O Livro de Economia
(Textos Escolhidos)
Vários Colaboradores
Tradução Carlos S. Mendes Rosa. São Paulo: Globo 2013
Frases da Capa
É possível impulsionar as economias pobres cancelando a dívida
A economia pode ser medida
Dinheiro faz dinheiro
Imposto menor pode significar receita maior
Redes sociais são um tipo de capital
A riqueza vem da terra
A economia é um ioiô
Os preços resultam da oferta e da procura
O mercado de imóveis reflete a alta e a baixa
Achar emprego é como encontrar parceiro ou casa
As empresas acatam os preços, e não os criam
O que é preço justo?
A globalização não é inevitável
As pessoas são influenciadas por alternativas irrelevantes
A mão invisível do mundo impõe ordem
Até reformas econômicas benéficas falham
Economias estáveis têm sementes de estabilidade
Quanto maior a fábrica, menor o custo
A maioria dos carros vendidos é “abacaxi”
É possível investir sem correr riscos
A economia está inserida na cultura
A economia é uma ciência dos recursos escassos
Financiar já é tributar depois
Com o tempo, até o egoísta colabora com os outros
O valor de um produto vem do esforço necessário para fazê-lo
Começamos a aprender sobre propriedade e pertences pessoais ainda nas disputas por brinquedos na tenra infância. Muitas vezes nem se dá atenção a esse conceito, mas não há nada inevitável nele. A propriedade privada é fundamental para o capitalismo. Karl Marx (p. 105) observou que a riqueza gerada pelo capitalismo dá às sociedades "uma imensa coleção de mercadorias" que são privadas e podem ser comercializadas para dar lucro. As empresas também são propriedade privada e têm fins lucrativos em um mercado livre. Sem a ideia de propriedade privada, não há possibilidade de ganho pessoal — não há nem razão para entrar no mercado. Na verdade, não existe mercado.
Tipos de propriedade
"Propriedade" abrange uma ampla gama de coisas, de bens materiais a propriedade intelectual (como patentes ou texto escrito). Ela faz parte de áreas que nem os economistas do livre mercado defendem, como a escravidão, em que as pessoas são mercadoria.
Do ponto de vista histórico, a propriedade material se organizou de três modos diferentes. Primeiro, tudo pode ser coletivo e usado por quem desejar, com base na confiança mútua e no costume. Foi assim nas economias tribais e ainda é para os huaoranis da Amazônia. Segundo, a propriedade pode ser mantida e utilizada coletivamente — a essência do sistema comunista. Terceiro, a propriedade pode ser particular, e cada pessoa é livre para fazer com ela o que quiser. Este é o conceito central do capitalismo.
Os economistas modernos tendem a justificar a propriedade privada pragmaticamente, com o argumento de que o mercado não pode funcionar sem alguma divisão de recursos. Os primeiros pensadores encaravam a propriedade de uma perspectiva moral. O filósofo grego Aristóteles afirmou que "a propriedade deve ser privada". Ressaltou que, quando a propriedade é coletiva, ninguém assume a responsabilidade de mantê-la e melhorá-la. Além disso, as pessoas só podem ser generosas se tiverem algo para dar.
O direito à propriedade
No século XVII, toda a terra e as moradias na Europa pertenciam de fato aos monarcas. O filósofo inglês John Locke (1632-1704), porém, defendeu os direitos individuais, dizendo que, como Deus nos deu o domínio sobre o próprio corpo, também temos domínio sobre as coisas que fazemos. O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) declarou depois que a propriedade privada é uma expressão legítima do indivíduo.
Outro filósofo alemão, no entanto, rejeitou inteiramente a propriedade privada. Karl Marx insistiu que o conceito de propriedade privada nada mais é que um meio pelo qual o capitalista expropria o trabalho do proletário, deixa-o na escravidão e o excluí. O proletariado é, na verdade, apartado do grupo seleto que controla toda a riqueza e poder.
Muita gente sabe o que é ser explorado ou "roubado" por um vendedor, como ao comprar um sorvete caríssimo num lugar turístico. Porém, segundo a teoria econômica predominante, não existe roubo. O preço de qualquer coisa é apenas o preço de mercado — o preço que as pessoas estão dispostas a pagar. Para os economistas de mercado, não há aspecto moral algum no preço — a precificação é resultado direto da oferta e da demanda. Os comerciantes que parecem estar cobrando a mais estão só levando o preço ao limite. Se puserem o preço além do que as pessoas estão preparadas para pagar, elas não comprarão mais, e então os comerciantes serão forçados a baixar os preços. Os economistas consideram que o mercado é a única maneira de determinar preços, já que nada — nem mesmo o ouro — tem um valor intrínseco.
Preço aceito livremente
A ideia de que o mercado deve fixar os preços contrasta nitidamente com o ponto de vista do erudito siciliano Tomás de Aquino em sua Suma teológica, um dos primeiros estudos do mercado. Para Aquino, monge erudito, o preço era uma questão profundamente moral. Ele admitia que a ganância fosse um pecado mortal, mas ao mesmo tempo entendia que, se um comerciante não tivesse o incentivo do lucro, ele deixaria o comércio, e a comunidade seria privada das mercadorias que necessita.
Aquino concluiu que o comerciante pode cobrar um "preço justo", o que inclui um lucro decente, mas exclui o lucro excessivo, que é pecaminoso. Esse preço justo é apenas aquele que o comprador concorda livremente em pagar, dispondo de informação honesta. O vendedor não é obrigado a contar ao comprador os fatos que podem baixar o preço no futuro, como um navio que logo vai atracar com especiarias baratas.
A questão de preço e moralidade continua viva hoje, quando tanto os economistas como o público discutem "o preço justo" do bônus de um banqueiro ou o salário mínimo. Os economistas de livre mercado, que rejeitam a interferência no mercado, e aqueles que defendem a intervenção do governo — por mínimas razões econômicas ou morais — continuam debatendo sobre a correção e o erro de impor restrições aos preços.
Em vários lugares do mundo, caminha-se cada vez mais para uma sociedade sem dinheiro vivo, em que os bens são comprados com cartões de crédito, transferências eletrônicas e por celulares. Mas dispensar o dinheiro não significa que ele não seja usado. O dinheiro continua no centro de todas as operações.
Os efeitos desagradáveis do dinheiro são bem conhecidos, pois ele incita desde a avareza até o crime e a guerra. O dinheiro é usado como homenagem, em rituais religiosos e como enfeite. O "dinheiro sujo" paga assassinatos; noivas são compradas ou dadas com dotes para enriquecer o marido. Dinheiro dá status e poder a indivíduos, famílias e nações.
A economia do escambo
Sem dinheiro só era possível o escambo. Em certa medida nós fazemos escambo ao retribuir favores. Pode-se consertar a porta quebrada do vizinho em troca de algumas horas de babá, por exemplo. Porém, é difícil imaginar essas trocas pessoais em escala maior. O que aconteceria se você quisesse um pão e só tivesse o seu carro novo para trocar? O escambo depende da coincidência de desejos, quando não só o outro tem o que eu quero, mas também eu tenho o que ele quer.
O dinheiro resolve todos esses problemas. Não é preciso achar alguém que queira o que você tem para trocar — você apenas paga seus bens com dinheiro. O vendedor pode então embolsar o dinheiro e comprar de outra pessoa. O dinheiro é transferível e adiável — o vendedor pode guardá-lo e comprar na hora certa. Muitos afirmam que as civilizações complexas nunca teriam surgido sem a facilidade de troca que o dinheiro permite. O dinheiro dá também um padrão para decidir o valor das coisas. Se todos os bens têm valor monetário, podemos conhecer e comparar todos os custos.
