A arrogância vive em estado de alerta. Desconfia de tudo o que não reage, de tudo o que não devolve a provocação no mesmo tom. Precisa de confronto para sentir que existe. Exige resposta como prova de vida, como se o silêncio fosse ausência de sangue nas veias, como se a calma fosse medo disfarçado.
Há, na arrogância, uma pressa constante: provocar, medir, testar limites. Ela só reconhece o mundo quando encontra resistência no mesmo tom. Quando não a encontra, inquieta-se. O que não reage torna-se ameaça, porque escapa às regras do jogo que ela conhece. A serenidade, para a arrogância, é um enigma intolerável.
Por isso, a arrogância afia as palavras, endurece a presença, prepara-se como quem entra numa batalha. Espera o descontrolo do outro, a explosão, o erro — qualquer coisa que legitime a sua própria dureza.
Mas a serenidade não se dispõe ao combate. Ela não responde no mesmo tom porque não reconhece a necessidade do duelo. Não se cala por fraqueza, mas por lucidez. Há nela um movimento silencioso que desarma, um vento discreto que transforma o terreno árido sem alarde.
A serenidade revela algo que a arrogância não aceita: nem toda a grandeza faz ruído, nem toda a verdade precisa gritar. O que é paciente não carrega rancor. O que é inteiro não precisa provar-se.
A arrogância, no fundo, é um poço de águas turvas onde muitos mergulham para não encarar o próprio reflexo. A serenidade, ao contrário, exige coragem: a coragem de não reagir por impulso, de não confundir intensidade com verdade, de não transformar cada diferença numa guerra.
Ada Abaé
em « Pássaros em viagem »