O Livro da Psicologia
(Textos Escolhidos)
Vários Colaboradores
Frases da Capa
Ver demasiado pode causar cegueira.
Só as boas pessoas se deprimem.
As nossas certezas mais absolutas não são necessariamente a verdade.
As pessoas fazem o que lhes é ordenado.
O inconsciente coletivo é composto por arquétipos.
Existe uma associação entre a loucura e o gênio.
Turn on, tune in, drop out. (Ligue-se, sintonize-se, desligue-se)
O instinto é um modelo dinâmico.
Para entender um sistema é necessário tentar modificá-lo.
Um homem com convicções é difícil de mudar.
À superfície há mais do que parece à primeira vista.
O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica.
Apenas escutar uma voz de cada vez.
O que um homem pode ser, deve sê-lo.
O filósofo e médico Cláudio Galeno formulou uma teoria sobre os tipos de personalidade baseada na antiga teoria grega dos humores, que procurava explicar como funcionava o corpo humano.
As raízes do humoralismo têm a sua origem no filósofo grego Empédocles (c. 495-435 a. C.), segundo o qual as diferentes qualidades dos quatro elementos básicos — terra (seca e fria), ar (ameno e úmido), fogo (ameno e seco) e a água (fria e húmida) — podiam explicar a existência de todas as substâncias conhecidas. Hipócrates (460-370 a. C.), médico grego considerado o pai da medicina, desenvolveu um modelo médico baseado nestes elementos, atribuindo as suas qualidades aos quatro fluidos ou "humores" (do latim umor) que, de acordo com a ciência da época, se encontravam no corpo humano.
Duzentos anos mais tarde, Galeno ampliou a teoria dos humores, incluindo a personalidade, pois entendia haver uma relação direta entre os níveis dos humores no corpo e as inclinações emocionais e comportamentais ou temperamentos.
Os quatro temperamentos de Galeno — sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico — baseavam-se no equilíbrio dos humores no corpo. Se um dos humores abunda em excesso, predominará o tipo de personalidade correspondente. Uma pessoa sanguínea tem demasiado sangue (em latim, sanguis), e é otimista, cordial e segura de si, mas também pode ser egoísta. A pessoa fleumática, com excesso de fleuma (phlegma, em grego), é amável, fria, afável, racional e constante, mas pode ser lenta e tímida. A pessoa colérica é fogosa, devido ao excesso de bílis (kholé, em grego) amarela. Finalmente, a pessoa melancólica, que sofre de excesso de bílis preta (melas kholé, em grego), é reconhecida pelas suas inclinações poéticas e artísticas, com frequência acompanhadas de tristeza e medo.
Desequilíbrio humoral melancólico
Galeno afirmava que algumas pessoas nascem predispostas a certos temperamentos. Contudo, como os problemas de temperamento se deviam a desequilíbrios nos humores, defendia que estes podiam ser curados mediante dieta e exercício; nos casos extremos podiam ser necessárias purgas e sangrias. Assim, por exemplo, um comportamento egoísta devia-se ao excesso de sangue e a solução seria reduzir o consumo de carne ou praticar uma sangria para libertar um pouco de sangue.
A doutrina de Galeno dominou a medicina até ao Renascimento, quando começou a perder autoridade perante estudos mais avançados. Em 1543, na Itália, o médico Andrés Vesalio (1514-1564) localizou mais de duzentos erros nas descrições anatômicas de Galeno. Ainda que as suas ideias médicas tenham sido desacreditadas, influenciou mais à frente os psicólogos do século XX. Assim, em 1947, Hans Eysenck concluía que o temperamento tem uma base biológica e observava que as duas dimensões da personalidade que identificou — neuroticismo e extroversão — lembravam os antigos temperamentos.
Apesar de a teoria dos humores já não fazer parte da psicologia, a ideia de Galeno acerca da ligação existente entre muitas doenças físicas e mentais constitui a base de algumas terapias atuais.
A ideia de que mente e corpo se encontram separados e são distintos remonta a Platão e aos antigos gregos, mas foi o filósofo francês René Descartes, durante o século XVII, o primeiro a descrever em pormenor a relação entre a mente e o corpo.
Em 1633, Descartes escreveu O Tratado do Homem, a sua primeira obra filosófica. Nela descreve o dualismo de mente e corpo: a mente imaterial, ou alma, assenta na glândula pineal, no cérebro, e é responsável pelo pensamento; o corpo é como uma máquina movida por espíritos animais, ou fluidos, que recorrem ao sistema nervoso e produzem o movimento. Tal ideia fora popularizada no século II, por Galeno, unida à sua teoria dos humores, mas foi Descartes o primeiro a descrevê-la em pormenor e a sublinhar a separação entre a mente e o corpo. Numa carta ao filósofo francês Marin Mersenne, Descartes explicava que a glândula pineal é "a base do pensamento", e, portanto, ali deve residir a alma, pois "não pode separar-se uma coisa da outra". Facto importante, já que de outra forma a alma não se encontraria unida a nenhuma parte sólida do corpo, mas apenas a espíritos psíquicos.
Descartes imaginava a mente e o corpo interagindo através de uma consciência dos espíritos animais que dizia fluírem pelo corpo. Pensava-se que a mente ou a alma, com base na glândula pineal no mais profundo do cérebro, em certas ocasiões, tornava-se consciente dos espíritos móveis que produziam imediatamente a sensação consciente. Desta forma, o corpo podia afetar a mente e a mente podia afetar o corpo, fazendo fluir espíritos animais até uma determinada parte do corpo, iniciando assim a ação.
Analogia da mente
Inspirando-se nos jardins de Versalhes, nos seus sistemas de rega e nas suas sofisticadas fontes, Descartes descreve os espíritos do corpo que atuam sobre os nervos e os músculos como a força da água, e que por este meio "causam o movimento de todas as partes". As fontes eram controladas por um canalizador, e aqui estabeleceu Descartes uma analogia com a mente: "Há uma alma que raciocina nesta máquina, tem a sua sede principal no cérebro; logo, é como o canalizador que deve estar junto ao depósito, de onde sai toda a tubagem da máquina, quando deseje iniciar, parar ou de alguma forma alterar as suas ações."
Apesar de os filósofos continuarem a debater a questão de se a mente e o cérebro são entidades distintas, a maioria dos psicólogos identifica a mente com os processos cerebrais. Contudo, do ponto de vista prático, a distinção entre saúde mental e física é uma questão incrivelmente complexa: a sua estreita relação pode ser vista quando o estresse mental chega a produzir doenças físicas ou quando os desequilíbrios químicos afetam o cérebro.
A prática de incluir estados de transe como meio de cura não é nova. Em várias culturas antigas, entre elas a egípcia e a grega, não era nada estranho levar os doentes a "templos de sono" para que se curassem, num estado próximo ao do sono, mediante a sugestão de certos sacerdotes. Em 1027, o médico persa Avicena documentou as caraterísticas do estado de transe, mas a sua utilização terapêutica manteve-se praticamente abandonada durante muito tempo, até o médico alemão Franz Mesmer o ter reintroduzido no século XVIII. 0 tratamento de Mesmer consistia em manipular o magnetismo natural, ou "animal", do corpo por meio de ímanes e da sugestão. Uma vez "mesmerizadas" ou "magnetizadas", algumas pessoas experimentavam uma convulsão, depois da qual afirmavam sentir-se melhor.
Vários anos mais tarde, o abade Faria, monge português de Goa, estudou a obra de Mesmer e concluiu que era absurdo pensar que a utilização de ímanes fosse necessária. A verdade era ainda mais extraordinária: o "sono lúcido", ou a capacidade de entrar em transe, dependia exclusivamente do indivíduo em questão, sem que houvesse necessidade de outras forças: a única coisa relevante era o poder da sugestão.
O sono lúcido
Faria considerava que o seu papel era como o de um "concentrador", que ajudava o sujeito a alcançar o estado mental desejado. Em De la cause du rêve lucide descreve o seu método: "uma vez eleitos os sujeitos com as aptidões indicadas, peço-lhes que se sentem e que relaxem, que fechem os olhos, concentrem a atenção e pensem no sono. Ficam à espera de novas indicações e, de de repente, em tom suave ou imperativo, digo-lhes "dormez!" (durma!), e entram no sono lúcido."
A partir do sono lúcido de Faria, o cirurgião escocês James Braid criou em 1843, o termo "hipnose" do grego hipnos (sono) e o sufixo sis (estado ou ação). Braid chegou à conclusão de que a hipnose não é um tipo de sono, mas sim um estado de concentração numa única ideia que resulta numa maior suscetibilidade à sugestão. Depois da sua morte, o interesse pela hipnose decaiu até o neurologista Jean-Martin Charcot começar a utilizá-la de forma sistemática para tratar a histeria traumática. Isto atraiu a atenção de Josef Breuer e Sigmund Freud, que se questionaram sobre o impulso que movia o eu hipnótico e descobriram o poder do inconsciente.
Johann Herbart, filósofo alemão do século XIX, estudou como funciona a mente e, em particular, como trabalha com ideias ou conceitos. Tendo em conta a quantidade de ideias que temos na vida, como não ficamos cada vez mais confusos? Herbart considerou que a mente deve utilizar algum sistema para diferenciar e armazenar as ideias. Também procurou explicar que, apesar de as ideias existirem para sempre (Herbert considerava-as indestrutíveis), algumas parecem existir para lá do nosso pensamento consciente. Outro filósofo alemão do século anterior, Gottfried Leibniz, investigara já a existência de ideias para lá da consciência, às quais chamou "pequenas percepções". A título de exemplo, Herbart assinalou que frequentemente recordamos uma percepção — como um pormenor de uma cena —, ainda que não estivéssemos conscientes de a termos compreendido no momento; portanto, isto supõe que com frequência percebemos as coisas e guardamos de forma inconsciente a sua recordação.
Ideias dinâmicas
Segundo Herbart, as ideias formam-se a partir da combinação da informação que trazem os sentidos. Os termos em que se refere às ideias — Vorstellung — abarcam os pensamentos, as imagens mentais e até os estados anímicos; todos compõem o conteúdo da mente, e Herbart considerava-os elementos dinâmicos, não estáticos, capazes de se movimentar e interagir. As ideias, dizia, podem atrair-se e combinar-se com outras ideias ou sentimentos, ou repelir-se, de forma semelhante à dos ímanes. As ideias semelhantes, como uma cor e um tom, atraem-se e combinam-se para formar uma ideia mais complexa. Se duas são dissemelhantes, podem coexistir sem se associar. Isso faz com que enfraqueçam com o tempo e que acabem por se fundir sob o "umbral da consciência". Quando duas ideias se contradizem abertamente, produz-se uma resistência, e "os conceitos transformam-se em forças quando resistem entre si": repelem-se mutuamente com uma energia que empurra um deles para mais longe da consciência, para o que Herbart denominou "um estado de tendência" e que hoje em dia chamamos "inconsciente".
Herbart concebia o inconsciente como um armazém para ideias fracas ou opostas. Ao propor uma consciência dividida em duas partes por um umbral, procurava oferecer uma solução estrutural para explicar a gestão das ideias numa mente sã. Mais tarde, Sigmund Freud considerou que se tratava de um mecanismo muito mais complexo e combinou os conceitos de Herbart com a sua própria teoria sobre os impulsos inconscientes, criando desta forma as bases da abordagem terapêutica mais importante do século XX: a psicanálise.
Entre os parentes de Francis Galton havia muitas figuras eminentes, como Charles Darwin, assim não é de estranhar que Francis se tivesse interessado pela origem das capacidades. Galton foi o primeiro a indicar a nature e nurtere (literalmente "natureza e educação") como duas influências cujos efeitos podiam ser medidos e comparados e defendeu que estes dois elementos determinavam a personalidade. Em 1869, estudou a sua árvore genealógica, assim como a de "juízes, estadistas, comandantes, cientistas, literatos (. . .), adivinhos, remadores e lutadores", para analisar a herança de certos traços, tema do seu livro Hereditary Genius.
Tal como se esperava, encontrou mais indivíduos de grande talento em certas famílias do que na população em geral. Não obstante, não podia atribuir isso com segurança apenas à herança, dadas as vantagens associadas à educação num ambiente privilegiado; Galton pertencia a uma família abastada e teve acesso a uma educação muito acima da média.
Um equilíbrio necessário
Francis Galton empreendeu outros estudos, entre eles a primeira grande sondagem baseada num questionário que foi enviada aos membros da Royal Society para conhecer os seus interesses e afiliações. Publicou os resultados em English Men of Science, no qual afirmava que quando o inato e o adquirido se veem obrigados a competir, triunfa o inato. As influências externas deixam marcas, defendia Galton, mas nada podia apagar as marcas, muito mais profundas, do caráter individual. Contudo, insistia que tanto o inato como o adquirido são fundamentais para formar a personalidade, pois até os maiores dons naturais podem ser prejudicados por um ambiente ou uma educação defeituosa. Assim, a inteligência herda-se, mas deve ser favorecida pela educação.
Em 1875, levou a cabo um estudo com 159 pares de gémeos. Observou que não seguiam o padrão normal de semelhança entre irmãos, com uma parecença moderada, mas que eram muito semelhantes ou muito diferentes. Mas o que realmente o surpreendeu foi que o grau de semelhança nunca mudava com o tempo. Galton previra que uma educação em comum tenderia a reduzir as diferenças entre gêmeos à medida que estes crescessem, mas constatou que não era assim, o adquirido não parecia ter a menor relevância.
O debate natureza versus educação continua aberto. Alguns são partidários das teorias de Galton, incluindo a que hoje denominamos eugenesia, segundo a qual se pode "criar" pessoas como os cavalos para reforçar certos traços. Outros consideram que todos os bebês são uma tábua rasa e que todos nascemos iguais. Hoje, a maioria dos psicólogos assume que tanto o inato como o adquirido são a chave no desenvolvimento humano e interagem de forma complexa.
O médico francês Jean-Martin Charcot, considerado o fundador da neurologia moderna, interessou-se pela relação entre a psicologia e a fisiologia. Nas décadas de 1860 e 1870, estudou a “histeria”, termo então utilizado para se referir a uma conduta emocional extrema nas mulheres, que se pensava causada por problemas do útero (hysteria, em grego). Os sintomas podiam ser riso ou pranto exagerados, contorções e movimentos corporais, desmaios, paralisias, convulsões, cegueira e surdez transitórias.
Depois de observar mil casos de histeria no Hospital de la Salpêtrière de Paris, Charcot definiu as leis da histerias, acreditando compreender completamente a doença. Defendia que se tratava de uma doença hereditária e crônica e que os sintomas eram desencadeados por um choque. “No ataque [de histeria] (...) tudo se desenvolve segundo regras, que são sempre as mesmas, válidas para todos os países, todas as épocas, todas as raças, pois são, em resumo, universais”, afirmou em 1882. Indicou que, dada a semelhança da histeria com uma doença física, que parecia aconselhar a procura de uma causa biológica, mas os seus contemporâneos rejeitaram a sua explicação. Alguns acreditavam, inclusive, que as histéricas de Charcot representavam o comportamento que este lhes indicara. Mas um dos seus alunos, Sigmund Freud, estava convencido de que era um mal físico, o que o intrigava de tal forma que foi a primeira doença que descreveu na sua teoria da psicanálise.
O médico alemão Emil Kraepelin acreditava que a maioria das doenças mentais tinha origem biológica, e habitualmente é considerado o pai da psiquiatria médica moderna. No seu Tratado de Psiquiatria, publicado em 1883, oferece uma pormenorizada classificação das doenças mentais, entre elas a demência precoce, assim chamada para a distinguir da demência de aparecimento tardio, como o mal de Alzheimer.
A esquizofrenia
Em 1893, Kraepelin descreveu a demência precoce, hoje chamada esquizofrenia, como “uma série de estados clínicos que partilham uma peculiar destruição das ligações internas da personalidade psíquica”. Observou que esta doença, caraterizada pela confusão e pelo comportamento, antissocial, começava frequentemente no final da adolescência ou no início da vida adulta. Mais à frente dividiu-a em quatro subcategorias. A demência simples, a primeira, caracterizava-se por um lento abatimento e retração. A segunda, a paranoia, manifestava-se como um estado de medo e de mania da perseguição. A terceira, a hebefrenia, caracterizava-se por uma linguagem incoerente e frequentemente por um comportamento e reações emocionais inapropriados, como uma gargalhada numa situação triste. A quarta categoria, a catatonia, é notável pela drástica limitação do movimento e da expressão, em forma de rigidez, mantendo-se durante horas na mesma postura ou de atividade excessiva, por exemplo, balanceando-se repetidamente.
A classificação de Kraepelin continua a ser a base do diagnóstico da esquizofrenia. Por outro lado, os estudos post mortem sobre o cérebro dos doentes com esquizofrenia revelaram anormalidades bioquímicas e estruturais, assim como incapacidades da função cerebral. A tese de Kraepelin da origem estritamente biológica de um grande número de doenças mentais teve uma influência duradoura no campo da psiquiatria e muitas delas continuam atualmente a ser tratadas com medicação.
A ideia que sustém que os animais têm mente e são capazes de possuir alguma forma de pensamento remonta aos antigos filósofos gregos. Aristóteles distinguia três tipos de mente: vegetal, animal e humana. A mente das plantas ocupava-se apenas com a nutrição e o crescimento. A mente animal possui funções, mas pode experimentar também sensações como desejo, dor e prazer, além de iniciar o movimento. A humana, é ainda capaz de raciocinar; de acordo com Aristóteles só os humanos têm consciência de si e são capazes de um conhecimento de ordem superior.
Aquilo que era parecido entre os humanos e os animais servia de tema-chave aos filósofos, mas mais ainda aos psicólogos. No século XVII, o filósofo francês René Descartes afirmou que os animais não eram mais do que máquinas complexas movidas por reflexos. Se Descartes tivesse razão, a observação dos animais não nos diria nada acerca do nosso próprio comportamento. No entanto, duzentos anos mais tarde, Charles Darwin demonstrou a relação genética entre humanos e animais e explicou que a consciência se encontra já nos níveis mais baixos da escala evo1utiva, deixando claro que as experiências com animais podiam ser reveladoras. Esta foi a postura do médico, filósofo e psicólogo alemão Wilhelm Wundt, que descreveu um continuum de vida desde os animais mais ínfimos até nós. Em Princípios da Psicologia Fisiológica sustinha que a consciência é um traço universal de todos os organismos vivos e que sempre o fora desde o início do processo evolutivo.
Wundt afirmava que a própria definição da vida implicava a posse de algum tipo de mente. Nas suas palavras: “Do ponto de vista da observação, pois devemos ter por hipótese mais provável que o início da vida mental remonta ao início da vida em sentido amplo. A questão da origem do desenvolvimento mental resolve-se assim na questão da origem da vida”. Wundt defendia que, inclusive, organismos simples como os protozoários tinham algum tipo de mente. Se, atualmente, tal afirmação se revela surpreendente, não devemos estranhar que tenha sido vista como completamente disparatada quando foi formulada pela primeira vez há mais de cem anos.
Wundt estava muito interessado em provar as suas teorias e é considerado o pai da psicologia experimental. Em 1879, na Universidade de Leipzig (Alemanha), pôs em funcionamento o primeiro laboratório de psicologia experimental. Para começar, Wundt queria fazer estudos sistemáticos sobre a mente e o comportamento humano, mediante o exame pormenorizado dos processos sensoriais básicos. Esta ideia animou outras universidades norte-americanas e europeias a criar departamentos de psicologia, muitos deles inspiraram-se nos laboratórios de Wundt e foram dirigidos por alunos seus, como foi o caso do britânico Edward Titchener e do norte-americano James Cattell.
Observação do comportamento
Wundt defendia que “a descrição exata da consciência é a única meta da psicologia experimental”. Embora entendesse a consciência como uma “experiência interior”, só lhe interessava a forma “imediatamente real” ou aparente dessa experiência. Tal formulação levou-o ao estudo do comportamento, quantificável mediante a “observação direta”.
Wundt falava de dois tipos de observação: a externa e a interna. A primeira, a observação externa, regista acontecimentos visíveis no mundo exterior e é útil para apreciar relações como a de causa-efeito nos corpos físicos, em experiências de estímulo-resposta, por exemplo. Assim, se certo nervo de uma rã morta recebe uma descarga elétrica, os músculos correspondentes contraem-se e a pata move-se; o facto de isto acontecer até com um animal morto demonstra que tais movimentos podem ocorrer sem consciência. Nas criaturas vivas, tais ações são a base do comportamento automático que denominamos “reflexo”, como quando, por exemplo, retiramos a mão depois de tocar em algo quente.
A segunda observação, a interna, chamada “auto-observação” ou “introspeção”, percebe e regista acontecimentos internos como pensamentos e sentimentos. É fundamental para a investigação, já que fornece informação sobre o funcionamento da mente. Wundt mostrava-se muito interessado nesta relação entre o mundo interior e o exterior, que não considerava excludente, mas sim interativa e que descreveu como “física e psíquic”. E aplicou-se assim ao estudo das sensações humanas, como a sensação visual da luz, pois as ditas “sensações” são as que vinculam o mundo físico exterior e o mundo mental interior.
Wundt, numa das suas experiências, pediu às pessoas que o informassem sobre as suas sensações ao notar um sinal luminoso. Este sinal teria uma cor, um brilho e uma duração determinados, o que garantia que todos os participantes experimentavam o mesmo estímulo e, além disso, permitia comparar as suas respostas e repetir a experiência se fosse necessário. Tal ênfase na possibilidade de repetição foi uma referência para as experiências psicológicas posteriores.
Nas suas experiências sensoriais, Wundt pretendia explorar a consciência humana de modo mensurável. Negava-se a considerá-la uma experiência subjetiva, incognoscível e única de cada indivíduo. Nas suas experiências de resposta à luz, interessava-lhe o tempo que passava desde que a pessoa recebia algum tipo de estímulo até que reagia de forma voluntária, e utilizou instrumentos diferentes para medir com exatidão a referida resposta. A Wundt interessava-lhe igualmente o que havia em comum nos testemunhos dos participantes e as aparentes diferenças individuais.
As sensações puras, afirmou Wundt, apresentam três componentes: qualidade, intensidade e tom sensorial. Por exemplo, determinado perfume pode ter um aroma doce (qualidade), leve (intensidade) e agradável ao olfato (tom sensorial), enquanto um rato morto pode liberar um mau cheiro (tom sensorial) forte (intensidade) e nauseabundo (qualidade). Segundo Wundt, a origem de toda a consciência encontra-se nas sensações, mas estas não são interiorizadas como dados sensoriais “puros”, mas que se percebem reunidas ou compostas em representações, como o rato morto; Wundt referiu-se a isto como “imagens de um objeto ou de um processo do mundo externo”. Assim, quando, por exemplo, vemos um rosto com determinados traços, o tamanho do nariz, a forma da boca, a cor dos olhos ou o corte do cabelo, podemos reconhecê-lo como o de alguém conhecido.
As categorias da consciência
Tendo por base as suas experiências sensoriais, Wundt susteve que a consciência consiste em três categorias principais de ações — representação, vontade e sentimento —que juntas formam a impressão de um fluxo de acontecimentos unitário. As representações podem ser “percepções” se representam na mente a imagem de um objeto percebido no mundo externo (por exemplo, uma árvore ao alcance da vista), ou intuições, se representam uma atividade subjetiva (como recordar uma árvore ou imaginar um unicórnio). Wilhelm Wundt chamou “apercepção” ao processo através do qual uma percepção ou intuição aparece de forma clara na consciência. Assim, por exemplo, pode ouvir um ruído forte e repentino e na continuação perceber que se trata de um sinal de aviso de que alguém vai ser atropelado por um carro se não se afastar imediatamente da sua trajetória.
A categoria da vontade está relacionada com a forma como intervimos no mundo externo; expressa a nossa volição, ou vontade, em atos que vão desde levantar um braço até escolher um objeto. Tal forma de consciência encontra-se para lá do controlo e da medida experimentais. Não é assim a terceira categoria da consciência, o sentimento, que, segundo Wundt, podia avaliar a partir das informações dos sujeitos participantes numa experiência ou da medição dos níveis de tensão, relaxamento ou excitação.
Psicologia cultural
Para Wundt, o desenvolvimento psicológico da pessoa é determinado não apenas pelas sensações, mas também pelas influências sociais e culturais que não se podem repetir nem controlar num contexto experimental. Entre tais influências incluía a religião, a linguagem, os mitos, a história, a arte, as leis e os costumes, sobre os quais tratou em Psicologia dos Povos, obra em dez volumes escrita ao longo dos seus últimos vinte anos de vida.
Wundt considerava a linguagem uma parte especialmente importante do aporte da cultura à consciência. Todo o ato de comunicação verbal começa por uma “impressão geral” ou ideia unificada do que queremos dizer. Uma vez que nós tenhamos “apercebido” deste ponto de partida geral, escolhemos as palavras para o expressar. Enquanto comunicamos, estamos dependentes da precisão com que comunicamos o significado desejado. Assim, podemos dizer: “Não é isso. O que pretendo dizer é...” e escolher outra palavra ou frase para nos expressarmos melhor. Aquele que escuta deve compreender o significado daquele que fala, mas as palavras em si podem não ser tão importantes como a expressão geral, sobretudo se houver emoções fortes em jogo. A este respeito, Wundt assinalava que um indivíduo costuma recordar o significado geral do que lhe disse certa pessoa muito depois de se ter esquecido das palavras precisas que esta utilizou.
Esta capacidade de utilizar uma verdadeira linguagem que vai muito além do mero intercâmbio de signos e sinais, muitos psicólogos consideram-na atualmente como uma diferença fundamental entre os seres humanos e o resto do reino animal. Poderia haver algumas exceções, entre elas a dos primatas não humanos como os chimpanzés, mas a linguagem é considerada geralmente uma capacidade clara mente humana e a chave para a consciência.
Consciência e espécie
Atualmente, a definição da consciência continua a ser uma questão muito controversa, mas desde Wundt que não sofre alterações no fundamental. O nível de consciência dos animais mantém-se algo indeterminado, o que levou à redação de códigos éticos que regulam a criação de gado industrial, as experiências em animais e atividades como corridas de touros e a caça à raposa. Há sobretudo a preocupação de que os animais possam sentir medo, dor ou mal-estar semelhante ao que sentimos nós, os humanos. A questão-chave de que os animais possuem consciência de si continua sem resposta, se bem que alguns psicólogos supõem, como Wundt, que até os microscópios protozoários a têm.
O termo “consciência” costuma ser utilizado em referência à percepção dos nossos próprios pensamentos, incluindo aqui sensações, sentimentos e recordações. Costumamos dar a dita consciência por certa, exceto quando temos dificuldades, como no momento em que tentamos fazer alguma coisa estando muito cansados. Por outro lado, quando prestamos atenção à consciência, verificamos que as experiências conscientes mudam sem parar. Por exemplo, em plena leitura deste livro algo pode trazer-lhe a recordação de experiências passadas ou inconvenientes presentes que interrompem a concentração; também pode ocorrer que lhe venham à mente espontaneamente planos sobre o futuro. Os pensamentos estão em constante mudança. E, contudo, parecem fundir-se e seguir o seu curso como um todo.
William James, psicólogo norte-americano, comparou a experiência quotidiana da consciência a uma corrente de água que flui continuamente, pese as ocasionais interrupções e mudanças de direção. James susteve: “Um "rio" ou "corrente" são as metáforas com as quais se descreve de forma mais natural. Ao referirmo-nos a isso mais à frente, chamar-lhe-emos o fluxo do pensamento, da consciência...”
Quase toda a gente pode identificar-se com a famosa descrição de James do fluxo da consciência, já que todos o experimentamos. E, todavia, como assinalava James, é algo muito difícil de definir “Quando digo que todo o pensamento é parte de uma consciência pessoal, "consciência pessoal" é um dos termos em questão (...), dar conta dele com precisão é a mais difícil das tarefas filosóficas.”
Esta tarefa filosófica tão difícil conta com uma longa história. Os antigos gregos abordaram o tema da mente, mas não utilizaram o termo “consciência” nem outro equivalente. No entanto, debatiam sobre a existência de algo separado do corpo. No século IV a. C., Platão distinguia entre alma e corpo e Aristóteles acrescentava que, ainda que distintos, a alma e o corpo eram inseparáveis.
Primeiras definições
Em meados do século XVII, René Descartes foi um dos primeiros filósofos a tentar descrever a consciência, e sugeriu que esta era res cogitans, pertencente ao domínio do imaterial ou do “âmbito do pensamento”, em contraste com o domínio físico das coisas materiais, res extensa, ou o “âmbito da extensão”. Contudo, a quem primeiro se atribui o conceito moderno de consciência como sucessão contínua de percepções individuais é a John Locke, filósofo inglês do século XVII. James sentiu-se atraído pela ideia de Locke das percepções transitórias e também pela obra do filósofo alemão do século XVIII Immanuel Kant. Kant sentia-se impressionado com a forma como as nossas experiências se unem e assinalava que, se ouvimos um som e simultaneamente sentimos dor, experienciamos isso como um único acontecimento; a isto, Kant chamou “unidade de consciência”, conceito que influenciou muitos filósofos posteriores, entre eles William James.
James considerava que a questão mais importante da consciência era não ser uma “coisa”, mas um processo: é aquilo que faz o cérebro governar um sistema nervoso que se tornou demasiado complexo para se regular a si mesmo. Permite-nos refletir sobre o passado, o presente e o futuro, planificar e adaptarmo-nos às circunstâncias, e dessa forma cumprir o que para James é o objetivo principal da consciência: continuarmos vivos.
Contudo, James costumava imaginar a estrutura de uma consciência unificada e desenvolvia a seguinte comparação: “Peguemos em dez palavras, dez homens, e damos a cada um uma palavra. Coloquemos os homens em fila ou misturados e cada um deve pensar na sua palavra tantas vezes quantas deseje; em nenhum haverá consciência da frase inteira.” Se a consciência é um fluxo de pensamentos distintos, para James era um problema como se combinavam. Tal como disse: “A ideia de a mais a ideia de b não é idêntica à ideia de (a + b).” Da soma de dois pensamentos obtém-se uma ideia completamente nova. Assim, por exemplo, se o pensamento a for “São nove horas” e o pensamento b for “O comboio sai às 9:02”, poderia seguir-se o pensamento c — “Vou perder o comboio!”.
Combinação de pensamentos
James concluiu que a forma mais simples de compreender como se podem combinar com sentido os pensamentos do fluxo da consciência é supor que as coisas que se conhecem juntas, conhecem-se em etapas únicas desse fluxo. Alguns pensamentos, ou sensações, acreditava, estavam inevitavelmente ligados, como no exemplo de Kant de se ouvir um som e se sentir uma dor ao mesmo tempo, porque os pensamentos que entram na nossa consciência combinam-se imediatamente, formando uma cadeia, ou corrente, dentro do fluxo. Pode haver muitas destas correntes a fluir através da nossa consciência, rápida ou lentamente. James afirmava que há inclusive paragens ou pontos de repouso em que nos detemos para formar imagens mentais que podemos contemplar com calma. A tais pontos de repouso, James denominou-os “partes substantivas” e às correntes móveis “partes transitivas”, e explicava que o nosso pensamento se vê transportado de uma parte substantiva para outra, impelido pelas partes transitivas. Vemo-nos, por isso, “empurrados” de uma para outra conclusão pelo constante fluxo dos pensamentos que desta forma nos arrasta sempre para a frente. Não há conclusão final: a consciência não é uma coisa, mas um processo em evolução constante.
James sublinhou também o caráter pessoal da consciência ao defender que os pensamentos não existem na independência de um pensador: são os seus pensamentos ou os meus. Todos eles pertencem a alguém e nunca “se encontram diretamente com um pensamento de outra consciência pessoal que não a próprio”. E são estes pensamentos “ligados e a forma como sentimos que estão ligados” o que constitui o eu. Como os pensamentos não se podem separar do eu, James sugeria que o estudo de tal eu deveria ser o ponto de partida da psicologia. Os psicólogos experimentais divergiram, pois “o eu” não está disponível para experimentação, mas James considerava suficiente trabalhar com a nossa compreensão de um eu que faz certas coisas e sente de determinadas maneiras. A isto ele denominou “eu empírico”, que se manifesta através do seu comportamento e que é composto por várias partes — o eu material, o eu espiritual e o eu social —, cada uma das quais pode ser estudada através da introspeção.
Teoria da emoção
Nas primeiras fases dos seus estudos sobre a consciência, James compreendeu a importância das emoções na vida diária e, juntamente com o seu colega Carl Langes, desenvolveu uma teoria sobre a sua relação com os atos e o comportamento. No que à frente ficou conhecido como a teoria de James-Langes sobre as emoções, afirma que estas surgem da percepção mental consciente do próprio estado fisiológico. Para o ilustrar, James utilizou o exemplo de se ver um osso e desatar-se a correr. Não se trata de que quem vê o osso tenha medo; o que acontece na realidade é que o sujeito vê o osso e desata a correr, e o sentimento consciente de medo deve-se à ação de correr. Assim, de acordo com James, a percepção por parte da mente dos efeitos físicos de correr — respiração acelerada, pulsação elevada e transpiração traduz-se como a emoção do medo. Outro exemplo da teoria de James é que nos sentimos felizes porque sentimos a consciência de que sorrimos. Por outras palavras, não é que nos sintamos felizes e a seguir sorriamos, mas sim o contrário: primeiro sorrimos, e depois sentimo-nos felizes.
Pragmatismo
Relacionado com as teorias de James sobre a consciência encontra-se a sua consideração sobre a forma em como acreditamos que as coisas são verdadeiras ou não. Assim, James afirmou: “As verdades surgem dos factos (...), mas estes, por si mesmos, não são verdadeiros, simplesmente são. A verdade é a função das crenças que começam e terminam entre aqueles.”
James definiu as “crenças verdadeiras” como aquelas que são úteis para quem nelas acredita. O finca-pé é na utilidade das crenças encontra-se no núcleo da tradição filosófica norte-americana do pragmatismo, central no pensamento de James.
Segundo James, ao longo da vida somos confrontados com “verdades” de forma contínua, e as nossas crenças conscientes mudam à medida que as velhas verdades se alteram, por vezes sustentadas por outras novas. Esta teoria é particularmente relevante para o modo como progridem todas as ciências, incluindo a psicologia. Como exemplo, James citou a descoberta do elemento radioativo rádio por Pierre e Marie Curie, em 1902. No decurso das suas investigações, os Curie observaram que o rádio emitia, ao que parecia, quantidades ilimitadas de energia, o que “parecia contradizer as nossas ideias sobre toda a ordem natural”. Todavia, após uma consideração consciente, concluíram: “Apesar de isso ampliar as nossas noções sobre a energia, alterava apenas minimamente o seu caráter.” Neste caso, os conhecimentos científicos do casal Curie foram questionados e modificados, mas as suas verdades essenciais mantiveram-se intactas.
Estudos posteriores
No período que se seguiu à morte de James surgiu o movimento behaviorista, e com isso decaiu o interesse pela consciência; assim, houve pouca reflexão sobre esse tema nas décadas de 1920 a 1950. Exceção importante foi o movimento da Gestalt na Alemanha, que postulava que o cérebro funciona de maneira holística: considera as experiências conscientes na sua totalidade mais do que acontecimentos separados, do mesmo modo que, quando vemos um quadro, não observamos linhas, formas e pontos isolados, mas um todo com significado. Esta é a concepção que se encontra por trás daquela famosa frase da Gestalt: “O todo é mais que a soma das partes.”
A partir da década de 1980, psicólogos e neurocientistas desenvolveram um novo campo de investigação, o dos “estudos da consciência”, centrados em duas áreas principais: o conteúdo da consciência, estudado em indivíduos considerados normais e sãos, e a consciência das pessoas que sofreram algum tipo de transtorno, incluindo sujeitos em estado vegetativo, aparentemente carentes de todas as funções cerebrais superiores. Assim o objetivo nestas duas áreas de estudo é avaliar a consciência da forma mais objetiva possível e compreender os seus mecanismos subjacentes, tanto físicos como psicológicos.
A neurociência moderna demonstrou que a consciência tem os seus mecanismos. Em finais do século XX, o biólogo molecular e biofísico britânico Francis Crick afirmava que a consciência está vinculada a uma área específica do cérebro, o córtex pré-frontal, implicada em processos mentais como a planificação, a resolução de problemas e o controlo da conduta.
Os estudos do neurocientista colombiano Rodolfo Linas vinculam a consciência à atividade do tálamo juntamente com o córtex cerebral. O tálamo, estrutura inserida na área profunda do centro do cérebro, regula as vibrações no interior do cérebro em frequências determinadas; se estes ritmos regulares se virem perturbados — infeções ou causas genéticas —, o indivíduo pode sofrer transtornos neurológicos como epilepsia ou Parkinson, ou doenças psicológicas como a depressão.
Quando se trata de definir a consciência, contudo, os objetivos atuais continuam a ser vagos e de difícil aplicação. Assim, por exemplo, o neurocientista português António Damásio refere-se à consciência como a “sensação do que ocorre” e define-a como a “percepção que tem um organismo de si mesmo e do seu ambiente”. O filósofo William James já advertira, mais de cem anos antes, que a consciência era uma realidade muito difícil de definir.
Um legado duradouro
A obra The Principles of Psychology, de James, continua a ser reeditada, e as suas ideias influenciaram de forma importante muitos psicólogos, assim como outros cientistas e pensadores. A aplicação da sua filosofia pragmática aos factos — centrando-se não no “que é verdade”, mas no “que é útil acreditar” — levou a psicologia a deixar de lado a questão da separação da mente e o corpo e passar ao estudo (mais útil) de processos mentais como a atenção, a memória, o raciocínio, a imaginação e a intenção. Segundo James, este enfoque servia para afastar filósofos e psicólogos “da abstração, os princípios inamovíveis, os sistemas fechados e as hipóteses absolutas e iniciais e conduzi-los até aos factos, à ação e ao poder”. A sua insistência em responder à totalidade dos acontecimentos, incluindo os efeitos dos diversos meios sobre as nossas ações — em contraste com a abordagem introspetiva e estruturalista de decompor as nossas experiências nos seus mais pequenos pormenores —, constituiu, também, a nossa compreensão do comportamento.
Até James começar a lecionar a cadeira em Harvard, em 1875, não houve cursos de psicologia enquanto tal em nenhuma universidade dos Estados Unidos. No espaço de vinte anos, mais de vinte universidades haviam dado à psicologia o grau de disciplina académica e ofereciam cursos com o referido título. Durante aqueles anos, fundaram-se também três revistas especializa das, além de uma organização profissional: a Associação Americana de Psicologia.
Apesar de afirmar que detestava o trabalho experimental, James introduziu a psicologia experimental nos Estados Unidos, e fê-lo porque se deu conta de que era a melhor forma de demonstrar ou refutar uma teoria; ainda assim, não deixou de valorizar a introspeção como ferramenta de descoberta sobre os processos mentais.
A mudança de atitude em relação à psicologia, que passou de ser tida como um “assuntozito desagradável” (nas palavras de James) a ser considerada uma disciplina muito benéfica, deve muito ao trabalho de James. Em 1977, no seu discurso para comemorar o 75.° aniversário da fundação da Associação Americana de Psicologia, David Krech, então professor emérito de psicologia na Universidade de Califórnia em Berkeley, referiu-se a James como o “pai da psicologia”.
A palavra “adolescência” provém do termo latino adolescere (“crescer”) e designa a fase da vida entre a infância e a idade adulta. Na maioria das sociedades ocidentais não se reconheceu este conceito até ao século XX: a infância terminava e começava a vida de adulta, em geral, por volta dos 18 anos.
G. Stanley Hall, psicólogo e pedagogo, foi o primeiro académico a estudar o tema, na sua obra Adolescence (1904). Hall sentia-se influenciado pela teoria da evolução de Darwin e pensava que a infância, em particular o desenvolvimento físico precoce e o comportamento, refletia o curso da mudança evolutiva, e que cada indivíduo se desenvolvia de acordo com a sua “história ancestral”.
Outra influência-chave em Hall foi a do Sturm und Drang (“tormenta e ímpeto”), movimento literário e artístico alemão do século XVIII que defendia uma liberdade de expressão total. Assim, Hall referiu-se à adolescência como Sturm und Drang, considerando-a uma fase de rebelião e tumulto emocional, com comportamentos que vão desde a melancolia até à temeridade. Nas palavras de Hall, a adolescência “anseia por sentimentos fortes e novas sensações [...], a monotonia, a rotina o pormenor são intoleráveis”; a consciência de si mesmo e do ambiente aumenta notavelmente; tudo é sentido com maior intensidade e procura-se a sensação pela sensação.
Ecos modernos
Muitos dos contributos deste psicólogo ressoam nos estudos atuais. Hall considerava os adolescentes muito propensos à depressão e descreveu uma curva de abatimento que se inicia aos 11 anos e culmina aos 15 e vai decaindo até aos 23. Os estudos atuais reconhecem um padrão similar. As causas da depressão identificadas por Hall — os defeitos aparentemente insuperáveis, o medo de fazer má figura ou a “fantasia do amor impossível” são-nos familiares. Ele considerava que a timidez própria da adolescência leva à autocrítica e à reprovação de si mesmo e dos demais. Isto reflete-se em estudos posteriores, que afirmam que a avançada capacidade de raciocínio dos adolescentes permite-lhes “ler nas entrelinhas” e engrandece a sua sensibilidade. Inclusive, a afirmação de Hall de que a criminalidade tem um pico aos 18 anos continua válida.
Apesar do que possa parecer, a opinião de Hall não era tão negativa. Como escreveu na sua obra Youth: Its Education, Regiment and Hygiene: “A adolescência é um novo nascimento, pois os traços mais elevados e mais completamente humanos surgem nesse período.” Para Hall, portanto, a adolescência era o início necessário de algo muito melhor.
O psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus levou a cabo o primeiro estudo sistemático da aprendizagem e da memória, para o qual fez uma longa e extenuante experiência consigo mesmo. Filósofos como John Locke e David Hume já haviam sugerido que recordar implica associar: ligar coisas ou ideias através de traços partilhados como tempo, lugar, causa ou efeito. Ebbinghaus decidiu pôr à prova o efeito da associação sobre a memória e registar os resultados para ver se a memória segue padrões verificáveis.
Experiências
Ebbinghaus começou por memorizar listas de palavras e verificar quantas conseguia recordar. A fim de evitar servir-se da associação, criou 2300 sílabas “sem sentido”, todas com três letras e com o padrão standard de consoante-vogal-consoante, por exemplo “ZUC” e “CAX”. Uma vez agrupadas em listas, Ebbinghaus lia uma lista, detendo-se uma fração de segundo em cada sílaba, e antes de ler outra lista fazia uma pausa de 15 segundos. Repetia isto até conseguir recitar uma série com rapidez e sem erros. Elaborou listas mais ou menos longas e com diferentes intervalos de aprendizagem, anotando o tempo de aprendizagem e esquecimento. Verificou que recordava material com sentido, como um poema, com uma facilidade dez vezes maior do que as suas listas sem sentido, e quantas mais vezes repetia os estímulos (as sílabas sem sentido), menos tempo demorava a reproduzir a informação memorizada; além disso, as primeiras repetições eram as mais eficazes para memorizar uma lista.
Quanto ao esquecimento, descobriu, como era de esperar, que de morava mais tempo a esquecer as listas que passara mais tempo a memorizar e que quando melhor se reproduz o que foi aprendido é exatamente depois da aprendizagem. Também descobriu que se esquece muito rapidamente durante a primeira hora e depois mais devagar, de modo que passadas nove horas se esqueceu cerca de 60 por cento do memorizado e 24 horas depois esqueceu-se dois terços de qualquer coisa que se tenha memorizado. Representado num gráfico, isto dá uma “curva do esquecimento” que começa com uma queda pronunciada, seguida por uma inclinação muito gradual.
Os estudos de Ebbinghaus inauguraram um novo campo de investigação e contribuíram para estabelecer a psicologia como disciplina científica, e os seus meticulosos métodos continuam hoje na base da experimentação psicológica.
Em 1859, Charles Darwin defendeu, na obra A Origem das Espécies, a sua teoria sobre a evolução, constituindo assim um marco para o debate sobre se a inteligência era fixada por herança genética ou podia ser modificada pelas circunstâncias. Em princípios da década de 1880, o seu primo Francis Galton levou a cabo provas sobre a capacidade cognitiva de cerca de 9000 londrinos e concluiu que a inteligência básica estava fixada ao nascer. Wilhelm Wundt propôs, na mesma época, o conceito de um quociente intelectual (QI) e procurou medi-lo. O trabalho de Wundt inspirou o psicólogo norte-americano James Cattell para realizar estudos sobre a medição das capacidades mentais e também foi a base dos estudos de Alfred Binet sobre a inteligência humana.
Fascinado pela aprendizagem
Antes de se interessar pela psicologia, Binet estudou direito e ciências naturais. Foi, em grande medida, autodidata, mas o trabalho que realizou com Jean-Martin Charcot, no Hospital de la Salpêtriêre de Paris, durante mais de sete anos trouxe-lhe o domínio dos procedimentos experimentais, com as suas caraterísticas precisão e planificação. O interesse de Binet pela inteligência humana estava ligado ao seu fascínio pelo desenvolvimento das filhas. Observara que a rapidez e a facilidade com que assimilavam nova informação dependiam da atenção que prestavam. O contexto e o estado de espírito da criança pareciam fundamentais para a aprendizagem.
Ao tomar conhecimento dos testes de Francis Galton em Londres, Binet decidiu conduzir o próprio estudo e avaliar as diferenças nas capacidades individuais entre diferentes grupos de interesse, como jogadores de xadrez, matemáticos, artistas e escritores. Isto enquanto prosseguia com o estudo sobre a inteligência funcional das crianças, observando a que idades específicas adquiriam determinadas capacidades. Assim, por exemplo, as crianças muito pequena não possuem capacidade para o pensamento abstrato, o que parece corresponder a um nível de inteligência maior e diretamente atribuível à idade.
Em 1889, Binet foi convidado para fazer parte de uma nova organização dedicada aos estudos educacionais: a Société Libre pour L'Etude Psychologique de l'Enfant [Sociedade Livre para o Estudo Psicológico da Criança]. Em pouco tempo, Binet chegou a presidente e começou a publicar artigos e informação útil para docentes e para as autoridades educativas. Através dele, em França tornou-se então obrigatória a escolaridade para todas as crianças entre os 6 e os 12 anos e foi pedido a Binet que tivesse em consideração como desenvolver um teste para identificar as crianças com possíveis dificuldades de aprendizagem, de forma a que pudessem receber uma educação adequada às suas necessidades. Essa responsabilidade levou Binet a fazer parte, em 1904, de uma comissão governamental para criar um método para estimar o potencial de aprendizagem em crianças pequenas e assumiu a tarefa de determinar as diferenças entre as crianças normais e as que apresentavam limitações intelectuais e encontrar o modo de medir tais diferenças.
A escala Binet-Simon
Nesta tarefa colaborou com Théodore Simon, investigador do Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de Sorbonne, da qual Binet era diretor desde 1894. Este seria o início de uma longa e frutífera colaboração entre os dois cientistas.
Em 1905, Binet e Simon já tinham criado o primeiro teste, com o nome “Novos métodos para diagnosticar a idiotice, a imbecilidade e a deficiência mental”. Pouco tempo depois, apresentaram uma versão revista para crianças entre os 3 e os 13 anos, que se chamou simplesmente escala Binet-Simon, e que foi revista de novo em 1908 e 1922.
Binet e Simon, a partir da observação de crianças durante muitos anos, prepararam 30 testes de dificuldade crescente, com tarefas que refletiam a capacidade média de crianças de diferentes idades. Entre as tarefas mais simples figuravam seguir um feixe de luz e conversar a um nível elementar com o examinador. Algo mais complexo eram as tarefas como assinalar as diferentes partes do corpo ao ouvir o seu nome, repetir uma série de dois dígitos, repetir orações simples ou definir palavras básicas, como “casa” ou “garfo”. Nos testes mais difíceis, pedia-se às crianças que descrevessem as diferenças entre pares de objetos semelhantes, que desenhassem objetos de memória ou que construíssem frases a partir de três palavras dadas. As tarefas que envolviam maior dificuldade podiam consistir em repetir sete dígitos ao acaso, escolher três palavras que rimassem com “obediência” ou responder a perguntas como: “o meu vizinho tem recebido visitas estranhas. Foram vê-lo primeiro um médico, a seguir um advogado e depois um padre. Que se estará a passar?”
Binet e Simon experimentaram a sua escala numa amostra de 50 crianças, divididas em cinco grupos, de acordo com a idade. As crianças foram escolhidas pelos professores como alunos de capacidade média para o seu grupo etário, o que proporcionava uma medida de normalidade com a qual podiam contrastar crianças com capacidades de todo o tipo.
As 30 tarefas de Binet e Simon, dispostas por ordem de dificuldade, deviam ser levadas a cabo em condições controladas com muito cuidado, já que Binet comprovara que as crianças se distraem com facilidade e que o seu nível de atenção influi decisivamente na sua capacidade de rendimento. Considerava a inteligência uma mistura de dificuldades mentais polifacetadas que operam num mundo real de circunstâncias sempre em mudança e que são controladas pelo sentido prático.
A inteligência não é fixa
Alfred Binet foi sempre muito franco acerca das limitações da escala Binet-Simon. Assim, não deixou de assinalar que a escala classificava simplesmente as crianças em função do seu desempenho de diferentes tarefas intelectuais em relação a outras crianças com idades semelhantes. Os testes de 1908 e 1911 faziam maior finca-pé na distinção de grupos de idade e foi deste modo que apareceu o conceito de “idade mental”.
Binet insistiu também que o desenvolvimento mental progredia a diferentes ritmos e podia ser influenciado por fatores relacionados com o meio. Defendia que os testes eram uma forma de estimar o nível mental num momento concreto, assumindo que o nível de e um indivíduo podia mudar com as circunstâncias. Neste ponto, opôs-se ao influente psicólogo inglês Charles Spearman, que, mais à frente, sugeriu que a inteligência se baseava apenas em fatores biológicos.
Binet defendeu que a inteligência de uma criança “não é um valor fixo”, crescendo tal como a criança, e que, ainda que tivesse concebido um modo de a quantificar, nenhum número podia dar a medida exata da inteligência de uma pessoa. Esta só podia ser avaliada cabalmente, de acordo com Binet, combinando o teste com um estudo de cada caso. Por fim, Binet não acreditava ser possível medir a aptidão intelectual como se fosse um comprimento ou um volume: só podia ser unicamente classificada.
Uso e abuso
Em 1908, o psicólogo norte-americano Henry H. Goddard viajou para a Europa, onde teve contato com os testes de Binet-Simon. Goddard traduziu-os e distribuiu cerca de 22 000 cópias pelos Estados Unidos para que fossem utilizados nas escolas. Apesar de Binet ter evitado com todo o cuidado atribuir a inteligência a fatores hereditários, para Goddard, esta era algo determina do geneticamente e, infelizmente viu na escala Binet-Simon um meio para localizar os “débeis mentais” e estabelecer uma esterilização obrigatória.
Em 1916, Lewis Terman, outro psicólogo norte-americano, modificou a escala Binet-Simon. Utilizando os resultados dos testes de uma grande amostra de crianças norte-americanas, rebatizou-a escala Stanford-Binet. Esta já não era só utilizada para identificar as crianças com necessidades especiais, mas também para reconhecer os mais adequados para a formação profissional, condenando-os, de facto, a uma vida de trabalho manual. Terman, tal como Goddard, acreditava que a inteligência era herdada e era imutável, por muita educação que se recebesse.
Binet provavelmente demorou algum tempo a ter conhecimento destas aplicações do seu trabalho, pois raramente se interessava pelos desenvolvimentos profissionais para lá da sua esfera imediata. Nunca saiu do seu país, França, onde a escala Binet-Simon não foi adaptada durante a sua vida, pelo que nunca teve de se confrontar com modificações da sua obra. Quando, por fim, soube da “ideias estrangeiras que estavam a ser enxertadas no seu instrumento de trabalho”, condenou energicamente aqueles que “com brutal pessimismo” e “veredictos deploráveis” promoviam a ideia da inteligência como uma constante única.
Ainda hoje, o conceito de teste de quociente intelectual de Binet conserva a sua influência. Apesar das suas limitações, gerou um volume de estudos que fez progredir o nosso conhecimento da inteligência humana.
De 1880 a 1910, aproximadamente, houve um grande interesse pela dissociação ou seja, a separação de alguns processos da mente, consciente de uma pessoa ou da sua personalidade quotidiana e normal. A dissociação leve, na qual o mundo parece onírico e irreal, é frequente e afeta a maioria das pessoas em algum momento; costuma ser causada por algumas doenças, como a gripe, ou por drogas, incluindo o álcool, e pode provocar perda da memória parcial ou total durante ou depois do período de dissociação. Em casos raros do que foi logo denominado “transtorno de personalidade múltipla”, a pessoa parece possuir duas ou mais personalidades; hoje, esses casos extremos são classificados como “transtorno de personalidade dissociativa”.
O filósofo e médico francês Pierre Janet foi o primeiro a estudar e descrever a dissociação como uma doença psiquiátrica. Em finais da década de 1880, princípios da de 1890, Janet trabalhou no Hospital de la Salpêtriêre de Paris, onde tratou pacientes com “histeria”, e publicou estudos de casos de mulheres com sintomas extremos. Uma paciente, a quem chamou “Lucie”, por exemplo, costumava estar tranquila, mas, às vezes, era tomada por uma repentina agitação traumática e chorava, e parecia aterrorizada sem razão aparente. Parecia possuir três personalidades diferentes, às quais Janet chamou “Lucie 1”, “Lucie 2” e “Lucie 3”, e passava de uma para outra de forma inesperada, sobretudo sob hipnose. Lucie 1 tinha as suas próprias recordações, tal como Lucie 2, mas a Lucie 3 era capaz de recordar acontecimentos das três personalidades. O relevante era que a Lucie 3 recordava uma experiência traumática vivida aos sete anos durante as férias, quando se sentia aterrorizada por dois homens que se escondiam atrás de um cortinado.
Trauma subconsciente
Janet concluiu que o trauma infantil de Lucie era a causa da sua dissociação. Em L'automatisme psychologique, escreveu: “Ter um corpo na postura do terror é sentir a emoção do terror, e se a dita postura se deve a uma ideia subconsciente, o paciente terá a emoção apenas na sua consciência, sem saber porque se sente assim.” “Tenho medo e não sei porquê”, dizia Lucie à medida que era invadida pelo terror. “O inconsciente”, afirmou Janet, “está a ser sonhado; vê os homens atrás da cortina e coloca o corpo numa postura de terror.” Este estresse e os acontecimentos traumáticos, para Janet, podiam provocar a dissociação em qualquer pessoa que tivesse essa predisposição.
Janet referiu-se à parte da mente que ele considerava por trás do comportamento desadequado como “subconsciente”; Freud preferiu chamar à fonte dos traumas mentais dos seus pacientes “inconsciente”. Freud desenvolveu também as ideias de Janet e defendeu que a dissociação era um “mecanismo de defesa” universal.
A obra de Janet foi ignorada durante décadas, em parte devido ao desprestígio da hipnose para a investigação e o tratamento das doenças mentais. Contudo, desde finais do século XX tem suscitado o interesse dos psicólogos que estudam as desordens dissociativas.
Grande número de descobertas-chave feitas nos alvores da psicologia deve-se a cientistas que trabalhavam noutras áreas. Pavlov é um dos mais conhecidos, e os seus estudos sobre a secreção da saliva dos cães durante a digestão levaram-no a conclusões inesperadas.
Na década de 1890, Pavlov fez uma série de experiências com cães, a nível cirúrgico, implantando neles diversos dispositivos com o objetivo de medir o fluxo de saliva quando se alimentava os animais. Observou que os cães salivavam não apenas quando comiam, mas também ao cheirar ou ao ver comida apetitosa; salivavam até na perspectiva de que chegaria comida quando um dos seus tratadores se aproximava.
As suas observações levaram-no a analisar o vínculo entre estímulos diversos e as respostas produzidas. Numa dessas experiências, Pavlov punha um metrônomo a funcionar antes de dar comida aos cães e repetia o processo até os animais associarem sempre o som a uma boa refeição. Este “condicionamento” resultou no facto de os cães passarem a salivar só por ouvirem o tique-taque do metrónomo.
Posteriormente, Pavlov substituiu o metrônomo por uma campainha ou um timbre, uma luz intermitente e apitos com diferentes sons. Independentemente do estímulo, o resultado era o mesmo em todos os casos: a partir do momento em que tinha sido estabelecida a associação entre o estímulo neutro (campainha, timbre ou luz) e a comida, os cães respondiam ao estímulo salivando.