Tipos de moeda
Existem dois tipos de moeda: mercadoria e fiduciária. A moeda-mercadoria tem um valor intrínseco, além do especificado — por exemplo, quando se usam moedas de ouro como dinheiro corrente. A moeda fiduciária, usada primeiro na China, no século X, é um símbolo da permuta, sem valor que não o que o governo lhe atribui. Uma cédula é moeda fiduciária.
Muitos papéis-moedas eram de início "promessa de pagamento" com lastro em reserva de ouro. Em tese, os dólares emitidos pelo Federal Reserve dos EUA podiam ser trocados por seu valor em ouro. Desde 1971, o valor do dólar deixou de ser conversível em ouro e é fixado inteiramente segundo o desejo do Tesouro do país, sem relação com suas reservas de ouro. Essas moedas fiduciárias dependem da confiança das pessoas na estabilidade econômica do país, nem sempre garantida.
Há muito tempo as pessoas fazem e dão empréstimo. Existem provas de que essas atividades ocorriam há 5 mil anos na Mesopotâmia (atual Iraque), na aurora da civilização. Mas os sistemas bancários modernos só surgiram no século XIV, no norte da Itália.
A palavra "banco" vem do italiano com o mesmo sentido do lugar onde os banqueiros se sentavam para fazer negócios. No século XIV, a península italiana era uma terra de cidades-estado que usufruíam a influência e os ganhos do papado em Roma. A península tinha localização ideal para o comércio, entre a Ásia, a África e os países emergentes da Europa. A riqueza começou a se acumular, sobretudo em Veneza e Florença. Veneza tinha poder marítimo. Aí se criaram instituições para financiar e garantir as viagens. Florença centrava-se na atividade fabril e no comércio com o norte da Europa, e lá comerciantes e financistas se reuniram no Banco Medici.
Florença já era lar de famílias de banqueiros, como Peruzzi e Bardi, e de diferentes agentes financeiros - de agiotas, que emprestavam dinheiro garantido por pertences pessoais, a bancos locais, que lidavam com moedas estrangeiras, aceitavam depósitos e davam empréstimos a empresas locais.
O banco fundado por Giovanni di Bicci de Medici em 1397 era diferente. O Banco Medici financiava o comércio internacional de artigos como lã. Diferia dos bancos existentes em três aspectos. Primeiro, cresceu bastante. No apogeu, sob o comando do filho do fundador, Cosme, tinha filiais em onze cidades, como Londres, Bruges e Genebra. Segundo, a sua rede foi descentralizada. As filiais eram geridas não por um empregado, mas por um sócio menor, que dividia os lucros. A família Medici, em Florença, consistia nos sócios principais, supervisionando a rede, ganhando a maior parte do lucro e mantendo a marca da família, que simbolizava a sólida reputação do banco. Terceiro, as filiais recebiam grandes depósitos de poupadores ricos, multiplicando o crédito que se poderia dar por uma quantia modesta de capital inicial, multiplicando os lucros do banco.
Economia bancária
Esses elementos da história de sucesso dos Medici correspondem a três conceitos econômicos bem relevantes para os bancos atuais. O primeiro é "economias de escala". É caro um indivíduo elaborar um só contrato de empréstimo jurídico, mas um banco pode redigir mil contratos por uma fração do custo "por contrato". Negociações em dinheiro (aplicações monetárias) são boas para economias de escala. O segundo é "diversificação do risco". Os Medici reduziram o risco de crédito ruim espalhando seus empréstimos geograficamente. Além disso, como os sócios menores dividiam lucros e perdas, eles deviam emprestar com sensatez — na verdade, assumiam alguns riscos dos Medici. O terceiro conceito é a "transformação de ativos". Um comerciante quer depositar ganhos ou pedir dinheiro emprestado. Outro quer um lugar seguro para guardar seu ouro, de onde ele possa retirá-lo rápido, se necessário. Outro ainda quer um empréstimo, o que é mais arriscado para o banco e pode imobilizar o dinheiro por longo tempo. Então o banco se pôs entre as duas necessidades: "tomar empréstimos no curto prazo, fazer empréstimos no longo". Isso atendia a todos — O depositante, o devedor e, claro, o banco, que usava os depósitos de clientes como dinheiro emprestado ("alavancagem") para multiplicar lucros e ter um alto retorno sobre o capital investido dos proprietários.
No entanto, essa prática também tornava o banco vulnerável - se um grande número de depositantes exige o dinheiro de volta ao mesmo tempo (em uma "corrida ao banco"), o banco talvez não seja capaz de fornecê-lo, porque terá usado o dinheiro dos depositantes para fazer empréstimos de longo prazo e mantém apenas uma fração da quantia dos depositantes em dinheiro vivo. Esse risco é calculado, e a vantagem do sistema é fazer a ligação entre poupadores e tomadores de empréstimo.
O financiamento do comércio internacional era um negócio de alto risco na Europa do século XIV. Envolvia tempo e distância e, por isso, sofria do que se chama de "problema fundamental da troca" — o perigo de que alguém fuja com a mercadoria ou o dinheiro depois de feito o acordo. Para resolvê-lo, criou-se a "letra de câmbio", papel que comprovava a promessa do comprador de pagar pelos bens em determinada moeda, quando chegassem. O vendedor das mercadorias também podia vender a letra imediatamente para arrecadar dinheiro. Os bancos mercantis italianos tornaram-se hábeis com as letras de câmbio, criando um mercado monetário internacional.
Ao comprar a letra de câmbio, o banco assumia o risco de o comprador das mercadorias não pagar. Portanto, era essencial para o banco saber quem tinha propensão para pagar e quem não a tinha. Os empréstimos — e as finanças em geral — requerem um conhecimento especial qualificado, pois a falta de informação (chamada "assimetria de informação") pode causar sérios problemas. Aqueles com menor probabilidade de pagar são os que têm maior probabilidade de pedir empréstimo — e, depois de o terem recebido, ficam tentados a não pagar. A função mais importante do banco é a sua capacidade de emprestar com sensatez e depois monitorar os tomadores para evitar o "risco moral" — sucumbir à tentação de não pagar o empréstimo.
Agrupamentos geográficos
Os bancos costumam ficar perto um do outro para maximizar a informação e a habilidade. Isso explica a criação de distritos financeiros nas grandes cidades. Os economistas chamam esse fenômeno de "externalidades de rede", que remete ao fato de que, quando um agrupamento começa a se formar, todos os bancos se beneficiam da rede de habilidade e informação aprofundadas. Florença formava um conglomerado. A City de Londres, com seus ourives e especialistas em transporte, tornou-se outro. No início dos anos 1800, a província nortista de Xanxim tornou-se importante centro financeiro da China. Hoje, a internet cria novas formas de agrupamento on-line.
