Gabriel Toueg (1)
O jornalismo investigativo reside, em grande parte, na banalidade do cotidiano. Não raro, é fruto de acaso e de sorte. Localiza-se bem longe dos terminais e do ar condicionado das redações. A máxima de que “jornalista precisa gastar sola de sapato” pertence sobretudo à prática do jornalismo investigativo — e aqui importa pouco o incansável debate em relação a todo jornalismo ser investigativo ou se “investigativo” é uma “categoria” do jornalismo. Quem deseja contar boas histórias – e fazê-lo bem – precisa bater perna. É clichê, mas também é verdade. O jornalismo investigativo(2) pode acontecer a partir das mais mundanas situações, como uma consulta médica, uma conversa com a própria mãe ou uma conversa de bar. Como se verá adiante, nenhum destes exemplos é aleatório.
Em 1983, a jornalista Elza Oliveira, que escrevia de Curitiba para o jornal O Globo, estava numa consulta com seu ginecologista quando ouviu dele uma dica, conforme ela relatou em entrevista a um podcast em 2023:
Eu fui ao ginecologista [...] e ele [era] diretor clínico da [...] Santa Brígida [...], uma das grandes maternidades aqui de Curitiba. Ele sabia da minha condição de jornalista, e falou: “Olha, Elza, tá acontecendo uma coisa engraçada lá no hospital, eu queria te contar, de repente vale a pena você dar uma investigada”. E aí ele me contou a seguinte história: quando as mães manifestavam a intenção de doar os filhos que nasciam no hospital, essas crianças eram deixadas no berçário do hospital até que o Juizado de Menores indicasse pais adotivos, e esses pais [adotivos] é que iam retirar essas crianças do hospital. [...] “E de uns meses pra cá” [...] “assim que uma mãe declara que não quer levar a criança pra casa, 48 horas depois do nascimento da criança, uma assistente social do Juizado de Menores já chega no berçário do hospital e leva embora essa criança” (Rádio Novelo Apresenta, 2023).
O médico de Elza estranhara porque era pouco tempo para tudo aquilo acontecer. Ao seguir a dica do consultório, a jornalista acabaria descobrindo que acontecia, nos bastidores da maternidade, um esquema de tráfico de bebês para o exterior. Com a informação em mãos, ela foi ao Juizado de Menores e ouviu algo inusitado de um funcionário: o órgão mantinha um “berçário” num endereço perto da maternidade, num edifício residencial da capital paranaense. Ela foi até o local, como relatou na entrevista de 2023:
Era um apartamento normal. Eu fiquei na sala [...] e no que seria a parte interna do apartamento, tinha uma placa dizendo “Proibida a entrada de pessoas estranhas” – coisa esquisita pra uma casa normal, né? [...] [A mulher que abriu a porta] disse que naquele momento não tinha nenhuma criança ali, que a irmã dela realmente tinha feito um trabalho de cuidar de algumas crianças pro Juizado, mas que não era nada – uma conversa meio estranha. Logo em seguida, chegou [uma] menina, [que] virou pra mim [...] e falou: “Ah, você que veio pegar o neném? A minha mãe chama ele de Bruno, porque ele não tem nome ainda”. A tia virou pra ela e falou [...]: “Mas não tem nenhuma criança aqui, sua boba, a única criança que tem aqui é você”. Daí ficou aquele clima meio esquisito (Rádio Novelo Apresenta, 2023).
Meses depois, sem avançar na pesquisa, Elza foi procurada por Eliezer Strauch, que à época era correspondente em Tel Aviv, Israel, do mesmo jornal em que ela trabalhava. Ele contou que crianças curitibanas vinham sendo adotadas aos montes por casais israelenses. Strauch aproveitaria suas férias no Brasil para visitar a capital do Paraná e investigar a história. “O Eliezer tinha levantado que, num só mês, fevereiro de 1984, 19 crianças brasileiras tinham sido adotadas por israelenses. Não era normal esse número”, relatou Elza em 2023. Os dois passaram a investigar a história juntos – Eliezer foi com a esposa ao Juizado de Menores em Curitiba e se passaram por um casal israelense interessado em adotar uma criança. Lá, foram orientados: “Tem uma pessoa que colabora muito com o Juizado e que tem todas as condições de ajudar”. A pessoa era Arlete Hilú. Strauch foi conhecê-la.
Num domingo de março de 1984, a dupla publicou um furo de reportagem no jornal O Globo: “Falsa advogada promove adoção de crianças por casais estrangeiros” (Oliveira, 1984). Strauch assinava uma "sub" (3) com um perfil da mulher: “Arlete Hilú, empresária eficiente e bem sucedida” (Strauch, 1984). Outras matérias indicavam a rotina dos casais estrangeiros à espera dos documentos para sair do Brasil e medidas adotadas por hospitais para “evitar as doações”.
* * *
A dica materna veio décadas depois. Em 2011, Amanda Boldeke, que anos antes havia criado a ONG Desaparecidos do Brasil, que ajuda pessoas com parentes cujo paradeiro é desconhecido, contou para a filha, a jornalista Mônica Foltran, que muitos jovens israelenses estavam entrando em contato com a ONG para tentar encontrar suas famílias biológicas — no Brasil. Aqueles bebês levados de Curitiba nos anos 1980, tema das matérias de Elza Oliveira e Eliezer Strauch no jornal O Globo, agora eram jovens com 25 anos, mais ou menos, cheios de perguntas e munidos de documentos que, em geral, eram falsos.
A história que Mônica ouviu de sua mãe foi o ponto de partida para a investigação que ela conduziu ao longo de meses e que, em agosto de 2012, viraria a série de reportagens Órfãos do Brasil, publicada ao longo de 10 dias pelo jornal Diário Catarinense (4) (Tráfico [...], 2012). Para a investigação, Mônica bateu perna e gastou sola: percorreu salas empoeiradas de cartórios e repartições públicas, descobriu nomes de pessoas vitimadas pelo tráfico de bebês de décadas antes, bateu na porta delas e obteve entrevistas, e viajou até Israel, onde pôde conversar com aqueles jovens que haviam entrado em contato com a mãe da jornalista.
No caso da repórter catarinense, a prática do jornalismo investigativo veio de uma dica que ela ouviu “em casa”, mas virou matéria quando seu editor acreditou na história – como ela conta, os olhos do chefe brilharam ao ouvir os detalhes. O editor, prática rara mas necessária no jornalismo investigativo, tirou Mônica da rotina diária da redação e permitiu que ela se dedicasse exclusivamente à pesquisa sobre os jovens israelenses adotados nos anos 1980.
* * *
A conversa de bar aconteceu comigo quase 20 anos depois da consulta médica de Elza Oliveira e uma década antes das matérias de Mônica Foltran. Era 2002, eu tinha 23 anos e visitava Israel pela primeira vez. Eu ainda não sabia, mas dois anos depois eu me mudaria para o país e daria início a uma temporada de sete anos trabalhando a partir de lá para a imprensa brasileira e estrangeira. Naquele 2002, porém, eu estava em Israel para conhecer os pecados e santidades daquela terra e para aproveitar meus vinte e poucos anos. Num bar de Tel Aviv acompanhado por argentinos e israelenses que acabara de conhecer, uma garota do grupo, pouco mais nova que eu, me abordou. Chen (5) – esse é seu nome – sabia que sou brasileiro e contou: “Nasci no Brasil”. Achei curioso, mas corriqueiro. Eu já sabia que há muitos brasileiros vivendo em Israel.
