Nascida em Sacramento (MG) em 1914. Carolina Maria de Jesus foi uma importante escritora brasileira. Filha de analfabetos, começou a estudar aos 7 anos e precisou largar a escola no segundo ano, mas aprendeu a ler e escrever. Em 1937, sua mãe faleceu, e Carolina decidiu se mudar para São Paulo (SP), onde construiu sua própria casa utilizando madeira, papelão e outros materiais. Para sustentar a família, ela saía à noite para coletar papel, guardando revistas e cadernos antigos que encontrava. Em suas folhas, Carolina escrevia sobre sua vida na favela e seu dia a dia, somando mais de vinte cadernos com testemunhos de seu cotidiano. Um desses cadernos deu origem ao seu livro mais famoso, Quarto de Despejo, publicado em 1960, traduzido para treze idiomas e vendido em mais de quarenta países. Carolina aspirava se tornar cantora e atriz, mas faleceu em 1977, vítima de insuficiência respiratória.
— JARID ARRAES (2017)
Cinquenta e cinco anos depois da publicação de Quarto de despejo, o interesse pela obra da escritora Carolina Maria de Jesus continua se desdobrando. Carolina hoje é revisitada sob diversos ângulos, dada a riqueza de sua produção inédita e de sua vida de altos e baixos. No vídeo produzido pela equipe de Pesquisa Fapesp, a historiadora Elena Pajaro Peres fala sobre aspectos da vida e obra da escritora, ressaltando a importância de verificar aspectos que vão além dos livros e do período em que a autora viveu em São Paulo. Veja como seu trabalho continua a instigar pesquisas.
Sua história verdadeira
Começou em Sacramento
Na Rural comunidade
Foi de Minas um rebento
Era o ano de quatorze
Inda mil e novecentos.
Pouco tempo se passava
Desde o fim da escravidão
E, portanto, o que existia
Era a dor da servidão
O racismo dominava
Espalhando humilhação.
(...)
No ano de trinta e sete
Carolina então mudou
Para capital, São Paulo
Onde muito batalhou
Construiu o seu barraco
E ali se instalou.
Na favela Canindé
Sua vida foi sofrida
A maior luta diária
Era busca por comida
Uma vida esfomeada
Sempre muito deprimida.
Carolina ainda tinha
Três filhos para cuidar
Todos de pais diferentes
Pois jamais quis se casar
Só pensava em liberdade
Para fazer seu desejar.
O que mais ela gostava
Era ler, era escrever
Sendo maior passatempo
E registro do viver
Nas palavras mergulhava
Para assim sobreviver.
Como era catadora
Pelos lixos encontrava
O papel e o caderno
Que por fim utilizava
Como o famoso diário
Onde tudo registrava.
(...)
Nem por isso ela parava
Precisava escrever
E sonhava com sucesso
Com dinheiro para comer
Pois a vida da favela
Ela não queria ter.
(...)
Carolina é um tesouro outra linha para o povo brasileiro
É um orgulho para as mulheres
Para o povo negro inteiro
Referência como exemplo
Dê valor testamenteiro.
E por fim com muito orgulho
O Cordel já vou fechando
Com sinceridade espero
Que termine interessando
Se você não conhecia
O que estive aqui contando.
Fonte:
ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. São Paulo: Editora Pólen, 2017.