A vantagem da especialização explica a existência de tantos tipos diferentes de bancos — poupança, imobiliários, de empréstimos para carros etc. A forma que o banco assume também pode enfrentar problemas de informação. As sociedades de fundos mútuos e os bancos cooperativos, por exemplo, que são propriedade efetiva de seus clientes, surgiram no século XIX para aumentar a confiança entre o banco e seus clientes, numa época de mudança social. Como os membros dessas instituições investigavam um ao outro e os administradores tinham bom conhecimento do público, elas podiam fornecer os empréstimos de longo prazo de que os clientes precisavam. Em alguns países, como a Alemanha, elas prosperaram. O banco holandês Rabobank é um exemplo do modelo cooperativo, bem como o Grameen Bank, na Índia, que faz muitos empréstimos de pequenas quantias, o "microcrédito".
Porém, o agrupamento também pode ocasionar uma concorrência arriscada e um comportamento de manada. É muito importante para os bancos a reputação, pois sua função é transformar ativos - eles convertem depósitos em empréstimos, e os seus ativos de empréstimo são mais arriscados, mais demorados e mais difíceis de ser transformados em dinheiro (menor "liquidez") do que seu passivo de depósitos.
Má notícia pode causar pânico. As falências de bancos talvez causem consequências indiretas para outros bancos e para o governo e a sociedade, como comprovou o Creditanstalt Bank da Áustria em 1931, que provocou uma corrida ao marco alemão, à libra britânica e depois ao dólar americano, provocando mais corrida aos bancos nos EUA e contribuindo para a Grande
Depressão. Por isso os bancos precisam ser regulados. A maioria dos países dispõe de regras rígidas sobre quem pode abrir um banco, a informação que ele deve divulgar e o âmbito de suas atividades comerciais.
Financiar bastante
Todas as finanças implicam interligar pessoas que têm mais dinheiro do que precisam a pessoas que precisam de mais dinheiro do que têm — e o usarão produtivamente. As bolsas de valores aliam essas necessidades através de ações (papéis que conferem a propriedade de uma empresa), obrigações (empréstimos que podem ser negociados) ou outros instrumentos. Elas são ou lugares concretos, tais como a Bolsa de Valores de Nova York, ou mercados regulamentados em que a negociação ocorre por meio de telefonemas e computadores, como o mercado internacional de títulos. O agrupamento criado pelas bolsas faz que esses investimentos de longo prazo tenham maior liquidez. A poupança também pode ser agrupada para reduzir os custos da transação e diversificar os riscos. Os fundos mútuos, os fundos de pensão e as companhias de seguros desempenham esse papel.
Na Europa do século XVI, os preços subiam sem explicação. Alguns diziam que os governantes estavam usando a velha prática de "desvalorizar" o dinheiro, cunhando moedas com teor cada vez menor de ouro ou prata. Era verdade. Porém, Jean Bodin, advogado francês, argumentou que algo mais importante acontecia.
Em 1568, ele publicou sua Réponse au paradoxe de monsieur de Malestroit. O economista francês Jean de Malestroit (?-1578) atribuíra a inflação de preços tão somente à desvalorização da moeda, mas Bodin demonstrou que os preços subiam acentuadamente se mensurados em prata pura. Ele afirmou que a abundância de prata e ouro era a culpada. Esses metais preciosos chegavam à Espanha de suas novas colônias nas Américas e depois se espalhavam pela Europa.
Os cálculos de Bodin sobre o aumento da cunhagem eram bastante precisos. Bem depois os economistas concluíram que os preços na Europa haviam quadruplicado no século XVI, ao mesmo tempo que triplicara a quantidade de prata e ouro em circulação no sistema — Bodin estimara o aumento de metais preciosos em mais de duas vezes e meia. Ele também destacou outros fatores da inflação: a procura de bens de luxos; a escassez de bens à venda devido a exportações e desperdício; a ganância de comerciantes ávidos por conter a oferta de bens usando monopólios; e, claro, os governantes adulterando as moedas.
A oferta de moeda
Bodin não foi o primeiro que ressaltou a nova influência do tesouro das Américas e o efeito da abundância ou escassez de moeda no nível dos preços. Em 1556, um teólogo espanhol, Martín de Azpilcueta (mais conhecido por Navarrus), chegara à mesma conclusão. Todavia, o ensaio de Bodin discorria também sobre a demanda e a oferta de moeda, o funcionamento desses dois lados da economia e como as perturbações na oferta de moeda originavam inflação. Esse estudo amplo é tido como a primeira tese importante sobre a teoria quantitativa da moeda.
O raciocínio por trás dessa teoria baseou-se em parte no senso comum. Por que o preço de um cafezinho numa parte rica da cidade é muito mais alto que numa parte pobre? A resposta é que os clientes na parte rica têm mais dinheiro para gastar. Se consideramos a população de um país inteiro e duplicamos o dinheiro que as pessoas têm, é natural que elas queiram usar seu poder aquisitivo maior para comprar mais produtos e serviços. Contudo, como bens e serviços sempre têm oferta limitada, haverá muito dinheiro para comprar produtos de menos, e os preços subirão.
Essa sequência de eventos mostra uma relação importante entre a quantidade de moeda na economia e o nível geral de preços. A teoria quantitativa da moeda diz que dobrar a oferta de moeda dobra o valor das transações (ou renda e gasto). Na forma mais extrema da teoria, a duplicação da moeda provoca a duplicação dos preços, mas não do valor real. A moeda tem um efeito neutro sobre o valor real, relativo, de bens e serviços — por exemplo, sobre o número de casacos que podem ser comprados pelo preço de um computador.
Preço real, preço nominal
Após Bodin, vários economistas desenvolveram a ideia dele. Reconheceram que existe uma diferença entre o lado real da economia e o nominal, monetário. Os preços nominais são apenas preços monetários, passíveis de mudar com a inflação. Por isso os economistas concentram-se nos preços reais — na quantidade de uma coisa (casaco, computador ou tempo gasto no trabalho) que se deve abandonar em troca de outro tipo de coisa, seja qual for o preço nominal. No lado extremo da teoria quantitativa, as mudanças na oferta de moeda podem influenciar os preços, mas não têm efeito algum nas variáveis econômicas reais, como produção e desemprego. Além do mais, os economistas notaram que a moeda é um "bem" que as pessoas desejam por causa do poder aquisitivo dela. Contudo, o dinheiro que elas querem não é o nominal, mas o "dinheiro real" — o dinheiro que compra dinheiro.
Equação de Fisher
O postulado completo da teoria quantitativa da moeda foi feito pelo economista americano Irving Fisher (1867-1947), que usou a fórmula matemática MV PT, em que "P" é o nível geral de preços e "T" são as transações realizadas em um ano, de modo que PT (preços x transações) é o valor total das transações anuais. "M" é a oferta de moeda. Mas, como PT é o fluxo total de bens, e M representa uma provisão de moeda que pode ser usada vezes seguidas, a equação precisa de algo que represente a circulação da moeda. Esse fluxo circular, que faz o dinheiro girar pela economia como o cesto giratório de uma máquina de lavar roupas — é "V", a velocidade da moeda.
Essa equação torna-se uma teoria quando fazemos suposições acerca das relações entre as letras, com o que os economistas procedem de três modos. Um, presume-se que V (a velocidade da moeda) seja constante, já que a maneira como usamos o dinheiro faz parte dos hábitos e não muda muito de um ano para o outro (nosso cesto da máquina de lavar gira em velocidade constante). Essa é a suposição crucial da teoria quantitativa da moeda. Dois, presume-se que T (a quantidade de transações na economia) seja motivado somente pela demanda dos consumidores e pela tecnologia dos produtores, que, juntas, determinam os preços. Três, deixamos que ocorra uma mudança excepcional em M (a oferta de moeda), como o fluxo do tesouro do Novo Mundo para a Europa. Com V (velocidade) e T (transações) fixos, a duplicação da moeda ocasiona uma duplicação dos preços.