Resposta condicionada
Pavlov concluiu que a comida que se dava aos cães era um “estímulo incondicionado” (EI) porque produzia uma “resposta incondicionada” (RI), não aprendida (a salivação, neste caso). Contudo, o som do metrônomo só se transformava num estímulo para salivar uma vez aprendida a sua associação à comida. Pavlov chamou-lhe “estímulo condicionado” (EC). A salivação em resposta ao metrônomo tinha sido aprendida, uma “resposta condicionada” (RC).
Em experiências posteriores, demonstrou que se pode reprimir, ou “desaprender”, as respostas condicionadas se o estímulo condicionado é feito repetidamente sem que a seguir se dê comida. Também provou que a resposta condicionada pode ser mental, além de física, através de experiências às quais se associavam estímulos diferentes, como dor ou algum tipo de ameaça, provocando uma resposta condicionada de temor ou ansiedade.
O princípio de que é conhecido como condicionamento clássico ou pavloviano, assim como o método experimental de Pavlov, constituíram um progresso decisivo para o surgimento da psicologia como disciplina verdadeiramente científica e não apenas filosófica. O trabalho de Pavlov teve uma influência enorme, em particular entre psicólogos behavioristas norte-americanos como John B. Watson e B.F. Skinner.
Na época em que Ivan Pavlov efetuava, na Rússia, as suas experiência com cães, nos EUA, Edward Thorndike começava a estudar o comportamento animal para a sua tese de doutoramento. Thorndike foi talvez o primeiro psicólogo behaviorista, apesar de ter desenvolvido o seu trabalho muito antes de o termo ser batizado. A psicologia científica surgia como nova área de estudo nas universidades quando Thorndike se licenciou, na década de 1890, e lhe sobreveio a ideia de aplicar esta nova ciência à educação e à aprendizagem, temas do seu interesse. A intenção original de Thorndike era estudar a aprendizagem nos humanos. Porém, ao não conseguir alguém adequado à sua investigação, desviou a atenção para os animais e propôs-se estudar os processos da inteligência e da aprendizagem, através da observação, numa série de experiências controladas. Os resultados foram surpreendentes e lançaram as bases da psicologia comportamental.
Ambientes de aprendizagem
Thorndike levou a cabo os primeiros estudos com crianças pequenas, que deviam aprender a sair de labirintos especificamente desenhados para as suas experiências. Com o tempo, isto transformar-se-ia num selo distintivo da técnica experimental behaviorista: a utilização de um ambiente especialmente criado, onde o sujeito recebe determinados estímulos ou tarefas; hoje em dia, tal é conhecido como “condicionamento instrumental” ou “aprendizagem experimental”. À medida que avançava nos estudos, Thorndike passou a fazer experiências com gatos. Inventou a “caixa-problema”, com o objetivo de observar a capacidade de aprendizagem dos mecanismos necessários para fugirem.
O gato faminto fechado na caixa-problema explorava o ambiente e encontrava diferentes objetos, como um laço de cordel, uma argola ou um botão para carregar, só um dos objetos estava ligado ao fecho para abrir a porta da caixa. A longo prazo, os gatos descobriam a técnica que lhes permitia escapar e receber uma recompensa em forma de comida. O processo era repetido e anotava-se sempre o tempo que o gato demorava a abrir a caixa, o que indicava a rapidez com que o animal aprendia sobre o que o rodeava.
Thorndike fez a experiência com sete gatos diferentes, pondo cada um deles numa série de caixas-problemas que se abriam de formas diferentes. Observou-se então que, apesar de todos os gatos terem descoberto a forma de fugir através do método de tentativa e erro, a cada novo ensaio, as tentativas e os erros diminuíam gradualmente, à medida que aprendiam que ações se revelavam infrutíferas e quais levavam à recompensa.
A lei do efeito
Como resultado destas investigações, Thorndike propôs a lei do efeito, que postula que uma resposta a uma situação que produza um resultado satisfatório tem maiores probabilidades de se repetir no futuro; inversamente, uma resposta a uma situação com um resultado insatisfatório tem menores probabilidades de se repetir. Foi esta a primeira expressão formal de uma ideia que subjaz a toda a psicologia comportamental, a do vínculo entre o estímulo e a resposta e a sua relevância para o processo da aprendizagem e do comportamento. Thorndike propôs que, quando se produz uma ligação entre um estímulo (E) e uma resposta (R), se cria uma ligação neural correspondente no cérebro. A esta classe de aprendizagem E-R deu o nome de “conexionismo” e defendeu que as ligações que se produzem durante a aprendizagem ficam gravadas nos circuitos do cérebro.
Thorndike afirmou que é o resultado de uma ação o que determina a intensidade com que se grava a ligação estímulo-resposta; no caso das caixas-problemas, o apertar um botão ou puxar um fio pode significar a liberdade ou a frustração. Por outras palavras, quando a determinadas sequências de estímulo-resposta se seguem situações satisfatórias ou agradáveis (como escapar ou receber uma recompensa), tais respostas tendem a ficar “mais firmemente ligadas à situação, de forma que, quando esta se repete, será mais provável que se repitam”; ficam gravadas como uma ligação neuronal. Quando às sequências de estímulo-resposta se seguem situações irritantes ou desagradáveis (por exemplo, o prolongamento da prisão ou do castigo), as ligações neurais entre a situação e a resposta enfraquecem até se apagarem: “As ações sem benefício são afastadas.”
Tal ênfase no resultado de um estímulo e da sua resposta e a ideia de que o resultado reforça a ligação estímulo-resposta é um exemplo do que mais adiante se conheceria como teoria da aprendizagem baseada no reforço. O reforço e a importância dos resultados foram quase ignorados pela geração seguinte de psicólogos comportamentais, como John B. Watson, mas a lei do efeito foi uma brilhante antecipação do trabalho do norte-americano B.F. Skinner e da sua teoria do condicionamento operante.
Mais tarde, Thorndike aperfeiçoou a lei do efeito para ter em conta outras variáveis, como o tempo, transcorrido entre a resposta e a recompensa, o efeito da repetição de uma tarefa e o tempo que demora a ser esquecida se não for repetida. Assim, extraiu a lei do exercício, segundo a qual as ligações estímulo-resposta que se repetem reforçam-se, enquanto as que não se voltam a utilizar enfraquecem. Além disso, o ritmo a que as ligações se reforçam ou debilitam pode variar. Para Thorndike, “quanto maior é a satisfação ou o incômodo, maior é o reforço ou enfraquecimento do vínculo”.
Curiosamente, apesar de Thorndike estudar o comportamento animal com métodos que se transformaram tipicamente em behavioristas — e escreveu Animal lntelligence (1911), que seria um clássico do primeiro behaviorismo —, ele considerava-se, acima de tudo, um psicólogo educacional. O seu objetivo original era estudar a inteligência animal, não o comportamento. Por exemplo, queria demonstrar que os animais aprendiam por simples tentativa e erro, e não através de alguma faculdade intuitiva, ideia muito vulgarizada na psicologia da época, Thordnike escreveu: “Em primeiro lugar, a maioria dos livros não nos oferece uma psicologia, mas sim um elogio dos animais. Todos eles se debruçaram sobre a inteligência dos animais, nenhum sobre a sua estupidez”. O facto de os gatos nas caixas-problemas aprenderem gradualmente, em vez de terem uma ideia repentina de como escaparem, confirmava as suas teorias: os gatos viam-se obrigados a aprender por tentativa e erro por que não eram capazes de raciocinar e compreender o vínculo entre a poita e o botão.
Inteligência humana
Depois de publicar Animal Intelligence, Thorndike ocupou-se da inteligência humana. Na sua opinião, a inteligência mais básica caracteriza-se pela simples associação de estímulo e resposta, com o resultado da ligação neural. Assim, quanto mais inteligente for o animal, mais capaz será de formar essas ligações. Por isso, a inteligência pode definir-se em termos de capacidade de formar vínculos neurais, o que não depende só de fatores genéticos, mas também da experiência.
Com o objetivo de obter uma medida da inteligência humana, Thorndike idealizou uma prova CAVD (Complemento, Aritmética, Vocabulário e Direção), modelo de todos os testes de inteligência atuais, e estudou a inteligência mecânica (a compreensão do funcionamento das coisas), a inteligência abstrata (capacidade criativa) e a inteligência social (comunicação e relação). Interessava-lhe especialmente os efeitos da idade sobre a aprendizagem e propôs uma teoria da aprendizagem que continua a constituir o núcleo da psicologia educativa: um contributo que talvez o orgulhasse mais do que qualquer outro, se bem que seja sobretudo recordado pela sua enorme influência no movimento behaviorista.
Muitos psicólogos haviam já concluído, no princípio do século XX, que a mente humana não podia ser estudada corretamente através de métodos introspetivos, e defendiam o estudo da mente em diferentes provas comportamentais obtidas em experiências de laboratório.
John Watson não foi o primeiro a defender esta abordagem cabalmente behaviorista, mas o mais destacado. Numa carreira truncada pela sua infidelidade conjugal, transformou-se num dos psicólogos mais influentes e controversos do século XX. Graças ao seu trabalho sobre a teoria da aprendizagem de estímulo e resposta lançada por Edward Thorndike, considerado o “pai” do behaviorismo, título que ele contribuiu para se popularizar. Na sua conferência Psychology as the Behaviorist Views It, de 1913, classificada pelos psicólogos posteriores como o “manifesto behaviorista”, defendeu a ideia revolucionária de que “uma psicologia verdadeiramente científica deixaria de falar de estados mentais (...) para se centrar na predição e no controlo do comportamento”.
Perante os estudos de Watson na Universidade Johns Hopkins de Baltimore, a maioria das experiências sobre o comportamento fora com animais, extrapolando depois os resultados para os humanos. Watson estudara ratos e macacos para preparar a sua tese de doutoramento, mas (quem sabe se influenciado pelas suas experiências com soldados durante a I Guerra Mundial) estava desejoso de fazer experiências em humanos. Watson queria estudar o modelo de estímulo-resposta do condicionamento clássico e como se aplicava à predição e ao controlo do comportamento humano. Acreditava que havia três emoções humanas fundamentais — o amor, a ira e o medo — e queria verificar se podia condicionar as pessoas de forma a sentir essas emoções em resposta a estímulos.
O pequeno Albert
Com a sua assistente, Rosalie Rayner, Watson iniciou uma série de experiências com Albert B., um bebê de nove meses, procedente de um hospital infantil próximo. O objetivo era verificar se seria possível ensinar uma criança a temer um animal fazendo com que este aparecesse ao mesmo tempo que se ouvia um ruído forte. Watson também queria saber se tal medo se transferia para outros animais ou objetos e quanto tempo durava. Hoje em dia os seus métodos são considerados pouco éticos e até cruéis, mas na altura eram um prolongamento lógico e natural dos estudos precedentes com animais.
No famoso dia da experiência do “pequeno Albert”, Watson pôs o bebê saudável, mas “em geral impassível e indiferente”, sobre um colchão e observou as suas reações ao apresentar-lhe um cão, um rato branco, um coelho, um macaco e vários objetos inanimados, inclusive papel a arder e máscaras humanas. Albert não revelou qualquer espécie de medo perante os objetos e inclusive tentou tocá-los. Watson estabeleceu assim um ponto a partir do qual poderia medir qualquer mudança no comportamento da criança em relação aos objetos.
Noutra altura, estando Albert sentado no colchão, Watson, de repente, bateu com um martelo numa barra de ferro para produzir um ruído forte. Como seria de esperar, a criança assustou-se e desatou a chorar. Watson tinha então um estímulo incondicionado (o ruído forte) que suscitava uma resposta de temor na criança. Combinando tal estímulo com a visão do rato, segundo a sua hipótese, poderia condicionar o pequeno Albert para que tivesse medo do animal.
Quando Albert tinha apenas 11 meses, Watson fez a experiência. Deixou o rato branco sobre o colchão com Albert e bateu com o martelo na barra de ferro quando a criança tocou no rato. A criança desatou a chorar. Watson repetiu o procedimento sete vezes em duas sessões separadas por uma semana, depois da qual Albert passou a agitar-se quando o rato entrava no quarto, mesmo sem ser acompanhado do ruído.
Ao emparelhar repetidamente o rato com o ruído forte, Watson aplicava o mesmo tipo de condicionamento clássico que utilizara Pavlov nas suas experiências com cães. A resposta natural da criança ao ruído — medo e agitação — associara-se ao rato. Condicionara-se a criança a responder com medo perante o rato. Em termos de condicionamento clássico, o rato foi no início um estímulo neutro que não suscitava qualquer resposta em particular; o ruído forte era um “estímulo incondicionado” (EI) que suscitava uma resposta incondicionada (RI) de medo.
Mas este condicionamento parecia ir muito além de um simples medo por um rato branco e não parecia passageiro. A fim de comprovar se o medo do pequeno Albert se “generalizaria”, se estendera a outros objetos similares, cinco dias após o condicionamento o original apresentaram-lhe objetos com pelos brancos, entre eles um coelho, um cão e um casaco de pele de borrego. Albert revelou a mesma resposta temerosa e agitada que mostrava perante o rato.
Com estas experiências, Watson demonstrou que as emoções humanas são suscetíveis ao condicionamento clássico. Tratava-se de uma verdadeira descoberta, já que as experiências de estímulo-resposta precedentes se haviam centrado na aprendizagem de comportamentos físicos. Watson averiguara que o comportamento humano não só se pode predizer — dados certos estímulos e condições — como também controlar e modificar. Um mês mais tarde, uma nova comprovação das reações de Albert perante o rato, o coelho e o cão apontava para que os efeitos do condicionamento eram duradouros, mas isto não pôde ser comprovado porque pouco tempo depois a mãe de Albert levou a criança do hospital. Sugeriu-se que isto se dera devido a um cansaço por parte da mãe, mas segundo Watson e Rayner, a mãe levou-o na data antecipadamente acordada.
Infinitamente maleável
A carreira de Watson chegou ao fim pouco tempo depois das suas experiências com Albert, quando se viu obrigado a renunciar à sua cátedra por causa do escândalo causado pela relação com a sua assistente Rosalie Rayner. Apesar de os seus estudos terem ficado incompletos, Watson sentiu-se apoiado na sua defesa do behaviorismo e, e, em particular, da aplicação do condicionamento clássico de estímulo-resposta aos humanos. Devido talvez à sua expulsão do mundo acadêmico (que o levou ao da publicidade, com grande sucesso), tendeu a exagerar as suas descobertas e, aproveitando um talento natural para a autopromoção, continuou a publicar livros de psicologia.
Não contente, e, por exemplo, em suster a tese de que é possível condicionar as respostas emocionais, presumiu que sobre a mesma base se poderia controlar ou modificar quase qualquer aspeto da conduta humana, por mais complexo que fosse. Tal como se tinha condicionado o pequeno Albert para que tivesse medo de certos objetos brancos e peludos em oposição à sua tendência natural, Watson acreditava que “qualquer que seja a natureza, ela pode ser treinada para ser qualquer coisa”. Na sua obra de 1924, Behaviorism, sentenciava o seguinte: “Deem-me uma dezena de bebês saudáveis, bem formados e o meu próprio mundo para os criar e garanto que posso escolher qualquer um deles e formá-lo para ser qualquer tipo de especialista que queira: médico, artista, advogado, comerciante ou até mendigo ou ladrão, sem que o seu talento, gostos, tendências, capacidades, vocações, nem a raça dos seus ante passados, importem.” No debate inato versus adquirido, Watson estava firmemente do lado do adquirido.
Crianças sem emoções
Ao não poder prosseguir com as suas investigações acadêmicas, Watson desviou a sua atenção para o âmbito da educação das crianças. Foi aí que as suas ideias alcançaram maior ressonância pública e onde, com o tempo, se revelaram mais controversas. Como era de prever, defendeu métodos estritamente behavioristas para educar as crianças, e nas décadas de 1920 e 1930 os seus livros sobre o tema alcançaram uma popularidade imensa. Em retrospectiva, é fácil de perceber que a sua abordagem, baseada num extremo desapego emocional, estava errada e era potencialmente daninha, mas milhões de pais adotaram os seus métodos, incluindo Watson e Rosalie Rayner.
A criança, segundo Watson, é formada pelo ambiente, e o dito ambiente é controlado pelos pais. Ele considerava a criança um exercício objetivo de modificação do comportamento e, em particular, das emoções do medo, da ira e do amor. De forma talvez compreensível, dada a sua infância infeliz, rejeitava o carinho como algo sentimental que produzia na criança uma dependência excessiva dos pais, mas também se manifestou contrário ao oposto, e era contra os castigos físicos.
A sua questionável aplicação do condicionamento de estímulo-resposta à educação infantil foi objeto de críticas. As gerações posteriores consideravam-no um meio frio e manipulador que insistia excessivamente na eficiência e no resultado mais do que no bem-estar da criança. O dano causado a longo prazo às crianças criadas segundo o modelo behaviorista manifestou-se de forma gradual, mas significativa. A popularidade das suas obras como “bíblias” da criança teve como resultado toda uma geração hoje afetada por aquilo que se pode considerar uma criança disfuncional. A família de Watson sofreu por isso: Rosalie percebeu os erros das teorias do marido e publicou na Parent's Magazine um artigo crítico intitulado “I Am the Mother of a Behaviorist's Sons”; a neta de Watson, a atriz Mariette Hartley, oferece um perturbador testemunho da sua história familiar na autobiografia Breaking the Silence.
Rapidamente apareceram abordagens alternativas da educação, inclusive entre os behavioristas mais convencidos. O psicólogo B. F. Skinner, aceitando o princípio básico do condicionamento de Watson (pese embora a eticamente duvidosa experiência com o pequeno Albert) e tomando como ponto de partida o seu próprio “behaviorismo radical”, aplicou o behaviorismo à educação de crianças de uma forma mais benigna (se bem que excêntrica).
Apesar de considerado uma das pessoas mais destacadas da psicologia behaviorista nos EUA, Edward Tolman adotou uma abordagem muito diferente da de Thorndike e Watson. Concordava com a metodologia-base do behaviorismo — segundo a qual a psicologia só pode ser estudada mediante experiências científicas objetivas — mas também se sentia atraído pelas ideias sobre processos mentais como percepção, cognição e motivação, com as quais se familiarizara ao estudar a psicologia da Gestalt na Alemanha. Unindo estas duas abordagens até então separadas, desenvolveu uma nova teoria sobre o papel do condicionamento e concebeu o “behaviorismo propositivo”, hoje em dia denominado behaviorismo cognitivo.
Tolman questionou a premissa básica da aprendizagem condicionada (que o comportamento se aprende através de uma mera resposta automática a um estímulo); acreditava que os animais podiam aprender sobre o mundo que os rodeia sem o reforço de um prêmio e aplicar logo esse conhecimento à tomada de decisões. Concebeu experiências com ratos em labirintos para estudar o papel do reforço na aprendizagem, comparando um grupo que se premiava diariamente com comida por conseguir sair do labirinto com outro que só se premiava passados seis dias e outro que se premiava a cada dois dias; e, com isto, Tolman viu a sua teoria confirmada. Os segundos e terceiros grupos cometeram menos erros ao percorrer o labirinto no dia a seguir ao da recompensa, demonstrando assim que já “conheciam” o caminho e que o tinham aprendido antes de receberem o prêmio. Quando entraram em jogo os prêmios, os ratos utilizaram o “mapa cognitivo” que tinham construído para sair mais depressa,
Aprendizagem latente
Tolman denominou “aprendizagem a latente” o período em que não havia um prêmio imediato. Defendia que no dia a dia, todos os animais, incluindo os humanos, constroem um mapa cognitivo do mundo que os rodeia — o “labirinto construído por Deus” —, mapa que utilizavam para situar objetivos específicos. E dava como exemplo a forma como aprendemos a localização de vários locais nos nossos percursos diários, mas só nos apercebemos do que aprendemos se precisamos de encontrar um local concreto no percurso. Experiências posteriores mostraram que os ratos adquiriam um certo sentido de localização e não se limitavam a aprender as voltas necessárias para chegar a um local determinado.
Tolman apresentou a sua teoria da aprendizagem latente e os mapas cognitivos em Purposive Behavior ln Animals and Men, conjugando a metodologia do behaviorismo com a psicologia da Gestalt e introduzindo o elemento da cognição.
Na década de 1920, quando Edwin Guthrie, filósofo norte-americano, começou a dedicar-se à psicologia, o modelo de aprendizagem por estímulo e resposta era o fundamento de quase todas as teorias behavioristas. Derivado da ideia de condicionamento clássico de Pavlov, este modelo defendia que expor os sujeitos repetidamente a certas combinações de estímulos (como receber comida ou ouvir uma campainha) acabava por suscitar supostas respostas (como salivar quando toca uma campainha).
Apesar de Guthrie ser um behaviorista rígido, não concordava que o condicionamento necessitasse de reforços para ser eficaz; considerava que a associação entre estímulo e resposta é completa desde a primeira vez que se combinam. A sua tese baseava-se num estudo no qual tinha observado gatos fechados em caixas-problemas. Uma vez descoberto o procedimento para fugir, os gatos associavam a fuga ao referido procedimento e repetiam-no. Igualmente, segundo Guthrie, se um rato localizou uma fonte de alimento, saberá aonde ir quando tiver fome.
Guthrie ampliou a sua ideia na teoria da “contiguidade”, segundo a qual “uma combinação de estímulos que tenha acompanhado um movimento, ao repetir-se tenderá a ser seguida por tal movimento”. É um movimento, não um comportamento, o que se aprende da associação estímulo-resposta. Os movimentos relacionados combinam-se para formar uma ação; a repetição não reforça a associação, mas conduz à formação de ações que se combinam para configurar o comportamento.
Já na década de 1920, John B. Watson afirmava que até o comportamento inato se podia alterar por condicionamento. O psicólogo chinês Zing-Yang Kuo levou a ideia behaviorista ao extremo ao negar a existência do instinto como explicação do comportamento.
Para Kuo, o instinto era apenas uma solução cômoda que permitia aos psicólogos explicar comportamentos que não encaixavam na teoria: "Os nossos estudos sobre o comportamento seguiram no passado um caminho errado, pois em vez de procurarmos a forma de criar a natureza do animal, procuramos encontrar a natureza no animal." A sua experiência mais conhecida consistiu em criar gatinhos: uns cresciam em jaulas com ratos desde que nasciam e outros entravam em contato com os ratos mais tarde. Kuo observou: "Se um gato era criado com ratos numa jaula desde cedo, aceitava-os bem na idade adulta: não só nunca atacava o rato, como se tornava "amigo" dele, brincava com ele e até se desenvolvia um vínculo entre eles."
Este trabalho de Kuo viu-se interrompido pelos acontecimentos políticos na China, o que o obrigou a fugir, primeiro, para os EUA e, depois, para Hong Kong. As suas ideias só foram conhecidas no Ocidente quando o behaviorismo começava a decair e surgia a psicologia cognitiva; e a sua teoria do desenvolvimento sem mecanismos inatos teve importância como contraponto à psicologia baseada nos instintos de Konrad Lorenz.
O fisiólogo e psicólogo americano Karl Lashley interessou-se sobretudo pelo que ocorre fisicamente no cérebro no processo de aprendizagem. Pavlov e outros behavioristas haviam sugerido que o condicionamento produz alterações químicas ou elétricas no cérebro, e Lashley queria determinar onde se produziam exatamente.
Em particular, Lashley propôs-se localizar o rasto da memória ou "engrama", a parte do cérebro responsável pela memória. Também fez experiências com os ratos em labirintos. Estes aprendiam a percorrer o labirinto para alcançar um prêmio em forma de comida. A seguir, a cada rato era retirada cirurgicamente uma parte específica do córtex cerebral e eram devolvidos ao labirinto para pôr à prova a sua memória e a sua capacidade de aprendizagem.
Lashley comprovou que, fosse qual fosse a a parte do cérebro retirada, a memória dos ratos para a tarefa em causa permanecia intacta. A sua capacidade de aprendizagem e de retenção para novas tarefas ficava limitada, mas o grau de limitação causado dependia da extensão e não da localização do dano. Lashley chegou à conclusão de que o rasto da memória não se localiza num local específico, estando, sim, distribuído por todo o córtex cerebral; todas as partes do cérebro são, por isso, igualmente importantes. Décadas depois alegou que a a sua experiência o fizera "pensar (...) que era forçoso concluir que a aprendizagem simplesmente não é possível".
O zoólogo e médico austríaco Konrad Lonrenz foi um dos pais da etologia, o estudo comparativo do comportamento animal no meio natural. A partir do estudo dos gansos e patos da residência de verão da família em Altenberg (Áustria), deu-se conta de que as crias estabeleciam um vínculo com a mãe quando saíam do ovo e que, se esta faltava, podiam fazer o mesmo com uma mãe adotiva. Tal fenômeno, a que Lorenz chamou imprinting, já fora observado antes, mas ele foi o primeiro a estudá-lo de forma sistemática (conseguindo, inclusive, que os patinhos e os gansos o aceitassem como mãe adotiva).
O que distingue o imprinting da aprendizagem, averiguou Lorenz, é que aquele só se dá numa fase específica do desenvolvimento animal, que denominou "período crítico". Diferentemente da aprendizagem, é rápido, funciona com independência do comportamento e parece irreversível, o imprinting não pode ser esquecido. Lorenz observou outros comportamentos instintivos e ligados a certas fases do desenvolvimento, como o cortejo, e descreveu-os como "padrões fixos de conduta". Estes comportamentos estão latentes até que estímulos específicos os desencadeiem durante um período crítico particular. Lorenz sublinhava que os padrões fixos de conduta não são aprendidos, mas sim geneticamente programados e como tais evoluíram por meio da seleção natural.
Burrhus Frederic Skinner é talvez o psicólogo behaviorista mais conhecido e influente. Contudo, não foi pioneiro neste campo, tendo desenvolvido as ideias dos seus antecessores, como Pavlov e Watson, sujeitando as teorias do behaviorismo a um rigoroso escrutínio experimental que desembocou num controverso “behaviorismo radical”.
Skinner revelou-se um promotor ideal do behaviorismo. Não só baseava os seus argumentos nos resultados de uma metodologia científica muito rigorosa, como também as suas experiências costumavam envolver engenhos novos que fascinavam o público; e, além dos mecanismos, a outra paixão de Skinner era a autopromoção. Porém, atrás da imagem de showman havia um cientista sério, cujo trabalho contribuiu para separar definitivamente a psicologia das suas raízes filosóficas introspetivas e fundá-la como disciplina científica por direito próprio.
Mais do que as teorias filosóficas dos primeiros psicólogos, a Skinner interessava as obras de Pavlov e Watson, a sua principal influência. Via a psicologia como uma disciplina inserida na tradição científica, e tudo o que não pudesse ser visto, medido e repetido numa experiência rugosamente controlada, não tinha interesse para si. Portanto, os processos mentais permaneciam fora do âmbito do seu interesse e estudo. De facto, chegou à conclusão de que eram inteiramente subjetivos e que não existiam separados do corpo. Assim, para Skinner, a investigação em psicologia devia centrar-se no comportamento observável e não em pensamentos que não o são.
Apesar de no início da sua carreira ser um behaviorista rígido Skinner afastava-se dos behavioristas que o precederam na sua interpretação do condicionamento, em particular do “condicionamento clássico”, tal como o descreve Pavlov. Se bem que não negasse que podia suscitar-se uma resposta condicionada através de um treinamento repetido, Skinner via isso como um caso excecional e que supunha a introdução deliberada e artificial de um estímulo condicionante.
Skinner considerava que as consequências de uma ação eram mais relevantes na configuração do comportamento do que qualquer estímulo que precedesse ou coincidisse com a ação. As suas experiências levaram-no a concluir que o comportamento se aprende acima de tudo a partir dos resultados das ações. Como ocorre às vezes com as grandes ideias, esta podia parecer óbvia, mas marcou um ponto de inflexão de grande importância na psicologia behaviorista.
As caixas de Skinner
Quando Skinner era bolseiro de investigação em Harvard, fez uma série de experiências com ratos e construiu um invento conhecido posteriormente como a “caixa de Skinner”. Punha-se um rato numa dessas caixas que continha no interior uma barra. Cada vez que o rato tocava na barra, dava-se-lhe um pouco de comida. A frequência com que a barra era tocada era registada de forma automática. De início, o rato tocava na barra de modo acidental ou por mera curiosidade e recebia comida em troca; o rato aprendia que de cada vez que carregava na barra, aparecia comida e então começava a fazê-lo para obter alimentos. Ao comparar os resultados dos ratos que recebiam o “reforço positivo” em forma de comida com os que não o recebiam ou recebiam comida com uma frequência diferente, ficou claro que quando aparecia comida em resultado das ações dos ratos, isso influenciava o seu comportamento futuro.
Skinner concluiu que os animais se veem condicionados pelas respostas que recebem das suas ações e do ambiente. Assim, quando os ratos exploravam o seu ambiente, algumas das suas ações tinham consequências positivas (Skinner evitava deliberadamente a palavra “prêmio”, pelas suas conotações com “bom” comportamento), o qual as incitava a repetir esse comportamento. Nos termos de Skinner, os “organismos” agem sobre o seu ambiente e encontram um estímulo (a comida) que reforça o seu comportamento operante (neste caso carregar na barra). Com o objetivo de diferenciar isto do condicionamento clássico, criou a expressão “condicionamento operante”; a principal diferença é que este não depende de um estímulo precedente, mas sim do que continua como consequência do comportamento. Difere também no facto de representar um processo bidirecional, já que a ação ou comportamento opera sobre o ambiente tanto como este modela o comportamento.
Durante o decurso das experiências, escassearam as provisões de comida para os ratos, e Skinner viu-se obrigado a mudar com frequência o que lhes era dado. Alguns ratos só recebiam se carregassem na barra um certo número de vezes, fosse em intervalos fixos ou ocasional. Os resultados destas variações confirmaram as descobertas precedentes de Skinner e conduziram a uma nova: enquanto um estímulo de reforço aumentava a probabilidade de que ocorresse um determinado comportamento, se o estímulo de reforço fosse retirado, reduzia-se a probabilidade de o referido comportamento se dar, cujo padrão ficava determinado pelo padrão da sua retirada.
Skinner continuou a fazer experiências cada vez mais variadas e sofisticadas, incluindo mudanças no programa, para ver se os ratos distinguiam e respondiam às diferenças com a mesma frequência com que se lhes fornecia a comida. Tal como suspeitara, adaptavam-se muito rapidamente aos novos programas.
Reforço negativo
Em experiências posteriores, Skinner instalou um circuito elétrico no chão das caixas dos ratos que dava aos animais uma desagradável sensação ao ser ativado. O objetivo era estudar o efeito do reforço negativo no comportamento. E tal como evitou utilizar a palavra “prêmio”, também evitou referir-se à descarga elétrica como um “castigo”, distinção que teve maior importância à medida que analisava as implicações do seu trabalho.
O reforço negativo não era um conceito novo: em The Principles of Psycology, em 1890, William James escrevera: “Os animais, por exemplo, suscitavam nas crianças impulsos opostos de temer e acariciar. Se a criança, nas suas primeiras tentativas, receber um latido ou uma mordidela, fica reforçado o impulso do temor, e podem passar anos até que um cão suscite nela o impulso de acariciar.” Skinner iria fornecer as provas suplementares a favor desta ideia.
Reforço positivo
Skinner comprovou que sempre que um comportamento tivesse como resultado a consequência negativa de uma descarga elétrica, dava-se uma diminuição desse comportamento.
Então, redesenhou as caixas da experiência de modo a que os ratos pudessem desligar o circuito carregando numa barra; introduzia assim uma forma de reforço, procedente da retirada do estímulo negativo. Os resultados subsequentes confirmaram a teoria de Skinner: se um comportamento leva à eliminação de um estímulo negativo, o referido comportamento torna-se mais frequente.
Os resultados revelaram também uma interessante diferença a entre o comportamento aprendido por reforço positivo e o suscitado por estímulos negativos. Os animais respondiam melhor e mais rapidamente aos estímulos positivos (assim como à eliminação dos estímulos negativos) do que quando o seu comportamento resultava numa resposta negativa. Sem deixar de evitar cuidadosamente os termos “prêmio” e “castigo”, Skinner concluiu que o comportamento se modulava de forma muito mais eficiente com um programa de reforço positivo. De facto, defendeu que o reforço negativo podia ser contraproducente, havendo pessoas que continuavam a procurar respostas positivas para determinado comportamento apesar de este conduzir a uma resposta negativa na maioria dos casos.
Isto tem implicações em diversas áreas da conduta humana, por exemplo, no emprego de medidas disciplinares para educar as crianças. Se uma criança for continuamente castigada por fazer algo que lhe dá prazer, como, por exemplo, enfiar o dedo no nariz, é provável que evite fazê-lo quando houver adultos à vista. Pode modificar o seu comportamento, mas apenas na medida em que isso possa iludir o seu castigo. Skinner acreditava que, em última instância, todas as formas de castigo se revelavam inadequadas para controlar o comportamento das crianças.
Predisposição genética
O “modelo” do comportamento por condicionamento operante apresenta surpreendentes paralelismos com a teoria da seleção natural de Darwin, que afirma que só os organismos adaptados a um meio particular graças à sua constituição genética sobreviveram e se reproduziram, garantindo deste modo o “sucesso” da sua espécie. A probabilidade de um rato se comportar de uma forma que resulte num estímulo de reforço, desencadeando o processo do condicionamento operante, depende do nível de curiosidade e inteligência do animal, ambas as características determinadas pela sua constituição genética. A ideia da combinação de predisposição e condicionamento foi expressa por Skinner ao concluir que “o comportamento das pessoas é controlado pela sua história genética e ambiental”, ideia que estudou em maior profundidade no seu artigo The Selection by Consequences, publicado na revista Science em 1981.
Em 1936, Skinner ingressou na Universidade do Minnesota; ali prosseguiu no aprimoramento das suas experiências sobre o condicionamento operante e investigando as aplicações práticas das suas ideias, desta vez com pombos em vez de ratos. Em seguida, Skinner comprovou que com os pombos podia levar a cabo experiências mais subtis e, utilizando o que chamou “método de aproximações sucessivas”, suscitar e estudar padrões de comportamento mais complexos.
Skinner dava um reforço positivo aos pombos por qualquer comportamento que fosse semelhante ao que procurava suscitar. O que pretendia era ensiná-los a voar em círculo, no sentido dos ponteiros do relógio, e assim os pombos recebiam comida se fizessem qualquer movimento para a direita, por mais pequeno que fosse; uma vez adotado este comportamento, só recebiam comida se fizessem voos mais longos para a direita. O processo era repetido até darem uma volta completa para receberem comida.
Programa de ensino
Os estudos de Skinner levaram-no a questionar os métodos de ensino utilizados nas escolas. Na década de 1950, quando os seus filhos frequentavam a escola, costumava-se encarregar os alunos de tarefas longas e faseadas e, geralmente, tinham de esperar que o professor qualificasse o trabalho feito ao longo de todo o projeto para receber a resposta. Esta abordagem entrava em conflito com as descobertas de Skinner acerca do processo de aprendizagem. Skinner concebeu então um programa de ensino que proporcionava um feedback em cada fase do projeto, um programa que depois foi adotado por vários sistemas educativos.
Há que dizer que muitos dos inventos de Skinner foram incompreendidos no seu tempo e fizeram-no ganhar a reputação de excêntrico. O seu baby tender, por exemplo, foi desenhado, como alternativa ao berço, para ter a filha num ambiente controlado, tranquilo e protegido das correntes de ar, mas o público confundiu-o com uma das suas caixas, e a imprensa difundiu o rumor de que Skinner fazia experiências com os filhos. Contudo, a invenção do baby tender deu-lhe publicidade, e Skinner nunca recusou as luzes da ribalta.
O esforço bélico
Outra famosa experiência de Skinner foi o chamado Project Pigeon (Projeto Pombo), recebido com ceticismo e como um logro. Esta aplicação prática do trabalho de Skinner com os pombos pretendia ser um contributo sério ao esforço bélico em 1944. Não se inventara ainda os sistemas de mísseis guiados, pelo que Skinner engendrou um cone que podia acoplar-se e ser dirigido por três pombos colocados no interior. As aves tinham sido treinadas por condicionamento operante para picar uma imagem do branco da bomba, imagem que se projetava no interior do cone mediante uma lente posta à frente. O picar controlava a trajetória de voo do míssil. Pelo menos o sector militar levou a sério a ideia: o Comitê de Investigação da Defesa Nacional ajudou a financiar o projeto, apesar de nunca ter sido utilizado em combate. Suspeitava-se que a Skinner, tão aficionado dos mecanismos, interessava mais o invento do que a sua aplicação. Quando lhe perguntaram se lhe parecia bem utilizar animais na guerra, respondeu que lhe parecia mal usar humanos.
Mais à frente, como acadêmico em Harvard, Skinner explicou amplamente as implicações das suas descobertas em numerosos artigos e livros. Em Walden Two (1948) descreve uma sociedade utópica, baseada no comportamento aprendido por condicionamento operante. A visão de Skinner de um controlo social foi polêmica e, apesar das suas boas intenções, muitos denominaram-no totalitarista. Esta reação não nos deve surpreender, tendo em conta o clima dos anos posteriores à II Guerra Mundial.
Behaviorismo radical
] Skinner apelidou a expressão de “behaviorismo radical” para a abordagem behaviorista que propunha. Apesar de não negar a existência de processos de pensamentos e estados mentais, acreditava que a psicologia devia ocupar-se apenas do estudo das respostas físicas às condições ou situações imperantes.
No seu livro Para lá da Liberdade e da Dignidade, levou mais além a ideia do modelamento do comportamento, ressuscitando o debate filosófico entre o livre-arbítrio e o determinismo. Para o behaviorista radical, o livre-arbítrio é uma ilusão; a seleção pelas consequências controla todo o nosso comportamento e, portanto, a nossa vida. As intenções de escapar a isto estão condenadas ao fracasso e ao caos. Nas suas palavras: “Quando o Satanás de Milton cai do céu, acaba no inferno. E que diz para se sentir animado? “Aqui, pelo menos, sermos livres." E esse, creio eu, é o destino do liberal à moda antiga. Vai ser livre, mas vai dar consigo no inferno.”
Ideias como esta tornaram Skinner famoso e atingiram os seus críticos mais ferozes. Concretamente, a aplicação das suas ideias behavioristas na aprendizagem da língua em Verbal Behavior (1957) valeu-lhe uma dura resenha de Noam Chomsky, considerado o iniciador do movimento conhecido como psicologia cognitiva.
Algumas das críticas à obra de Skinner, contudo, basearam-se numa compreensão errada do condicionamento operante. O behaviorismo radical vinculou-se, de forma errada, ao movimento filosófico europeu do positivismo lógico, segundo o qual os enunciados ou ideias têm significados apenas se forem verificáveis pela experiência. O certo é que tem muito mais em comum com o pragmatismo norte-americano, que mede a importância ou o valor das ações de acordo com as suas consequências. Também se interpretou mal que apresente todos os seres vivos como sujeitos passivos do condicionamento, quando para Skinner o condicionamento operante era um processo em duas direções: uma em que o organismo opera sobre o seu ambiente e o referido ambiente responde; outra em que a consequência amiúde dá forma ao comporta mento futuro.
Na década de 1960, a psicologia deixou de lado o estudo do comportamento e centrou-se nos processos mentais, e as ideias de Skinner ficaram temporariamente desacreditadas ou pelo menos ignoradas. Mas não demorou muito a dar-se uma revalorização do behaviorismo, e a sua obra foi acolhida favoravelmente em muitas áreas da psicologia aplicada, sobretudo entre psicólogos clínicos e educacionais; a terapia cognitivo-comportamental deve muito às suas ideias.
Durante a maior parte da primeira metade do século XX, a psicoterapia esteve dominada pela psicanálise freudiana, que acha que a ansiedade é provocada pelo conflito de forças na área mais profunda da psique e que tal conflito só pode ser aliviado com uma profunda análise introspetiva dos pensamentos do indivíduo, tanto conscientes como inconscientes, e das suas experiências formativas. Porém, durante a II Guerra Mundial, Joseph Wolpe, psiquiatra sul-africano, tratara soldados que sofriam de ansiedade devido a estresse pós-traumático ("neurose de guerra") e achara tais técnicas psicoterapeutas ineficazes. Falar àqueles homens sobre as suas experiências não evitava as suas recordações do trauma original nem punha fim à sua ansiedade.
Desaprender o medo
Wolpe pensava que devia haver uma forma mais simples e rápida do que a psicanálise para tratar a ansiedade aguda. Conhecia o trabalho de behavioristas como Pavlov e Watson, que haviam ensinado com sucesso a animais e crianças novos padrões de comportamento mediante o treino de estímulo-resposta, ou condicionamento clássico; tinham conseguido que uma resposta emocional até então não sentida perante determinados objetos ou acontecimentos se tornasse automática. Wolpe pensou que, se o comportamento se podia aprender de tal forma, também se podia desaprender, e propôs-se desenvolver um método para ajudar os veteranos de guerra traumatizados.
Wolpe comprovara que o ser humano não é capaz de experimentar simultaneamente estados emocionais contraditórios. Não é possível, por exemplo, sentir ansiedade quando a pessoa se sente muito tranquila. Isto inspirou-lhe a ideia de ensinar aos seus pacientes técnicas de relaxamento muscular profundo, que depois combinava com a exposição simultânea a estímulos indutores de ansiedade, uma técnica que denominou inibição recíproca.
Wolpe pedia aos pacientes que imaginassem um objeto ou acontecimento que lhes fosse perturbador. Se ficavam ansiosos, exortava-os a "deixar de imaginar a cena e a relaxar". Assim, superavam gradualmente os sentimentos de temor. Tal como o paciente fora condicionado previamente pelas suas experiências para sentir ansiedade ao recordar acontecimentos especialmente horríveis, agora era condicionado — em muito pouco tempo — para bloquear a resposta de ansiedade por se centrar no sentimento oposto ao relaxamento absoluto.
A inibição recíproca de Wolpe recondicionava o cérebro atendendo exclusivamente aos sintomas e ao comportamento atual, sem análise alguma do passado do paciente. Era eficaz e obtinha resultados rapidamente e inspirou inúmeras novas técnicas importantes do campo da terapia comportamental. Joseph Wolpe utilizou-a para desenvolver um programa de dessensibilização sistemática para curar fobias (como o medo de voar ou de ratos), bastante usada ainda hoje em dia.
O inconsciente é um dos conceitos mais intrigantes da psicologia. Parece conter toda a nossa experiência da realidade, apesar de parecer estar mais além da nossa consciência ou do nosso controlo. É o local onde guardamos todas as nossas recordações, pensamentos e sentimentos. O mundo do inconsciente fascinou o psiquiatra e neurologista austríaco Sigmund Freud, interessado em averiguar se era possível explicar coisas que pareciam estar mais além dos limites da psicologia do seu tempo. Aqueles que já tinham abordado o exame do inconsciente temiam deparar-se com uma atividade psíquica demasiado poderosa, terrível ou incompreensível para que a mente consciente a pudesse assimilar. O trabalho de Freud sobre este assunto foi absolutamente pioneiro. Distinguiu três áreas da mente — consciente, inconsciente e pré-consciente — e popularizou a noção do inconsciente, que descreveu como aquela parte da mente que define e explica os mecanismos que se encontram por trás da nossa capacidade de pensar e experimentar.
Hipnose e histeria
Freud entrou em contato com o problema do inconsciente em 1885, por intermédio do neurologista francês Jean-Martin Charcot, que, ao que parece, estava a tratar com sucesso pacientes com sintomas de doenças mentais por meio da hipnose. Para Charcot, a histeria era uma desordem neurológica provocada por anomalias no sistema nervoso, uma ideia que trazia novas possibilidades de tratamento. Freud regressou a Viena decidido a aplicar este novo conhecimento, mas era-lhe difícil descobrir uma técnica funcional.
Então encontrou-se com Josef Breuer, um prestigiado médico que ele considerava capaz de reduzir consideravelmente a gravidade dos sintomas de uma das suas pacientes, pedindo-lhe apenas que descrevesse as suas fantasias e alucinações. Breuer começou a utilizar a hipnose para lhe facilitar o acesso às recordações de um acontecimento traumático e depois de uma temporada com duas sessões de hipnose por semana, todos os seus sintomas diminuíram. Breuer concluiu que os sintomas tinham sido provocados por recordações perturbadoras enterradas no inconsciente e que o facto de dar voz àqueles pensamentos trazia-os à mente consciente, permitindo que os sintomas desaparecessem. Esse foi o caso de Anna, o primeiro de psicoterapia intensiva aplicada como tratamento da doença mental. Breuer transformou-se no colega e amigo íntimo de Freud e juntos desenvolveram e popularizaram um método de tratamento psicológico que se baseava na ideia de que muitas formas de doença mental (medos irracionais, ansiedade, histeria, paralisia e dores imaginárias e inclusive certos casos de paranoia) resultavam das experiências traumáticas do passado do doente, presentemente ocultas da consciência. Com a técnica esboçada em Estudos sobre a Histeria (1895), obra conjunta de Freud e de Breuer, estes acreditavam ter encontrado um modo de libertar a memória reprimida do inconsciente, permitindo ao paciente recordá-la de forma consciente, de modo a enfrentar a experiência, tanto emocional como intelectualmente. O processo libertava a emoção presa e os sintomas desapareciam. Breuer não obstante, chegou a considerar excessiva a ênfase que Freud dava à origem e ao conteúdo sexual das neuroses (problemas provocados por conflitos psicológicos) e assim deixaram de colaborar. Freud continuou a desenvolver as ideias e técnicas da psicanálise por sua conta.
A nossa mente quotidiana
Não é difícil presumir a realidade do consciente e acreditar ingenuamente no que pensamos, sentimos, recordamos e experimentamos em tudo o que há na mente humana. Contudo, Freud defende que o estado ativo da consciência — a mente operativa da que somos diretamente conscientes na experiência quotidiana — não é mais do que uma fração da totalidade de forças psicológicas que operam na nossa realidade psíquica. O consciente existe no nível superficial, ao qual temos acesso imediato e fácil. Sob o consciente encontra-se a poderosa dimensão do inconsciente, o fundo a partir do qual se dita o nosso estado o cognitivo ativo e o nosso comportamento. O consciente é, de facto, um joguete nas mãos do inconsciente. A mente consciente é apenas a superfície do complexo reino da psique.
Dado que o inconsciente abarca tudo, como afirma Sigmund Freud, contém em si as esferas menores do consciente e do pré-consciente. Tudo o que é consciente — aquilo que não conhecemos ativamente — foi inconsciente antes de ascender à consciência. Contudo, nem tudo chega a conhecer-se de forma consciente, dado que grande parte do inconsciente permanece ali. As recordações que não estão na nossa memória funcional quotidiana, mas que não foram reprimidas, residem numa parte da mente consciente a que Freud deu o nome de “pré-consciente”; somos capazes de trazer estas recordações à consciência em qualquer momento.
O inconsciente funciona como um receptáculo para as ideias ou as recordações demasiado poderosas, demasiado dolorosas ou, de alguma forma, excessivas para que a mente consciente possa processá-las. Freud acreditava que quando certas ideias ou recordações (e as emoções a elas associadas) ameaçam sufocar a mente, são afastadas da memória acessível para a mente consciente e ficam guardadas no inconsciente,
Pensamento dinâmico
Uma das principais influências recebidas por Freud foi a do fisiólogo Ernst Brücke, um dos fundadores da “nova fisiologia” do século XIX, que procurava explicações mecanicistas para todos os fenômenos orgânicos. Brücke afirmava que, como qualquer outro ser vivo, o ser humano é, em essência, um sistema energético, e, por isso, deve ater-se ao princípio da conservação da energia. Tal princípio estabelece que a energia total de um sistema permanece constante ao longo do tempo, não se pode destruir, só se pode transferir ou transformar. Freud aplicou este planeamento aos processos mentais e propôs a ideia “da energia psíquica”. Esta energia, afirmou, pode sofrer modificações, transmissões e conversões, mas não se pode destruir. Assim, se temos algum pensamento inaceitável para a mente consciente, a mente redirige-o e afasta-o do pensamento consciente para o conduzir até ao inconsciente, num processo a que Freud chamou de “repressão”. Podemos reprimir a recordação de um trauma infantil, um desejo que julgamos inaceitável ou ideias que, de algum modo, ameaçam o nosso bem-estar ou o nosso modo de vida.
Pulsões motivadoras
O inconsciente é também o local onde residem as nossas pulsões biológicas instintivas. As referidas pulsões governam os nossos atos e comportamento, dirigindo-nos para opções que prometem satisfazer as nossas necessidades básicas e favorecem a nossa sobrevivência. São a necessidade de água e alimento, o desejo sexual, que garante a continuidade da espécie, e a necessidade de calor, refúgio e companhia. Mas Freud sustém que o inconsciente aloja também uma pulsão oposta, a da morte, que se torna presente desde o nascimento. É uma pulsão autodestrutiva e que nos impele para a frente, ainda que com isso nos aproximemos da morte.
Nas suas obras posteriores, Freud deixou de lado a ideia de uma mente estruturada pela consciência, o inconsciente e a pré-consciência e propôs uma nova estrutura em que distinguia o ego, o id e o superego. O id (constituído pelas pulsões primitivas), obedece ao princípio do prazer, segundo o qual qualquer pulsão de desejo deve ser satisfeita de imediato: quer tudo já. Contudo, a outra parte da estrutura mental, o ego, reconhece o princípio da realidade, segundo o qual não podemos ter tudo o que desejamos e devemos ter em conta as limitações do mundo em que vivemos. O ego negocia com o id, procurando encontrar formas razoáveis de o ajudar a obter o que deseja sem que isso produza qualquer prejuízo. O ego, por sua vez, está controlado pelo superego: a voz interiorizada dos pais e dos códigos morais da sociedade. O superego é uma instância que julga, é a origem da consciência, da culpa e da vergonha.
O certo, defende Freud, é que o inconsciente aloja um enorme número de forças em conflito. Além das pulsões da vida e da morte, compreende todas as emoções e recordações reprimidas, assim como as contradições inerentes às nossas percepções da realidade consciente juntamente com a nossa a realidade reprimida. Segundo Freud, o conflito que surge entre estas forças opostas é o conflito psicológico que subjaz ao sofrimento humano. Devemos, pois, estranhar que os seres humanos vivam em estado de ansiedade depressão, neurose e outras formas de mal-estar?
Tratamento psicanalítico
Dado que o inconsciente se revela inacessível, a única forma de reconhecer aqueles conflitos é através dos sintomas presentes no plano do consciente. Não podemos lutar continuamente contra nós mesmos, contra os materiais reprimidos que se erguem e contra a pulsão de morte sem perturbação emocional.
A singular proposta de Sigmund Freud para tratar os transtornos psicológicos consistia em trabalhar com os conflitos que se encontram no inconsciente. Encorajava os pacientes a deitar-se num divã e a falar, e pretendia assim libertá-los das suas recordações reprimidas e aliviar o seu sofrimento mental. O seu tratamento, conhecido como psicoterapia psicanalítica ou psicanálise, não é um processo simples nem rápido: é apenas feito por terapeutas formados no método específico de Sigmund Freud. Desde os primeiros tratamentos do próprio Freud, a psicanálise tem-se praticado em sessões que podem durar horas, que ocorrem várias vezes por semana e que se prolongam por vários anos.
Se bem que os pensamentos inconscientes sejam inacessíveis por meio da introspeção normal, há alguns meios pelos quais o inconsciente pode comunicar com o consciente. Fá-lo discretamente através das nossas preferências, dos marcos de referência pelos quais tendemos a compreender as coisas, e dos símbolos que nos atraem ou que criamos.
Durante a análise, o analista atua como mediador, procurando permitir que sejam libertos pensamentos insuportáveis ou pensamentos não expressos. As mensagens que surgem de um conflito entre o consciente e o inconsciente costumam apresentar-se disfarçadas ou codificadas, e é tarefa do psicanalista interpretá-las com as ferramentas da psicanálise.
Existem diversas técnicas que permitem que o inconsciente emirja, e uma das primeiras que Freud propôs foi a análise dos sonhos. Na sua célebre obra A Interpretação dos Sonhos (1900), defende que todos os sonhos representam o cumprimento de um desejo, e assim, quanto mais inaceitável é este desejo para a nossa mente consciente, mais oculto ou distorcido aparece nos nossos sonhos. O inconsciente, portanto, envia mensagens cifradas à nossa mente consciente. Freud fala, por exemplo, dos sonhos de quem sonha que está despido; na maioria das pessoas, a fonte principal destes sonhos são recordações da primeira infância quando a nudez não era motivo de reprovação e não se tinha o sentido de vergonha. Nos sonhos em que o sonhador sente vergonha, as outras pessoas no sonho costumam parecer-lhe alheias, o qual, na chave da interpretação da satisfação de um desejo, significaria que o sonhador quer deixar para trás a vergonha e as restrições. Inclusive, os edifícios e as estruturas têm um significado codificado; assim, por exemplo, os vãos de escada, os poços de mina, as portas fechadas ou um edifício pequeno num local estreito e escondido representam todos desejos sexuais reprimidos, segundo Freud.
O acesso ao inconsciente
Outros meios mediante os quais se revela o inconsciente são os lapsos e o processo de associação livre. Um lapsus linguae é um erro ou um deslize verbal e considera-se que revela uma crença, um pensamento ou uma emoção reprimidos; é uma substituição involuntária de uma palavra por outra de som semelhante; mas que revela inadvertidamente algo que a pessoa sente na realidade. Por exemplo, um homem agradece a uma mulher que acha muito atraente pelo “jantar tão bom que o satisfez”, deslize revela os seus verdadeiros pensamentos. Freud utilizou também a técnica da associação livre, desenvolvida por Carl Jung, que consiste em dar ao paciente uma palavra e convidá-lo a dizer a primeira palavra que lhe ocorra, e assim com várias palavras. Acreditava que este processo permitia ao inconsciente revelar-se, já que a nossa mente faz associações automáticas e os pensamentos “ocultos” expressam-se antes que a mente consciente tenha oportunidade de intervir.
Para ajudar o indivíduo a sair do estado de repressão e começar a tratar de forma consciente as questões que o afetam, Freud acreditava ser necessário aceder aos sentimentos reprimidos. Por exemplo, se a um homem lhe custa enfrentar as outras pessoas, reprimirá os seus sentimentos antes de enfrentar alguém. Mas, com o tempo, estas emoções reprimidas acumulam-se e revelam-se de outras formas. A ira, a ansiedade, a depressão, o abuso das drogas ou do álcool ou as desordens alimentares podem ser consequências do esforço para evitar sentimentos reprimidos em vez de terem sido enfrentados. As emoções que não são processadas, defende Freud, ameaçam constantemente vir à superfície, gerando uma tensão cada vez mais incômoda e suscitando medidas cada vez mais extremas para impedir que emirjam.
A análise permite fazer emergir as recordações e os sentimentos presos e o paciente costuma surpreender-se ao sentir a emoção até então enterrada. Não é raro os pacientes desatarem a chorar por algum tema que achavam ter superado há muito tempo. Esta resposta demonstra que o acontecimento e a emoção continuam vivos — continuam a conservar a sua energia emocional — e que, em vez de terem sido enfrentados, foram reprimidos.
Em termos freudianos, o ato de libertar e sentir as emoções profundas associadas a recordações reprimidas denomina-se “catarse” (do termo grego “purificação”). Se o acontecimento em questão — como a morte do pai ou da mãe — não foi plenamente assimilado na altura certa, por ser demasiado perturbador, a energia emocional produzida pelo acontecimento permanece enterrada e liberta-se no momento da catarse.
Escolas de psicanálise
Em 1908, Freud fundou a Associação Psicanalítica de Viena, a partir da qual exerceu uma poderosa influência no âmbito da saúde mental, ensinando os seus métodos a outros especialistas, entre os quais chegou a ser uma verdadeira autoridade. Com o tempo, os seus alunos e outros profissionais modificaram as suas ideias, e a sociedade freudiana dividiu-se em três grupos: os freudianos (os que continuaram fiéis às ideias originais de Freud), os kleinianos (seguidores das ideias de Melanie Klein) e os neofreudianos (um grupo posterior que incorporou as ideias de Freud num enfoque mais amplo). O panorama da psicanálise abarca hoje pelo menos 22 escolas diferentes, mas as ideias de Freud continuam a inspirar todos os psicanalistas.
O pensamento freudiano dominou a psicoterapia até finais do século XIX, mas a abordagem de Freud limitava-se a tratar as pulsões inconscientes e a herança do passado do indivíduo. Alfred Adler foi o primeiro psicanalista a ampliar a teoria psicológica além do ponto de vista freudiano, ao propor que a psicologia das pessoa era também influenciada por forças presentes e conscientes e que a influência do ambiente social e do meio eram igualmente vitais. Baseando--se nestas, Adler fundou a chamada psicologia individual.
