedores no setor rural brasileiro, ou ainda dentro do agronegócio.
As principais barreiras para um agricultor familiar – ou pequeno produtor rural –, se tornar um empreendedor rural de sucesso, segundo Menezes (2015), geralmente estão ligadas a alguns fatores, tais como:
Ausência de liderança.
Capacidade de assumir riscos.
Falta de apoio familiar.
Inexistência de redes de relacionamento interpessoais.
Baixa educação formal.
Sendo assim, podemos elencar alguns fatores como de suma importância para transformação do pequeno produtor em um empreendedor rural, por exemplo:
A implementação de políticas públicas direcionando recursos para perfis mais empreendedores.
O favorecimento de avaliações objetivas e subjetivas dos resultados da alocação de recursos.
O desenvolvimento de incubadoras de negócio.
A promoção de cursos de formação.
A promoção de ações de apoio da educação gerencial.
No entanto, essa passagem de agricultor familiar para empreendedor rural não é algo que pode ser considerado como natural e simplificado, ou seja, não é possível dizer que todo produtor rural é um empreendedor potencial. É necessário muito esforço para que ocorra esse processo de mudança. Isso porque, o produtor tradicional, às vezes, tem uma grande resistência às mudanças, além de dificuldade em deixar de conviver com os processos com os quais já está acostumado, o que afeta a produtividade e o desenvolvimento econômico e social rural (MENEZES, 2015).
Até mesmo nesta etapa do estudo, é possível que surjam questionamentos como por exemplo: Como posso pensar em um produtor rural, sobretudo da agricultura familiar, em relação a um empreendedor rural, principalmente se o pequeno produtor rural utilizar de mão-de-obra manual, da própria família, viver da renda de sua própria propriedade ou da agricultura de subsistência? Será que um empreendedor rural não é alguém que participa de uma produção maior, realizando mudanças estruturais no sistema produtivo?
Acontece que, como já vimos em nossa disciplina, empreender é inovar, é fazer algo de uma maneira diferente que seja mais eficiente ou que traga resultados superiores aos já existentes. Sendo assim, isso não exige que a inovação seja algo totalmente revolucionário.
Podemos pensar em um produtor rural ainda pequeno e atuante no setor de leite. Caso ele consiga começar a produzir queijo, já está demonstrando uma atitude empreendedora de inovação e um tanto quanto revolucionária, consideradas as suas particularidades.
Sendo assim, podemos dizer que a inovação e o empreendedorismo no meio rural se tornam um tanto quanto mais simples, pelas condições rudimentares que ainda se encontram nas pequenas propriedades rurais. Isso não quer dizer que é mais fácil empreender nesse ramo, pois, por outro lado, as dificuldades também são maiores. No entanto, o que quero que você compreenda é que este cenário indica que existe um maior campo de atuação a ser explorado no meio rural em comparação com grandes centros urbanos, pois muitas vezes o que poderia ser considerado como uma atividade comum em alguma grande indústria, no meio rural, pode ser tido como uma inovação e, portanto, uma atividade empreendedora.
Nesse sentido, Menezes (2015) destaca que o produtor rural precisa saber visualizar as oportunidades que aparecerem, sendo assim, é necessário ter uma diversificação em sua produção, ao mesmo tempo que mantém a qualidade dos produtos, para que seja possível expandir o seu mercado para grandes centros urbanos, transmitindo confiança e segurança ao consumidor final. Dessa forma, torna-se extremamente relevante que o produtor rural procure meios de profissionalizar-se e capacitar-se, a fim de aprimorar as suas estratégias e buscar resultados cada vez melhores.
Se analisarmos, os produtores rurais já utilizam técnicas empreendedoras há muito tempo, porém não as reconhecem, não entendem o seu potencial e muitas vezes, não aprenderam teorias antes da sua elaboração, simplesmente aprenderam as viram na prática. Segundo Brandendurg et al. (2007), uma solução encontrada pelos produtores rurais, sobretudo os pequenos, é a venda de porta em porta, sendo vista pelos clientes como uma vantagem em relação a receber os produtos direto do produtor em suas casas e ainda com a possibilidade de a obtenção de acordos de plano mensais com pagamento, muitas vezes, posterior ao da data da compra. Entretanto, talvez o maior destaque é em relação à qualidade dos produtos, da diferenciação em relação ao nível de processamento agroindustrial ou a utilização de agrotóxicos existentes nesses produtos.