Mas a história de Chen, contada ao pé do ouvido para driblar o burburinho e a música do bar, não terminava ali. Lembro de estar recostado contra uma parede, copo com alguma bebida na mão, ouvindo ela narrar o que – nós só entenderíamos bem depois – tinha sido um esquema gigantesco e altamente organizado que existira no Brasil mais ou menos na época em que ela e eu éramos bebês, os anos 1980.
Chen falava espanhol com forte sotaque marcado pelo hebraico, a língua local que eu ainda não dominava. Ela arranhava o idioma dos amigos argentinos para me contar o que sabia da história. E o que sabia não era muito – outra característica que eu entenderia ser comum a muitos outros casos. Chen fora vendida a seus pais adotivos que, não podendo ter filhos biológicos, recorreram a uma mulher que “ajudava” famílias israelenses a realizar o sonho da maternidade. A mulher era Arlete Hilú, mas eu só saberia seu nome muitos, muitos anos depois.
Por distópico que pareça, não é sem base que menciono o termo “ajudar” em relação ao que Hilú fazia para os casais israelenses – e em outros países, como também se saberia. Eram crimes, crimes graves, uma longa lista deles (6). Eram também atividades imorais. Eram raptos de bebês e roubos de histórias. Mas para casais estrangeiros buscando realizar o sonho da parentalidade, que não raro já haviam percorrido a via-crúcis dos métodos conceptivos existentes (que eram poucos e caros nos anos 1980), com alto grau de frustração, aquilo era uma salvação.
Não foram poucos os casos que eu ouviria de casais que recorriam à “ajuda” de Arlete por indicação de outras famílias, mas sem suspeitar que eles participavam de um esquema criminoso – na lábia, a mulher convencia as famílias adotivas de que os valores transferidos, milhares de dólares – serviriam não mais do que para pagar os altos custos da burocracia brasileira. É premente lembrar que nos anos 1980 não havia a vasta circulação de informações como hoje a internet nos proporciona. Um casal israelense, vivendo a 11 mil quilômetros de onde as crianças nasciam, dificilmente teria como verificar a legislação e os meandros da burocracia brasileira.
Sobre as leis, vale lembrar, também: tudo acontecia ainda na década em que o Brasil começou sob um regime ditatorial militar e terminou em processo de redemocratização. Não havia mecanismos e dispositivos firmes para proteger a infância brasileira. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) só seria promulgado em 1990, dois anos depois da Constituição. Era mais fácil penalizar Hilú e sua organizada e extensa “máfia” – termo dela (Mulher [...], 2016) – por crimes como uso de documento falso do que por retirar bebês de suas famílias e exportá-los a preço de ouro para casais estrangeiros. Certa vez, ela seria presa, de fato, ao entrar em Israel – mas não por ter levado bebês, e sim por usar um passaporte falso.
E não só as leis, tão frágeis, colaboravam com a quadrilha: havia também, é verdade, muita burocracia, grande descentralização de controle de todo tipo, a ponto de tornar o país um juntado de estados não comunicados entre si; as fronteiras eram porosas, mais do que ainda são. Tirar uma criança do país era tão fácil que até um repórter estrangeiro e uma colega brasileira o fariam, diante das câmeras, ambos em 1988, para provar (The baby [...], 1988; Justiça [...], 1988). Outro ponto importante seria decisivo para a atuação da quadrilha: a conivência, omissão e até mesmo a participação ativa de autoridades policiais, judiciárias e até de profissionais de saúde no esquema – cada um levando sua “comissão” (Gangue [...], 1986).
* * *
Por anos, a história de Chen ficou trancada em algum lugar da minha memória. Vivi em Israel de 2004 a 2011, fiz coberturas de toda sorte de assuntos, de esporte a economia, de guerras a comportamento das sociedades locais e muito mais temas entre uma coisa e outra. Mas por alguma razão, a história dos brasileiros adotados em Israel nunca virou pauta minha. Para ser honesto, provavelmente nem me encontrei mais com Chen por bastante tempo mesmo morando no país – e, por um período considerável, em Tel Aviv, cidade vizinha à que ela morava.
Uma década depois daquela conversa de bar, em 2012, eu já estava de volta ao Brasil. Trabalhava na redação de O Estado de S. Paulo e comandava a editoria de Internacional do portal do jornal. Foram tempos interessantes para os jornalistas de Inter, como a chamávamos carinhosamente: o Oriente Médio fervia com uma onda de manifestações, que ficaria conhecida como Primavera Árabe (Simões, 2021), o líder da rede terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, foi assassinado numa operação no Paquistão (Aguiar, 2021); Barack Obama foi reeleito nos EUA (Reeleito [...], 2012); o Japão sofreu um forte terremoto seguido de tsunami, com danos em usinas nucleares (Wang, 2025); o mundo pararia para assistir ao casamento do príncipe William, herdeiro do trono britânico (Casamento [...], 2010); importantes eleições ocorreriam em diversos países, tragédias climáticas etc.
À noite, eu costumava acompanhar, na TV Globo, a “novela das nove” da época, Salve Jorge, escrita por Gloria Perez, autora conhecida por folhetins que retratam cruas mazelas da sociedade brasileira. Era comum ver, em suas telenovelas, a ficção entrelaçada à realidade, com depoimentos de pessoas reais. O tráfico de pessoas estava no centro da trama de Salve Jorge – tráfico de mulheres para exploração sexual em outros países, mas também de bebês.
A personagem Aisha (interpretada pela atriz Dani Moreno) era filha adotiva de um casal turco secular e cosmopolita – Berna (Zezé Polessa) e Mustafá (Antonio Calloni). Aisha fora vendida para os pais adotivos. A história da ficção era confirmada e ganhava tom de realidade por meio de depoimentos de jovens nascidos no Brasil e adotados fora do país, que estavam – assim como Aisha – em busca de suas famílias biológicas para compreender suas origens.
A novela entrou na grade da Globo em outubro de 2012 e ficaria no ar até maio de 2013. Poucas semanas após a estreia, em novembro, mostrava o depoimento de um rosto que eu conhecia. Era a minha amiga israelense! Ela perguntava, às lágrimas: “Por que me [abandonaram]? Por que não [me procuraram], só para saber se eu estou bem? Só [queria saber] isso” (Salve Jorge, 2012c). Dias depois, ela de novo na novela:
Oi, meu nome é Chen (7). Eu nasci no Brasil na fecha (8) 21 de agosto… [...] de 1985, na cidade Santa Catarina (9), Bom Retiro. Tenho papéis que têm o nome da minha mãe [biológica], se chama Marlene Bezerra. Eu estou buscando ela e qualquer informação [que houver], eu tô alegre (Salve Jorge, 2012b).
