A chamada Ciência Tradicional surgiu como uma forma de oposição ao modelo de ciência que imperava na época medieval, caracterizada por ter uma visão orgânica do mundo, independente dos fenômenos materiais e espirituais, cuja estrutura científica pautava-se nas ideias de Aristóteles e nos dogmas das Igreja Católica, em que o mundo teria uma estrutura finita e hierarquicamente ordenado.
Com os avanços nos estudos científicos, a visão do mundo medieval não estava mais acompanhando as diversas transformações que ocorriam naquele tempo (Capra, 1982). A Revolução Científica teve início com Nicolau Copérnico e posteriormente, com Galileu Galilei ao oporem-se à concepção geocêntrica de Ptolomeu e da bíblia, revelando que o planeta Terra não está no centro do universo e é apenas um entre milhares de planetas no espaço. Assim, a fonte da verdade deixou de ter origem divina e passou a ter o homem como centro, a razão humana. O mundo seria então, regido por leis matemáticas e universais, não teocêntricas. A relação Deus-Homem dá lugar à relação Homem-Natureza (Florentino, 2007).
Esta forma de ciência, também chamada de Ciência Moderna durante os séculos XVII e XIX, busca as leis naturais que pudessem compreender o funcionamento do Universo. Esta compreensão caracteriza-se pela expressão “simbólico-matemática” (Pereira; Gioia, 1994; Urbano, 1995). O método científico passa a ser o tema central. Além disso, o uso da razão, os dados sensíveis e a experiência são as questões que marcaram o pensamento filosófico do período moderno.
Atualmente, a Ciência Tradicional continua vigorosa e responsável por ser a diretriz de inúmeras pesquisas pelo mundo, tendo mais de 400 anos de história. O paradigma da Ciência Tradicional possui três dimensões: Simplicidade, Estabilidade e Objetividade.
O pressuposto da Simplicidade salienta que, por detrás de um universo complexo a ser explorado, a compreensão dele se dá ultrapassando as aparências complexas (simplificação), através da separação em partes (atomização), retirando o objeto de estudo de seu contexto, objetivando a busca pelo ladrilho elementar com o qual o universo é constituído. Separando as partes do todo, é possível a classificação de cada aspecto numa categoria (disjunção). Um bom sistema de categorias é constituído de categorias excludentes dentro de si. Numa perspectiva maior, é possível dizer que, quando surge uma nova teoria da ciência, se for reconhecida como aceitável, a anterior já não é mais adequada e deve ser descartada. Quando o cientista encontra um fenômeno complexo, é necessário reduzi-lo ao mais simples possível para ser compreendido (redução).
O cientista trabalha com situações estáveis e permanentes, com sistemas que admitem um estado de equilíbrio. Os sistemas são concebidos como simples e separados, cabendo ao cientista ir variando os supostos fatores causais do fenômeno que se quer entender, a fim de encontrar as leis simples de funcionamento desses sistemas.
Neste paradigma há a crença numa causalidade linear, em que cada fenômeno observado corresponde a uma causa e que o mesmo fenômeno produz efeitos, são as chamadas relações causais lineares. Quando o efeito estudado é causado por um fenômeno específico, chama-se de causa eficiente. O estudo das causas eficientes levaram ao estabelecimento de leis e princípios que permitiram a manipulação dos fenômenos e promover modificações no mundo.
O mundo pode ser conhecido e estudado apenas de modo racional (racionalidade), para manter a coerência lógica das teorias, trabalhando para eliminar a imprecisão, a ambiguidade e a contradição do discurso científico, mantendo-se um equilíbrio (lógica homeostática). Há contradições lógicas e paradoxos na pesquisa científica, para lidar com isso, há a teoria dos tipos lógicos ou teoria dos níveis lógicos do filósofo Bertrand Russell.
O pressuposto da Estabilidade afirma que ciência trabalha com a crença de que o mundo é estável e que nele, os fenômenos ocorrem com regularidade. O mundo é ordenado, cujas leis de funcionamento, simples e imutáveis, podem ser conhecidas como relações funcionais entre variáveis. Assim, numa relação funcional entre dois fatores quaisquer, é possível dizer que um deles varia em função do outro.
O cientista possui o dever de explicar, prever e controlar a ocorrência dos fenômenos do universo. Ou seja, é necessário traçar uma relação causal, em que busca-se o como e o porquê dos fenômenos ocorrerem de uma determinada maneira, sendo capaz de fazer a previsão do fenômeno.
