Ao descrever a história da Escola Francesa de economia e ao listar alguns de seus principais representantes ao longo das décadas, essa apresentação geral permite a compreensão dos princípios que fundamentam a tradição francesa em economia e a influência desses princípios sobre a evolução histórica do liberalismo.
Como notou Murray Rothbard, os economistas franceses forneceram uma contribuição majoritária ao desenvolvimento da teoria econômica, um fato que os historiadores relutam ainda em reconhecer.
A Escola Francesa nasce de uma dupla crítica: às concepções mercantilistas de um lado e à situação econômica da França do Antigo Regime de outro.
O mercantilismo, apoiado na França especialmente por Colbert e Montchrétien (os quais o nome está também associado ao nacionalismo econômico), sustentava que o enriquecimento de um país envolvia necessariamente uma balança positiva no comércio exterior e o acúmulo de ouro e prata. Seu molde era a ignorância econômica e a inveja nacional, que se exprimem no sofismo de Montaigne: "Ninguém lucra sem que alguém tenha prejuízo". Seus meios eram o protecionismo, os subsídios à exportação e a exploração colonial.
A situação econômica francesa, uma das piores da época, passou a chamar a atenção dos reformadores e dos humanistas a partir da metade do século XVII. Os campos sofriam, o artesanato estava estagnado, e a população em geral vivia em condições deploráveis.
No século XVII, vozes começaram a se elevar entoando uma crítica ao protecionismo e ao intervencionismo, e defendendo a liberdade e o mercado. Entretanto, é somente a partir de Boisguilbert e Vauban que uma teoria econômica mais formal é proposta.
A fibra social da Escola Francesa aparece claramente em diversos fundadores. Compartilhando percepções semelhantes a respeito da economia de sua época, e a respeito das causas de sua decadência (protecionismo, mercantilismo, etc.), esses fundadores não chegaram a formar uma corrente de pensamento ou um movimento específico, mas lançaram as bases para o surgimento da fisiocracia e dos movimentos liberais que os sucederam. Dentre esses fundadores, Boisguilbert, Vauban e d'Argenson se destacam, justamente por construírem toda sua reflexão econômica sobre a observação da miséria aguda que os franceses enfrentavam em sua época.
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Pierre le Pesant, senhor de Boisguilbert, também conhecido simplesmente como Pierre de Boisguilbert, foi um legislador, juíz e oficial de justiça francês, reconhecido como um dos primeiros formuladores do conceito de mercado econômico.
Nascido em Rouen em 1646, e descendente de uma família nobre da Normandia, Boisguilbert foi um estudioso da miséria que assolava a França em seu tempo, tendo lhe atribuído duas causas principais: a pressão fiscal desmensurada sobre as classes mais baixas e as restrições trazidas ao comércio, especialmente ao comércio do trigo.
No primeiro domínio, Boisguilbert defendeu que a intervenção estatal deveria ser mais prudente, para suprimir os abusos e instaurar a igualdade perante os impostos; no segundo domínio, Boisguilbert alegou que a prudência seria inútil, poque o comércio deveria ser completamente livre.
Assim Boisguilbert escreve: "[Temos] dado muita pouca atenção à repartição das contas, e atenção demais ao comércio de trigo e de licores, dos quais era absolutamente necessário deixar a economia à natureza, como se deve fazer em toda parte." Factum da França, cap. 4.
Tendo governado a província de Rouen de 1690 até quase a sua morte, em 1714, Boisguilbert analisou pessoalmente as condições da economia local da região, supervisionando as plantações e conversando com os mercadores da província. Essa experiência embasou não só suas conclusões a respeito da economia francesa, como o levou a propor, como medidas para garantir a prosperidade na economia do país, a supressão das tarifas aduaneiras internas, a maior liberdade de comércio e a reformulação e simplificação do sistema tributário vigente.
Suas ideias e conclusões, resumidas em suas quatro grandes publicações, o Detalhe da França (1695), o Factum da França (1707), a Dissertação sobre a Natureza das Riquezas (1707) e o Tratado dos Grãos (1707), foram de forma geral ignoradas e condenadas pelos governantes e intelectuais de época em virtude do seu caráter radical e disruptivo.
Sébastien Le Prestre, conde de Vauban, ou simplesmente Vauban, foi um famoso marechal, construtor de fortalezas e cidadelas, e, fato menos conhecido, um economista.
Nascido em 1633 na região de Morvan, Vauban teve uma carreira de destaque como arquiteto militar, sendo o responsável pelo planejamento de cerca de uma centena de fortificações e instalações portuárias, além de ter dirigido pessoalmente a defesa das cidadelas de Lille em 1667, de Maastricht em 1673 e de Philippsburg em 1688. Seus feitos militares lhe renderam prestígio no reinado francês, recebendo o cargo de Comissário das Fortificações em 1678, e garantiram sua posição de destaque como um dos principais conselheiros do rei Luís XIV.
Interessado pelo destino das massas, Vauban também se dedicou ao estudo da economia e propôs, em 1695, em um breve livro de memórias, e depois em 1707, em seu Projeto do Dízimo Real, uma reforma audaciosa do regime fiscal: substituir os impostos existentes por uma única tacha proporcional à renda, um flat tax prévio, do qual as classes privilegiadas não estariam isentas. Seu projeto, fundado sobre alguns princípios simples, inspirado por suas conversas com Boisguilbert e pelo modelo chinês do assunto, foi rejeitado por seus contemporâneos. A proposta contida no Projeto do Dízimo Real levou Vauban à desgraça perante a corte e perante o rei, e ele faleceu no mesmo ano da publicação da obra, em decorrência de uma infecção pulmonar.
