No livro-
Pássaros em viagem
Deitou o corpo cansado. A mente ainda rodopiava. Louco carrossel das mil e tantas tarefas. Algo a incentivou a parar. Sinal, como se alguém lhe dissesse:
— Vai descansar… amanhã também é dia.
Quem diz que corpo deitado é alma quieta? Os braços tentavam descontrair, mas a luta com os lençóis era intensa. Teimosos, eles insistiam em pensar que ainda eram escravos das mãos que labutaram com os tachos, os pratos, o pó, a vassoura, a roupa suja…
O vulto que ressonava ao seu lado, antes de cair no sono, lançou-lhe uma coluna de pedra sobre a cabeça:
— Mulher em casa não tem ofício. Ridículo. Cansada de quê?
Enquanto procurava arrumar as mãos na almofada, numa posição qualquer que aliviasse as dores nos pulsos e lhe permitisse, finalmente, descansar, uma voz sussurrou:
— Vai, tu consegues…
Suspirou profundamente e lá foi ela. Ria, corria e puxava a própria sombra, que, temerosa, hesitava. Soltou todos os sorrisos e travessuras que escondera o dia inteiro. Os pés trincavam os raminhos secos, e ela ria. Alcançou o extenso areal. Apossou-se de um barquinho que se ondeava docemente e fugiu oceano afora. Ria e remava, remava e ria. Lá longe, o farol. Queria aquela luz. Viu-se igual a uma criança perseguindo pirilampos.
O farol, com o seu pulsar constante, nada lhe exigia. Subiu a longa escadaria de pedra. Cada degrau ecoava o hino da liberdade. Lá no alto, de frente para o oceano, tirou os sapatos, soltou os cabelos e permitiu que o vento a envolvesse completamente.
De olhos fechados, deixou a máscara cair por completo. Revelava-se apenas a essência crua, nua de pretensões. Que alívio ser ninguém, ser tudo…
As ondas entoavam um delicioso e poderoso mantra de um antigo reino onde ela era rainha. Por um breve instante, acreditou que talvez o mar fosse a única existência no mundo capaz de entender o seu silêncio.
Horas depois, sentiu a indelicadeza da rotina. Voltou sombra, pontual. A alma ficou lá. Não quis voltar.
Lá longe, o farol e a alma…
O vulto que ressonava a noite inteira desconhecia que donas de casa sabem usar o espírito para criar um mundo onde podem cantar, dançar, viver até à exaustão.
Ada Abaé