A novela revelava, na voz de Aisha, que os documentos de Chen eram falsos e contava que ela aprendeu português para conversar com a família biológica – o que até o fechamento do texto desta dissertação, quase 14 anos depois, não ocorreu. Eu sabia que, assim como Chen, os israelenses aprendem idiomas estrangeiros pela televisão – em Israel, programas estrangeiros não são dublados, mas legendados. No caso de Chen, o potuguês foi aprendido justamente por meio de novelas brasileiras. Anos antes, em 2003, Chen tinha estado no Brasil com o marido investigando suas origens.
Não me lembro exatamente, mas acredito que liguei para Chen logo na manhã seguinte. Tranquei-me na cabine de gravação telefônica da redação e conversamos longamente, mais de uma vez. Soube de novos detalhes da história dela. A conversa virou entrevista e a entrevista, uma matéria que saiu publicada na versão impressa e no site do Estadão dias depois, inclusive fazendo referência à personagem Aisha. Além da história, eu contava no texto – que ocupava seis colunas de uma meia página numa edição de domingo – que “[e]mbora tenha investigado e procurado de forma quase incansável ao longo de vários anos, Chen ainda não sabe quem são os pais biológicos, pessoas que ela se recusa a chamar de ‘pais’, apesar do desejo de encontrá-los” (Toueg, 2012).
Ela brincava: “Costumo dizer que sou uma ‘brasileira falsa’. Tenho muito orgulho disso” (idem). Sobre a busca de 2003, ela contava que acabaria desistindo depois de ser “alertada” por um policial.
Algumas semanas após o primeiro depoimento, Chen aparecia outra vez na novela (Salve Jorge, 2012a). Nesta ocasião, contava como funcionava e por que a adoção de crianças brasileiras em Israel era tão comum. Revelava também que o tema da adoção era tabu em sua família, dizendo que seus pais se esquivavam de falar a respeito – nós já havíamos contado isso no jornal. Como ela, outros adotados em Israel e em outros países também apareceram na novela Salve Jorge.
Na terceira aparição no folhetim, Chen fazia também um apelo às autoridades brasileiras: criar uma força-tarefa para ajudar os estrangeiros, o que demoraria alguns anos para acontecer e ainda é feito de forma incipiente (10). Em 2024, a Polícia Federal (PF) passou a utilizar informações genéticas do Banco Nacional de Perfis Genéticos (BNPG) para auxiliar os adotados em sua busca pela família biológica (Félix, 2024).
A novela teve papel importante em repercutir o tema, que não é coisa do passado (11). Relatos pessoais, como o de Chen, começaram a aparecer na imprensa, revelando um aspecto da história brasileira pouco conhecido na nossa sociedade. Mesmo depois de a novela sair do ar, algumas reportagens ainda contavam histórias semelhantes e se referiam às pessoas como “Aishas da vida real” (Sousa, 2013). Gosto de pensar que tive um papel miúdo nisso.
* * *
O jornalismo investigativo, para mim, naquele bar em 2002, foi despertado numa conversa ao pé do ouvido. Dez anos depois, sentado no sofá, reapareceu em forma de novela na tela da minha TV. Depois dos episódios de Salve Jorge e de escrever a matéria para o Estadão (e por razões que tenho dificuldade em explicar), eu começaria a me aprofundar intensamente na pesquisa a respeito do assunto. Procurei outros adotados, começando pelos que apareciam na novela: Charlotte Cohen-Tenoudji (França), Lior Vilk e Fabiana Soares (Israel), Marcos Ceder (Suécia). Ouvi as histórias de cada um deles e soube que havia desdobramentos inesperados em cada uma delas.
A partir dessas primeiras histórias, eu conheceria muitas outras. Depois de assumir o tráfico de bebês brasileiros como meu tema de pesquisa jornalística investigativa “de vida”, em não poucas vezes a história “me procurou”, na forma de um email com alguma informação, uma mensagem em rede social com alguma dica ou um comentário com um relato emocionado. Geralmente são pessoas pedindo ajuda para encontrar as próprias raízes, enviando a mim – um total desconhecido – documentos oficiais, como certidões de nascimento, papelada de maternidades, documentos de viagem, anotações em diferentes idiomas, fotos…
Acompanhando o assunto e mantendo contato com Izaura Mandryk, uma senhora curitibana que estava também profundamente envolvida na pesquisa para tentar ajudar os adotados, era inevitável topar com reportagens e informações sobre o tráfico de bebês. Essa mulher – assim como a mãe de Mônica Foltran e várias outras voluntárias – fazia um trabalho incansável para tentar trazer aos adotados boas notícias. Nem sempre conseguia. Mas ela entendia muito do assunto e sempre me ajudou na pesquisa com informações menos evidentes, menos aparentes – funcionária pública, ela viraria uma espécie de “informante”.
Certa vez, em 2016, alguém me alertou de uma entrevista que tinha ido ao ar na TV Record meses antes. A entrevistada: Arlete Hilú. A equipe do programa Repórter em Ação havia localizado a traficante em uma casa simples do litoral catarinense e ela topou falar, de forma exclusiva. E o que ela falou – e também como falou (12) – era chocante. Em determinado trecho, a repórter Heleine Heringer perguntava: “O que a senhora acha hoje de as pessoas [a] apontarem [...] como uma das maiores traficantes de crianças que já [houve]?” Hilú respondia às gargalhadas: “Eu não acho nada, dou risada, ainda, digo ‘Oba!’” O tom era esse ao longo de toda a entrevista. Em determinado momento, a traficante parecia ameaçar a repórter ao ser indagada sobre um de seus parceiros no esquema, Valdemar Reinert, outro nome recorrente nas pesquisas a respeito do esquema. O diálogo se travava assim (Mulher [...], 2016):
– (repórter) – Quer dizer que era muito maior a rede?
– (Hilú) – Muito maior – a máfia. Gente de dentro da [PF] vendia os passaportes em branco. Mas não pra mim. Era o meu comparsa que pegava os passaportes.
– (repórter) – Quem que era o seu comparsa?
– (Hilú) – Eu vou dizer pra você. Agora… Se acontecer alguma coisa pra ele, eu já sei que foi você que fez. Pode ser? Você aceita?
– (repórter) – Eu tenho que ter medo? [...]
– (Hilú) – Também.
– (repórter) – Tá, primeiro só me fala quem é.
– (Hilú) – Valdemar.
– (repórter) – Ele era o chefe? Ele tinha conexões?
– (Hilú) – Não, não era o chefe. Ele cuidava dos passaportes, da documentação. Dentro da [PF] existem umas caixas cheias de passaportes, entende?
