Ao pensar sobre o ambiente de criação de arte no século 21, o seminário Olhar Artificial foi idealizado a partir de questões como: de qual forma a I.A. muda o cenário artístico? Como a arte de I.A. afeta a linguagem visual e escrita? Como manter a ética da autoria no treinamento de máquinas de arte generativa?
Essas questões estão relacionadas a conceitos fundamentais de como entendemos a arte. A relação entre público e obra está lentamente sendo afetada pela arte generativa artificial, contendo ramificações no mundo artístico que ainda estão se desenvolvendo. Dentro desse contexto, a importância de trocas e conversas sobre o tema fica mais clara do que antes. Ao discutir e elaborar questões ao redor do uso de I.A., cria-se um olhar crítico ao mundo no qual vivemos. Questões propostas no começo da computação como as de Alan Turing, como “máquinas conseguem pensar?” se tornam datadas com o advento de máquinas de I.A. capazes de aprender, conversar, responder, gerar imagens nunca antes vistas e até oferecer suporte psicológico, já que isso pode ser considerado uma forma de pensamento. Talvez, o mais interessante seja a pergunta proposta no título da ficção científica de Philip K. Dick: “androides sonham com ovelhas elétricas?”. Essa pergunta busca compreender se máquinas conseguirão pensar além da razão, já que apesar de algumas contestações e problemas em distinguir entre as duas atividades, há diferença entre pensar e imitar o ato de pensar, uma diferença que o próprio Turing admite, apesar de defender em seus textos a imitação.
No entanto, esse pensamento artificial, entendendo que uma I.A pensa por si, se assemelha ao dos humanos? Se sim, o que isso significaria para nós, estaria toda a cognição e consciência pré-determinada? E as questões do inconsciente, já que elas agem por circuitos de uma máquina, teria ela um inconsciente? E, se ela não se assemelha e nós utilizamos ela cada vez mais, estaríamos aproximando nós da forma de pensar das I.As?
A Inteligência Artificial nas artes desencadeia uma questão fundamental referente ao papel do criador, pois com a automatização do processo criativo e o distanciamento do artista com a confecção da obra cabe questionar o que restará para o humano além do prompt. O papel da autoria está intrinsecamente relacionado com arte e subjetividade, no entanto, quando surge uma inteligência artificial que se torna intermediária entre artista e obra, surge o problema de saber em que momento a obra deixa de ser do artista e passa a ser da I.A. Se a obra de arte se tornar da I.A., isso indica uma possível nova e mais intensa automatização de uma indústria e mercado, que estão atrelados a forma que definimos humanidade, consciência e subjetividade.
Ao discutir a criação de arte em I.A., também é importante pensar sobre como a prevalência de obras de arte generativa afetam a formação estética do público e eventualmente padrões de linguagem e concepções do que é belo ou agradável. Com artes feitas por I.A. se tornando mais presentes em obras de grande apelo comercial, cabe perguntar e avaliar o impacto estético e linguístico em nós. Outro ponto de discussão é o modo de se pensar e usar a I.As, considerando a forma como elas processam e geram conteúdo. As I.As vêm se tornando uma espécie de curadoras de informação, no entanto, o usuário não tem acesso aos critérios curatoriais. Além disso, há também a questão dos direitos de imagem e como há casos de infrações nesses direitos por I.As. Tais problemas vêm se tornando cada vez mais frequentes e alvo de amplo debate sobre propriedade intelectual e direito autoral.
Utilizando essas questões como ponto de partida, este seminário busca promover discussões sobre o efeito do I.A. nos campos artísticos e na lógica criativa moderna. Espera-se que por meio de trocas e palestras, um novo olhar sobre o tema emerja, levando em consideração a multiplicidade de opiniões e ramificações que esse novo tipo de tecnologia traz consigo.