Associada à diferença entre nominal e real, a teoria quantitativa da moeda implicou a ideia de que o efeito do dinheiro é neutro sobre a economia.
Contestação e reformulação
Mas o dinheiro é mesmo neutro? Poucos acreditam que seja em curto prazo. O efeito imediato de mais dinheiro no bolso é gastá-lo em bens e serviços reais. John Maynard Keynes (p. 161) disse que o dinheiro talvez fosse neutro em longo prazo, mas em curto prazo ele afetaria variáveis reais como produção e desemprego. Evidências também indicam que a velocidade da moeda (V) não é constante. Parece aumentar nas expansões, quando a inflação está alta, e cair nas recessões, quando a inflação está baixa.
Keynes teve outras ideias que contestaram a teoria quantitativa da moeda. Sugeriu que o dinheiro é usado não só como meio de troca, mas também como "reserva de valor" — algo que se pode guardar, seja para comprar bens, por segurança em tempos difíceis ou para investimentos futuros.
Os economistas keynesianos afirmam que esses motivos são menos afetados pela renda ou por transações (PT, na fórmula) do que pelas taxas de juro. Uma alta na taxa de juro provoca aumento na velocidade da moeda.
Em 1956, o economista americano Milton Friedman (p. 199) defendeu a teoria quantitativa da moeda, argumentando que a demanda de um indivíduo por equilíbrios monetários reais (quando o dinheiro compra mais) depende da riqueza. Ele afirmou que a renda das pessoas é que estimula essa demanda.
Hoje, os bancos centrais imprimem dinheiro eletronicamente e o usam para comprar a dívida do governo, num processo chamado flexibilização quantitativa. Seu objetivo é impedir a temida queda da oferta de moeda. Até agora, o efeito mais visível foi reduzir as taxas de juro na dívida do governo.
Nos últimos 50 anos, muitos economistas defenderam o livre comércio. Dizem que só sem restrições ao comércio (como as tarifas) os produtos e a moeda podem girar livremente pelo mundo e os mercados globais, crescer sem inibição. Alguns discordam, argumentando que, se há um desequilíbrio enorme no comércio entre dois países, isso pode prejudicar os empregos e a riqueza.
Visão mercantilista
O debate sobre o livre comércio remonta à era mercantilista, que se iniciou na Europa no século XVI e prosseguiu até o fim do século XVIII. Com a ascensão do comércio marítimo holandês e inglês, a riqueza passou a migrar do sul da Europa para o norte.
Ainda nessa época começaram a surgir os Estados, junto com a ideia da riqueza de uma nação, que se media pelo volume do "tesouro" (ouro e prata) que ela possuía. Os mercantilistas acreditavam que o mundo bebia de um "pote limitado", de modo que a riqueza de cada nação dependia de se garantir uma "balança comercial" favorável, na qual mais ouro entra no país do que sai. Se sai ouro em excesso, a prosperidade da nação diminui, caem os salários, perdem-se empregos. A Inglaterra tentou conter a saída de ouro com a imposição de leis suntuárias — de contenção do consumo de produtos estrangeiros. Por exemplo, foram aprovadas leis que restringiam os tecidos que podiam ser usados em roupas, reduzindo a demanda de algodão e seda importados.
Malynes e Mun
Gerard de Malynes (1586-1641), perito inglês em comércio exterior, pensava que a saída de ouro deveria ser restringida. Se muito ouro saísse, dizia ele, o valor da moeda inglesa cairia.
Contudo, o maior teórico mercantilista do século, o inglês Thomas Mun, insistiu que o importante não era os pagamentos serem feitos no exterior, mas como o comércio e os pagamentos equilibravam-se no final. Mun queria incentivar as exportações e cortar as importações por meio de um consumo mais frugal de produtos nacionais. Todavia, ele não via problema em gastar ouro no exterior se este fosse usado para adquirir bens que seriam exportados por preço mais alto, obtendo afinal um retorno maior de ouro do que aquele que o país gastara. Isso promoveria o comércio, propiciaria trabalho para o setor de transportes e aumentaria o tesouro da Inglaterra.
Acordos de livre comércio
No século XVIII, Adam Smith (p. 61) discordaria desse ponto de vista. O que importa, frisou ele em A riqueza das nações, não é a riqueza de cada nação, mas de todas as nações. E o pote também não é fixo; pode crescer com o tempo — mas apenas se o comércio entre as nações for irrestrito. Liberado, disse Smith, o mercado sempre crescerá para enriquecer todas as nações.
Durante os últimos 50 anos, a visão de Smith predominou, pois a maioria dos economistas ocidentais afirmou que as restrições ao comércio entre as nações entravam a economia de cada um. Hoje, zonas de livre comércio como a União Europeia (UE), a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) são a norma, enquanto órgãos mundiais como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) instam os países a reduzir tarifas e outras barreiras comerciais para permitir que empresas estrangeiras entrem nos mercados nacionais. Hoje, a criação de barreiras ao comércio é considerada protecionismo.
No entanto, certos economistas preocupam-se com a possibilidade de essa abertura a poderosas empresas multinacionais prejudicar os países em desenvolvimento, incapazes de nutrir setores novos com barreiras protecionistas, com fizeram a Grã-Bretanha, os EUA, O Japão e a Coreia do Sul antes de se tornarem economicamente poderosos. A China, nesse interim, segue uma política que reflete de várias maneiras o pensamento de Mun, realizando grandes superávits comerciais e acumulando uma enorme reserva de moeda estrangeira.
Hoje nem ligamos para o fato de que a economia pode ser mensurada e suas expansões e contrações, quantificadas com precisão. Mas nem sempre foi assim. A ideia de medir a economia remonta aos anos 1670 e à obra pioneira do cientista inglês William Petty. Sua descoberta foi aplicar os novos métodos empíricos das ciências às questões financeiras e políticas usar dados reais, sem depender do raciocínio lógico. Ele resolveu se expressar somente "em números, peso ou medida". Esse enfoque ajudou a formar a base da disciplina que se chamaria economia.
Em seu livro Political Arithmetick, de 1690, Petty usou dados reais para mostrar que, ao contrário da crença popular, a Inglaterra estava mais rica do que nunca. Uma de suas decisões inovadoras foi incluir o valor do trabalho, bem como da terra e do capital. Embora os números de Petty sejam polêmicos, não há dúvida quanto à eficácia de sua ideia básica. Seus cálculos incluíram o tamanho da população, despesas pessoais, salários individuais, valor dos aluguéis e outros. Ele então multiplicou esses números para obter o total da riqueza da nação, criando contas para qualquer país.
Métodos semelhantes foram criados na França por Pierre de Boisguilbert (p. 334) e Sébastien le Prestre (1633-1707). Na Inglaterra, Gregory King (1648-1712) analisou a economia e a população da Inglaterra, da Holanda e da França. Calculou que esses países não tinham recursos para continuar a guerra em que estavam envolvidos — a Guerra dos Nove Anos — além de 1698. Seus cálculos pareciam corretos, uma vez que a guerra acabou em 1697.