Assisti tantas vezes à entrevista que, a certo ponto, conseguia recitar as falas de Hilú de cor. Era, àquela altura, o mais perto que eu chegava de entender a mente dela, o que seria essencial para desdobramentos futuros da pesquisa. Não sou profissional de saúde mental, por isso recorri a psicólogos e psiquiatras para tentar entender algo da personalidade da traficante confessa. A entrevista ajudava muito nisso: ela tinha necessidade de palco, de aparecer, de se colocar no centro da narrativa. Debochava dos feitos, ria de ter sido presa e insistia em uma tese que manteve desde que fora condenada pela primeira vez, no final dos anos 1980: as crianças que ela raptava e vendia a dezenas de milhares de dólares estavam “em melhores condições”, como se coubesse a ela determinar o destino de alguém e como se aquilo não tivesse ocorrido, em muitos casos, ao custo de muito sofrimento.
Em outro trecho, no início da entrevista, a repórter insiste perguntando se Hilú não temia ser apontada como traficante de crianças. Ela responde dizendo que não se importava e confessa: “Pode [me] chamar [...] de traficante de criança. Eu ia dizer… ‘Olha, fui traficante de criança e essas crianças estão maravilhosamente bem [sorri]. Maravilhosamente bem’. Você acha que isso aí é horroroso [...]?” (Mulher [...], 2016). Em 2024 fiz, com colegas do PPGCC/Uniso, uma análise do discurso dela naquela entrevista à Record. Anotamos que “[a] análise [...] destaca a normalização da violência e a desvalorização da vida humana ao longo do discurso da entrevistada” (Costa et al., 2024, p. 92). Ainda fazíamos as seguintes considerações:
A análise dos sentidos desses termos destaca não apenas a tentativa de [...] Hilú de minimizar sua responsabilidade, mas também a normalização e a banalização da violência associadas ao tráfico de bebês. [...] Em suma, a análise [...] permite compreender como a linguagem é utilizada para construir lógicas discursivas que tentam minimizar a responsabilidade pessoal e normalizar a violência e a criminalidade. A estratégia de Arlete Hilú de se apresentar como uma mera intermediária e de transferir a responsabilidade para as mães [biológicas] revela um ethos profundamente enraizado de indiferença e desvalorização da vida humana (Costa et al., 2024, p. 105-106).
A entrevista de Hilú à Record TV me revirou o estômago, como certamente o de muita gente – por alguma razão, até hoje aparecem recortes daquele vídeo nas redes sociais como o TikTok. Tendo ouvido de primeira mão a história de tantos adotados e sabendo do sofrimento deles para ter pistas sobre suas origens, a dificuldade de achar respostas, de descobrir a verdade, o enjoo era ainda mais acentuado. Por isso, acho, sentei-me diante do computador e desabafei num texto a que daria o nome de O deboche da mulher que integrou uma quadrilha de tráfico de bebês (Toueg, 2016). Publiquei num blog que eu mantinha à época. Num tom mais informal do que o que o jornalismo prega, e em primeira pessoa, teci críticas ao deboche dela.
Naquele meu texto, incluí trecho de uma conversa que mantive a respeito da entrevista com minha “informante”, em que ela desmentia farsas de Hilú. A traficante insistia na tese de que os bebês que ela traficava eram doados ou vendidos pelas famílias biológicas. Em parte isso de fato aconteceu, mas sob condições muito diferentes daquelas que ela relata. Da forma como ela alegava, tratava-se de uma venda e a mãe ganhava “um dinheirinho”. A “informante” conhecia relatos demais para cair nessa ladainha, e me disse:
É mentira que as mães biológicas “venderam” [as crianças], que [elas] receberam dinheiro… Algumas receberam cestas básicas ou pequenos valores. E o dinheiro ficava com os “intermediários”. As mães biológicas [eram] coagidas e ameaçadas: se denunciassem, [seriam] presas. Algumas “patroas” levavam os bebês sem o consentimento das mães – e quando elas ficavam sabendo que foram para o Juizado [de Menores], as crianças já haviam sido adotadas, inclusive com o escrivão ameaçando (Toueg, 2016).
Havia um aspecto que Arlete Hilú ocultava da narrativa, ainda mais sombrio: muitos bebês foram raptados de maternidades, tirados de forma ardilosa dos braços das famílias biológicas: aproveitavam quando a parturiente – geralmente sozinha – dormia ou usavam escusas como a necessidade de levar o bebê para ser vacinado. Mais tarde, eu ouviria o depoimento chocante de uma mãe que teve um filho raptado de uma maternidade de Curitiba e, que, no ano seguinte, ao ter outra filha, quase passaria pelo mesmo trauma, se não tivesse conseguido impedir que uma mulher saísse do hospital com seu bebê nos braços. Também não são poucos os relatos de hospitais que tomavam providências para o enterro de bebês que, alegavam, haviam nascido mortos. Era tudo rápido: o hospital cuidava do caixão, da papelada, do funeral e arcava com os custos. Quando houve exumações, por ordem da Justiça, revelaram-se caixões cheios de terra, colocada para simular o peso dos bebês – àquela altura, já nada se sabia a respeito do paradeiro das crianças.
Por alguma razão, meu texto no blog fez sucesso, viralizou. Foi compartilhado repetidas vezes em fóruns de adotados, em grupos de pessoas desaparecidas. Recebeu comentários diversos, como esses: “Meu nome [é] [...] (13), no ano de 1986 fui raptado por essa mulher do quintal da minha casa, eu [estava] com 2 anos, foi em Curitiba [...]”; ou “Fui adotada em 1980, em Caçador/SC por uma família maravilhosa, a quem muito amo. Mas, em vista desse recente descobrimento, temo que as circunstâncias da minha adoção não foram exatamente como explicadas a mim”; “Meu nome é [...] [...], hoje com 34 anos estou também à procura dos meus pais biológicos, eu nasci no ano de 1986, acredito também ter nascido em Pelotas no Rio Grande do Sul [...] e até hoje não conheço os meus pais biológicos” (Toueg, 2016, comentários).
De certa forma, a entrevista de Arlete Hilú me levava para perto dela. Era como se eu tivesse tido a chance de me aproximar e, mesmo que indiretamente, ouvir o que ela tinha a dizer. Mas eu queria que ela dissesse algumas coisas diretamente para mim. Eu tinha muitas perguntas. E sentia, em algum lugar, que ela desejava dar as respostas, se tivéssemos a chance de sentar perto a perto. Eu chegaria perto disso, mas não daria tempo suficiente para uma entrevista.
* * *
Anos depois, eu passava uma temporada em Campinas, maior cidade do interior paulista. Era parte de um ritual anual que eu fazia para cuidar das três cachorras da minha irmã, que naquele período do ano viajava a trabalho e se afastava da cidade – de bônus, eu ainda podia fugir da loucura da capital. Era novembro de 2022. Recebi uma mensagem direta em alguma das minhas redes sociais: “Eu conheço [Arlete Hilú] há 2 anos e não fazia ideia de quem ela [é]. Descobri no sábado, [...] fiz algumas pesquisas sobre o caso e cheguei na sua matéria”. Mantenho em sigilo os detalhes sobre o autor da mensagem em respeito à fonte e por sua segurança e privacidade – aspectos essenciais na relação entre jornalista e informante.