Nascido na Irlanda, em 1680, Richard Cantillon é, apesar da nacionalidade, considerado um dos principais economistas responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento econômico francês.
Tendo se mudado para a França em meados de 1710 e obtido cidadania francesa, Cantillon se destacou enquanto banqueiro e mercador, enriquecendo rapidamente por meio da especulação financeira proporcionada pela Bolha de Mississipi, que também lhe rendeu processos, acusações criminais e ameaças de assassinato ao longo de sua vida.
Muito influente no século XVIII, onde inspirou Quesnay, Turgot e mesmo Adam Smith, o Ensaio sobre a Natureza do Comércio em Geral, sua principal obra (escrita por volta de 1730, e publicada em 1755), foi esquecida durante quase um século antes de ser redescoberta por W. S. Jevons e depois admirada pela Escola Austríaca de Economia (principalmente por Hayek e Rothbard). O Ensaio, em seu conjunto, pode ser interpretado como uma das primeiras tentativas de elaboração de uma teoria geral de economia, sendo considerado o "berço da economia política".
Nele, Cantillon tem o cuidado de identificar o que ele chama de "leis gerais da economia", aquelas que pertencem à natureza das coisas, e não à realidade particular de um ou outro país. Nessa pesquisa, ele introduz igualmente diversos conceitos centrais para a compreensão da economia, como o empreendedor, ator central de uma economia de mercado, e os efeitos Cantillon, que mostram por que a inflação provoca uma redistribuição injusta das riquezas.
Sua obra recebeu diferentes avaliações. F.A. Hayek enfatizou as qualidades de seu trabalho e o situou como um precursor longínquo da Escola Austríaca de Economia. Edmond Rouxel viu nele um precursor dos fisiocratas. Por fim, Robert Legrand restituiu Cantillon ao meio termo entre o liberalismo dos fisiocratas e o mercantilismo de seus predecessores, na obra Richard Cantillon: um mercantilista precursor dos fisiocratas.
René Louis de Voyer de Paulmy, 2º marquês d'Argenson, foi um estadista e escritor francês, que ocupou, entre outros, os cargos de conselheiro do Estado, em 1719, e Secretário de Estado para Assuntos Externos de Luís XV de 1744 a 1747.
Precursor dos fisiocratas, de Adam Smith e dos economistas clássicos, aos quais ele legou a potente máxima laissez faire (deixai fazer), o marquês d'Argenson continua ainda desconhecido e seus méritos de economista atualmente não lhe são concedidos. Dar conta de sua obra não é, certamente, uma tarefa fácil. D'Argenson não é autor de nenhuma obra estritamente econômica, e é em suas Memórias, principalmente, que é preciso colher seus vislumbres sobre economia. Esses vislumbres, entretanto, são todos de grande valor, ilustrando um verdadeiro bom senso que frequentemente faz falta.
Partidário da liberdade de comércio, crítico das regulamentações estatais sobre a indústria e a agricultura, o marquês d'Argenson assinalou, na história do pensamento econômico, um marco importante, iniciando um movimento liberal que se expandirá com os Fisiocratas e Turgot, e, posteriormente, ao longo do século XIX, com toda a Escola Francesa de Economia.
De Vicent de Gournay (1712 - 1759), por muito tempo não se conservou senão uma fórmula: laissez faire, laissez passer ("deixai fazer, deixai passar"), que deveria resumir uma obra conhecida apenas por boatos. É que os escritos desse economista, muito cedo perdidos, não foram descobertos e publicados até 1976, pelo japonês Takumi Tsuda, permitindo um reexame tardio mas necessário. O estudo dessas novas fontes nos força a reconhecer em Gournay um dos pioneiros do liberalismo francês e o agente principal de sua introdução nas esferas intelectuais e administrativas da França do século do Iluminismo. Em face a uma França do Antigo Regime paralisada pelo excesso de impostos, de privilégios e de regulamentos, Gournay lutou pela liberdade do trabalho, liberdade do comércio e igualdade perante a lei.
Rico negociante, e nomeado em 1751 intendente de comércio, Gournay estudou em suas viagens a negócio as condições do comércio europeu e condenou, tanto em seus escritos quanto em sua atuação profissional, as corporações, os privilégios e as regulamentações sobre a atividade econômica, além de teorizar sobre a superioridade do trabalho livre e da iniciativa individual. Admirado por Voltaire, tido em alta estima posteriormente tanto pelos fisiocratas quanto por seus adversários, Vicent de Gournay foi também o professor do jovem Turgot, que deu continuidade à sua obra e aplicou, quando em sua passagem pelo ministério, os planos de reforma de seu mentor e amigo.
Em virtude de sua produção teórica, o legado de Gournay se perpetua pela sua influência sobre a difusão do saber econômico na França da metade do século XVIII, que se manifestou principalmente na criação do "Círculo de Gournay", um grupo de economistas inspirado pelo trabalho desse autor.
Considerada a primeira escola de pensamento econômico do mundo, a Fisiocracia também constituiu o nascimento da economia política científica. Não contentes em ter fornecido à economia política os fundamentos científicos, os Fisiocratas fizeram também um esforço considerável para sua popularização. Como lembrou Murray Rothbard, eles podem ser tidos como os primeiros defensores de uma teoria econômica de livre mercado.