O interesse particular de Adler pela inferioridade e os efeitos positivos e negativos da autoestima despertaram no início da sua carreira quando trabalhava com pacientes com deficiência física.
Examinando os efeitos da discrepância sobre a capacidade física do sucesso e a imagem de si mesmo, observou grandes diferenças entre os seus pacientes. Alguns eram capazes de alcançar altos níveis de sucesso atlético, e Adler viu como nestes pacientes a discrepância atuava como força motivadora. No extremo oposto, via pacientes que se sentiam derrotados pela sua deficiência e que não se esforçavam por melhorar a sua situação. Compreendeu que as diferenças se deviam à imagem que cada um tinha de si, por outras palavras, à autoestima.
O complexo de inferioridade
Segundo Adler, sentir-se inferior é uma experiência humana universal cujas raízes remontam à infância. As crianças sentem-se naturalmente inferiores por estarem constantemente rodeadas de pessoas mais fortes, poderosas e capazes. A criança consegue competir e adquirir as capacidades dos mais velhos, motivada pelas forças que a rodeiam e a impelem em direção ao seu próprio desenvolvimento e realização.
As crianças e os adultos com uma personalidade saudável e equilibrada ganham confiança cada vez que percebem que são capazes de atingir alguma meta. Os sentimentos de inferioridade dissipam-se até que se apresente o repto seguinte e este seja superado num processo de crescimento psíquico contínuo. Por seu lado, um indivíduo com uma limitação física pode desenvolver sentimentos mais generalizados de inferioridade que às vezes dão lugar a uma personalidade desequilibrada, ao que Adler chamou “complexo de inferioridade”, com o qual os sentimentos de inferioridade nunca se aliviam.
Adler descreveu também o igualmente desequilibrado “complexo de superioridade”, que se manifesta por uma necessidade constante de conseguir atingir metas. Uma vez atingidas, estas não trazem confiança ao indivíduo, apenas o impulsionam a buscar novos desafios e reconhecimento.
Sigmund Freud introduziu a ideia de que, mais do que forças exteriores a nós mesmos, como Deus e o destino, são os mecanismos da nossa própria mente, em particular o inconsciente, os que nos motivam e controlam. Segundo Freud, as nossas experiências veem-se influenciadas pelos impulsos primários contidos no inconsciente. O seu protegido, o psiquiatra suíço Carl Jung, levou esta ideia mais além, aprofundando os elementos que conformam o inconsciente e os seus mecanismos.
Jung sentia-se fascinado pelo facto de as sociedades de todo o mundo partilharem certas semelhanças, pese embora tratar-se de culturas muito diferentes. Em particular, dão-se correspondências surpreendentes entre mitos e símbolos, e isto ocorre há milhares de anos. Jung pensou que isto tinha de se dever a algo que ia além da experiência humana individual e que os símbolos deviam fazer parte da mente humana.
Para Jung, a existência de mitos partilhados demonstrava que parte da mente humana acolhe ideias contidas numa estrutura atemporal que funciona como uma espécie de “memória coletiva”. Jung introduziu assim a ideia de que em cada um de nós há uma parte definida e separada do inconsciente que não se baseia nas nossas experiências individuais: o “inconsciente coletivo”.
Os mitos e símbolos comuns são parte desse inconsciente coletivo universalmente partilhado, segundo Jung, que acreditava que os símbolos existem como recordações hereditárias que se transmitem de geração em geração, variando apenas ligeiramente nos seus atributos através das diversas épocas e culturas. Tais recordações herdadas emergem na psique na linguagem dos símbolos, aos quais Jung chamou “arquétipos”.
Recordações antigas
Jung considerava os arquétipos camadas da memória herdada, as quais constituem a experiência humana na sua totalidade. 0 termo grego archetypon é traduzido como “modelo original”, e para Jung os arquétipos são recordações das experiências dos nossos primeiros antepassados. Dentro da mente servem como quadro que utilizamos inconscientemente para organizar e compreender a nossa experiência. Podemos preencher os vazios com pormenores da nossa vida, mas é esta subestrutura preexistente no inconsciente que nos permite dar sentido à nossa experiência.
Os arquétipos podem ser considerados padrões emocionais ou comportamentais herdados, que nos permitem reconhecer uma série de comportamentos ou expressões emocionais como um padrão unificado e com sentido. Poderia parecer que fazemos isto de forma instintiva, mas Jung defende que o que parece instinto é na realidade a utilização inconsciente de arquétipos.
Jung propôs o modelo de uma psique formada por três componentes: o eu, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. O ego representa a mente consciente individual, enquanto o inconsciente pessoal contém os recursos próprios do indivíduo, incluindo os que foram suprimidos; e o inconsciente coletivo é a parte da psique que alberga os arquétipos.
Os arquétipos
Há muitos arquétipos, e ainda que possam moldar-se de forma distinta nas diferentes culturas, em cada um de nós encontra-se o modelo de cada um deles. Como utilizamos estas formas para dar sentido ao mundo e às nossas experiências, aparecem em todas as formas de expressão humana, tais como a arte, a literatura e o teatro.
A natureza dos arquétipos é tal que os reconhecemos de imediato e somos capazes de lhes atribuir um significado emocional específico. Podem ser associados a padrões emocionais e comportamentais de muitos tipos, mas há certos arquétipos que se destacam e são especialmente reconhecíveis, como o Velho Sábio, a Deidade Feminina, a Virgem, a Terra-Mãe e o Herói.
A Persona é um dos arquétipos mais relevantes descritos por Jung, que descobriu em si mesma a tendência para partilhar apenas certa parte da sua personalidade com o mundo exterior. Reconheceu este traço noutros indivíduos e concluiu que os seres humanos dividem a sua personalidade em componentes que se partilham seletivamente em função do ambiente e da situação. O eu que apresentamos ao mundo — a nossa imagem pública — é um arquétipo, ao qual Jung chamou “persona”.
Jung considerava que o eu estava dotado de uma parte masculina e de outra feminina e que se formava plenamente como masculino ou feminino devido tanto à biologia como à sociedade. Ao tornar-se plenamente masculino ou feminino, o eu vira as costas à metade do seu potencial, se bem que pode aceder ainda a essa parte de si mesmo através de um arquétipo. O Animus existe como componente masculino da personalidade feminina, e a Anima como componente feminino da psique masculina. Trata-se da “outra metade”, a metade de si mesmo que perde o eu ao converter-se em menina ou menino. Estes arquétipos ajudam-nos a compreender a natureza do sexo oposto e como constituem depósito de todas as impressões deixadas alguma vez por um homem ou mulher, refletem necessariamente as ideias tradicionais do masculino e do feminino.
0 Animus simboliza na nossa cultura o “macho”, o homem musculoso, o líder militar, a mente lógica e frio romântico sedutor. A Anima manifesta-se como a ninfa dos bosques, a virgem, a sedutora, tende a ser natural, intuitiva, espontânea, e na literatura e pintura aparece como Eva, Helena de Troia ou com uma personalidade como a de Marilyn Monroe, que enfeitiça os homens e os despoja da sua vitalidade. Como estes arquétipos existem no nosso inconsciente, podem afetar os nossos estados emocionais e reações e manifestar-se na forma de afirmações proféticas (Anima) ou de uma racionalidade inflexível (Animus).
Jung definiu também um arquétipo que corresponde à parte de nós mesmos que não queremos que o mundo veja: a Sombra, arquétipo oposto à Persona, que representa todos os nossos pensamentos secretos ou reprimidos e os aspetos do nosso caráter de que nos envergonhamos. Aparece na Bíblia como o demônio e, na literatura, por exemplo, como Mr. Hyde. A Sombra é o lado “mau” de nós mesmos que projetamos sobre os demais e, contudo, não é inteiramente negativo, pode representar aspetos que decidimos suprimir apenas porque são inaceitáveis numa situação em particular.
De todos os arquétipos, o mais importante é o Si Mesmo. Trata-se de um arquétipo central, organizador, que procura harmonizar todos os demais aspetos num eu completo e unificado. Segundo Jung, a verdadeira meta da existência humana é alcançar um estado de ser psicologicamente avançado, que se denomina “individualização” e o caminho para ser alcançado radica no arquétipo Si Mesmo. Plenamente realizado, este arquétipo é a fonte de sabedoria e da verdade e é capaz de ligar o eu com o espiritual. Jung insistiu em que a autorrealização não ocorre de forma automática, mas que deve ser procurada conscientemente.
Arquétipos nos sonhos
Os arquétipos têm uma importância considerável na interpretação dos sonhos. Jung considerava-os um diálogo entre o eu consciente e o eu eterno (entre o eu e o inconsciente coletivo) e acreditava que os arquétipos operam no sonho como símbolos que facilitam o diálogo.
Os arquétipos têm significados específicos no contexto dos sonhos. Por exemplo, o arquétipo do Velho Sábio ou da Velha Sábia pode representar no sonho um líder espiritual, um pai, um professor ou um médico, como aqueles que oferecem aconselhamento, orientação e sabedoria. A Terra-Mãe, arquétipo que pode aparecer como a mãe, a avó com quem se sonha, representa quem cria e nutre e traz segurança, conforto e apoio. A criança divina, arquétipo que representa a forma mais pura do Si Mesmo, simboliza a inocência ou a vulnerabilidade e, nos sonhos, aparece como um bebé ou uma criança, sugerindo a abertura e o potencial. E no caso em que o eu se torna demasiado grande, mantém-no na linha a aparição do Trickster, arquétipo travesso que expõe a vulnerabilidade do que sonha e que prega partidas, impedindo que se leve a si mesmo demasiado a sério. O Trjckster aparece também como o semideus nórdico Loki, o deus grego Pan e o deus-aranha africano Anansi ou como um simples ilusionista ou palhaço.
A utilização dos arquétipos
Os arquétipos existem na nossa mente antes do pensamento consciente e podem ter, portanto, uma enorme influência na nossa percepção da experiência. Seja o que for que, conscientemente, pensemos que está a acontecer, aquilo que escolhemos perceber — e por isso experimentamos — é determinado (governado) por estas ideias pré-formadas que existem no inconsciente. Assim, o inconsciente coletivo e os seus conteúdos afetam o estado consciente.
Segundo Jung, grande parte do que costumamos atribuir ao pensamento deliberado, racional e consciente está realmente guiada pela atividade inconsciente e, em particular, pelas formas organizadoras dos arquétipos.
Além das suas ideias sobre o inconsciente coletivo e os arquétipos, Jung foi o primeiro a estudar a prática da associação de palavras e também introduziu os conceitos de extroversão e introversão que mais tarde inspiraram testes de personalidade amplamente utilizados como tais, como o indicador de personalidade Myers-Briggs (MBTI). A obra de Jung influenciou de forma notável as áreas da psicologia, da antropologia e da espiritualidade e os seus arquétipos estão tão generalizados que podem ser facilmente identificados no cinema, na literatura e noutras manifestações culturais que representam figuras universais.
O tema das forças opostas sempre interessou os escritores, filósofos e cientistas. A literatura, a religião e a arte estão cheias de relatos sobre o bem e o mal, sobre aliados e inimigos. Na física newtoniana, o equilíbrio alcança-se quando uma força encontra uma força oposta equivalente. Tais forças opostas parecem ser um fator essencial da existência e talvez as mais fortes entre elas sejam as pulsões instintivas de vida e morte.
Sigmund Freud defendeu que, para evitarmos ser destruídos pela nossa própria pulsão de morte, utilizamos o nosso instinto de vida narcisista ou de autoconservação (libido) que afasta a pulsão de morte em direção a outros objetos. Melanie Klein ampliou esta ideia e argumentou que mesmo quando afastamos a pulsão de morte, intuímos o perigo de ser destruídos por esse instinto de agressão e reconhecemos a enorme tarefa de "mobilizar a libido" contra ele. A convivência destas forças opostas constitui um conflito psicológico inerente e fundamental da experiência humana. Klein defende que as nossas tendências para o crescimento e a criação — desde a procriação até à criatividade — veem-se sempre obrigadas a ir contra uma força destrutiva igualmente potente e que esta tensão psíquica subjaz a todo o sofrimento
Klein manteve também que esta tensão psíquica explica a nossa tendência inata para a agressão e a violência. Gera uma luta entre o amor e o ódio presente até nos recém-nascidos. Esta batalha constante entre os nossos instintos de vida e de morte — entre o prazer e a dor, a renovação e a destruição — produz confusão na nossa mente; a ira ou os "maus" sentimentos podem surgir então em qualquer situação, boa ou má.
Conflito constante
Klein acreditava que nunca nos libertamos destes impulsos primitivos, que os conservamos toda a vida e que nunca alcançamos um estado seguro de maturidade, mas vivemos com um consciente no qual se agitam "fantasias primitivas" de violência. Dada a influência de tal conflito psíquico, Klein considerava que a felicidade, de acordo com a noção tradicional, era algo inalcançável; e assim consistiria em encontrar um modo de tolerar o conflito, mais do que em alcançar o nirvana.
Se tal estado de tolerância é tudo a que podemos aspirar, Klein não se sentia surpreendida que a vida frustrasse o que muita gente acha merecer e que isso provocasse decepção e depressão. A experiência humana, segundo Klein, está inevitavelmente cheia de ansiedade, dor, perda e destruição; o ser humano deve, portanto, aprender a viver, entre os extremos da vida e da morte.
Os ambientes sociais desenvolvem normas culturais baseadas em certas carências. A psicanalista de origem alemã Karen Horney afirmou que os ambientes sociais insanos ou "tóxicos" tendem a gerar sistemas de crenças pouco saudáveis nos indivíduos, impedindo-os de desenvolver todo o seu potencial.
De acordo com Horney, é fundamental reconhecer quando não atuamos movidos por crenças próprias, mas pelas crenças interiorizadas a partir de um ambiente tóxico. Estas manifestam-se como mensagens internas, sobretudo sob a forma de "deverias", em frases como "deveria ser reconhecido e poderoso" ou "deveria ser magro". Horney ensinava os seus pacientes a consciencializar-se de duas influências na sua mente a do "eu real", com desejos verdadeiros, e a do "eu ideal", que se esforça por satisfazer todas as exigências dos "deverias". E o eu ideal enche a mente de ideias pouco realistas e inadequadas para o eu real e gera um feedback negativo baseado nos "fracassos" do eu real na altura de cumprir com as expetativas do eu ideal. Isto conduz ao desenvolvimento de um terceiro eu infeliz, o "eu desapreciado".
Horney explicava que os "deverias" são a base do nosso "pacto com o destino": se obedecemos, acreditamos poder controlar magicamente as realidades exteriores, ainda que, de facto, levem a uma profunda infelicidade e à neurose. As ideias de Horney eram particularmente relevantes no seu ambiente social, a Alemanha da primeira metade do século XX, muito tendente ao conformismo.
Segundo narra a Bíblia, Adão e Eva foram tentados no Éden e viram-se obrigados a optar pela obediência ou pela desobediência à ordem divina. No seu modelo estrutural da mente, Freud descreveu um padrão similar no seio do inconsciente, ao propor um aparelho psíquico dividido em três partes: o ego, o superego e o id.
O id, como uma serpente insidiosa, sussurra-nos que façamos o que gostamos; é movido pelo desejo, a procura do prazer e a satisfação das pulsões básicas (comida, conforto, calor, sexo). O superego, como uma presença virtuosa, chama-nos a seguir um caminho mais elevado; impõe os valores parentais e sociais e diz-nos o que devemos e não devemos fazer. Por último, o ego, como um adulto que há de tomar decisões, controla os impulsos e julga como atuar, é o moderador, situado entre o id e o superego.
A psicanalista austríaca Anna Freud desenvolveu as ideias do pai, centrando-se na formação do superego e nos seus efeitos sobre o ego. O ego encarrega-se das realidades do mundo e vê-se simultaneamente implicado com o id e relegado a uma posição inferior pelo superego. O superego fala uma linguagem de culpa e vergonha, como uma espécie de pai crítico interiorizado, e ouvimo-lo quando nos acusamos de ter pensado ou atuado de determinada forma; o superego só se reconhece claramente (fala de forma clara) quando se mostra hostil ao eu.
Mecanismos de defesa do ego
A voz crítica do superego produz ansiedade, e é então quando, segundo Anna Freud, se ativam os mecanismos de defesa do ego: os múltiplos métodos que a mente utiliza para impedir que a ansiedade nos domine. Anna Freud descreveu os muito diferentes mecanismos de defesa que utilizamos, desde o humor e a sublimação até à negação e ao deslocamento. A sua teoria das defesas do ego foi um filão de pensamento muito rico para as terapias humanistas do século XX.
No século XVIII, o filósofo alemão Immanuel Kant revolucionou o pensamento acerca do mundo ao assinalar que nunca podemos conhecer realmente o que há fora de nós mesmos, pois o nosso conhecimento está sujeito às limitações da nossa mente e sentidos. Não sabemos como são as coisas "em si", apenas como as experimentamos. Esta ideia constitui a base da terapia da Gestalt, sendo que um dos seus princípios fundamentais é que a complexidade da experiência humana — com os seus traumas e tragédias, inspirações e paixões, e o seu leque quase infinito de possibilidade — está codificada através das lentes individuais através das quais a vemos, Não assimilamos automaticamente todos os sons, sentimentos e imagens do mundo: esquadrinhamos e selecionamos apenas alguns.
Segundo Fritz Perls, um dos fundadores da terapia da Gestalt, isto supõe que o nosso sentido de realidade pessoal se forma através da nossa percepção, através do modo como vemos as nossas experiências, não os próprios acontecimentos. Contudo, isto é fácil de ser esquecido ou inclusive de não nos apercebermos. Neste sentido, Perls afirmou que tendemos a confundir o nosso ponto de vista sobre o mundo com a verdade objetiva e absoluta, em vez de reconhecer o papel da percepção e a sua influência na formação da nossa perspectiva, juntamente com todas as ideias, atos e crenças que dela surjam. Segundo Perls, a única verdade que se pode chegar a possuir é a própria e pessoal.
Aceitar a responsabilidade
Perls desenvolveu as suas teorias na década de 1940, quando predominava o ponto de vista psicanalítico, segundo o qual a mente humana se podia reduzir a uma série de pulsões biológicas que esperavam satisfação. Esta abordagem parecia a Perls demasiado rígida, simplista, geral; não dava lugar à experiência individual, que para ele tinha uma importância capital.
Os psicanalistas não permitiam que os seus pacientes reconhecessem e assumissem a responsabilidade de acreditar na própria experiência. O modelo psicanalítico dá por certo que os pacientes estão à mercê dos seus conflitos inconscientes até que chega a psicanálise para os salvar das suas pulsões inconscientes. Perls, pelo contrário, considerava fundamental que a pessoa compreendesse a sua capacidade criadora, que estivesse consciente de que podia mudar a sua realidade e que, de facto, essa responsabilidade era sua; ninguém o podia fazer por ela. Uma vez entendido que a percepção é a chave da realidade, cada um está obrigado a responsabilizar-se pela vida em que acredita e pela forma como decide ver o mundo.
Reconhecer o próprio poder
A teoria da Gestalt baseia-se na experiência, na percepção e na responsabilidade individuais para motivar o desenvolvimento pessoal através do sucesso de um sentido do controlo interior. Perls insiste em que podemos aprender a controlar a nossa experiência interior independentemente da envolvente exterior. Uma vez que compreendamos que a nossa percepção está conforme com a nossa experiência, podemos ver como os papéis que desempenhamos e as ações que praticamos são ferramentas, ferramentas que podemos, então, utilizar conscientemente para mudar a realidade. O controlo do nosso ambiente psíquico interior dá-nos poder em dois aspetos: em como interpretar a envolvente e em como agir perante ela. A sentença de que "ninguém pode fazer-te arreliar mais do que tu mesmo" exemplifica na perfeição esta filosofia e a sua verdade está patente quando consideramos as diferentes formas como as pessoas reagem perante um engarrafamento, uma má notícia ou uma crítica pessoal, por exemplo.
Na terapia da Gestalt a pessoa vê-se obrigada a responsabilizar-se diretamente pela sua forma de atuar e de reagir, seja o que for que pareça estar a acontecer. A esta capacidade de conservar a estabilidade emocional com independência do ambiente, Perls dá o nome de "homeostasia", termo utilizado na biologia para se referir à manutenção da estabilidade física de um organismo. Implica um subtil equilíbrio de diferentes sistemas e é assim que a psicologia da Gestalt concebe a mente. A terapia da Gestalt procura formas de equilibrar a mente mediante os pensamentos, sentimentos e percepções que conformam a experiência humana e concebe a pessoa holisticamente, ou seja, atendendo ao todo mais do que às partes.
Perls compreendia que a sua tarefa consistia em ajudar os pacientes a cultivar a consciência do poder das suas percepções e do modo como configuram a realidade (ou aquilo a que chamamos "realidade"). Assim, os seus pacientes adquiriam a capacidade de assumir o controlo da configuração da sua paisagem interior, ao tornarem-se responsáveis pela sua percepção da realidade, podiam criar a realidade que desejavam.
Perls ajudava os seus pacientes a conseguir isto ensinando-lhes os procedimentos integrais da terapia da Gestalt. O primeiro e mais importante deles era aprender a cultivar a consciência e a centrar a referida consciência nos sentimentos do momento presente. Isto permite ao indivíduo experimentar diretamente os seus sentimentos e a realidade percebida no momento atual. Tal oportunidade de estar no aqui e agora é crucial no processo da Gestalt: trata-se de uma consciência emocional aguda e é a base para compreendermos como acreditamos e como reagimos cada um perante o nosso ambiente, oferece um caminho para conhecermos a forma como nos experimentamos a nós mesmos e ao meio.
Como ferramenta de desenvolvimento pessoal, a capacidade de se ligar com sentimentos autênticos — pensamentos e emoções verdadeiras é mais importante para Perls do que explicações psicológicas ou o feedback analítico de outras formas de terapia. O "porquê" com comportamento importa-lhe pouco, o importante para ele é o "como" e o "que". Esta desvalorização da necessidade de averiguar o porquê e a mudança na atribuição da responsabilidade do analista para o paciente conduziram a uma profunda mudança na relação entre um e outro. Se em abordagens terapêuticas anteriores, o terapeuta manipulava o paciente para o conduzir até um objetivo terapêutico; a abordagem da Gestalt caracterizava-se por uma relação tranquila e empática entre terapeuta e paciente, que trabalhavam como parceiros para ter sucesso no objetivo, o terapeuta é dinâmico, mas não dirige o paciente. A terapia da Gestalt, de Perls foi posteriormente a base da abordagem humanista, centrada na pessoa, de Carl Rogers.
Um eu autônomo
Outro aspecto do método Gestalt está relacionado com a utilização da linguagem. Uma ferramenta essencial que se dá aos pacientes para aumentar a sua consciência de si consiste em indicar-lhes que observem e mudem o uso da palavra "eu" ao falar. Perls afirmava que, para nos tornarmos responsáveis pela nossa realidade, devemos consciencializar-nos da forma como utilizamos a linguagem. Assim, por exemplo, com a simples mudança de "não posso" para "não quero", fica claro que estou a fazer uma opção. Isto ajuda também a estabelecer quem é o dono do sentimento: as emoções surgem dentro de mim e pertencem-me, não posso culpar outras pessoas por elas.
Outro exemplo desta mudança na linguagem consiste em substituir a palavra "deveria" pela palavra "quero", como "deveria ir-me embora já" por "quero ir-me embora já", que serve também para revelar o elemento de eleição. À medida que aprendemos a assumir a responsabilidade da nossa experiência, afirma Perls, desenvolvemos um eu verdadeiro e livre de influências sociais.
Desta forma, adquirimos autonomia e capacidade de decisão enquanto nos damos conta de que não estamos à mercê das coisas que ocorrem. Deixamos de nos sentir vítimas quando compreendemos que o que aceitamos na vida — o que seletivamente percebemos e experimentamos é uma escolha; não somos impotentes.
Esta responsabilidade pessoal vem acompanhada da obrigação de se denegar a experimentar os acontecimentos, as relações ou as circunstâncias que sabemos prejudiciais ao nosso verdadeiro eu. A teoria da Gestalt pede-nos que examinemos atentamente as normas sociais que decidimos aceitar; podemos ter agido durante tanto tempo dando a nossa verdade por certa que a aceitamos. Perls sugere que devemos adotar crenças que inspirem e desenvolvam o nosso eu verdadeiro. A capacidade de ditar as nossas regras, de determinar as nossas opiniões, desejos e interesses é algo essencial. Ao ganhar em consciência e responsabilidade, autonomia e conhecimento de nós mesmos, compreendemos que estamos a construir o nosso próprio mundo ou verdade. A vida que levamos torna-se mais leve, pois "a verdade só se tolera se formos nós a descobri-la".
Individualismo e intimidade
A ênfase da terapia da Gestalt no facto de "estar no presente" e encontrar o próprio caminho e as próprias ideias encaixava perfeitamente no espírito da revolução contra a cultura instituída a que o Ocidente assistiu na década de 1960. Mas alguns psicólogos e psicanalistas, em especial os que consideravam o ser humano acima de tudo um ser social, viram este individualismo como um ponto fraco. Segundo eles, a teoria da Gestalt centrava-se demasiado no individual a expensas da comunidade, e argumentava que uma vida conforme aos seus princípios excluiria a possibilidade da intimidade com os outros. Os partidários da teoria responderam a isto que, sem o desenvolvimento de um verdadeiro eu, não seria possível o desenvolvimento de uma relação verdadeira com os outros.
Em 1964, Perls começou a trabalhar no Esalen Institute da Califórnia, centro para o desenvolvimento espiritual e psicológico.
Costuma pensar-se que aquelas crianças que foram educadas num ambiente carente de amor e sem apoio são plenamente capazes de se integrar e prosperar numa nova família que lhes ofereça o que necessitam. Contudo, ainda que a estabilidade e a aceitação contribuam para lançar as bases para que as crianças consigam desenvolver-se de forma saudável, esses aspetos não são mais do que uma parte do que é necessário
Donald Woods Winnicott, o primeiro pediatra inglês a formar-se como psicanalista, ofereceu uma perspectiva muito pessoal acerca das relações que se estabelecem entre a mãe e a criança e sobre o processo de desenvolvimento infantil. Foi muito influenciado por Sigmund Freud, mas também pelos textos de Melanie Klein, em particular nos que se referem aos sentimentos inconscientes da mãe ou do cuidador da criança. Winnicott iniciou a sua carreira com crianças deslocadas devido à II Guerra Mundial e estudou as dificuldades que sentiam ao adaptar-se a um novo lar.
No artigo Hate in the Counter-transference, Winnicott afirma: "É completamente inadequado acolher uma criança adotada e amá-la." De facto, os pais devem ser capazes de acolher a criança adotada em sua casa e tolerar odiá-la. Winnicott sustém que a criança só consegue acreditar que a amam depois de a terem odiado e insiste em que não se pode subestimar a importância da "tolerância do ódios" nos processos de recuperação.
Winnicott explica que quando se oferece a uma criança, até então privada de cuidados parentais apropriados, a oportunidade de os receber num ambiente saudável, como o de uma família adotiva, a criança começa a desenvolver uma esperança inconsciente. Mas a referida esperança vem associada ao medo: quando uma criança sofreu no passado uma decepção devastadora, com as suas necessidades físicas e emocionais mais básicas insatisfeitas, erguem-se defesas: forças inconscientes que protegem a criança perante a esperança que pode ser frustrada. Estas defesas, segundo Winnicott, explicam a presença do ódio. A criança experimentará um rebentar de ira contra a nova figura parental, mediante a qual expressará o seu ódio e suscitá-lo-á, por sua vez, em quem cuida dela. Winnicott chamou a este comportamento "tendência antissocial".
De acordo com Winnicott para uma criança que sofreu, a necessidade de odiar e de ser odiada é mais profunda inclusive do que a necessidade de se rebelar, e a tolerância do ódio por parte dos novos pais é um fator essencial para a saúde mental da criança. Deve permitir-se à criança a expressão desse ódio, e os pais adotivos devem ser capazes de tolerar o ódio, tanto o da criança como o próprio.
Esta ideia pode parecer chocante, e por isso pode ser difícil aceitar que é ódio o que cresce dentro de alguém. Os pais podem sentir-se culpados, tendo em conta as dificuldades pelas quais a criança teve de passar anteriormente, mas esta atua de forma hostil em relação aos pais pois projeta as antigas experiências de rejeição e abandono na realidade atual.
Os filhos de lares desfeitos ou os órfãos, diz Winnicott, passam o tempo a procurar inconscientemente os pais», e os sentimentos produzidos pelas relações passadas são transferidos para o outro adulto. A criança interiorizou o ódio e vê-o até quando ele já lá não está. Na sua nova situação, a criança precisa de ver o que acontece quando aflora o ódio. Como explica Winnicott: "O que acontece é que passado um tempo a criança adotada concebe a esperança e começa a pôr à prova o ambiente que encontrou e a capacidade do seu guardião para odiar objetivamente."
Para uma criança, há muitas formas de expressar ódio e de demonstrar que não é digna de ser amada. Tal indignação é a mensagem transmitida pelas experiências negativas anteriores. Do ponto de vista da criança, o que ela faz é procurar proteger-se do risco que implica sentir amor ou sentir-se amada, dada a possibilidade de decepção que acompanha tais sentimentos.
Lidar com o ódio
As emoções que o ódio da criança suscita nos pais, assim como nos professores e noutras figuras de autoridade, são muito reais. Winnicott considera essencial que os adultos reconheçam tais sentimentos e não os neguem, o que poderia parecer mais fácil. Devem compreender também que o ódio da criança não é pessoal: ela expressa a ansiedade produzida pela sua infeliz situação anterior com as pessoas que tem agora ao seu alcance.
O que a figura de autoridade faz com o próprio ódio tem, evidentemente, uma importância fundamental. A crença da criança de que é "má" e indigna de ser amada não deve ver-se reforçada pela resposta do adulto, que tem de tolerar os sentimentos de ódio e entendê-los como parte da relação. Esta é a única forma de a criança se sentir segura e capaz de estabelecer um vínculo. Por mais abundante que seja o carinho que encontre no novo ambiente, para a criança isso não apaga o passado, do qual conserva sentimentos residuais. Winnicott não vê atalhos para solucionar isto. A criança espera que o ódio que o adulto sente o leve a abandoná-la porque foi o que aconteceu antes. Quando tal não ocorre e, em vez disso, os sentimentos de ódio são tolerados, então estes podem começar a dissipar-se.
Um ódio saudável
Até nas famílias psicologicamente saudáveis com crianças que não foram deslocadas, Winnicott considera que o ódio inconsciente é uma parte natural e essencial da experiência de serem pais e fala de "odiar adequadamente". Melanie Klein sugerira que os bebês sentem ódio em relação às mães; mas Winnicott propõe que esse ódio é precedido pelo ódio que a mãe sente em relação ao bebê e que antes, inclusive, há um amor primitivo ou "desapiedado".
A existência do bebê impõe enormes exigências psicológicas e físicas à mãe, e estas suscitam nela um sentimento de ódio. Winnicott dá uma lista de 18 razões para que a mãe odeie o bebê, entre as quais se encontram as seguintes: a gravidez e o parto puseram a sua vida em perigo; que o bebê interfere na sua vida privada; que o bebê a magoa quando lhe dá de mamar, inclusive mordendo-a; ou que a trata como uma criada, como a uma escrava. Apesar de tudo isto, também o ama, "com as suas excreções e tudo", afirma Winnicott, com um amor primitivo muito poderoso, e deve aprender a tolerar o ódio ao seu bebê sem agir movida por ele de forma alguma. Se não é capaz de odiar adequadamente, afirma Winnicott, acaba por dirigir os seus sentimentos de ódio em relação a si mesma de uma forma masoquista e insana.
Relação terapêutica
Winnicott utilizou a relação entre pais e crianças como analogia da relação terapêutica que ocorre entre terapeuta e cliente. Os sentimentos despertados no cliente durante a terapia — no geral dirigidos a país e irmãos — transferem-se para o terapeuta. Assim, o terapeuta sente o ódio em relação ao cliente, mas o tal ódio foi gerado pelo cliente para comprovar que o terapeuta é capaz de o suportar: o paciente precisa de saber que o terapeuta é bastante forte e fiável para resistir a este ataque.
Uma abordagem realista
Por mais chocante que possam parecer algumas das ideias de Winnicott, ele considera que os pais devem ser realistas na altura de criar os filhos, evitar o sentimentalismo e optar pela honradez. Isto permite-nos, como crianças e depois como adultos, reconhecer e lidar com sentimentos negativos inevitáveis. Winnicott é realista e pragmático, nega-se a acreditar na ideia mítica da "família perfeita" ou num mundo onde algumas palavras amáveis podem acabar com todos os horrores que as possam ter precedido. Prefere considerar o meio e os estados mentais reais de nossa experiência e sugere aos outros que procedam da mesma forma, com honradez e valor.
As ideias de Donald Winnicott não encaixam facilmente numa escola de pensamento, mas foram enormemente influentes e atualmente continuam a ser tidos em conta nos âmbitos do trabalho social, da educação, da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise.
Os psicanalistas explicam o inconsciente como o local onde se armazenam todas as recordações que desejamos afastar e que não são acessíveis conscientemente. O inconsciente fala em certas ocasiões ao plano consciente de formas muito diferentes: na opinião de Carl Jung, o inconsciente apresenta-se perante o eu consciente através dos sonhos, os símbolos e a linguagem dos arquétipos, enquanto para Sigmund Freud este se expressa por meio do comportamento motivado e, acidentalmente, dos lapsos verbais. O único ponto em que as diferentes escolas psicanalíticas estão de acordo é em que o conteúdo do inconsciente é mais amplo do que a do eu consciente. Contudo, para o psiquiatra Jacques Lacan, a linguagem do inconsciente não é a do eu, mas a do "outro".
A concepção do eu
Acostumamo-nos a ter por certa com demasiada facilidade a noção do eu, que cada um de nós existe como um indivíduo separado que vê o mundo através dos próprios olhos, conhece os limites que o separam dos outros e do mundo que o rodeia e assume a dita separação no seu pensamento e na sua forma de interagir com o ambiente.
Contudo, e se não houvesse nada aí fora que pudéssemos reconhecer como separado de nós mesmos? Nesse caso não poderíamos conceptualizar a nossa noção do eu, pois não haveria um ser delimitado no que pensar. O único meio de determinar que como indivíduos somos diferentes do mundo que nos rodeia é precisamente a nossa capacidade para reconhecer a nossa separação em relação ao ambiente, em relação ao "outro": é isso que nos permite transformarmo-nos no sujeito "eu". Lacan concluía que cada um de nós é um "eu" porque tem um conceito do "outro".
Para Jacques Lacan, o "outro" é o absolutamente alheio que se encontra para lá do eu; é o ambiente em que nascemos e que devemos "traduzir" ou ao qual devemos dar sentido para sobreviver e prosperar. A criança deve aprender a organizar as sensações em conceitos e categorias a fim de poder desenvolver-se no mundo, e isto é feito adquirindo gradualmente a consciência e a compreensão de uma série de significantes: signos ou códigos. Mas estes significantes só nos podem chegar do mundo exterior que se encontra para lá do eu, e por isso tiveram de ser formados a partir da linguagem — ou o "discurso", nos termos de Lacan — do "outro".
Só somos capazes de pensar e expressar as nossas ideias e emoções através da linguagem, e a única linguagem de que dispomos, segundo Lacan, é a do "outro". As sensações e as imagens que se traduzem nos pensamentos do nosso inconsciente devem construir-se a partir da dita linguagem do "outro". Como escreveu Lacan: "O consciente é o discurso do "outro"". Esta ideia teve uma enorme influência na prática da psicanálise e permitiu chegar a uma interpretação mais objetiva e aberta do inconsciente.
O traço que define a humanidade é a capacidade de encontrar um sentido na vida, e, segundo o psicanalista germano-americano Erich Fromm, isso determina também o facto de que sigamos um caminho de alegria e plenitude ou um caminho de insatisfação e conflito. Fromm acreditava que, apesar de a dor ser inerente à vida, podemos torná-la suportável dotando-a de significado na procura e na construção de um eu verdadeiro. O fim último da vida humana seria, segundo Fromm, desenvolver "a qualidade mais preciosa de que o homem está dotado: o amor à vida".
A vida está cheia de frustração emocional, dizia, porque o homem vive em estado de luta. Procura, constantemente, equilibrar a sua natureza individual com a sua necessidade de vínculos. Há uma parte do eu do homem que só sabe existir num estado de união com outros, unido à natureza e a outras pessoas. Contudo, vemo-nos separados da natureza e isolados uns dos outros. Pior ainda, temos a capacidade única de ponderar o resultado desta separação e pensar sobre o nosso isolamento. O homem, dotado de razão, é a vida consciente de si mesma.
Fromm afirma que a nossa separação da natureza tem a sua origem na expansão do intelecto que nos fez conscientes da nossa situação separada. É a capacidade de raciocinar e de relacionar que nos permite transcender a natureza, nos proporciona as aptidões para uma vida produtiva e nos dá a superioridade intelectual, mas também é ela que nos faz dar conta de que estamos sozinhos no mundo. A razão, desta forma, torna-nos conscientes da nossa própria mortalidade e da dos entes queridos.
Esta consciência é fonte de tensão crónica e de uma solidão insuportável que estamos sempre a tentar superar, o homem vive num estado constante de ansiedade e de falta de esperança. Mas há esperança, insiste Fromm, pois o homem pode superar o seu sentido de isolamento e alienação encontrando o seu objetivo na vida.
Contudo, no esforço para nos tornarmos indivíduos livres e singulares, continuamos a sentir a necessidade da união com os outros, e ao tentar equilibrar estas necessidades podemos encontrar o consolo de nos acomodarmos a um grupo ou a uma autoridade, e essa seria uma abordagem errada, afirma Fromm: é fulcral descobrir um sentido do eu independente, com um sistema de valores próprio, em vez de aderir a normas convencionais ou autoritárias. Se tentamos delegar a responsabilidade das nossas opções noutras pessoas ou instituições, alienamo-nos de nós mesmos, e o objetivo da nossa vida é precisamente definirmo-nos, descobrindo as nossas ideias e capacidades e aceitando e celebrando aquilo que nos diferencia dos outros. A principal tarefa do homem é dar à luz a si mesmo. Ao fazê-lo, liberta-se da confusão, da solidão e da apatia.
Criatividade e amor
Paradoxalmente, Fromm acredita que o único modo de encontrar a plenitude que procuramos é descobrindo a nossa própria individualidade. Isto pode ser atingido seguindo as nossas ideias e paixões e também mediante o empenho criativo, pois "a criatividade exige o valor de abandonar as certezas".
Um dos principais meios de que o homem dispõe para se libertar do isolamento é a sua capacidade para amar. O conceito de amor de Fromm difere imensamente das concepções populares do termo: para ele, não é uma emoção, nem depende de uma descoberta de objeto para amar, é uma capacidade criativa interpessoal que deve desenvolver-se ativamente como parte da própria personalidade. É uma atitude, uma ordenação do caráter que determina a vinculação da pessoa ao mundo inteiro.
Em referência ao amor pessoal, diz que os seus principais fundamentos são o cuidado, a responsabilidade, o respeito e o conhecimento: um conhecimento objetivo do que os outros verdadeiramente querem e necessitam. O amor só é possível se se respeita a separação e a singularidade de si mesmo e do outro, e, paradoxalmente, é assim que desenvolvemos a capacidade de criar vínculos. O amor exige um grande respeito pelo outro como indivíduo e baseia-se na autonomia, não na fusão de personalidades. No nosso cansativo desejo de vínculo e união, tentamos amar, mas amiúde as nossas relações resultam num desequilíbrio carente de amor. Acreditamos estar a amar, mas talvez estejamos à procura de outra forma de conformidade. Dizemos "amo-te" quando, na realidade, queremos dizer "revejo-me em ti", "transformar-me-ei em ti" ou "serei o teu dono". Quando amamos, tentamos perder a nossa singularidade ou roubar a da outra pessoa. O nosso desejo de "sermos um" leva-nos a querer ver-nos refletidos nos outros, o que nos leva a impor aos outros os nossos traços.
O único modo de amar, afirma Fromm, é amar livremente, reconhecendo a plena individualidade do outro, respeitando as suas opiniões, preferências e crenças. O amor não se encontra encaixando uma pessoa num molde de outra, tampouco é uma questão de encontrar a sua "meia laranja". O amor consiste na união com alguém, ou algo, fora de si mesmo com a condição de conservar a separação e a integridade do próprio eu.
Muitos investem grandes quantidades de tempo e dinheiro a tratar de cultivar o eu que consideram mais digno de estima e, portanto, com maiores possibilidades de ser amado ou desejado. É um empenho inútil, pois só as pessoas com um forte sentido do eu, capazes de se manter fiéis à própria concepção do mundo, são capazes de dar livremente aos outros e amar de forma verdadeira. Aqueles que em geral procuram receber amor, em vez de serem capazes de amar, fracassaram; também procuram ser receptores de outros tipos de relações e querem sempre receber coisas — materiais ou imateriais — em vez de dar. Estas pessoas acreditam que a fonte de tudo o que é bom está fora delas mesmas e sentem constantemente a necessidade de adquirir, apesar de isso, de facto, não as aliviar.
Tipos de personalidade
Erich Fromm identificou vários tipos de personalidade aos quais chamou "improdutivos", porque permitem à pessoa evitar assumir uma verdadeira responsabilidade quanto aos seus próprios atos e impedem um desenvolvimento pessoal produtivo. Cada um dos quatros principais tipos improdutivos — receptivo, explorador, acumulador e mercantil — contém aspetos tanto negativos como positivos. Existe, além disso, um quinto tipo, o necrófilo, completamente negativo, e um sexto tipo, o produtivo, o ideal de Fromm. Na realidade, a personalidade costuma combinar traços dos quatro tipos principais.
A pessoa do tipo receptivo vive de forma passiva e conforma-se com o estado de coisas tal como elas estão. É mais propensa a seguir os outros do que a dirigi-los. Em casos extremos adota a atitude de vítima. Do ponto de vista positivo, tem uma grande capacidade de devoção e de aceitação. Fromm compara este tipo de personalidade aos camponeses e aos tarefeiros da história.
A pessoa de tipo explorador prospera, apoderando-se de coisas dos outros, tende a tomar aquilo de que necessita em vez de o ganhar ou produzir. Contudo, exibe uma grande iniciativa e confiança em si mesma. Este tipo de personalidade é exemplificado pelas aristocracias históricas que enriqueceram à custa das populações indígenas.
As pessoas acumuladoras procuram sempre amigos bem colocados e valorizam inclusive os que amam em termos materiais, vendo-os como objetos de sua posse. Ávidos pelo poder e mesquinhos, no melhor dos casos são pragmáticos e aforradores. Historicamente, correspondem à classe média ou burguesa, que cresce bastante durante as depressões económicas.
O último dos principais tipos é o mercantil. Trata-se de pessoas obcecadas com a imagem e com a autopromoção. Julgam tudo em função da categoria que refletem, desde a roupa, os carros e as férias até à pessoa com quem se casam. Costumam ser oportunistas, com falta de tato e superficiais. No melhor dos casos, são dotadas de uma grande motivação e energia para atingirem os seus fins. Trata-se do tipo mais representativo da sociedade atual, com o seu consumismo e a sua excessiva preocupação com a imagem.
O tipo de personalidade mais negativa, o necrófilo, só procura destruir. Profundamente temeroso da natureza desordenada e incontrolável da vida, é muito dado a falar sobre a doença e a morte, e é obcecado com a necessidade de impor "a lei e a ordem". Prefere os objetos mecânicos às pessoas. Na sua versão moderada, é pessimista e diz sempre não a tudo, é aquele cujo copo está sempre meio vazio.
O último tipo de personalidade. o produtivo, procura e encontra uma solução legítima na vida mediante a flexibilidade, a aprendizagem e a sociabilidade. Com o fim de chegar a ser uno com o mundo, e assim escapar à solidão da separação, a pessoa produtiva responde ao mundo com racionalidade e uma mente aberta, disposta a mudar as suas convicções à luz de novas provas. É capaz de amar verdadeiramente outro por ser quem é, e não como um troféu ou uma salvaguarda contra o mundo. Fromm refere-se a esta pessoa como "o homem sem máscara".
Fromm oferece uma perspectiva única que se alimenta da psicologia, da sociologia e do pensamento político, sobretudo o de Karl Marx. Os seus textos, dirigidos ao público em geral, influenciaram mais a opinião pública do que o âmbito acadêmico: contudo, é considerado um dos principais representantes da psicologia humanista.
Durame o século XIX e princípio do século XX, o tratamento psicológico baseava-se na ideia de que a doença mental era uma patologia que se tinha de curar. A teoria psicanalítica dominante, por exemplo, definia como neurótico quem tinha problemas de saúde mental. A doença mental era vista através de uma abordagem negativa e a teoria e a prática psicológica da época ofereciam definições estritas e explicações claras das suas causas subjacentes e métodos necessários para a curar.
0 psicólogo norte-americano Carl Rogers olhou para o problema da saúde mental a partir de um ponto de vista muito diferente e assim ampliou para sempre a abordagem da psicoterapia. Rogers considerava as filosofias do seu tempo demasiado rígidas e estruturadas para dar conta de algo tão dinâmico como a experiência humana e a humanidade demasiado diversa para encaixar em teorias tão definidas.
Atingir a saúde mental
Para Rogers, era absurdo considerar o bem-estar mental como um estado fixo e específico. A boa saúde mental não é algo que se consiga de repente depois de se ter dado uma série de passos. Tampouco se alcança porque o estado de tensão neurótica do indivíduo se tenha aliviado mediante a satisfação das pulsões biológicas, como afirmavam os psicanalistas. Também não se cultiva seguindo um programa específico concebido para desenvolver e conservar um estado de homeostasia ou equilíbrio interno e reduzir o efeito do caos externo do mundo sobre o eu, como recomendavam os behavioristas.
Rogers não acreditava que houvesse alguém num estado defeituoso a precisar de ser arranjado para lhe proporcionar outro melhor, e prefere considerar a experiência humana, a nossa mente e o nosso ambiente como algo vivo e em desenvolvimento. Falava do “processo contínuo da experiência organísmica” e considerava a vida algo instantâneo e contínuo; a vida existe na experiência de cada momento.
Para Rogers, o eu não era um entidade fixa, mas sim uma entidade fluida, em mudança e aberta; a experiência humana flui livremente e tem possibilidades ilimitadas. O ser humano não percorre um caminho cuja meta é a “integração” ou a “realização”, como dissera o seu colega e psicólogo humanista Abraham Maslow; é mais, o fim da existência não consiste em alcançar meta alguma, segundo Rogers, já que a existência não é tanto uma viagem que culmina num ponto de chegada, como um processo contínuo de desenvolvimento e descoberta que não cessa até morrermos.
Viver a “boa vida”
Roger utiliza a expressão “boa vida” para se referir ao conjunto de características, atitudes e comportamentos exibidos pelas pessoas que assumiram os fundamentos da sua abordagem e se encontram “plenamente imersas no fluxo da vida”. Um traço fundamental é a capacidade de permanecer inteiramente e presente no momento. Posto que o eu e a personalidade surgem da experiência, é da maior importância manter-se totalmente aberto às possibilidades oferecidas por cada momento e permitir que a experiência molde o eu. O indivíduo vive num ambiente de mudança constante, mas com demasiada frequência e facilidade nega esta fluidez e ergue construções de como pensa que deveriam ser as coisas; a seguir tenta moldar-se a si mesmo e à sua ideia da realidade para que encaixem no constructo produzido. Esta forma de proceder é justamente o contrário da organização do eu fluida e mutável que segundo Rogers a natureza da nossa existência requer.
As nossas preconcepções sobre como é ou deveria ser o mundo e sobre o nosso papel nele definem os limites do nosso mundo e reduzem a nossa capacidade de nos mantermos presentes e abertos à experiência. Em troca, quando vivemos uma vida boa e nos mantemos abertos à experiência, adotamos uma forma de ser que evita que nos sintamos apanhados e atolados. O objetivo, tal como o vê Rogers, é que a experiência seja o ponto de partida para construir a nossa personalidade, em vez de tentar fazer encaixar as nossas experiências numa noção preconcebida do nosso sentido do eu.
Se nos aferroamos às nossas ideias sobre como deveriam ser as coisas em vez de aceitar como são realmente, é provável que percebamos que as nossas necessidades não encaixam no que está disponível.
Quando o mundo não “faz o que queremos” e nos sentimos incapazes de mudar as nossas ideias, surge o conflito em forma de atitude defensiva. Rogers explica esta atitude como a tendência para aplicar estratégias inconscientes a fim de impedir que um estímulo perturbador entre na consciência: negamos (bloqueamos) ou distorcemos (reinterpretamos) o que realmente acontece, recusando aceitar a realidade para nos mantermos fiéis às nossas ideias preconcebidas. Desta forma, negamos a nós mesmos a possibilidade de todas as reações, sentimentos e ideias potenciais, e descartamos como errado ou inadequado um amplo leque de opções. Os sentimentos e pensamentos defensivos que surgem em nós quando a realidade entra em conflito com as nossas preconcepções produzem uma interpretação limitada e artificial da experiência. Para poder participar realmente no que Rogers chama o “processo contínuo da experiência organísmica”, devemos estar plenamente abertos a novas experiências e totalmente livres da atitude defensiva.
Todo um leque de emoções
O sintonizarmo-nos com o leque completo das nossas emoções, argumenta Rogers, permite-nos uma experiência mais profunda e rica em todos os aspetos da nossa vida. Podemos pensar que somos capazes de bloquear seletivamente as emoções e afogar sentimentos perturbadores ou incômodos, mas o certo é que, quando reprimimos algumas das nossas emoções, inevitavelmente baixamos o volume de todas elas e negamo-nos ao acesso à totalidade da nossa natureza.
Se, por outro lado, permitimos sentirmo-nos mais confortáveis com as nossas emoções, incluindo as que consideramos negativas, o fluxo de sentimentos positivos surge com maior força; é como se, ao permitirmo-nos sentir dor, nos capacitemos para uma experiência mais intensa de alegria.
Segundo Rogers, ao permanecer sempre abertos a tudo o que sucede, permitimos às nossas capacidades funcionar de forma mais plena ao mesmo tempo que obtemos a maior satisfação das nossas experiências.
Não erguemos defesas para afastar nenhuma parte do eu, pelo que poderemos experimentá-lo plenamente. Uma vez que tenhamos escapado da armadilha das preconcepções mentais, podemos permitir-nos levantar voo, e em vez de organizarmos a nossa experiência para a moldar à nossa ideia do mundo, “descobrimos a estrutura na experiência”.
Tal abertura não é para pusilânimes, afirma Rogers, pois requer valor. Não devemos temer nenhuma classe de sentimentos, devemos permitir o pleno fluxo da cognição e da experiência. Desta forma, cada um torna-se mais capaz de encontrar o caminho que convém ao seu verdadeiro eu, quer dizer, ao indivíduo plenamente funcional no qual Rogers nos incentiva a transformarmo-nos. Estamos sempre a crescer e Rogers insiste em que a direção que as pessoas costumam tomar — quando há liberdade para seguir qualquer direção — costuma ser aquela para a qual estão mais bem dotadas e a mais adequada para elas.
Aceitação incondicional
Em contraste com a postura dos seus antecessores no campo da psicoterapia, Rogers acredita que as pessoas são, na sua essência, sãs e boas e que o bem-estar mental e emocional é a progressão natural da natureza humana. Tais ideias são o fundamento de uma abordagem que contempla os pacientes sob uma luz perfeitamente positiva, com uma aceitação absoluta e incondicional. Rogers pedia aos seus pacientes que fizessem o mesmo consigo mesmos e com os outros. Esta perspectiva enraizada na compaixão e no reconhecimento do potencial de todas e de cada uma das pessoas foi denominada “consideração positiva incondicional”. Rogers acreditava que todas as pessoas, e não apenas os seus pacientes, precisavam de ser capazes de se ver a si mesmas desta forma e também a quem as rodeava e ao seu ambiente.
A aceitação incondicional de nós mesmos e dos outros é vital, e quando falta, o indivíduo não é capaz de se manter aberto à experiência. Rogers defendia que muitos de nós colocamos condições específicas, rígidas e inamovíveis para dar a nossa aceitação ou aprovação e que baseamos a autoestima e a consideração em relação aos outros nos êxitos ou nas aparências, em vez de aceitarmos as pessoas tal como são.
Os pais podem ensinar sem darem conta às crianças de que são dignas de afeto apenas se cumprirem certas condições, por exemplo, dando-lhes prêmios e elogios quando comem legumes ou quando tiram um excelente em física, em vez de mostrarem abertamente que os amam simplesmente por serem quem são. Rogers chama a estes requisitos “condições de valor” e considera que a tendência do ser humano para exigir que as pessoas e as coisas cumpram as suas expetativas arbitrárias nos presta a todos um favor muito fraco.
Os sucessos têm de ser respeitados, afirma Rogers, mas são algo à parte e secundário em relação à aceitação, que é uma necessidade humana básica e que não deve ser necessário “ganhar-se” com o comportamento. Para Rogers, o valor de um indivíduo é algo que provém do mero milagre da existência, Assim, a aceitação nunca deve ser entendida como algo condicional, e a consideração positiva incondicional é a chave para que todos possamos viver a “boa vida”. À medida que as pessoas se aceitam melhor a si mesmas, tornam-se mais pacientes consigo mesmas. A aceitação alivia a pressão de fazer, ver e adquirir, que se acumula quando vivemos com a ideia equivocada de que tais atividades definem o nosso valor. Então podemos começar a compreender que cada um de nós é uma obra em processo, como afirma Rogers na sua obra Tornar-se Pessoa; todos nos encontramos num estado de desenvolvimento constante. E, periodicamente, com uma maior aceitação de si mesmo, e livre da pressão e da crítica constante, o indivíduo torna-se muito mais produtivo.
Confiar em si mesmo
Para viver a “boa vida”, tal como a vê Rogers, devemos aprender a confiar em nós mesmos. À medida que o indivíduo tende para a abertura, verifica que progride simultaneamente a sua capacidade para confiar em si mesmo e nos seus instintos e começa a sentir-se mais confortável, exercendo a sua capacidade para tomar decisões. Sem necessidade de reprimir parte alguma de si mesmo, tem maior capacidade para se sintonizar com todas elas, e isto dá-lhe acesso a uma diversidade de perspectivas e sentimentos, com a qual é mais capaz de avaliar as opções mediante as quais concretizará verdadeiramente o seu potencial. Vê com maior discernimento a direção que o seu verdadeiro eu deseja tomar e pode optar por aquilo que é realmente congruente com as suas necessidades. Ao não se encontrar à mercê, nem daquilo que a sociedade ou os seus pais podem tê-lo feito crer que quer, pode com maior facilidade existir no momento e ser verdadeiramente consciente do que na realidade quer. E agora pode confiar em si mesmo, “não porque seja infalível, mas porque pode estar completamente aberto às consequências de cada um dos seus atos e corrigi-los se os seus resultados não o satisfazem”, segundo as palavras de Rogers.
Ao viver a “boa vida”, sentimo-nos mais donos da nossa vida e mais responsáveis por nós mesmos. Este é outro dos princípios da filosofia de Rogers e procede de uma perspectiva existencial. O que decidimos fazer ou pensar é algo que nos pertence: não pode haver ressentimento quando identificámos por nós mesmos o que queremos e necessitamos e demos os passos necessários paia o obter. Ao mesmo tempo, há uma maior responsabilidade perante si mesmo e uma maior tendência para investir na própria vida. Não é raro ouvir o médico dizer que detesta medicina, mas que a exerce porque os seus pais o convenceram de que era a forma de conquistar o respeito e o reconhecimento, tanto deles como da sociedade. Em contraste, por exemplo, consta que as taxas de abandono ou fracasso na universidade dos alunos com escasso apoio familiar e que trabalham para pagar o seu curso são mais reduzidas.
As formas sobre como os outros podem influir nos nossos desejos e no modo como nos definimos a nós mesmos podem ser muito complexas. O ressentimento pode ficar profundamente enterrado no nosso interior quando atuamos seguindo os desejos de outros em vez dos nossos. Se os nossos atos se encontram livres de influências externas, sentimo-nos mais verdadeiros, com um controlo mais firme sobre a criação do nosso destino, e mais satisfeitos com os resultados.
