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Os Gabinetes de Curiosidades eram salas ou gabinetes onde colecionadores (aristocratas e estudiosos) reuniam, preservavam e exibiam objetos invulgares, de origem natural ou artificial, como fósseis, artefactos exóticos, obras de arte e instrumentos científicos.
Estas coleções organizavam-se frequentemente segundo categorias de inspiração latina: naturalia (elementos da natureza), artificialia (artefactos produzidos pelo ser humano), exotica (objetos raros ou provenientes de terras distantes) e scientifica (instrumentos científicos).
A sua principal função era contar uma história sobre o mundo, cruzando ciência, arte e imaginação, o que faz dos Gabinetes de Curiosidades os verdadeiros precursores dos museus contemporâneos.
Inspirado por esta herança, o MESM passará a apresentar mensalmente uma “curiosidade” proveniente do seu vasto espólio.
Veja AQUI o trabalho videográfico “Pequeno Gabinete de Curiosidades”, apresentado na 2.ª edição do Sarau Cultural do Agrupamento de Escolas Sá de Miranda, para divulgação da remodelação em fevereiro de 2026 da coleção permanente.
A nossa primeira curiosidade parece o chapéu de um cogumelo petrificado, com 13 centímetros de diâmetro. Mas na realidade trata-se de um animal invertebrado fossilizado, especificamente um Fóssil de Coral cogumelo ou Coral solitário (ME/402849/554).
Exemplar solitário, de morfologia discoide e simétrica, representando o esqueleto calcário de um coral escleractinário (pétreo). A face oral (lado onde se localizava a boca do pólipo, com os septos dispostos radialmente) apresenta numerosos septos finos, paralelos e densamente distribuídos, convergindo para uma depressão central. A face aboral (lado oposto à boca do pólipo, voltado para o substrato) exibe costae finas e regulares (cristas esqueléticas que prolongam os septos, visíveis na face inferior). A coloração geral do exemplar é acinzentada, possivelmente devido a processos de mineralização secundária ou alterações pós-morte compatíveis com a fossilização. (Daniela Oliveira, docente de Biologia e Geologia)
No final do século XVIII, Alessandro Volta concebeu um engenho simples, mas revolucionário: uma pilha feita de discos de cobre e zinco, separados por pedaços de feltro embebido, inicialmente em salmoura, e posteriormente em ácido.
Era uma torre metálica que parecia modesta, mas marcava o nascimento da eletricidade controlada. Em sua homenagem, a unidade de medida da diferença de potencial elétrico (ou tensão elétrica) passou a chamar-se volt.
Curiosamente, o nome que Volta deu à sua invenção - pilha - atravessou mais de dois séculos e ainda hoje usamos a palavra, mesmo numa época em que as baterias, mais duradouras e sustentáveis, começam a ocupar o seu lugar.
Volta apresenta a sua invenção a Napoleão Bonaparte
O Entimus imperialis, vulgarmente conhecido como besouro-diamante, destaca-se como um dos exemplares mais exuberantes da entomologia neotropical (ecozona terrestre, abrangendo a América do Sul, América Central, sul do México, ilhas do Caribe e sul da Flórida).
A sua aparência de joia não se deve a pigmentos convencionais, mas sim a uma sofisticada configuração de cristais fotónicos presentes nas suas escamas. Esta microestrutura hexagonal é capaz de manipular a luz com precisão geométrica, refletindo tonalidades metálicas que oscilam entre o verde-esmeralda e o dourado, assemelhando-se à refração observada em pedras preciosas.
Além do fascínio visual, a biologia contemporânea estuda estas estruturas como modelos de nanotecnologia natural, evidenciando como a evolução otimizou propriedades óticas complexas para fins de camuflagem e comunicação no habitat florestal. Na natureza, esta camuflagem surpreendente ajuda-o a confundir-se com os reflexos de luz e sombra entre as folhas das árvores tropicais.
O tatu-de-nove-faixas (Dasypus novemcinctus) caracteriza-se pela presença de uma carapaça formada por placas ósseas articuladas, incluindo nove faixas móveis que lhe conferem flexibilidade. Esta estrutura constitui uma adaptação evolutiva de defesa contra predadores, combinando proteção e mobilidade, essencial para a locomoção e atividade escavadora. Possui membros anteriores robustos, adaptados à escavação, e uma dentição reduzida, sem esmalte, compatível com uma alimentação maioritariamente insectívora. Trata-se de uma espécie nativa do continente americano, de hábitos noturnos e solitários, com olfato muito desenvolvido. Considerado uma “relíquia viva” do ponto de vista evolutivo, apresenta ainda uma particularidade reprodutiva rara: a fêmea origina, geralmente, quatro descendentes geneticamente idênticos e do mesmo sexo. Este exemplar integra o espólio histórico da instituição, encontrando-se documentado desde o início do século XX (1901). (Daniela Oliveira, docente de Biologia e Geologia)
Este mapa original, datado de 27 de abril de 1918 e assinado por Francisco Gomes Marques é um exemplar raro de cartografia técnica. A escala de 1:33 333 é o resultado matemático de “3 cm/km”, uma escala de trabalho típica de quem converte medições feitas no terreno diretamente para o papel.
Destaca-se pela característica fascinante de usar 20 cores para representar o relevo. O autor criou um sistema personalizado onde cada cor isola um patamar de 25 metros de altitude. No entanto, por trás da veia artística, esconde-se o rigor da informação. Em termos práticos, uma vez que o relevo de Braga (entre as margens do Cávado e o topo do Sameiro) varia sensivelmente entre os 30 m e os 570 m, o mapa terá cerca de 20 a 21 fatias de cor. Outro pormenor curioso é o facto de o autor ter acrescentado em rodapé “não se vende, nem se faz por encomenda”. (Cristina Santos, docente de Geografia)