A história da fisiocracia começa em 1757 com o encontro de dois homens. De um lado está François Quesnay, cirurgião e médico pessoal de Madame de Pompadour, a amante favorita de Luís XV. De outro está o Marquês de Mirabeau, aristocrata que se fez conhecer com um livro intitulado O Amigo dos Homens (1756). Os dois homens debatem e Mirabeau se afilia às ideias de Quesnay, se tornando seu principal propagandista.
De fato, o posto crucial de Quesnay na corte, assim como a fama de Mirabeau e a sua posição aristocrática, foram indispensáveis para dar ao movimento seu poder e influência. Desde então eles vão escrever: Quesnay produz o célebre Quadro Econômico (1758), esquematizando a circulação das riquezas na economia, e os dois publicam juntos a Teoria do Imposto (1759). Após um silêncio passageiro, devido à censura real — suas ideias não eram feitas para agradar os ministros — Quesnay e Mirabeau recrutam discípulos: Dupont de Nemours, Abeille, Mercier de la Rivière, Le Trosne, Baudeau, e passam a ser chamados de fisiocratas, em virtude de seu principal princípio político-econômico: physiocracy (a lei da natureza).
Com um quadro consistente de economistas e uma quantidade de companheiros influentes e simpatizantes, eles formam uma Escola, criam um jornal, as Efemeridades do Cidadão, e se reúnem periodicamente em salões para entregar artigos e discutir os ensaios uns dos outros. A partir de 1770, depois de alguns anos de sucesso, sua audiência se enfraquece e eles perdem força. O grupo conhece suas primeiras deserções e resiste cada vez menos às críticas. Seu jornal não aparece mais regularmente. É ao fim do período ativo do movimento, que, no entanto, deixará como legado, entre outras coisas, uma influência significativa sobre a Revolução Francesa.
François Quesnay (1693 - 1770) permanece célebre na história como o líder da primeira escola de pensamento econômico do mundo: a Fisiocracia. Instalado em Versalhes como médico pessoal da Madame de Pompadour, Quesnay deixa, à idade de 60 anos, as questões médicas para se interessar pela economia. Autor de artigos econômicos na Enciclopédia, ele não tardou em se tornar um nome de destaque na cena literária, proclamando ideias inovadoras e defendendo o direito natural e um liberalismo econômico em ruptura total com as instituições e as morais do Antigo Regime.
Aspecto marcante da teoria de Quesnay, assim como dos fisiocratas de maneira geral, é a importância atribuída à agricultura na economia, percepção decorrente da interpretação de que as commodities, ou seja, os bens reais que trocam-se entre si, e não o dinheiro, compõe a verdadeira riqueza.
Toda a aventura desse brilhante médico, que se tornou, pela força de suas ideias, conselheiro de príncipes e chefe reverenciado de um grupo de economistas, é contada em François Quesnay: Médico de Madame Pompadour e de Luís XV, Fisiocrata, de Gustave Schelle, um dos maiores especialistas dos economistas franceses do Século das Luzes. Ao fim do século XIX, o economista francês Yves Guyot publicou Quesnay e a Fisiocracia, retomando os melhores escritos de Quesnay em seguida à uma longa introdução onde ele situa Quesnay nas origens do liberalismo econômico da França.
Fisiocrata de primeira hora e braço direito de François Quesnay, o Marquês de Mirabeau foi esquecido e continua na sombra de seu filho, Honoré Gabriel Riqueti de Mirabeau, o orador revolucionário ao qual foram elevados monumentos e dedicadas pontes, praças e avenidas. Após ter adquirido celebridade com O Amigo dos Homens (1756), Mirabeau conhecerá Quesnay e se filiará à fisiocracia, da qual ele será desde então um dos defensores mais entusiastas, cedendo a sua residência como sede do grupo para reuniões semanais, nas tardes de terça-feira.
Destaca-se em sua produção, o livro Teoria do Imposto (1759), já citado, que chegou a render-lhe semanas de prisão em virtude de seu ataque visceral à tributação opressiva e ao sistema financeiro de “tax farming”, em que o rei vendia os direitos de tributar a firmas privadas ou “fazendeiros”. Sua soltura, na realidade, somente foi efetuada pela intervenção da Madame de Pompadour, que terminou se tornando uma significativa apoiadora do movimento fisiocrata.
Apesar de sua importância para a Fisiocracia como um dos primeiros e principais porta-vozes, Mirabeau contribuiu também para a queda de popularidade do movimento, em função de uma campanha difamatória movida contra ele por sua mulher e filhos que resultou em seu ostracismo público e na perda de credibilidade da Fisiocracia.
Nascido em 1739, Samuel-Pierre Dupont de Nemours se aporximou dos fisiocratas com a idade de vinte e quatro anos, se tornando um dos colaboradores mais próximos de François Quesnay, que, percebendo sua genialidade e sua tenra idade, depositou nele grandes esperanças para o futuro do movimento. Dupont foi um discípulo zeloso da doutrina do partido fisiocrata, esposando-a e defendendo-a em numerosos escritos, dentre os quais um panfleto periódico dirigido por ele, Efemeridades do Cidadão.
