Hedwig Eva Maria Kiesler nasceu em Viena, na Áustria, no dia 9 de novembro de 1914, filha de uma família judia. Desde criança, se interessava por máquinas e invenções tecnológicas, sendo considerada superdotada pelos professores. Chegou a começar estudos em engenharia, mas abandonou-a para seguir a carreira artística.
Sua primeira aparição nos cinemas foi no filme Money on the street (1930). Porém, sua carreira decolaria de fato no filme Ecstasy (1933), que causou uma grande polêmica na época e recebeu muitas censuras, inclusive do próprio Vaticano.
Por interesses de sua família, Hedwig casou-se com o influente Friendrich Mandl, dono de uma fábrica de armas e munições. O casamento, porém, seria infeliz: Kiesler percebeu que nunca poderia ser atriz enquanto fosse sua esposa. Ela afirmou se sentir como "uma boneca ou um objeto de arte que precisava ser guardado, sem mente ou vida própria". Frequentemente, ela era obrigada a entreter convidados durante reuniões de negócios e festas; muitos deles eram membros de governo nazifascistas, com os quais Mandl mantinha estreitas relações comerciais.
Cena do filme Samson and Delilah, 1949
Não tardou até que Hedwig decidisse fugir do casamento. Levando suas joias para custear as viagens, conseguiu escapar para Londres e, pouco tempo depois, embarcou rumo aos Estados Unidos, onde retomaria sua carreira em Hollywood. Lá, adotou o nome artístico Hedy Lamarr e rapidamente tornou-se uma estrela, atuando em filmes como White Cargo (1942) e Samson and Delilah (1949).
Com a Segunda Guerra Mundial, Hedwig ofereceria serviços ao governo americano: enquanto casada com Mandl, Hedwig acabou sendo capaz de recolher uma gama de informações sigilosas acerca do armamento dos países do Eixo. Assim, foi colocada no departamento de tecnologia militar do país.
Sua paixão como inventora não desapareceria em Hollywood. Na década de 40, Lamarr conheceu o compositor George Antheil. À partir de uma ideia perspicaz de Lamarr, eles trabalharam numa tecnologia que poderia influenciar diretamente o rumo da guerra: o frequency-hopping spread spectrum (FHSS), ou sistema de salto de frequência. Em suma, a invenção permitiria que, na comunicação entre um torpedo e seu controlador, ambos fossem capazes de fazer "saltos" simultâneos entre as frequências de rádio — o que impediria sua interceptação por radares nazistas.
George Antheil e Hedy Lamarr
O projeto, então, foi patenteado e apresentado ao Departamento de Guerra dos Estados Unidos. No entanto, foi recusado por ser considerado "complicado demais" de executar. O sistema só seria usado décadas mais tarde, em 1962, durante a crise dos mísseis cubanos. À época, a patente já havia expirado, de modo que Lamarr sequer foi paga ou reconhecida por sua criação.
Mais tarde, o FHSS também seria a base de tecnologias amplamente utilizadas nos dias de hoje, como o Wi-Fi, Bluetooth e GPS. Lamarr só seria creditada em 1997, quando foi premiada com o Pioneer Award pela Electronic Frontier Foundation. A atriz e inventora morreria poucos anos depois, em 2000, reclusa em sua casa em Miami.