No livro-
Pássaros em viagem
Escrevo-te não para reabrir feridas, mas para lhes dar um lugar definitivo, acabar com a guerra que teima em ressuscitar sempre que a presença delas se torna mais teimosa. Cicatrizá-las e reter delas apenas o que me ensinaram.
Durante muitos anos vivemos na mesma casa. A presença física foi escassa; a espiritual conseguiu ser ainda menor. O pouco tempo que passavas em casa servia apenas para comer, levar roupa lavada, ver televisão e inquietar os teus filhos. Nunca lhes deste um carinho. Não acompanhaste o crescimento deles, não estiveste atento às suas perguntas, aos seus medos, às pequenas conquistas que constroem uma infância. A tua falta de empatia foi um constante hábito. Um hábito que te permitiu perder. Perder um tempo que não voltará. Os filhos crescem.
Para além das deficiências psicológicas que lhes causaste, não terás sequer a recordação da primeira gargalhada, dos primeiros passos.
Lembro-me das tuas exigências, por vezes quase infantis, como quando eu trazia chocolates para as crianças e tu reclamavas que também devias ter os teus. Da comida que tinha de estar sempre na temperatura exata, como se o mundo devesse ajustar-se apenas ao teu conforto. Das noites em que não dormias em casa — exceto às segundas-feiras, quando os salões de jogos e outros lugares noturnos fechavam.
Recordo, ainda com mágoa, o dia em que te recusaste a levantar para me acompanhar no parto de um dos nossos três filhos. Desconheces as dificuldades que eu e ele enfrentámos nesse momento, por falta de assistência. Quando te acordei e te disse: “Levanta-te. Ajuda-me, o bebé vai nascer”, viraste-te para o lado e respondeste: “Preciso de dormir.”
Eram cinco da manhã. Passei pela maior aflição da minha vida. Pelo maior medo. Com as mãos tentando segurar a cabeça do bebé que teimava em nascer, fui para a rua. Chorava, olhava o céu e pedia ajuda a Deus, aos anjos, ao universo.
Desci a aldeia até à casa da vizinha mais próxima e bati-lhe à porta. Felizmente, ela acordou. Cinco minutos depois, nasceu. A ida até ao hospital não foi fácil, e a estadia também não. Tudo passou. Ele cresceu. Todos cresceram.
Procuravas noutras mulheres o que dizias não encontrar em mim.
As mulheres que procuravas apresentavam-se de formas que eu não podia, não por falta de vontade, mas porque nunca sustentaste verdadeiramente o lar que exigias que eu mantivesse. Ainda assim, insatisfeito com o que encontravas, voltavas sempre que os teus casos acabavam. Claro. Ninguém te servia como eu. Nada te impediu de continuares a usar-me para os teus fins, como um animal em cio.
Ajudaste a criar no teu filho mais velho um grande desejo: que fosses embora. Um dia precisarás de pedir-lhe perdão. Aos outros também.
Não guardo rancor. Nem raiva. Talvez porque sei que esses sentimentos fariam mais mal a mim do que a ti. Quero continuar a minha vida. Quero crescer como ser humano.
Quero também dizer-te algo com clareza: as pessoas dizem que ainda gosto de ti. Não é verdade. Antes mesmo de me recusar a continuar a viver contigo, eu já não sentia nada. O que existe agora é apenas a responsabilidade que nos une para sempre: tu és o pai dos meus filhos. Por isso, desejo uma relação amigável — não por nostalgia, mas por maturidade. As relações podem falhar. Os filhos são para sempre.
A permissão para entrares na minha casa existe apenas por eles. Quero que os visites. Sei que não o farás com assiduidade, que não os levarás de fim de semana ou de férias, mas deixo essa cláusula aberta.
Quanto às pessoas que falam, perdoo-as também. Falar é muitas vezes uma necessidade de quem repara no semelhante, não para ajudar, mas para ocupar a boca com palavras.
Que tudo seja perdão — inclusive os meus próprios pecados. Sei que sou humana e, como tal, também erro. Desejo que a vida nos conceda tempo suficiente para nos tornarmos melhores seres humanos, cada um no seu caminho, mas ligados para sempre por aqueles que vieram ao mundo porque eu e tu o permitimos.
Maria- protagonista do livro
29 de julho de 2000
Ada Abaé