Espírito de inteligência profunda e acessível, ele associou-se a inúmeras personalidades proeminentes, como Turgot e Thomas Jefferson. No final de sua vida, foi exilado e encontrou a felicidade nos Estados Unidos, onde um de seus filhos viria fundar, com a assistência paterna, a Companhia Dupont, atualmente uma das maiores corporações do mundo.
Dentre alguns traços característicos de sua trajetória, pode-se citar sua oposição aos empréstimos concedidos durante a Revolução Francesa, sua correspondência com Jean-Baptiste Say, seu anti-escravismo vigoroso e audacioso, e suas conversas com Thomas Jefferson sobre a educação.
Fisiocrata nativo de Orleans, Guillaume-François Le Trosne compôs numerosas brochuras para defender a liberdade de comércio de grãos, dentre os quais as Cartas sobre as Vantagens da Liberdade de Comércio de Grãos e um panfleto intitulado A Liberdade do comércio de grãos, sempre útil e jamais nociva.
Autor considerado como menor no seio da escola fisiocrata, apesar de seu vasto conhecimento das questões de direito e da qualidade de sua defesa do livre mercado, ele foi esquecido pelos historiadores, mesmo depois que Jerôme Mille procurou lhe redescobrir compondo uma tese de título Um Fisiocrata Esquecido: G.-F. Le Trosne.
Entre os fisiocratas, devemos também mencionar Mercier de la Rivière, autor da Ordem Natural e Essencial das Sociedades Políticas, obra que defende uma doutrina de despotismo legal, assim como Nicolas Baudeau, o fundador do já mencionado Efemeridades do Cidadão, jornal que trouxe considerável visibilidade ao movimento fisiocrata.
De uma só vez filósosfo, economista e ministro de Estado, Turgot é uma personalidade de envergadura considerável. Colaborador da Enciclopédia, amigo próximo de Voltaire, correspondente regular de Condorcet, membro, apesar de sua relutância, da Fisiocracia, Turgot resplandeceu uma luz rara no seio da esfera intelectual francesa da segunda metade do século XVIII. Vez por outra intendente do distrito de Limoges, na região de Limusino, e posteriormente ministro de Luís XVI, ele também deixou, como administrador, um legado incomparável.
De fato, o primeiro ato de Turgot ao assumir o cargo de Ministro das Finanças em 1774, foi decretar a liberdade de importação e exportação de grãos. Como esclarece o preâmbulo de seu edito, elaborado por DuPont de Nemours, que à época era assessor de Turgot, a nova política de livre mercado era destinada:
"A inspirar e ampliar o cultivo da terra, cuja produção é a maior, real e certa, riqueza de um estado; parar manter a abundância de celeiros e a entrada de milho estrangeiro, para evitar a queda de preço que iria desencorajar o produtor; remover o monopólio, removendo a licença privada em favor da livre e completa competição, e mantendo entre os diferentes países essa comunicação de troca de excessos para necessidades que é tão compatível à ordem estabelecida pela Divina Providência." The Physiocrats, Henry Higgs (1897, p. 62. )
Influenciado pelos fisiocratas, colaborou com diversas obras referentes aos temas da tolerância civil e liberdade de comércio aplicada na agricultura. Em sua obra mais notável, Reflexões sobre a Formação e Distribuição das Riquezas, Turgot empreende uma análise sobre os princípios econômicos mais básicos e sua sua relação com o próprio desenvolvimento da sociedade, antecipando e possivelmente influenciando Adam Smith na elaboração de A Riqueza das Nações. Sua perspicácia intelectual e analítica lhe rendeu os elogios de Rothbard, encontrados no artigo O Brilhantismo de Turgot.
Como aponta Gérard Minart em seu artigo 1776: Um Ponto de Curva na História do Liberalismo, 1776 marca um ano decisivo na história da economia política. Neste ano, enquanto Turgot, nomeado ministro, reforma a economia francesa, e Jefferson conduz os Estados Unidos a uma revolução histórica, é publicada em Londres Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, de Adam Smith (influenciado diretamente pelas teorias fisiocratas que conhecera anos antes durante sua estada na França).
É assim que, em meio à industrialização crescente da economia francesa, às repercussões e desdobramentos da Revolução Francesa e em meio à difusão de movimentos políticos, econômicos e culturais que buscavam difundir suas visões particulares de sociedade ideal, o liberalismo francês se desenvolve significativamente no final do século XVIII e início do século XIX, encontrando nos industrialistas, nos ideólogos e no grupo de Coppet seus maiores defensores.
Reconhecido ainda em vida como um dos maiores economistas de seu século, Jean-Baptiste Say (1767-1832) trabalhou com temas importantes para a compreensão da economia, como o papel do empreendedor, a origem das crises e dos ciclos, e os conceitos de valor e preço. Seu mérito, entre outras coisas, decorre da formulação da Lei da preservação do poder de compra, também chamada de Lei de Say em sua homenagem.
Essa lei, resumidamente e nas próprias palavras de J-B Say, explica que "a mera circunstância da criação de um produto imediatamente abre um mercado para outro produto" (J. B. Say, 1803: pp.138–9), já que comerciantes e produtores, após lucrarem com suas vendas, passam a ter um maior poder de compra e tornam-se potenciais consumidores de outros mercados. Com isso, para Say, a produção, e não a oferta monetária, é o que possibilita a movimentação da economia, e o dinheiro, apesar de ter sua importância no processo, é apenas "uma momentânea nesse mercado de troca".
