No livro-
Pássaros em viagem
Muito falamos de esperança,
muito gostamos de falar de esperança,
muito gostamos de sentir esperança.
Eu não sei se quero falar,
gostar de falar,
ou gostar de sentir esperança.
Não será triste viver de esperança,
correr o risco de sentir a vida passar
“tendo esperança”?
A esperança
pode tornar-se falsa e empurrar-nos
para o hábito e não para a ação.
Não será triste viver a vida inteira
apenas esperando?
“Há que ter esperança” —
como isto me soa a submissão!
Pois, «Os miseráveis não têm outro remédio
a não ter a esperança»,
já dizia William Shakespeare.
Eu não usaria uma expressão tão forte
quanto William Shakespeare,
mas sim que
«Os conformistas não têm outro remédio
a não ter a esperança».
Durante a criação do mundo,
foi criada a liberdade?
Então, não há que viver suportando.
Ainda que a força energética do Universo
tudo purifique,
tudo liberte,
se permanecermos na vontade
de nos mantermos prisioneiros,
prisioneiros seremos.
Nós e esta mania
de nos agarrarmos ao passado,
e chorarmos sobre o nosso destino,
leva-nos a viver enrolados
sempre na mesma realidade.
Seguramo-nos à esperança
e ao passado.
Ora, esperança e passado
não se dão muito bem.
Ambos nos privam do agora.
Nada está como no princípio foi criado.
Se estivesse, estaríamos a viver no paraíso,
segundo a crença
de que no início foi criado o paraíso.
Envolvemos a esperança e a saudade
sem que elas nada tenham em comum.
Será um truque nosso
para que possamos viver na inércia
à espera que Deus ou os anjos
façam por nós?
Durante a minha vida, vi pessoas rezando,
esperando cheias de esperança,
e assim partiram; rezando, esperando,
acreditando que certas esperanças
não se aplicavam a elas.
Vi outros, que se levantaram,
olharam em frente,
confiaram, arriscaram, agiram
e encontraram, muitas vezes,
mais do que esperavam.
Mas nem sempre a ação
exige grandes gestos ou planos elaborados.
Às vezes,
a vida revela-se nas pequenas coisas,
na simplicidade do instante presente.
A cidade está coberta de neve,
o céu cinzento
e a maioria das árvores
encontram-se secas, queimadas pelo frio.
Ainda assim, um pardal saltita contente
e escreve poesia, sem saber que a escreve.
Enquanto olhava o pássaro na árvore,
tentei estudá-lo. Nessa tentativa,
a minha mente prendeu-o na forma,
no conceito, na designação.
Quando adormeci um pouco a mente
e acordei a existência em mim,
percebi toda a inocência à minha volta,
inclusive a do pássaro que se tornara
um ponto minúsculo nos céus,
indiferente
à minha presunção em estudá-lo.
A ave não estuda o seu voo,
nem espera eternamente no galho
para aprender a voar.
Voa.
O humano estuda o passo
na esperança de o entender,
mas paralisa a caminhada.
A esperança, mal-usada,
pode tornar-se uma prisão.