«Última oportunidade»,
de Raquel Vaz
Li "Última Oportunidade" de Raquel Vaz e gostei muito da forma como a autora aborda temas atuais tão relevantes. A história de Sofia, que é incriminada injustamente pela prima e tem de recomeçar a sua vida em Londres, é emocionante e realista. A narrativa, contada em diferentes perspetivas, enriquece o conteúdo do livro e permite compreender os dilemas internos de cada personagem. O livro aborda questões sensíveis como droga, as dificuldades familiares e transmite uma mensagem de esperança e resiliência. É uma leitura que reflete as realidades atuais e fala sobre escolhas, perdão e crescimento pessoal. Recomendo a quem procura uma história intensa e que faz refletir!
Marta Costa, 10º A
Ano Letivo 2023/2024
O Perfume, de Patrick Süskind
O interesse não está no óbvio, mas no subtil. E é na exploração óbvia e vincada de um arquétipo saturado que se encontra uma multitude de entretons que nunca se poderiam expor de outra forma.
Nunca pensei que pudesse ser escrito um livro que só tem, verdadeiramente, uma única personagem. Claro que, quando digo que tem uma única personagem, estou a exagerar, visto que há diálogos muito pouco usuais entre o protagonista e outras personagens. Contudo, a intensidade do protagonista em contraste com os outros que vão aparecendo é tal que não é possível ao leitor lembrar-se dos mesmos, talvez até tentar descrevê-los, e lembrar-se de que existem mais personagens para além do protagonista. Só depois de uns bons vinte segundos talvez nos recordemos de alguma outra personagem relevante, algo que não se verifica em, bem, todos os outros livros que já li, onde há sempre pelo menos duas figuras que se destacam.
Desta personagem, que preenche tão exageradamente e transborda das palavras que compõem a obra, marcou-me e marcar-me-á para sempre uma dissonância desconfortável quanto aos sentimentos que me provocou. Não é que a personagem deixe qualquer tipo de dúvidas em relação àquilo que é, todavia apenas a um nível superficial. Sabemos que a personagem quer ser deixada em paz e o seu diálogo interior aponta para uma indiferença impenetrável quanto aos outros seres humanos. Porém, as suas ações indicam uma vontade um tanto magoada de conseguir a aprovação dos outros ou, talvez, até amor (mas talvez nem tanto).
A personagem vive e encarna um dualismo incompreensível: por um lado, respira uma impassibilidade arrogante quanto aos sentimentos e opiniões de todos por quem passa; no entanto, por outro lado, parece motivada por um desejo há muito reprimido de ser reconhecida. Tudo isto enquanto, sobretudo no final, me fez questionar se não se trata de um sociopata incurável ou apenas de um espírito perdido que não teve outra escolha. Tudo isto é muito complicado de explicar, mas revela-se muito interessante para quem lê o livro, porque a personagem, que aparenta nada ter de profundo, levanta questões com as quais, na realidade, todos nos podemos identificar. Explora, na minha opinião, as nuances da escolha individual, dolorosamente individual, e da responsabilidade de cada um em decidir quanto escolhe sacrificar pelos outros ou talvez, até, quanto escolhe sacrificar por si mesmo.
Grenouille nasceu com uma mãe que de imediato o rejeitou, e rapidamente se apercebeu de um facto particularmente interessante: é inodoro. Não produz hormonas, seria a forma de o dizer em termos mais científicos. No entanto ele, ironicamente, cheira com uma intensidade sobre-humana, literalmente sobre-humana, todos os que o rodeiam. O olfato é o seu superpoder e ele orienta-se, então, no seu percurso de vida, como um verdadeiro savant do olfato, sempre à procura da próxima jornada olfativa, de essências novas, ao ponto de se tornar perfumista.
O paralelismo é óbvio: Grenouille encarna o estereótipo do artista isolado e mal entendido que encontra significado na sua arte. Eu podia explorar esse aspeto da obra, contudo não o considero relevante. O interesse não está no óbvio, mas no subtil. E é na exploração óbvia e vincada de um arquétipo saturado que se encontra uma multitude de entretons que nunca se poderiam expor de outra forma. É esse, para quem ler este livro com atenção, que se deverá tornar, na minha opinião, o aspeto verdadeiramente interessante.
Simão Nadais, 12º A
Ano Letivo 2023/2024
Frankenstein, de Mary Shelley
O monstro de Frankenstein é o molde básico de qualquer monstro do mundo gótico ou do cinema de Tim Burton. Neste vemos os traços originais do Fantasma da Ópera, do Lobisomem, do Eduardo Mãos-de-Tesoura, da Família Addams, e de tantos outros.
Grandes escritores como Emily Brontë, Shelley Jackson, H. G. Wells, e Ray Bradbury inspiraram-se fortemente em Mary Shelley para as obras de arte de ficção científica e terror que criaram.
Podemos chamá-lo um livro de terror, um livro de drama, um livro de tragédia, mas eu considero-o acima de tudo um livro de empatia. Somos confrontados com a frágil realidade de como alguém com severas diferenças físicas ou psicológicas se pode sentir diferente do resto do planeta, e é um guia de cabeceira para compreender os assassinos de Columbine e tantos outros.