A “matéria” em questão, na verdade, era aquele meu texto do blog. Como já relatei, não era uma produção jornalística, mas o desabafo de um ser humano indignado com a história. Minha fonte – a pessoa agora se tornava fonte – também estava. Na sequência, indagava: “O que eu não entendi é [por que] ela não está presa, e ficou [presa] somente 2 anos mesmo depois [de ela] ter assumido que continuou com as práticas”. Minha fonte tinha feito uma pesquisa aprofundada.
A indignação era natural considerando que, pela primeira vez, naquela entrevista de 2016 à Record, Arlete Hilú confessava os crimes. Ela deu algumas entrevistas ao longo da “carreira”, principalmente para a imprensa estrangeira e principalmente quando esteve presa. Mas sempre se dizia inocente e buscava se desvencilhar das evidências, que eram avassaladoras. Então a entrevista não era chocante apenas pelo fato de que Hilú debochava por ser conhecida como a maior traficante de bebês da história: ela o fazia assumindo os crimes que sempre negou.
Matéria ou não, o texto do blog me ajudou a aparecer nos resultados de busca quando se pesquisava sobre o assunto – dou risada ao lembrar que, quando começou a febre do ChatGPT no Brasil, me atrevi a perguntar ao robô qual era minha relação com Arlete Hilú, na esperança de que a inteligência artificial revelasse que pesquiso os crimes cometidos dela. Para minha surpresa, porém, o GPT respondeu que éramos casados… Calúnia! O erro foi corrigido: atualmente explica que “A relação entre Arlete Hilú e Gabriel Toueg é de jornalista / pesquisador e investigad[a]” (OpenAI, 2025 (14)).
Desde 2016 eu buscava saber onde Hilú tinha ido parar depois de gargalhar ao se gabar de traficar bebês – a imprensa se calou a respeito do assunto porque de repente não havia gancho (15) que justificasse isso: a novela já era antiga, casos reais perderam força de notícia… De repente, o paradeiro dela caiu no meu colo. Na sequência da mensagem, falamos ao telefone e eu soube mais sobre a Arlete de 2022, sobre quem poucas pessoas (certamente poucos jornalistas) sabiam. Também recebi imagens e pude ver uma Arlete envelhecida, sentada numa cadeira de rodas e colorindo o desenho de uma abóbora.
Ansioso pela informação completa sobre o paradeiro da traficante, fucei o perfil do autor da mensagem, descobri onde vivia. Por sorte, era uma cidade pequena. Munido desses dados e fazendo uma pesquisa nas redes sociais, encontrei o perfil do local em que a pessoa dizia que Hilú estava – bingo: achei uma foto oficial do local e o fundo da imagem mostrava um padrão que se repetia na foto da mulher na cadeira de rodas. Após 9 anos de buscas infrutíferas, Arlete Hilú estava a 67 minutos (16) de distância (segundo um aplicativo de GPS) ali da casa da minha irmã – logo de onde eu só costumava passar algumas semanas por ano.
Tão perto, mas tão longe. Minha vontade imediata foi subir no carro e dirigir até o local. O que parecia simples, entretanto, tinha alguns complicadores: ela não estava morando num local próprio, como quando concedeu a entrevista de 2016. Desta vez, vivia numa casa de repouso, atrás de um muro de proteção em função da pandemia, que voltava a crescer naquele momento pelo país. Além das restrições sanitárias, o local ainda tinha uma política rígida, que só permitia visitas de familiares cadastrados. Não era o meu caso – o fake do ChatGPT não servia!
Não desisti. Com a minha esposa, pensei em diversas estratégias para chegar perto da mulher que sabia segredos sobre o esquema que traficou milhares de crianças para fora do Brasil. Chegamos a considerar a ideia de “infiltrar” alguém no asilo. Confesso que pensei em fazer isso com minha mãe (que odiou a ideia!) e meu pai (que adorou!) O problema: o lugar era caro e eu, como pesquisador independente, não poderia arcar. Certa vez, fomos até o local com o pretexto de que queríamos internar um parente. Conversamos com o proprietário, que não nos deixou passar do portão principal, mas quando fui ao banheiro, consegui avistar Hilú apoiada em duas enfermeiras que a acompanhavam numa caminhada ao sol. A mulher estava viva, mas não tinha a disposição que víamos na entrevista de 2016. Anos depois eu saberia que àquela altura, Hilú já estava debilitada – ela chegou a ser internada e desenganada pelos médicos meses antes – e em estado avançado de Alzheimer, com pouca sanidade. Não seria de muita utilidade, afinal.
Apesar disso, minha fonte conseguiu informações importantes: ela não recebia visitas, por exemplo. As roupas que usava eram emprestadas por outros idosos vivendo no local. Depois de ganhar dinheiro às custas de bebês, ela não parecia ter posses. Diferente de outros no local, ela não tinha acesso a celular ou computador: estava isolada do mundo, adoecida, dependente da assistência e boa vontade alheia e sem amigos ou parentes (Toueg, 2024a).
Aprender coisas assim certamente não me servia para obter as respostas que eu buscava, mas de alguma forma ajudava a entender uma coisa ou outra sobre o destino da mulher por trás do maior esquema de tráfico de bebês da história.
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Saber o paradeiro de Arlete Hilú – e ser provavelmente o único jornalista com tal informação – devolveu algo da empolgação com a pesquisa, que tinha desvanecido durante alguns anos. Entendi que precisava organizar e sistematizar as informações de que já dispunha e buscar novos dados, nomes, entrevistas etc. Comecei a organizar os nomes ligados à pesquisa em um fichário em papel, mesmo. Montei um mural de cortiça. Adotados, famílias biológicas, famílias adotivas, autoridades policiais, autoridades judiciárias, envolvidos no esquema, integrantes da quadrilha de Hilú e de outras quadrilhas (a dela era a maior, mas não era a única), jornalistas, “informantes”, pessoas que pesquisam o tema com finalidades distintas, voluntárias etc. Fiz uma sistematização indicando, nas fichas, com um código de cores, a que “grupo” cada pessoa pertencia – isso me ajudava a visualizar o todo e a encontrar rapidamente algum nome sempre que eu precisava consultar alguma informação. As fichas também têm a foto de cada pessoa, o que me ajuda a “conversar” com cada um.
Também comecei a organizar anotações usando cadernos comuns, de tamanho pequeno, capa dura. Eles me permitiam anotar, de forma mais “solta”, pensamentos, ideias, conversas que mantinha com fontes, ideias apuradas em documentos e leituras etc. É uma excelente referência para quando eu preciso resgatar uma informação específica que sei que está ali anotada – muitos preferem um sistema mais digital, mas escrever à mão me ajuda a manter as ideias na memória. Em algum momento eu passei essa avalanche de informações para arquivos digitais.
Além do fichário com os nomes, entendi ser importante, também, ter um “caderno de fontes”. Parece algo tirado do baú da história, considerando que hoje temos todos os contatos ao alcance dos dedos na tela do celular. É uma forma que eu gosto de usar para organizar nomes de um projeto específico. Comprei uma agenda telefônica e fui anotando os nomes e telefones de todas as pessoas com quem eu já tinha falado ou com quem gostaria de falar – cada novo contato também ia para a agenda. É um espaço que sempre atualizo (anoto os nomes à caneta e os dados de contato, como email e telefone, a lápis). A agenda, depois, virou um arquivo, também.