O foco na pessoa
A filosofia de Rogers foi a pedra angular de uma nova tendência chamada psicologia humanista, iniciada por ele na década de 1950, juntamente com Abraham Maslow e Rollo May, e baseada na premissa de uma humanidade fundamentalmente sã e capaz de se desenvolver e realizar o seu potencial. Esta abordagem contrastava com a das principais terapias psicológicas do seu tempo — a psicanálise e o behaviorismo —, ambas centradas na patologia do indivíduo e na sua cura.
No início, Rogers chamou à sua abordagem “centrada no cliente”, mas logo passou a denominá-la “centrada na pessoa”, e desde o seu início foi fortemente influente na educação, na criação dos filhos, nos negócios e noutras áreas, além da clínica. Na psicoterapia centrada na pessoa, que Rogers descreveu como uma “terapia não diretiva”, o terapeuta assume o papel de um facilitador que ajuda o cliente a encontrar as próprias respostas, partindo da ideia de que é o cliente que melhor se conhece a si mesmo. Nesta psicoterapia, o próprio cliente identifica os seus problemas e determina a direção que deve tomar a terapia. Assim, por exemplo, o cliente pode preferir não se centrar na sua infância, mas em assuntos que está a enfrentar no trabalho, e o terapeuta pode ajudá-lo a descobrir que tipo de papel gostaria realmente de assumir. Rogers descreve este processo como “de apoio, não de reconstrução”; contudo, o cliente não deve procurar o terapeuta em busca de apoio; deve aprender a confiar o suficiente em si mesmo para ser independente e capaz de viver a “boa vida”.
O legado de Rogers
Rogers foi um dos psicoterapeutas mais influentes do século XX. A sua terapia não diretiva e centrada na pessoa marcou um ponto de inflexão no desenvolvimento da psicoterapia. Teve um papel-chave na configuração dos grupos de encontro da década de 1960, que estimulavam a comunicação aberta entre indivíduos. A ele se deve a difusão da orientação psicológica em áreas profissionais como a educação e o trabalho social e foi um pioneiro na utilização de uma comunicação mais eficaz para a resolução de conflitos internacionais.
Ao longo da história, o homem nunca deixou de se questionar porque estamos aqui e qual é o sentido da vida. A estas perguntas subjaz a necessidade de identificar aquilo que verdadeiramente nos satisfaz e a confusão sobre como encontrá-lo. Os psicanalistas diriam que a chave é a satisfação das pulsões biológicas inatas e os behavioristas falariam da importância de satisfazer as necessidades fisiológicas, como o alimento, o sono e o sexo. Contudo, a nova onda de pensamento psicoterapêutico da primeira metade do século XX acreditava que o caminho em direção à plenitude interior era muito mais complexo.
Um dos principais representantes da nova abordagem foi Abraham Maslow, psicoterapeuta considerado um dos fundadores do movimento humanista em psicologia. Maslow estudou a experiência humana atendendo aos aspetos mais importantes para nós: o amor, a esperança, a fé, a espiritualidade, a individualidade e a existência. Um dos pontos fundamentais da sua teoria era que, para alcançar o estado de consciência mais desenvolvido e atingir o maior potencial, isto é, para se autorrealizar, o indivíduo deve descobrir o seu verdadeiro propósito na vida e trabalhar por ele.
Em direção à autorrealização
Maslow concebeu um plano muito preciso para explicar a motivação humana e definir os passos que o ser humano tem de dar no seu progresso em direção à autorrealização. A sua famosa hierarquia de necessidades costuma representar-se como uma pirâmide com as necessidades primordiais na base e os outros requisitos essenciais para ter uma vida plena agrupados até ao pico.
A hierarquia de Maslow estrutura-se em duas grandes secções: na metade inferior da pirâmide encontram-se os quatro níveis que constituem as "necessidades de défice", que devem ser todas satisfeitas para que a pessoa possa aspirar à satisfação das "necessidades de crescimento". As necessidades de défice são simples e básicas; incluem as necessidades fisiológicas (alimento, água e sono), a necessidade de segurança (estar seguro e protegido do perigo), a necessidade de amor e de pertença (a proximidade aos outros e a sua aceitação) e a necessidade de autoestima (de sucesso e de reconhecimento).
Num nível superior, as necessidades de crescimento incluem as cognitivas (saber e compreender) e as estéticas (o desejo de ordem e de beleza) e, por último, os requisitos que definem o propósito da vida e conduzem à profunda satisfação espiritual e psicológica: a autorrealização e a autotranscendência. A autorrealização é o desejo do eu se ligar com algo mais elevado que nós mesmos — como Deus — ou ajudar os outros a concretizar o seu potencial.
Maslow também afirma que cada um de nós tem um propósito individual para si, para o qual está singularmente dotado, e parte do caminho em direção à plenitude consiste em identificar e perseguir tal propósito. Se uma pessoa não faz aquilo para que está mais bem dotada, não importa que todas as demais necessidades estejam satisfeitas, pois estará intranquila e insatisfeita. Cada um deve descobrir o seu potencial e procurar aquelas experiências que permitem realizá-lo; nas palavras de Maslow: "O que um homem pode ser, deve sê-lo".
Em 1942, enquanto o psiquiatra vienense Viktor Frankl se especializava na prevenção do suicídio e no tratamento da depressão, ele, a esposa, o irmão e os pais foram levados para um campo de concentração. Ali passou três anos e sofreu muitos horrores e perdas: foi o único que sobreviveu. Na sua obra O Homem em Busca de Um Sentido (1946), escrito depois destas experiências, Frankl explica que o ser humano conta com dois potentes recursos psicológicos que lhe permitem suportar as situações mais dolorosas e seguir em frente: a capacidade de decisão e a liberdade de atitude. Frankl assegura que não estamos à mercê do nosso ambiente nem dos acontecimentos, pois somos nós que decidimos como deixamos que nos moldem. Inclusive, o sofrimento pode ser visto de outra forma, segundo a nossa interpretação dos acontecimentos.
Frankl menciona o caso de um dos seus pacientes que sofria, pois sentia muito a falta da falecida esposa. Frankl perguntou-lhe se ele tivesse morrido antes, o que teria acontecido, e este respondeu que a mulher teria sofrido muito; então Frankl assinalou que ele, o seu paciente, poupara a esposa a tal dor, pelo que agora devia sofrê-la ele. Ao dar um sentido ao sofrimento, este torna-se suportável, “o sofrimento deixa de ser sofrimento quando encontra um sentido”. 0 sentido é algo que “não inventamos, mas sim que descobrimos”, segundo Frankl, e devemos ser nós próprios a encontrá-lo. E descobrimo-lo vivendo, especialmente através do amor e da criação de coisas e depende também da forma como decidimos ver as coisas.
Em meados do século XIX, filósofos como Friedrich Nietzsche e Søren Kierkegaard desafiaram os dogmas sociais e instaram à ampliação dos modos de pensar para alcançar um entendimento mais pleno da experiência humana, iniciando assim uma tendência que, com o tempo, receberá o nome de existencialismo. O livre-arbítrio, a responsabilidade pessoal ou a interpretação da experiência foram questões fundamentais para os existencialistas, cuja pergunta última era: o que significa existir para um ser humano?
Com a sua obra The Meaning of Anxiety (1950), o psicólogo Rollo May introduziu na psicologia esta abordagem filosófica centrada no ser humano; por isso, costuma-se considerar May o pai da psicologia existencial.
Uma abordagem existencial
May via a vida como um espetro da experiência humana e considerava os sofrimentos um dos seus componentes normais e não um sinal de patologia. Naturalmente, como seres humanos, tendemos a procurar experiências que nos façam sentir bem. Gostamos dos ambientes conhecidos e preferimos o que nos traz equilíbrio e conforto, tanto no plano físico como mental. Esta tendência, contudo, leva-nos a julgar e a etiquetar as experiências como "boas" ou "más" apenas em função do grau de prazer ou desconforto que proporcionam. Deste modo, prejudicamo-nos, de acordo com May, pois estamos a opor-nos a processos que conduzem a um desenvolvimento imenso se os aceitamos como parte natural da vida.
May propõe uma abordagem que tem ecos do pensamento budista e segundo o qual devem aceitar-se todos os tipos de experiência por igual sem rejeitar ou negar o que parece incómodo ou desagradável. Devem aceitar-se também os sentimentos "negativos" e não procurar evitá-los ou reprimi-los. O sofrimento e a tristeza não são patologias para serem tratadas, mas sim uma parte natural e essencial da vida humana e têm uma importância particular em relação ao crescimento psicológico.
O filósofo grego Epicteto afirmou, no ano 80 d. C., que aos homens não lhes perturba os acontecimentos, mas sim a perspectiva que têm deles. É este o principio em que se baseia a terapia racional comportamental (TREC), idealizada pelo doutor Albert Ellis em 1955, que se fundamenta na premissa de que as experiências não causam nenhuma reação emocional específica: esta é produzida pelo sistema de crenças do indivíduo.
Nas décadas de 1940 e 1950, quando trabalhava como psicanalista, Ellis comprovou que, ainda que muitos dos seus pacientes tomem consciência de si mesmos e das recordações da sua infância, os seus sintomas persistiam. Parecia que quando se resolvia um problema, o paciente colocava outro no seu lugar. O problema, decidiu, Albert Ellis, residia na forma de pensar das pessoas (a sua cognição) e fazia falta algo mais do que a mera tomada de consciência para o solucionar.
Pensamento irracional
Ellis denominou o seu método de trabalho "terapia racional" porque acreditava que a maioria dos problemas emocionais de longa duração se devia ao pensamento irracional. Uma das formas mais comuns em que se dá a irracionalidade, segundo Ellis, é a tendência para tirar conclusões extremas, especialmente negativas, sobre os acontecimentos. Por exemplo, se uma pessoa que pensa de forma irracional perde o seu trabalho, tal facto não é para ela algo meramente desafortunado ou desgraçado, mas sim terrível, considerando-se indigna porque a despediram e acredita que nunca mais voltará a encontrar trabalho. Ellis descreve as crenças irracionais como ilógicas, externas e daninhas, considera-as uma autossabotagem, pois têm consequências emocionais prejudiciais.
O pensamento racional tem o efeito contrário, e Ellis considera-o benéfico para o eu. Baseia-se na tolerância e na capacidade de suportar a angústia sem retirar conclusões catastróficas e assenta na crença de um potencial humano positivo. Não se trata de virar as costas aos fatores negativos para ver apenas e de forma ingênua o positivo, o pensamento racional tem em conta os sentimentos razoáveis de tristeza, culpa e frustração. O indivíduo que tem um pensamento racional pode perder o seu emprego, pode, inclusive, tê-lo perdido por sua culpa, mas não é por isso que se considera indigno, pode estar desgostado consigo mesmo, mas sabe que é possível conseguir outro emprego. O pensamento racional é equilibrado, dá espaço ao otimismo e está aberto às possibilidades; favorece a saúde emocional.
A noção do pensamento irracional de Ellis é influenciada pela ideia da "tirania dos deverias" de Karen Horney, pela preocupação de que as coisas deveriam ser de uma forma diferente de como são. A luta por reconciliar esses pensamentos com a realidade é dolorosa e interminável. O pensamento racional, em troca, baseia-se na aceitação e assume com serenidade que, às vezes, ocorrem coisas indesejáveis, mas que são parte da vida.
Resposta condicionada
Acostumamo-nos de tal forma às nossas respostas perante as pessoas e os acontecimentos que chegam a parecer quase automáticas; a nossa reação fica inextricavelmente ligada ao próprio acontecimento Ellis sugeria que temos de aprender a reconhecer que um acontecimento pode contribuir para um sentimento, mas que não o causa diretamente. A nossa resposta emocional depende do significado que damos ao sucedido, o qual determina, por sua vez, o pensamento racional ou irracional.
Como o nome indica, a terapia racional emotiva comportamental examina tanto a resposta emocional (o processo cognitivo) como o comportamento e pode mudar-se o comportamento alterando-se o modo de pensar. Ellis afirma que mudar o modo de pensar de alguém supõe ser capaz de reconhecer e logo de rebater as crenças irracionais, desafiando-as com pensamentos racionais.
Desafiar as crenças
Na TREC pede-se ao indivíduo que considere se tem ideias ou crenças dominantes sobre si mesmo e a sua situação na vida, já que estas influem nas respostas irracionais. Este processo é conhecido como "disputa". Por exemplo, um indivíduo pode pensar que "sou realmente a única pessoa fiável que conheço, ou que estou destinado a estar sempre sozinho neste mundo"; na terapia é animado a procurar na sua história pessoal as justificações racionais de tais carências: pode ser que tenha vivido a ruptura de vários casais e assim chegado a convencer-se de que o seu destino é estar sozinho ou que, de algum modo, é indigno de ser amado. A TREC anima as pessoas a dar espaço à dor causada pela perda ou pela solidão e a avaliar logicamente os fatores que levaram à perda, mas, ao mesmo tempo, procura dissuadi-las de acreditar que o que aconteceu uma ou duas vezes se repetirá sempre, e que por isso é impossível ser feliz.
Uma das dificuldades inerentes ao pensamento irracional é que tende a perpetuar-se, pois ao pensar, por exemplo, "nunca me acontece nada de bom", desaparece a motivação para procurar a ocasião em que sucedem coisas boas. O indivíduo que tem um pensamento irracional acha que é tão improvável ter boas experiências que deixa de as procurar, além disso, torna-se cego para as coisas boas que ocorrem de todas as formas. Muitos expressaram assim a ideia autoperpetuante: "Sim, tentei e sei que nunca acontecem coisas boas." Frase que racionaliza e reforça o seu sistema de crenças.
O pensamento irracional é um pensamento de "branco ou preto": impede que a pessoa reconheça todo o espetro de experiências positivas. Se um sistema de crenças defeituoso nos leva a interpretar as situações sempre de forma negativa, impede que ocorram experiências positivas. Ainda que costume dizer-se "ver para crer", o certo é que aquilo que vemos é aquilo em que acreditamos.
Teoria construtivista
A TREC é uma teoria construtivista, pois sugere que, ainda que as nossas preferências estejam influenciadas pela educação e a cultura, somos nós quem constrói a nossa realidade e as nossas crenças. Como terapia, procura revelar os pensamentos, sentimentos e atos inflexíveis e absolutistas e ajuda a pessoa a ver o modo em como escolhe "perturbar-se", como afirma Ellis, sugere como escolher caminhos mais saudáveis e como interiorizar novas crenças e mais benéficas. Conseguido isto, o terapeuta está a mais: uma vez que o cliente capta a ideia e aprende a tomar as suas decisões com plena consciência e a escolher com total liberdade, o terapeuta já não faz falta.
Uma terapia ativa
As teorias de Albert Ellis desafiaram a lenta metodologia da psicanálise e produziram a primeira forma de terapia cognitivo-comportamental, abordagem comum nos nossos dias. Perante a psicanálise, terapia passiva e a longo prazo, a de Ellis era uma terapia ativa que colocava a tarefa e o controlo decididamente nas mãos do cliente, como a de Carl Rogers. Ellis insistia frequentemente em que a teoria não era suficiente. "Há que apoiá-la com ação, ação e ação", afirmou. A TREC transformou-se numa das terapias mais populares das décadas de 1970 e 1980 e influenciou muito o trabalho de Aaron Beck, que descreveu Ellis como "um explorador, um revolucionário, um terapeuta, um teórico e um mestre".
O papel que uma pessoa assume na sua família de origem, isto é, naquela em que cresceu, costuma ser a semente da qual surge o adulto. A psicóloga norte-americana Virginia Satir reconheceu a importância da família original na formação da personalidade, examinou as diferenças entre uma família funcional e saudável e uma família disfuncional. Interessavam--lhe especialmente os papéis que adotam as pessoas como mecanismo de compensação quando falta uma dinâmica saudável entre os membros de uma família.
Uma vida familiar saudável apresenta mostras de afeto abertas e recíprocas e expressões de consideração e amor uns pelos outros. Satir insistiu, mais que nenhum outro terapeuta anterior, na importância das relações saudáveis, do cuidado e da compaixão para o desenvolvimento de uma mente equilibrada.
Jogo de papéis
Quando os membros de uma família não têm a capacidade de expressar abertamente a emoção e o afeto, tendem a surgir “papéis” que substituem as verdadeiras identidades, argumentou Satir. E descreveu os cinco tipos que, na sua opinião, costumam ser adotados, sobretudo em momentos de estresse: o que vê erros constantemente e se dedica a criticar (o “acusador”); o intelectual pouco afetuoso (o “calculista”); o que confunde as coisas para desviar a atenção das questões emocionais (o “que distrai”); o complacente que fica bem com todos (o “conciliador”); e o comunicador aberto, honrado e direto (o “nivelador”).
Só os niveladores mantêm uma postura saudável e congruente, em que os seus sentimentos interiores correspondem com o que comunicam ao resto da família. Os outros adotam os respetivos papéis porque a sua baixa autoestima faz com que tenham medo de partilhai os seus verdadeiros sentimentos interiores. Os conciliadores temem a desaprovação; os acusadores atacam os outros para ocultar que se sentem indignos; os calculistas servem-se do seu intelecto para não reconhecerem em si mesmos os seus sentimentos; e os que distraem — normalmente o mais jovem da família — acreditam que só vão gostar deles se os considerarem inofensivos.
Estes papéis podem permitir que a família funcione, mas também acabar por sufocar a capacidade de cada membro para revelar o seu verdadeiro eu. Satir acredita que para desaprender estas identidades falsas, seja de crianças, seja de adultos, devemos aceitar a autoestima como um direito. Só então será possível encaminhar-se em direção a uma existência verdadeiramente plena, baseada na comunicação direta, aberta e honrada.
A necessidade de vínculos emocionais fortes e positivos constitui o fundamento da concepção de Satir, que considerava o amor e a aceitação as forças mais poderosas para curar qualquer família disfuncional. A sua relação com os seus pacientes, uma relação estreita e compassiva, exemplificava a dinâmica que os encorajava a adotar.
Timothy Leary foi um ícone contracultura na década de 1960 e criou o lema talvez mais usado da época: Turn on, Tune in, Drop out [Excita-te, Sintoniza-te, Marginaliza-te]. Contudo, a ordem pela qual sugeria fazer as três coisas era ligeiramente distinta do sJogan.
Leary acreditava que a sociedade estava contaminada pela política e composta por comunidades estéreis e indiferenciadas que impediam o acesso ao sentido profundo que os verdadeiros indivíduos requerem. Portanto, o que devíamos fazer em primeiro lugar era distanciarmo-nos, afastarmo-nos (drop out), no sentido de nos libertarmos dos vínculos artificiais e chegar a ser autônomos no pensamento e na ação. Infelizmente, isto foi interpretado como uma rejeição à produtividade, coisa que Leary não pretendia.
A seguir, convidava-nos a afundarmo-nos no nosso inconsciente (turn on) e a “encontrar um saciamento que devolva ao templo de Deus o nosso próprio corpo”. Era um apelo a explorar níveis mais profundos de realidade, assim como os múltiplos níveis de experiência e consciência, as drogas eram um dos meios para o conseguir, e Leary, professor de Harvard, começou a experimentar a LSD.
Por último, propunha que nos sintonizássemos (tune in) com o exterior, voltar à sociedade com uma nova visão, procurando novos padrões de comportamento que refletissem a nossa transformação e ensinar aos outros as nossas descobertas.
O sucesso da psicoterapia costuma depender do fato de o paciente conseguir compreender-se melhor a si mesmo, a sua história e o seu comportamento, partindo da ideia de que, para superar a dor e mudar o comportamento, temos de conhecer as raízes dos nossos padrões emocionais. Por exemplo, um sofrimento demasiado prolongado depois de se ser abandonado pelo marido/mulher pode levar o afetado a compreender que tem um problema com o abandono porque a sua mãe o abandonou em criança. Não obstante, não eram poucos os terapeutas que consideravam que tal insight podia não ser necessário para superar a dor emocional, e alguns, como o psicólogo Paul Watzlawick, afirmam que até pode agravar o estado do paciente.
Watzlawick declarou não se recordar de um só caso em que um indivíduo mudasse devido ao aprofundamento no conhecimento de si mesmo (ou insight, como chamou a este processo). A crença de que a compreensão de acontecimentos passados ajuda a compreender os problemas do presente baseia-se numa visão linear de causa-efeito. Considerava melhor a ideia de uma causalidade circular no comportamento humano, segundo a qual tendemos a repetir as mesmas ações vez após vez.
Assim, o insight pode chegar, inclusive, a causar cegueira, impedindo que se veja tanto o problema real como a sua potencial solução. Watzlawick foi partidário da terapia breve, que se ocupa de problemas específicos de forma mais direta para obter resultados mais rápidos, e acreditava que para ter sucesso deve oferecer-se ao paciente uma relação de apoio.
Em finais do século XIX começou a difundir-se a ideia de que a diferença entre a doença mental e o sofrimento psicológico de uma pessoa normal era uma diferença de grau, mais que tipológica. Sigmund Freud afirmou que a neurose e a normalidade se encontram na mesma escala e que qualquer um pode sucumbir à perturbação mental em circunstâncias desfavoráveis. Foi neste contexto que surgiu a nova tendência cujo máximo representante foi R.D. Laing.
Biologia e comportamento
Como Freud, Laing desafiou os valores fundamentais da psiquiatria, rejeitando a sua concepção da doença mental como fenômeno biológico e sublinhando a importância das influências sociais, culturais e familiares que configuram a experiência pessoal. Apesar de nunca ter negado a dura realidade das doenças mentais, as suas opiniões contrastavam vivamente com a prática e as bases médicas da psiquiatria.
0 trabalho de Laing questiona a validade do diagnóstico psiquiátrico, partindo do pressuposto de que o processo comum para diagnosticar as doenças mentais não segue o modelo médico tradicional. Os médicos fazem exames e provas para diagnosticar doenças físicas, enquanto o diagnóstico psiquiátrico se baseia no comportamento, para depois ser tratado biologicamente com fármacos. Se o diagnóstico se baseia no comportamento, também o tratamento se deveria basear nele, acrescentando Laing que os fármacos prejudicam a capacidade de pensar, interferindo assim no processo natural de recuperação.
Sobre a esquizofrenia
0 trabalho principal de Laing consistiu em compreender e tratar a esquizofrenia, uma grave doença mental caraterizada pela alteração severa do funcionamento psicológico, e em explicá-la ao público não especializado. A esquizofrenia, segundo Laing, não se herda, sendo sim uma reação compreensível perante uma situação difícil de viver. Tinha em conta a teoria do “duplo vinculado” do cientista Gregory Bateson, que descreve a situação em que uma pessoa enfrenta expetativas em conflito e qualquer ação conduz a consequências negativas, produzindo uma angústia extrema.
A doença como avanço
Laing considerou o comportamento anormal e a fala confusa dos esquizofrênicos expressões válidas de angústia, revolucionando assim a visão da esquizofrenia. Segundo ele, os episódios psicóticos eram tentativas dos pacientes de comunicar o que os afligia e que deviam ser vistas como experiências catárticas e transformadoras que podiam levar a revelações pessoais importantes. Laing reconhecia que tais expressões são difíceis de entender, mas explicava que isso se deve a estarem envoltas na linguagem do simbolismo pessoal que só tem sentido a partir do interior do sujeito. A psicoterapia sem fármacos de Laing tenta compreender o simbolismo do paciente, escutando-o atenta e empaticamente, e baseia-se no pressuposto de que as pessoas são naturalmente saudáveis e de que a chama da doença mental é uma tentativa de recuperar esse estado.
Perante uma tragédia, há pessoas que ficam destroçadas, sucumbem ao desalento ou a uma depressão, perdendo às vezes a esperança e, inclusive, a vontade de seguir em frente. Ficam obcecadas com o acidente, sofrem de pesadelos, recordações recorrentes e ataques de ansiedade. Outras reagem de forma diferente e parecem capazes de aguentar não apenas os altos e baixos habituais da vida, mas também as perdas e os traumas potencialmente avassaladores; em vez de se abaterem ou deprimirem, demonstram a capacidade de lidar com circunstâncias dolorosas e seguir em frente.
Boris Cyrulnik interessou-se pela diversidade destas reações e, intrigado com as razões pelas quais umas pessoas se sentem tão afetadas pela desgraça, enquanto outras são capazes de recuperar, dedicou o seu estudo à chamada “resiliência” psicológica.
Cyrulnik concluiu que a resiliência não é uma qualidade inerente às pessoas, mas algo que se constrói através de um processo natural: “Por si só, a criança não tem resiliência alguma (...), é uma interação, um relação.” Construímos resiliência ao desenvolver relações. Estamos sempre “a construir-nos” a partir das pessoas e situações que se nos deparam, das palavras que trocamos e dos sentimentos que surgem. Poderíamos pensar que se solta uma única “ponta”, a nossa vida se desmoronará; a verdade é que, “se uma única ponta resiste, podemos voltar a começar de novo”.
O humor e as emoções positivas são fatores-chave para a resiliência. Os estudos de Cyrulnik revelaram que as pessoas mais aptas para suportar as dificuldades e os traumas da vida são capazes de ver um sentido nas tristezas, consideradas experiências úteis, com as quais podem aprender, e são capazes até de se rir. Os resilientes nunca perdem a capacidade de ver que as coisas podem melhorar no futuro, embora o presente seja doloroso.
Enfrentar o repto
Tradicionalmente, pensava-se que as pessoas mais resistentes eram menos emotivas, mas, de acordo com Boris Cyrulnik, a dor não é de modo algum menor para as pessoas mais resilientes do que para as outras: a diferença radica em como decidem utilizá-la. A dor pode persistir, inclusive toda a vida, mas para estas pessoas assume o repto que decidem assumir. O repto consiste em superar o ocorrido, encontrar força na experiência em vez de deixar que os vença e usar essa força para seguir em frente.
Com o apoio adequado, as crianças são especialmente capazes de recuperar dos traumas. Cyrulnik mostrou que o cérebro é maleável e consegue recuperar se lhe for permitido. O cérebro de uma criança traumatizada apresenta os ventrículos e o córtex encolhidos, mas se a criança receber apoio e carinho depois do trauma, antes de um ano o cérebro pode voltar à normalidade, como mostram as IRM.
Cyrulnik insiste na importância de não “etiquetar” as crianças que sofreram traumas, fazendo-as assim desembocar num futuro sem aparente esperança. O trauma tem dois componentes: o dano e a representação do dano. Amiúde a experiência pós-traumática mais danosa para as crianças consiste em experimentar humilhantes interpretações do sucedido por parte dos adultos. As etiquetas, disse Cyrulnik, podem ser mais prejudiciais do que a própria experiência.
Se as pessoas deixassem de se culpar pelas coisas que aconteceram na sua vida, o número de deprimidos cairia a pique. Esta premissa é a base do sucesso de Dorothy Rowe na altura de tratar do problema.
Somos educados na crença de que o mundo é um lugar justo e racional e que se formos bons, tudo nos correrá bem. Mas se as coisas nos correm bem quando somos bons, o que significa quando correm mal? A nossa crença num “mundo justo”, em que se premeia os bons e se castiga os maus, leva-nos a culparmo-nos pelas coisas más que nos acontecem.
Quando estamos magoados ou se sofremos alguma injustiça, temos tendência para nos perguntarmos: por que eu? E olhamos para trás para descobrir o que fizemos para provocar tal situação, inclusive se se tratar de um desastre natural. O sentimento de culpa, de impotência e vergonha surgem de forma irracional perante as desgraças, e isso pode levar à depressão.
Rowe explicou que somos nós que criamos e escolhemos as nossas crenças. Uma vez isto entendido, podemos libertar-nos da ideia de um mundo justo e pensar de forma mais racional nas experiências negativas. Podemos ter uns pais maus, perder o trabalho ou sofrer um furacão devastador, mas isso não sucede porque estejamos condenados ao infortúnio ou porque mereçamos que nos tratem mal. Para recuperar, temos de evitar personalizar os acontecimentos. Há que exteriorizá-los e compreender que as desgraças acontecem.
Antes de o psicanalista franco-canadiano Guy Corneau publicar Filhos do Silêncio (1989), a psicologia havia prestado pouca atenção à comunicação emocional entre os homens. Este livro apresenta a dificuldade das conversações íntimas entre homens de diferentes gerações e relata as tentativas do próprio autor para se ligar emocionalmente ao seu pai e procurar a sua aprovação, respondidas apenas com silêncio.
Resistência a dar aprovação
Corneau reconhece em tal experiência um padrão caraterístico dos homens, que com frequência são incapazes de dispensar aos seus filhos o afeto ou reconhecimento que estes anseiam. Quando o filho experimenta este silêncio, pode empenhar-se mais ou deixar de tentar, mas o silêncio fica irremediavelmente impresso na sua mente. Este fenômeno poderia dever-se à interação competitiva dos egos masculinos: o homem que elogia em excesso o filho poderia pôr em causa o seu próprio poder, que ficaria desvalorizado. Do ponto de vista do filho, se obtém aprovação com demasiada facilidade, sem certa resistência, o pai deixa de ser alguém a quem valha a pena impressionar. Ao que parece, em quase todas as sociedades se costuma achar que o homem não pode ser forte e aberto ao mesmo tempo.
Guy Corneau defende que o referido comportamento supõe uma enorme desvantagem para os homens, a quem se nega a oportunidade de expressar os seus afetos pelos filhos, ao mesmo tempo que estes se veem privados dele.
Um grupo de psicólogos alemães que discordou das escolas de pensamento então predominantes desenvolveu, em finais do século XIX, uma nova abordagem científica e marcadamente integradora, que denominaram Gestalt. Wolfgang Kohler, fundador do novo movimento juntamente com Max Wertheimer e Kurt Koffka, explicou que o termo significa tanto modelo como, quando se aplica à teoria, “unidade organizada”. Esta nova abordagem (que não deve ser confundida com a terapia Gestalt, desenvolvida bem mais tarde) partia da ideia de que conceitos como a percepção, a aprendizagem e a cognição deviam considerar-se unidades completas, em vez de serem estudados elemento a elemento.
Segundo Köhler, o behaviorismo, a tendência dominante, era demasiado simplista e passava por cima da natureza dinâmica da percepção.
Pavlov e Thorndike pensavam que os animais aprendiam por tentativa e erro mediante um condicionamento de estímulo-resposta. Contudo, Köhler acreditava que possuíam capacidades de descobrimento (insight) e inteligência e teve oportunidade de o demonstrar no centro de investigação sobre antropoides, que dirigiu em Tenerife de 1913 a 1920, onde estudou chimpanzés que tinham de enfrentar tarefas de resolução de problemas.
Aprendizagem por descobrimento
As observações de Köhler confirmaram a sua convicção e demonstraram que a Gestalt podia explicar os processos de resolução de problemas e de aprendizagem. Perante um problema, como alcançar a comida, os chimpanzés fracassavam nas tentativas iniciais, mas logo se detinham e pareciam refletir sobre a situação antes de tentarem outra solução, que, frequentemente, supunha a utilização de ferramentas, como paus da zona de jogo. Depois, ao deparar-se-lhes um problema parecido, aplicavam logo essa mesma solução. Köhler concluiu que este comportamento revelava um processo cognitivo de tentativa e erro prévio à ação. Primeiro resolviam mentalmente o problema e depois, a seguir à descoberta, experimentavam a solução. Isto contradizia a postura behaviorista, segundo a qual a aprendizagem é uma resposta condicionada a um estimulo e reforçada por uma recompensa. Os chimpanzés aprendiam mediante a percepção do problema, não pela procura da recompensa.
Tratava-se da demonstração do modelo dinâmico do comportamento de Köhler, que partia da organização perceptiva, e não de uma aprendizagem passiva por resposta a recompensas. O modelo (Gestalt) da aprendizagem por descobrimento, ou compreensão súbita (erro, pausa, percepção, descobrimento, ensaio), é ativo, mas não necessariamente evidente para quem observa as tentativas do chimpanzé para resolver os problemas, sobretudo porque é impossível ver a organização perceptiva da mente do animal. O instinto, a resposta aparentemente automática para a solução de um problema, é mediado por este processo de aprendizagem por descobrimento e é um modelo ativo e dinâmico.
Bluma Zeigarnik preparava o seu doutoramento em Berlim quando um seu professor, Kurt Lewin, lhe disse que observara que os empregados de mesa se recordavam melhor dos pedidos das mesas que ainda não tinham pagado do que das que já o tinham feito. Perguntou-se então se a memória daria prioridade às tarefas inacabadas para as recordar melhor do que as finalizadas. Concebeu uma experiência em que dava aos participantes tarefas ou quebra-cabeças simples e estes eram interrompidos a meio destas atividades. A seguir, quando se lhes perguntava o que recordavam das tarefas, tornava-se evidente que a probabilidade de recordarem os pormenores das interrompidas duplicava, independentemente de se lhes dar depois a oportunidade de as terminar ou não. Zeigarnik ponderou que isto podia dever-se ao facto de a tarefa ainda não ter sido finalizada, pelo que a recordação era guardada de um modo diferente e mais efetivo.
As repercussões deste fenômeno, conhecido como “efeito Zeigarnik”, foram importantes. Zeigarnik defendeu que os estudantes, sobretudo as crianças, retinham mais se pudessem fazer pausas enquanto estudavam. Contudo, não lhe foi dada muita atenção até que a memória voltou a estar no primeiro plano da investigação, na década de 1950. Esta teoria foi aceite como um grande avanço em relação à compreensão da memória e foram descobertas aplicações práticas tanto na educação como na publicidade e nos meios de comunicação.
Durante a década de 1920, vários psicólogos recorreram à neurologia à procura de respostas sobre a aprendizagem e a memória. Entre eles destacou-se Karl Lashley, um dos primeiros a investigar a função que desempenham as ligações nervosas; foi um dos seus alunos, o canadiano Donald Hebb, quem formulou uma teoria para explicar o que sucede durante o processo da aprendizagem associativa.
Hebb defendeu que os neurônios se associam ao ativar-se de forma simultânea e rapidamente: as sinapses, ou ligações, que as unem ficam reforçadas. As experiências repetidas levam à formação de “grupos neuronais” no cérebro, uma teoria que costuma resumir-se assim: “As células que disparam juntas, acabam juntas.” De igual forma, diferentes grupos neuronais podem ligar-se entre eles e formar uma rede ou “sequência de fase” que reconhecemos como um processo cognitivo.
Hebb concluiu que este processo associativo se torna evidente especialmente na aprendizagem ao longo da infância, quando se formam os novos grupos neuronais e as novas sequências de fase. No seu livro The Organization of Behavior (1949), apresentava o exemplo de um bebê que ouvia passos, o que estimularia vários neurônios; se a experiência se repetir, formar-se-ia um grupo neuronal. A partir desse momento, quando o bebê ouve passos, ativa-se um grupo neuronal, enquanto este permanece ativado, vê um rosto, umas mãos agarram-no... o que ativa outros grupos neuronais. Deste modo, o "grupo passo" associa-se ao "grupo rosto" e ao "grupo ser recolhido por uns braços". Uma vez que tal tenha acontecido, sempre que o bebê ouça passos, ativar-se-ão os três grupos. Pelo contrário, a aprendizagem nos adultos tende a consistir na reorganização de grupos e de sequências de fase já existentes e não na formação de outros novos.
A teoria de Hebb estabeleceu um marco na neurociência moderna e a sua explicação da aprendizagem neuronal, conhecida como aprendizagem hebbiana, continua a ser o modelo aceite.
A psicologia do desenvolvimento viu-se dominada durante grande parte do século XX pela perspectiva de Jean Piaget, que explicou o desenvolvimento cognitivo da criança em fases de maturidade como resultado da sua curiosidade natural por explorar o ambiente A teoria de Lev Vygotsky, publicada em inglês pouco depois da de Piaget, também afirmava que a criança adquire conhecimento por meio da experiência, mas ampliava o alcance da palavra “experiência” para ele abarcava também a experiência cultural e social. Defendia que as crianças aprendem fundamentalmente através da interação com outras pessoas
Na década de 1960, a revolução cognitiva ia ganhando força e os processos cognitivos explicavam-se cada vez mais mediante a analogia do cérebro com um processador de informação Jerome Bruner transformou-se numa figura-chave nesta orientação, depois de estudar a influência que exercem as necessidades e as motivações sobre a percepção e concluir que vemos o que necessitamos de ver. Então interessou-se pelo desenvolvimento da cognição e começou a estudar os processos cognitivos nas crianças.
A mente como um processador
Bruner começou a investigar aplicando modelos cognitivos às ideias de Piaget e de Vygotsky, mas em vez de estudar a construção do desenvolvimento cognitivo, concentrou-se no processamento da informação: como adquirimos e armazenamos o conhecimento. Acreditava que a aquisição de conhecimento é um processo experimental, mas entendia-o como uma tarefa social, não individual. Defendia que a aprendizagem não é possível sem acompanhamento para o seu desenvolvimento, a criança necessitava que a ensinassem. Contudo, “ensinar... não consiste em conseguir que a mente memorize resultados, mas em fomentar que participe no processo”. Ao adquirir conhecimentos, precisamos de participar ativamente e raciocinar, não nos limitando a recebê-los passivamente; é assim que dotamos de significado o conhecimento. Na psicologia cognitiva, o raciocínio equivale ao processamento da informação, pelo que a aquisição de conhecimento deve ser entendida como um processo, não como um produto ou resultado, necessitando de alento e orientação no processo, e para Bruner, nisso consiste a incumbência de um professor.
Em O Processo da Educação (1960) expôs a ideia de que as crianças deveriam ser participantes ativas na sua própria educação. Este livro transformou-se num texto fundamental que alterou a política educativa norte-americana tanto a nível governamental como nas escolas.
No final da II Guerra Mundial, a psicologia social tinha-se transformado num campo de investigação relevante, impulsionada a partir dos EUA por Kurt Lewin, fundador do Centro de investigação de Dinâmica de Grupo do instituto Tecnológico do Massachusetts, em 1945.
Ali trabalhou Leon Festinger, um dos seus antigos alunos. Ao princípio sentiu-se atraído pelo trabalho de Lewin no modelo da psicologia da Gestalt, mas logo se interessou pela psicologia social. Durante as suas investigações, Festinger observou que as pessoas procuram dar sentido ao seu mundo e que a congruência é um fator fundamental para o conseguir. Assim, adotam rotinas e hábitos, como comer a horas regulares e ter lugares preferidos nos transportes públicos, cuja alteração as faz sentir incomodadas. Isto também ocorria em relação aos modelos de pensamento habituais e às crenças. Quando uma opinião muito consolidada enfrenta provas que a contradizem, surge um incômodo estado interno de incongruência que Festinger denominou "dissonância cognitiva". A sua conclusão foi que o único modo de eliminar o mal-estar era conseguir que a crença e as provas fossem congruentes.
Convicção inquebrantável
Em 1954, Festinger leu num jornal regional um artigo que lhe oferecia a oportunidade de estudar as reações à dissonância cognitiva. Uma seita afirmava ter recebido mensagens de alienígenas que avisavam sobre uma inundação que destruiria o mundo no dia 21 de dezembro, os discos voadores só resgatariam os verdadeiros fiéis. Festinger e os seus colegas da Universidade do Minnesota contataram os membros da seita e entrevistaram-nos antes da suposta catástrofe e de novo passada a data, sem que as predições se tivessem concretizado.
O hoje famoso estudo de Oak Park, feito sobre esse grupo e publicado por Festinger, Henry Riecken e Stanley Schacter em When Profhecy Fails, descreve as reações dos membros da seita . O senso comum levar-nos-ia a pensar que o fracasso da predição e a consequente dissonância cognitiva os teriam levado a abandonar as suas crenças, mas ocorreu exatamente o contrário. Ao aproximar-se o dia do Juízo Final, chegou outra mensagem que dizia que, graças à dedicação do grupo, o mundo seria perdoado. O fervor dos crentes aumentou. Festinger já o prevera, porque aceitar provas contraditórias suporia intensificar a dissonância entre as crenças passadas e a rejeição presente. A grande inversão na crença (reputação, empregos e dinheiro) não fez mais que multiplicar este efeito.
Festinger concluiu que a dissonância cognitiva, ou pelo menos a tentativa de a evitar, torna muito pouco provável que uma pessoa com uma firme convicção mude de opinião perante factos que a contradigam: é imune às provas e à argumentação racional. Como explica: "Se decidimos que não estamos de acordo, afasta-se. Se lhe mostramos factos e números, duvida das fontes. Se apelarmos à lógica não entende".
George Armitage Miller disse em certa ocasião: "O meu problema é um número inteiro que me persegue. Segue-me para todos os lados desde há sete anos”. Assim, começa o seu famoso artigo “O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limites da nossa capacidade para processar a informação”. E prossegue: (...) o seu aparecimento segue um modelo concreto. O seu número tem algo fora do normal ou eu sofro de mania persecutória Pese o caráter jocoso do título e da introdução, Miller falava muito a sério e o seu artigo logo se transformou numa das obras fundamentais da psicologia cognitiva e do estudo da memória operacional (a capacidade de recordar e utilizar informação durante um período limitado).
Miller publicou o artigo em The Psychological Review, em 1956, quando a psicologia cognitiva começava a impor-se sobre o behaviorismo: Esta nova orientação que Miller adotou, entusiasmado, centrava-se no estudo dos processos mentais, como a atenção e a memória. Ao mesmo tempo, os avanços informáticos aproximavam a realidade da ideia da inteligência artificial, e enquanto alguns matemáticos, como Alan Turing, comparavam os processadores informáticos com o cérebro humano, os psicólogos cognitivos faziam o contrário viam nos computadores um possível modelo para explicar como funciona o cérebro. Os processos mentais descreviam-se em termos de processamento de informação.
Durante a II Guerra Mundial, Miller trabalhou na percepção do discurso, tema da sua tese de doutoramento. Depois centrou a sua atenção na psicolinguística, o que o levou a interessar-se pelas comunicações, campo então de desenvolvimento e que, por sua vez, o introduziu no campo da teoria da informação, Claude Shannon, uma figura das comunicações que investigava formas efetivas de transformar mensagens em sinais eletrônicos, foi um dos maiores inspiradores. O modelo comunicativo de Shannon, consistente em traduzir as ideias em códigos bits e base de toda a comunicação digital, induziu Miller a estudar os processos mentais de igual forma e a assentar as bases do moderno campo da psicolinguística no seu livro de 1951 Language and Communication.
Sete categorias
Miller adotou de Shannon o método para medir a informação e a ideia de “largura de banda” (a quantidade de informação que o sistema é capaz de processar) e aplicou-a ao modelo de memória a curto prazo como processador de informação. Foi nesse momento que Miller começou a sentir-se “perseguido” pela recorrência e a possível importância do número sete; “às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos mas nunca muda tanto que seja irreconhecível”.
O número “mágico” apareceu pela primeira vez nalgumas experiências para determinar o alcance do critério absoluto e com quanta precisão somos capazes de distinguir vários estímulos diferentes. Numa experiência que Miller cita no seu artigo, o físico e perito em acústica Irwin Pollack tocava várias notas musicais diferentes perante as pessoas que a seguir teriam de assinalar um número para cada uma. Quando se tocava até sete notas, não revelavam qualquer dificuldade em assinalar um número para cada uma, mas se ultrapassava as sete (com um desvio de uma ou duas), os resultados pioravam de forma drástica.
Noutra experiência feita em 1949 por Kaufman, Lord e outros, os investigadores mostravam às pessoas grupos de pontos de cores sobre um ecrã. Os participantes podiam contá-los com precisão se havia menos de sete pontos, mas quando eram mais, só conseguiam fazer estimativas do seu número. Isto sugere, portanto, que o nível de atenção se limita em torno de seis, o que levou Miller a questionar-se se o mesmo processo básico apareceria tanto na classe de critério absoluto como no da atenção.
As notas e os pontos destas experiências são o que Miller chama “estímulos unidimensionais” (objetos que se diferenciam entre si num único aspeto), mas o que a ele lhe interessava era quanta informação do discurso e da linguagem podemos processar de forma eficaz, e a forma como as palavras são estímulos multidimensionais.
Analisou os estudos posteriores de Pollack em que as simples notas individuais foram substituídas por notas que podiam variar de seis formas (por exemplo em tom, duração volume e colocação). Com surpresa e apesar de aparentemente haver mais informação, os resultados continuavam a apontar para um limite diferencial de sete, mais ou menos dois. A diferença é que ao aumentar as variáveis, a precisão descia ligeiramente. Miller afirma que isto permite-nos emitir valorizações mais ou menos simples de várias coisas em simultâneo. Isso poderia explicar porque podemos reconhecer e distinguir algo tão complexo como a palavra falada ou o rosto humano sem ter de processar todos os sons ou traços em separado.
Miller entende a mente humana como um sistema de comunicação: à medida que a informação que entra aumenta, a que é transmitida ao cérebro aumenta também ao princípio, até se deter na largura de banda da pessoa. A continuação levou um pouco mais longe o conceito de largura da banda e aplicou-o ao modelo da memória a curto prazo Na sua altura, William James propusera a existência de memória de curto prazo e já há algum tempo que se aceitava de forma parcial o modelo do cérebro como processador de informação entre a entrada sensorial e a memória a longo prazo. Os alemães Wilhelm Wundt e Hermann Ebbinghaus sugeriram que a memória a curto prazo tinha uma capacidade limitada a sete itens (uma vez mais, o número sete). Miller pensava que a capacidade do que denominava memória de trabalho correspondia aos limites do critério absoluto e ao nível de atenção.
Fragmentos e sequências
Em termos da nossa capacidade para processar informação, se a memória de trabalho se encontra limitada a cerca de sete elementos, existiria um gargalo que restringiria a quantidade de informação que se consegue armazenar na memória a longo prazo. Miller sugeriu que havia muito mais do que o número sete, por muito mágico que soasse Os estímulos multidimensionais dos estudos anteriores podiam ser entendidos como conjuntos de vários “fragmentos” de informação relacionada, que eram tratados como um mesmo elemento. Miller acreditava que, por esse mesmo princípio, a memória operacional organiza os “fragmentos” de informação em sequencias, para superar o excesso de informação como consequência das limitações do critério absoluto e da memória de curto prazo. De qualquer das for mas, uma sequência não é um agrupamento arbitrário, mas uma unidade significativa composta por vários fragmentos. Por exemplo, uma sequência de 21 letras são 21 fragmentos de informação, mas se decomposta em palavras de três letras, transforma-se, nesse caso, em sete sequências. A sequenciação depende da nossa capacidade para encontrar modelos e relações nos fragmentos de informação. Para quem fale outro idioma diferente, as sete palavras carecerão de significado e não constituirão sete sequências, mas sim 21 fragmentos.
A teoria de Miller apoiava-se também em experiências anteriores de outros psicólogos. Em 1954, Sidney Smith dirigiu experiências em que se memorizavam sequências de dígitos binários, séries de uns e zeros sem sentido para quem desconheça o sistema binário, Smith decompôs as séries em fragmentos de pares de dígitos, no princípio, e a seguir de três, quatro e cinco e “recodificou-os”, traduzindo as sequências binárias em números decimais: 01 transformou-se em 1, 10 em 2, etc. Descobriu que com este sistema era possível memorizar e reproduzir com precisão uma série de 40 dígitos ou mais, sempre que o número de sequências se limitasse ao nível da memória de trabalho.
A sequenciação e a recodificação constituem uma evidente ajuda para reter na memória grandes quantidades de informação, mas são muito mais do que truques mnemónicos. Assim, Miller apontou que esta forma de recodificar é uma “arma com uma potência extraordinária na altura de aumentar a quantidade de informação que conseguimos processar”. Permite ampliar de forma significativa o gargalo da garrafa.
O estudo da memória
Miller abandonou o tema da memória nas suas investigações posteriores, mas houve outros que aprofundaram a sua teoria. Um exemplo é o do psicólogo inglês Donald Broadbent, que susteve que, provavelmente, o número da memória de trabalho era inferior a sete, algo que as experiências de Nelson Cowan confirmaram posteriormente. Cowan concluiu que era de cerca de quatro fragmentos, em função da longitude e da complexidade dos mesmos e da idade do sujeito.
Na conclusão do artigo, Miller reduz a importância do número que deu origem ao mesmo: Talvez haja algo profundo e significativo em todos estes setes... mas suspeito que não é mais de que um mau exagero pitagórico.
Duas grandes escolas de pensamento surgiram em princípios do século XX, quando a psicologia já se estabelecera como um campo de estudo de pleno direito, tratava-se do behaviorismo, cujas origens remontavam as experiências de Ivan Pavlov e que os EUA adotaram com entusiasmo, e a psicanálise de Sigmund Freud e dos seus seguidores, que constituiu a base da psicologia clínica. Ambas as escolas tinham pouco em comum. Por um lado, os behavioristas recusavam a abordagem introspetiva e filosófica dos primeiros psicólogos e esforçavam-se por proporcionar à disciplina uma base científica mais sólida. Por outro lado, os psicanalistas baseavam a exploração das introspeções em teorias, não em provas empíricas.
A revolução cognitiva
Até meados do século XX, ambas as correntes se viram submetidas a uma análise crítica. Embora a psicologia cognitiva começasse a superar o behaviorismo no âmbito experimental, o ambiente clínico não oferecia alternativas ao modelo psicanalítico. A psicoterapia evoluíra de várias formas, mas todas tinham em comum a ideia psicanalítica básica da exploração do inconsciente. Alguns psicólogos, entre os quais se encontrava Aaron Beck, começaram a questionar esta forma de terapia.
Beck obteve o título de psiquiatra em 1953, nos alvores da “revolução cognitiva”, quando a psicologia experimental se centrava no estudo dos processos mentais. Contudo, a abordagem prática dos psicólogos cognitivos parecia-se muito com a dos behavioristas. Inclusive podiam chegar a ser mais rigorosos na procura de provas para validarem as suas teorias. Beck não foi exceção. Formara-se e exercera como psicanalista, mas acabou por duvidar da efetividade da terapia. Não encontrou estudos fiáveis sobre as taxas de sucesso da psicanálise; só provas anedóticas e estudos de caso. Segundo a sua experiência, só uma minoria dos pacientes melhorava com a análise, e o consenso geral entre os terapeutas era de que alguns melhoravam, outros pioravam e outros continuavam como estavam
Uma das suas principais preocupações era a resistência de muitos psicanalistas ao estudo científico e objetivo. Em comparação com a psicologia experimental ou com a medicina, a psicanálise parecia ser, em grande medida, uma questão de fé, e os resultados variavam muito de um terapeuta para outro. Frequentemente, a reputação de um analista em concreto baseava-se no seu carisma pessoal. Beck concluiu que a mística psicanalítica era avassaladora... parecia um movimento evangélico. Muitos psicanalistas entendiam as críticas às suas teorias como um ataque, e Beck descobriu que a resposta mais provável à mínima dúvida sobre a validade da psicanálise era um ataque pessoal. Certa altura viu o seu requerimento para fazer parte do Instituto Psicanalítico Americano rejeitado porque o seu “desejo de levar a cabo estudos científicos indicava que não se tinha analisado corretamente”. Assim, para alguns analistas, quem encontrava fissuras
Beck desconfiava da circularidade destes argumentos e da relevância da personalidade do terapeuta. Isto, juntamente com a sua experiência como psicanalista, impulsionou-o a estudar de forma exaustiva todos os aspetos da terapia e a procurar formas de a melhorar. Depois de uma série de experiências concebidas com o objetivo de avaliar a base e o tratamento da depressão, um dos motivos mais apresentados nas consultas de psicoterapia, Beck concluiu que, longe de confirmar a ideia de que este transtorno se podia tratar mediante a análise das emoções e das pulsões inconscientes, os resultados apontavam numa direção bem diferente.
Mudar as percepções
Quando descreviam a sua depressão, os pacientes de Beck costumavam expressar ideias negativas e involuntárias sobre si mesmos, do seu futuro e da sociedade em geral. Beck concluiu que estes pensamentos automáticos, ou a forma como os pacientes percebiam as suas experiências (a sua cognição das mesmas), não eram um sintoma da depressão, mas sim a chave para encontrar um tratamento eficaz. Esta ideia, que aprofundou na década de 1960, estava de acordo com o desenvolvimento paralelo da psicologia experimental, que confirmara o predomínio da psicologia cognitiva mediante o estudo de processos mentais como a percepção.
Quando Beck aplicou ao tratamento um modelo cognitivo, apercebeu-se de que o primeiro passo para que os pacientes superassem a depressão era ajudá-los a detectar e avaliar o que era real e o que era distorcido nas suas percepções, o que chocava diretamente com a psicanálise convencional, que procurava e analisava impulsos, emoções e repressões subjacentes. A terapia cognitivas de Beck considerava tal desnecessário e até contraproducente. A percepção do paciente podia ser tratada diretamente porque, como o mesmo costumava afirmar com frequência, “à superfície há mais do que parece à primeira vista”.
Com isto queria dizer que as manifestações imediatas da depressão, como os pensamentos automáticos negativos, já proporcionam a informação necessária para o tratamento. Se estes pensamentos forem examinados e comparados numa perspectiva objetiva e racional da situação, o paciente poderá reconhecer o quão distorcida está a sua percepção. Por exemplo, um paciente a quem for oferecida uma promoção profissional pode expressar ideias negativas como: “Vai ser muito difícil e vou fracassar, uma percepção da situação que cria ansiedade e tristeza. Entender a promoção como uma recompensa ou como um desafio seria mais racional. O paciente não se sente deprimido pelo que lhe acontece, mas como o percebe. A terapia cognitiva poderia ajudá-lo, por um lado, a entender que a sua percepção é parcial e, por outro, a encontrar uma forma mais realista ou ampla de pensar na situação.
Provas empíricas
A terapia cognitiva de Beck revelou-se eficaz para muitos dos seus pacientes. E mais, Beck conseguiu demonstrar que funcionava porque aplicou métodos científicos para se assegurar de que tinha provas empíricas que sustentavam as suas conclusões. Também concebeu sistemas de avaliação especiais para os seus pacientes, com o objetivo de seguir os seus progressos de perto. Os resultados demonstraram que a terapia cognitiva conseguia que os pacientes se sentissem melhor, e mais rapidamente, do que a psicanálise tradicional. A insistência de Beck em apresentar provas das suas afirmações facilitou a abertura desta terapia ao estudo objetivo. O que pretendia era, sobretudo, evitar a auréola de guru que rodeava muitos psicanalistas de sucesso, e esforçou-se por demonstrar que o eficaz era a terapia, não o terapeuta.
Beck não foi o único psicólogo e tampouco o primeiro a sentir-se satisfeito com a psicanálise, mas a sua aplicação do modelo cognitivo representou uma grande inovação. O trabalho de Albert Ellis, que desenvolvera a terapia racional emotiva comportamental (TREC) em meados da década de 1950, foi uma das que mais influenciaram a sua reação contra a psicanálise e, sem dúvida, conhecia o trabalho dos behavioristas de todo o mundo, como os sul-africanos Joseph Wolpe e Arnold A. Lazarus. Ainda que com orientações diferentes, as terapias de ambos os psicólogos partilhavam com a de Beck uma metodologia totalmente científica e a recusa da importância da origem inconsciente dos transtornos mentais e emocionais.
Uma vez que o seu sucesso ficou demonstrado, a terapia cognitiva foi aplicada cada vez com maior frequência no tratamento de doentes com depressão. Posteriormente, Beck verificou que podia aplicar-se também a outros transtornos, como os relacionados com problemas de personalidade e até à esquizofrenia. Sempre que demonstrasse a sua efetividade, Beck mostrava-se aberto a novas ideias, e tal como muitos psicoterapeutas ao longo da década de 1980, incorporou ele- mentos da terapia behaviorista nos seus tratamentos. É esta a origem de muitas formas de tratamento da terapia cognitivo-comportamental que os psicólogos utilizam atualmente.
As inovadoras investigações levadas a cabo por Beck marcaram um ponto de inflexão na psicoterapia, e a sua influência foi considerável. Além de introduzir na psicologia clínica a abordagem cognitiva, Beck submeteu-a ao estudo científico ao mesmo tempo que expunha as falhas da psicanálise. Por outro lado, introduziu vários métodos com o objetivo de avaliar a natureza e a gravidade da depressão que ainda são utilizados na atualidade: as escalas de depressão, de falta de defesa, de intenção suicida e de ansiedade de Beck.
Na Grã-Bretanha, a psicologia, enquanto disciplina acadêmica, estava na retaguarda da Europa e dos EUA antes da II Guerra Mundial. Os psicólogos britânicos tendiam a seguir os passos das escolas comportamentais e psicoterapêuticas surgidas noutros lugares. Os escassos departamentos universitários de psicologia baseavam-se na mesma orientação que os das ciências naturais: aprofundavam as aplicações práticas em vez de desenvolverem especulações teóricas.
Foi este ambiente acadêmico tão pouco prometedor que Donald Broadbent, destinado a ser um dos psicólogos cognitivos mais influentes, encontrou quando deixou a Força Aérea Real Britânica (RAF) no final da guerra para estudar psicologia No entanto, o enfoque prático foi ideal para ele, permitindo-lhe aproveitar a experiência que adquirira como piloto e engenheiro aeronáutico durante o conflito bélico.