Medidas do progresso
A estatística passou a fazer parte do coração da economia. Hoje os economistas costumam medir o produto interno bruto (PIB) - valor total dos bens e serviços trocados por dinheiro num país em determinado período (em geral um ano). Contudo, ainda não existe um cálculo definitivo das contas nacionais, embora se tenha tentado padronizar os métodos.
Os economistas já começaram a ampliar a mensuração da prosperidade. Formularam novas unidades de medida, como o indicador genuíno de progresso (IGP), que conta com ajustes da distribuição de renda, criminalidade, poluição, e o índice do planeta feliz (IPF), que mede o bem-estar humano e o impacto ambiental.
Os navios mercantes sempre levantaram fundos para viagens prometendo uma parte do lucro. Nos anos 1500, as recompensas podiam ser enormes, mas esses negócios de alto risco imobilizavam o dinheiro por anos antes de se obter lucro. A solução foi dividir o risco, e surgiram as empresas de capital aberto, em que os investidores injetavam dinheiro numa empresa para ser cotitulares de seu estoque comercial e ter direito a uma porção proporcional dos lucros.
Companhia das Índias Orientais
Uma das primeiras empresas de capital aberto foi a Companhia das Índias Orientais (cio), formada em 1599, para executar o comércio entre a Grã-Bretanha e as Índias Orientais. Seus direitos de livre comércio foram tão defendidos pelo "pai dos mercantilistas", o comerciante londrino Josiah Child, que isso se tornou um fenômeno mundial. Na época da morte dele, a companhia tinha cerca de 3 mil acionistas, que subscreviam ações de mais de £3 milhões, e tomava £6 milhões de empréstimo em títulos. Suas vendas anuais atingiram £2 milhões.
A ideia de uma empresa aberta limitada em que os acionistas são responsabilizados apenas por seus investimentos, veio das empresas de capital aberto. A venda de ações é importante para levantar dinheiro. Diz-se que o poder de vendê-las provoca afobação, mas a empresa de capital aberto continua no coração do capitalismo.
Nos últimos anos, os banqueiros têm sido às vezes classificados de parasitas, ao negociar com a riqueza criada pelo trabalho dos outros. François Quesnay (p. 45), filho de agricultor francês e uma das grandes mentes do século XVIII, devia reconhecer essa definição.
Quesnay afirmava que a riqueza está não no ouro e na prata, mas na produção - aquilo que o agricultor ou o fabricante fazem. Argumentava que a agricultura é tão valiosa por atuar com a natureza - que multiplica o esforço e os recursos do agricultor - para produzir um excedente líquido. A manufatura, por outro lado, é "estéril", porque o valor do seu produto é igual ao valor do seu insumo. Todavia, teóricos mostraram depois que a fabricação também pode gerar um excedente.
A ordem natural
A defesa de Quesnay do valor da agricultura influenciou a criação da escola francesa de pensadores fisiocratas, que acreditavam na primazia da "ordem natural" na economia. Muitos economistas, como Theodore Schultz, disseram que o desenvolvimento agrícola é o alicerce do progresso nos países pobres. Em 2008, o Banco Mundial anunciou que o crescimento do setor agrícola contribuía para a redução da pobreza mais que qualquer outro setor. Hoje os economistas também admitem que a diversificação na indústria e nos serviços, finanças inclusive, é vital para um crescimento de longo prazo.
Em economia, pode-se pensar pequeno — microeconomia — ou pensar grande, no sistema inteiro: este é o estudo da macroeconomia. Na França do século XVIII, um grupo chamado de fisiocratas tentou pensar grande — queriam entender e explicar toda a economia como um sistema. Suas ideias são os fundamentos da macroeconomia moderna.
Os fisiocratas
Fisiocracia é uma antiga palavra grega que significa "poder sobre a natureza". Para os fisiocratas, as nações tiravam riqueza da natureza, por meio do setor agrícola. O líder, François Quesnay, era cirurgião e médico da amante do rei Luís XV, madame de Pompadour. Seu modelo complexo da economia espelhava, segundo alguns, a circulação do sangue no corpo humano.
O enfoque mercantilista (pp. 34-35) dominava o pensamento econômico na época. Os mercantilistas achavam que o Estado deveria se comportar como um comerciante, ampliando os negócios, comprando ouro e interferindo na economia com impostos, subsídios e privilégios monopolistas. Os fisiocratas adotaram a visão contrária: afirmavam que a economia regulava-se naturalmente e precisava apenas de proteção contra más influências. Eles defendiam o livre comércio, impostos baixos, direitos de propriedade garantidos e dívida pública baixa. Se os mercantilistas diziam que a riqueza vinha do entesouramento, Quesnay e seus seguidores achavam que provinha do que os economistas modernos chamam de economia "real" — os setores que criam bens e serviços reais. Para eles, a agricultura era o mais produtivo dos setores.
Os fisiocratas foram influenciados pelo pensamento de um antigo proprietário rural francês, Pierre de Boisguilbert. Ele dissera que a agricultura é superior à manufatura, e os bens de consumo valem mais do que ouro. Quanto mais bens consumidos, mais dinheiro circula no sistema, tornando o consumo a força motriz da economia. Ele afirmou também que pouco dinheiro nas mãos dos pobres (que o gastam) vale muito mais para a economia do que nas mãos dos ricos (que o acumulam). O movimento, a circulação do dinheiro é que importa.
O Quadro econômico
O sistema fisiocrático de circulação foi apresentado no Quadro econômico de Quesnay, publicado e revisado várias vezes de 1758 a 1767. Trata-se de um diagrama que ilustra, com uma série de linhas cruzadas e ligadas, o fluxo de dinheiro e bens entre três grupos sociais: proprietários de terras, agricultores e artesãos. Os bens são produtos agrícolas e manufaturados (produzidos por agricultores e artesãos). Embora tenha usado o milho como exemplo de produto agrícola, Quesnay disse que essa categoria poderia incluir qualquer coisa produzida na terra, inclusive minérios.
Entende-se melhor o modelo de Quesnay com um exemplo. Imagine que cada um dos três grupos comece com $2 milhões. Os proprietários de terra não produzem nada. Gastam seus $2 milhões igualmente com produtos agrícolas e artesanais e os consomem todos. Recebem $2 milhões de aluguel dos agricultores que estes podem pagar, visto que são o único grupo que produz um excedente, de modo que os proprietários voltam para onde começaram. Os agricultores são o grupo produtivo. De um ponto inicial de $2 milhões, eles produzem produtos agrícolas no valor de $5 milhões, acima do que eles próprios consomem. Desses, $1 milhão é vendido aos proprietários para seu consumo. Eles vendem $2 milhões aos artesãos, metade para consumo e metade como matéria-prima para os bens que os artesãos produzem Isso lhes deixa $2 milhões para ser usados no cultivo no ano seguinte. Quanto à produção, eles voltaram ao ponto inicial. Todavia, eles também têm $3 milhões das vendas, dos quais gastam $2 milhões em aluguel e $1 milhão nos produtos artesanais (ferramentas, implementos agrícolas etc.).
Quesnay chamava de "estéril" qualquer grupo, exceto o dos agricultores e o dos proprietários de terras, por crer que não podiam produzir um excedente líquido. Os artesãos, nesse caso, usam sua quantia inicial de $2 milhões para produzir bens manufaturados no valor de $2 milhões, além do que eles consomem. Esses produtos são vendidos igualmente a proprietários e agricultores. Mas eles gastam toda a sua renda em produtos agrícolas: $1 milhão para o seu consumo e $1 milhão em matérias-primas. Consumiram tudo que têm.