O monstro de Frankenstein tem fortes semelhanças com outras grandes personagens da literatura gótica. Tal como Drácula, Darcy, ou o Heathcliff. São personagens descritas como sendo de natureza introvertida e pensativa, que são de alguma forma interpretadas de forma
errada pelos outros. São personagens onde os escritores, na minha opinião, desabafavam as suas próprias preocupações e angústias. Porém, o monstro de Frankenstein é um caso especial e único.
Inicialmente encantado e grato pela vida que lhe foi concedida, o monstro rapidamente percebe que a vida dele não é tão boa como parece. Por muito que ele seja de coração puro e gentil, o seu aspeto leva-o inevitavelmente à alienação social completa. Problema do qual ele,
lentamente, se torna dolorosamente consciente.
Esta mágoa do terror que os outros têm dele cresce conforme a história progride, e leva-o a uma espiral de raiva, tormento e suplício, descrita com beleza gótica sublime, que culmina nas tendências homicidas que ele acaba por desenvolver. Tal como ele diz: “sou mau porque sou infeliz”.
Além de toda a mensagem que o livro transmite sobre a empatia, explora ainda mais os horizontes da condição humana quando reflete sobre a necessidade romântica de todos, e o desejo de ser amado.
A evolução psicológica do monstro e os problemas que traz ao seu criador, as bonitas descrições do mundo físico, e o enredo de suspense, fazem deste livro a obra em que se tornou. Um livro que será lembrado séculos após o seu lançamento.
Simão Nadais, 11º B
Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares
A história que encontrei nas suas palavras é violentamente assertiva, analítica, cada frase medida a régua e esquadro. Pouco me apanhou de surpresa que o seu sonho de criança fosse a matemática pura. Não é um cientista a escrever, nem um músico, mas um acrobata. Tem ritmo o texto, ritmo e fascínio; flui naturalmente, sem se justificar nem prestar satisfações; é uma história que não presta atenção excessiva a detalhes, mas sim um respeito subtil.
Saramago disse de Gonçalo M. Tavares: «não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!». Graduado em desporto, com mestrado em pintura, autor de uma tese de doutoramento que cruza as artes, a fisiologia humana e os textos filosóficos de Deleuze e Wittgenstein, é extraordinário que tenha tanto tempo para escrever, pois, em 20 anos de carreira literária, produziu mais de 40 obras, que abrangem geometria, mitologia, teatro, cinema, estudos clássicos, uma epopeia, e romances que cada vez dão mais nas vistas.
Autor português favorito de Jeanne Moreau, não é o tipo de artista que deixe os contornos da sua obra bem definidos. A história que encontrei nas suas palavras é violentamente assertiva, analítica, cada frase medida a régua e esquadro. Pouco me apanhou de surpresa que o seu sonho de criança fosse a matemática pura. Não é um cientista a escrever, nem um músico, mas um acrobata. Tem ritmo o texto, ritmo e fascínio; flui naturalmente, sem se justificar nem prestar satisfações; é uma história que não presta atenção excessiva a detalhes, mas sim um respeito subtil.
Gonçalo M. Tavares é um inventor, a sua escrita lembra Saramago ou Lobo Antunes. Levou-me a questionar se o que li era algo escondido, que há muito ansiava, ou não, por ser descoberto, ou se foi realmente criado do zero. Enquanto Saramago é um maestro, que muda o ritmo a seu gosto e leva a obra decididamente rumo a novos lugares, e Lobo Antunes um filósofo rabugento que se perde nas suas próprias descrições do meio ambiente, Gonçalo M. Tavares é o que colhe menos simpatias do movimento ambientalista, porque é o que se recusa irremissivelmente a reciclar; é incapaz de reutilizar, por vontade do seu génio, o que outros já exploraram.
A história não pode ser relatada em poucas palavras; talvez possa, mas eu não sou capaz de o fazer. O que acontece é que um psiquiatra, um par de loucos, um manco, outro psiquiatra, um assassino e uma mulher que exerce, segundo a sabedoria popular, a profissão mais antiga do mundo encontram-se uns com os outros, tanto no passado como no presente, para dar asas a uma jornada que remata entre o trágico e o incongruente.
Famílias complicadas, acordos frágeis sobre intenções obscuras, inveja, ambição solitária e amor perdido, duros relatos acerca da condição humana predominam em toda a obra; uma noite em que tudo se passa, nem mais nem menos, e vagas memórias de um passado recalcado; a história de um médico cujo trabalho de vida incidiu no estudo do galopar incessante e ininterrupto do sofrimento humano.
Saramago, já mencionado duas vezes, vaticinou um Prémio Nobel atribuído ao autor nos próximos 30 anos. Tendo isto sido dito há cerca de dez anos, sobram, no máximo, vinte anos para descobrir se o nosso único Prémio Nobel estava ou não certo. Mas isso pouco importa, porque o que está publicado há de perdurar enquanto existirem livros, como uma parte fundamental da literatura ocidental.
Simão Nadais, 12º A
Ano Letivo 2023 / 2024
A Minha Vida é um Filme - lado B, de Paula Pimenta.
Mariana Martins, 11º E
Ano letivo 2022/2023
Vídeo de motivação para a leitura de A Minha Vida é um Filme - lado B, de Paula Pimenta.
Mariana Martins, 11º E
Ano letivo 2022/2023