Psicologia prática
Broadbent alistou-se na RAF aos 17 anos e foi enviado para os EUA para fazer formação. Ali descobriu a psicologia e o tipo de problemas que aborda, o que o levou a entender os problemas que os pilotos às vezes têm de enfrentar. Convencido de que estes problemas podiam ter causas e soluções psicológicas, e não apenas mecânicas, ingressou na Universidade de Cambridge, após deixar a RAF, determinado a estudar psicologia.
Ali, o seu mentor for Frederic Bartlett, um cientista metódico e o primeiro professor de psicologia experimental de Inglaterra, em quem encontrou uma alma gêmea. Bartlett estava convencido de que as descobertas teóricas mais relevantes costumavam aparecer quando se procurava soluções para problemas práticos. Broadbent concordava com esta ideia e continuou a trabalhar com Bartlett na nova Unidade de Psicologia Aplicada (APU), após a sua inauguração em 1944. Foi aí que levou a cabo o seu trabalho mais inovador Decidiu deixar de lado o enfoque comportamental, dominante na altura, e concentrar-se nos problemas práticos que encontrara na RAF. Por exemplo, às vezes, os pilotos confundiam comandos de aparência semelhante: em alguns aviões, a alavanca para fazer subir o trem de aterragem era idêntica à que fazia subir os ailerons, e as duas estavam juntas debaixo do assento, o que provocava inúmeros acidentes. Broadbent pensou que isso poderia ser evitado se fossem consideradas as capacidades e as limitações dos pilotos na fase de desenvolvimento do aparelho, em vez de deixar que aparecessem durante o voo.
Broadbent começou a interessar-se pela psicologia com a intenção de entender melhor o que alterava as capacidades dos pilotos. Tinham sem dúvida, de processar uma grande quantidade de informação de entrada e a seguir selecionar os dados necessários para tomar as decisões corretas, Broadbent acreditava que os erros eram mais frequentes quando havia demasiadas fontes de informação. Esta forma de pensar também foi influenciada por um outro produto da investigação bélica: o desenvolvimento dos computadores e da ideia de “inteligência artificial”, Kenneth Craik, o primeiro diretor da APU, deixara importantes textos manuscritos e diagramas de fluxo na unidade onde comparava o processamento da informação humana com a artificial, que Broadbent teve, sem dúvida, ocasião de estudar.
Ao mesmo tempo, criptoanalistas como Alan Turing tinham abordado o conceito de processamento da informação e, já no pós-guerra, este foi aplicado ao de “máquina pensante”. A comparação do funcionamento do cérebro humano com o de uma máquina era uma analogia muito poderosa, mas foi Broadbent quem a inverteu, sugerindo que o cérebro humano era uma máquina de processar informação. Isto é o que, em essência, distingue a psicologia cognitiva do behaviorismo: o estudo dos processos mentais em vez da sua manifestação no comportamento.
Para estudar o funcionamento da atenção, Broadbent teve de desenhar experiências que apoiasse as suas intuições. A sua formação como engenheiro impedia-o de se sentir satisfeito até encontrar provas suficientes sobre as quais construir uma teoria que, além disso, tinha de ter aplicação prática. A APU centrava-se na psicologia aplicada, que, segundo Broadbent, não tinha só que ver com a clínica, mas também com os benefícios para a sociedade em geral, já que foi sempre muito consciente de que as suas investigações eram financiadas por fundos públicos.
Uma voz de cada vez
O seu conhecimento do controlo do tráfego aéreo inspirou uma das suas experiências mais importantes. O pessoal de terra tinha de gerir ao mesmo tempo diversas entradas de informação, procedente dos aviões que aterravam e descolavam, transmitida através de rádio aos operadores, que a recebiam pelos auriculares. Baseando-se nessa informação, os controladores tinham de tomar decisões rápidas. Broadbent apercebera-se de que estes só geriam de forma eficaz uma mensagem de cada vez, e interessou-se pelos processos mentais que lhes permitiam selecionar a mensagem mais importante de entre toda a informação que entrava Achava que devia existir algum mecanismo cerebral que processava e selecionava essa informação.
A experiência que Broadbent conduziu, e que é hoje em dia conhecida como escuta dicótica, foi uma das primeiras feitas no campo da atenção seletiva, o processo mediante o qual o cérebro “filtra” e descarta a informação irrelevante da torrente de informação que os sentidos nos enviam de forma constante Seguindo o modelo do controlo de tráfego aéreo, Broadbent decidiu proporcionar informação auditiva através de auriculares aos sujeitos da sua experiência. O sistema permitia-lhe transmitir simultaneamente duas mensagens, uma no ouvido direito e outra no esquerdo. Depois verificou a informação que os sujeitos tinham retido.
Tal como suspeitava, os sujeitos da sua experiência não conseguiram reproduzir toda a informação que tinham recebido pelos dois canais de informação. Assim, Broadbent confirmou a sua intuição de que apenas somos capazes de prestar atenção a uma voz de cada vez, mas ainda ignorava como tinham decidido o que reter e o que descartar.
Recorrendo aos seus conheci mentos de engenharia, desenhou um modelo mecânico que explicava o que acreditava acontecer no cérebro. Broadbent pensava que, quando existem várias fontes de informação, há um momento em que o cérebro não é capaz de a processar toda e acontece um “engarrafamento". Portanto, tem de haver um filtro que permite a passagem de um único canal de informação. Explicou este ponto através da analogia com um tubo em forma de “Y”, por cujos braços entram duas filas de bolas de pingue-pongue, no ponto de união dos braços há uma válvula que bloqueia a passagem a uma fila ou à outra, de modo que as bolas do braço que continua aberto possam entrar no tronco central.
Contudo, restava uma pergunta sem resposta: em que ponto se ativa o filtro? Mediante uma série de variantes da experiência de escuta dicótica, Broadbent determinou que os sentidos recebem a informação e transmitem-na integralmente a algum tipo de armazém, ao qual deu o nome de memória de curto prazo. Acreditava que era então que o filtro se ativava. A sua descrição do pro- cesso de seleção da informação, conhecido como “modelo do filtro de Broadbent”, implicava um enfoque completamente novo para a psicologia experimental, já que não só combinava o teórico com o prático, como considerava o cérebro um processador de informação.
O problema da festa ruidosa
Donald Broadbent não foi único a abordar o problema da atenção seletiva. Colin Cherry foi outro cientista inglês que investigou este tema na década de 1950. A partir do ponto de vista da comunicação, e não do da psicologia, apresentou aquilo a que chamou “o problema do cock-tail” ou da festa ruidosa: como decidimos a que conversas prestar atenção e a quais não quando nos encontramos numa festa com muita gente a conversar, e como é possível que as conversas “B” ou “C” nos distraiam da conversa “A”, à qual prestávamos atenção.
Para responder a estas perguntas, Broadbent concentrou a sua atenção na natureza do filtro do seu modelo. Que informação deixa este filtro passar e que informação descarta? Após conduzir uma outra série de experiências rigorosas, concluiu que a seleção não se baseia no conteúdo da informação (o que é dito), mas nas caraterísticas físicas da mensagem, como a clareza ou o tom de voz. Isto sugere que, embora seja verdade que toda a informação fica armazenada por um breve es- paço de tempo na memória de curto prazo, só é processada em termos de compreensão depois de filtrada. A conclusão a que Broadbent chegou tinha implicações importantes para o controlo do tráfego aéreo, porque sugeria que era possível a tomada de decisões a partir de informação irrelevante ou imprecisa, em vez de se priorizar por conteúdo e importância.
Broadbent e Cherry colaboraram em diversas experiências de escuta dicótica para estudar o processo de filtragem e descobriram que este é afetado pelas expetativas. Uma das experiências consistia em os participantes escutarem várias séries de números apresentadas simultaneamente em cada ouvido, mas só em alguns casos lhes era dito em relação a que ouvido (canal de informação) lhes seria perguntado primeiro. Os resultados provaram que, se as pessoas sabem que ouvido receberá a informação em relação à qual lhes será perguntado, primeiro concentram a atenção nele, pelo que a informação recebida no outro nem sempre é recuperada da forma correta da memória. Em todos os casos, a informação que os sujeitos decidiam recordar em primeiro lugar parecia ter sido processada com maior precisão do que o material posterior, concluiu-se que talvez isto se devesse a uma parte da informação se perder na memória de curto prazo antes de o sujeito procurar recuperá-la. Em 1957, Broadbent escreveu: “Só podemos escutar uma voz de cada vez e recordamos melhor as primeiras palavras que ouvimos.
Modificação do modelo
Em 1958. Broadbent publicou os resultados das suas investigações no livro Perception and Communication, que apresentava um modelo eficaz para o estudo da atenção, da memória e da compreensão. A sua publicação coincidiu no tempo com a divisão de opiniões nos EUA acerca da importância do behaviorsmo e a obra transformou-se então num dos marcos do desenvolvi mento da nova psicologia cognitiva Broadbent conseguiu o reconhecimento dos seus colegas como o primeiro grande psicólogo britânico e viu-se recompensado no mesmo ano com a nomeação para diretor da APU, como sucessor de Bartlett.
No entanto, não era daqueles que adormecem à sombra dos louros e considerou o seu novo cargo uma oportunidade para aprofundar a sua investigação sobre a atenção e aperfeiçoar a teoria. Partindo do seu modelo de filtro, retomou o problema da festa ruidosa e, mais concretamente, um fenômeno que Cherry identificara: como a atenção seleciona a informação. Quando ouvimos uma conversa que contém informação significativa para nós (o nome de uma pessoa que nos interessa), deslocamos a atenção para ela e deixamos de prestar atenção àquela em que participávamos.
Uma série de experiências de escuta dicótica posteriores, feitas na APU, contradisseram as conclusões de Cherry apesar de as caraterísticas físicas da informação influenciarem o filtro, este vê-se influenciado ao mesmo tempo pelo significado mediado pela memória, pela experiência prévia e pelas expetativas. Por exemplo, o som emitido por uma sirene atrairia a atenção, o que sugere que entendemos de algum forma a informação antes de a atenção a selecionar.
Broadbent compreendeu, então, que era preciso modificar o modelo, o que para ele implicava mais uma alegria do que uma decepção. Como cientista, pensava que todas as teorias são temporais e dependentes da informação disponível em cada momento concreto e, como tal, suscetíveis de mudar diante de novas provas. É assim que a ciência avança.
A APU concentrou as investigações no trabalho de Broadbent sobre a atenção, pelo que as aplicações práticas eram cada vez mais numerosas. Broadbent tentou que a sua investigação tivesse aplicações úteis e analisou os efeitos do ruído, do calor e do estresse sobre a atenção em ambientes de trabalho, ao mesmo tempo que revia constante- mente as suas ideias. O seu esforço valeu-lhe o apoio do Governo e o respeito de vários setores industriais, cujos procedimentos melhoraram graças às suas investigações. Isto levou-o a alargar a investigação a áreas como as diferenças de atenção entre as pessoas ou os lapsos e as suas causas. Em cada caso, os resultados das experiências permitiram-lhe melhorar as suas teorias.
Em 1971, Broadbent publicou Decision and Stress, o seu segundo livro, no qual apresentava uma versão alargada da sua teoria do filtro e que, tal como a obra anterior, se tornou um clássico da psicologia cognitiva.
A orientação cognitiva
Os livros de Broadbent não chegaram ao público em geral, mas sim a cientistas de muitas outras áreas. A sua comparação do funcionamento do cérebro humano com o das máquinas eletrônicas ganhou importância à medida que o interesse na informática crescia. O modelo das fases de processamento da informação humana (aquisição, armazenamento, recuperação e utilização) fazia lembrar a investigação sobre inteligência artificial da época.
Broadbent foi uma peça fundamental na organização britânica Joint Council Initiative in Cognitive Science and Human-Computer Interaction, que contribuiu para o desenvolvimento da ciência cognitiva. O seu trabalho ajudou também a consolidar a psicologia aplicada como foco para a resolução de problemas muito além das paredes dos laboratórios. Broadbent foi uma figura-chave da psicologia cognitiva e a sua investigação sobre a atenção estabeleceu as bases de um novo campo de estudo, que ainda hoje continua a dar frutos.
Um dos primeiros campos de estudo para os psicólogos do século XIX foi a memória, estreitamente relacionada com o conceito de consciência, que estabelecera pontes entre a filosofia e a psicologia Assim, Hermann Ebbinghaus dedicou grande parte da sua investigação ao estudo científico da memória e da aprendizagem. Contudo, a geração seguinte de psicólogos interessou-se pelo estudo da aprendizagem a partir da perspectiva comportamental, pelo que o “condicionamento” substituiu a memória como foco de investigação
Além de alguns estudos isolados, principalmente os dos psicólogos Frederic Bartlett e Bluma Zeigarnik nas décadas de 1920 e 1930, o tema da memória foi relegado para a “revolução cognitiva”, depois da II Guerra Mundial. Os psicólogos cognitivos começaram a explorar a ideia do cérebro como processador da informação, o que levou a um modelo de armazenamento da memória entendido como um processo em que parte da informação passava da memória de curto prazo, ou de trabalho, para a memória de longo prazo
Quando Endel Tulving terminou o seu doutoramento, em 1957, a memória voltara a ser uma área de estudo fundamental. Obrigado a abandonar a investigação da percepção visual por falta de meios, concentrou-se na memória, cujo estudo foi também determinado pela escassez de fundos, deste modo, desenhou experiências que não requeriam mais do que papel. lápis e umas quantas folhas.
Método da livre recordação
Tulving aprendia à medida que investigava, uma forma de trabalho pouco ortodoxa que o tornou alvo das críticas de alguns dos seus colegas e lhe dificultou a publicação dos seus resultados. Contudo, o seu instinto levou-o a imaginar experiências realmente inovadoras. Uma explicação ad hoc para os seus alunos, criada conforme avançava em inícios da década de 1960, serviu-lhe de modelo para numerosas experiências posteriores. Leu aos seus alunos uma lista aleatória de 20 palavras de uso corrente e pediu-lhes que escrevessem todas as que recordassem, por qualquer ordem. Tal como esperava, a maioria dos alunos conseguiu recordar aproximadamente metade da lista. Depois fez-lhes perguntas sobre as que não tinham recordado, dando-lhes pistas como: “Lembram-se se na lista havia uma cor?” O que lhes permitia com frequência darem a resposta correta.
Tulving desenvolveu várias experiências com este método de “recordação livre” e observou que as pessoas costumam agrupar as palavras por categorias com sentido; desta forma, quanto melhor organizam a informação, melhor a recordam. Os sujeitos também recordavam as palavras se lhes fosse dada uma pista correspondente à categoria (por exemplo, “animais”) onde as tinham arquivado mentalmente. Tulving concluiu que todas as palavras estavam disponíveis para serem recordadas, mas as que tinham sido organizadas por categorias eram muito mais acessíveis, sobretudo se lhes fosse proporcionada a pista adequada.
Tipos de memória
Os psicólogos anteriores tinham-se concentrado no processo de armazenamento da informação e nas suas possíveis falhas, mas Tulving diferenciou entre dois processos distintos (armazenamento e recuperação da informação), explicando também a relação entre ambos. Durante as suas investigações, chamou-lhe a atenção o facto de, segundo parecia, existirem vários tipos de memória. Apesar de já se ter estabelecido a diferença entre memória de curto prazo e de longo prazo, Tulving pensou que havia mais de um tipo de memória de longo prazo. Apercebeu-se de que existiam diferenças entre as recordações baseadas no conhecimento (dados e factos) e as baseadas na experiência (vivências e conversas), pelo que propôs a distinção dos tipos de memória a longo prazo: memória semântica, ou armazém de dados, e memória episódica, ou depósito da nossa história pessoal.
As experiências de Tulving provaram que a organização da informação semântica, como as listas de palavras, contribui para a eficácia da recordação, e o mesmo parece ser verdade para a memória episódica. A diferença radica em que as recordações semânticas organizam-se por temas em categorias significativas, enquanto as episódicas organizam-se em relação ao momento ou circunstância concretos em que se armazenaram Assim, por exemplo, se manteve uma conversa numa festa de aniversário, a recordação do que foi dito armazenar-se-á vinculada a essa ocasião.
A categoria “cidade” seria uma pista para a memória semântica de “Pequim” e a menção do aniversário dos 40 anos poderia ser uma pista para recordar o que foi dito durante a mencionada celebração. Quanto mais intensa for a associação entre as recordações autobiográficas e as circunstâncias em que foram armazenadas, mais acessíveis serão. Um exemplo extremo são as recordações fotográficas, que são armazenadas quando acontece algo de verdadeiramente extraordinário (como os atentados do 11 de Setembro)
Tulving descreveu a memória episódica como uma viagem mental no tempos, que nos devolve ao passado para acedermos à recordação. Nas suas investigações posteriores apontou que o sentido subjetivo do tempo é exclusivo da memória episódica e específico do ser humano, abarca não só o que aconteceu, mas também o que pode acontecer. Essa capacidade única permite-nos refletir sobre a nossa vida, preocupar-nos com o futuro e fazer planos. E o que faz com que a humanidade “aproveite plenamente a sua existência continua no tempo” e o que lhe permitiu transformar o mundo natural em múltiplas civilizações e culturas. Graças a essa capacidade, “a seta do tempo traça uma espiral”.
Codificação da informação
Tulving descobriu que a organização é fundamental para se recuperar com eficácia tanto a memória semântica como a episódica e que, de algum modo, o cérebro organiza a informação de forma a que as experiências e os dados são arquivados juntamente com informação relacionada Recordar essa informação específica é mais fácil se nos dirigirmos ao grupo correto: o cérebro “sabe onde ir buscar” a recordação que quer e limita a busca. Tulving acreditava que isto significava que o cérebro codifica cada recordação antes de a armazenar na memória de longo prazo, com o objetivo de poder localizar recordações concretas mediante um indício mais geral. Os indícios que ativam a memória episódica costumam ser de índole sensorial. Um som específico, como uma melodia, ou um aroma podem evocar uma recordação completa.
A teoria de Tulving do "princípio da especificidade da codificação” era especialmente aplicável à memória episódica. As recordações de acontecimentos passados são codificadas segundo o momento em que aconteceram, junto com outras recordações do mesmo momento. Por outro lado, o ativador mais eficaz para recuperar qualquer recordação episódica é o que mais se sobrepõe em relação a ela, ao ser armazenado no mesmo lugar. Apesar de os ativadores serem necessários para se aceder à memória episódica, nem sempre são suficientes, já que às vezes a relação não é forte o bastante para evocar a recordação, ainda que a informação esteja guardada e disponível na memória de longo prazo.
Ao contrário das teorias sobre a memória anteriores, o princípio da codificação de Tulving distinguia entre memória disponível e memória acessível. Que alguém não consiga recordar uma informação concreta não significa que a tenha “esquecido” no sentido de que esta se tenha ido apagando até desaparecer da memória de longo prazo, é possível que continue armazenada e, portanto, disponível: o problema na altura de recordar essa informação é o acesso.
Varrer a memória
O trabalho de Tulving sobre o armazenamento e recuperação de recordações abriu um novo campo de estudo psicológico. A publicação dos resultados das suas investigações na década de 1970 coincidiu com uma tendência de muitos outros psicólogos cognitivos em recorrerem à neurociência para confirmarem as suas teorias e empregarem as, então, novas técnicas de neuroimagem. Tulving colaborou com neurocientistas para procurar identificar as zonas do cérebro que se ativam durante o armazenamento e a recuperação das recordações e chegou à conclusão de que a memória episódica está associada ao lobo temporal medial, mais concretamente, ao hipocampo.
A orientação pouco ortodoxa de Tulving permitiu-lhe chegar a conclusões inovadoras que inspiraram outros psicólogos, incluindo alguns dos seus alunos, como Daniel Schacter. Apesar de o enfoque de Tulving nos processos de armazenamento e recuperação ter implicado uma nova forma de pensar sobre a memória, é possível que a sua principal contribuição tenha sido a distinção entre memória semântica e memória episódica. Isto permitiu aos psicólogos posteriores aumentar a complexidade do modelo, que passou a incluir conceitos como o de memória procedimental (recordar como fazer alguma coisa) ou a diferença entre a memória explícita (da qual somos conscientes) e memória implícita (da qual não temos consciência, mas que nos influencia). Atualmente, estes continuam a ser temas de grande interesse para os psicólogos cognitivos.
Ao longo da história, uma das principais preocupações de filósofos e psicólogos tem sido o modo como a mente usa a informação que obtém do exterior Como é que o cérebro processa a informação sensorial? Em inícios da década de 1970, o matemático e psicólogo cognitivo Roger Shepard propôs novas teorias para responder a esta pergunta.
Argumentou que o cérebro não processa só a informação sensorial; também faz inferências a partir dela, baseando-se num modelo interno do mundo físico onde podemos visualizar objetos a três dimensões. A experiência que fez para o demonstrar, em que os sujeitos tinham de determinar se duas mesas desenhadas a partir de ângulos distintos eram iguais, revelou que estes eram capazes de aplicar aquilo que Shepard designou por “rotação mental”: girar mentalmente uma das mesas para as comparar.
Shepard utilizou uma série de ilusões óticas (e auditivas) para provar que o cérebro interpreta a informação sensorial mediante o conhecimento do mundo exterior e a visualização mental. Afirmou que a percepção é “uma alucinação conduzida a partir do exterior” e descreveu os processos do sonho e da alucinação como uma “percepção simulada internamente”.
As investigações de Shepard trouxeram técnicas revolucionárias para identificar a estrutura oculta das representações e dos processos mentais. O seu trabalho sobre a percepção visual e auditiva, as imagens mentais e a representação influenciaram muitos psicólogos.
Até há pouco tempo, acreditava-se que a percepção do risco e o processo da tomada de decisão eram mais uma questão de probabilidade e de estatística do que de psicologia. Contudo, a psicologia cognitiva e a sua ênfase nos processos mentais levaram os conceitos de percepção e de critério para o campo da resolução de problemas, com resultados surpreendentes. Daniel Kahneman e Amos Tversky reviram as teorias acerca da tomada de decisão perante a incerteza na obra Judgment under Uncertainity: Heuristics and Biases (1974). Concluíram que a crença generalizada de que as pessoas decidem com base em estatísticas e probabilidades não é verdadeira; pelo contrário, decidem “a olho”, segundo critérios heurísticos a partir de exemplos concretos ou de pequenas amostras. Portanto, as decisões costumam ser incorretas, já que se baseiam em informação facilmente acessível, em vez de em probabilidades reais.
Kahneman e Tversky descobriram que este método de resolução de problemas baseado na experiência segue um padrão: tendemos a sobrevalorizar as probabilidades de suceder algo de pouco provável (um acidente aéreo) e a subestimar as de ocorrer algo de provável (um acidente de trânsito depois de bebermos).
Estas conclusões foram a base da teoria da perspectiva, que Kahneman e Tversky apresentaram em 1979, e que desembocou no campo psicológico interdisciplinar da economia comportamental.
Na década de 1950, o interesse pela memória ressurgiu. Foram desenvolvidos modelos cada vez mais sofisticados da memória de curto e de longo prazo para explicar como a informação é selecionada, organizada, armazenada e recuperada, estudando-se também como as recordações se esquecem ou distorcem.
Memória e estado de ânimo
Na década de 1970, o interesse antes despertado pela teoria da aprendizagem e da memória deslocara-se para o estudo de por que razão algumas recordações se armazenam melhor, ou são mais fáceis de evocar, do que outras. Um dos principais psicólogos neste campo, Gordon H. Bower, observou o impacto da emoção na memória em estudos em que os sujeitos aprendiam listas de palavras enquanto experimentavam diversos estados de ânimo, as quais tinham depois de recordar também em diferentes estados emocionais. Identificou assim a “recordação dependente do estado de espírito”: se aprendemos algo enquanto estamos tristes, recordá-lo-emos melhor quando voltarmos a estar tristes. Afirmou que relacionamos o estado de espírito com o que acontece à nossa volta, pelo que a informação e a emoção são armazenadas juntas. É mais fácil recordar quando o estado de ânimo no momento do armazenamento e no da recordação é o mesmo.
Bower descobriu que a emoção também influencia a informação que selecionamos. Se estamos contentes, tendemos a detectar (e, portanto, a recordar) coisas positivas; se estamos tristes, as coisas negativas despertam-nos a atenção e recordamo-las mais facilmente. Bower concluiu que as pessoas tristes recordavam melhor os pormenores de uma história triste do que as que estavam contentes quando a leram. Chamou a este fenómeno “processamento congruente com o estado de espírito” e concluiu que a memória episódica (de situações) está especialmente vinculada às emoções. As emoções e os factos são armazenados juntos e recordamos melhor a informação congruente com o nosso estado de ânimo, tanto no momento em que aconteceu como quando o recordamos.
Bower estudou pessoas com diferentes estados emocionais em análises retrospectivas das suas interações com os outros. A memória e a opinião sobre o comportamento passado dependiam do estado de espírito atual. Esta análise ajudou Bower a aperfeiçoar as suas ideias sobre a emoção e a memória e levou-o a aprofundar o estudo da influência das emoções sobre a nossa vida.
As emoções, e mais concretamente os transtornos emocionais, tinham sido uma parte importante da psicoterapia desde o início, mas eram mais entendidos como um sintoma que era preciso tratar do que como um objeto de estudo de pleno direito. Um dos primeiros a observar que as emoções mereciam tanta atenção como os processos cognitivos, os impulsos ou a conduta foi Paul Ekman, cujas investigações sobre o comportamento não verbal e os gestos faciais despertaram o seu interesse pelo tema.
Na década de 1970, quando Ekman iniciou os seus estudos, acreditava-se que aprendemos a exprimir as emoções fisicamente em função de uma série de convenções sociais que diferem de uma cultura para outra. Paul Ekman viajou por todo o mundo, primeiro para fotografar pessoas do “mundo desenvolvido”, como o Japão ou o Brasil, e depois lugares remotos e isolados, sem acesso à rádio nem à televisão, como as selvas da Papua-Nova Guiné. Observou que os aborígenes interpretavam as expressões faciais tão bem como qualquer habitante de um país mais globalizado, o que sugere que as expressões faciais são um resultado universal da evolução humana.
As emoções básicas
Paul Ekman definiu seis emoções básicas (raiva, nojo, medo, felicidade, tristeza e surpresa) e, devido à sua universalidade, concluiu que deviam ser relevantes para a nossa construção psicológica. Observou que as expressões faciais associadas a estas emoções são involuntárias: reagimos automaticamente aos estímulos que desencadeiam respostas emocionais e a reação produz-se com frequência antes de a mente consciente ter tido tempo de registar o que motivou a emoção. Ekman não concluiu apenas que as expressões do rosto podem revelar o estado emocional interno, mas também que as emoções responsáveis por esses gestos involuntários são mais poderosas do que aquilo em que se tinha acreditado até então.
Em Emotions Revealed: Recognizing Faces and Feelings to Improve Communication and Emotional Life, Ekman afirma que as emoções podem ser mais poderosas do que as pulsões freudianas do sexo, da fome e até mesmo da vida. Por exemplo, a vergonha ou o medo podem anular a libido e impedir uma vida sexual satisfatória. A potência do “comboio desgovernado” das emoções convenceu Ekman de que compreender melhor as emoções seria benéfico para o tratamento de algumas perturbações mentais. Talvez não possamos controlar as emoções, mas sim modificar o que as desencadeia e os comportamentos que a elas conduzem.
Ekman foi dos primeiros a estudar o engano e os diferentes modos de se procurar ocultar os sentimentos, identificando pequenos gestos delatores (“microexpressões”) que surgem quando alguém procura dissimular algo consciente ou inconscientemente. Isto tornou-se útil na concepção de medidas de segurança contra o terrorismo.
Durante a “revolução cognitiva” e no âmbito da psicologia clínica, apareceu uma tendência que rejeitava que os pacientes fossem analisados apenas a partir do ponto de vista do seu problema, procurando um enfoque mais humanístico. Psicólogos como Erich Fromm, Abraham Maslow e Carl Rogers começaram a refletir sobre o que constituía uma vida satisfatória e feliz, em vez de se limitarem a aliviar o sofrimento da depressão e da ansiedade. Daí surgiu a “psicologia positiva”, que se centrava em encontrar o modo de se alcançar essa vida feliz.
Um dos conceitos básicos desta nova psicologia é o de “fluxo”, concebido por Mihály Csíkszentmihályi na década de 1970 e explicado em pormenor em Fluir, em 1990. A ideia ocorreu-lhe a partir de entrevistas com pessoas que pareciam viver uma vida plena, quer a trabalhar quer em atividades de lazer; não se tratava apenas de profissionais criativos, como artistas ou músicos, mas de pessoas de todas as camadas sociais. Csikszentmihályi observou que todos descreviam uma sensação semelhante quando estavam mergulhados numa atividade agradável e em que eram bons. Afirmavam alcançar um estado mental em que perdiam a noção de si mesmos, onde as coisas aconteciam de modo automático: uma sensação de “fluir”. Começava com uma “atenção limitada a um objetivo claramente definido. Sentimo-nos envolvidos, concentrados, absortos. Sabemos o que é preciso fazer e como o estamos a fazer”. Um músico sabe instantaneamente se a melodia que está a tocar soa tal como devia e um tenista sabe se a bola que acaba de bater vai chegar ao seu destino.
Estado de êxtase
As pessoas que experimentam o fluxo também descrevem sensações de serenidade, clareza e perda da noção do tempo, pelo que Csíkszentmihályi comparou-o a um estado de êxtase (no sentido literal do grego ekstasis, “saída de nós mesmos”). Grande parte da satisfação que o fluxo proporciona procede da sensação de se sentirem alheios às preocupações diárias, de saírem da realidade quotidiana. Csíkszentmihályi afirmava que o fluir é a chave para se desfrutar plenamente de qualquer atividade e, portanto, para se alcançar uma vida plena.
Mas como se alcança o estado de fluxo? Csíkszentmihályi estudou casos de pessoas que o conseguiam com regularidade e apercebeu-se de que isso acontecia quando o desafio proporcionado pela atividade correspondia às capacidades da pessoa, quando a tarefa era factível mas exigente e requeria uma concentração total. Só um equilíbrio razoável entre a capacidade e a dificuldade podia conduzir ao fluxo. Se tinham falta das capacidades necessárias para levar a cabo a tarefa, esta gerava ansiedade, e se era demasiado simples, criava aborrecimento ou apatia.
O conceito de fluxo de Csíkszentmihályi foi muito bem acolhido por outros defensores da psicologia positiva e passou a ser um dos elementos fundamentais desta orientação nova e otimista. Csikszentmihályi entendia o fluxo como um elemento fundamental em qualquer tipo de atividade e acreditava que era especialmente importante no trabalho, para que este fosse mais satisfatório e tivesse maior significado.
Após a II Guerra Mundial, a psicologia experimental centrou-se fundamentalmente nos processos cognitivos, enquanto a psicologia clínica continuou à procura do modo de tratar problemas como a depressão ou a ansiedade. O fim das novas terapias cognitivas continuava a ser aliviar os estados de infelicidade, mais do que fomentar os de bem-estar. Martin Seligman, cuja teoria do desamparo adquirido ou aprendido (a espiral de atitudes negativas que aparece em perturbações como a depressão) conduziu a tratamentos mais eficazes na década de 1980, pensava que a psicologia oferecia elementos positivos, mas que ainda podia fazer mais. Acreditava que a terapia se devia ocupar tanto das capacidades como das carências, interessar-se tanto por construir o melhor da vida como por reparar o pior. Tinha estudado filosofia, pelo que comparou a tarefa da psicologia positiva com a de Aristóteles em busca da eudaimonia, a felicidade ou “vida feliz”. Como os filósofos nos quais se inspirava, Seligman opinava que o seu objetivo não era aliviar ou eliminar aquilo que nos faz infelizes, mas sim fomentar aquilo que nos pode fazer felizes, mas antes tinha de descobrir o que era.
Vidas “felizes”
Seligman observou que as pessoas satisfeitas e extraordinariamente felizes tendem a dar-se bem com os outros e a desfrutar da sua companhia Pareciam ter uma “vida agradável”, um dos três tipos de vida “feliz” que identificou, os outros dois eram a “vida plena” e a “vida com significado”. A vida agradável, ou a busca do maior prazer possível, parecia trazer felicidade, embora de curta duração, segundo Seligman. A vida plena, ou o desfrutar de relações, trabalho e lazer satisfatórios, proporcionava, embora de forma menos óbvia, uma felicidade mais profunda e duradoura. Por sua vez, a vida com significado, ou agir em benefício dos outros ou de algo além de nós mesmos, proporcionava grande satisfação e plenitude.
Seligman apercebeu-se também de que os estilos de vida plena e com significado incluíam as atividades que o seu colega Csikszentmihályi descrevera como geradoras de “fluxo” ou de um envolvimento mental intenso. Evidentemente, a vida agradável não gerava “fluxo”, mas Seligman descobriu que todas as “pessoas extraordinariamente felizes” que estudara eram também muito sociáveis e tinham companheiros. Seligman concluiu: “As relações sociais não garantem a felicidade, mas esta não parece acontecer sem elas. Uma vida plena e com significado pode conduzir à eudaimonia, mas se, além disso, se tiver uma vida agradável, a felicidade alcançada será mais intensa.
Em finais do século XIX, Freud afirmou que a mente contava com mecanismos de defesa para se proteger de pensamentos ou impulsos inaceitáveis ou dolorosos e designou por “repressão” o mecanismo inconsciente que os mantinha afastados da consciência. Posteriormente elaborou uma teoria mais geral dos desejos e das emoções reprimidas. Contudo, a ideia de que é possível reprimir e armazenar uma recordação dolorosa além do alcance da consciência foi aceite por muitos psicólogos.
Várias formas de psicoterapia desenvolvidas durante o século XX concentraram-se na repressão e a possibilidade de recuperação de recordações reprimidas ficou tão associada à psicanálise, que até mesmo os filmes de Hollywood começaram a explorá-la. A memória, em geral, foi um dos temas prediletos dos psicólogos experimentais, sobretudo quando o behaviorismo começou a perder força após a II Guerra Mundial e a “revolução cognitiva” começou a propor modelos para explicar como a informação era processada no cérebro para ser transformada em recordações. Quando Elizabeth Loftus começou a investigar, a memória a longo prazo era uma área de investigação atraente e a recuperação das recordações reprimidas estava prestes a transformar-se num tema escaldante devido aos casos de abuso de menores que chegaram aos tribunais na década de 1980.
A memória sugestionável
À medida que investigava, crescia o seu ceticismo sobre a possibilidade da recuperação das recordações reprimidas. Investigações anteriores de Frederic Bartlett. Gordon Allport e Leo Postman já tinham provado que, embora o cérebro humano funcione com normalidade, nem sempre se pode confiar na capacidade para recuperar informações da memória. Loftus acreditava que isto também devia ser verdade no caso da recordação de acontecimentos tão traumáticos que ficam reprimidos e talvez mais ainda devido ao caráter emocional dos factos.
Em inicios da década de 1970, Loftus começou a investigar a falibilidade das recordações com experiências simples, destinadas a verificar a exatidão do testemunho de testemunhas oculares. Os participantes viam vídeos de acidentes de trânsito e era-lhes perguntado o que tinham visto. A conclusão foi que a formulação das perguntas influenciava o modo como as pessoas narravam o acontecido. Quando se lhes pedia que estimassem a velocidade dos automóveis implicados, as respostas variavam em função de se o entrevistador se referia ao acontecido com palavras como “pancada”, "colisão” ou “choque”. E quando se lhes perguntava se os vidros se tinham partido por causa do acidente, as suas respostas tinham de novo uma correlação com as palavras usadas na pergunta sobre a velocidade. Em versões posteriores da experiência deu-se aos participantes informação verbal falsa sobre alguns pormenores do acidente (por exemplo, sobre os sinais de trânsito em redor do local do ocorrido), a qual apareceu sob a forma de falsas recordações em muitos dos relatórios dos participantes.
Implicações legais
Para Loftus, era óbvio que a sugestão e as perguntas intencionais após o ocorrido podem distorcer a recordação. É possível “implantar informação falsa nas recordações de um observador.
Eyewitness Testimony, o livro de 1979 no qual descreve as suas experiências, mostra que Loftus estava muito consciente das repercussões deste “efeito desinformador”, não só para a teoria psicológica da memória, mas também para os processos judiciais. Prevendo que ia gerar controvérsia, escreveu: “A escassa fiabilidade das testemunhas oculares nos processos de identificação expõe um dos problemas mais graves para a administração da justiça civil e penal.”
A síndrome da recordação falsa
Loftus foi-se envolvendo cada vez mais na psicologia forense como testemunha especialista em casos de abuso de menores durante a década de 1980. Observou então que as recordações podem não só ser distorcidas mediante uma sugestão posterior ou através de informação errada, como também podem ser totalmente falsas. Por exemplo, o caso de George Franklin ilustra perfeitamente os diversos aspetos do que chegou a ser conhecido como a “síndrome da recordação falsa”. Franklin foi preso em 1990 pelo assassínio de uma menina, a melhor amiga da própria filha, Eileen, cuja declaração como testemunha ocular, 20 anos depois do crime, foi crucial para o veredito de culpado. Loftus encontrou contradições na declaração de Eileen e provou que as suas recordações eram incorretas, mas, apesar disso, o júri declarou Franklin culpado. Em 1995, a sentença foi revogada porque o júri fora privado de “provas cruciais”, já que Eileen “recuperara” a memória numa sessão de hipnose. Para Loftus, Eileen acreditava ter visto o pai cometer o crime, mas na realidade tratava-se de uma recordação falsa, desenvolvida por o ter visto cometer outros atos cruéis, e “uma imagem brutal sobrepôs-se à outra”. Perante o tribunal, Loftus argumentou com sucesso que a combinação da sugestão durante a hipnose, as recordações aterradoras e a raiva e a dor de Eileen tinham criado uma falsa “recordação reprimida”.
O caso de Paul Ingram, no qual Loftus não interveio, também apontou para a possibilidade de implantação de recordações falsas. Ingram, detido em 1988 por abusar sexualmente das filhas, negou os factos, mas depois de vários meses de interrogatórios confessou tê-los cometido, juntamente com outros delitos de violação e assassínio. Richard Ofshe, psicólogo que interveio no caso desconfiou e sugeriu ao acusado que ele era culpado de outro delito sexual, neste caso inexistente. Ingram começou por negar a acusação, mas depois fez uma confissão pormenorizada.
Perdidos no centro comercial
No entanto, as provas de implantação de recordações falsas eram ainda meramente episódicas, nada concludentes, e Loftus recebeu uma chuva de críticas por aquilo que se considerava serem opiniões controversas Então, decidiu procurar provas irrefutáveis mediante uma experiência cujo objetivo era implantar deliberadamente recordações falsas. Tratava-se da sua experiência de 1995, “perdidos no centro comercial”.
Loftus contou a cada um dos participantes quatro histórias da sua infância que, em princípio, os familiares dos próprios sujeitos tinham recordado e transmitido. Mas, na realidade, só três eram verdadeiras, a quarta, segundo a qual o participante se perdera num centro comercial era uma invenção construída expressamente com pormenores verídicos, como a descrição do centro comercial e em colaboração com os familiares. Uma semana depois, os participantes foram entrevistados e, novamente, duas semanas mais tarde, sendo-lhes perguntado o que recordavam sobre os acontecimentos dos quatro episódios. Em ambas as ocasiões, 25 por cento dos participantes afirmaram ter alguma recordação do sucedido no centro comercial. Uma vez finalizada a experiência, os participantes foram informados de que uma das histórias era falsa. Saberiam dizer qual? Dos 24 participantes, 19 escolheram de forma acertada a história do centro comercial como falsa recordação; contudo, cinco tinham acreditado sinceramente na falsa recordação de um acontecimento levemente traumático.
Deste modo, Loftus explicava o processo de formação de falsas recordações num ambiente quotidiano e real. Por razões éticas, não pode fazer uma experiência para comprovar se uma recordação falsa verdadeiramente traumática seria ainda mais intensa, sendo acreditada com maior sinceridade, mas sugeriu que sim, do mesmo modo que recordamos melhor os sonhos perturbadores, às vezes nem os distinguindo da realidade. Isto levou-a a dizer que as nossas certezas mais absolutas não são necessariamente a verdade.
Em 1986, os psicólogos John Yuille e Judith Cutshall tiveram a oportunidade de realizar um estudo sobre a memória depois de uma situação traumática real e concluíram que as testemunhas de um tiroteio continuavam a recordar o ocorrido com notável exatidão ao fim de seis meses e resistiam às tentativas dos investigadores para distorcer as suas recordações com perguntas enganosas.
Uma terapia sob julgamento
Loftus indica que as suas conclusões não negam nem a existência de delitos, como o abuso de menores, nem a de memórias reprimidas; limita-se a indicar que as recordações recuperadas não são fiáveis, e que é necessário procurar provas que as corroborem. Questionou também a validade dos métodos para recuperação das recordações, como a regressão, a análise dos sonhos ou a hipnose. Apresentou a possibilidade de se poderem implantar recordações falsas por sugestão durante o processo terapêutico. Na década de 1990 vários pacientes americanos afirmaram-se vítimas da síndrome da recordação falsa e denunciaram os seus terapeutas com êxito. Este ataque direto à própria existência das memórias reprimidas gerou reações adversas em alguns psicoterapeutas, bem como uma divisão de opiniões entre os psicólogos que trabalhavam com a memória. No mundo legal, as reações também foram variadas, embora, quando a histeria que rodeou uma série de escândalos de abuso de menores na década de 1990 acalmou, muitos sistemas judiciais adotassem diretrizes que seguiam as teorias de Loftus.
Loftus é atualmente uma autoridade reconhecida no âmbito das recordações falsas. A corrente psicológica maioritária aceitou as suas teorias, que impulsionaram novas investigações sobre a falibilidade da memória em geral, entre as quais se destacam as realizadas por Daniel Schacter em Seven Sins of Memory.
Daniel Schacter acredita que o esquecimento é uma função crucial da memória humana e necessária para o seu funcionamento Precisamos de recordar algumas experiências e parte da informação que aprendemos, mas a maioria é irrelevante e ocuparia um valioso “espaço de armazenamento” na memória, pelo que “apagamo-la”, para usar a analogia informática que a psicologia cognitiva emprega com tanta frequência. Contudo, este processo de seleção às vezes falha. O que deveria ter sido marcado como informação útil e armazenado para uso posterior, é eliminado da memória e esquecido em troca, é conservada informação trivial ou desnecessária que deveria ter sido apagada.
O armazenamento não é o único aspeto da memória que pode dar problemas. O processo de recuperação pode confundir a informação e proporcionar recordações distorcidas. Schacter enumera sete razões por meio das quais a memória falha: transitoriedade, distraibilidade, bloqueio, atribuição errada, sugestionabilidade, enviesamento retrospetivo e persistência. Por analogia com os sete pecados capitais, e piscando o olho a George Armitage Miller e ao seu “mágico número sete”, designa-os como “os sete pecados da memória”. Considera os três primeiros “pecados de omissão” ou de esquecimento e os quatro últimos “pecados de comissão” ou de recordação. Cada pecado pode conduzir a um tipo de erro no momento de recuperação da informação.
O primeiro pecado, o da transitoriedade, implica a deterioração da memória, especialmente a episódica (a recordação de factos), com o tempo. Deve-se a dois fatores: recordamos melhor um facto recente do que outro do passado longínquo; e sempre que o recordamos (recuperamos a recordação), o cérebro volta a processá-lo e, portanto, a alterá-lo ligeiramente. A distraibilidade, o pecado que se manifesta sob a forma de perda das chaves ou do esquecimento de datas, não é tanto um erro de recuperação mas de seleção. Às vezes, não prestamos atenção suficiente quando fazemos as coisas (como guardar as chaves), pelo que o cérebro trata a informação como se fosse trivial e não a armazena. Por outro lado, temos o pecado do bloqueio, que consiste em não conseguirmos recuperar a informação armazenada, frequentemente devido à interferência de outra recordação Um exemplo é a síndrome do “está na ponta da língua”, quando quase podemos recuperar uma palavra que conhecemos bem, mas não o conseguimos.
Pecados de comissão
Os pecados de comissão são mais complexos, mas não menos habituais. Na atribuição errada, recuperamos a informação corretamente, mas não a sua origem. Algo de semelhante acontece com a sugestionabilidade, quando as recordações são influenciadas pelo modo como se recuperam, por exemplo, em resposta a uma pergunta intencional. O pecado do enviesamento também implica a distorção da recordação e surge quando esta se vê afetada pelas emoções e pelas opiniões da pessoa no momento de recuperar a informação. Por último, o pecado da persistência é produto de uma memória eficaz. É a recuperação de forma persistente e não desejada de informação perturbadora ou incómoda armazenada, tal como recordações embaraçosas ou angustiantes. Schacter insiste que estes pecados não são falhas; são o preço que temos de pagar por um sistema complexo que funciona excecionalmente bem na maioria das vezes.
Depois da II Guerra Mundial, o crescente interesse pelas filosofias orientais na Europa e na América introduziu na cultura popular algumas ideias como a meditação. Os benefícios médicos dessa prática levaram Jon Kabat-Zinn, biólogo e psicólogo americano, a desenvolver a técnica da redução do estresse baseada na atenção plena (REBAP), que integra a meditação na estrutura da terapia cognitiva.
A prática da consciência plena
A mindfulness (atenção ou consciência plena) é o elemento central do enfoque de Kabat-Zinn. O objetivo desta forma de meditação é observar os pensamentos e processos mentais (além do corpo e dos processos físicos) à distância, com desvinculação e ausência de julgamentos; “permanecer no corpo e observar o que acontece na mente, aprender a não rejeitar e a não perseguir nada, mas sim a deixar ser e a deixar ir”.
Deste modo, aprendemos a observar os pensamentos com serenidade, sem nos identificarmos com eles, e a entender que a mente tem vida própria. Assim, um pensamento de fracasso é considerado uma atividade mental e não um trampolim para a conclusão: “Sou um fracassado”. Com a prática, aprendemos a ver que mente e o corpo são uma unidade. Kabat-Zinn afirma que somos mais do que um corpo e mais do que os pensamentos que se sucedem na mente.
O debate sobre até que ponto podemos atribuir o nosso comportamento a causas inatas (congênitas) e a causas ambientais remonta à Antiguidade. Alguns psicólogos cognitivos afirmam que certos traços psicológicos não são apenas herdados, estando também sujeitos à seleção natural, tal como os físicos. Argumentam que a mente é um produto do cérebro e o cérebro é determinado pela genética.
O novo campo da psicologia evolucionista enfrentou uma grande oposição, mas encontrou um dos seus defensores no psicólogo canadiano Steven Pinker, que identificou os quatro medos que explicam a resistência à sua aceitação. O primeiro é o medo da desigualdade: se a nossa mente é uma página em branco ao nascer, todos nascemos iguais, mas se herdássemos traços psicológicos, existiriam pessoas.com vantagens naturais. O segundo medo é que se certas imperfeições fossem inatas, não seriam suscetíveis de mudança, portanto, as iniciativas para ajudar os desafortunados seriam inúteis O terceiro é que se a genética determinasse o comportamento, poderíamos declinar toda a responsabilidade pelos nossos atos e culpar os genes. O quarto é o fundamental, segundo Pinker: se aceitamos que somos modelados pela psicologia evolucionista, as nossas “emoções mais aperfeiçoadas” (percepções, impulsos, sentimentos) seriam reduzidas a meros processos da evolução genética, e a biologia “destronaria o que consideramos sagrado”.
A psicologia passou por uma mudança importante na segunda metade do século XX. Muitos psicólogos consideravam que a psicanálise não era científica e, na década de 1960, fora substituída por terapias comportamentais ou pela mais recente terapia cognitiva de A. Beck para o tratamento de algumas perturbações. Até à década de 1980 foram desenvolvidas combinações destes enfoques, englobadas na designação terapia cognitivo-comportamental (TCC). Paul Salkovskis, um dos seus impulsionadores na Grã-Bretanha, descobriu que a TCC era especialmente útil para tratar o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). A psicanálise não encontrara na repressão ou nos traumas uma causa para esta perturbação, mas Salkovskis explicou-o a partir da perspectiva da psicologia cognitiva e apresentou um tratamento cognitivo e comportamental.
Pensamentos obsessivos
Salkovskis sugere que o transtorno obsessivo-compulsivo se baseia nos pensamentos intrusivos e indesejados que todos temos às vezes (a sensação de que vai acontecer algo de terrível, que iremos sofrer ou que acontecerá uma grande desgraça). Na maioria dos casos podemos afastá-los da mente e continuar com a nossa vida, mas às vezes custa-nos mais livrarmo-nos deles. No limite, tornam-se obsessivos e são acompanhados pelo medo e por uma sensação de responsabilidade. As pessoas com predisposição para este tipo de pensamentos têm dificuldade em avaliar racionalmente a sua importância e sobrevalorizam não só o perigo, mas também a capacidade necessária para o controlar.
Por exemplo, os pensamentos obsessivos sobre ser contagiado ou contagiar com alguma doença mortal podem causar rituais de limpeza ou de lavagem compulsiva das mãos. Também é sentida a responsabilidade de agir, embora a ação seja desproporcional ao risco. Os comportamentos compulsivos resultantes podem ser convertidos em rituais, que se repetem para tentarem controlar a ameaça percebida.
A terapia cognitivo-comportamental combina técnicas cognitivas e comportamentais para tratar tanto a causa como os sintomas de TOC. Primeiro, a terapia cognitiva ajuda o paciente a identificar os pensamentos obsessivos como tais e a avaliar de uma forma mais racional o risco e, sobretudo, a responsabilidade pessoal de o evitar. Esta abordagem cognitiva reduz o mal-estar. Paralelamente, técnicas comportamentais como a dessensibilização (isto é, a exposição gradual à ameaça percebida) ajudam-no a controlar o comportamento compulsivo. Paul Salkovskis utiliza com êxito técnicas de TCC no tratamento de pacientes que sofrem de ansiedade, ataques de pânico e fobias.
Os psicólogos behavioristas defendiam que a conduta depende apenas do meio, mas na década de 1920 Kurt Lewin afirmou que depende da interação entre o indivíduo e o meio. O desenvolvimento das suas revolucionárias ideias deu lugar ao estudo da dinâmica de grupo, que atualmente tem um valor incalculável para as organizações.
Durante a sua investigação da conduta humana, Lewin desenvolveu a teoria do campo (o meio psicológico do indivíduo ou do grupo num dado momento), que analisa as forças e os fatores que influem sobre qualquer situação. Lewin afirmou que em qualquer campo existem duas forças opostas: as que motivam e impulsionam as pessoas para os seus fins, e as que entorpecem e inibem o avanço para os referidos objetivos.
O modelo de mudança de Lewin
A teoria do campo proporcionou a Lewin a base para um modelo que, além de explicar a mudança, constitui um valioso guia para a transformação com êxito, tanto dos indivíduos como das organizações Este modelo indica que, para poder mudar com êxito, uma pessoa ou o líder de uma organização deve ter em conta as diversas influências que recebem tanto a mente dos indivíduos como o meio.
Na sua explicação do modelo de mudança, Lewin insiste que é necessário ter em consideração toda a situação, incluindo os pormenores pessoais e ambientais relevantes, pois centrar-se em dados isolados pode alterar a percepção das circunstâncias. É necessário ter uma visão completa e holística da situação, e além disso aprofundar a compreensão durante o processo de mudança “para entender um sistema é necessário tentar modificá-lo”.
O modelo de Lewin propõe um processo em três fases para conseguir uma transformação pessoal ou organizativa. A primeira, chamada “descongelamento”, é de preparação e baseia-se em reconhecer a necessidade da mudança e desmantelar as crenças e práticas anteriores. A mudança verifica-se na fase seguinte, durante a qual a antiga mentalidade ou o velho sistema se desmorona e costuma ser acompanhada por confusão e mal-estar. Na última fase, a "recongelação”, a nova mentalidade cristaliza e estabiliza a nova estrutura Trata-se de um processo difícil: implica uma desaprendizagem dolorosa, uma reaprendizagem difícil, e a reestruturação de pensamentos, atitudes, emoções e percepções.
Descongelar as convicções
É possível que a fase de descongelamento seja a mais complexa, pois as pessoas apresentam resistência natural a mudar de ideias ou rotinas. Exige uma preparação cuidadosa: muitos dos esforços para introduzir mudanças numa empresa fracassam porque os empregados não são devidamente preparados, o que faz com que resistam à mudança, e diminuem as probabilidades de que trabalhem bem no novo sistema A preparação pode consistir em elaborar uma visão da mudança que entusiasme e aglutine os empregados, comunicá-la eficazmente, transmitir a sensação de urgência e de necessidade de mudança, apoiar os empregados e fomentar a sua participação ativa no processo.
A escala individual, as pessoas podem reagir na defensiva e recusar-se a abandonar a sua cômoda posição para enfrentar o repto de aprender novas técnicas ou aceitar ideias novas. Esta resistência natural é superada se forem ajudadas a aceitar que a mudança é necessária e válida e que conduzirá a melhores resultados, além de lhes proporcionar o apoio necessário para criar uma sensação de segurança psicológica.
Lewin demonstrou o efeito positivo de criar um meio de segurança psicológica durante a fase de descongelamento (e de permitir a participação ativa durante o processo de mudança) com os seus esforços para convencer as donas de casa americanas da conveniência de cozinhar vísceras durante a II Guerra Mundial. Historicamente, apenas as famílias de mais baixos rendimentos as consumiam, mas o Governo queria assegurar-se de que num momento de escassez não se desperdiçariam alimentos nutritivos, sobretudo porque o coração, os rins e o fígado são muito ricos em proteínas. O Departamento de Agricultura dos EUA recorreu a Lewin para os ajudar a convencer as mulheres a servi-los à família. Durante as suas entrevistas com donas de casa, Lewin identificou as forças de motivação e de renitência que influíam na situação. A força de motivação, o incentivo para a mudança de atitude, era o elevado valor nutritivo das vísceras. A força de renitência, ou barreira, era a convicção das mulheres de que não eram alimentos de qualidade adequada nem para elas nem para a família e, numa medida menor, de que teriam mau sabor.
Lewin elaborou um estudo com dois grupos de donas de casa para determinar a melhor forma de promover a mudança. Ao primeiro grupo repetiu-se que consumir vísceras era benéfico, enquanto o segundo participou num pequeno debate sobre a possibilidade de remediar o problema da escassez de alimentos se mulheres como elas participassem num programa de consumo de vísceras como rins, fígado ou coração. Cerca de um terço das mulheres deste grupo serviu-as à mesa, o que levou Lewin a concluir que aumentar o nível de participação das pessoas aumenta também as probabilidades de mudarem de atitude e de conduta. As palestras dadas ao primeiro grupo não foram úteis, enquanto no grupo de debate se gerara um núcleo de segurança psicológica no qual as mulheres puderam expressar as suas preocupações e opiniões. Explorando as suas convicções e a realidade da escassez de alimentos, Lewin ajudou-as a mudar de opinião sobre que carnes eram comestíveis e guiou-as para uma nova convicção: as vísceras eram um alimento aceitável para comprar e servir em casa.
Mudar
Durante a segunda fase de mudança (a mudança propriamente dita), as pessoas enfrentam a incômoda e desorientadora tarefa de aplicar um sistema novo. Tem de renunciar a rotinas e práticas conhecidas para adquirir novas habilidades (o que por si só já pode provocar incerteza ou medo do fracasso). Numa organização, serão os líderes que definirão o novo sistema, que costuma ter que ver com a tecnologia, a estrutura, os processos ou a cultura organizativa. Nesta fase, é crucial proporcionar aos empregados o apoio suficiente e garantir a eliminação de obstáculos
Quanto à mudança pessoal, não se pode impor às pessoas um novo sistema de convicções; são elas que o devem encontrar e aceitá-lo por si mesmas. Quando uma convicção demonstra ser ineficaz ou errónea, tendemos naturalmente a substituir o antigo sistema de valores por outro novo, a fim de preencher o incómodo vazio deixado pelo processo de descongelamento. Conseguimo-lo de várias formas: confiamos no instinto, fixamo-nos em modelos ou procuramos de um modo mais geral entre toda a informação disponível. Esperamos encontrar desta forma informação nova que nos permita resolver o problema. Quando o conseguimos, aceitamos e consolidamos uma nova mentalidade.