Say também foi o responsável pela formulação da teoria atualmente chamada de teoria liberal da luta de classes, desenvolvida posteriormente por seus discípulos Charles Comte e Charles Dunoyer. Tal teoria parte do princípio de que há somente dois meios para um governo aumentar a sua riqueza: fazer reinar a segurança e o respeito à propriedade, ou espoliar as outras nações e classes produtoras. Esse último sistema, diz Say, "é análogo àquele seguido pelas pessoas que [...] não produzem, mas saqueiam o que foi produzido por outros". Essa oposição será retomada sob o nome de luta de classes por Marx, que lhe modificará o conteúdo, atribuindo o papel de o predador não ao burocrata, mas ao burguês.
Em virtude do caráter de suas ideias e escritos, Say é colocado nas origens do industrialismo, principal corrente de pensamento econômica liberal da época, definida por Fábio Barbieri como "a crença de que a prosperidade das nações depende do estabelecimento de instituições sob as quais o desenvolvimento industrial possa florescer", implicando com isso na necessidade de instituições mais robustas aos efeitos nocivos da atividade política.
A influência de Jean-Baptiste Say sobre a ciência econômica foi considerável e o autor teve uma ligação próxima com os grandes nomes da ciência econômica da época, do fisiocrata Dupont de Nemours aos autores ingleses David Ricardo, Thomas Malthus e Thomas Tooke, com os quais trocou correspondências nas quais atuou ativamente, discutindo, explicando e tentando convencê-los de suas ideias.
Sua obra econômica se difundiu por toda a Europa assim como pelos Estados Unidos e, bem após sua morte, Say se tornou um autor de destaque para a Escola Austríaca, prefigurando notoriamente Ludwig von Mises, que resgatará seus escritos para apresentar uma defesa contra os argumentos intervencionistas de John Maynard Keynes. Mais recentemente, Ron Paul se serviu também da autoridade de Jean-Baptiste Say para explicar a crise de 2008 em um artigo intitulado: "Let the Markets Clear!". Além da produção econômica, J.-B. Say conta com muitos escritos relativos a temas não-econômicos, como a liberdade de imprensa e a moral.
Filósofo, político e militar francês, Destutt de Tracy (1754 - 1836) é considerado o principal autor da Tradição Francesa a desenvolver uma Metodologia Econômica com base filosófica.
Criador da Ideologia, a ciência das ideias, como ele chamou, e líder da Escola filosófica dos idealistas, da qual inclusive J-B Say fazia parte, Destutt de Tracy fundamentou suas ideias e teorias econômicas sobre uma compreensão subjetivista da ação humana, compartilhando muitos dos princípios que seriam desenvolvidos pela praxiologia de Mises um século depois.
Atuante como deputado na Assembleia dos Estados Gerais, e posteriormente como senador no período do Império, de Tracy foi sempre um crítico da intervenção do Estado e um consistente defensor da liberdade individual, o que o levou a ser perseguido tanto por Robespierre, no período de Terror na Revolução Francesa, quanto por Napoleão e seus seguidores mais tarde.
Assim como seus seguidores, de Tracy se preocupou com a disseminação de conhecimentos econômicos para a população, e dedicou seus esforços para a reestruturação das instituições francesas no período pós-revolução. Suas principais ideias concentram-se no Tratado de Economia Política (1823), obra que influenciará Thomas Jefferson, assim como nos comentários críticos do autor sobre O Espírito das Leis de Montesquieu.
O Grupo de Coppet, liderado por Madame de Staël e Benjamin Constant, foi, no início do século XIX, o primeiro grupo de pensadores europeus dedicado ao estudo da liberdade em todas as suas formas. Seu trabalho se concentrou nos problemas de estabelecer um governo constitucional limitado, na questão do livre comércio, do imperialismo e do colonialismo francês, na história da Revolução Francesa e de Napoleão, na liberdade de expressão, na educação, na cultura e na preocupação com a ascensão do socialismo e do Estado de Bem Estar Social pela Europa.
A história do Grupo de Coppet inicia-se após Madame de Staël, eminente romancista e ensaísta do iluminismo francês, ter sido banida da França por Napoleão em 1803, em virtude de suas ideias anti-imperialistas, passando a residir no Castelo de Coppet, a futura sede de reuniões do grupo, situado na comuna suíça de mesmo nome.
Muitos pensadores, poetas e estadistas de toda a Europa fizeram parte dessa aventura intelectual. Stendhal chegou a afirmar mais tarde, sobre os encontros do Grupo de Coppet: "Na minha opinião, esse fenômeno assume importância política. Se durasse mais alguns anos, as decisões de todas as academias da Europa se esvaneceriam" (Roma, Nápoles e Florença em 1817, 6 de agosto de 1817).
Membro central do Grupo de Coppet, Benjamin Constant é mais conhecido como filósofo do que como economista. Defensor do indivíduo em face do Estado, do laissez faire em matéria de economia e do Estado de Direito, Constant destacou a diferença existente entre o conceito de liberdade dos antigos e dos modernos e, se opondo aos pesados impostos, defendeu a primazia das funções puramente negativas do governo. Como filósofo, homem de letras e economista, sempre foi cético quanto à intervenção estatal e um crítico dos políticos de sua época. Mesmo não trazendo contribuições inovadoras à Tradição Econômica Francesa, Constant se destaca pela influência que exerceu política e filosoficamente para a continuidade das ideias liberais do século XVIII e pela contribuição deixada ao legado constitucional francês.