O mural de cortiça me permite ter o tema sempre à vista. Nele, costumo anotar descobertas recentes, caminhos de pesquisa que desejo fazer, pessoas que quero localizar e também relações entre diferentes personagens do esquema. O mural é dividido em duas partes. Num lado, coloco fichas em quadrantes por categoria – pessoas sobre quem estou investigando algo naquele momento. Na outra parte, bem bagunçada, há papéis com lembretes, fotos, listas de afazeres e de pessoas com quem quero/ preciso falar, lista de leituras, organizador de viagens (moro longe dos locais que foram foco do esquema) e até um mini-glossário com termos relacionados aos crimes em questão em português e hebraico.
O próximo passo era organizar recortes de imprensa. Há um farto material disponível e muito bem documentado sobre o esquema de tráfico de bebês dos anos 1980 em veículos de comunicação no Brasil e fora do país. A hemeroteca da Fundação Biblioteca Nacional tem uma coleção imensa de jornais e revistas brasileiros que ajudam na pesquisa, com buscas por veículo, década ou local de publicação ou ainda usando termos específicos. Acervos de jornais também – costumo usar bastante os arquivos dos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo. Programas da TV Globo estão arquivados no Globoplay – todos esses estão online, mas exigem que o pesquisador mantenha uma assinatura ativa.
Como muitas adoções ilegais nos anos 1980 ocorreram em Israel, a National Library of Israel para mim também é uma fonte rica de material da imprensa local. O site deles tem versão em inglês, mas para conseguir ler matérias em hebraico, foi bem útil eu ter vivido lá e aprendido o idioma. A busca, para ser efetiva, também precisa ser realizada no idioma local. Um caso fartamente documentado é o de Bruna Vasconcelos – até hoje, a única traficada que voltou para casa ainda bebê. Com ajuda de um canal de TV britânico, a mãe de Bruna conseguiu reverter a adoção ilegal da menina na Justiça israelense, que ordenou o retorno dela ao Brasil dois anos depois de ter sido raptada por uma falsa babá do berço em que dormia em casa, em Curitiba (Caso Bruna, 2025).
A busca sobre o tráfico de bebês na imprensa resultou num número imenso de entradas: era necessário criar uma forma de organização que ajudasse em vez de atrapalhar e sobrecarregar a pesquisa. Lancei mão de uma ferramenta online que já usava, para outra finalidade: um site em que mantenho meu portfólio. Usei a mesma lógica para criar um banco que reúne todos os recortes que já localizei e os que ainda localizo quando pesquiso o tema (o que nunca cessa). Isso também me ajuda a achar facilmente uma matéria específica – a ferramenta tem recursos como busca por termo, tags, publicações. Construí o site de forma que é fácil encontrar entradas por caso, pelo nome de determinados envolvidos, representações na cultura popular, países, décadas etc. Neste momento, estou criando, com ajuda de IA generativa, um banco de dados robusto que faz o cruzamento de matérias, nomes de pessoas, locais etc.
Meu catálogo de imprensa não se resume ao que está online. Muito do que tenho ali está também copiado/impresso e organizado em pastas temáticas – Arlete Hilú tem uma só dela, o caso de Bruna Vasconcelos, por exemplo, tem a sua. Também tenho edições originais de algumas matérias, como da saudosa revista Manchete e de Veja e, ainda, da revista piauí, que publicou matéria completa recentemente.
Uso o clipping para diversas finalidades, mas destaco sua importância como fonte de informação para construir uma linha do tempo fiável sobre os acontecimentos: as matérias foram publicadas em determinadas datas e mencionam eventos que ocorreram em determinado momento – então fica fácil entender o que veio antes do quê. Para mim, é a fonte mais rica de informações, que se soma à documentação oficial que eu tenho obtido (processos judiciais, por exemplo), a trabalhos de especialistas sobre temas relacionados à adoção internacional e ao tráfico de pessoas, a documentos enviados por pessoas que entram em contato etc.
Com tudo isso – e para desespero da minha esposa! – nosso escritório em casa é uma ode à pesquisa sobre o tráfico de bebês nos anos 1980. Há, por todo lado, pastas, caixas, fichários, cadernos, mural, fotos, etiquetas, marcadores, livros etc. Tenho até o DVD de um filme ficcional sobre tráfico de bebês, mas nunca consegui assistir ao longa porque já não tenho mais leitores dessa mídia!
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Depois de receber a dica sobre Hilú, comecei a tentar conversar com parentes e pessoas próximas a ela. Não havia muitos – mas eu sabia que ela tem dois filhos. O mais velho é instrutor de paraquedismo no interior de São Paulo – não por acaso, em uma cidade próxima à casa de repouso. Consegui seu contato, depois de becos sem saída. Após alguma resistência, agendamos uma conversa. Era compreensível que ele quisesse distância da imprensa e que não morresse de orgulho da mãe. Mesmo assim, topou me atender ao telefone. Eu ainda estava atrás de falar com a traficante e achava, sem muita esperança, que ele poderia me ajudar nisso. Se alguém pudesse autorizar uma visita à casa de repouso, seria ele. Antes do nosso telefonema, porém, quis saber o que se sabia de Arlete Hilú àquela altura – já haviam se passado alguns meses desde a última informação concreta que eu tinha do paradeiro da mulher.
Conversei com a pessoa que entrara em contato comigo em 2022 e ela me informou, em primeira mão: Hilú estava morta. Não tinha sido na véspera. Na verdade, ela morrera alguns meses antes, mas por alguma razão minha fonte preferiu não me contar e só revelou a informação quando eu a questionei a respeito. A relação do jornalista com suas fontes não se dá no ritmo e ao gosto do jornalista, mas conforme os sentimentos de quem tem a informação, que podem muito bem ser contraditórios.
Lembro que quando soube da morte de Hilú, eu estava no carro com a minha esposa, a caminho de levá-la ao trabalho. Tive uma mistura de sentimentos: confusão, inquietude, solidariedade, luto, raiva, certo alívio. “Se alguém tinha um panorama [...] de tudo que acontecia e [dos] envolvidos, esse alguém era ela. Levou as informações embora, cremadas em Piracicaba como ela” (Toueg, 2024b) – é um trecho de texto que eu escrevi para tentar processar o que sentia.
Após a conversa com o filho de Hilú – em que expressei minhas sinceras condolências e ouvi tudo e apenas o que ele quis me contar, escrevi sobre a morte no UOL Notícias (Toueg, 2024a), com informações exclusivas obtidas com ele e no atestado de óbito, que eu buscara no cartório horas depois de receber a notícia. Esse detalhe foi outro golpe de sorte: eu sabia onde ela vivia e sabia que o falecimento seria registrado oficialmente em um cartório daquela cidade. Ter um só cartório ali foi de grande ajuda – não demorei mais do que 20 minutos para ter o documento em mãos (Brasil, 2023). Também desabafei no blog:
Para muita gente que eu conheci nesta jornada [...], sei que a notícia [da morte de Hilú] vem como alívio; para outros, para fechar um ciclo; para alguns, como uma parede no fundo do beco sem saída da busca pelas próprias raízes. Consigo visualizar como se sentiu cada pessoa que eu conheci e que teve a vida e o destino alterados por Hilú (Toueg, 2024b).