No caso das donas de casa americanas durante a II Guerra Mundial, Lewin proporcionou-lhes nova informação sobre o bom sabor e o valor nutritivo das vísceras (substituiu a convicção anterior de que se tratava de carnes de baixa qualidade) e convenceu-as de que, tendo em conta a realidade da carência de alimentos devido à guerra, não havia nada de mau em servi-las à sua família (substituiu a convicção anterior à guerra de que consumi-las era um desprestigio social).
Fase de recongelação
Para garantir o êxito a longo prazo de uma mudança numa organização é necessário que passe a fazer parte da cultura da empresa (“recongelação”). Os processos de pensamento, práticas e condutas adotados durante a transição devem transformar-se numa rotina. Os dirigentes podem ajudar a consolidar as mudanças explicando como beneficiaram a empresa e fomentando as atitudes positivas dos empregados, talvez mediante um sistema de recompensas por aplicar os novos processos ou habilidades. Por exemplo, na década de 1990, a companhia aeronáutica dos EUA Continental Airlines teve de declarar falência. Para poder continuar a funcionar, a direção introduziu uma importante mudança em vez de dar prioridade à redução de custos, ofereceu um produto de qualidade que satisfizesse os clientes mais exigentes Decidiu recompensar os trabalhadores que adotassem as novas políticas e práticas (para garantir a sua adesão às novas prioridades) e ofereceu-lhes uma bonificação de 65 dólares se o Departamento de Transportes classificasse a empresa entre as cinco primeiras companhias aéreas. A aplicação do modelo de mudança de Lewin determinou a evolução da Continental, que passou de ser a companhia com piores resultados à companhia aérea do ano.
À escala individual, a fase de recongelação caracteriza-se porque as novas convicções e práticas são postas à prova mediante ensaio e erro; isto, ou reforça a mudança ou dá lugar a outro ciclo de mudança Por exemplo, depois de uma semana a cozinhar vísceras, uma dona de casa do tempo da guerra podia de terminar se a família gostava, se parecia bem alimentada e se outras famílias a julgavam positiva ou negativamente em função da dieta escolhida. Se as respostas a estas perguntas fossem positivas, a dona de casa continuaria a cozinhar vísceras. Se, pelo contrário, as crianças não pareciam tão saudáveis como quando comiam frango ou bife, ou se as outras mulheres a criticavam pela carne que consumiam, talvez decidisse procurar outra forma de alimentar a família, razão pela qual as fases de descongelamento e de mudança começariam de novo.
Graças ao seu inovador trabalho sobre os sistemas sociais, Lewin é considerado o fundador da psicologia social. Foi o primeiro psicólogo a estudar metodicamente a dinâmica de grupo e o desenvolvimento organizativo. Aplicou rigorosamente a ciência social para conseguir uma transformação útil, e a sua obra exerceu grande influência em todos os âmbitos da psicologia experimental e social.
O psicólogo social Solomon Asch provou a nossa tendência para a conformidade, além de questionar a nossa convicção de que somos seres autônomos, com uma experiência que revelou que, quando as pessoas enfrentam a opinião da maioria, a tendência para a conformidade pode superar o compromisso com aquilo que acreditam que é a verdade. Asch expos as suas conclusões em 1955, no artigo Opinions and Social Pressure, no qual também trata das influencias sociais que modelam as convicções, as opiniões e a conduta da pessoa O objetivo de Asch era investigar os efeitos da pressão do grupo sobre a tomada de decisões individual e como, e em que medida, as opiniões são influenciadas pelas forças sociais externas.
Em 1935, psicólogo turco Muzafer Sherif já se propusera dar resposta a perguntas parecidas, mediante uma ilusão visual chamada efeito autocinético, que consistia em que um ponto de luz imóvel num compartimento escuro parecesse mover-se. Disse aos participantes no estudo que ia mover a luz e perguntou-lhes quanto julgavam que se movera. Quando lhes era perguntado em grupo, as estimativas convergiam numa norma grupal, o que revelava que utilizavam as estimativas dos outros como marco de referência numa situação ambígua. Apesar de Sherif considerar ter demonstrado os princípios da conformidade, Asch refutou-o porque, como na tarefa não havia respostas corretas ou incorretas, era impossível chegar a conclusões definitivas Considerava que a conformidade social apenas se podia medir do ponto de vista da tendência de um indivíduo para estar de acordo com os membros do grupo mesmo que dessem uma resposta errônea numa tarefa cuja solução não é ambígua, e para o conseguir desenhou a simples tarefa perceptiva conhecida como paradigma de Asch.
O paradigma de Asch
Asch fez a experiência com 123 estudantes, colocando-os um por um num grupo de cinco a sete “colaboradores” (que conheciam o objetivo real da experiência, mas que se apresentavam como participantes). Mostrava-se ao grupo um cartão com uma linha, seguido de outro com três, assinaladas como A, B e C, e depois perguntava-se aos membros qual das linhas tinha o mesmo comprimento da do primeiro cartão.
A sala estava organizada de forma a que o sujeito fosse sempre o último ou o penúltimo a responder. Num total de 18 ensaios, os colaboradores receberam a indicação de dar a resposta correta nos seis primeiros, mas dar a mesma resposta incorreta nos 12 restantes. O objetivo era comprovar se o sujeito responderia corretamente ou se optaria por responder como o grupo de colaboradores que teriam dado uma resposta idêntica mas errada.
A princípio, Asch acreditava que só uma minoria dos sujeitos aderiria às respostas dos colaboradores. Afinal, a tarefa era simples e as respostas óbvias, no estudo-piloto em que não havia pressão para se conformar com um grupo errado, só foram cometidos três erros em 720 ensaios. Os resultados do estudo real foram surpreendentes. Quando se viram rodeados de pessoas que davam as mesmas respostas incorretas, a quase uma terça parte das perguntas os sujeitos deram a resposta errada (32%); 75% responderam erradamente a pelo menos uma pergunta. Um aderiu ao grupo e deu a resposta errada em 11 de 12 ensaios. Como a tarefa era simples e sem ambiguidades, os valores indicavam uma grande tendência para a conformidade por parte dos sujeitos. Não obstante, nem um só se conformou em todos os ensaios críticos e 26% dos sujeitos nunca se conformaram.
Os resultados demonstraram que os sujeitos eram muito coerentes consigo mesmos. Os que se afastaram da decisão grupal e deram uma resposta autônoma não sucumbiram à maioria nem sequer depois de múltiplos ensaios, enquanto os que decidiram aderir à maioria pareciam incapazes de quebrar esse procedimento.
Explicações
Para aprofundar os resultados, Asch entrevistou os sujeitos com o fim de averiguar porque tinham respondido erradamente. Alguns disseram: que tinham querido cumprir com aquilo em que acreditavam que desejava o experimentador, para não perturbar a experiência. Outros interrogaram-se se sofriam de vista cansada ou se se teriam sentado num ângulo enganador. Também houve quem dissesse não ter a consciência de ter dado respostas erradas. No fim, alguns admitiram saber que as suas respostas eram incorretas, mas acrescentaram que não se tinham querido destacar ou parecer diferentes, ou tornar-se ridículos: queriam fazer parte.
Asch também falou com os sujeitos com respostas corretas e independentes e concluiu que não tinham sido indiferentes à maioria, mas que haviam superado as dúvidas e dado uma resposta congruente com o que viam.
Asch repetiu a experiência com algumas variantes para verificar o efeito do tamanho do grupo sobre o nível de conformidade. Descobriu que um único colaborador pouco influía na conformidade do sujeito: dois exerciam uma ligeira influência, e três ou mais fomentavam uma tendência mais ou menos estável para a conformidade. A unanimidade na resposta dos colaboradores era um fator ainda mais poderoso se um só oferecia uma resposta alternativa, a probabilidade de os sujeitos darem uma resposta independente (e correta) era muito maior. Esta conclusão revela o poder de uma minoria discrepante, por pequena que seja. Mais, Asch descobriu que se permitisse aos participantes responderem em privado, por exemplo por escrito, a tendência para a conformidade diminuía significativamente, inclusive quando os colaboradores respondiam em voz alta.
Normas culturais
Alguns psicólogos argumentaram que as conclusões de Asch refletiam o clima cultural dos EUA na década de 1950, durante o macarthismo, quando a discordância era considerada antiamericana e as pessoas acabavam na prisão devido à sua opinião. Estudos posteriores descobriram variações nos níveis de conformidade. Assim, um estudo do princípio da década de 1970 (uma época de pensamento liberal e progressista nos EUA) registou índices de conformidade inferiores. Não obstante, outro estudo de finais da mesma década demonstrou um regresso a níveis anteriores.
O índice de conformidade também varia de uma cultura para outra. Os investigadores concluíram que as culturas individualistas, como a americana, a britânica e outras europeias ocidentais, nas quais se dá valor à liberdade e aos êxitos pessoais, revelam índices de conformidade mais baixos do que os do Japão, das Fiji ou de países africanos onde pertencer a um grupo tem grande valor
Os psicólogos criticaram os métodos de Asch, argumentando que partiam de uma versão simplista da conduta grupal que não permitia muita interação entre os participantes, ou que se centravam mais nos membros do grupo do que na dinâmica do grupo como tal. Outros interrogavam-se se tinha exagerado o poder da influência da maioria sobre a minoria. Em concreto, Serge Moscovici discordava da análise de Asch e defendia que uma minoria ativa podia influir na maioria e impulsionar uma mudança. Moscovici desenvolveu estudos próprios com o objetivo de demonstrar que uma minoria sólida pode influir no pensamento da maioria.
Apesar de Asch reconhecer que a vida social exige certo consenso, também insiste que é mais produtiva se cada pessoa puder expor independentemente as suas ideias e experiências. O consenso não se deveria basear no medo ou na conformidade, e a sua descoberta de que a tendência para o conformismo é muito poderosa inclusive entre pessoas inteligentes punha em causa os valores sociais e a qualidade da educação.
As conclusões de Asch indicaram o poder (e o perigo) da influência social na hora de modelar a conduta e as crenças de uma pessoa. Se algo chega a ser normal num grupo, a pressão social garantirá a conformidade. A experiência realizada por Stanley Milgram sobre a obediência inspirado na teoria de Asch, tornou evidente a crueldade de que são capazes pessoas normais sob a pressão da conformidade do grupo.
Contudo, a maioria dos sujeitos que participaram no seu estudo, inclusive os que se conformaram, garantiu dar valor à independência de critério, o que fez com que Asch pudesse manter uma visão otimista da humanidade.
Erving Goffman desenvolveu a teoria da gestão das impressões, que explica como criamos, mantemos e melhoramos a nossa identidade social. Afirma que um dos aspetos fundamentais da interação social é que tentamos, de maneira consciente ou inconsciente, manipular e controlar como nos veem as pessoas que nos rodeiam. Quando interatuamos com outras pessoas, apresentamos uma imagem pública de nós mesmos. Em alguns casos, talvez tentemos influenciar uma pessoa (por exemplo, numa entrevista de trabalho); noutras situações, talvez unicamente pretendamos manter uma imagem favorável de nós próprios No seu livro de 1959 A Apresentação da Pessoa na Vida Quotidiana, Goffman estabelece um paralelismo entre a gestão das impressões e o teatro, e explica que a forma como nos apresentamos no mundo real se assemelha a uma atuação em cena. Cada interação social pretende afetar o público de forma a parecer uma expressão pessoal honesta.
De facto, para Goffman, a personalidade é a soma dos diversos papéis que uma pessoa representa ao longo da vida. Esta teoria admite que a personalidade real não é um fenômeno privado ou interno, mas o efeito dramático de como a pessoa se apresenta publicamente, "A vida é uma representação teatral”, afirma Goffman: para transmitir uma impressão positiva é necessário contar com uma decoração adequada, adornos, vestuário, habilidades e uma compreensão partilhada do que representa estar em cena (a esfera pública) ou nos bastidores (o âmbito da vida privada ou pessoal).
Habilidades dramáticas
Goffman acreditava que, na vida real. toda a gente tem capacidade para escolher a própria decoração, adornos e vestuário para se apresentar diante do público. O principal objetivo, tanto do ator social como do teatral, é manter a congruência na interação com os restantes atores. Isto só é possível quando todos coincidem na “definição da situação” e nas caraterísticas, expectativas e limitações de uma representação ou interação concreta, por meio de sinais que indicam a forma adequada de reagir e de encaixar num determinado ambiente social.
A fim de serem congruentes, as pessoas devem estar de acordo nas suas identidades pessoais, no contexto social e nas expetativas coletivas de conduta nesse contexto. Assim, por exemplo, os famosos que participam numa festa de luxo aceitaram de forma implícita que são “famosos numa festa de luxo”, portanto, aceitarão o papel que deles se espera nessa situação e animarão os restantes atores e observadores (ou público) a aceitar a referida definição. No entanto, no caso de a definição concreta perder solidez (por exemplo, se na festa, para comer só é servida pizza ou se há pessoas não famosas entre os assistentes), então os famosos terão de fazer como se nada se tivesse passado e fomentarão uma credibilidade artificial com o objetivo de conservar a paz ou evitar a vergonha.
Dizia-se que Goffman se divertia verificando os limites que modelavam as interações em diferentes lugares como restaurantes aulas e filas no cinema.
Até meados do século XX, os sociólogos tendiam a explicar a conduta humana baseando-se em fatores ambientais. No entanto, Robert Zajonc, um psicólogo nascido na Polônia, acreditava que para alcançar uma compreensão mais completa era necessário ter também em conta as funções cognitivas. Zajonc, sobretudo interessado na relação entre a emoção e o pensamento (a interseção entre a emoção e a cognição), dedicou grande parte da sua carreira a averiguar qual destes fatores exerce maior influência sobre a conduta. Para isso, em 1968 fez uma experiência fundamental, que deu lugar à descoberta do “efeito da mera exposição”, talvez a sua principal contribuição no campo da psicologia social.
Experiências sobre a familiaridade
Zajonc explicou que a mera exposição consiste num estado em que o estimulo é acessível à percepção do sujeito, consciente ou inconscientemente. Edward B. Titchener já documentara os efeitos da mera exposição, e em 1910 descrevera a “calidez” e a sensação de intimidade que experimenta uma pessoa na presença de algo que lhe é familiar. No entanto, as teorias de Titchener foram refutadas na altura e a ideia caiu num relativo esquecimento.
Um artigo sobre uma curiosa experiência realizada em 1967 na Universidade Estatal do Oregon despertou o interesse de Zajonc no efeito. O artigo defendia que um “misterioso aluno” assistira à aula durante dois meses, encapuzado com um saco preto. O professor, Charles Goetzinger, conhecia a identidade da pessoa oculta, mas na aula ninguém mais tinha a mínima ideia de quem poderia ser. Goetzinger observou o resto da aula e avaliou as suas reações ao longo do tempo, Num primeiro momento, os alunos trataram o encapuzado com hostilidade, mas com o tempo descontraíram-se e por fim mostraram-se amigáveis e inclusive protetores. Goetzinger notou que a atitude dos companheiros evoluiu gradualmente da hostilidade à curiosidade e finalmente à amizades.
No seu inovador artigo “Attitudinal Effects of Mere Exposure”, publicado em The Journal of Personality and Social Personality em 1968, Zajonc descreve uma série de experiências nas quais mostrou aos participantes uma sequência de imagens aleatórias (formas geométricas, símbolos chineses, desenhos e rostos) com uma tal rapidez que os sujeitos não distinguiam os que se repetiam e os que não se repetiam. Quando depois lhes foi perguntado que imagens preferiam, escolheram as que tinham visto com maior frequência, apesar de não terem consciência disso, Parecia que Zajonc acabava de descobrir que a familiaridade gera uma mudança de atitudes e certo afeto ou forma de preferência pelo estímulo familiar. Essa preferência intensifica-se com a exposição quanto maior é o número de exposições de algo, mais afeto se sente por ele. Em poucas palavras: “Quanto mais se vê algo, mais se gosta.”
Os investigadores sobre o efeito da mera exposição depois da experiência de Zajonc descobriram que é possível recriar o efeito com o som, além de com imagens. Em 1974, o psicólogo social DW Rajecki usou ovos de galinha como sujeitos, dividiu-os em dois grupos e expô-los a sons de diferente frequência antes de os pintos saírem da casca. Depois expôs os pintos dos dois grupos aos mesmos sons. Sem exceção, os pintos preferiram os sons que tinham ouvido antes de nascer.
As preferências não são racionais
As conclusões a que chegou Zajonc indicam que a preferência pelos estímulos conhecidos se baseia exclusivamente na história da exposição aos mesmos e não é afetada pelas convicções ou atitudes manifestadas pela pessoa. Isto continua a ser certo inclusivamente quando as exposições são exclusivamente subliminares é o sujeito não tem consciência de que lhe são apresentados estímulos. Esta descoberta levou Zajonc a defender que as “preferências não precisam de inferências”, isto é, que o efeito positivo não se baseia numa opinião racional, o que contradiz o que a maioria de nós poderia supor.
Num artigo intitulado “Feeling and Thinking”, escrito em 1980, Zajonc afirma que a emoção e o pensamento são independentes. As emoções não só precedem o pensamento durante a complexa resposta ao estímulo como são os determinantes mais poderosos das atitudes e decisões de uma pessoa Este artigo gerou grande polêmica e contribuiu para reavivar o estudo da emoção na psicologia ocidental, em parte porque a teoria tem implicações importantes para o estudo dos processos de tomada de decisões. Afirma que, ao contrário do que poderíamos pensar, as decisões não se baseiam na lógica e na razão mas que, de facto, as pessoas tomam decisões rápidas e intuitivas baseadas na emoção antes de terem a oportunidade de avaliar cognitivamente as diferentes opções. Por outras palavras, decidem sem informação. No caso de isto ser certo, o raciocínio lógico apenas justifica e racionaliza as decisões que já tomamos, em vez de nos ajudar a tomar uma decisão.
Zajonc concluiu: “O afeto acompanha sempre o pensamento, mas o contrário não é verdade. Não é impossível pensar em algo sem sentir algo a esse respeito. Assim, e como defende Zajonc, não só vemos “uma casa”, mas “uma casa bonita” ou “uma casa ostensiva”. Toda a percepção contém um certo afeto ou emoção. A primazia do afeto sobre a cognição também aparece na memória, tal como assinala Frederic Bartlett no seu livro Recordar: “Quando pedimos a um sujeito que recorde, é habitual que a primeira coisa a aparecer tenha que ver com a atitude.”
Atração interpessoal
O impacto do efeito da mera exposição supera os limites do laboratório e entra no campo da atração interpessoal. Neste contexto, o fenômeno explica-se como “efeito de proximidade” ou tendência para estabelecer relações de amizade ou amor com pessoas que vemos com regularidade. A evolução explica-o assim: quando os animais são expostos a algo pela primeira vez costumam responder com receio e agressividade, mas as exposições repetidas durante as quais o animal se apercebe de que a ameaça suposta não se materializa, levam a uma redução das respostas negativas. Zajonc explorou esta ideia com maior profundidade em sujeitos humanos e descobriu que as pessoas têm atitudes muito negativas em relação a um grupo imaginário de desconhecidos, aos quais atribuem qualidades desagradáveis sem motivo aparente, excetuando o facto de serem desconhecidos. No entanto, tal como com as formas e os símbolos, a exposição repetida aumenta a confiança e o afeto.
Outra explicação para o efeito de proximidade baseia-se nos múltiplos fatores que intervém na atração interpessoal, como a familiaridade, a semelhança de atitudes, a atração física e o afeto reciproco. Talvez as interações frequentes não só aumentem a familiaridade como também proporcionem uma crescente sensação de semelhança, o que geraria emoções positivas e, por fim, atração.
Exposição e publicidade
A publicidade é outra área em que o efeito da mera exposição desempenha uma função essencial, embora o processo não seja tão claro. As investigações realizadas parecem sugerir que a exposição repetida a uma marca ou a um nome corporativo deveria incentivar a sua compra, mas a referida ideia é excessivamente simplista, pois não tem em conta outros possíveis efeitos da exposição frequente.
Num estudo para comprovar o efeito da mera exposição, realizado sobre estudantes universitários, foi apresentado aos sujeitos no ecrã de um computador um artigo que deviam ler enquanto iam aparecendo banners na parte superior. Os resultados indicaram que os que foram expostos com maior frequência aos banners pontuaram mais favoravelmente o anúncio do que os que o viram menos ou nem sequer o tinham visto. No entanto, outro estudo concluiu que a familiaridade com o nome de uma marca pode gerar uma atitude ambivalente. Isto poderia dever-se ao facto de as pessoas estabelecerem associações positivas e negativas com as empresas conhecidas, e a exposição repetida evoca-as todas, o que intensifica a ambivalência. Portanto, não é claro se a mera familiaridade, criada pela repetição de anúncios, beneficia as vendas ou não.
Rostos familiares
Zajonc descobriu que a exposição não apenas influi no que uma pessoa sente por outra, como inclusive pode modificar o seu aspeto ao longo do tempo. Juntamente com um grupo de colegas, realizou um estudo com o objetivo de comprovar se os rostos dos cônjuges se parecem mais depois de muitos anos de convivência. Compararam fotografias de casais tiradas durante o primeiro ano de casamento com outras tiradas 25 anos depois e concluíram que eram mais parecidos nas últimas Depois de pôr de parte outras possíveis explicações, os investigadores decidiram que a causa mais provável era a empatia. O tempo aumentara a empatia reciproca do casal e, como a emoção humana se transmite mediante as expressões faciais, é possível que no processo empático marido e mulher começassem a imitar as expressões um do outro, o que provocara rugas parecidas em ambos
Zajonc é conhecido pelo alcance do seu trabalho sobre os processos básicos da conduta social e pela sua contribuição para a criação da psicologia social moderna. A partir do seu trabalho sobre o pensamento e a emoção, explorou questões como o racismo, o genocídio e o terrorismo com a esperança de que a investigação pudesse acabar em qualquer momento com a guerra e o sofrimento humano.
A psicóloga americana Janet Taylor Spence dedicou-se à investigação da ansiedade até à década de 1970, quando se consolidou o movimento de libertação da mulher. Após ler um estudo feito por dois dos seus colegas sobre como influía a competência dos homens na simpatia que despertavam, decidiu estudar questões relacionadas com o gênero e levar a cabo um estudo semelhante, mas centrado nas mulheres. Em 1972 publicou os resultados no artigo Who Likes Competent Women?
Juntamente com Robert Helmreich, propôs-se comprovar se tanto homens como mulheres preferiam as mulheres competentes ou as incompetentes. Os dois psicólogos suspeitavam que apenas as pessoas que acreditavam na igualdade de gêneros prefeririam as competentes. Para comprovar a hipótese idealizaram a escala de atitudes para com as mulheres, que avalia as atitudes em relação às funções e aos direitos da mulher a partir de perguntas acerca da educação, do matrimônio, da vida profissional, costumes, liderança intelectual e liberdade econômica e social. Ao contrário do que esperavam, os investigadores descobriram que os sujeitos não só preferiam as mulheres competentes, como conferiam as mais altas pontuações às que o eram em terrenos tipicamente masculinos.
Este estudo de ponta serviu para abrir o campo da investigação de gênero como uma subcategoria da psicologia social.
Nos finais da década de 1970, o professor da Universidade de Harvard Roger Brown coescreveu o artigo Flashbulb Memories, que se transformou num estudo clássico de um fenômeno da memória. Brown e o seu colega James Kulik criaram este termo para se referirem a um tipo especial de memória autobiográfica que faz com que as pessoas deem uma explicação muito gráfica e detalhada do momento em que se verificou um acontecimento de elevada carga emocional.
O artigo argumenta que os fatos relevantes no plano pessoal e cultural, como os atentados contra J F. Kennedy e Martin Luther King, ativam uma memória biológica especial (“impressão instantânea”) que cria uma recordação permanente do acontecimento e das circunstâncias que o rodearam Quase como numa fotografia instantânea, podemos ver onde e com quem estávamos e o que fazíamos quando ouvimos notícias impactantes, como a destruição das Torres Gêmeas de Nova Iorque, a 11 de setembro. Brown e Kulik afirmam que estas recordações são claras, precisas e duradoiras. No entanto, investigadores como Ulrich Neisser refutaram a teoria do mecanismo especial e sugerem que a perdurabilidade destas recordações se deve a serem evocadas diversas vezes depois do acontecido, tanto pelo indivíduo como pelo resto do mundo, razão pela qual são continuamente reforçadas.
No final da década de 1960, alguns psicólogos, que receberam o nome de construtivistas sociais, defenderam que a investigação psicológica deixara de ouvir as pessoas normais. Preocupava-os que se explicasse, erradamente, que as pessoas se limitam a conhecer o mundo que têm à sua volta, em vez de o construir. Para fazer frente a esta preocupante tenência, o psicólogo social de origem romena Serge Moscovici fez uma investigação que se transformou num estudo clássico sobre como as pessoas absorvem ideias e conhecem o mundo.
No estudo A Psicanálise, a Sua Imagem e o Seu Público, publicado em 1961. Moscovici explora a convicção de que todo o pensamento e compreensão se baseia nas “representações sociais” (ideias, conceitos e explicações criados mediante interações e comunicações quotidianas entre as pessoas) que permitem que nos orientemos no mundo social e material, além de comunicarmos dentro de uma comunidade. Trata-se de um “sentido comum” coletivo, uma visão partilhada da realidade, construída através dos meios de comunicação, da ciência, da religião e da interação entre grupos sociais.
Para provar a sua teoria, Moscovici analisou como tinha a França posterior à II Guerra Mundial integrado os conceitos da teoria psicanalítica. Estudou publicações de divulgação e fez entrevistas em busca de indícios do tipo de informação que flutuava na consciência coletiva Descobriu assim que a teoria psicanalítica se infiltrara sob a forma de alta cultura e de sentido comum popular as pessoas pensavam e discutiam sobre conceitos psicanalíticos complexos de um modo que parecia muito normal, embora em geral utilizassem versões simplificadas.
Modelar o sentido comum
Segundo Moscovici, traduzir conceitos complexos numa linguagem mais acessível e fácil de transmitir não constitui problema, porque “o objetivo não é fazer avançar o conhecimento, mas sim o saber”, isto é, ser um participante ativo no circuito coletivo. O processo permite que o desconhecido se transforme em conhecido e prepara o terreno para que a ciência se transforme em sentido comum. Assim, as representações sociais proporcionam uma estrutura para que grupos de pessoas possam dar sentido ao mundo. Também afetam o modo como estas se relacionam no seio de cada sociedade. Assim, quando se debate um tema social complicado, como, por exemplo, a legalização da adoção por homossexuais, o impacto e a importância das representações sociais tornam-se evidentes.
Para Moscovici, as representações sociais são formas genuínas de conhecimento por si mesmas, e não versões diluídas de informação de alto nível. De facto, deixa claro que o importante são estes pensamentos quotidianos (e não as versões cientificas mais abstratas), porque as "representações partilhadas organizam e constroem uma "realidade" comum, um sentido comum do que é "normal””.
William Glasser recusou por completo a psiquiatria convencional e a utilização de medicação, convicto de que a maioria dos problemas psicológicos e psiquiátricos faz parte do espetro da experiência humana e é suscetível de melhoria com mudanças de conduta. As suas ideias centram-se em como alcançar uma maior felicidade e plenitude mediante a escolha pessoal, a responsabilidade e a transformação.
Em 1965 desenvolveu a terapia da realidade, uma orientação cognitivo-comportamental para a resolução de problemas que anima os clientes a determinar o que querem de verdade no momento presente e a avaliar se os comportamentos que escolheram os aproximam ou afastam do seu objetivo.
A Teoria da Escolha
Depois de décadas a aplicar a terapia da realidade, cujo foco se centrava na ideia de que as pessoas podem identificar ativamente o que querem para se sentir bem, Glasser desenvolveu a Teoria da Escolha, que afirma que estamos todos motivados para atuar a fim de reduzir a dor e aumentar o prazer queremos que a nossa conduta nos ajude a sentirmo-nos melhor. Defende que tanto a dor como o prazer derivam dos nossos esforços para satisfazer cinco necessidades determinadas geneticamente sobrevivência, amor e pertença, poder, liberdade e diversão. A conduta que satisfaça uma delas será agradável e a que não o consiga provocará dor. Em última instância, só podemos satisfazer essas necessidades por intermédio das relações humanas. Quando lutamos para sobreviver, a ajuda dos outros faz-nos sentir bem, para sentir amor e pertença, precisamos pelo menos de uma relação positiva, para sentir uma sensação mínima de poder, necessitamos que alguém ouça o que temos a dizer, para nos sentirmos livres, devemos sentir-nos sem o controlo dos outros e, apesar de uma pessoa se poder divertir estando só, é bem mais fácil fazê-lo em companhia. Por tudo isso, afirma: “Somos seres sociais por natureza”.
Glasser insiste em que os problemas psicológicos persistentes costumam ser consequência de problemas nas relações pessoais (em vez de revelar uma alteração bioquimica no cérebro), razão pela qual o mal-estar se pode aliviar reparando essas relações, sem necessidade de recorrer a fármacos psiquiátricos. Destaca a necessidade básica de poder, que tentamos satisfazer controlando outros, quando na realidade a única coisa que podemos controlar é como nós próprios nos comportamos e pensamos. Não podemos controlar os outros, e tentá-lo é uma falta de respeito e um motivo de infelicidade. A Teoria da Escolha é uma psicologia de autocontrolo concebida para contrariar essa tendência e ajudar-nos a encontrar a felicidade nas nossas relações.
As pessoas sentem-se melhor quando tem uma certa sensação de controlo sobre a sua vida. Precisamos de acreditar que vivemos num mundo em que são recompensados os bons e castigados os maus, o que contribui significativamente para a nossa percepção de que é possível prever, guiar e, em definitivo, controlar o que nos acontece. A “hipótese do mundo justo” consiste em acreditar que “as pessoas têm o que merecem”. Não obstante, para Melvin Lerner, trata-se de um perigoso erro que concede excessiva importância às supostas caraterísticas da personalidade das pessoas implicadas, em vez de considerar os factos objetivos de uma situação. Se uma pessoa sofre ou é castigada, é mais cômodo para nós acreditar que fez qualquer coisa para o merecer. A teoria do mundo justo transforma-se numa racionalização que nos tranquiliza perante factos aparentemente inexplicáveis e impede que o mundo pareça caótico ou aleatório. Além disso, permite-nos acreditar que, se somos “bons”, só nos sucederão coisas “boas”, o que gera uma falsa sensação de controlo e de segurança.
Lerner explica em The Belief in a Just World que pedimos às crianças que se portem bem com a promessa de que, em troca de deixarem de parte os seus impulsos e desejos naturais, receberão uma recompensa no futuro. Para que este contrato se cumpra, devemos viver num mundo justo. Assim, as crianças chegam à idade adulta com esta convicção arraigada.
Culpar a vítima
Num estudo de 1965, Lerner concluiu que os alunos aos quais se dizia que um companheiro tinha ganho a lotaria racionalizavam este facto acreditando que o esforço do vencedor fora maior do que o dos restantes. Ao que parece, acreditar num mundo justo permite que nos adaptemos aos factos de uma situação, mas isto pode ser especialmente prejudicial ao ser aplicado à forma como olhamos as vítimas de um delito. Nos casos de violação, por exemplo, é frequente sugerir que a mulher “o provocou” porque usava minissaia ou coqueteava eximindo o violador de toda a responsabilidade Culpar a vítima faz com que os outros se sintam protegidos e seguros.
No entanto, Lerner insistiu em que acreditar num mundo justo nem sempre leva a culpar a vítima. O aspeto inocente, o atrativo, o status social e a parecença da vítima com os que a avaliam podem influir em que se considere ou não responsável pela sua desgraça.
A referida hipótese foi o ponto de partida para uma importante investigação sobre justiça social. Também impulsionou o debate sobre os efeitos de uma visão da vida baseada num mundo justo. Ajudaria a suportar as adversidades? Pelo contrário, poderia dar lugar à convicção de que qualquer mau passo, por pequeno ou involuntário que seja, nos pode levar ao desastre. Segundo a psicóloga australiana Dorothy Rowe, esta convicção pode aumentar a vulnerabilidade para a depressão.
Em O Animal Social, de 1972, Elliot Aronson expõe a “primeira lei de Aronson”: fazer loucuras não significa necessariamente estar louco. As “loucuras” a que se refere compreendem atos violentos e cruéis, ou preconceitos arraigados; atos tão extremos que parecem refletir um desequilíbrio psicológico. No entanto, Aronson defende que, embora seja certo que existem pessoas psicóticas, inclusive as psicologicamente sãs podem chegar a condutas tão extremas que parecem doentes. Assim, é importante que, antes de diagnosticar uma psicose, os psicólogos sociais se esforcem por entender as situações que teve de enfrentar a pessoa e as pressões que sofria no momento da conduta anômala.
Dissonância cognitiva
Para ilustrar esta ideia, Aronson explica um acontecimento que ocorreu na Universidade Estatal de Kent (Ohio) em 1970. Vários membros da guarda nacional do Ohio dispararam e mataram quatro estudantes desarmados e feriram mais nove. Alguns protestavam contra a invasão do Camboja, mas outros apenas atravessavam o campus. O motivo dos disparos continua ambíguo, mas é muito claro o facto de que foram tragicamente desnecessários. No entanto, depois, uma professora do Ohio e membros da guarda nacional declararam que os alunos tinham merecido morrer, e logo correu o rumor de que as alunas falecidas ou estavam grávidas, ou tinham sífilis, ou eram depravadas. Aronson defende que estes falsos rumores não refletiam ideias de mentes psicóticas, mas a tentativa de umas mentes pressionadas e em conflito para encontrarem alívio.
O conflito que sentiam é conhecido como dissonância cognitiva, uma sensação desagradável quando duas ou mais convicções pessoais são incoerentes. Para reduzir a dissonância, mudamos as atitudes, as convicções e a conduta, inclusive se representa justificar ou negar a crueldade contra terceiros. Para Aronson, foi isso que sucedeu depois do massacre de Kent Os cidadãos queriam confiar na bondade da sua guarda nacional, o que exigia acreditar que as vítimas mereciam morrer. Pensar que os estudantes eram depravados e malvados aliviava o conflito emocional de acreditar que jovens inocentes tinham sido assassinados sem motivo.
Aronson afirma que, perante uma situação semelhante, qualquer um poderia comportar-se dessa forma. Se entendemos por que as pessoas justificam ou negam a crueldade, talvez possamos mediar ou impedi-la em contextos sociais mais amplos, como a guerra ou o preconceito social.
Com o seu artigo Behavioral Study of Obedience, publicado em 1963, Stanley Milgram, psicólogo social, revolucionou as ideias sobre a obediência no ser humano e fez com que se discutisse os limites éticos da experimentação. O artigo apresentava o resultado de uma experiência que parecia sugerir que quase todas as pessoas são capazes de causar um mal extremo a outras se isso lhes for ordenado por uma figura de autoridade.
Milgram interessou-se sobretudo pelo estudo da obediência durante o julgamento do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann. A opinião generalizada era que os alemães do século XX eram fundamentalmente diferentes; na década de 1950, filósofos como Theodor Adorno sugeriram que possuíam umas caraterísticas de personalidade específicas que os tornavam propensos a cometer atrocidades como o Holocausto. Não obstante, Eichmann defendeu-se dizendo que “apenas cumpria ordens”. Milgram propôs-se analisar se isso podia ser verdade. É possível que uma pessoa normal abandone a sua noção do bem e do mal perante uma ordem? O seu estudo revelou aspetos importantes da relação entre a autoridade e a obediência, e na atualidade continua a ser uma das experiências mais controversas da história da psicologia.
O poder do grupo
Milgram acreditava que foram o contexto da II Guerra Mundial e a compulsão a obedecer, e não a disposição inata dos alemães, que facilitaram a crueldade nazi. Defendia que essa conduta foi resultado direto da situação e que qualquer de nós poderia ter feito o mesmo nas suas circunstâncias. No fim da década de 1950, Milgram trabalhara intensamente com Solomon Asch no seu estudo sobre a conformidade social e presenciara como os sujeitos tinham aceitado as opiniões do grupo, inclusive quando sabiam que eram erradas. Os resultados dessas experiências revelaram que as pessoas estão dispostas a fazer ou dizer coisas que entram em conflito com o próprio sentido da realidade. Permitiriam também que o seu critério moral fosse afetado pela autoridade de um grupo ou mesmo de um só indivíduo?
A experiência de Milgram
Milgram quis comprovar se pessoas normalmente amáveis e bondosas podiam atuar contra os seus princípios morais sob algum tipo de autoridade. Elaborou uma experiência para comprovar quão obediente poderia ser uma amostra de homens “normais” se uma figura de autoridade lhes ordenasse que aplicassem descargas elétricas noutra pessoa A experiência realizou-se em 1961, num laboratório da Universidade de Yale, onde Milgram ensinava. Os participantes foram recrutados por meio de um anúncio no jornal. Selecionaram 40 homens com uma vasta gama de ofícios, desde professores ou engenheiros até carteiros, operários e vendedores. Foram-lhes pagos 4.50 dólares por participarem, dinheiro que lhes foi dado quando chegaram ao laboratório, além disso, foi-lhes dito que podiam ficar com o dinheiro independentemente do que acontecesse durante a experiência.
Milgram instalara no laboratório um gerador de descargas elétricas simulado (mas muito realista e impressionante) equipado com 30 interruptores com a intensidade de 15 volts marcado por etiquetas nas quais figurava a intensidade dos diferentes níveis das descargas, desde “descarga ligeira” num extremo a descarga extremas, perigo: descarga severa e outra marcada simplesmente “XXX” no outro. O professor de biologia, que se apresentou aos voluntários como Jack Williams, fazia as vezes de experimentador ou “cientista”. Para dar impressão de autoridade, vestia a bata cinzenta de técnico de laboratório e mantinha um semblante severo e inexpressivo durante as experiências.
Foi dito aos participantes que o objeto do estudo era investigar os efeitos do castigo sobre a aprendizagem, e que em cada experiência participariam dois voluntários: um seria o aprendiz e o outro o professor. Na realidade, em todos os casos um dos “voluntários” era um colaborador: Mr. Wallace, um contabilista treinado para fazer de vítima. Ambos deviam tirar um papel de um chapéu para determinar os respetivos papéis, mas o sorteio tinha um truque para que Mr. Wallace tirasse sempre o “aprendiz”. Em presença do participante, era atado a uma “cadeira elétrica” com um elétrodo preso no pulso e ligado ao gerador de descargas situado na sala contígua. O participante ouvia o “cientista” explicar ao “aprendiz” (Mr. Wallace). Embora as descargas possam ser muito dolorosas, não causam danos permanentes. Para que a situação fosse ainda mais verosímil, o cientista ligava o elétrodo ao participante e aplicava-lhe uma descarga de 45 volts, inofensiva. De facto, 45 volts era a única potência que a máquina podia gerar.
O participante passava então para a sala do gerador de descargas. Era-lhe pedido que assumisse a função de “professor" e que lesse em voz alta uma série de palavras emparelhadas (como “azul-bebê” ou “bons-dias”) para que o aprendiz as decorasse. Em seguida, devia ler palavras soltas, e o aprendiz tinha de recordar o par correspondente e indicar a resposta carregando num botão que acendia uma luz no gerador de descargas. Se a resposta estava correta, o participante continuava a fazer perguntas; se estava incorreta, devia dizer a resposta correta ao aprendiz, anunciar-lhe o nível da descarga que ia receber e carregar no interruptor. Foi ordenado aos participantes que aumentassem a intensidade da descarga 15 volts de cada vez que a resposta fosse errada (por outras palavras, tinham de ir subindo na escala indicada na máquina).
Aplicação das descargas
O aprendiz (Mr. Wallace) recebera a instrução de se “enganar” aproximadamente uma em cada quatro vezes, para garantir que o participante tinha de aplicar descargas elétricas. Uma vez atingidos os 300 volts, o aprendiz tinha de bater na parede e gritar: “Recuso-me a continuar a responder! Tirem-me daqui! Não me podem obrigar! Tirem-me!” À medida que aumentava a intensidade, o aprendiz gritava mais desesperadamente, até que deixava de emitir qualquer som: as perguntas obtinham como resposta um silêncio sepulcral. Neste ponto da experiência, o participante devia considerar o silêncio como uma resposta incorreta e aplicar uma descarga com o nível de voltagem seguinte. Se hesitava no momento de continuar, o “cientista” encorajava-o a fazê-lo, primeiro limitando-se a pedir-lhe que continuasse e depois dizendo-lhe que não tinha escolha. Se continuasse a recusar, dava-se por terminada a experiência.
Antes de fazer a experiência, Milgram perguntou a vários grupos de pessoas, como membros da população em geral, psicólogos e psiquiatras, até onde julgavam que chegariam os participantes quando lhes fosse pedido que aplicassem as descargas. A maioria disse que se deteria no nível que começasse a provocar dor, e os psiquiatras predisseram que, no máximo, um de cada 1000 continuaria até ao nível máximo. A experiência demonstrou surpreendentemente, que os 40 participantes obedeceram à ordem de aplicar descargas até aos 300 volts. Apenas cinco se negaram a continuar acima desse nível, 65% obedeceram as ordens do “cientista” até ao fim e aplicaram descargas até ao nível máximo de 450 volts.
Em muitos casos era evidente como se sentiam pouco à vontade durante a experiência. Muitos davam sinais de grande mal-estar, tensão e nervosismo: gaguejavam, suavam, tremiam, tinham ataques de riso nervoso e três sofreram ataques de ansiedade. Em todos os ensaios o participante se deteve e questionou a experiência em qualquer momento, alguns, inclusive, punham a hipótese de devolver o dinheiro que lhes fora pago As entrevistas feitas depois da experiência confirmaram que, salvo algumas exceções, os participantes tinham estado convencidos de que a “experiência sobre aprendizagem” era real.
Foi-lhes dada uma explicação completa para que entendessem o que acontecera na realidade e foram-lhes feitas algumas perguntas para verificar que a experiência não os afetara emocionalmente. Também se puderam reunir com Mr. Wallace e verificar que não tinham aplicado qualquer descarga
A obrigação de obedecer
Milgram identificou várias caraterísticas da experiência que podiam ter contribuído para o elevado nível de obediência. Por exemplo, o facto de se realizar na prestigiada Universidade de Yale dava-lhe credibilidade, além disso, os participantes pensavam que o seu objetivo era avançar nos conhecimentos e, por outro lado, fora-lhes garantido que, apesar de dolorosas, as descargas não tinham perigo. É possível que receber dinheiro aumentasse a sensação de obrigatoriedade, tal como o facto de se terem apresentado como voluntários. Com o objetivo de comprovar estas explicações, Milgram introduziu diversas variantes na investigação, mas a mudança de contexto não alterou muito os resultados.
Milgram queria descobrir se a inclinação para a obediência a figuras de autoridade pode ser um fator relevante no momento de determinar a conduta, inclusive em situações extremas. As reações e as respostas dos participantes evidenciaram que obedecer ao “cientista” constituíra uma violação dos seus princípios morais e os afetara de forma negativa no aspeto psicológico e emocional; no entanto, a pressão para obedecer fora demasiado forte e sucumbiram a ela na maioria dos casos.
Segundo Milgram, este sentido da obediência deve-se ao facto de pais e professores, por exemplo, educarem as crianças desde muito pequenas para obedecerem e fazerem o que lhes é ordenado, especialmente se se trata de normas ditadas por figuras de autoridade. Tal como diz Milgram, a obediência é um elemento básico na estrutura da vida social... cumpre numerosas funções produtivas. Apesar disso, e do mesmo modo, as práticas desumanas nos campos de extermínio na II Guerra Mundial as foram possíveis em grande escala porque numerosas pessoas cumpriram ordens. As suas experiências provaram que pessoas normalmente inofensivas podiam cometer atos cruéis quando a situação as pressionava para que o fizessem.
Milgram recorreu à teoria do conformismo para explicar os seus resultados e defendeu que quando uma pessoa carece de capacidade ou experiência necessárias para tomar uma decisão, fixar-se-á no grupo para decidir como se comportar. A conformidade pode limitar e distorcer a resposta individual a uma situação, e o resultado parece uma dispersão da responsabilidade que pareceu a Milgram essencial para entender as atrocidades nazis. Não obstante, o conflito entre a consciência pessoal e a autoridade externa cria uma extraordinária pressão interna que para Milgram explicava o grande mal-estar que sentiam os participantes no seu estudo.
Questões éticas
O estudo de Milgram gerou múltiplas considerações éticas. A sua publicação desencadeou tal controvérsia que a Associação Americana de Psicologia revogou a sua filiação durante um ano. No entanto, voltou a ser admitido, e o livro que publicou em 1974, Obediência à Autoridade, recebeu o prêmio anual de psicologia.
A principal objeção era terem sido enganados de forma explicita os participantes, tanto no que se refere ao objeto do estudo como sobre a realidade das descargas. Milgram defendeu-se alegando que seria impossível obter resultados reais sem usar o engano e que depois da experiência foi explicada toda a verdade aos participantes. Conhecermo-nos a nós próprios é muito valioso, garantiu, apesar do mal-estar que os participantes tivessem podido sentir ao verem-se obrigados a aceitar que se tinham comportado de uma forma previamente inimaginável.
Não obstante, muitos psicólogos não ficaram convencidos, e o estudo acabou como base para o desenvolvimento de normas éticas na experimentação psicológica. Contribuiu para definir princípios importantes, como evitar enganar ativamente os participantes e a necessidade de os proteger do sofrimento emocional.
Validade transcultural
Outra das críticas que recebeu o estudo de Milgram for ter utilizado uma amostra pouco representativa: os homens americanos não representam necessariamente a população em geral. Mesmo assim, Milgram pôde concluir que a obediência não era uma caraterística cultural dos alemães do século XX, mas algo mais universal. Várias réplicas transculturais da experiência original demonstraram uma coincidência significativa nos resultados dentro de uma mesma sociedade, mas ligeiras diferenças de um país para outro, Assim, por exemplo, na maior parte da América do Norte e da Europa, os resultados são muito semelhantes aos obtidos por Milgram na sua experiência original, com elevadas percentagens de obediência. No entanto, os estudos asiáticos mostram níveis de obediência ainda maiores (sobretudo nos países muçulmanos e da Ásia Oriental), enquanto as populações africanas e latino-americanas indígenas, além dos inuit do Canadá, apresentam índices muito inferiores.
Tortura virtual
Em 2006, o psicólogo Mel Slater propôs se comprovar o efeito sobre os participantes se lhes fosse dito explicitamente que a situação não era real. A sua réplica consistiu numa simulação por computador do processo do aprendiz e das descargas, pelo que os participantes tinham consciência de que o aprendiz era virtual. A experiência fez-se duas vezes na primeira ocasião, o aprendiz comunicava unicamente por escrito, na segunda, era visto no ecrã. Os que apenas comunicavam com o aprendiz por escrito não tiveram dúvidas em aplicar as descargas, mas quando o aprendiz virtual era visível, comportaram-se como na experiência de Milgram.
A sociedade exige obediência
O conceito de sociedade apoia-se no pressuposto de que as pessoas estão dispostas a renunciar a certa liberdade individual e a delegar noutros com mais autoridade ou de um estatuto social superior a tomada de decisões em grande escala ou a adoção de uma perspectiva geral. Inclusive a sociedade mais democrática exige que se cumpram normas emitidas por uma autoridade legítima e reconhecida, que se impõem à regulação individual, tendo em vista um maior bem coletivo. Obviamente a legitimidade é a chave, e os antecedentes históricos de pessoas que se valeram da sua autoridade para persuadir outras a cometer crimes contra a humanidade são inúmeros.
Milgram demonstrou também que “o que determina como nos comportamos não é tanto o tipo de pessoa que somos como o tipo de situação em que nos encontramos”, o que também é muito importante. Afirma que, em vez de analisar a personalidade para explicar os delitos, deveríamos analisar o contexto ou a situação.
A investigação de Milgram recebeu muitas críticas na sua época, entre outras coisas por apresentar uma imagem desagradável e aterradora da natureza humana. Acreditar que existem diferenças fundamentais entre os nazis e o resto da humanidade é bem mais cômodo do que aceitar que, em determinadas situações, muitos de nós seriamos capazes de praticar atos de extrema violência. Assim, Milgram revelou as obscuras realidades que odeiam o poder e as consequências da nossa tendência para obedecer às figuras de autoridade com isso, absolvia-nos a todos ao mesmo tempo que nos transformava em malvados.
Os estudos sobre a obediência realizados por Milgram tornaram evidente que as pessoas obedecem às figuras de autoridade inclusive contra os seus próprios princípios morais. Philip Zimbardo quis descobrir como se comportariam se fossem elas a estar numa posição de autoridade com poder absoluto. Usariam ou abusariam do poder concedido? Em 1971 fez a experiência da prisão de Stanford, na qual participaram 24 estudantes universitários da classe média, previamente submetidos a uma avaliação que confirmara a sua saúde mental. Foi decidido por cara ou coroa que sujeitos assumiriam o papel de guardas e o de prisioneiros, e pouco depois, num domingo de manhã, os prisioneiros foram detidos em sua casa, fichados num comissariado real e transferidos para a cave do Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford, transformada numa prisão fictícia.
O meio carcerário
Para que a experiência parecesse tão real quanto possível do ponto de vista psicológico, logo que chegaram foram despidos, registados e desparasitados, e deram-lhe uniformes e lençóis. Para intensificar a sensação de anonimato e desumanização, só eram chamados pelo número atribuído, e uma grilheta em volta do tornozelo lembrava-lhes que estavam privados de liberdade.
Os guardas vestiam uniformes de estilo militar e usavam óculos de sol (para impedir o contato visual), tinham chaves, apitos, algemas e cassetetes, e vigiavam 24 horas por dia. Foi-lhes concedido controlo absoluto sobre os prisioneiros e autorização para aplicarem as medidas que considerassem necessárias para manter a ordem.
Para surpresa dos investigadores, o ambiente chegou a ser tão perigoso para os participantes que o estudo teve de ser interrompido passados seis dias. Todos os guardas tinham abusado da sua autoridade: tinham negado a comida ou privado de colchão alguns prisioneiros, tinham-nos encapuzado, preso com grilhetas e obrigado a limpar as retretes com as mãos. Para matar o aborrecimento, obrigaram-nos a participar em jogos degradantes. Um prisioneiro foi libertado ao fim de 36 horas, vítima de choro incontrolável, ataques de raiva e depressão profunda. Quando outros prisioneiros revelaram sintomas de mal-estar agudo, Zimbardo entendeu que a situação se tornara perigosa e pôs fim à experiência.
Zimbardo provou que se podem induzir condutas perversas em pessoas boas por imersão em situações totais com uma ideologia legitimadora e normas e funções aprovadas. Nas palavras de Zimbardo, as repercussões são imensas: “O ato mais horrível que jamais tenha cometido um ser humano... poderá ser cometido por qualquer um de nós sob as pressões contextuais idóneas”.
Depois de presenciar diretamente a injustiça social e a violência endémica de El Salvador na década de 1980, o psicólogo Ignacio Martin-Baró afirmou que o trauma se deve compreender da perspectiva da relação entre a sociedade e a pessoa. Recusando a ideia de uma abordagem psicológica imparcial e universal, concluiu que os psicólogos devem ter em conta o contexto histórico e as condições sociais da população que estudam. Considerando que embora alguns problemas de saúde mental reflitam uma reação anormal a circunstâncias razoavelmente normais, os problemas específicos dos grupos oprimidos e explorados tendem a refletir uma reação compreensível e normal a circunstâncias anômalas. Martin-Baró determinou que os psicólogos deveriam ser mais conscientes de como a vida num contexto difícil afeta a saúde mental e ajudar a sociedade estudada a transcender a sua história de opressão. Em meados da década de 1980, lançou a psicologia da libertação, um ramo da psicologia social comprometido com a melhoria de vida dos marginalizados e oprimidos.
Os psicólogos da libertação afirmam que a psicologia tradicional apresenta carências: com frequência, não é capaz de oferecer soluções práticas para os problemas sociais; muitos dos seus princípios desenvolveram-se em contextos artificiais em países ricos, razão pela qual é improvável que se possam transferir para outras situações, tende a passar por alto as qualidades morais humanas, como a esperança, a coragem e o compromisso, e o seu fim fundamental parece ser maximizar o prazer, em vez de averiguar como despertar e impulsionar o desejo de justiça e de liberdade.
Sociedades traumatizadas
A compilação dos seus escritos, publicada postumamente, em 1994, em inglês, com o título de Writings for a Liberation Psychology, recolhe as ideias de Martin-Baró durante várias décadas. Aborda o uso da psicologia como instrumento de guerra e de manipulação política, o papel da religião na guerra psicológica e o impacto do trauma e da violência na saúde mental. Estudou zonas onde as economias dependentes e as de- sigualdades tinham levado a uma pobreza extrema e à exclusão social. Estudou o impacto psicológico da guerra civil e da opressão em El Salvador, da ditadura na Argentina e no Chile, e da pobreza em Porto Rico, Brasil, Venezuela e Costa Rica. Em cada lugar existia um conjunto de circunstâncias diferente, pelo que afetava a população local de um modo único. Para Martin-Baró, as questões de saúde mental que aparecem num contexto refletem a história do lugar além do contexto sociopolítico, e é necessário tratar as pessoas tendo em conta os dois fatores.
Martin-Baró trabalhou sobretudo na América Central, mas as suas ideias são importantes para qualquer lugar onde a agitação política e social altere a vida quotidiana. A sua visão humana e apaixonada estabelece um importante vínculo entre a saúde mental e a luta contra a injustiça, e procura encontrar novos modos de abordar com mais efetividade os problemas psicológicos resultantes.
Algures entre os seus princípios como biólogo precoce e a sua posterior fascinação pela epistemologia, Jean Piaget criou o seu próprio nicho numa disciplina a que chamou epistemologia genética, o estudo de como evolui a inteligência da criança à medida que cresce. Mais do que comparar a inteligência de crianças de diferentes idades (evolução cognitiva quantitativa), interessava-lhe o desenvolvimento natural das capacidades mentais ao longo do tempo (evolução cognitiva qualitativa) Os estudos quantitativos permitem a comparação numérica, mas Piaget quis estudar as diferenças nos tipos, experiência e qualidades da aprendizagem infantil, o que exigia uma investigação qualitativa. Distanciando-se do modelo behaviorista prevalecente, que atribuía o desenvolvimento infantil a fatores ambientais, decidiu explorar as capacidades inatas que, segundo ele, guiavam a progressão da criança através de uma série de etapas do desenvolvimento definidas pela idade.
Piaget acreditava que as crianças aprendem de forma autônoma e ativa, e que utilizam os seus sentidos para interatuar com o mundo que as rodeia à medida que avançam de uma etapa do desenvolvimento à seguinte. Também considerava que é essencial cuidar e orientar as crianças nessa viagem, dando-lhes a liberdade necessária para que possam explorar por si sós de uma forma pessoal por ensaio e erro. Portanto, a atividade de um bom professor é acompanhar a criança no trajeto e fomentar constantemente a criatividade e a imaginação, porque o objetivo último da educação é formar homens e mulheres capazes de fazer coisas novas.
Aprendizagem ativa
O conceito de aprendizagem como processo pessoal e ativo é um dos temas-chave da teoria do desenvolvimento intelectual de Piaget. Desde que nasce até ultrapassar a infância, a aprendizagem é originada no desejo natural da criança de sentir, explorar, dominar e mover. Por isso, Piaget desconfiava dos testes estandardizados, em que se apresentam às crianças tarefas preconcebidas que devem solucionar “corretamente” e que medem a inteligência de um modo quantitativo No início da década de 1920, colaborou com Alfred Binet no seu projeto com testes estandardizados, no entanto, a Piaget interessava mais que tipo de respostas dava a criança do que se eram corretas ou não. As explicações das crianças revelavam que a sua ideia de como funciona o mundo é muito diferente da ideia que têm os adultos, o que o levou a concluir não só que as crianças pensam de maneira diferente dos adultos, como também que as de distintas idades pensam de modo diferente.
A evolução da mente
Imperava desde o século XVII a ideia de que a criança é um adulto em miniatura. Naquela época, os filósofos empiristas propuseram que o cérebro de uma criança funciona como o de um adulto mas com menos associações. Outra tendência, o inativismo psicológico, afirmava que alguns conceitos (como os de espaço, tempo e quantidade) estão “pré-programados” no cérebro, razão pela qual o bebê já nasce com a capacidade de os utilizar. A proposta de Piaget, segundo a qual os processos mentais infantis (desde o nascimento até à adolescência) são totalmente diferentes dos do adulto, foi uma contribuição radical.