Herdeira indireta da Escola Fisiocrata do século XVIII e diretamente influenciada pelos Ideólogos da primeira metade do século XIX, a Escola de Paris marcou aquilo que é considerado o ápice da Tradição Francesa em economia.
Reunindo duas gerações de economistas, de Frédéric Bastiat à Yves Guyot, que representaram o que David Hart chamará de uma idade de ouro para a economia, a Escola de Paris forneceu uma contribuição inestimável para o pensamento econômico da época, trabalhando sobre temas diversos como a moeda, os bancos, a repartição de riquezas, as patentes, os ciclos econômicos, a educação e os impostos.
Organizada em torno de instituições como a Sociedade de Economia Política e dispondo de uma editora dedicada, a Editora Guillaumin, a Escola de Paris possibilitou uma estruturação e disseminação do conhecimento econômico liberal produzido à época, com uma verdadeira expansão do número de pesquisadores e de publicações orientadas para a defesa do laissez faire e da liberdade individual perante o Estado.
Gilbert Guillaumin (1801-1864) foi o principal editor dos economistas franceses da Escola de Paris e um artesão esquecido de seu desenvolvimento. Iniciando sua vida como funcionário de uma loja de ferragens, Guillaumin fundou uma livraria e, a partir de 1835, se lançou à edição com a ambição de publicar obras econômicas. Em 1841, participou da criação do Jornal dos Economistas, do qual também se tornou editor e diretor. No ano seguinte, esteve entre aqueles que fundaram a Sociedade de Economia Política, associação francesa que reuniu acadêmicos, gerentes e altos executivos de empresas para reflexão e debates sobre questões econômicas e sociais.
Guillauman publicou todos os grandes economistas franceses de sua época e editou, além do Jornal dos Economistas, coleções de referência: o Dicionário de Economia Política (com Charles Coquelin, 2 volumes), os Anais da Sociedade de Economia Política (16 volumes), e a Coleção dos Principais Economistas (15 volumes). A Gilbert Guillauman é concedido um papel de destaque na Escola de Paris, sendo descrito por Henri Baudrillart como o centro e o elo da escola liberal francesa, e por Richard Cobden como o ponto de convergência entre os amigos da economia.
Frédéric Bastiat (1801-1850) é considerado por muitos o autor central da tradição liberal francesa. Como pensador político, ele lançou uma luz viva sobre o papel da lei e da delimitação do Estado, antecipando, com justiça, o desenvolvimento do intervencionismo, do funcionarismo e do socialismo que aconteceria no século XX. Como economista, seguindo a obra de seu mestre Jean-Baptiste Say e concentrando sua reflexão sobre o consumidor, assim como sobre tudo o que "não se vê" na economia, Bastiat renovou o estudo de fenômenos essenciais como a criação de valor, a troca e a concorrência.
Com seu estilo satírico, levando os argumentos econômicos às últimas consequências para expor as falácias intervencionistas, Bastiat se destacou não só pela consistência interna de seus posicionamentos, como também pela sua visão sistêmica da economia, propondo sempre uma avaliação integrada de todos os setores da sociedade para identificar as consequências negativas de uma determinada decisão estatal.
Apesar de sua morte precoce, a produção literária de Bastiat é considerável, se destacando, entre outros, os títulos: A Lei, curto panfleto traduzido para dezenas de idiomas e com um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos; O Estado, de onde provêm sua célebre frase: "O Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver às custas de todo mundo"; e O que se vê e o que não se vê, que com clareza didática, através da não menos famosa história da vidraça quebrada, expõe as falhas das inúmeras teorias socialistas que tomavam forma no século XVIII. Pode-se também encontrar uma enésima ilustração do "estilo Bastiat" nos artigos leves e humorísticos do efêmero jornal Jacques Bonhomme, periódico coeditado por Bastiat e Molinari para esclarecer o povo sobre a situação política e econômica da França durante o período turbulento de revoltas e transições que marcaram a década de 1840.
Entre as ideias fundamentais de Bastiat, sua defesa do mecanismo de mercado aparece como uma das mais esclarecedoras para nossa época de retomada do socialismo e do intervencionismo, fornecendo uma teoria de harmonia social decorrente do correto funcionamento da economia. Contra aquilo que ele chamou de espólio legalizado, e ao qual continuamos sujeitos atualmente, ele defendeu a primazia da propriedade privada como instituição fundamental para a garantia de liberdade e prosperidade em toda sociedade. Bastiat ainda foi um crítico dos impostos pesados, do estado deplorável da educação nacional francesa, e da insustentabilidade da segurança social, que havia se tornado um poço sem fundo na economia da França.
A influência de Frédéric Bastiat sobre o pensamento econômico de seu tempo foi considerável. Em sua época, ele foi reconhecido como um mestre por seus pares, apesar de ter sido desconsiderado enquanto economista por seus críticos. Após ter sido esquecido em seu próprio país no início do século XX, Bastiat foi redescoberto nos anos 1960 nos Estados Unidos. Desde então se tornou uma das referências intelectuais da direita americana, influenciando especialmente a política de Ronald Reagan. No domínio da teoria, Bastiat foi saudado como um pioneiro da Escola de Escolhas Públicas e também da Escola Austríaca de Economia.