O trabalho de pesquisa do cientista por vezes o obriga a estudar os fenômenos em laboratório, variando os fatores e exercendo o controle sobre as variáveis que possam interferir em sua pesquisa. Através da experimentação, cria-se uma situação artificializada, onde as hipóteses são testadas, sendo confirmadas ou não. Ao priorizar a consideração dos fatos, garantindo a objetividade de suas afirmações e corrigindo possíveis delírios lógicos, é possível estabelecer a verificação empírica dos fenômenos. Quando o cientista reproduz seus experimentos e chega aos resultados, o mesmo quantifica as variáveis e as relações entre elas (quantificação).
Há também na ciência tradicional a noção de determinação e de reversibilidade dos fenômenos. A determinação diz que o fenômeno é regido por leis e determinado por suas condições iniciais, sendo possível prevê-lo, ao conhecer suas propriedades. A reversibilidade afirma que, se o cientista interferir ou inverter a manipulação do fenômeno (controlabilidade), produzirá o retorno do fenômeno ao seu estado inicial. Ao controlar o fenômeno, há a crença de que seu comportamento será determinado pelas instruções que recebe do ambiente, sendo este natural ou manipulado, sendo chamado de determinismo ambiental.
O pressuposto da Objetividade destaca que é possível conhecer objetivamente o mundo “tal como ele é na realidade”, sendo um critério de cientificidade. É uma forma de distanciamento da opinião do cientista, sendo necessário o mesmo desenvolver uma visão abrangente e diferenciar o objetivo do ilusório, separando sua subjetividade do percurso da pesquisa. Há a crença de que tudo que existe e ocorre no universo, é real e independe de quem o está observando (realismo do universo).
A função do cientista seria de “des-cobrir” a realidade (descoberta científica), atingindo uma representação da realidade que seja a melhor possível e trabalhar para descobrir essa mesma realidade. Há uma realidade única, uma única descrição, uma única verdade sobre o universo.
No intuito de garantir se determinada afirmação científica é verdadeira, o procedimento para se chegar a essa afirmação deve ser reproduzida por diversos cientistas diferentes que possam chegar ao mesmo resultado (fidedignidade). Assim, a afirmação pode ser considerada confiável e verdadeira, de fato.
Referências:
Esteves de Vasconcellos, M. J. (2002). Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. Papirus Editora.
Capra, F. (1982). O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 447p.
Florentino, J. A. (2007). Da simplicidade à crescente complexidade dos fenômenos do mundo: A necessidade de um pensamento mais complexo. CS Online-Revista Eletrônica de Ciências Sociais, (2).
Pereira, M. E. M., & Gioia, S. C. (2006). Do feudalismo ao capitalismo: uma longa transição. Garamond.
Urbano, Z. (2006). Teoria do conhecimento. Porto Alegre: EDIPUCRS.
Ribeiro, W. C., Lobato, W., & Liberato, R. D. C. (2010). Paradigma Tradicional e Paradigma Emergente: Algumas implicações na educação. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências (Belo Horizonte), 12, 27-42.
Os cientistas introduziram a visão Heliocêntrica, a influência da força da gravidade, explicou o movimento dos planetas, da lua e vários outros fenômenos;
A base da teoria do algoritmo que determina a apresentação do seu feed no Instagram foi a partir dos estudos do Paradigma tradicional;
O desenvolvimento de vacinas e de inúmeros medicamentos tem como base os pensamentos do Paradigma tradicional;
A coleta de dados sociodemográfico como o realizado pelo Censo permitindo a formulação e acompanhamento de políticas públicas e distribuição de recursos para os entes federativos;
Presente também nas Artes com construção de sonetos e outros poemas até o estudo da ciência musical, que foca parte de seus estudos para as referências internas dos parâmetros musicais (altura, duração, intensidade e timbre).
Fontes:
Dificuldade de adequar o método tradicional às ciências biológicos e ciências humanas;
Não há como o pesquisador ser 100% neutro;
Como a ciência é uma atividade humana e o ser humano é falho, logo a ciência também possui suas falhas e limitações.
Referências:
Esteves de Vasconcellos, M. J. (2002). Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. Papirus Editora.
Gutierrez, G. L., Almeida, M. A. B. D., & Marques, R. F. R. (2016). Apropriação das ciências humanas pela Educação Física: análise dos processos de classificação no Brasil entre os anos de 2007 e 2012. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 30, 937-949.
Marconi, T. (2020). Errar é humano – e faz parte da ciência. Link aqui
Oliveira, M. B. D. (2008). Neutralidade da ciência, desencantamento do mundo e controle da natureza. Scientiae studia, 6(1), 97-116.
Galileu Galilei (1564-1642) - Biografia clique aqui
Francis Bacon (1561-1626) - Biografia clique aqui
René DesCartes (1596-1650) - Biografia clique aqui
Isaac Newton (1642-1727) - Biografia clique aqui