Em 1987, as mulheres representavam 38% dos trabalhadores na computação. Em poucas décadas, esse número cairia para menos da metade.
Com o início da Guerra Fria, a indústria da computação começou a se consolidar, impulsionada pelas disputas armamentistas e tecnológicas entre URSS e EUA. Diversas mulheres que já tinham experiência como computadores humanos encontraram na programação uma oportunidade de carreira, incluindo as programadoras do ENIAC. Aos poucos, a quantidade de mulheres no campo ia aumentando.
Operadoras de cartões perfurados trabalhando na IBM na década de 1930
No entanto, isso só foi possível porque a programação, uma ocupação relativamente nova, era uma atividade subestimada. À época, o que era considerado um trabalho "adequado" à mulher era extremamente limitado, estando restrito a atividades análogas ao trabalho doméstico, vistas como repetitivas e rotineiras, a exemplo do trabalho de secretária e da própria programação. Por outro lado, a tarefa de projetar o hardware, que era associada à engenharia e possuía um prestígio social muito maior, era exclusiva dos homens.
No ano de 1967, foi publicado na revista feminina Cosmopolitan o artigo The Computer Girls, por Lois Mandel.
O artigo divulgava as oportunidades crescentes para as mulheres na programação. Seu intuito era inserir as garotas na cultura da computação, trazendo a ideia de que teriam um lugar dentro dela como uma "computer girl".
Em uma das citações, é comentado que "a programação é como preparar a janta", com a necessidade de "planejar com antecedência e dar atenção aos detalhes". Outra citação também chamava a atenção para a possibilidade de se encontrar um "bom marido programador". Com isso, buscava-se criar a ideia de que as mulheres teriam uma "vocação natural" para o trabalho.
Um dos entrevistados, o diretor da ACM, acreditava que a matemática e a programação também poderiam ser consideradas "femininas" e garantia que não haveria discriminação de gênero na contratação.
Apesar de baseado em uma retórica de gênero, é visível a tentativa de atrair mulheres para a programação. De fato, a quantidade de mulheres no campo da computação continuaria a crescer, até atingir um pico histórico de 38% dos trabalhadores da área, em 1987.
Essa realidade também se estendia ao Brasil: a foto abaixo representa a primeira turma do Curso de Ciências de Computação do IME, formada em 1974: dos 20 alunos, 14 (70%) eram mulheres.
Foto: Arquivo Pessoal/Inês Homem de Melo
Rapidamente, a indústria da computação ganhava cada vez mais espaço e destaque. Ao final da década de 70, houve uma grande popularização do computador pessoal (PC) por empresas como a Apple e a IBM.
Além de se tornar mais acessível o computador também ganhava finalidade lúdica através dos videogames, deixando então de ser visto como uma máquina exclusivamente dedicada à matemática, contabilidade e ciência.
Acompanhando esse crescimento da computação, os salários e o prestígio da área também se elevavam. Nesse cenário, a presença crescente de mulheres se tornaria indesejada. Estava cada vez mais claro o enorme potencial do computador e sua capacidade de influenciar a sociedade como um todo. Subitamente, a computação tornou-se uma tarefa "importante demais" para as mulheres.
Na década de 60, por exemplo, cerca de 80% das companhias aplicavam testes de personalidade para selecionar os atributos "inatos" à programação; na prática, privilegiavam-se as características tipicamente associadas à masculinidade.
Os próprios videogames, que contribuíram para aumentar o interesse de jovens pela computação, também eram destinados ao público masculino, especialmente aos jovens. Assim, a mídia também teve um papel ativo na criação de estigmas de gênero nesse setor.
Propaganda do Atari, 1983
O que se viu, nas décadas seguintes, foi uma intensa "masculinização" da indústria, que pode ser verificada no gráfico abaixo. Surge o típico estereótipo do programador: um homem antissocial, sem preocupação com a própria aparência, obcecado por computadores, etc.
Todo esse ideário construído em torno da computação criou um obstáculo à entrada de mulheres na área, que não conseguiam mais se enxergar nesse ambiente ou então eram levadas a acreditar que não possuíam as habilidades necessárias.
Gráfico produzido pela National Public Radio. Na contramão de cursos como Direito, Medicina e Ciências Físicas, as mulheres têm perdido cada vez mais espaço nas Ciências de Computação.
Todos esses fatores, ao longo das últimas décadas, resultaram no quase apagamento da participação feminina na computação. Assim como sustenta o professor e pesquisador Nathan Ensmenger, a programação não nasceu "masculina" como o quadro moderno pode sugerir; ao invés disso, a computação, em especial a programação, nasceu com uma mulher e, por muito tempo, foi um trabalho das mulheres. A masculinização da computação não se deu por acaso, mas sim através de um esforço articulado e sistemático para expulsá-las de uma área em que sempre estiveram presentes.