É sobretudo por seu livro Do Crédito e dos Bancos que conhecemos hoje o economista Charles Coquelin (1802-1852). Em seu livro, ele prolonga a análise de autores como Dupont de Nemours, Saint-Aubin e Jean-Baptiste Say, e reclama a adoção de um regime de perfeita concorrência entre os bancos, que lhes permitiria emitir notas livremente em concorrência uns com os outros, como pôde ocorrer na Escócia e nos Estados Unidos no passado. Nisso, Coquelin figura, junto com Jean-Gustave Courcelle-Seneuil, como o pioneiro de uma reflexão teórica ainda em curso e que divide os economistas austríacos.
Especialista de bancos, Charles Coquelin foi também muito envolvido com o movimento da ciência econômica de seu século. Em 1840, ele participou, com Frédéric Bastiat, Horace Say (filho de Jean-Baptiste Say) e Gilbert Guillaumin, da criação do Jornal dos Economistas e em 1848 se tornou um dos coautores do já citado periódico Jacques Bonhomme. Colaborou também com Guillaumin na edição do Dicionário de Economia Política (1854), soma magistral do conhecimento econômico de sua época, para a qual Coquelin escreveu numerosos artigos, tais como: Banco, Capital, Circulação, Comércio, Concorrência, Crédito, Crises comerciais, Troca, Economia Política, e Indústria.
Discípulo, colaborador e amigo pessoal de Bastiat, Gustave de Molinari (1819-1912) se impôs desde muito cedo sobre a cena dos economistas franceses, e isso apesar de suas origens belgas. Ao longo de sua carreira, Molinari foi o autor de uma centena de livros e panfletos sobre numerosos temas de economia e de política, se destacando pela sua defesa de um sistema de livre concorrência no fornecimento de justiça e segurança, funções estas sempre monopolizadas por qualquer Estado.
Essa ideia é exposta por Molinari a partir de 1849, em Da Produção da Segurança, livro considerado por Murray Rothbard e Hans-Hermann Hope um precursor do libertarianismo por propor justamente a possibilidade de abolição do Estado coercitivo através da absoluta concorrência entre os governos.
Entre seus escritos, se destaca também o clássico As Noites da rua São Lázaro, do mesmo ano, no qual Molinari derruba todos os preconceitos ideológicos tanto de socialistas quanto de conservadores, com uma defesa incondicional de todas as liberdades individuais e com uma crítica austera à simples existência de um Estado coercitivo, seja qual for seu espectro político.
Grande pacifista, Molinari também consagrou um trabalho maior para provar as razões da decadência da guerra nas sociedades capitalistas. Entre os outros numerosos temas aos quais Molinari trouxe uma contribuição meritória, pode-se citar o protecionismo: além de lhe refutar como economicamente desastroso e moralmente injusto, ele explicou como as medidas protecionistas nascem do clientelismo eleitoral, antecipando assim os desenvolvimentos futuros da Escola de Escolhas Públicas.
Morto em 1912, Molinari observou a França se afastar progressivamente do ideal de uma sociedade livre e foi bastante pessimista com o limiar do século XX. Apesar de tudo, continuou defendendo a propriedade, a liberdade e a paz.
Um século após sua morte, Gustave de Molinari se tornou, junto com seu mestre Frédéric Bastiat, um dos principais nomes da Escola Francesa de Economia Política, e goza de uma notável reputação entre os libertários até hoje.
Economista, editor chefe do Jornal dos Economistas, e Conselheiro de Estado a partir de 1879, hoje Jean-Gustave Courcelle-Seneuil (1813-1892) é sobretudo conhecido por ter teorizado sobre o Free Banking, ou seja, o desenvolvimento das instituições bancárias nas condições de mercado livre e competitivo.
Em O Banco Livre, Courcelle-Seneuil fornece as razões teóricas pelas quais ele é judicioso em liberalizar inteiramente a atividade bancária, e responde às objeções dos partidários do monopólio, prestando uma contribuição significativa às discussões iniciadas por Charles Coquelin.
O legado de sua obra e de seu pensamento e a prova de que a livre concorrência, mesmo no domínio bancário, pode trazer prosperidade, foi observado no Chile, onde Courcelle-Seneuil, fugindo do Golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851 na França, participou da aplicação de suas ideias, aconselhando o então Ministro das Finanças na remodelação do sistema bancário do país.
A contribuição de Courcelle-Seneuil não se resume a seus trabalhos sobre a moeda e os bancos, mas também abrange críticas ao protecionismo e ao socialismo, encontradas em um compêndio sobre a Riqueza das Nações de Adam Smith, em sua pequena brochura Definição da Ciência Social e em sua obra de introdução ao direito, Preparação ao Estudo do Direito: Estudo dos Princípios.
Retomado por Hayek, e debatido pelos economistas austríacos contemporâneos, os trabalhos de Courcelle-Seneuil formam um tratado de união notável entre a Escola Francesa do passado e a nossa época.
Economista, político e eminente pacifista, Frédéric Passy (1822-1912) alcançou já no início de sua vida, um lugar invejável na cena literária parisiense, muito em virtude da influência de seus tios, Antoine Passy (1792-1873), botânico e subsecretário de Estado, e Hyppolyte Passy (1793-1880), economista, deputado e Ministro das Finanças.
Ingressando muito cedo no Conselho de Estado, Passy redigiu artigos econômicos até se tornar professor de economia política em Montpellier, depois do que levou uma dupla carreira de economista e de defensor da paz em numerosas instituições pacíficas, como a Liga da Paz e da Liberdade (1867) e a Sociedade de Arbitragem entre as Nações (1870).
