Fonte: The Conversation US
No dia 20 de setembro de 2020, o líder da oposição russa Alexei Navalny foi internado às pressas após passar mal em um avião. Depois de 32 dias em terapia intensiva no hospital, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, na sigla em inglês) confirmou que Navalny, de 44 anos, foi envenenado com um agente nervoso do tipo Novichok. Mas afinal, o que é esse agente, e o que significa "NOVICHOK"?
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Nazista foi responsável pela criação e alta produção dos agentes G: Tabun, Sarin e Soman. Até abril de 1945, quase 9000 toneladas de Tabun, 1300 toneladas de Sarin e 20 toneladas de Soman foram produzidos em massa pelo regime nazista, porém nunca foram utilizados no período de guerra. O curioso fato da inutilização dessas potentes armas geram discussões até hoje e algumas das explicações são:
experiência negativa pessoal de Adolf Hitler, que foi seriamente afetado pelo gás mostarda durante a Primeira Guerra Mundial
medo de retaliação
subestimação da superioridade alemã em armas química
Após a Segunda Guerra Mundial e com o colapso da resistência nazista, as forças soviéticas e aliadas capturaram as instalações de produção de NA (agentes nervosos) e tecnologias dos alemães, incluindo arquivos científicos e especialistas neste campo. Assim, tanto os EUA, como Inglaterra e a União Soviética reorganizaram rapidamente o potencial militar desses agentes e começaram a trabalhar no desenvolvimento e estocagem de seus próprios suprimentos. Até a década de 1950, os agentes químicos eram unitários, ou seja, o agente tóxico era colocado na munição e armazenado até o seu uso.
Fonte: Artigo "Chemical warfare agente NOVICHOK - mini-review of available data" (2018) https://doi.org/10.1016/j.fct.2018.09.015
Os problemas resultantes da produção, armazenamento de agentes químicos unitários, bem como da necessidade de descarte caro de munição química defeituosa ou vencidos impulsionaram os EUA lançar o projeto denominado Binary Lethal Weapons System. Para o propósito deste projeto foram selecionados dois NA's - sarin e VX. Essa tecnologia envolve dois ou mais precursores químicos não tóxicos fisicamente separados um do outro. A etapa final da síntese do agente tóxico a partir dos precursores citados é realizada imediatamente antes ou no processo de disparo da munição.Assim, as armas binárias (BWs) evitam a toxicidade não intencional para aqueles que manuseiam, transportam ou descartam as armas.
Na época, quando o programa de armas binárias dos EUA estava no auge, vários projetos de pesquisa de longo prazo ocorreram também na URSS. Entre eles, os mais importantes no campo das ciências químicas foram FLUORINE (em russo “ FTOR ”) e PHOSPHORUS (em russo “ FOSFOR ”). Esses projetos eram de alta prioridade, não só do ponto de vista da economia nacional, mas também do setor militar.
Agentes unitários são eficazes por conta própria e não necessitam de mistura com outros agentes. Em contraste das binárias, as armas unitárias são munições químicas letais que produzem um resultado tóxico em seu estado existente .
Contêm dois produtos químicos não misturados e isolados que não reagem para produzir efeitos letais até que misturados. Isso geralmente acontece pouco antes do uso no campo de batalha, assim é considerado mais seguro para uso e transporte.
Porém, a necessidade de estabilização de suas criações, como o agente VX russo (isômero do agente VX descoberto pelos ingleses) ,que era muito sensível à umidade e conversões de suas armas para forma binária, levou ao início e escalada do projeto ultrassecreto FOLIANT entre 1973 e 1976. O objetivo principal deste projeto foi a síntese da terceira geração de NAs com maior toxicidade. Mais de 200 químicos e engenheiros estiveram envolvidos no programa FOLIANT. De acordo com as fontes disponíveis, pelo menos três armas químicas unitárias foram sintetizadas ,porém nunca foram publicadas (A 230, A 232 e A234).
Uma desvantagem significativa dos agentes A era sua baixa estabilidade no ambiente . Por esse motivo, foram desenvolvidos formas binárias desses agentes (duas substâncias inertes que são combinadas previamente antes do uso para criar o agente nervoso ativo) . Assim, pelo menos 5 tipos de agentes A binários foram preparados. Este programa tinha o nome de código NOVICHOK.
Em setembro de 1992, um artigo descrevendo que a URSS viola o CWC continuando a produzir e testar as NAs de terceira geração foi publicado no jornal Moscow News. O autor desta publicação foi Vil Mirzayanov, pesquisador do Instituto Estadual de Pesquisa de Química Orgânica e Tecnologia. Imediatamente após a publicação do artigo, ele foi preso por alta traição, mas devido a um grande eco público alguns meses depois, ele foi libertado e emigrou para os EUA
Para ler mais sobre o relato de Vil Mirzayanov, acesse: https://www.kommersant.ru/doc/3600889
Uma vez que existem discrepâncias até hoje na estrutura química exata dos agentes A, existem duas possíveis rotas sintéticas plausíveis que levam a um único tipo de estrutura:
Se os agentes A pertencerem ao grupo das oximas fosforilada, sua síntese provavelmente envolveria três etapas. As duas primeiras etapas levariam à preparação de precursores de agentes A (Novichok) pela reação de tricloreto de fósforo com diol apropriado e subsequente substituição nucleofílica do átomo de cloro por flúor. Os 2-fluoro-1,3,2-dioxafosfolanos resultantes reagem prontamente com dicloro (fluoro) nitrosometano.