Segundo Piaget, é de vital importância entender a formação e a evolução da inteligência durante a infância, porque é a única forma de compreender plenamente o conhecimento humano. O uso de técnicas de entrevista psicoterapêutica para pedir às crianças que explicassem as suas respostas transformou-se numa ferramenta-chave para a sua investigação. Em vez de se moldar a uma lista de perguntas estruturada e impessoal, este método flexível permitia que a resposta da criança determinasse a pergunta seguinte. Piaget considerava que seguir a linha de pensamento da criança lhe permitia compreender os processos que lhe estavam subjacentes. A sua recusa da ideia de uma inteligência quantitativa ou mensurável conduziu a diversas teorias inovadoras sobre o desenvolvimento cognitivo infantil.
O desenvolvimento da inteligência
A princípio, Piaget pensava que os fatores sociais, como a linguagem e o contato com a família e com outras crianças, eram a principal influência no desenvolvimento cognitivo da criança. Mas ao estudar bebês compreendeu que para eles a linguagem tem menos importância, enquanto a sua própria atividade é fundamental. Os movimentos corporais são muito limitados nos primeiros dias de vida (fundamentalmente, chuchar e chorar), mas rapidamente se acrescentam atividades novas, como agarrar um brinquedo. Portanto, Piaget chegou à conclusão de que nesta etapa a origem do pensamento se encontra na ação, não na interação social.
Esta descoberta fazia parte da sua teoria, segundo a qual todas as crianças passam por várias etapas de desenvolvimento cognitivo qualitativamente diferentes e hierárquicas: a criança só passa à etapa seguinte se completou integralmente a atual. Através de estudos e observações, Piaget concluiu que todas as crianças passam as etapas seguindo a mesma ordem, sem saltar nenhuma e sem voltar à anterior. O processo não pode ser acelerado e, apesar de as crianças, em geral, passarem de uma etapa à outra aproximadamente na mesma idade, cada uma segue o próprio ritmo.
As quatro etapas definidas por Piaget representam níveis de desenvolvimento da inteligência e, como tal, oferecem uma série de “esquemas” que a criança aplica nesse momento concreto do seu desenvolvimento. Um esquema é a representação mental de um conjunto de ideias, percepções e ações que proporciona uma estrutura que, por um lado, nos ajuda a organizar as experiências passadas e, por outro, nos prepara para as experiências futuras. Durante a lactação e a primeira infância, o esquema pode ser tão simples como “coisas que posso comer”, no entanto, conforme o tempo decorre e a criança cresce, os esquemas adquirem complexidade e permitem compreender o que é uma “cozinha”, um melhor amigo ou um “governo democrático”. Piaget defende que a conduta inteligente consta de um conjunto crescente de esquemas.
As quatro etapas do desenvolvimento
A primeira etapa que Piaget distingue é a sensório-motora, que abrange os dois primeiros anos de vida de uma pessoa. Durante este período, as crianças aprendem sobre o mundo principalmente através dos sentidos e da ação física ou do movimento. Nesta etapa são egocêntricas e apenas podem entender o mundo que as rodeia do seu ponto de vista. No princípio, os bebês praticam os reflexos sem compreensão nem intenção, depois são capazes de estender a mão e coordenar os reflexos com os objetos. Em seguida, coordenam os sentidos de maneira que podem antecipar acontecimentos; por exemplo, são capazes de imaginar objetos que não estão presentes e encontrar os que estão escondidos. Começam a experimentar, marcam objetivos ao utilizar objetos e refletem sobre um problema antes de atuar. Para Piaget, isto marca o fim da primeira etapa.
À medida que a criança progride e avança para o desenvolvimento da consciência de si mesmo, adquire as ferramentas para o pensamento simbólico e começa a desenvolver e a usar imagens, símbolos e linguagem internos. Isto constitui a etapa pré-operacional, a segunda, na qual se interessa sobretudo pelo aspeto que têm os objetos. Demonstra habilidades como a de ordenar objetos numa sequência lógica (pela altura, por exemplo) ou a de comparar dois objetos (como uns blocos) atendendo a atributos comuns e centrando-se numa qualidade (como, por exemplo, o tamanho ou a cor). Entre os dois e os quatro anos, a criança pensa em termos absolutos (como “grande” ou “maior”). A capacidade de pensamento lógico ainda é limitada e continua a ser egocêntrica e incapaz de ver as coisas do ponto de vista do outro.
Na terceira etapa, a operacional concreta, a criança é capaz de fazer operações lógicas, mas apenas na presença de objetos reais (concretos) Começa a entender o conceito de conservação e compreende que a quantidade de um objeto continua a ser a mesma embora as suas caraterísticas físicas mudem; por exemplo apercebe-se de que se se transvasa um líquido de um recipiente baixo e largo para outro alto e estreito, continua a haver a mesma quantidade de líquido, apesar da diferença de altura, Também entende que os objetos se podem ordenar tendo em conta várias qualidades ao mesmo tempo (uma bolinha pode ser grande, verde e transparente). Além disso, a criança é um pouco menos egocêntrica e os seus pontos de vista são mais relativos.
Na etapa operacional, a quarta, as crianças começam a manipular ideias (em vez de apenas objetos) e são capazes de raciocinar a partir de afirmações verbais. Já não precisam de se referir a objetos concretos e podem seguir uma argumentação. Começam a pensar hipoteticamente, e esta nova capacidade de imaginação, assim como a de comentar ideias abstratas, torna evidente que são menos egocêntricas.
Atingir o equilíbrio
Piaget também identificou várias facetas fundamentais do processo de desenvolvimento que se devem verificar ao longo de todas estas etapas: assimilação, acomodação e equilíbrio. A assimilação é o processo pelo qual incorporamos informação nova a esquemas já existentes. A acomodação é necessária quando, durante a assimilação, descobrimos que precisamos de modificar o conhecimento e as habilidades existentes. Diz-se que a criança que é capaz de assimilar de maneira eficaz todas ou quase todas as experiências novas atingiu o equilíbrio. No entanto, se os esquemas existentes são insuficientes para enfrentar com êxito as novas situações, entra num estado de desequilíbrio cognitivo, e os esquemas devem desenvolver-se para acomodar a informação necessária. Nisto consiste essencialmente o processo de adaptação, uma das formas básicas de aprendizagem.
Impacto sobre a educação
O trabalho feito por Piaget impulsionou a transformação dos sistemas educativos nos EUA e na Europa durante as décadas de 1970 e 1980: O ensino adotou uma abordagem mais centrada na criança, tanto na teoria como na prática. Em vez de tentar que a criança aprenda a pensar e comportar-se como um adulto, encorajaram-se os educadores a entender o seu trabalho como uma oportunidade para implicar as crianças num modo de pensamento novo e pessoal. Piaget defendia que a educação devia inspirar as pessoas a criar, inventar e inovar, e desencorajá-las a conformar-se ou seguir diretrizes estabelecidas pondo de parte a sua imaginação. Se o processo natural de aprendizagem de uma criança é, desde o nascimento, pessoal, ativo e exploratório, o sistema educativo que guia o desenvolvimento intelectual formal do mesmo também o deveria ser.
Outro aspeto fundamental da educação centrada na criança é ter consciência do conceito de “preparação”, que implica marcar os limites da aprendizagem em função da etapa de desenvolvimento da criança. Um dos contributos mais importantes de Piaget no âmbito da educação, especialmente no que se refere às matemáticas e à ciência, é que os professores devem respeitar e ter consciência da capacidade da criança para enfrentar uma experiência nova ou assimilar nova informação. Deste modo, as tarefas que o professor determina deveriam refletir as capacidades cognitivas e adaptar-se com a maior precisão possível ao nível da criança.
Piaget pensava que as crianças não aprendem através de observações passivas, mas de modo ativo, e que, portanto, os professores deveriam adaptar-se a isso. A interação entre os alunos é fundamental na aula, e visto que uma das melhores formas de consolidar os conhecimentos é ensinar a outra pessoa, se as crianças têm a possibilidade de comentar os temas ativamente entre elas (em vez de ouvir passivamente a lição), aumentam as probabilidades de que aprofundem e consolidem o que aprenderam.
Educação moral
Segundo Piaget, o desenvolvimento moral das crianças, tal como o desenvolvimento intelectual, dá-se em etapas e de maneira fundamentalmente autônoma. Assim, o verdadeiro crescimento moral não é produto do ensino dos adultos, mas antes do que a criança observa no mundo que a rodeia. Piaget considerava que a interação com iguais era vital para o desenvolvimento moral infantil. É nos iguais, e não nos pais ou noutras figuras de autoridade, que se encontra a chave para entender conceitos como reciprocidade, igualdade ou justiça. Considerando isso, Piaget fomentou apaixonadamente a interação de iguais na aula como uma parte fundamental da experiência de aprendizagem.
Assim, a função do professor na aula centrada na criança de Piaget parece-se muito mais com a de um mentor ou orientador do que com a de um instrutor em ação. É necessário que os professores avaliem cuidadosamente o nível de desenvolvimento cognitivo da criança e lhe proponham tarefas intrinsecamente motivadoras. É interessante referir que os professores também devem gerar desequilíbrio cognitivo nos seus alunos para os ajudarem a avançar para a etapa seguinte do desenvolvimento e lhes proporcionarem assim verdadeiras oportunidades de aprender. Deveriam centrar-se no processo de aprendizagem, e não tanto nos resultados finais, e animar os alunos formular mais perguntas, experimentar e explorar, embora isto implique enganar-se no caminho. Devem criar sobretudo um espaço de colaboração no qual os alunos possam ensinar e aprender uns com os outros.
Críticas ao trabalho de Piaget
Apesar da popularidade e da vasta influência que a obra de Piaget exerceu nos âmbitos da psicologia do desenvolvimento, na educação, na ética, na evolução, na filosofia e inclusive na inteligência artificial, as suas ideias não foram aceites sem ceticismo e sem um intenso escrutínio. Como acontece com todas as teorias influentes, anos de estudo e de investigação evidenciaram os seus problemas e carências. Por exemplo, foi questionado o conceito de egocentrismo de Piaget. As investigações que Susan Gelman fez em 1979 provaram que as crianças de quatro anos são capazes de adaptar a explicação de qualquer coisa para a tornar clara a uma pessoa que tenha os olhos vendados e que, além disso, utilizam uma linguagem simplificada quando falam com crianças mais pequenas do que elas, o que não está de acordo com a descrição de uma criança egocêntrica que não tem consciência das necessidades dos outros.
O retrato que Piaget faz da criança como fundamentalmente independente e autônoma na sua construção do conhecimento e na sua compreensão do mundo físico também encontrou algumas resistências, porque parecia ignorar a importante contribuição que fazem certas pessoas para o seu desenvolvimento cognitivo. A revolucionária obra de Lev Vygotsky centrou-se em demonstrar que a natureza do pensamento e do conhecimento é fundamentalmente social, contradizendo Piaget, que considerava que a criança não fazia parte da unidade social. Vygotsky sugere que o desenvolvimento humano se dá em três planos (cultural, interpessoal e individual) e se ocupa sobretudo dos dois primeiros. A sua teoria da zona de desenvolvimento próximo, que defende que a criança precisa da ajuda de adultos ou de crianças mais velhas para completar algumas tarefas, foi uma réplica a Piaget.
De qualquer forma, alguns estudos dedicaram-se a examinar a universalidade das etapas de Piaget Apesar de nesse momento não disporem de provas que o demonstrassem, investigações transculturais mais recentes sobre a etapa sensório-motora (como um estudo realizado por Pierre Dasen em 1994) indicam que as subetapas propostas por Piaget são universais, mas que os fatores contextuais e culturais parecem afetar o ritmo a que se alcançam e a rapidez com que se completam.
É indubitável que o conjunto da obra de Jean Piaget preparou o terreno para muitas outras áreas de investigações dedicadas à natureza do desenvolvimento infantil e do desenvolvimento cognitivo humano. Estabeleceu o marco em que se fez uma grande quantidade de investigação ao longo dos séculos XX e XXI, e deu uma nova volta à educação no mundo ocidental.
Segundo o psicólogo russo Lev Vygotsky, as capacidades necessárias para raciocinar, entender e recordar derivam das experiências da criança com os pais, professores e iguais. Entendia o desenvolvimento como um processo em três níveis: cultural, interpessoal e individual, e decidiu centrar-se nos dois primeiros porque acreditava que as experiências sociais são as mais formativas: "transformamo-nos em nos mesmos por intermédio dos outros”.
De acordo com Vygotsky, as crianças absorvem o saber, os valores e o conhecimento técnico que acumularam as gerações anteriores através da interação com os que delas cuidam, e utilizam essas “ferramentas” para aprender a comportar-se com eficiência no mundo. A interação social é o único modo de experimentar e interiorizar essas ferramentas culturais. A capacidade individual de pensar e raciocinar também depende das atividades sociais que fomentam as habilidades cognitivas inatas.
A teoria de Lev Vygotsky influiu no objetivo tanto da aprendizagem como do ensino. Os professores deveriam desempenhar um papel ativo e instrutivo, guiando as crianças e prestando-lhes atenção de forma constante para melhorar a sua atenção, concentração e capacidade de aprendizagem e, portanto, aumentar a sua competência. Essa ideia exerceu uma grande influência na educação, sobretudo no final do século XX, fazendo com que derivasse para o ensino centrado nos conteúdos, assim como na aprendizagem colaborativa.
Bettelheim dirigiu um centro onde cuidadores profissionais atendiam crianças com problemas. O seu êxito fê-lo questionar a ideia de que uma relação intima mãe-filho é o melhor meio para a criança. Interrogou-se ainda se o mundo ocidental poderia aprender algo com os sistemas de educação comunitária, como o dos kibutz israelitas.
Em 1963 viveu várias semanas num kibutz, onde as crianças eram criadas em casas especiais, fora do seu lar. No seu livro de 1967 As Crianças do Sonho afirmou que as crianças dos kibutz não estabelecem laços afetivos com nenhum progenitor concreto e que, embora isso levasse a menos relações duais, fomentava muitas amizades menos intimas e uma vida social ativa.
Adultos de êxito
Antes de realizar o seu estudo, Bettelheim predissera que talvez os adultos criados num kibutz viessem a ser pessoas medíocres com pouco impacto cultural na sociedade. No entanto, descobriu que costumavam transformar-se em adultos com sucesso. De facto, um jornalista localizou na década de 1990 as crianças que Bettelheim estudara e descobriu que em elevada percentagem eram destacados profissionais.
Bettelheim concluiu que a orientação comunitária dos kibutz era muito eficaz e publicou as suas descobertas com a esperança de melhorar os sistemas de atendimento infantil nos EUA.
Erik Erikson concebia o desenvolvimento humano a partir do princípio epigenético que afirma que todos os organismos nascem com um propósito e que o bom desenvolvimento supõe o cumprimento desse propósito. Explicou Tudo o que cresce tem um plano preestabelecido que determina o desenvolvimento das partes. Considerou que a personalidade humana se realiza e evolui em oito etapas predeterminadas e que o crescimento implica a constante interação entre forças hereditárias e ambientais.
As oito etapas
A primeira etapa abrange o primeiro ano de vida e é a da crise “confiança/desconfiança”. Se as necessidades do bebê não são corretamente satisfeitas, surgirá a sensação de desconfiança, que pode voltar a aparecer em relações posteriores. A segunda etapa, “autonomia/vergonha e insegurança”, dá-se entre os 18 meses e os 2 anos. A criança começa a explorar, mas também a experimentar pela primeira vez a insegurança e a vergonha devido às reprimendas dos pais e aos pequenos fracassos, Se a criança aprender a enfrentar tanto o êxito como o fracasso, desenvolverá uma força de vontade saudável. Entre os 3 e os 6 anos verifica-se a terceira etapa, que engloba a crise entre “iniciativa/culpa”, quando a criança aprende a agir de maneira criativa e lúdica, mas também com objetivos concretos Ao relacionar-se com outras pessoas descobre que os seus atos podem afetar negativamente os outros. Os castigos severos podem gerar um sentimento de culpa paralisante.
Entre os 6 e os 12 anos, a criança centra-se na educação e na aprendizagem de aptidões sociais Esta quarta etapa, de “rendimento/inferioridade”, proporciona uma sensação de concorrência, ainda que uma ênfase excessiva no trabalho possa levar a criança a equiparar erradamente a valia pessoal com a produtividade.
A fase seguinte, de “identidade/confusão de identidade”, marca o início da adolescência; o adolescente desenvolve uma identidade coerente mediante a reflexão sobre o passado, o presente e o futuro. Se for superada com êxito, esta fase garante uma identidade unitária, as dificuldades podem causar uma crise de identidade, termo referido por Erikson.
Na sexta etapa, de “intimidade/isolamento”, que se dá entre os 18 e os 30 anos, forjamos relações íntimas e experimentamos o amor. Na etapa seguinte, de “reatividade/estagnação”, entre os 35 e os 60 anos, trabalhamos para as gerações futuras ou para a sociedade mediante atividades culturais ou sociais.
A etapa final “integração do eu/desespero” dá-se aos 60, a pessoa reflete sobre a sua vida e ou se sente feliz e de acordo com a sua idade, ou desespera face à deterioração física e a realidade da morte. Se a superar com êxito, atinge a sabedoria.
Durante a década de 1950, a teoria predominante sobre como os bebês forjam vínculos emocionais partia do conceito psicanalítico de amor interessados, que sugeria que os bebês estabelecem vínculos com as pessoas que satisfazem as suas necessidades fisiológicas, como a alimentação. Além disso, as investigações de Konrad Lorenz sobre animais sugeriram que estes se vinculam com o primeiro objeto em movimento que veem, que costuma ser a mãe.
Neste contexto, John Bowlby adotou uma postura claramente evolucionista em relação ao apego inicial. Defendeu que como os recém-nascidos estão totalmente indefesos, estão programados geneticamente para se apegarem à mãe e garantirem assim a sobrevivência. Na opinião de Bowlby, também as mães estão geneticamente programadas para se vincularem aos seus bebês e precisam de os ter por perto. Tudo o que ameace separar a mãe do filho ativa condutas instintivas de apego e emoções de insegurança e receio.
Estas ideias constituíram a base da teoria desenvolvida por Bowlby para explicar a importância dos vínculos mãe-filho durante toda a vida, bem como as dificuldades psicológicas que apresentam as crianças se este vínculo se deteriora ou quebra por completo.
Apenas mães
Um dos aspetos mais controvertidos da teoria de Bowlby é que os bebês se apegam sempre a uma mulher, nunca a um homem. Trata-se sempre de uma figura materna, embora não tenha de ser necessariamente a mãe biológica. Bowlby chamou “monotropia” à tendência para se apegar a uma mulher e sublinhou que, embora o bebê possa ter mais do que uma figura de apego, o vínculo que estabelece com a figura materna é diferente e mais importante do que qualquer outro que possa estabelecer durante a sua vida. Tanto o bebê como a mãe apresentam formas de conduta que reforçam o apego Assim, o bebê chucha, aninha-se, olha, sorri e chora para modelar e controlar a conduta da cuidadora, e esta mostra-se ao mesmo tempo sensível e responde às necessidades do bebê. Os dois sistemas de conduta (apego e cuidados) reforçam-se mutuamente e criam um vínculo que perdurará toda a vida.
Bowlby defende que este vínculo é de tal importância formativa que se não se estabelece ou se se quebra nos primeiros anos de vida, a criança sofrerá posteriormente graves consequências negativas. Também afirma que há um período crítico durante o qual mãe e filho devem desenvolver um vínculo seguro e que vai até ao primeiro ano de vida ou, no máximo, até aos dois. Depois dos três anos, qualquer tentativa de o estabelecer seria inútil, e a criança estaria condenada a sofrer as consequências da privação materna.
Privação materna
Em 1950, a Organização Mundial da Saúde encarregou Bowlby de estudar crianças que tinham sido separadas das mães durante a II Guerra Mundial, quer por terem sido evacuadas quer por terem ficado sem lar. Também teve de estudar os diferentes efeitos do internamento em grandes instituições (como asilos ou orfanatos) Bowlby apresentou os resultados deste trabalho inicial no seu relatório de 1951, intitulado Maternal Care and Mental Health, no qual concluía que as crianças privadas de atenção materna durante períodos prolongados sofriam posteriormente de atraso intelectual, social ou emocional em maior ou menor grau.
Cinco anos depois, Bowlby fez uma segunda investigação, sobre crianças que tinham passado entre cinco meses e dois anos num sanatório para tuberculosos (que não oferecia cuidados maternais alternativos) antes dos quatro anos. Todas estas crianças (de 7 a 13 anos no momento do estudo) eram mais violentas nos seus jogos, demonstravam menos iniciativa e mais sobre-excitação, e eram menos competitivas do que as que tinham sido criadas de forma mais convencional.
Bowlby descobriu que, em casos extremos, a privação materna poderia derivar para um transtorno psicológico de desapego emocional, um estado clínico em que as pessoas se mostram incapazes de se preocupar sinceramente com os outros, razão pela qual não estabelecem relações interpessoais significativas. Entre os que apresentam este transtorno a incidência da delinquência juvenil e de condutas antissociais é mais elevada, e não demonstram sinais de arrependimento nem de culpa. Em 1944, Bowlby realizou um estudo sobre ladrões juvenis e descobriu que muitos tinham sido separados da mãe durante um período superior a seis meses antes dos cinco anos, e um número significativo desenvolvera o referido transtorno.
Bowlby acredita que o apego seguro precoce é fundamental por ser indispensável para a formação de um modelo de trabalho interior ou estrutura que a criança usa para se entender a si mesma, aos outros e ao mundo. Este modelo guia os pensamentos, emoções e expetativas da pessoa, inclusive na idade adulta. Como um apego precoce é um modelo para as relações futuras, a sua qualidade determinará se a criança aprende a confiar nos outros e a sentir-se válida e segura na sociedade. Os modelos de trabalho interior resistem à mudança, pelo que uma vez formados determinam a conduta da pessoa e o tipo de relação que estabelecerá com os próprios filhos.
A função do pai
A teoria do apego de Bowlby recebeu muitas críticas por exagerar a importância da relação mãe-filho e subestimar a contribuição paterna. Bowlby defende que o pai carece de importância emocional direta para o bebê e que a sua contribuição é indireta, limitada a apoiar a mãe nos aspetos econômico e emocional. A base evolucionista desta teoria sugere que as mulheres estão inclinadas por natureza à criação dos filhos e que instintos inatos as guiam durante o processo, enquanto os homens estão mais adaptados à função de manter a família.
Não obstante, Rudolph Schaffer, o psicólogo britânico que trabalhou na clínica Tavistock de Londres com Bowlby, averiguou que há uma grande variação cultural no que se refere ao grau de implicação do pai na criação dos filhos. Cada vez mais pais assumem a função de cuidador principal, o que sugere que na criação os papéis são uma convenção social e não tanto uma questão biológica.
A posição de John Bowlby implica a inferioridade dos homens como cuidadores, mas Schaffer e o psicólogo Ross Parke sugerem que são igualmente capazes de proporcionar ternura e afeto aos bebês. Também concluíram que o desenvolvimento final da criança não depende do sexo do seu cuidador, mas da qualidade e força do vínculo que se cria. Numa investigação posterior, Schaffer e a psicóloga Peggy Emerson chegaram à conclusão de que os bebês e as crianças pequenas dispõem de um vasto leque de condutas de apego por muitas pessoas para além da mãe, e que os apegos múltiplos poderiam não ser a exceção, mas a norma.
Estas últimas conclusões foram especialmente importantes para as mulheres trabalhadoras, porque a teoria de Bowlby implicava que uma mãe não devia trabalhar, mas sim ficar em casa com as crianças e cumprir a função de cuidadora principal. As teorias de Bowlby fizeram com que as mulheres trabalhadoras carregassem ao longo de décadas com um grande sentimento de culpa, mas muitos estudos posteriores questionaram este aspeto da teoria. Por exemplo, na década de 1970, os psicólogos Thomas Weisner e Ronald Gallimore demonstraram que as mães apenas são as únicas cuidadoras numa pequena percentagem das sociedades humanas, e que não deixa de ser frequente que grupos de pessoas (como familiares e amigos) partilhem a responsabilidade da criação das crianças Por outro lado, Rudolph Schaffer assinalou também que o desenvolvimento da criança é melhor se a mãe for feliz no seu trabalho do que se estiver frustrada em casa.
Uma obra inovadora
Apesar das múltiplas críticas e revisões de que foi objeto, a obra de Bowlby continua a ser a explicação mais exaustiva e influente do apego humano, além disso, inspirou inovadoras experiências feitas por Harry Harlow e por Mary Ainsworth. Psicólogos posteriores partiram da premissa básica de Bowlby para aprofundar sobre o apego infantil e desenvolver teorias sobre o apego adulto que exploram como influi o vínculo com os progenitores naquele que se estabelecerá no futuro com o par. As teorias de Bowlby também tiveram efeitos benéficos em diversos aspetos da criação infantil, como, por exemplo, a melhoria da atenção institucional e o fomento da adoção como alternativa.
Muitos psicólogos tinham sugerido que o bebê se apega ao seu cuidador simplesmente porque é este quem satisfaz a sua necessidade de alimentação. John Bowlby rejeitou esta ideia no plano teórico, e Harry Harlow pretendeu fazê-lo experimentalmente.
Harlow separou crias de macaco da mãe e depois colocou-as em jaulas com “mães” de substituição uma era feita de arame e tinha um biberão, a outra era de felpa suave e acolhedora, mas não tinha biberão. Então, se a teoria do “amor condicional” era correta, as crias ficariam com a mãe que lhes fornecia o alimento. No entanto, passavam a maior parte do tempo com a de felpa, que usavam como base segura e a que se agarravam quando eram introduzidos na jaula objetos que lhes causavam medo. Em estudos posteriores, em que mãe de felpa também as podia embalar e dar-lhes comida, o apego foi ainda mais forte. Harlow chegou a sugerir que a função principal da amamentação poderia ser garantir o contato físico com a mãe.
A obra de Harlow teve grande repercussão, porque os psicólogos e médicos da época avisavam pais e mães de que não deviam embalar nem pegar ao colo no bebê quando chorava. O resultado deste estudo foi tão conclusivo que mudou o foco dos cuidados parentais no mundo ocidental.
Françoise Dolto, médica e psicanalista francesa, viveu uma infância muito difícil, razão pela qual decidiu dedicar-se a ajudar as crianças a descobrir e libertar os seus desejos, convencida de que dessa forma poderia prever as neuroses. Afirmava que algumas doenças infantis habituais eram na realidade um reflexo da falta de conexão entre os pais e os filhos, e observou que com frequência os adultos pareciam incapazes de entender as crianças apesar de antes também o terem sido.
Um ponto de vista único
Françoise Dolto acreditava que cada criança tem um ponto de vista único, que a educação tradicional tenta coartar. Condenava todo o sistema moral ou educativo que tentasse controlar a criança por meio da obediência ou da imitação, e mostrou-se discordante das diferentes técnicas que eram utilizadas, tanto na escola como em casa, porque pretendiam antecipar o futuro da criança, quando na realidade é impossível conhecê-lo. Dolto defendeu que as crianças são muito diferentes dos adultos que as ensinam, porque podem ter experiências que as gerações passadas não puderam ter na mesma idade.
Segundo Dolto, o objetivo da educação é proporcionar à criança a liberdade necessária para que possa explorar as suas inclinações naturais. O adulto deve ser um exemplo para a criança, em vez de tentar impor um método. Portanto, a função do educador é ensinar a criança a dirigir a própria vida.
Mary Ainsworth interessou-se de um modo especial pela relação materno-filial no princípio da década de 1950, quando trabalhava em íntima colaboração com John Bowlby, o teórico do apego. Em 1969 pôs em prática uma técnica conhecida como situação estranha para estudar como os bebês equilibram a sua necessidade de apego e de autonomia sob diferentes níveis de estresse. Ainsworth punha uma mãe e o filho de um ano numa sala com brinquedos para que o bebê pudesse brincar e observava as interações de ambos antes e depois da introdução de uma pessoa desconhecida na sala. A "situação” incluía momentos em que a mãe saía da sala e deixava o bebê com o desconhecido, para logo regressar.
Para Ainsworth, a informação mais relevante sobre o vínculo mãe-filho não era proveniente da reação do bebê quando a mãe saía, mas de como reagia ao seu regresso, e sugeriu que as reações do bebê depois de voltar a reunir-se com a mãe indicam três modelos ou tipos de apego
Tipos de apego
Cerca de 70% dos bebês dos estudos de Ainsworth apresentaram um “apego seguro”. Utilizavam a mãe como base segura a partir da qual faziam explorações. Mostravam mal-estar se saía da sala, mas brincavam tranquilamente, inclusive na presença de um desconhecido, sempre que a mãe estivesse acessível.
Os bebês que pareciam indiferentes à mãe e que apenas reagiam quando esta deixava a sala mostravam um apego ansioso-evitativo. Consolavam-se tanto com o desconhecido como com a mãe. Cerca de 15% dos bebês apresentaram este tipo de apego. Os outros 15%, descritos como de apego “ansioso-ambivalente”, mostravam receio perante o desconhecido, inclusive na presença da mãe. Quando esta saía da sala davam provas de intenso mal-estar, mas continuavam aborrecidos e resistiam ao contato com ela quando regressava.
Ainsworth afirmou que o tipo de apego é em grande medida determinado pela sensibilidade da mãe. Uma mãe sensível entende as necessidades do filho e responde adequadamente, criando assim um apego seguro.
Críticas
Os críticos da obra de Ainsworth sugerem que os tipos de apego nem sempre são permanentes e que os bebês não se enquadram plenamente numa única categoria. Verificaram-se diferenças culturais. Em 1990, um estudo japonês encontrou uma percentagem com uma elevação inusual de crianças ansioso-ambivalentes, o que se poderia dever ao facto de os bebês japoneses estarem menos habituados a separar-se da mãe do que os americanos. No entanto, ainda se considera “a situação estranha” (que continua a repetir-se na atualidade) um dos estudos mais importantes na investigação social do apego.
No fim da década de 1930, Kenneth Clark e a esposa, Mamie Phipps Clark, estudaram os efeitos psicológicos da segregação racial nas crianças afro-americanas em idade escolar, sobretudo no que se referia à sua autoimagem. Para determinar se as crianças tinham consciência das diferenças raciais e em que medida, e as atitudes subjacentes em relação à raça, imaginaram um teste com bonecas. Trabalharam com crianças dos três aos sete anos e usaram quatro bonecas idênticas exceto na cor da pele, que ia de diferentes tons do branco ao negro. As crianças demonstraram uma consciência de raça inegável, identificaram corretamente as bonecas em função da cor da pele, além de se identificarem a si mesmas em termos raciais ao escolher a boneca cuja cor se parecia com a sua.
Para explorar as atitudes das crianças em relação à raça, os Clark pediram-lhes que indicassem a boneca de que gostavam mais ou com qual preferiam brincar, qual tinha a cor mais bonita e qual era a mais feia As crianças de cor mostraram uma clara e perturbadora preferência pelas bonecas brancas e recusaram as negras, o que podia ser visto como uma forma indireta de autoexclusão. Convencidos de que isto refletia a tendência das crianças para absorver os preconceitos raciais, os Clark puseram a seguinte pergunta: “Quem ensina uma criança a odiar e a temer pessoas de outra raça?”
Transmissão de preconceitos
Os Clark tentaram entender as influências que davam forma ao preconceito racial nos EUA e concluíram que, quando as crianças aprendem a avaliar as diferenças raciais em relação aos padrões da sociedade, de vem identificar-se com um grupo racial concreto e com uma posição concreta numa hierarquia. O facto de as crianças negras escolherem a boneca branca provava que tinham consciência de que a sociedade americana preferia as pessoas brancas e assim o tinham interiorizado. Crianças de três anos manifestavam as mesmas atitudes dos adultos da sua comunidade.
As referidas atitudes são determinadas por uma combinação de influências de pais, professores, amigos, cinema, banda desenhada e televisão. Embora não seja frequente os pais ensinarem deliberadamente os filhos a odiar outros grupos raciais, muitos transmitem de modo inconsciente as atitudes sociais dominantes. Por exemplo, se os pais brancos impedem os filhos de brincar com crianças de cor, ensinam-nos implicitamente a temê-las e evitá-las.
Em 1950, Clark publicou o resumo do seu estudo, no qual insistia em que a segregação racial era prejudicial para a personalidade tanto das crianças brancas como das de cor. A sua declaração em 1954 como perito no caso Brown contra a Junta de Edu- cação de Topeka, no qual foi determinado que a segregação racial nas escolas públicas era inconstitucional, contribuiu para a integração das aulas e para o movimento pelos direitos civis nos EUA.
O aparecimento de psicólogas feministas na década de 1970 reavivou o interesse pelo estudo das diferenças entre os sexos, que se esfumara com o auge do behaviorismo. Cada vez mais interessada nas questões feministas e decepcionada com a tendência da literatura psicológica para informar sobre estudos que insistiam nas diferenças entre homens e mulheres em vez das semelhanças, a psicóloga americana Eleanor Maccoby em conjunto com a sua aluna Carol Jacklin, reviu mais de 1600 estúdios sobre as diferenças de gênero. Ambas publicaram as suas conclusões na obra The Psychology of Sex Differences (1974) para demonstrar que o que a maioria considera diferenças fundamentais entre os sexos não são mais do que mitos e que muitos estereótipos de gênero são falsos. Embora algumas conclusões tivessem demonstrado que os meninos são mais agressivos e mais aptos para as matemáticas e o raciocínio espacial do que as meninas, e que estas têm mais aptidões verbais, estudos posteriores revelaram que essas diferenças eram negligenciáveis ou mais complexas do que parecia.
Uma diferença inegável e constante era que “as meninas têm melhores notas do que os meninos” na escola. Para Maccoby, este dado era muito interessante, sobretudo porque as meninas não obtinham melhores pontuações nas provas de aptidão quando se avaliavam todas as matérias Mais, a investigação anterior sobre a motivação de sucesso (para alcançar metas) parecia indicar que os meninos deviam superar as companheiras. Estavam mais orientados para o êxito do que as meninas, razão pela qual se empenhavam mais nas tarefas e apresentavam mais conclusas exploratórias, as meninas estavam acima de tudo interessadas no êxito nas relações interpessoais, esforçavam-se para agradar aos outros e demonstravam pouca segurança em si mesmas em relação a muitas tarefas.
Estereótipos sob suspeita
Maccoby rebateu estes pressupostos e apontou que as meninas conseguem mais êxitos acadêmicos do que os meninos, mostram mais interesse pelas tarefas relacionadas com a escola desde uma idade menor e têm menos probabilidades de deixar os estudos antes de acabarem o secundário.
A sua conclusão foi que as melhores notas das meninas refletem uma combinação de maior esforço e interesse e melhores hábitos de trabalho. Seja qual for a diferença entre meninos e meninas quanto à motivação de êxito, não reflete a motivação escolar. Esta poderia ser significativa ao longo da vida das meninas, visto que o rendimento escolar também é crucial para o rendimento laboral. A controvérsia sobre as diferenças inerentes ao sexo está ligada a questões políticas gerais sobre como deve organizar-se uma sociedade e para que funções homens e mulheres estão preparados “por natureza”. Ao evidenciar a tendência da literatura psicológica para publicar resultados que indicara diferenças sexuais e ignorar os que indicam igualdade, esta psicóloga americana contribuiu para a luta contra a designação de homens e mulheres para profissões estereotipadas.
Durante as décadas de 1940 e 1950, a aprendizagem entendia-se fundamentalmente em termos behavioristas e a teoria dominante era a do condicionamento operante (a recompensa e o castigo como únicos determinantes da aprendizagem) de B. F. Skinner Neste contexto, Albert Bandura centrou o seu interesse no estudo da agressividade infantil como conduta adquirida considerava-a demasiado complexa para ser explicada da perspectiva do condicionamento operante.
A hipótese de Bandura era que as crianças aprendem a comportar-se de forma agressiva mediante a observação e a imitação da conduta violenta dos adultos, sobretudo no meio familiar. Considerava que a chave do problema se encontra na interseção entre o condicionamento operante de Skinner e a teoria freudiana da identificação, que descreve como se integram as caraterísticas de outros na própria personalidade. Os estudos realizados por Albert Bandura culminaram com a célebre experiência do sempre-em-pé e o seu influente tratado de 1977, Teoria da Aprendizagem Social.
A teoria da aprendizagem social
A teoria de que não aprendemos por reforço (sistema de castigos e recompensas) mas pela observação de outros é o núcleo da teoria da aprendizagem social, que sugere que se aprende ensaiando mentalmente e depois imitando as ações observadas noutras pessoas, que servem de modelo de condutas apropriadas e aceitáveis. Desta maneira, para Albert Bandura, “quase todas as condutas humanas se aprendem por modelagem”.
Bandura determinou quatro condições necessárias para o processo de modelagem de uma conduta: atenção, retenção, reprodução e motivação. Para aprender, o aprendiz deve prestar atenção à conduta, recordar o que viu ou ouviu, ser fisicamente capaz de reproduzir a conduta e ter um bom motivo ou razão para a reproduzir, como, por exemplo, a expectativa de uma recompensa.
Apesar de o conceito de recompensa fazer parte da sua teoria da aprendizagem social, Bandura não é behaviorista, as suas ideias sobre a relação entre o meio de uma pessoa e a sua conduta são radicalmente antibehavioristas. Segundo o behaviorismo, as circunstâncias ambientais determinam completamente a conduta, mas Bandura acredita no “determinismo reciproco”, isto é, que a pessoa influi sobre o meio e o meio sobre a pessoa. Concebia a personalidade como a interação entre três elementos diferenciados: meio, conduta e processos psicológicos (a capacidade de utilizar a linguagem e de gerar imagens mentais). Estes três elementos são muito importantes para o estudo da agressividade em crianças que, segundo afirma Bandura, se aprende mediante a observação e a imitação da do modelo adulto.
A experiência do sempre-em-pé
Em 1961, Bandura fez a experiência do sempre-em-pé sobre a agressividade infantil, concebida da perspectiva da aprendizagem social e com a qual queria explicar como se desenvolve a conduta agressiva, que motiva a agressão e que determina se uma pessoa continuará a comportar-se agressivamente ou não. A experiência confirmou que a criança imita a conduta do adulto que lhe serve de modelo, demonstrando assim o poder dos exemplos de atos agressivos sobre a sociedade.
Para realizar a experiência, foram selecionados 36 meninos e 36 meninas dos três aos seis anos de uma creche local e formaram-se três grupos de 24; em cada grupo devia haver 12 meninos e 12 meninas. O primeiro grupo serviu de controlo (sem modelo adulto), o segundo foi exposto à conduta agressiva de um adulto com um sempre-em-pé insuflável, e o terceiro foi exposto a um modelo adulto passivo. As provas foram feitas a cada criança em separado, para garantir que não seria influenciada pelo que faziam os restantes companheiros.
Nas experiências com o segundo grupo, cada criança observava como um adulto agredia, verbal e fisicamente, o boneco. Batia-lhe com um martelo, atirava-o ao ar, dava-lhe pontapés, fazia o cair e, uma vez no chão, continuava a bater-lhe. No passo seguinte a criança era deixada sozinha numa sala com brinquedos, entre os quais um sempre-em-pé. Em todos os casos, a criança imitou grande parte da conduta agressiva do modelo adulto e inclusive inventou novos atos violentos. Em geral, as crianças deste grupo também se mostraram menos inibidas do que as dos outros grupos e mais atraídas pelas pistolas, apesar de o jogo com armas de fogo não ter entrado na modelagem.
Em contrapartida, as crianças do grupo de controlo e as do modelo passivo só atuaram com violência física ou verbal em raras ocasiões. Embora Bandura tenha dado valor à possibilidade de que a observação de atos agressivos apenas tivesse enfraquecido a inibição de uma agressividade previamente reprimida, o facto de imitarem com frequência a conduta que acabavam de ver sugeria a existência da aprendizagem por observação.
A violência nos meios de comunicação
A investigação realizada por Bandura gerou grande polémica sobre o predomínio da violência nos meios de comunicação. Se um desconheci do violento pode ser um modelo para as crianças, também os programas de televisão deviam ser uma fonte de modelos de condutas agressivas. Os programas de televisão e os filmes atuais incluem cenas de grande violência e que com frequência se exprime como uma conduta aceitável (ou, pelo menos, esperada), e as crianças que a eles assistem habitualmente poderiam sentir-se inclinadas a imitá-la. Esta ideia desencadeou um aceso debate, visto que muitos estudos sugerem que os filmes e os programas violentos não só não aumentam as tendências agressivas das crianças como inclusive que a exposição à violência pode reduzir a agressividade infantil. Esta teoria, baseada no efeito catártico, supõe que o espetador é capaz de se identificar com a personagem violenta e libertar emoções negativas, pelo que depois seria menos agressivo.
Para outros psicólogos, a televisão é um meio educativo e, visto que as personagens televisivas são modelos para as crianças, deveria apresentar modelos positivos a fim de contribuir para reduzir o nível de violência existente na sociedade.
Apesar de Bandura não acreditar no efeito catártico da observação da conduta agressiva, admitiu que existe uma diferença entre aprendizagem e comportamento. Se as crianças podem aprender condutas agressivas por observação, a contemplação de atos violentos não leva necessariamente a cometê-los, razão pela qual não se deveria considerar uma relação mais direta e causal entre a violência televisiva e a violência no mundo real.
Os teóricos da aprendizagem social reconhecem que o conhecimento desempenha uma função no processo de modelagem e que os processos cognitivos medeiam a observação e a imitação da violência. Assim, por exemplo, a percepção e a interpretação da violência na televisão e o realismo do programa são duas variáveis importantes.
Bandura considera que também as experiências ambientais influem na aprendizagem social da agressividade infantil Não é estranho que as pessoas que residem nos bairros com um elevado nível de delinquência tenham mais probabilidades de cometer atos violentos do que as que vivem em zonas com índices mais baixos.
Desenvolvimento da identidade sexual
A teoria da aprendizagem social subjacente à investigação de Bandura sobre a agressividade infantil teve importantes repercussões sobre a nossa compreensão do desenvolvimento da identidade de gênero, um dos motivos pelos quais os meninos e meninas tendem a apresentar diferenças de conduta é que os pais (tal como outros adultos e iguais significativos) os tratam de maneira diferente. Foi provado que, desde que a criança nasce, as pessoas que a rodeiam adaptam a sua conduta ás suas expetativas relativas ao gênero desta forma, o menino e a menina comportar-se-ão segundo o que se considerar a norma.
Conforme as conclusões a que chegou Bandura, as crianças aprendem também a comportar-se por reforço e por observação. Quando uma criança imita a conduta de outra tem mais possibilidades de receber um reforço positivo por apresentar o tipo de conduta que se considera mais adequado para o seu sexo, da mesma forma se desencorajarão, de maneira mais ou menos subtil ou contundente, as condutas inadequadas.
Apesar de o trabalho de Bandura ter recebido críticas (centradas com frequência em se as suas ideias constituem uma verdadeira teoria do desenvolvimento cognitivo), as suas conclusões e teorias continuam a ser citadas e debatidas meio século depois, prova do alcance da sua influência. Os seus revolucionários contributos compreendem numerosas áreas da psicologia, como a teoria cognitiva social, a teoria da personalidade e inclusive a prática terapêutica, e as suas ideias estenderão uma ponte entre as teorias da aprendizagem behavioristas precedentes e as cognitivas que se seguiram.
O interesse de Albert Bandura em processos como a atenção, a motivação e a memória representou um afastamento do estudo exclusivo das variáveis observáveis e mensuráveis (o único objeto de investigação dos behavioristas) e a entrada no espaço mental em busca de informação sobre como aprendemos. Por tudo isso, para muitos dos seus colegas, Bandura é um dos psicólogos mais destacados e influentes de todos os tempos.
Lawrence Kohlberg acreditava que a moralidade se desenvolve de forma gradual ao longo da infância e da adolescência. Em 1956 fez um estudo com 72 jovens dos 10 aos 18 anos, a quem apresentou dilemas morais que exigiam a escolha entre duas opções, nenhuma das quais era totalmente aceitável. Um dos dilemas era se seria correto um homem sem dinheiro roubar os remédios de que a esposa doente necessita urgentemente. Kohlberg seguiu 58 participantes durante dois decênios e submeteu-os ao teste de três em três anos para observar como mudavam as suas respostas com a idade.
A partir destas, Kohlberg identificou seis etapas do desenvolvimento moral, que abrangiam três níveis de raciocínio ou juízo moral: pré-convencional, convencional e pós-convencional.
Construção do juízo moral
Durante o nível pré-convencional do desenvolvimento moral, que abrange os primeiros nove anos de vida, as normas são consideradas fixas e absolutas. Na primeira das duas etapas (a de obediência e castigo), determinamos se uma conduta é correta ou incorreta em função de se provoca ou não um castigo. Na segunda (de individualismo e intercâmbio), o bem e o mal determinam-se em função das recompensas. Os desejos e as necessidades do outro são importantes, mas apenas em sentido recíproco (“uma mão lava a outra”). Neste nível, a moralidade é determinada pelas consequências.
O segundo nível do desenvolvimento moral vai da adolescência ao início da idade adulta. Nesse momento, além das consequências, começa-se a ter em conta a intenção que move a conduta. Na primeira etapa, que costuma denominar-se “do bom rapaz ou da boa rapariga”, começamos a classificar a conduta moral em função de se ajudará ou agradará aos outros. O objetivo é que nos considerem bons. Na segunda etapa (de lei e ordem), pensamos que “ser bom” equivale a respeitar a autoridade e a cumprir a lei, na convicção de que desta forma se defende e protege a sociedade.
Durante o terceiro e último nível transcendemos a conformidade, mas Kohlberg pensa que apenas entre 10 e 15% das pessoas o conseguem alcançar. Na sua primeira etapa (de contrato social e direitos individuais) continuamos a respeitar a autoridade, mas reconhecemos que os direitos individuais estão acima de leis restritivas e destrutivas. Compreendemos que a vida humana é mais sagrada do que o cumprimento das normas. Atingimos a sexta e última etapa (de princípios éticos universais) quando a nossa consciência passa a ser o juiz definitivo e nos comprometemos com a igualdade de direitos e o respeito para todos. Podemos chegar à desobediência civil em nome de princípios universais, como a justiça.
Esta teoria foi considerada radical porque afirmava que a moral não se impõe às crianças (como defendiam os psicanalistas), nem pretende evitar o mal-estar (como pensavam os behavioristas), mas que se desenvolve mediante a interação com os outros e a tomada de consciência do respeito, da empatia e do amor.
Em meados do século XX, as teorias da aprendizagem de B.F. Skinner e Albert Bandura dominavam a concepção que os psicólogos tinham do desenvolvimento da linguagem. Para os behavioristas, a linguagem, como qualquer outra faculdade humana, era resultado direto dos estímulos ambientais e da aprendizagem, e desenvolvia-se mediante as técnicas de reforço e recompensa em que se baseava o condicionamento operante. Skinner defendeu que quando as crianças imitam sons verbais e formam palavras corretas, recebem o reforço e a aprovação imediatos dos progenitores, o que as motiva a continuar a aprender novas palavras e frases. Bandura ampliou o conceito de imitação e afirmou que as crianças não se limitavam a imitar palavras e sons determinados, mas também a forma e a estrutura geral das frases, como se completassem moldes com palavras concretas.
No entanto, o linguista americano Noam Chomsky não pensava que o condicionamento explicasse de forma adequada a produtividade, criatividade e inovação da linguagem. Também não parecia explicar o uso espontâneo que as crianças faziam de normas gramaticais que não tinham ouvido nem aprendido, nem a sua capacidade para entender o significado de uma frase completa sem compreender necessariamente o significado de cada palavra. Segundo Chomsky, tratava-se de uma capacidade inata do ser humano. Defendia, deste modo, que “o órgão da linguagem se desenvolve como qualquer órgão físico”, e comparava-o a outras caraterísticas herdadas.
Nativismo
Chomsky afirmava que, apesar de o meio ambiente da criança lhe proporcionar o conteúdo da linguagem, a gramática é uma capacidade humana determinada biologicamente. Para o provar remeteu-se a outros aspetos do desenvolvimento humano que aceitamos como resultado inevitável da herança. O início da puberdade, por exemplo, é um aspeto do desenvolvimento semelhante ao “desenvolvimento” do órgão da linguagem. Assumimos sem duvidar que se trata de um marco do desenvolvimento determinado geneticamente e, embora os pormenores específicos do seu início dependam de diversas variáveis ambientais, o processo fundamental é o mesmo em toda a espécie humana. Damos como certo que é resultado de uma programação biológica básica. Chomsky insiste em que a linguagem é outra inevitabilidade geneticamente programada do desenvolvimento humano, a par com os processos que determinam que tenhamos braços e não asas, ou que constroem a estrutura dos nossos sistemas visual ou circulatório.
A ideia de que a linguagem faz parte do nosso processo de crescimento é fundamental porque apoia a convicção de Chomsky de que não é uma consequência da aprendizagem. Chomsky adota uma perspectiva nativista e centra a sua atenção nos contributos da herança à conduta, ao mesmo tempo que minimiza a importância do meio, embora acredite que esta desempenha uma função na hora de determinar a direção especifica do desenvolvimento da linguagem, pois o órgão linguístico de cada pessoa desenvolve-se segundo as primeiras experiências. Desta forma, ao ter sido criado em Filadélfia (Pensilvânia), absorveu o conhecimento do seu dialeto inglês particular, e a estrutura do seu órgão linguístico adaptou-se a este. O mesmo acontece a todas as pessoas, tanto faz se cresce em Paris, em Tóquio ou em Londres.
A gramática universal de Chomsky
Não obstante, onde estão as provas que demonstram que a aquisição da linguagem é inata e não aprendida? Para Chomsky, a prova mais convincente é que há aspetos gramaticais tão intuitivos e evidentes que não precisam de explicação para serem entendidos (portanto, fazem parte da herança biológica). Por exemplo em inglês há construções que permitem prescindir do prenome e outras não, a diferença entre elas é subtil, mas, aos seis anos, as crianças anglófonas já as usam sem se enganarem. Isto admite que certos aspectos gramaticais se entendem sem que seja necessário ensiná-los e que o seu conhecimento é inato. É a única forma de explicar a rica compreensão gramatical que apresentam as pessoas e o emprego tão criativo da linguagem que apresentam as crianças numa idade tão precoce.
Segundo Chomsky, existe uma “gramática universal” comum a todo o mundo, com algumas modificações em função dos idiomas nativos. Trata-se de um mecanismo predefinido que serve de base à aquisição de qualquer idioma. Isto fica demonstrado pelo facto de que qualquer criança pode aprender qualquer idioma a que seja exposta. A herança programa no órgão da linguagem uma série de caraterísticas linguísticas comuns, como elementos gramaticais, semânticos e discursivos. Graças a isto, somos capazes de falar e aprender idiomas humanos, ser-nos-ia impossível aprender um idioma que violasse os referidos princípios.
Dispositivo de aquisição da linguagem
Chomsky propõe um nome para o órgão da linguagem inata: dispositivo de aquisição da linguagem (LAD). Justifica-o por três motivos as crianças nascem com a capacidade de construir e entender todo o tipo de frases apesar de nunca as terem ouvido ou aprendido, todos os idiomas humanos parecem partilhar certos elementos universais, e adquirimos alguns princípios gramaticais independentemente da nossa cultura ou nível de inteligência. Outra prova é que os órgãos fonadores, o aparelho respiratório, o auditivo e o cérebro estão treinados para a comunicação oral. Chomsky acredita que, tendo em conta a frequência com que os pais expõem as crianças a um discurso incompleto e agramatical, apenas a existência de algum tipo de dispositivo linguístico pode explicar que as crianças pareçam conhecer as normas gramaticais. Finalmente, as investigações feitas com crianças surdas trouxeram mais provas da existência de um LAD ao evidenciar o aparecimento espontâneo de uma linguagem gestual que partilha com a oral os princípios básicos.
Avaliação
O cientista cognitivo Steven Pinker concorda com Chomsky em que a linguagem é um instinto proveniente de um programa cerebral inato. Não obstante, Pinker defende que surgiu durante a evolução e, portanto, foi um traço adaptativo que contribuiu para a sobrevivência dos nossos antepassados. Chomsky discorda de Pinker no que se refere à evolução da linguagem; afirma que representa um módulo mental especifico e único do ser humano, independente da capacidade cognitiva geral.
A linguista Jean Aitchison concorda com Chomsky, em que as crianças estão programadas com conhecimentos de regras linguísticas, mas também opina que têm capacidades inatas para a resolução de problemas que lhes permitem processar a informação linguística (e de outros tipos). Não obstante, Chomsky defende que as capacidades linguísticas inatas do ser humano são independentes de outras capacidades e que, visto que a mente se compõe de órgãos mentais semelhantes aos físicos, é simples isolar a linguagem de outras faculdades cognitivas.
Robin Chapman é outra das suas críticas. Esta perita em perturbações da comunicação afirma que o estudo do desenvolvimento da linguagem se deveria enquadrar no contexto das interações sociais da criança. Refere que a estrutura linguística se adquire ao longo de vários anos e que a velocidade de aquisição varia muito de uma criança para outra, o que sugere que o meio social poderia ser um fator importante. Também foi posta em dúvida a afirmação de Chomsky de que a linguagem é uma capacidade exclusivamente humana. Os estudos feitos com gorilas e chimpanzés sugeriram que a diferença entre a linguagem humana e a de outros primatas é mais quantitativa do que qualitativa, o que faria repensar se a linguagem é realmente uma caraterística específica da nossa espécie.
Os vários estudos realizados por Chomsky exerceram grande influência na linguística, na psicologia, na filosofia e inclusive nas matemáticas. Apesar de a sua ideia de que as crianças estão predispostas para a aquisição da linguagem ser aceite majoritariamente, a sua afirmação de que têm um conhecimento da linguagem inato e não demasiado influenciado pelos pais gerou grande controvérsia Em geral é considerado o nativista mais extremista da história da psicologia, e embora se julgue mais provável a explicação do desenvolvimento da linguagem por um impulso biológico do que pelo condicionamento operante, não é tão seguro que seja a explicação completa. A obra de Chomsky contribuiu para o desenvolvimento de posturas mais integradas que, sem lugar a dúvidas, levarão a novas investigações e conclusões.
O autismo é um transtorno que afeta o desenvolvimento cerebral necessário para as habilidades sociais e de comunicação normais. As crianças autistas costumam reagir perante o mundo de um modo estranho para os outros. Podem ter carências comunicativas, e a interação social com eles é complicada: muitas não falam e, de facto, a maioria quase não demonstra interesse pelos outros. Quase todas as crianças autistas são varões e não superam as dificuldades ao chegar ao estado adulto. Uma das teorias mais recentes e influentes é a “teoria da mente” de Baron-Cohen, que, juntamente com as suas exaustivas observações sobre as diferenças entre o cérebro masculino e o feminino, sugere que “o autismo é uma forma extrema do cérebro masculino”.
Cérebros diferentes
Em 2003, Baron-Cohen desenvolveu a teoria da empatia-sistematização, que atribui um tipo de cérebro (“feminino” ou “masculino”) a cada pessoa, independentemente do sexo e em função da sua capacidade para a empatia ou para a sistematização. O seu trabalho sugere que o cérebro feminino está programado para a empatia e que as mulheres costumam mostrar mais compaixão e ser mais receptivas às expressões faciais e à comunicação verbal, enquanto o cérebro masculino parece orientado para a compreensão e elaboração de sistemas, mais interessado em como funcionam as coisas e pelas suas caraterísticas estruturais e organizativas, e costuma ser mais hábil em tarefas de descodificação, como a interpretação de mapas. Não obstante, a diferença de gênero é difusa. Baron-Cohen demonstrou que cerca de 17% dos homens parecem ter um “cérebro empático” e uma percentagem semelhante de mulheres tem um “cérebro sistematizador”, e muitas pessoas têm um cérebro “equilibrado”, com habilidades compensadas.
Teoria da mente
Para Baron-Cohen, os autistas carecem de “teoria da mente”, ou capacidade de interpretar corretamente as emoções e as condutas do outro, razão pela qual não podem avaliar o estado emocional nem as intenções dos demais. Além disso, têm interesses obsessivos centrados nalgum tipo de sistema, como os interruptores elétricos. Concentram-se nos pequenos pormenores do sistema e descobrem as normas subjacentes que o regem, ou escolhem um tema concreto e aprendem com exatidão tudo o que há a saber a esse respeito. A combinação de escassa ou nula empatia com a obsessão pelos sistemas, e a maior incidência do autismo nos varões, levou Baron-Cohen a pensar que as pessoas autistas têm um cérebro “masculino” extremo.
O autismo é um dos transtornos psiquiátricos mais graves em crianças. Baron-Cohen contribuiu para se entender melhor, para aumentar a conscientização da sociedade e para o desenvolvimento de melhores tratamentos.