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Minha pesquisa, ao longo dos anos, de 2012 para cá, nunca foi totalmente linear. Houve momentos de imersão total, em que li tudo que podia a respeito do esquema criminoso de Arlete Hilú e de outras quadrilhas: vasculhei acervos de jornais e revistas para encontrar tanto quanto possível; fui atrás de processos na Justiça envolvendo a quadrilha, estudei casos a fundo mexendo em documentos cedidos pelas vítimas, conversei com adotados, com familiares biológicos de crianças levadas, com pessoas que de alguma forma se relacionavam com o tema.
Em outros momentos, entretanto, tive de me afastar. Por vezes, até mesmo o termo “tráfico de bebês” tinha peso massacrante. Nesses momentos, buscava um distanciamento sabendo que não seria duradouro. Como num chamado, o tráfico de bebês acaba retornando às minhas mãos, como se eu tivesse a responsabilidade – honestamente hoje sinto que tenho, de fato – em revelar o que se sabe e o que é possível descobrir sobre o assunto. Tenho certeza de que esse meu esforço se soma ao de outros jornalistas que se dedicaram e se dedicam a expor o tema.
Não foram poucas as vezes em que o assunto veio até mim, como já contei. Fui procurado por muitos adotados que vivem em Israel e estão em busca de saber quem são e de onde vieram – ajudou muito o fato de ter vivido em Israel, de falar hebraico e de conhecer um pouco sobre a mentalidade sabra (17). A experiência tem me mostrado que as pessoas começam a fazer essa busca quando pensam, elas mesmas, em ter filhos: é nesse momento que surgem a curiosidade com o passado e as preocupações com a genética – daí aquele 2012 da novela Salve Jorge e da série Órfãos do Brasil ter visto uma quantidade expressiva de pessoas em busca de informações.
Também me procuram pessoas adotadas em outros países, a quem ouço de igual forma e com quem busco manter contato. Cada um tem sua história, que tem muito em comum com as outras mas é, ao mesmo tempo, única: particularidades da adoção, da família adotiva (uma garota, por exemplo, contou-me que foi adotada por uma família francesa apenas para ser abusada pelo pai), do país para o qual foi – e também a relação que tem com o tema da adoção. Cada pessoa é uma história nova, fascinante e, quase invariavelmente, triste.
Também me procuram mães biológicas de filhos raptados, com depoimentos de arrepiar. São, também, histórias muito tristes – elas, as mães, sabem que tiveram um rebento tirado delas, mas sufocaram por muito tempo essa certeza com medo de serem tratadas como “loucas” – ouvi isso de uma mulher, não saiu da minha cabeça: ela acusa a fragilidade do parto recente e a impaciência de parentes perante a ideia que ela levanta sobre a ocorrência do rapto.
Juízes, policiais civis e policiais federais, jornalistas também me procuram. Até uma pessoa do círculo próximo de Arlete Hilú, que foi, ela mesma, adotada pela mãe – amiga da traficante – aparentemente também de forma ilegal, me procurou certa vez. As histórias pipocam. Infelizmente, o interesse pelo assunto na imprensa não é grande. É difícil emplacar pautas a respeito, especialmente quando tenta-se fazê-lo como esta dissertação defende, tendo o ser humano no centro da narrativa.
O interesse cresce quando ocorrem casos parecidos: em 2023, por exemplo, uma criança desapareceu em Santa Catarina e foi encontrada em São Paulo com um homem e uma mulher. A mãe biológica, descrita como num “quadro de extrema vulnerabilidade”, estava internada quando o bebê sumiu – ela acabaria confessando que entregou a criança. A polícia descobriria que o homem a vinha cooptando para entregar a criança (Saleme, 2023). O homem e a mulher, segundo a investigação, estavam a caminho de registrar a criança sob o nome da mulher – o que é ilegal no Brasil, conforme o artigo 142 do Código Penal, que prevê prisão de 2 a 6 anos.
Também em 2023, outro caso teve destaque: um cidadão português foi preso pela PF ao tentar sair do país com um recém-nascido registrado em seu nome – apesar de ele não estar no Brasil quando o bebê foi concebido. A investigação revelou que ele já havia levado para fora outro bebê. As duas crianças nasceram em Valinhos, interior de São Paulo, mas as mães eram de cidades distantes, levantando a suspeita de que se tratava de um caso de tráfico. A bebê levada para Portugal foi repatriada em 2025 (Tráfico [...], 2025).
Em 2024, uma médica neurologista raptou uma bebê recém-nascida numa maternidade mineira. A criança foi encontrada numa cidade a 135 km de distância do local de nascimento. A mulher se passou por pediatra para ter acesso ao quarto em que a família da bebê estava. Segundo a defesa da médica, “ela queria ser mãe e estava realizando procedimento de inseminação artificial” (Munhoz, 2024).
Nem todos esses casos se provaram como sendo de tráfico de bebês, mas certamente atraíram bastante atenção da imprensa, com cobertura vasta.
Mais recentemente, para trazer o assunto de novo à tona, escrevi a respeito no site MigraMundo, especializado na temática migratória (Toueg, 2024c). Busco explicar o esquema, apresentar os principais nomes, dados e, acima de tudo, mostrar que não se trata de uma história medieval, mas de algo que acontece à nossa volta ainda hoje. Também abordo especificamente o caso da menina Bruna, sobre o qual já falei aqui. A partir da publicação do texto, mais pessoas me procuraram em busca de e com informações a respeito do assunto.
Com a febre do true crime, também já fui procurado por produtores de streaming. Numa ocasião, durante a pandemia de covid-19, recebi um telefonema de uma pessoa interessada na história de Arlete Hilú. A ideia era fazer uma temporada inteira de uma série a respeito da maior traficante de bebês da história. Fiquei empolgado – tenho material suficiente para um longa-metragem sobre ela! Mas a série tinha um viés com o qual eu não poderia concordar: transformar Hilú no personagem central da história, papel que não pertence a ela. Declinei o convite – bem irritado, porque achei que aquela seria uma oportunidade importante de contar a história. Até onde sei, o projeto não foi adiante. Haverá outros…
Por ocasião da morte de Hilú, fui procurado para falar a respeito dela e do esquema de tráfico de bebês duas vezes. O podcast Adotivas, mantido por mulheres adotadas, ativistas pela visibilidade da adoção pelo ponto de vista da criança e não de forma romantizada, e também pelo direito à origem, me convidou em abril de 2024 (Adotivas, 2024). Tive, com Larissa Alves, Gisele Assis e Fernanda Tuna, conversa muito interessante, em que pude aprender muito sobre a adoção a partir do olhar delas.