Autor de dezenas de trabalhos, Passy foi um pilar da economia política liberal na virada do século XX. Sua posição se tornou ainda mais invejável quando, em 1901, lhe foi atribuído, assim como a Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha, o primeiro Prêmio Nobel da Paz da história.
Entre suas obras mais conhecidas, podemos encontrar o livro Conversas econômicas de um avô, concebido como uma introdução à economia para os mais jovens, e também o Da Instrução Obrigatória, fruto de um debate que teve com Gustave de Molinari sobre a educação. Frédéric Passy igualmente foi um crítico do papel-moeda, como fica claro em seu livro O papel-moeda e a falsa-moeda.
Seu legado, entretanto, permanece sendo o esforço político despendido para evitar a escalada de conflitos em meio às tensões europeias do século XIX, manifestando na prática a ligação entre a defesa dos princípios econômicos do liberalismo e a defesa da paz entre as nações.
Jornalista, editor e político, Yves Guyot (1843-1928) é considerado o último grande representante da tradição francesa em economia política.
Pacifista, anticolonialista e grande defensor do laissez-faire na economia, Guyot foi, politicamente, tão inclassificável quanto seus predecessores, situando-se à extrema-esquerda após ter sido eleito ao cargo de deputado em 1855, apesar de seu ódio total pelo socialismo, ilustrado em sua obra A Tirania do Socialismo (1893).
Nomeado ministro das Obras Públicas em 1890, Guyot tentou introduzir reformas liberais especialmente sobre a questão do transporte ferroviário francês, obtendo pouco sucesso em virtude da impopularidade de suas propostas. Essa experiência marcante foi relatada em seu livro Três Anos no Ministério das Obras Públicas, Experiências e Conclusões (1859).
Entre suas obras, destacam-se também As tribulações do Sr. Faubert: O Imposto sobre a Renda (1896), onde Guyot antecipa os efeitos da sobre-taxação (desincentivo, exílio fiscal, etc.) com uma precisão notável; A moral e a Concorrência, opúsculo no qual Guyot fornece uma defesa moral do capitalismo; e Nossos preconceitos econômicos (1872) e Os lugares-comuns (1873), em que Guyot combate as concepções econômicas falaciosas enraizadas na mentalidade da sociedade europeia, e que perduram até a atualidade.
Nomeado presidente da Sociedade de Economia Política de 1917 a 1921 e de 1925 a 1928, Guyot também teve grande destaque pelas análises políticas que empreendeu sobre os acontecimentos mais marcantes de sua época, em que sempre evidenciou a defesa do individualismo e a crítica militante às tendências políticas e culturais que se manifestavam pela Europa.
Para o encerramento dessa apresentação geral, nós gostaríamos de fornecer algumas explicações sobre as causas do fim da Tradição Francesa nos primórdios da Primeira Guerra Mundial. Um tal fenômeno não pôde ser causado senão por um conjunto de fatores. Os principais nos parecem ser cinco:
1) De início, pouco antes do estopim do primeiro conflito mundial, a cena dos economistas franceses vai conhecer uma sucessão de perdas infelizes: Frédéric Passy morre em 1912, assim como Gustave de Molinari, e eles serão seguidos por Paul Leroy-Beaulieu e Emile Faguet em 1916. Esses homens foram os últimos constituintes da segunda geração, que se eclipsou em parte em 1890 com as mortes especialmente de Henri Baudrillart, Michel Chevalier, e Léon Say. Essa segunda geração da Escola de Paris, que havia substituído com talento Bastiat, Coquelin e outros autores da metade do século, não deixou praticamente nenhum sucessor imediato.
2) O fim do século XIX marca uma ascensão progressiva do estatismo, do socialismo e, mais geralmente, do intervencionismo sob todas suas formas. A Comuna de Paris em 1870, a organização em Paris da Segunda Internacional em 1889, e a criação da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária) em 1905, são epifenômenos desse desenvolvimento massivo das ideias antiliberais e antieconômicas na França dessa época. Permanecendo ligados ao laissez-faire, à propriedade privada e à liberdade individual, os economistas franceses liberais aparecem assim como partidários de ideias antiquadas, atrasados na história.
3) A ascensão das tensões nacionais em toda a Europa e a explosão de raiva violenta que se materializou na Primeira Guerra Mundial arruinaram o ideal pacifista que estava no coração da doutrina liberal dos economistas franceses. Sobre esse fundamento, os economistas franceses foram tratados como idealistas, sonhadores e portanto foram excluídos dos debates internacionais que se seguiram.
4) A editora Guillaumin, órgão da escola francesa, foi gerenciada pelas filhas do fundador Gilbert Guillaumin a partir de 1864. Ela será fundida com a editora Félix Alcan em 1910. Desde então, a audácia editorial e o projeto inicial foram fortemente transformados e, sem uma editora forte as apoiando, as publicações liberais francesas perderam o destaque e a disseminação pela cena europeia.
5) A matematização da ciência econômica, severamente criticada pelos autores da tradição francesa, se impôs muito amplamente no mundo anglo-saxão. Os economistas da tradição francesa foram desde então rejeitados como não-científicos, embora sua metodologia tenha sido, algumas décadas mais tarde, saudada como a única verdadeiramente científica pelos autores da Escola Austríaca de Economia, como Ludwig von Mises.