Silva (2010) também destaca que o empreendedor rural precisa visualizar as oportunidades, ter habilidades para começar e recomeçar muitas vezes, ser capaz de divulgar o seu produto de maneira eficiente, ser resiliente e assumir riscos calculados, sempre demonstrando uma liderança e entusiasmo, além de um desejo de crescer em todo tempo. É necessário que o pequeno produtor rural diversifique a sua atuação, para que seja possível aumentar a sua margem de lucro e, consequentemente, a rentabilidade de sua propriedade. E, isso ele conseguirá trabalhando com produtos de qualidade e tendo como possibilidade a venda a grandes consumidores.
Ele deve atuar em sua propriedade, desempenhando funções como se estivesse administrando uma empresa, ou seja, cada setor sendo responsável por realizar corretamente as suas funções, em momento oportuno, e em quantidade e velocidades corretas. Deve ainda, obter renda não apenas de um único produto, mas também, de produtos alternativos que possam garantir maior visibilidade e valor ao produto principal comercializado. Por exemplo: se um produtor trabalha com a produção de leite, deve também manter a alimentação adequada das vacas, que serão considerados recursos produtivos e indispensáveis para a produção do produto principal da propriedade, o leite.
Sendo assim, é necessário cuidar da pastagem e todo o produto excedente pode ser comercializado. Sobretudo, o empreendedor rural deve investir em seu conhecimento, fazer cursos de formação profissional, trabalhar em organizações formalizadas, participar de cooperativas e associações, obtendo apoio e divulgando o seu trabalho, para potencializar a sua atuação.
Em resumo, podemos diferenciar o empreendedor que atua no agronegócio dos demais empreendedores, devido aos fatores de riscos que estão expostos, ao grau de complexidade que atuam e aos recursos disponíveis ou necessários para sua atuação. Lembrando que, o empreendedor rural ou empreendedor que atua no agronegócio, muitas vezes está exposto a maiores riscos, devido a fatores da própria atividade, porém encontra um grau de complexidade menor de atuação, em relação a outros tipos de empreendimento, ao mesmo tempo que possui uma maior dificuldade na captação de recursos necessários para o desempenho de sua atividade.
Como vimos, o empreendedor no setor do agronegócio é um empreendedor atípico, ou seja, um empreendedor que possui as suas particularidades. Dessa forma, torna-se extremamente importante que você, enquanto Técnico(a) em Agronegócio, conheça a atuação do empreendedor rural para saber auxiliá-lo nesse processo de empreender e obter sucesso em sua caminhada, ou ainda, para que você possa empreender sabendo como proceder na atividade, ou quem sabe, ainda, atuar simultaneamente com as duas situações, ou seja, você atuar em algo seu, e ainda, auxiliar seus vizinhos de propriedade – quem sabe até montar uma parceria, associação ou cooperativa com eles.
Sendo assim, após compreender a importância de compreender o quanto é importante conhecer o empreendedor e suas particularidades, como desafio desta lição, deixo a você a seguinte missão: faça uma lista com 10 características do empreendedor tradicional, típico de centros urbanos, e uma com 10 características do empreendedor que atua no ramo do agronegócio.
Após elaborar essa lista, identifique quais características podem ser comuns aos dois tipos e quais os diferenciam. Com isso será possível que, de uma maneira simples e objetiva, você resuma os conteúdos aprendidos na lição de hoje. Você pode compartilhar o que encontrou em comum com seus colegas de sala, e descobrir se eles encontraram alguma característica em comum, diferente das que você percebeu. Te desejo sucesso na execução da sua tarefa e te espero na próxima lição de nossa disciplina!
BRANDENDURG, A. et al. Ruralidades e questões ambientais: estudo sobre estratégias, projetos e políticas. Brasília: MDA, 2007, p. 197.
MENEZES, L. J. M. de. De colono a empreendedor do agronegócio: a transformação do agricultor familiar em sojicultura no distrito de Santa Flora – Santa Maria/RS. 2015. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências naturais e exatas. Programa de Pós-graduação em Geografia e Geociências, Rio Grande do Sul.
SILVA, N. P. da et al. A importância do empreendedor rural para capacitar, desenvolver e equacionar estrategicamente os recursos sustentáveis, gerando renda e qualidade de vida. Campus Pato Branco: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2010.