Conversei com o Canal Desaparecidos, que abordou o assunto na esteira da condenação de uma mulher por tráfico humano e escravidão (Desaparecidos, 2024). Foi rico observar e discutir com o apresentador Anderson Jesus as semelhanças nos dois “tipos” de tráfico e entre as duas personagens. Em determinado momento, chamei atenção para uma característica comum entre elas: a lábia e a sedução. Era assim que Arlete Hilú conseguia cooptar famílias biológicas para vender ou entregar bebês e, do outro lado, convencer famílias adotivas a pagar milhares de dólares por uma criança.
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A pesquisa não acabou. Ao que tudo indica, não deve acabar jamais. Ao contrário: no fim de 2023, tomei coragem, incentivado pela minha esposa, para trazer o tema para a Academia e transformar meu material coletado em algo que possa servir ao estudo do jornalismo. Nesta dissertação está o resultado. Os projetos também não param por aí. Existe a ideia de escrever um livro e, mais recentemente, a de fazer um podcast, dando voz a essas histórias e espaço dedicado a esse assunto, que considero uma ferida significativa na história brasileira – já cicatrizou, para uns, mas para muita gente segue sendo uma marca indelével na alma.
Este texto nasceu a partir da proposta, contraintuitiva para jornalistas, de se inserir na narrativa sobre nosso trabalho. Não se pretende, de forma alguma, um manual de jornalismo investigativo. Mas pode ser, para quem gosta de bastidores, como eu, uma curiosidade sobre como uma investigação se faz – ou como o “meu JI” se fez no caso do tráfico de bebês. Não há fórmula mágica, pronta. Mas se eu puder dar uma dica, ela será: se você vai assumir uma investigação como projeto de vida, faça isso sobre algo que te move, ou facilmente ela se tornará um peso.
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Notas:
Consulte as fontes citadas na página Referências
(1) Uma primeira versão deste ensaio foi elaborada na disciplina Comunicação, cultura e arte, sob responsabilidade da profa. dra. Míriam Cristina Carlos Silva (semestre 2025.1). Também compõe a entrega a apresentação realizada em sala de aula em 17 jun. 2025 e disponível em: «https://www.canva.com/design/DAGqh0fSoWI/9zlExpAnn6WAlz4nicOflQ/».
(2) A partir daqui e em todo o texto, usa-se “jornalismo investigativo” (ou JI) em referência à prática do jornalismo investigativo mas também ao conjunto de atividades que a prática engloba (a “investigação”), do primeiro contato com o tema até a escrita do texto, por exemplo, passando pela investigação em si, contato com fontes, checagem de informações, levantamento de dados e documentos, confronto de informações etc. Quando escreve-se que “o jornalismo investigativo aconteceu…”, é a este conjunto de atividades que se refere.
(3) “Também chamado no jargão jornalístico de “sub-retranca”, “[t]exto complementar, editado logo abaixo de uma matéria, ou diagramado no meio das colunas do texto principal. Seu título, geralmente em corpo menor do que o corpo do título principal, costuma ligar-se com este por uma nítida relação de conteúdo” (Rabaça; Barbosa, 2001, p. 698a).
(4) A série é analisada qualitativamente no capítulo 6 da dissertação, sob a lente do debate suscitado em seu capítulo 4. A íntegra pode ser consultada aqui.
(5) Por convenção, o “ch” na transliteração para o portugês a partir do hebraico se pronuncia como o “j” em espanhol. Lê-se, portanto, “Ren”.
(6) Hilú seria condenada pelos crimes de tráfico de crianças, falsidade ideológica, formação de quadrilha e retirada ilegal de crianças do país (fonte: pesquisa realizada pelo autor junto a processos judiciais).
(7) Na legenda do depoimento de Chen, o nome dela aparece grafado como “Jen”. Embora a pronúncia seja parecida ao “j” em espanhol, a forma convencionada de transliterar em português é com “ch”, daí a escolha do autor em grafar seu nome transliterado desta forma. O som é equivalente ao nosso “rr”.
(8) A produção da novela manteve, na legenda do depoimento, a palavra em espanhol “fecha”, tal como dita por Chen. Como ela se esforça para falar português mas fala mais corriqueiramente o espanhol, algumas palavras “escapam”. “Fecha” significa “data”.
(9) Chen se refere ao estado de Santa Catarina como se fosse uma cidade; Bom Retiro é um município na região serrana do estado, mas não fica claro, no depoimento, se é a ele que ela se refere. Em matéria publicada no Estadão, eu esclareceria que se trata mesmo daquela cidade.
(10) A entidade que coordena pedidos de busca de origens biológicas de pessoas adotadas residentes no exterior é a Autoridade Central Administrativa Federal (ACAF), que recebe pedidos desde 2018. Em 2019, o Conselho das Autoridades Centrais Brasileiras (CACB) editou uma resolução que estabelece o fluxo de recebimento e processamento desses pedidos (Brasil, 2019).
(11) O capítulo 6 da dissertação apresenta alguns casos recentes ocorridos no Brasil.
(12) Para uma análise aprofundada da fala de Hilú na entrevista, leia “Sentidos de violência e indiferença ao crime de tráfico humano de bebês: uma análise discursiva” (Costa, Toueg & Pereira Neto, 2024).
(13) Para manter a privacidade das pessoas, seus nomes foram omitidos.
(14) A informação foi obtida a partir do seguinte prompt (comando): “Qual é a relação entre Arlete Hilú e Gabriel Toueg?” Eis a resposta completa: “A relação entre Arlete Hilú e Gabriel Toueg é de jornalista / pesquisador e investigad[a]. Gabriel Toueg, repórter brasileiro, vem pesquisando desde 2012 o esquema de tráfico internacional de bebês liderado por Arlete Hilú nos anos 1980. Ele publicou diversas matérias e chegou a revelar, em abril de 2024, a notícia da morte de Arlete em uma casa de repouso no interior de São Paulo. Ilustrando essa ligação: Toueg se dedica ao estudo do caso como tema de seu mestrado e reportagens investigativas; [j]á Arlete foi identificada publicamente com base nas apurações de Toueg, que também revelou detalhes sobre seus últimos anos de vida. Ou seja, Gabriel Toueg atua como o principal pesquisador e divulgador das informações sobre Arlete Hilú e seu esquema criminoso”.
(15) No jargão jornalístico, “gancho” é algum evento ou efeméride que estimula a retomada do assunto e sua aparição na imprensa. “Trata-se de um modo de contextualizar a matéria” (Bravo, 2012).
(16) A esse respeito, escrevi Uma hora e 7 minutos, texto que mantenho impublicado. A ideia é publicá-lo em algum registro futuro sobre a investigação, como nota de bastidores. Nele também conto a mistura de empolgação e frustração que senti ao obter a informação.
(17) O termo hebraico tzabar, traduzido como sabra, se refere a uma fruta desértica conhecida por ter uma casca espinhosa e um conteúdo doce e macio. Numa analogia, o termo dos anos 1930 é usado para descrever a personalidade dos israelenses, “áspero[s] e resistente[s], em sem exterior, mas extremamente terno[s] em seu coração” (O doce… [...], 2005).