Esta dissertação nasceu de um incômodo que atravessa, ao mesmo tempo, a experiência profissional, a reflexão teórica e a responsabilidade ética do jornalismo: a persistente dificuldade de incorporar a experiência humana, o diálogo e a complexidade social na cobertura de fenômenos marcados por violência, desigualdade e silenciamento, como é o caso do tráfico de bebês no Brasil. Mais do que identificar lacunas ou insuficiências pontuais na cobertura jornalística, o trabalho buscou compreender os regimes narrativos que estruturam essas representações, os pressupostos de objetividade que as sustentam e os efeitos simbólicos que produzem sobre os sujeitos diretamente envolvidos.
A análise do corpus dos anos 1980 evidenciou a força de um modelo jornalístico no qual o sentido da narrativa se organiza prioritariamente em torno de procedimentos, fontes oficiais e acontecimentos fragmentados no tempo. Nesse modelo, como demonstrado ao longo dos capítulos analíticos, o ser humano tende a ocupar posição secundária, a alteridade é frequentemente neutralizada, a escuta se limita à coleta instrumental de declarações e a experiência vivida aparece de forma marginal ou ilustrativa. Esses achados não são interpretados como falhas individuais de jornalistas específicos, mas como efeitos de uma arquitetura narrativa historicamente consolidada, que orientou práticas profissionais e expectativas editoriais em determinado contexto histórico.
Ao deslocar o olhar para um segundo corpus, composto por reportagens publicadas em 2012 sobre acontecimentos ocorridos naquele mesmo período histórico, a pesquisa não pretendeu estabelecer uma comparação normativa entre “um jornalismo do passado” e “um jornalismo do presente”. Ainda que os resultados do capítulo 6 revelem deslocamentos importantes – e, em muitos eixos, avanços consistentes – esta dissertação evita sustentar a ideia de uma evolução linear ou automática da prática jornalística ao longo do tempo. O risco de uma leitura evolucionista foi reconhecido e deliberadamente tensionado.
Os achados da análise do segundo corpus indicam que a maior densidade ética, dialógica e humanizada observada na série Órfãos do Brasil não decorre exclusivamente do momento histórico de sua produção, mas, sobretudo, das condições concretas de sua realização. O formato seriado, o tempo dedicado à apuração, a possibilidade dada à jornalista de se afastar da rotina diária, o envolvimento prolongado da repórter com o tema, o acesso a fontes primárias e a abertura editorial para narrativas não episódicas se mostram fatores decisivos para a construção de um jornalismo capaz de integrar processo social, temporalidade ampla, escuta ativa e presença em campo. Em outras palavras, o que se evidencia é uma questão de qualidade da prática jornalística, mais do que uma simples marca geracional ou temporal.
Essa constatação recoloca uma questão central, que vai direcionada tanto para o campo acadêmico quanto para o exercício profissional: é possível produzir narrativas éticas, dialógicas e humanizadas na cobertura cotidiana, “no quente”, sob as pressões do tempo, da produtividade e dos interesses empresariais? Rovida, por exemplo, mostra que sim: ela analisou a cobertura sobre um assunto dos mais corriqueiros: o trânsito numa grande metrópole – e expõe como algo que poderia ser noticiado de forma fria e distante acabou se transformando em uma relação dialógica entre repórter, agentes e um motorista de caminhão.
Esta dissertação não oferece respostas fechadas ou soluções normativas para esse dilema – que também é deste autor. Ao contrário, reconhece os limites estruturais das redações contemporâneas, frequentemente descritas – com razão – como espaços que “moem gente”, atravessadas por precarização do trabalho, aceleração produtiva e redução de espaços de autonomia e criatividade dos profissionais, o que reflete em menos tempo disponível para escuta, reflexão e contextualização.
Ainda assim, ao dialogar com as reflexões de autores como Cremilda Medina, este trabalho sustenta que a humanização do jornalismo não deve ser compreendida como privilégio de projetos especiais ou de grandes reportagens, mas como horizonte ético e epistemológico possível, mesmo no cotidiano da prática jornalística. Em diferentes textos, Medina (2002, 2003) propõe instrumentos concretos para o aprofundamento compreensivo da realidade, entre os quais se destacam a humanização dos protagonistas da ação social; o contexto abrangente do acontecimento pontual; as raízes histórico-culturais da situação em foco; e o diálogo com diagnósticos e prognósticos produzidos por pesquisadores e especialistas. Esses elementos, longe de constituírem um modelo idealizado ou inalcançável, funcionam como critérios de qualidade para uma prática jornalística comprometida com a complexidade do real.
Lidos retrospectivamente, os resultados empíricos desta dissertação dialogam diretamente com essa proposta. Os eixos analíticos mobilizados podem ser entendidos como desdobramentos operacionais desses instrumentos que Medina formula. O que a análise demonstra é que, quando tais dimensões são incorporadas de forma articulada, o jornalismo amplia sua capacidade interpretativa e reduz o risco de produzir novas formas de violência simbólica sobre sujeitos já historicamente vulnerabilizados.
Nesse sentido, a contribuição central deste trabalho não reside em oferecer receita de um “modelo correto” de jornalismo, tampouco em opor, de maneira simplista, um jornalismo “bom” a um jornalismo “ruim”. O que se buscou foi compreender o jornalismo como práxis, como articulação consciente entre ação, reflexão e responsabilidade ética diante do Outro. A práxis jornalística, tal como aqui defendida, não se realiza de forma plena ou homogênea, mas reconhece a inevitável mediação do sujeito, assume a dimensão interpretativa da narrativa e se orienta por um compromisso ético com o Outro e com os efeitos sociais do relato.
Essa perspectiva ainda permite relativizar dicotomias recorrentes no debate profissional, como a oposição entre qualidade jornalística e qualidade (ou virtudes) individuais do jornalista, ou entre compromisso ético e interesses empresariais. A análise sugere que essas tensões não se resolvem por meio de soluções individuais ou de heroísmo, mas por disputas contínuas no interior do campo jornalístico: por tempo, por espaço narrativo, por critérios de noticiabilidade e por reconhecimento da experiência humana como fonte legítima de conhecimento.
Ao compreender o jornalismo como prática sociocultural encaixada em determinado contexto histórico, esta dissertação reafirma que a humanização não se realiza por rupturas simples, nem por avanços automáticos associados ao tempo, à tecnologia ou às sensibilidades contemporâneas. Ela se constrói de forma processual, desigual e frequentemente ambígua, no interior de regimes narrativos que tanto podem reproduzir silêncios e violências simbólicas quanto abrir espaços de reconhecimento, escuta e transformação. O jornalismo pode, assim, operar simultaneamente como instância de apagamento e como mediador de processos de memória, reparação simbólica e diálogo social.
Nesse caráter necessariamente inacabado essas considerações se inscrevem. Mais do que encerrar um percurso, elas reafirmam a necessidade de manter sempre aberto o debate sobre a responsabilidade ética do jornalismo principal, mas não unicamente, diante de histórias marcadas por trauma, perda e disputa de memória. Se esta dissertação oferece alguma contribuição, ela reside na defesa de que a humanização do jornalismo não é um adendo moral ou um luxo editorial, mas uma dimensão constitutiva da qualidade da prática jornalística e de seu papel social. Trata-se de um horizonte que não se alcança plenamente, mas que orienta escolhas, tensiona rotinas e recoloca, de forma permanente, a pergunta fundamental: para quem, com quem e com que efeitos se produz o jornalismo?