2. De acordo com Mirzayanov, um desertor dedicado às armas químicas soviéticas, os agentes A pertencem ao grupo dos fosforamidatos ( Fig. 7 ). Em seu livro State Secrets. Um Insider's Chronicle of Russian Chemical Weapons Program , ele alega que para a preparação do A 232 foi aprovada uma reação de metil fosforocianidofluoridato com N , N- dietiletanimidamida. O último intermediário é um produto da reação de dietilamina e acetonitrila
Essas substâncias atacam uma enzima chamada acetilcolinesterase, cujo papel é fundamental pois destrói continuamente a acetilcolina, molécula que atua na contração dos músculos. Acetilcolina é o neurotransmissor em todas terminações nervosas autonômicas preganglionares (receptores nicotínicos), todas terminações parassimpáticas e algumas terminações nervosas simpáticas posganglionares (receptores muscarínicos), junção neuromuscular (receptores nicotínicos) e em algumas sinapses do SNC (Sistema Nervoso Central). Ele é tão perigoso pois quando o agente nervoso bloqueia essa enzima, a acetilcolina se acumula, afetando o sistema nervoso: os músculos ficam descontrolados, causando espasmos e podendo levar à morte por asfixia.
Os agentes nervosos, como o Novichok, e penetram no corpo através dos tratos respiratório e gastrointestinal, assim como pela pele. Como não possuem cheiro ou gosto, a penetração no corpo não é percebida pelo indivíduo, apenas quando os sintomas começam a se manifestar.
Os efeitos muscarínicos da intoxicação englobam sintomas como miose (constrição da pupila) sem a possibilidade de acomodação, broncoespasmo, náusea, vômito, dor abdominal, diarreia, incontinência de urina e fezes, palidez, salivação, suor excessivo, lacrimejamento e aumento da pressão sanguínea. Já os efeitos nicotínicos ocorrem na forma de tremores e fraqueza muscular, cãibras e paralisias. Efeitos no sistema nervoso central incluem tontura e severa dor de cabeça, ansiedade, desordens na fala e no balanço corporal e inibição das atividades respiratórias (onde paralisia respiratória leva ao coma e subsequente morte).
Andrei Zheleznyakov, pesquisador militar russo após ser exposto ao Novichok-5 de uma coifa com defeito (1987) .
Fonte: Roth A, McCarthy T. “It”s got me’: the lonely death of the Soviet scientist poisoned by novichok. The Guardian. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2018/mar/22/andrei-zheleznyakov-soviet-scientist-poisoned-novichok
O protocolo geral de tratamento da intoxicação por agente nervoso inclui abordagens farmacológicas e não farmacológicas e se dá em três partes.
Como qualquer exposição a agentes nervosos, descontaminação direta é importante para prevenir a exposição continuada do paciente e da equipe médica de emergência. Roupas expostas aos agentes nervosos podem emitir vapores presos por até 30 minutos. Apesar da maioria dos agentes nervosos se decomporem lentamente em água, aumentar o pH da solução descontaminante pode acelerar a hidrólise. A loção de descontaminação cutânea reativa usada com frequência contém Dekon 139 e uma pequena quantidade de monooxima de 2,3-butandiona. Uso de alvejante em pó deve ser evitado porque pode hidrolisar o agente nervoso para metabólitos tóxicos. No caso dos agentes Novichok, a hidrólise produz ácido hidrofluórico, ácido hidroclórico, cianeto de hidrogênio e oximas que podem continuar a produzir efeitos colinérgicos nos indivíduos expostos.
O tratamento farmacológico envolve a administração de drogas anticolinérgicas, como a atropina intravenosa (2-6 mg a cada 5-10 minutos) até a resolução da bradicardia, broncorreia e o broncoespasmo.. Convulsões devido ao agente nervoso podem ser prevenidas e tratadas com diazepam. Os estoques de atropina hospitalar podem rapidamente ser depletados no tratamento de vítimas envenenadas devido às grandes doses desse medicamento tipicamente requeridas para reverter os sintomas colinérgicos e o volume de pacientes procurando tratamento médico após o ataque de um agente nervoso.
Terapia com antídoto (contraveneno) na forma de administração intravenosa de 1-2 g de pralidoxima (2-PAM), ou 250 mg de obidoxima, é indicada para restaurar a atividade da enzima acetilcolinesterase. Para manter concentrações adequadas no plasma, a pralidoxima deve ser administrada a cada 3-6 horas ou como uma infusão contínua por pelo menos 24 horas após a última dose de atropina. Alguns especialistas têm sugerido que oximas reativas - como a 2,3-butanediona monoximato (disponível apenas na Europa) - são oximas preferidas para um terapia com antídoto.
CHAI, P. C. HAYES B.D. et al. Novichok agents: a historical, current, and toxicological perspective. Toxicology Communications; Volume 2, 2018. https://doi.org/10.1080/24734306.2018.1475151
NEPOVIMOVA, E. KUCA,K. Chemical warfare agente NOVICHOK - mini-review of available data. Food and Chemical Toxicology; 2018. https://doi.org/10.1016/j.fct.2018.09.015
BBC - British Broadcasting Company - NEWS Brasil. O que é o novichok, a substância neurotóxica usada contra ex-espião russo e agora encontrada em casal na Inglaterra [Internet]. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44719613