O modelo de Quesnay faz mais que apresentar resultados anuais: mostra também como o dinheiro e os bens circulam ao longo do ano e comprova por que isso é importante. A venda de produtos entre os vários grupos continua para gerar receita, que é então usada para comprar mais produtos, que geram ainda mais receita. Ocorre um "efeito multiplicador" (no esquema de Quesnay ele aparece como uma série de linhas em ziguezague), parecido com o apresentado por John Maynard Keynes (p. 161) nos anos 1930, quando ele ressaltou os benéficos efeitos secundários dos gastos públicos numa economia em depressão.
Análise da economia
Os tipos de pergunta que Quesnay fez e o modo como ele se dispôs a respondê-las anteciparam a ciência econômica moderna. Ele foi um dos primeiros que tentaram descobrir as leis abstratas gerais que governam as economias, o que ele fez decompondo-as em suas partes constituintes e depois analisando rigorosamente as relações entre elas. Seu modelo contava com entradas, saídas e as interdependências de diferentes setores. Quesnay sugeriu que estes deveriam coexistir em estado de equilíbrio, ideia desenvolvida mais tarde por Léon Walras (p. 120), tornando-se um dos alicerces da teorização econômica.
A abordagem de Quesnay para quantificar as leis econômicas fez de seu Quadro econômico talvez o primeiro modelo macroeconômico empírico. Os números de seu quadro resultaram de um estudo cuidadoso do sistema econômico francês, dando-lhe uma sólida base empírica. Esse estudo indicou que a tecnologia agrícola era suficiente para que os agricultores gerassem um excedente líquido de pelo menos 100%. Em nosso exemplo, foi isso que eles obtiveram — partindo de $2 milhões em milho, eles os recebem de volta com um excedente líquido de $2 milhões, que é então pago em aluguéis. Os economistas modernos usam resultados empíricos desse tipo para refletir sobre o impacto das mudanças de orientação, e Quesnay usou o seu quadro com propósito parecido. Ele argumentou que, se os agricultores tivessem de pagar altos impostos, diretos ou indiretos, eles reduziriam seu investimento de capital na tecnologia agrícola e a produção cairia abaixo do nível necessário para a economia prosperar. Isso levou os fisiocratas a afirmar que deveria haver apenas um imposto: sobre o valor do aluguel da terra.
Com base em descobertas empíricas, Quesnay fez uma série de outras recomendações políticas, como investir na agricultura, gastar toda a receita, não entesourar, manter impostos baixos e adotar o livre comércio. Ele achava que o capital tivesse uma importância especial, porque seus agricultores-empreendedores precisavam tomar empréstimos baratos a fim de pagar os melhoramentos agrícolas.
Ideias clássicas
As ideias de Quesnay sobre a produtividade e a improdutividade dos setores reapareceram ao longo da história do pensamento econômico, conforme os economistas consideram indústria versus serviços e setor privado versus governo. Seu enfoque exclusivo na agricultura pode parecer tacanho aos olhos atuais, já que hoje se entende que a geração de riqueza pela indústria e pelos serviços é vital para o crescimento da economia. Todavia, sua ênfase no lado "real" da economia foi um passo importante na direção do moderno pensamento econômico. Ele sem dúvida previu a moderna contabilidade da renda nacional, usada para avaliar o desempenho macroeconômico das nações. Essa contabilidade de renda baseia-se no fluxo circular de renda e gasto na economia. O valor do produto total de uma economia é igual à renda total auferida - noção que foi uma parte importante da teoria de Quesnay. No século XX, boa parte da análise das macroeconomias girou em torno do multiplicador keynesiano (pp. 164-65). Keynes mostrou como os gastos públicos podiam estimular novas despesas, num "efeito multiplicador". Essa ideia tem uma ligação óbvia com o ciclo de Quesnay, com sua suscetibilidade à expansão e estagnação.
Talvez mais importante, os conceitos de excedente e capital de Quesnay tornaram-se a chave do modo como os economistas clássicos analisavam o crescimento econômico. Um modelo clássico típico centra-se em três fatores de produção: terra, trabalho e capital. Os proprietários recebem aluguéis e esbanjam em luxos; os trabalhadores aceitam salários baixos e, se estes sobem, eles fazem mais filhos. Contudo, os empreendedores têm lucro e o reinvestem na indústria produtivamente. Assim, o lucro incentiva o crescimento, e o desempenho econômico depende de setores da economia que geram excedentes. Portanto, Quesnay antecipou as ideias sobre o crescimento das economias e inspirou Karl Marx (p. 105), que apresentou sua versão do Quadro econômico em 1885. Marx disse de Quesnay que "nunca antes o raciocínio da economia política atingiu tal auge de genialidade".
Até numa economia de mercado que funcione bem, há áreas em que os mercados falham. Um exemplo importante de falha de mercado é o fornecimento de bens públicos — bens que são gratuitos para todos ou podem ser usados mesmo por quem não paga por eles. É difícil uma empresa privada ou uma pessoa ter lucro ao fornecer esses bens, entre os quais está a defesa nacional. Esse problema, chamado "carona" (em que os consumidores aproveitam os produtos sem pagar por eles), implica a inexistência do incentivo do lucro. Todavia, existe uma demanda por esses bens, e, já que os mercados privados não conseguem satisfazê-la, os bens públicos são em geral fornecidos pelo governo e pagos com impostos.
A falha do mercado no fornecimento desses bens foi reconhecida pelo filósofo David Hume no século XVIII. Influenciado por Hume, Adam Smith (p. 61), ardente defensor do livre mercado, admitiu que cabia ao governo fornecer os bens públicos, cuja produção não seria lucrativa para indivíduos ou empresas.
Os bens públicos têm dois traços característicos que os fazem não ser fornecidos pelo mercado: a não exclusividade, pois é difícil impedir as pessoas que não pagam por eles de usá-los; e a não rivalidade, pois o seu consumo por uma pessoa não reduz a capacidade das outras de consumi-lo. Um exemplo clássico é a iluminação pública: seria quase impossível impedir os não pagadores de aproveitá-la, e o uso que um indivíduo faça dela não impede que os outros se beneficiem dela.
Com o desenvolvimento das economias industriais no século XIX, os países tiveram de superar o problema da carona em áreas como a propriedade intelectual. Os bens intangíveis, como o conhecimento e as descobertas, têm as características da não exclusividade e da não rivalidade e, portanto, correm o risco de não ser fornecidos pelo mercado. Isso poderia desestimular a criação de novas tecnologias, se não fossem protegidas de algum modo. Assim, os países fizeram leis para conceder patentes, direitos reservados e marcas registradas, protegendo os ganhos obtidos com conhecimento e invenções. A maioria dos economistas reconhece que o governo tem a responsabilidade de fornecer os bens públicos, mas prossegue o debate sobre o alcance dessa responsabilidade.
A maioria dos modelos econômicos sustenta-se na presunção de que as pessoas são em essência seres racionais e egoístas. Esse é o Homo economicus, o "homem econômico". A ideia, igualmente aplicável a homens e mulheres, supõe que todo indivíduo tome decisões para maximizar seu bem-estar, baseado numa avaliação ponderada de todos os fatos. Opta por aquilo que lhe oferece maior utilidade (satisfação) com o menor esforço. Essa ideia foi exposta primeiro por Adam Smith (p. 61) em sua obra A riqueza das nações (1776).
