Em pleno século XXI, ainda escuto pessoas a falar das “conquistas” e descobertas de Portugal como se, ao fazê-lo, dignificassem um passado glorioso — por vezes, com um saudosismo que parece tocar a figura de Salazar e a sua obstinação em preservar um império.
Desde quando um território passa a pertencer a quem o invade? Um território pertence a quem é invadido, não ao invasor. Se hoje outro país invadisse Portugal, a quem passaria a pertencer Portugal? E, refletindo, por que se sente Portugal, hoje, invadido por estrangeiros?
O tempo dos chamados Descobrimentos serviu, muitas vezes, para invadir, dominar, explorar e matar quem já habitava essas terras. Portugal conquistou muito poucos territórios verdadeiramente desabitados. As ilhas atlânticas — Madeira, Porto Santo, Açores e Cabo Verde — são os exemplos mais claros dessa exceção.
Na Madeira e no Porto Santo não existia população permanente à chegada dos portugueses. Há indícios de visitas antigas, talvez de outros povos navegadores, mas não de uma presença contínua. O povoamento foi feito de raiz.
Nos Açores existem vestígios de presença humana anterior, possivelmente de navegadores que por ali passaram séculos antes. Ainda assim, não havia uma população fixa. As ilhas foram povoadas posteriormente, com a introdução de gado, agricultura e colonos vindos de vários pontos da Europa.
Em Cabo Verde, as ilhas estavam desabitadas. A população que hoje ali vive formou-se depois, através da colonização portuguesa e da escravização de africanos trazidos do continente. Uma descoberta sem invasão inicial, mas marcada desde cedo por um sistema profundamente violento.
Fora destes casos, praticamente todos os territórios ocupados por Portugal já eram habitados: Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Goa, Malaca, Timor, Macau, Ceuta, Tânger. Nesses lugares, a expansão portuguesa significou ocupação, dominação, comércio forçado, evangelização e violência — com consequências devastadoras para as populações locais.
Aqui no Canadá, a história repete-se. Os povos indígenas viram os seus territórios usurpados, as suas crianças arrancadas das famílias, obrigadas a cortar as tranças, proibidas de falar a sua língua, abusadas, maltratadas, muitas vezes mortas. O pedido de desculpas feito pelo Papa, nas antigas escolas residenciais, reconhece oficialmente uma dor que atravessa gerações.
Descobertas verdadeiras só existem onde não habita ninguém. As chamadas “grandes conquistas” trazem sempre sangue e sofrimento — o do povo invadido, o dos filhos enviados para a guerra, o de todos os que são arrastados pela história que não escolheram.
Os povos indígenas do Canadá viviam em territórios férteis, seguiam os búfalos e mantinham uma relação de equilíbrio com a natureza. Para os dominar, mataram os búfalos, destruíram a sua fonte de alimento e condenaram-nos à fome, sobretudo nos invernos rigorosos. Hoje, muitos desses territórios são zonas turísticas, com museus que lembram a tragédia. A isenção de impostos não devolve a terra nem a dignidade perdida, mas pelo menos houve um reconhecimento de culpa.
O que é verdadeiramente triste é que, ainda hoje,
haja quem sinta nostalgia das invasões
e as confunda com descobertas e grandes conquistas.
Ada Abaé