Embora a inteligência e a sua composição tenham sido objeto de estudo desde a Grécia Antiga, o primeiro método sistemático para a medir só se desenvolveu em 1905, quando o psicólogo francês Alfred Binet, encarregado de identificar crianças que precisassem de um reforço educativo, elaborou, juntamente com o investigador Théodore Simon, a escala Binet-Simon. Esta permitia obter um número, ou quociente, que resumia a capacidade intelectual a partir de tarefas de memória, atenção e resolução de problemas. Foi fixado em 100 o quociente de inteligência (QI) médio, o que permitiu aos psicólogos classificar as pessoas em relação a essa pontuação. Na prática, cerca de 95% da população obtém entre 70 e 130 pontos. Apenas 0,5% supera os 145 pontos, o nível de "genialidade". Embora esta escala continue a ser aplicada na maioria dos testes de QI atuais, para o psicólogo J. P. Guilford apresenta graves falhas. Afirma que os testes de inteligência estandardizada não medem a criatividade e consideram que existe uma "inteligência geral" representável por uma pontuação de QI.
Como medir a criatividade?
A criatividade subentende, por definição, que um problema tem mais de uma solução. Exige um tipo de pensamento diferente, que Guilford denominou ("divergente": vai em diferentes direções e gera múltiplas soluções para um mesmo problema. No entanto, os testes de QI convencionais exigem um pensamento que leva a uma única resposta: o pensamento "convergente".
Pensou que a criatividade se podia medir a partir do número de direções que pode tomar o pensamento de uma pessoa. Criou uma série de testes que quantificam o pensamento divergente, como o teste de usos alternativos de 1967, no qual se pede aos sujeitos que escrevam todas as utilizações possíveis de três objetos: (a) um palito, (b) um tijolo e (c) um clip. No seu teste das consequências, deveriam imaginar tudo o que poderia suceder se todas as leis nacionais e locais fossem abolidas de repente. Pontuou as respostas em quatro dimensões-chave: originalidade, fluidez, flexibilidade e elaboração.
Para Guilford, a inteligência não se compõe de um único "fator geral", mas de três grupos de atividades diferentes. Os processos intelectuais que usamos são as "operações", das quais há seis tipos, entre elas a memória, a cognição e a avaliação. 0 "conteúdo" é o tipo de informação ou de dados implicados (há cinco tipos, por exemplo, o conteúdo visual ou auditivo). Os "produtos", ou resultados de aplicar operações a um conteúdo, são de seis tipos, como as classes ou as relações. As múltiplas maneiras como combinamos e usamos tudo isso indicam que pode haver até 180 (6x5x6) tipos de inteligência; até hoje já se comprovou a existência de mais de cem.
Apesar da complexidade da sua teoria e de a dificuldade dos testes ter levado a que estes se usem menos do que os testes de QI standard, Guilford influiu na investigação em inteligência e criatividade.
Gordon Allport é considerado em certas ocasiões um dos fundadores da psicologia da personalidade, pois foi o primeiro psicólogo moderno a estudá-la especificamente. Desde que Hipócrates (400 a. C.) e Galeno (150 d. C.) definiram os quatro temperamentos, não tinham voltado a ser classificados, e no século XIX a psicologia pouco a mencionava, embora se falasse muito do eu ou do "ego".
No princípio do século XX, as duas escolas de pensamento psicológico dominantes (a psicanálise e o behaviorismo) mantinham posturas opostas. Eram escolas desenvolvidas e influentes, que continuam a ser poderosas (e controversas) na atualidade. 0 behaviorismo, interessado unicamente em como adquirimos (ou aprendemos) a conduta, não tinha nada a dizer sobre a personalidade, enquanto a psicanálise oferecia uma explicação profunda e afirmava a existência de um inconsciente incognoscível que controla a personalidade, mas que só se revela parcial e acidentalmente em lapsos e em sonhos.
Para o psicólogo americano Gordon Allport, as duas posturas apresentavam uma série de problemas fundamentais. Pensava que o behaviorismo se enganava ao não ter em conta a "pessoa" que aprendia, por que cada pessoa é única e a sua percepção faz parte do processo. Também não o satisfazia a explicação psicanalítica da personalidade e da conduta, porque concedia demasiada importância ao passado da pessoa e ignorava o contexto e as motivações do presente. Confirmou a sua opinião quando, recém-licenciado, visitou Sigmund Freud em Viena. Para quebrar o gelo, Allport contou a Freud que no comboio vira um menino que tinha medo de se se sujar e se recusava a sentar junto de alguém sujo, apesar das insistências da mãe. Allport sugeriu que talvez o menino tivesse aprendido com a mãe, uma mulher limpa e bastante dominadora, a fobia da sujidade. Então Freud perguntou-lhe se o menino era ele. Segundo Gordon Allport, esta redução da sua observação a um episódio inconsciente da sua própria infância desprezava todas as motivações e intenções do presente. Ao longo de toda a sua obra, Allport insistiu no presente e não no passado, embora no fim da sua carreira tenha recorrido à psicanálise como complemento de outros métodos.
Allport defendia um modelo de estudo da personalidade e da aprendizagem humanas racional, eclético e conceitualmente aberto. Integrou alguns aspetos das orientações dominantes, embora a a sua convicção primordial fosse que cada pessoa é única e que a sua personalidade se forja na maior parte (mas não exclusivamente) a partir das relações humanas.
Teoria da personalidade
Segundo Allport, a personalidade era uma complexa amálgama de traços, relações, contexto e motivação. Para a estudar descreveu dois métodos muito diferentes: o nomotético e o ideográfico. Ambos tinham sido concebidos pelos filósofos alemães Wilhelm Windelband e Wilhelm Dilthey, mas o primeiro a pô-los em prática foi William Stern, tutor de Gordon Allport na universidade. 0 método nomotético pretende ser tão objetivo e científico quanto possível, como exemplificado no estudo da inteligência humana. Consiste em fazer testes a grandes amostras da população sobre diferentes traços de personalidade, como a extroversão e a introversão, cujos resultados são depois submetidos a uma sofisticada análise que permite extrair conclusões gerais, como a percentagem de população extrovertida ou introvertida ou as variações associadas à idade, ao sexo ou à geografia. No entanto, este método não considera de maneira alguma os traços à escala individual, e apenas oferece conclusões e comentários comparativos sobre um traço concreto, não sobre uma pessoa específica. Foi o método do behaviorista B.F. Skinner usado para estudar a conduta dos ratos.
O método ideográfico é oposto ao nomotético. Estuda uma pessoa em profundidade e de forma exaustiva, tendo em conta a sua biografia, traços de personalidade e relações, além de como a veem e consideram os outros. Este método aproxima-se mais do método psicanalítico, que se centra numa pessoa e numa vida.
Allport defendeu a ideia de que, apesar de o método nomotético permitir descrever diferentes traços, o seu potencial explicativo é mínimo. O método ideográfico não permite extrair conclusões gerais, mas pode explicar uma pessoa com incrível detalhe. Pôs em prática os dois métodos, embora em geral não seja tão conhecido pela sua investigação empírica como pela sua obra como teórico e quase filósofo. No entanto, o seu primeiro artigo, Personality Traits Classification and Measurement e coescrito com o seu irmão Floyd, foi um excelente exemplo do método nomotético, e uma das suas últimas obras mais importantes, a análise de Jenny Masterson, foi-o do método ideográfico.
A hipótese léxica
No seu primeiro estudo, Allport e o irmão apresentaram os resultados do seu trabalho sobre os traços de personalidade. Os participantes deviam completar um teste de personalidade e pedir a três pessoas que os conhecessem bem que o fizessem também. Isto era um reflexo da postura dos irmãos Allport, segundo a qual a personalidade se forja na relação com os outros. Segundo as conclusões é possível identificar traços de personalidade, assim como tentar medi-los; também acreditavam ter demonstrado que era possível desenvolver um instrumento completo e sensível para a avaliação da personalidade.
Em 1936, Allport e o seu colega H. S. Odbert propuseram que as diferenças individuais mais evidentes e socialmente relevantes na vida das pessoas se expressam na linguagem; e que quanto mais importante for a diferença, mais provável é que se expresse por meio de uma única palavra. Esta teoria é conhecida como hipótese léxica. Os dois observadores estudaram os dicionários da língua inglesa mais completos da época em busca de palavras que descrevem a personalidade e encontraram 18 000 termos, que reduziram a 4 500 adjetivos que consideraram traços de personalidade observáveis e estáveis.
Traços cardinais
A partir de uma análise posterior do seu estudo léxico, Allport definiu três categorias de traços cardinais, comuns e secundários. Os traços cardinais são fundamentais e deter minam como cada pessoa entende a vida. Segundo Allport, nem todos têm traços cardinais, mas os que os possuem costumam ser famosos por causa deles; de facto, alguns chegam a ser tão célebres que o seu nome dá origem ao do traço, por exemplo, byroniano ou maquiavélico. Numa escala um pouco mais modesta, o traço cardinal da pessoa pode ser algo como "medo do comunismo" e tão central e importante para ela que guia e unifica a sua vida de maneira consciente e inconsciente; a sua influência revela-se em quase toda a conduta.
Nos últimos anos, Allport considerou que os traços cardinais da pessoa contribuíam para o proprium impulsos essenciais, as necessidades básicas e os desejos da pessoa. Este conceito vai além da simples ideia de temperamento e parece-se mais com um propósito orientador que continuamente se procura expressar. Allport utilizou como exemplo o explorador norueguês Roald Amund-sen, cuja existência foi dominada desde os 15 anos pela paixão de explorar os polos. Apesar de se lhe depararem numerosos obstáculos na aparência insuperáveis e da forte tentação de abandonar os seus sonhos, o impulso do proprium persistiu, e embora fosse obtendo êxitos, estes não faziam mais do que aumentar as suas aspirações. Depois de navegar pela passagem do Noroeste, Amund-sen embarcou no projeto que o levaria ao Polo Sul. A seguir, depois de anos de planificação e desânimos, sobrevoou o Polo Norte. O seu compromisso nunca fraquejou e, por fim, morreu tentando salvar a vida a um explorador menos experiente.
Traços menos fundamentais
Ao contrário dos traços cardinais, os traços comuns são caraterísticas gerais (como a honestidade), que estão presentes na maioria das pessoas. Embora sejam os elementos que modelam a nossa conduta, são menos fundamentais do que os cardinais. Allport afirmou que os traços comuns se desenvolvem sobretudo em resposta à influência dos pais e são resultado da educação. As pessoas de uma mesma cultura partilham-nos em grande parte, mas em diferente grau: por exemplo, a agressividade é um traço comum que aparece em maior ou menor grau. Segundo Allport, a personalidade da maioria de nós é composta por entre cinco a dez dos nossos traços que, em função dos graus, se transformam nas nossas "caraterísticas evidentes".
Com o passar do tempo, os traços comuns podem atingir "autonomia funcional", o que, segundo Allport, significa que, embora comecemos a fazer algo por algum motivo, podemos continuar a fazê-lo por outro muito diferente. Isto acontece por que os motivos do presente não dependem continuadamente do passado. Assim, talvez comecemos a desenhar para competir em popularidade com outro menino da aula, mas podemos acabar mais interessados em aperfeiçoar a arte pela própria arte. Isto implica que a nossa maneira de pensar e atuar na atualidade só indiretamente é determinada pelo passado. A autonomia funcional também poderia explicar as obsessões e as compulsões como manifestações de traços funcionalmente autónomos, que consistem em que alguém não sabe porque faz qualquer coisa, mas ao mesmo tempo também não pode deixar de a fazer.
A terceira categoria de traços de Allport, conhecidos como traços secundários, exerce uma influência muito menor sobre nós do que os traços cardinais ou comuns. Unicamente aparecem em algumas circunstâncias, porque são sempre determinados pelo contexto ou pela situação. Por exemplo, podemos dizer que alguém "se aborrece muito quando lhe fazem cócegas" ou que "receia voar". Estes traços expressam preferências ou atitudes e estão abertos à mudança. Na ausência de outra pessoa, os traços secundários podem estar presentes mas serem invisíveis. Quando se acrescentam aos traços comuns e ordinais, oferecem uma imagem completa da complexidade humana.
Traços e conduta
Allport também se interessou pelo desenvolvimento dos traços de uma pessoa e a sua relação com a conduta. Sugeriu que a conduta é determinada por uma combinação de forças internas e externas. As forças internas, ou "genótipos", determinam de que modo retemos e utilizamos a informação para depois nos relacionarmos com o mundo que nos rodeia. Ao mesmo tempo, as externas, o "fenótipo", determinam como aceita a pessoa o meio que a rodeia e permite que outros influam na sua conduta. Estas duas forças, segundo Allport, estabelecem as bases para o desenvolvimento dos traços individuais.
Aplicando todas estas ideias à ideia de Robinson Crusoé, Allport observou que antes do seu encontro com Sexta-Feira, os genótipos, ou recursos internos, juntamente com certos aspetos fenotípicos, o ajudaram a sobreviver estando só na ilha. Possuía a força interior necessária para superar o desespero inicial, e recolheu armas, ferramentas e outros objetos úteis do barco antes que este se afundasse; cercou um recinto em torno de uma cova e elaborou um calendário; caçou, cultivou milho e arroz, e também aprendeu a fazer cerâmica e a criar cabras, além de adotar um papagaio; leu a Bíblia e tornou-se religioso. Todas estas condutas eram a manifestação de traços genotípicos de Crusoé.
No entanto, os traços fenotípicos não se puderam expressar até aparecer Sexta-Feira: ajudou-o a fugir dos seus captores, deu-lhe um nome, demonstrou paciência e perseverança quando lhe ensinou a falar inglês, e conseguiu convertê-lo ao cristianismo. Robinson Crusoé já dispunha de todos estes traços de personalidade, mas na ilha não se puderam manifestar enquanto não estabeleceu uma relação com Sexta-Feira. A ideia é semelhante à de um conhecido dilema filosófico: se uma árvore cai num bosque e não há ninguém a ouvir, faz ruído ou não? Segundo Allport, os traços dão congruência à conduta, estão sempre presentes mesmo que não haja ninguém que os evoque ou seja testemunha das suas manifestações.
Um estudo ideográfico
Depois de publicar Personality: A Psychological Interpretation em 1937, Allport centrou a sua atenção na religião, no preconceito e na ética. Em 1965, recuperou o tema da personalidade e começou o estudo ideográfico dos traços de personalidade de Jenny Masterson, que viveu de 1868 a 1937. Durante os seus últimos 11 anos de vida, Jenny escreveu 300 cartas pessoais a um casal com quem mantinha amizade. Allport utilizou essas cartas para a sua análise e pediu a 36 pessoas que deduzissem os traços de personalidade de Jenny a partir da sua correspondência. Foi simples identificar um padrão: os participantes abrangeram 198 traços individuais e nos quais coincidiram a maior parte das pessoas que estudaram as cartas. Estes traços eram: beligerante--desconfiada, egocêntrica, independente-autônoma, dramática-veemente, estética-artística, agressiva, cínica-mórbida e sentimental.
No entanto, Allport considerou que esta análise dos traços de Jenny não era conclusiva e decidiu utilizar outras abordagens, como a análise freudiana e adleriana. Com a ajuda dos seus alunos Jeffrey Paige e Alfred Baldwin, aplicou além disso uma “análise de conteúdos” ao material. Era uma nova forma de análise informática em que se programava o computador para contar quantas vezes apareciam palavras ou frases relacionadas com um tema ou uma emoção concretos. Allport estava especialmente impressionado com o potencial deste novo método para analisar dados ideográficos, que confirmou a sua convicção de que a orientação ideográfica pode detectar subtilezas do caráter de uma pessoa que os questionários não podem revelar por si sós.
Em 1966 publicou o artigo "Traits Revisited", no qual sugeriu que o objetivo do estudo da personalidade não deveria ser a microanálise dos traços individuais, mas sim o estudo da organização psíquica da pessoa. Afirmou ter escrito as suas primeiras obras sobre os traços numa idade de inocência psicológica, embora tenha mantido a convicção de que os traços são um ponto de partida razoável para descrever a personalidade.
A influência de Allport
A obra de Allport constitui a base de muitas escolas de pensamento contemporâneas, embora apenas em algumas ocasiões seja citado diretamente. Na atualidade, muitos dos testes de personalidade são procedentes da obra de Raymond Cattell e Hans J. Eysenck, que partiram do estudo léxico de Allport. Hoje, os psicólogos continuam a aplicar o 16PF de Cattell, que utiliza os 16 traços que este conseguiu identificar a partir da análise informática dos 4500 objetivos recolhidos por Allport e Odbert.
A psicologia humanista, na qual se baseia a maioria das técnicas terapêuticas e de apoio, também se alimenta das ideias de Gordon Allport, sobretudo do seu método ideográfico e da insistência em que cada pessoa é única. A crescente atenção à relação entre o terapeuta e o cliente como veículo para a expressão e desenvolvimento da personalidade mergulha as suas raízes na afirmação de Allport de que a personalidade é, em grande medida, uma função das relações pessoais.
Allport também foi um dos primeiros a assinalar que inclusive as teorias psicológicas que tentam explorar as experiências positivas se baseiam "fundamentalmente na conduta de pessoas doentes e ansiosa, ou nas "façanhas" de ratos prisioneiros e desesperados". Interrogava-se porque não existiam teorias baseadas no estudo das pessoas mentalmente sãs e das que se esforçam por que valha a pena viver. Referiu que a maioria dos sujeitos de estudo são delinquentes, não pessoas honradas, que se estuda o medo e não a coragem, e que os estudos se centram na cegueira do ser humano e não na sua visão. A psicologia positiva, liderada por Martin Seligman, adotou este ponto de vista e pretende desenvolver uma psicologia científica da experiência positiva.
Em 1955, data em que Allport publicou Desenvolvimento e Mudança, o seu pensamento evoluíra ainda mais. Acreditava que o verdadeiro motivo da personalidade era levar o ser humano a um nível de consciência mais elevado e à realização pessoal. A ideia de "chegar a ser" como objetivo último de uma pessoa também foi desenvolvida por psicólogos como Carl Rogers e Abraham Maslow, que a denominaram "autorrealização". Embora seja citado com menos frequência do que algumas figuras conhecidas, Allport exerceu uma influência profunda e duradora no campo da psicologia.
Raymond Cattell é considerado um dos 12 psicólogos mais influentes do século XX pela sua extraordinária contribuição para o estudo da inteligência, a motivação e a personalidade humanas. Interessou-se muito cedo pela inteligência, sendo ainda aluno de Charles Spearman, o psicólogo britânico que descreveu uma inteligência geral e de fator único (“g”) que sustentava toda a aprendizagem.
Em 1941, Cattell desenvolveu este conceito e descreveu os dois tipos de inteligência que constituem a geral: a inteligência fluida e a cristalizada. A inteligência fluida consiste num conjunto de capacidades de pensamento ou de raciocínio que se podem aplicar a qualquer tema ou “conteúdo”. Às vezes define-se como a inteligência que usamos quando ainda não sabemos como fazer qualquer coisa ativa-se de forma automática em processos como a resolução de problemas ou o reconhecimento de padrões, e julga-se que está muito relacionada com a memória de trabalho.
Cattell sugere que a inteligência fluida se herda geneticamente, o que explicaria as diferenças individuais. Atinge o ponto máximo na idade adulta e depois vai-se reduzindo, talvez devido às mudanças do cérebro associadas à idade. Também pode ser afetada pelas lesões cerebrais, o que sugere que é maioritariamente fisiológica.
Inteligência cristalizada
Quando usamos a inteligência fluida para resolver problemas, começamos a armazenar conhecimentos e hipóteses de trabalho sobre o mundo que nos rodeia. Este conhecimento acumulado constitui a inteligência cristalizada, que Cattell descreveu como “o conjunto das habilidades de raciocínio” que se adquirem ao investir a inteligência fluida em atividades culturais. A idade, a classe social, a nacionalidade e o momento histórico marcam importantes diferenças nas experiências de aprendizagem.
A inteligência cristalizada abarca habilidades como a compreensão verbal e a numérica, que dependem do conhecimento previamente adquirido, tais como as normas gramaticais e as operações matemáticas. Esta forma de inteligência aumenta gradualmente ao longo da vida e permanece relativamente estável até aos 65 anos, quando começa a declinar.
Cattell concebe os dois tipos de inteligência independentes um do outro, mas deduz que uma maior inteligência fluida pode levar a uma inteligência cristalizada mais vasta e com maior velocidade de acumulação, em função de fatores relacionados com a personalidade e os interesses.
Os testes standard de QI costumam avaliar uma combinação de inteligência fluida e cristalizada, razão pela qual Cattell desenvolveu provas que avaliam isoladamente a fluida. O seu teste de inteligência independente da cultura propõe problemas de opção múltipla não verbais, baseados em formas e padrões e que portanto não exigem aprendizagem prévia e podem ser aplicados a crianças e a adultos de qualquer nível cultural.
O estudo da genialidade foi dominado ao longo da sua história pelo debate sobre a herança face ao ambiente O gênio nasce ou faz-se? Até ao início do século XX, as ideias sobre a genialidade baseavam-se sobretudo nas pessoas que se consideravam gênios, como, por exemplo, Leonardo da Vinci ou Beethoven. Já Aristóteles viu uma relação entre genialidade criativa e loucura, e era assumido que ambas tinham uma importante componente genética. Em 1904, o psicólogo britânico Havelock Ellis publicou A Study of British Genius, no qual apresentava estudos controlados de pacientes psicóticos e pessoas criativas que lhe permitiam estabelecer uma relação entre as duas condições. Setenta anos depois, o psicólogo alemão Hans J. Eysenck reviu estas provas e concluiu que o que está relacionado com o gênio não é a psicose (loucura), mas o psicoticismo, que definiu como uma disposição subjacente a desenvolver sintomas psicóticos.
Temperamento e biologia
Muitos psicólogos tinham definido e medido os traços de personalidade, mas Eysenck centrou o seu interesse no temperamento humano e não nas caraterísticas pormenorizadas que compõem a pessoa na sua totalidade. Era biólogo e, tal como os outros antes dele, principalmente os médicos da Antiguidade Hipócrates e Galeno, acreditava que o temperamento é determinado por fatores fisiológicos. Hipócrates sugeriu que o tipo de personalidade depende do excesso ou escassez de um tipo concreto de fluido corporal, que denominou humor. Galeno desenvolveu essa ideia e propôs quatro tipos de temperamento: sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico.
As pessoas sanguíneas têm excesso de sangue e são alegres e otimistas. As de temperamento colérico, nas quais predomina a bílis, são rápidas e veementes. As fleumáticas, com excesso de fleuma, são lentas, vagas e aborrecidas. Por último, as melancólicas, que sofrem de excesso de bílis negra, são tristes, pessimistas e depressivas.
Eysenck, que acreditava que o temperamento tinha uma base fisiológica e genética, sentiu-se atraído pelo enfoque biológico de Galeno. Assim, propôs uma medida de duas dimensões, os “superfatores” gerais, da personalidade que abrangem todos os traços concretos: neuroticismo e extroversão/introversão, que depois fez encaixar com os quatro temperamentos de Galeno.
As escalas de Eysenck
Neuroticismo é o nome que Eysenck deu a uma dimensão da personalidade que vai da tranquilidade e da estabilidade emocional, num extremo, ao nervosismo e à transitoriedade emocional no outro. Afirmou que o umbral de ativação dos neuróticos (no extremo menos estável do espetro) é muito baixo no que respeita ao sistema nervoso simpático, que ativa a resposta de “fuga ou luta”. As pessoas com um sistema simpático mais sensível são hiperativas neste aspeto, razão pela qual respondem à mínima ameaça como se fosse um perigo grave, com aumento da pressão sanguínea e do ritmo cardíaco, sudação, etc., e também são mais propensas a sofrer diversos transtornos neuróticos. Não obstante, Eysenck não pretendia sugerir que as pessoas que pontuam no extremo nervoso desta dimensão fossem necessariamente neuróticas na prática, mas que eram mais propensas a desenvolver uma série de transpomos nervosos. A segunda dimensão do temperamento é a introversão/extroversão Eysenck utilizou estes termos de um modo muito parecido à forma como o faz a população em geral: os extrovertidos são abertos e faladores, enquanto os introvertidos são tímidos e calados. Eysenck afirmou que esta diferença se explica por variações da atividade cerebral: os introvertidos estão cronicamente sobre-estimulados e nervosos, enquanto os extrovertidos estão cronicamente infraestimulados e aborrecidos, portanto, o cérebro necessitará ou de despertar e procurar mais estímulos noutras pessoas (extrovertidos) ou de se acalmar procurando paz e solidão (introvertidos).
Psicoticismo
Eysenck pôs à prova estas ideias com grandes mostras de população mas apercebeu-se de que passava por alto alguns setores sociais, pelo que também fez os seus estudos em instituições de saúde mental.
Graças a esse trabalho, detectou uma terceira dimensão do temperamento que denominou psicoticismo, termo que substituiu a palavra “loucura” geralmente usada. Foi um contributo muito original para a teoria da personalidade, porque a maioria dos teóricos tentava definir e medir a personalidade normal (lúcida). Não obstante, Eysenck acreditava que, tal como o neuroticismo, o psicoticismo se desenvolve ao longo de uma escala, assim, os seus testes procuravam os traços de personalidade habituais em pessoas psicóticas.
Encontrou numerosos traços de personalidade que, combinados, dão lugar ao psicoticismo, e que aqueles que obtém pontuações altas na escala costumam ser agressivos, egocêntricos, impessoais, impulsivos, antissociais, não empáticos, criativos e duros. Contudo, uma pontuação elevada na escala não significa que a pessoa seja psicótica, nem que seja inevitável que o venha a ser. Simplesmente, partilha algumas caraterísticas com pacientes psicóticos. Em estudos controlados como os do psicólogo norueguês Dan Olweus e os seus colegas em 1980, foi relacionado o elemento agressivo do psicoticismo com uns elevados níveis de testosterona.
Estudo da genialidade
Ainda não foi possível elaborar uma definição psicológica clara da criatividade, mas existe um amplo consenso em que implica originalidade e novidade, e em que se baseia em aspetos tanto da capacidade intelectual como da personalidade. No seu artigo Creativity and Personality Suggestions for A Theory, Eysenck tentou esclarecer a natureza da criatividade e a sua relação com a inteligência, a personalidade e a genialidade.
Compreende-se que a genialidade é a forma mais elevada de criatividade e que se apoia numa inteligência superior, com um QI de 165 como mínimo. No entanto, um OI elevado não é suficiente. Outro elemento básico da inteligência é o processo de busca mental que utilizamos para encontrar soluções, recuperando da memória e associando diferentes ideias para dar respostas novas aos problemas. O referido processo é guiado por ideias relevantes: com que ideias e experiências prévias conto que sejam relevantes para este problema? Cada um de nós fá-lo de modo diferente: trata-se de uma capacidade independente do QI que também se localiza numa escala que vai de uma ideia expansiva e sobreinclusiva do que é relevante (ver demasiadas possibilidades) a outra muito restringida (ver poucas possibilidades); no meio encontramos uma postura mais convencional daquilo que poderíamos aplicar ao problema que temos entre mãos.
O pensamento sobreinclusivo pode ser medido por meio de provas de associação de palavras que analisam duas caraterísticas: a quantidade e a originalidade das respostas. Por exemplo, ante a palavra “pé”, o mais provável é que as pessoas com um grau restrito de respostas respondam “sapato”, um grau de respostas um tanto mais amplo poderia incluir “mão” ou “dedo do pé”, enquanto uma pessoa com um estilo de pensamento sobreinclusivo poderia gerar termos como “soldado a pé” ou “joanete”.
Eysenck demonstrou que o pensamento sobreinclusivo é uma caraterística comum ao psicoticismo e à criatividade. A coexistência de pensamento sobreinclusivo e um QI elevado dará lugar ao gênio criativo, porque essa combinação gera ideias criativas e originais Esta é a caraterística cognitiva subjacente à criatividade. Quando estão presentes o pensamento sobreinclusivo e os sintomas psicóticos, pode aparecer uma psicose mais ou menos grave.
Criatividade e personalidade
Eysenck acreditava que a criatividade é um traço de personalidade que fornece o potencial para o êxito criativo, mas que a materialização desse potencial depende do psicoticismo, um traço do caráter (na ausência de psicose). O impulso pare traduzir a criatividade em êxito depende de aspetos do temperamento psicótico, em concreto do estilo cognitivo sobreinclusivo. Eysenck não sugeria uma relação causal entre gênio e loucura, embora ambos tenham um elemento em comum (o pensamento sobreinclusivo), que ao combinar-se com outros elementos da genialidade ou da loucura pode dar resultados muito diferentes
A investigação sobre a criatividade apresenta um grande número de complicações Alguns investigadores afirmam que a criatividade apenas se pode julgar pelos seus resultados, e o próprio Eysenck sentiu-se incapaz de propor uma teoria completa. “Dedico-me a relacionar várias teorias imprecisas”, afirmou. A sua obra abrangeu diversas áreas, embora seja sobretudo conhecido pela exploração da personalidade e da inteligência: O seu modelo PEN (psicoticismo, extroversão, neuroticismo) teve grande impacto e foi o ponto de partida de grande parte das investigações posteriores sobre os traços de personalidade.
Nas décadas de 1960 e 1970 era habitual decidir se se contratava alguém com base na sua formação e no resultado dos testes de QI. No entanto, David McClelland sugeriu que as motivações eram o que melhor permitia prever o êxito no posto de trabalho. Depois de uma vasta investigação, identificou três motivações-chave que, na sua opinião, eram as responsáveis pelo rendimento laboral: a necessidade de poder, de êxito ou realização, e de filiação Todos contam com as três, mas defendia que há sempre uma que domina e determina o rendimento de cada pessoa no seu trabalho.
As três necessidades básicas
Segundo McClelland, a necessidade de poder ou de controlar os outros é a motivação mais valiosa para um bom chefe ou líder, mas isto só é certo se joga a favor da empresa ou da organização. As pessoas com um grande desejo de poder pessoal não costumam trabalhar bem em equipe.
Opinava que o trabalho de elevada qualidade é proveniente da necessidade de realização, que prediz o sucesso laboral muito melhor do que a inteligência. Acreditava que a motivação para o êxito é o que impulsiona a pessoa competitiva e o que a ajuda a esforçar-se para alcançar novas metas e melhorar
Para McClelland, a necessidade de filiação (de ter boas relações pessoais) ajuda as pessoas a trabalhar bem em equipe. Em contrapartida, referiu que as pessoas com uma necessidade de filiação pronunciada não costumam ser boas em cargos diretivos.
Fez notar que a motivação é proveniente de traços de personalidade que parecem profundamente arraigados no inconsciente. Não somos plenamente conscientes das nossas motivações, de modo que não se deveria aceitar de imediato o que dizemos numa entrevista de trabalho sobre o que nos motiva, nem o que respondemos nos questionários. Defendia o uso do teste de percepção temática (TAT), que os psicólogos Henry Murray e Christiana Morgan tinham criado na década de 1930 para revelar aspectos do inconsciente. Este teste, pouco usado no meio laboral, consiste em apresentar uma série de imagens ao sujeito, a partir das quais deve elaborar uma história em que, supostamente, se projetarão as suas capacidades e motivações subjacentes. McClelland concebeu uma forma inovadora de analisar as respostas ao TAT que permitia comparar a idoneidade de diversas pessoas para um posto concreto e determinar qual era a mais adequada.
As ideias de McClelland revolucionaram os procedimentos de seleção de pessoal, e embora os seus métodos de avaliação de candidatos tenham perdido popularidade, os princípios básicos continuam a ser aplicados. Considera-se hoje que a motivação é fundamental para o rendimento no trabalho.
Emoções e sentimentos são idiossincráticos; parecem apenas subjetivos, e talvez o misticismo que os rodeia explique por que razão a psicologia da emoção avançou tão lentamente. No entanto, nos últimos 30 anos, a situação mudou e as descobertas cientificas sobre a "sede” das emoções renovaram o seu interesse Também os psicólogos evolucionistas colocaram perguntas como: para que servem? Como nos ajudaram a sobreviver e a prosperar?
Na sua revolucionária obra publicada em inglês em 1986, The Emotions, Nico Frijda explora as leis e a essência das emoções. Crê que residem ali onde se cruzam os processos biológicos e cognitivos; algumas como o medo, são biologicamente inerentes, ou inatas, e são estas emoções básicas que partilhamos com os outros animais Outras surgem como resposta a pensamentos, pelo que a sua base é cognitiva, e também, como no caso da indignação ou da humilhação, podem ter uma raiz cultural.
Frijda diferencia claramente emoção e sentimento. As emoções são incontroláveis, surgem de forma espontânea, e as reações físicas alertam-nos da sua presença, como quando o medo nos aperta o estômago. Por isso afirma que a “emoção é na sua essência um processo inconsciente”. Já os sentimentos são a interpretação das emoções e temos mais consciência deles. Podemos pensar sobre um sentimento e tomar decisões a seu respeito. As emoções assaltam-nos, os sentimentos não.
Ação e pensamento
Nico Frijda refere que a emoção e o sentimento não se expressam da mesma forma. As emoções preparam-nos para a ação, nas situações que provocam o medo, são as forças motivadoras que preparam o corpo para fugir ou para lutar. Os outros podem entender, ou pelo menos imaginar, quais são as nossas emoções a partir da nossa conduta. No entanto, os sentimentos podem ser ou não congruentes com a conduta, porque podemos decidir ocultá-los.
Frijda crê que as emoções básicas nos dão a oportunidade de nos conhecermos melhor. Acompanham a ativação biológica que nos ajuda a percebê-las e a ter mais consciência dos sentimentos resultantes. Assim, podemos tê-las em consideração no momento de tomar decisões e, se refletirmos sinceramente, aprofundar o autoconhecimento. De qualquer forma, Frijda limita as emoções básicas à alegria, vergonha, tristeza, ira e medo. O imperativo biológico de outras, como os ciúmes ou a culpa, é menor
Na sua definição e descrição do grupo de leis específicas que regem as emoções. Frijda explica que estas aparecem, crescem e se desvanecem de uma forma muito previsível A razão interpreta-as como um barômetro, para garantir o nosso bem-estar mental. O eu emocional e o eu racional não são independentes; pelo contrário, estão muito mais relacionados do que parece.
Até ao fim da década de 1960, a personalidade costumava ser descrita como um conjunto de traços behavioristas herdados geneticamente. Os psicólogos dedicavam-se a definir e avaliar todos esses traços, já que isto era considerado essencial para entender e prever de forma fiável a conduta de uma pessoa.
Raymond Cattell conseguiu identificar 16 traços da personalidade, e Hans J. Eysenck sugeriu que só havia três ou quatro. Em 1961, os psicólogos americanos Raymond Christal e Ernest Tupes propuseram que os traços de personalidade básicos são cinco (os cinco grandes): abertura à experiência, consciência, extroversão, agradabilidade e neuroticismo ou estabilidade emocional. Depois, em 1968, Walter Mischel surpreendeu os estudiosos da personalidade ao afirmar, em Personalidade e Avaliação, que os testes de personalidade clássicos eram quase inúteis. Revira vários estudos que tentavam predizer a conduta a partir dos resultados de testes de personalidade e descobriu que apenas acertaram em 9% das ocasiões.
Fatores externos
Mischel chamou a atenção sobre a função que desempenham os fatores externos, como o contexto, na hora de determinar a conduta, acreditava que era necessário analisar a interação dinâmica entre as pessoas e a situação em que se encontram. Seria absurdo supor que a conduta fosse alheia aos fatores externos. Defendeu que analisar repetidamente a conduta de uma pessoa em diferentes situações revelaria caraterísticas de uma personalidade concreta, em vez de uma lista de traços. A interpretação individual da situação também era tida em conta.
Mischel investigou os hábitos de pensamento que podiam perdurar no tempo e em diferentes situações. Nas suas famosas experiências com guloseimas, cujo fim era avaliar a força de vontade, era oferecida a crianças de quatro anos uma guloseima e era-lhes dito que podiam escolher entre comê-la de imediato ou esperar 20 minutos, neste caso, poderiam comer duas. Algumas crianças eram capazes de esperar e outras não. Mischel seguiu-as até à adolescência e informou que as que tinham resistido à tentação eram mais equilibradas e mais fiáveis: obtinham melhores notas, a sua competência social era maior e a autoestima mais elevada. A capacidade de adiar o prazer parecia prever melhor o êxito no futuro do que qualquer outro traço de personalidade previamente medido.
O trabalho de Mischel mudou por completo o rumo do estudo da personalidade e também a forma como são utilizados os perfis de personalidade na seleção de pessoal. Os testes que antes eram a base para escolher um candidato, hoje, consideram-se apenas uma orientação que deve ser interpretada no contexto das situações mais prováveis no posto de trabalho.
Na década de 1960, vários peritos designados “antipsiquiatras” manifestaram a sua recusa em relação aos supostos fundamentais da psiquiatria. Este grupo informal de psiquiatras, psicólogos e trabalhadores sociais afirmava que a psiquiatria é um modelo médico da saúde mental, apesar de não haver sintomas físicos, e que os tratamentos ignoram as necessidades e a conduta dos pacientes.
Em 1973, David Rosenhan fez nos EUA um estudo de campo para determinar a validade do diagnóstico psiquiátrico e chegou à conclusão de que é impossível distinguir os lúcidos dos doentes mentais nos hospitais psiquiátricos.
A primeira parte do estudo consistiu em reunir um grupo de oito pessoas ajuizadas (entre as quais Rosenhan), composto por homens e mulheres de diferentes idades e profissões, os “pseudopacientes”, cuja missão era tentar serem admitidos como pacientes em diferentes hospitais psiquiátricos em cinco estados dos EUA. Tinham de marcar uma visita pelo telefone e, já na recepção, deviam queixar-se de que ouviam vozes estranhas que lhes falavam com certa incoerência usando palavras como “vazio” ou “buraco”, o que sugeria emoções existenciais de falta de sentido da vida. Além de darem profissões e nomes falsos, deviam referir com sinceridade o resto da história pessoal.
Todos os pseudopacientes foram internados com diagnóstico de esquizofrenia, apesar de não apresentarem sintomas. Os internamentos duraram uma média de 19 dias, durante os quais se comportaram com total normalidade. Escreveram um diário com as suas experiências, primeiro às escondidas e depois abertamente, já que nada lhes foi perguntado a esse respeito. Rosenhan demonstrou que inclusive uma conduta normal é suscetível de ser interpretada como sintoma de transtorno psiquiátrico um dos comentários mais repetidos nas histórias clínicas dos pseudopacientes foi que ao paciente dedica-se à escrita.
Os pseudopacientes descreveram a sua estada nos hospitais como uma experiência de despersonalização e impotência. Os seus diários refletiram que o tempo que o corpo clínico lhes dedicava não ultrapassava os sete minutos em média. Se o pessoal do hospital não os detectou, outros pacientes questionaram a sua condição de doentes, às vezes duramente: “Tu não estás louco! És um jornalista que nos veio espiar!”
Considerar lúcido o louco
Na segunda parte do estudo, Rosenhan informou falsamente um hospital universitário e de investigação (que conhecia o primeiro estudo) de que, durante os três meses seguintes, um ou mais pseudopacientes tentariam ser admitidos no seu centro, e pediu que cada novo paciente fosse avaliado em relação à possibilidade de ser um pseudopaciente. De 193 internamentos genuínos, 41 foram considerados duvidosos pelo menos por um membro da equipa e 23 foram identificados como possíveis pseudopacientes por pelo menos um psiquiatra.
Os estudos de Rosenhan geraram uma onda de controvérsia e fizeram com que muitas instituições melhorassem a atenção aos pacientes.
O transtorno de personalidade múltiplo (posteriormente denominado transtorno de identidade dissociativo) é caraterizado pela existência de duas ou mais identidades diferenciadas na personalidade de um único indivíduo. Eberhnardt Gmelin foi o primeiro a descrevê-lo em 1791, e durante os 150 anos seguintes foram documentados mais 100 casos clínicos. Julgava-se que se organizava devido aos maus tratos na infância e que se podia curar voltando a integrar as personalidades secundárias na principal.
Um dos casos de TPM mais famosos é o de Eva White. Eva foi enviada a Thigpen e Cleckley em 1952, queixando-se de fortes dores de cabeça e desmaios ocasionais. Era uma mulher educada e bastante requintada, de 25 anos, casada e com uma filha de quatro anos. Esteve em tratamento 14 meses.
Eva relatou aos médicos um episódio perturbador: comprara uns vestidos extravagantes que não se podia permitir usar, mas não se lembrava de o ter feito. Enquanto explicava isto, a sua atitude alterou-se. Pareceu confusa por momentos e depois a expressão do seu rosto mudou. Abriu mais os olhos, sorriu provocadoramente, começou a falar com um tom animado e coquete e até pediu um cigarro, apesar de não fumar.
Era "Eva Black", uma personalidade tão diferente que inclusive tinha alergia ao náilon, ao contrário de Eva White. Esta não tinha consciência da existência de Eva Black, que, pelo contrário, estava plenamente consciente da outra, que desprezava: "É tão idiota..."
Personalidades distintas
As duas personalidades foram submetidas a uma bateria de testes psicológicos. Eva White tinha um QI ligeiramente superior ao de Eva Black, mas entravam ambas na categoria de "inteligente, normal". Foi explorada a dinâmica da personalidade com o teste de Rorschach (no qual o sujeito explica como entende umas manchas de tinta). As diferenças foram espetaculares: Eva Black apresentava uma tendência dominante para o histerismo e a capacidade de aceitar as normas. Eva White, pelo contrário, manifestou "contenção, ansiedade e traços obsessivo-compulsivos", além da incapacidade de aceitar a sua própria hostilidade.
Julgou-se que o transtorno de Eva era resultado de ter sofrido maus tratos na infância, pelo que o tratamento se centrou no esforço para a fazer regressar à primeira infância, utilizando a hipnose para recuperar a Eva Black. Finalmente foi feita uma tentativa para ativar as duas personalidades ao mesmo tempo, e Eva entrou em transe. Despertou com uma terceira personalidade, Jane, a sua terceira face e uma personagem mais capaz e interessante do que Eva White. Parecia combinar as facetas positivas das duas Evas, sem as suas fraquezas. Jane tinha consciência das duas Evas, mas nenhuma tinha consciência de Jane.
Jane parecia o resultado do equilíbrio entre as duas Evas e foi reforçada por ser a que melhor captava a complexa dinâmica das três personalidades: as duas Evas integraram-se em Jane.
Casos de TPM como este são muito raros, mas julga-se que casos mais leves são habituais. A minuciosa documentação de estudos de situações semelhantes inspirou protocolos de diagnóstico e tratamento que tornam muito tratável este transtorno.
Apego Relação emocional na qual uma pessoa procura a proximidade de outra em cuja presença acha segurança; verifica-se particularmente nas crianças pequenas em relação aos pais.
Aprendizagem por ensaio e erro Teoria proposta originalmente por Edward Thorndike que defende que a aprendizagem se dá por intermédio do ensaio de diversas respostas e repetição das que provocam resultados desejáveis.
Aprendizagem social Teoria da aprendizagem baseada na observação do comportamento das pessoas e das consequências de tal comportamento. O principal defensor desta teoria foi Albert Bandura.
Arquétipos Segundo a teoria de Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica, são estruturas herdadas no inconsciente coletivo que organizam as nossas experiências. Costumam ser representados em mitos e lendas.
Associação I) Explicação filosófica sobre a formação do conhecimento, segundo a qual este é o produto da conexão ou associação de ideias simples que formam ideias complexas. II) Vínculo entre dois processos psicológicos, formado com base na sua associação na experiência passada.
Associacionismo Teoria que defende que as conexões neuronais inatas ou adquiridas ligam estímulos e respostas, o que determina padrões de conduta definidos.
Atenção Termo genérico conferido aos processos usados na percepção seletiva, focalizada.
Autismo Denominação informal do transtorno do espetro autista (TEA), conjunto de disfunções mentais caraterizadas por um ensimesmamento extremo e falta de empatia, atividades motoras repetitivas e insuficiência das aptidões linguística e conceitual.
Autorrealização Completo desenvolvimento das próprias potencialidades. Na teoria de Abraham Maslow, esta é a necessidade superior do ser humano.
Behaviorismo Teoria psicológica que defende que o objeto de estudo apenas pode ser o comportamento observável, que pode ser descrito e avaliado em termos objetivos.
Behaviorismo propositivo Tese de Edward Tolman segundo a qual todo o comportamento se orienta para um fim último.
Codificação Processamento da informação sensorial mediante o qual esta se transforma em memória.
Cognitivo Relativo aos processos mentais, como a percepção, a memória ou o pensamento.
Complexo de Édipo Na teoria psicanalítica, segundo Sigmund Freud, é a etapa do desenvolvimento que se verifica até aos cinco anos, na qual a criança sente um anseio inconsciente pela mãe e o desejo de substituir ou destruir o pai.
Complexo de inferioridade Afeção mental definida por Alfred Adler que se desenvolve quando uma pessoa é incapaz de resolver sentimentos de inferioridade, reais ou imaginários, o que a leva a tornar-se agressiva ou retraída.
Condicionamento clássico Tipo de aprendizagem em que um estímulo neutro adquire a capacidade de desencadear determinada resposta ao associar-se a um estímulo incondicionado.
Condicionamento instrumental Forma de condicionamento em que o indivíduo tem um papel instrumental no resultado dos acontecimentos, como se verifica no caso de um animal colocado num labirinto.
Condicionamento operante Em B. F. Skinner, forma de condicionamento instrumental em que a resposta é espontânea, como no caso de ativar uma alavanca para obter comida.
Consideração positiva incondicional Na terapia centrada no cliente de Carl Rogers, é a aceitação absoluta de alguém pelo simples motivo de que é um ser humano.
Contiguidade Imediação ou proximidade de duas ideias ou acontecimentos. É considerada necessária para a associação.
Correlação A tendência de dois conjuntos de dados ou variáveis para a variar do mesmo modo em determinadas circunstâncias. Correlação não implica causalidade.
Depressão Perturbação do humor que se caracteriza por sentimentos de desespero e baixa autoestima, acompanhados de apatia e anedonia (incapacidade de desfrutar). Em casos extremos, pode afetar o funcionamento normal e provocar pensamentos suicidas.
Dessensibilização Processo de enfraquecimento de uma resposta forte a um acontecimento ou a uma coisa mediante a exposição repetida a esse estímulo.
Determinismo Doutrina que defende que todos os acontecimentos, ações e opções estão determinados por acontecimentos passados ou causas preexistentes.
Dissonância cognitiva Contradição, incoerência, entre crenças ou sentimentos que conduz o indivíduo que a experimenta a um estado de tensão.
Efeito Zeigarnik Tendência para recordar com maior facilidade as tarefas pendentes ou inacabadas do que as completas.
Elo (id) Termo psicanalítico que designa uma das três instâncias da pessoa humana (ver também eu, super-eu); o elo é a fonte da energia psíquica e está associado aos instintos.
Empirismo Corrente psicológica e filosófica que atribui todo o conhecimento à experiência.
Erro fundamental de atribuição Tendência para explicar a conduta das pessoas em função dos traços da sua personalidade mais do que dos fatores ambientais.
Escuta dicotômica Escuta de duas mensagens diferentes que se recebem simultaneamente, uma em cada ouvido.
Esquizofrenia Antes chamada demência precoce, trata-se de um grupo de graves transtornos mentais que afetam múltiplas áreas funcionais. É caraterizada por uma aguda alteração do pensamento, emoções simples ou inapropriadas e uma visão distorcida da realidade.
Estilo cognitivo Modo como o indivíduo habitualmente processa a informação.
Estímulo Qualquer objeto, acontecimento, situação ou fator do meio que um indivíduo pode detectar e perante o qual pode responder.
Estímulo condicionado (EC) No condicionamento clássico, estímulo que provoca uma resposta determinada (condicionada) devido à sua associação com um estímulo incondicionado.
Estímulo incondicionado (EI) No condicionamento clássico, estímulo que provoca uma resposta reflexa (incondicionada, natural).
Estruturalismo Corrente psicológica que se ocupa do estudo da estrutura da mente.
Etapas psicossexuais Na teoria psicanalítica, etapas do desenvolvimento durante a infância diferenciadas tendo em conta as zonas do corpo que produzem prazer.
Etologia Estudo científico do comportamento animal em condições naturais.
Eu (ego) Termo psicanalítico que designa uma das três instâncias da pessoa humana (ver também Elo; supereu); o eu é o aspecto racional da personalidade, que está em contato com o mundo exterior e as suas exigências, e é o responsável pelo controlo dos instintos.
Extinção É a aprendizagem condicionada, enfraquecimento da força de uma resposta devido à falta de reforço.
Extroversão Traço da personalidade pelo qual a energia se dirige primariamente para o mundo exterior e para as outras pessoas (ver também introversão).
Falsa recordação Recordação ou pseudorecordação recuperada de um acontecimento que não se verificou. Pensa-se que é devida a uma sugestão.
Fator "g" (geral) Definido por Charles Spearman na sua teoria da inteligência geral, é um fator de inteligência ou aptidão determinado pela correlação dos resultados obtidos em vários testes mentais. Spearman considerou-o uma medida da energia mental de um indivíduo, mas para outros é uma medida da capacidade de raciocínio abstrato.
Fenomenologia Teoria do conhecimento baseada na experiência imediata tal como se dá, evitando categorizá-la com ideias preconcebidas, suposições ou interpretações.
Fluxo de consciência William James descrevia a consciência como um fluxo contínuo de pensamentos.
Fobia Transtorno de ansiedade caraterizado por um medo intenso e com frequência irracional.
Funcionalismo Corrente psicológica interessada na investigação das funções adaptativas da mente em relação ao meio que a rodeia.
Grupo de controlo Grupo de pessoas participantes numa experiência que não é exposto à influência dos investigadores durante a referida experiência.
Hipnose Introdução de um estado de transe temporal caraterizado por uma extrema sugestibilidade.
Hipótese Predição ou afirmação pendente de verificação ou refutação mediante a experiência.
Imprinting Em etologia, sistema inato de aprendizagem rápida que se dá nos animais imediatamente depois do nascimento. Normalmente implica o desenvolvimento do apego a um indivíduo ou objeto determinado.
Inato Conatural ou presente num organismo desde o nascimento; o inato pode ser herdado geneticamente ou não.
Inconsciente Em psicanálise, é aquela parte da psique a que não se pode aceder por intermédio da mente consciente.
Inconsciente coletivo Na teoria de Carl Jung, o nível mais profundo da psique, que alberga disposições psíquicas herdadas sob a forma de arquétipos.
Instintos Impulsos ou propensões naturais. Em psicanálise, são a força motriz que dirige a personalidade e a conduta.
Inteligência cristalizada Conjunto de habilidades, aptidões cognitivas e estratégias adquiridas por meio do uso da inteligência fluida. É considerado que, com a idade, vai aumentando.
Inteligência fluida Capacidade para abordar problemas novos. É considerado que diminui com a idade.
Introspeção É o método psicológico mais antigo, consistindo em auto-observação, em olhar para dentro da própria mente com o objetivo de examinar o próprio estado interior.
Introversão Traço da personalidade por meio do qual a energia se dirige primariamente para o interior de nós mesmos, para os próprios pensamentos e sentimentos (ver também extroversão).
Lapsos freudiano Ação ou palavra semelhante mas diferente da que se pretende realizar ou dizer conscientemente, e que reflete motivos ou inquietações inconscientes.
Lei do efeito Formulada por Edward Thorndike, estabelece que, perante um estímulo que admite várias respostas, as que implicam uma recompensa tendem a associar-se mais frequentemente ao estímulo e terão maior probabilidade de ocorrência quando este voltar a aparecer, e as que implicam um castigo associam-se menos vezes.
Livre associação Técnica utilizada em psicoterapia, na qual o paciente diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça perante uma dada palavra.
Materialismo Doutrina que apenas considera real o mundo físico e explica os fenômenos mentais em termos físicos.
Mecanismos de defesa Na teoria psicanalítica, reações mentais que se verificam de forma inconsciente para evitarem a ansiedade.
Método anedótico Uso de informações observacionais (carentes com frequência de rigor científico) como dados para a investigação.
Modelagem Na teoria behaviorista, a modelagem de conduta é o procedimento mediante o qual se reforça positivamente uma resposta a uma regra desejada.
Modificação de conduta Técnica terapêutica utilizada para controlar ou modificar a conduta de indivíduos ou grupos.
Neurónio Célula nervosa implicada na transmissão de mensagens (como impulsos nervosos) entre diversas partes do cérebro.
Neuropsicologia Uma subdisciplina da psicologia e da neurologia que se ocupa do estudo da estrutura e do funcionamento do cérebro, bem como dos efeitos dos transtornos cerebrais na conduta e na cognição.
Personalidade Conjunto dos traços mentais e de conduta estáveis de uma pessoa, que a levam a comportar-se de um modo relativamente coerente ao longo do tempo.
Pragmatismo Doutrina que considera as ideias como regras para a ação; a validade da ideia mede-se pelas suas consequências práticas.
Princípio de realidade Em psicanálise, conjunto de regras que governam o eu tendo em conta o mundo real e as suas exigências.
Problema mente-corpo Problema da definição da interação entre o mental e o físico. Foi levantado pela primeira vez por René Descartes.
Psicanálise Conjunto das teorias e métodos terapêuticos, concebidos pelo médico neurologista Sigmund Freud, que exploram os processos inconscientes que influenciam a conduta humana.
Psicofísica Estudo científico das relações entre os processos mentais e físicos.
Psicologia cognitiva Abordagem psicológica a que se centra nos processos mentais implicados na aprendizagem e no conhecimento, assim como na organização das experiências da mente.
Psicologia da Gestalt Teoria psicológica holística que enfatiza o papel do "todo" organizado, em oposição às suas partes, em processos mentais como a percepção.
Psicologia humanista Teoria psicológica que enfatiza a importância do livre-arbítrio e a autorrealização para a boa saúde mental.
Psicoterapia Termo genérico que designa todos os tratamentos terapêuticos que usam meios psicológicos mais do que físicos ou fisiológicos.
Quociente de inteligência (QI) Índice de inteligência que permite distribuir os indivíduos segundo níveis comparativos de inteligência. O conceito, referido por William Stern, calcula-se dividindo a idade mental de um indivíduo pela sua idade cronológica e multiplicando o resultado por 100.
Reflexo Reação automática a um estímulo.
Reforço No condicionamento clássico, é o procedimento que incrementa a a probabilidade de determinada resposta.
Reforço negativo No condicionamento instrumental ou operante, é o reforço de uma resposta mediante a supressão de um estímulo negativo.
Reforço positivo Conceito-chave na teoria behaviorista, é o processo pelo qual se incrementa a probabilidade de uma resposta apresentando imediatamente a seguir a ela uma recompensa ou um estímulo positivo.
Replicação Repetição exata de uma investigação ou experiência que conduz aos mesmos resultados; é essencial para estabelecer a validez das descobertas.
Repressão Em psicanálise, mecanismo de autodefesa por meio do qual os pensamentos, recordações ou impulsos inaceitáveis ficam relegados para além da consciência. Anna Freud chamou-lhe "esquecimento motivado".
Resposta condicionada (RC) Resposta provocada por um estímulo inicialmente neutro que se associou a um estímulo incondicionado, que naturalmente provoca essa resposta.
Resposta incondicionada (RI) No condicionamento clássico, resposta reflexa (incondicionada, natural) a um estímulo particular.
Sílabas sem sentido Sílabas de três letras que não formam palavras reconhecíveis. 0 psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus foi o primeiro que as usou experimentalmente num estudo sobre a aprendizagem e a memória.
Supereu (superego) Na psicologia psicanalítica, aquela porção da psique (ver também eu, elo) derivada da interiorização dos valores e regras parentais e sociais; é governada pelas restrições morais.
Teoria do campo Teoria acerca da conduta humana proposta por Kurt Lewin, que utiliza o conceito de campo de forças para explicar o espaço o vital ou campo de influências sociais em torno de um indivíduo.
Teoria dos traços Teoria segundo a qual as diferenças individuais dependem principalmente de certos traços de caráter subjacentes que permanecem essencialmente constantes ao longo do tempo.
Terapia familiar Termo genérico referido às terapias com que se trata uma família inteira, admitindo que os problemas têm as suas raízes nas inter-relações que se verificam dentro do sistema familiar.
Traços centrais Segundo Gordon Allport, são os principais "pilares" da personalidade (de cinco a dez) que se usam para descrever uma pessoa, tais como "tímida" ou "bondosa".
Transferência Em psicanálise, tendência de um paciente para transferir reações emocionais de relações passadas (parentais, especialmente) para o terapeuta. .
Umbral diferencial A menor diferença que pode ser detectada por um indivíduo entre dois estímulos físicos.
Validade Alcance até onde um teste mede aquilo que se supõe que deve medir.