A crença central de Smith era que a interação econômica humana é ditada sobretudo pelo interesse pessoal. Ele afirmou que "não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que devemos esperar nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse". Ao tomar decisões racionais, os fornecedores procuram maximizar seu lucro, e o fato de que isso nos proporciona nosso jantar pouco importa para eles.
As ideias de Smith foram desenvolvidas no século XIX pelo filósofo britânico John Stuart Mill (p. 95). Mill acreditava que as pessoas desejassem ter riqueza, com o que ele não queria dizer apenas dinheiro, mas uma riqueza de tudo que é bom. Para ele, os indivíduos se motivavam com o desejo de conquistar o melhor bem-estar possível, gastando ao mesmo tempo o mínimo esforço possível para atingir essas metas.
Custo e benefício
Hoje, a ideia do Homo economicus é chamada de teoria da escolha racional. Diz que as pessoas tomam todo tipo de decisão econômica e social com base no custo e no benefício. Por exemplo, o pensamento criminoso de roubar um banco compara os benefícios (riqueza maior, respeito maior de outros criminosos) com os custos (as chances de ser preso e o esforço para planejar o ataque), antes de decidir cometer o crime ou não.
Os economistas consideram racionais as ações realizadas em razão de um cálculo ponderado do custo e do benefício da realização do objetivo. Talvez os economistas tenham pouco para dizer a respeito do objetivo em si, e para muita gente algumas metas até parecem bastante irracionais. Por exemplo, se para a maioria das pessoas é aparentemente perigosa a decisão de injetar no próprio corpo drogas para aumentar o desempenho que não foram testadas, para diversos atletas que desejam ser os melhores a decisão pode ser racional.
Já se questionou se a ideia do Homo economicus é realista. Argumenta-se que ela não leva em conta o fato de que não se consegue avaliar todos os fatores relevantes numa decisão — o mundo é complexo demais para cotejar e avaliar todos os fatos relevantes necessários para calcular os custos e os benefícios de cada ação. Na realidade, quase sempre decidimos rápido, com base na experiência, no hábito, em regras práticas.
A teoria também fraqueja quando as metas de longo e curto prazo são conflitantes. Por exemplo, alguém pode comprar um hambúrguer nada saudável para matar a fome, apesar de saber que a escolha não é acertada. Os economistas comportamentais começaram a estudar os momentos em que as pessoas agem diferente do Homo economicus ao fazer escolhas. A ideia do "homem econômico" pode não ser precisa, mas muitos economistas dizem que ela continua sendo útil para analisar os atos das empresas mais lucrativas.
Para o pensador escocês Adam Smith, o Ocidente embarcara numa grande revolução antes do século XVIII, quando as sociedades agrárias ou agrícolas tornaram-se comerciais. Durante a Idade Média, as cidades se desenvolveram e aos poucos foram ligadas por estradas. As pessoas levavam mercadorias e produtos agrícolas frescos para as cidades, e os mercados — com sua compra e venda — tornaram-se parte da vida. A inovação científica criou padrões de medida confiáveis, junto com novos jeitos de fazer as coisas, e da mistura de principados que pontilhavam a Europa formaram-se Estados centralizados. O povo usufruía uma nova liberdade e passava a trocar bens para ganho pessoal, não só para o do seu senhor.
Smith quis saber como as ações de indivíduos livres resultavam em um mercado ordenado e estável, em que se pudesse fazer, comprar e vender o que se quisesse, sem enorme desperdício nem carência. Como era possível sem alguma mão condutora? Ele deu a resposta em sua grande obra de 1776, A riqueza das nações. O homem, com sua liberdade, rivalidade e desejo de ganhar, é "guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção" — ele age de modo involuntário em nome do interesse maior da sociedade.
Economia laissez-faire
A ideia de "ordem espontânea" não era nova. Foi proposta em 1714 pelo escritor holandês Bernard de Mandeville, em seu poema A fábula das abelhas. Contava a história de uma colmeia que prosperava com os "vícios" (o comportamento egoísta) das abelhas. Quando estas se tornaram virtuosas (não agiam mais em interesse próprio, mas pelo bem de todas), a colmeia desandou. A noção de Smith de interesse pessoal não era maldosa. Ele viu nos homens uma tendência para a "barganha e o escambo" e de se superar. A seu ver, as pessoas eram criaturas sociais que agiam com controle moral e usavam de lisura ao concorrer.
Smith achava que os governos não deviam interferir no comércio, visão compartilhada com outros pensadores escoceses à sua volta, como o filósofo David Hume (p. 47). Um escritor francês mais antigo, Pierre de Boisguilbert, usou a frase laisse faire la nature ("deixe a natureza em paz"), com o que ele quis dizer "deixe os negócios em paz". O termo "laissez-faire" é usado em economia em defesa do governo mínimo. Na opinião de Smith, o governo tinha um papel importante, dando a defesa, a justiça e certos "bens públicos" (pp. 46-47) que os mercados privados dificilmente forneceriam, como estradas.
A visão de Smith era otimista em essência. O filósofo inglês Thomas Hobbes já dissera que, sem autoridade forte, a vida humana seria "detestável, brutal e curta". O economista britânico Thomas Malthus (p. 69) analisara o mercado e previra a fome em massa em razão do aumento da riqueza. Depois de Smith, Karl Marx (p. 105) preveria que o mercado leva à revolução. Smith, porém, considerava a sociedade perfeitamente funcional, e toda a economia como um sistema de sucesso, uma máquina imaginária que funcionava. Ele mencionou a "mão invisível" apenas uma vez em sua obra de cinco volumes, mas a presença dela é sentida quase sempre. Smith descreveu como seu sistema de liberdade perfeita" teria resultados positivos. Primeiro, fornece os bens que o povo quer. Se a demanda de um produto superar a oferta, os consumidores vão competir entre si para oferecer preço mais alto. Isso cria uma oportunidade de lucro para os produtores, que competem entre si para fornecer mais do produto.
Esse argumento tem resistido ao tempo. Em um ensaio de 1945 intitulado O uso do conhecimento na sociedade, o economista austríaco Friedrich Hayek (p. 177) mostrou que os preços respondem ao conhecimento e aos desejos específicos dos indivíduos, causando mudanças na quantidade demandada e fornecida ao mercado. Um planejador estatal, disse Hayek, não teria como reunir tanta informação dispersa. Existe o consenso de que o comunismo desmoronou na Europa Oriental porque o planejamento central não conseguiu entregar os bens que o povo queria. Foram feitas algumas críticas ao primeiro ponto de Smith, como o fato de que o mercado poderia apenas fornecer os bens desejados pelos ricos; ele ignora os desejos dos pobres. E também atende a desejos nocivos — o mercado pode alimentar o vício de drogas e promover a obesidade.
Preços justos
Segundo, Smith disse que o sistema de mercado gera preços "justos". Ele acreditava que todos os bens têm um preço natural, que reflete apenas o esforço para fazê-los. A terra usada para produzir um produto deveria ganhar sua renda natural. O capital utilizado na sua fabricação deveria auferir seu lucro natural. A mão de obra usada deveria ganhar seu salário natural. Os preços e margens de lucro do mercado podem diferir de seus níveis naturais em certos períodos, como na escassez. Nesse caso, as oportunidades de ganho surgirão e os preços aumentarão, mas só até a concorrência trazer novas empresas ao mercado e os preços caírem ao seu nível natural. Se a demanda numa indústria começa a sofrer queda, preços e salários cairão, mas, com o aparecimento de outra indústria, esta oferecerá salários mais altos para atrair trabalhadores. No longo prazo, diz Smith, os preços de "mercado" e os "naturais" serão os mesmos — os economistas modernos chamam a isso equilíbrio.
