O tráfico de bebês para adoção internacional teve seu auge no Brasil nos anos 1980, num país atravessado por crise econômica, miséria, tabus sociais, um sistema frágil de proteção à infância e com fronteiras porosas. Foi nesse cenário que se consolidou um mercado ilegal movido por uma lógica tão simples quanto brutal: de um lado, casais estrangeiros numa busca desesperada por filhos; de outro, mães pobres, jovens e vulneráveis, muitas vezes sem alternativas reais. No meio, quadrilhas altamente organizadas que transformaram recém-nascidos em mercadoria e lucraram.
Estimativas da época indicam que milhares de crianças eram retiradas ilegalmente do país todos os anos, principalmente entre 1985 e 1988, vendidas por valores que hoje equivaleriam a centenas de milhares de reais por bebê. Embora a adoção internacional fosse – e continue sendo – prevista em lei, a burocracia e a lentidão do processo legal abriram espaço para esquemas paralelos que envolviam falsificação de documentos, suborno de autoridades e conivência de hospitais, cartórios e integrantes do Judiciário. Antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a criança pobre era vista mais como objeto de tutela do Estado do que como sujeito de direitos, o que tornava sutil a fronteira entre acolhimento, abandono e subtração institucionalizada.
O caso mais emblemático foi o da quadrilha liderada por Arlete Hilú, que tinha base em Curitiba e atuação internacional, especialmente com clientes em Israel. Bebês – em sua maioria oriundos do sul do Brasil – eram obtidos por meio do aliciamento de mães, com promessas de ajuda, pequenas quantias ou custeio do pré-natal. Com o aumento da demanda, vieram também os raptos, inclusive em maternidades. Muitos pais adotivos sequer se viam como parte de um crime: enganados pela aparência de legalidade e pela dificuldade de checar informações na época, acreditavam estar apenas “driblando” a burocracia brasileira e agilizando o processo.
O Brasil, no entanto, não era exceção. Países como Sri Lanka, Guatemala, Taiwan, Chile, Argentina e Coreia do Sul também integravam uma rede global de "exportação" de bebês, sempre marcada por pobreza estrutural, estigmatização da maternidade solteira e ausência de sistemas eficazes de proteção infantil. No Brasil, os escândalos foram amplamente noticiados, ganharam espaço em reportagens, programas de TV e até novelas, mas nem prisões nem condenações conseguiram estancar completamente o esquema.
Quarenta anos depois, as marcas permanecem. Adultos adotados no exterior buscam respostas sobre suas origens, mães biológicas convivem com culpa e incerteza, e o tráfico de bebês – embora em escala menor – ainda não está inteiramente no passado. As vítimas principais continuam sendo aquelas que nada puderam dizer: os bebês de ontem, que hoje tentam reconstruir uma história que lhes foi arrancada no nascimento.
Leia mais a respeito do tráfico de bebês na dissertação (capítulo 2.3)