José João
Caso real
Caso real
José João — uma das vítimas da Guerra do Ultramar, ocorrida durante a ditadura salazarista.
Ano 1969 — Portugal.
D. Maria guardava o lenço branco, aquele com que acenara no cais enquanto via a figura do seu filho de 21 anos perder-se entre tantos outros filhos de outras mães, no barco que os levaria para longe, muito longe. Ainda assim, conseguiu dizer adeus ao seu filho. Quantas outras, por falta de meios, não conseguiam vencer a distância entre as suas terras e a cidade, ficando em casa a rezar? Muitas provavelmente nem o mar teriam visto, nem um barco!
Era fácil encontrar D. Maria: na loja, nas ruas, na fonte e no rio, onde as mulheres lavavam a roupa da semana. Talvez ela procurasse força nos desabafos com os vizinhos.
— Todos os dias rezo, agarrada a este lenço. Faço dele um terço. Foi com ele que disse adeus ao meu José João... — desabafava ela, envolta no seu luto prematuro, que se refletia nos gestos e no olhar, denunciando a auréola negra que envolvia a sua alma.
Não se permitia rir, guardando o sorriso para o dia em que pudesse abraçar novamente o seu filho.
— Como posso eu rir? Eu bem reparei nos queixos do meu José João a tremer para não chorar. — respondia ela, quando alguém a aconselhava a distrair-se um pouco.
— Sr. Luís, hoje não traz nada para mim?
— Não, D. Maria — confirmava o carteiro.
Ela suspirava, não se sabia se de alívio ou de ansiedade.
Um dia, ela foi lá a casa. Queria que eu lhe lesse a carta que recebera. Envolta no seu xaile, tentando compor o cabelo dentro do lenço, perguntava ansiosa:
— Podes ler esta carta, menina? É do meu José João.
Eu, que já sabia ler bem por estar na terceira classe, confirmei com a cabeça.
— Lê, lê... — pedia ela, nervosa.
— Calma, vai ver que são boas notícias — dizia minha avó, sentada ao meu lado, tentando acalmar as pernas trêmulas da pobre mulher.
*Carta de José João
Querida mãe,
Espero que esta carta a encontre bem de saúde. Eu estou bem, na Graça de Deus. Tenho muitas saudades e conto os dias em que vou poder voltar a abraçar a senhora, minha mãe. Dê um abraço ao senhor Joaquim dos Bois, à D. Belmira da loja e a todos que perguntarem por mim. A Gracinha encontra-se bem? Diga a ela que espere por mim. Continuo a gostar muito dela.
Um grande abraço para si, deste seu filho que nunca a esquece.
José João
Quando levantei os olhos, pude ver o seu rosto coberto de lágrimas.
— Não chore, mulher. As notícias são boas. Vai ver, saiu daqui um rapazola, vem de lá um homem — exclamou a minha avó, usando a mesma expressão que tantos repetiam, como se isso ajudasse a justificar a ausência dos filhos, transformados em soldados, numa terra longínqua que Salazar teimava em chamar de “vizinha”.
Dois anos depois, a aldeia ria, cheia de flores, vozes e movimentos agitados. Um grande arco, feito de ramos verdes e flores silvestres, enfeitava a entrada da povoação, decorado com bandeiras coloridas de papel, esperando o retorno de José João.
De repente, fez-se um silêncio solene. Todos os olhos fixos no interior do “carro de praça”, preto e verde. Lá dentro, o recém-chegado sorria tímido e inseguro.
— Graças à minha Nossa Senhora, que me entregou o meu filho de volta! — clamou D. Maria aos céus.
Vimos sair do carro o tio que o fora buscar. O seu ar demasiado sério quebrou a alegria dos habitantes da aldeia. Seguiram em silêncio a volta que o homem deu ao carro, abrindo a porta do lado onde se encontrava o tão esperado José João. Este, colocando uma perna do lado de fora, estendeu o braço para se apoiar no ombro do tio.
As expressões de espanto foram muitas.
— Coitado! Que desgraça! E ele, que era a esperança para aquela casa! Coitado do pai acamado há tantos anos e agora o filho, que podia ser o ganha-pão deles, vem sem uma perna.
Os olhos do filho encontraram-se com o sorriso desajeitado da mãe. Era como se ela lhe dissesse:
“Deixa lá, o que interessa é que voltaste vivo.”
E ele lhe respondesse:
“Pois, nas histórias que me contavas sobre os bichos-papões, eles só me comiam a brincar. Ali, os bichos-papões eram mais fortes e tu nunca chegaste quando eu, escondido na toca, gritava por ti... Agora sei que se pode morrer tanta vez...”
A Gracinha, já mais adulta, correu para ele e segurou-o pelo braço, garantindo-lhe que ficaria ao seu lado.
José João estava um pouco atordoado. Por um lado, sentia-se feliz e protegido, mas por outro sentia dentro de si aquele burburinho esquisito, como se fossem vozes malvadas que não o largavam. Mas isso ele precisava guardar segredo. Era proibido falar.
— Coitado, não voltou muito bem da cabeça. Dizem que grita à noite — espalhavam alguns pela aldeia. Diziam apenas que não voltara bem da cabeça, mas ninguém se atrevia a dizer porquê.
Era proibido falar.
Ada Abaé