No século XIX, diversos astrônomos tentaram determinar quando ocorreria o retorno do cometa Halley. A tarefa, no entanto, era muito complexa para ser resolvida sozinha. Em 1758, o astrônomo Alexis-Claude Clairaut, juntamente a Jérôme-Joseph Lalande e Nicole-Reine Lepaute, dividiram o problema em partes e, após muitas semanas de cálculos, previram que o cometa passaria pelo periélio entre os dias 15 de março e 15 de abril de 1759. Esse ponto foi alcançado, de fato, no dia 13 de março do mesmo ano; ainda assim, essa foi a previsão mais precisa até então.
Última aparição do cometa Halley, em 1986. Seu retorno está marcado para 2061.
Nasciam ali os chamados computadores humanos. A partir de então, passariam a ser cada vez mais exigidos em diversas áreas, como astronomia, navegação, física, estatística e engenharia. A necessidade de resolver equações complexas e produzir extensas tabelas, como as astronômicas e logarítmicas Tornava-se muito mais eficiente dividir os problemas em etapas menores e contratar grupos de pessoas para resolvê-los. Inicialmente, a maioria eram homens jovens.
Pelo final do século XIX, melhoras na educação permitiram que mais mulheres tivessem acesso à matemática. Não tardou até que os cientistas percebessem que seria mais barato contratar mulheres para a função. Como os trabalhos que elas podiam fazer eram bastante limitados na época, era possível contratá-las por até metade do salário de um homem.
Nesse sentido, essa atividade só pode se tornar tão "feminina" por ser vista como repetitiva e de baixa qualificação, ainda que muitas das mulheres tivessem habilidades avançadas de matemática. Como se pode notar, a computação, assim como muitas áreas, foi e é marcada fortemente pela forte desvalorização do trabalho feminino.
Firing tables: calculadas manualmente, eram de grande ajuda no campo de batalha
Durante a Primeira Guerra Mundial, a crescente necessidade de produzir tabelas de navegação, mapas topográficos, cálculos da trajetória de artilharias, entre outros, levaria à contratação de um grupo de mulheres pelo Exército para trabalharem como computadores. Mais tarde, durante a Segunda Guerra, mais de 200 mulheres também seriam contratadas na função.
Logo após o fim da guerra, ficaria pronto o ENIAC, o primeiro computador eletrônico digital. Suas programadoras, as ENIAC Girls, cujas histórias serão discutidas no próximo tópico, trabalhavam originalmente como computadores humanos.
Por muitas décadas, as mulheres que trabalhavam como computadores humanos foram uma parte significativa da história da NASA. Ainda não havia uma confiança muito alta nos computadores digitais, que estavam muito suscetíveis a crashs, de modo que a presença humana ainda era indispensável para muitos cálculos.
Um memorando encontrado nos arquivos da NASA, escrito por R. H. Cramer, descreve que os próprios engenheiros admitiam que as mulheres que lá trabalhavam eram muito mais rápidas e precisas do que eles. Em parte, isso se deve ao pensamento de seria um desperdício utilizar as habilidades dos engenheiros para "meros cálculos repetitivos".
Trailer do documentário "Estrelas Além do Tempo"
Da esquerda para a direita: Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan
Na década de 60, a NASA empregou cerca de 80 mulheres negras como computadores. Nesse meio, três mulheres se destacaram: as matemáticas Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. Em 1962, seus trabalhos foram essenciais para garantir a segurança da missão que levou o astronauta John Glenn a orbitar a Terra. A histórias delas é contadas no documentário Hidden figures, ou "Estrelas Além do Tempo", de 2016.
Com o advento dos computadores digitais, que tornavam-se cada vez mais baratos e confiáveis, a computação humana foi lentamente desaparecendo. Muitas mulheres, no entanto, mantiveram-se na computação e migraram para a área de software, que estava em ascensão.