A concorrência é essencial para que os preços sejam justos. Smith atacou os monopólios que ocorrem no âmbito do sistema mercantilista, que exigiu dos governos o controle do comércio exterior. Quando há apenas um fornecedor de um bem, a empresa que o fornece pode segurar o preço permanentemente acima do nível natural. Smith disse que, se 20 mercearias vendem um produto, o mercado está mais competitivo do que se há só duas. Com uma concorrência real e poucas barreiras à entrada em um mercado — o que Smith também disse ser essencial —, os preços tendem a ser menores. Muito disso é a base dos pontos de vista dos economistas da linha majoritária sobre concorrência, ainda que os discordantes, como o economista austro-americano Joseph Schumpeter (p. 149), dissessem depois que a inovação também baixa os preços, mesmo onde haja pouca concorrência. Quando os inventores surgem com produtos de maior qualidade por preços mais baixos, eles destroem as empresas existentes numa tempestade de destruição criativa.
Rendimentos justos
Smith também afirmou que as economias de mercado geram rendimentos justos que podem ser gastos em bens, num "fluxo circular" sustentável, em que o dinheiro pago em salários volta para a economia quando o trabalhador paga pelos bens e será devolvido em salários, repetindo o processo. O capital investido em instalações de produção ajuda a aumentar a produtividade da mão de obra, o que implica os empregadores poderem arcar com salários mais altos. E, se puderem pagar mais, eles pagarão, porque têm de competir entre si pelos trabalhadores.
Quanto ao capital, Smith disse que o volume de lucro com que o capital pode esperar ganhar com investimentos é quase igual à taxa de juro. Isso porque os empregadores concorrem para pedir recursos emprestados e investi-los em oportunidades lucrativas. Com o tempo, a taxa de lucro em qualquer área cai, pois o capital se acumula, e as oportunidades de lucro se esgotam. Os aluguéis aumentam aos poucos à medida que as rendas sobem e mais terra é usada.
A concepção de Smith da interdependência entre terra, mão de obra e capital foi um avanço real. Ele observou que os trabalhadores e os proprietários tendiam a consumir sua renda, e os empregadores eram mais econômicos, investindo sua poupança no estoque de capital. Ele percebeu que os salários variavam conforme os graus de "habilidade, destreza e discernimento" e que havia duas formas de mão de obra: produtiva (engajada na agricultura ou na manufatura) e o que ele chamou de "improdutiva" (prestando serviços necessários para apoiar a mão de obra principal). Os resultados muito desiguais do sistema de mercado atual ficam a dever ao que Smith previu.
Crescimento econômico
Smith afirmou que a própria mão invisível estimula o crescimento econômico. A fonte de crescimento tem dois lados. Um é a eficiência obtida pela divisão do trabalho (pp. 66-67), a que os economistas chamam "crescimento smithiano". Como se produzem e consomem mais bens, a economia e os mercados crescem. Com a expansão dos mercados vêm oportunidades para a especialização do trabalho.
A segunda força de crescimento é a acumulação de capital, movida pela poupança e pela oportunidade de lucro. Smith disse que o crescimento pode ser reduzido por fracassos comerciais, falta de recursos necessários para estabilizar o estoque de capital, um sistema monetário inadequado (há mais crescimento com papel-moeda do que com ouro) e uma proporção alta de trabalhadores improdutivos. Ele alegou que o capital é mais produtivo na agricultura do que na indústria, que é mais alto que no comércio ou no transporte. Em última análise, a economia vai crescer até atingir um estado rico, estacionário. Smith subestimou aí o papel da tecnologia e da inovação — o crescimento schumpeteriano citado antes (p. 58).
Legado clássico
O sistema de Smith era abrangente. Considerou fatores pequenos (microeconômicos) e grandes (macroeconômicos). Examinou situações de curto e de longo prazo, e sua análise foi estática (o estado do comércio) e dinâmica (a economia em movimento). Olhou detidamente para a classe de trabalhadores, distinguindo empreendedores, como agricultores e donos de fábrica, dos fornecedores de mão de obra. Em essência, ele criou os parâmetros da economia "clássica", que enfoca os fatores de produção capital, mão de obra e e seus rendimentos. Depois, a teoria do livre mercado assumiu outra forma, "neoclássica", com a teoria geral do equilíbrio, que terra procurou mostrar como os preços de uma economia inteira atingiriam um estado de equilíbrio estável. Usando a matemática, economistas como Léon Walras (p. 120) e Vilfredo Pareto (p. 131) reviram a frase de Smith de que a mão invisível seria socialmente benéfica. Kenneth Arrow e Gérard Debreu (pp. 209-11) mostraram como os mercados livres fazem isso, mas que as condições exigidas eram rigorosas e não condiziam com a realidade.
A história não acaba aí. Depois da Segunda Guerra Mundial, a ideia de laissez-faire entrou em hibernação. Todavia, a partir dos anos 1970, as políticas keynesianas, que propunham a intervenção estatal nas economias, pareciam perder a eficácia, e o laissez-faire gozou de um grande ressurgimento. As sementes desse florescimento encontram-se em obras sobre a economia de mercado de Milton Friedman (p. 199) e da Escola Austríaca, sobretudo de Friedrich Hayek (p. 177), que eram céticos a respeito do bem que os governos intervencionistas podiam fazer e afirmaram que o progresso social seria alcançado com mercados sem restrições. Também os keynesianos reconheceram o poder dos mercados — mas, para eles, os mercados precisavam de um empurrão para funcionar melhor.
O enfoque do livre mercado teve impulso significativo com as teorias da década de 1960 e 70 fundadas no papel da racionalidade e das expectativas racionais (pp. 244-47). A teoria da escolha pública, por exemplo, retrata o governo como um grupo de indivíduos egoístas, que maximizam os próprios interesses e pegam dinheiro sem levar em conta o bem social ("receita de favorecimento político"). A nova macroeconomia clássica usa a hipótese de Smith de que os mercados sempre se ajeitam e adiciona o ponto de que, como as pessoas notam os efeitos futuros das ações do governo e entendem o mecanismo do sistema econômico, a intervenção do Estado não funciona. Mesmo assim, a maioria dos economistas acredita hoje que o mercado pode falhar. Eles se concentram nas disparidades de informação dos vários participantes de um mercado. George Akerlof referiu-se a isso em seu The market for lemons (pp. 274-75). Economistas comportamentais têm questionado a ideia de racionalidade (pp. 266-69) e consideram a irracionalidade do ser humano uma razão para que os mercados falhem.
A questão da economia do laissez-faire divide os economistas em linhas políticas. Os que estão à direita abraçam o laissez-faire; os da esquerda alinham-se com a intervenção keynesiana. Esse debate permanece central na economia de hoje.
A crise financeira de 2007-08 reacendeu essa controvérsia. Os defensores do mercado livre sentiram-se vingados por suas teorias sobre o ciclo econômico, enquanto os keynesianos apontaram para a falha do mercado. O economista americano Nouriel Roubini (1959-), que previu a crise, falava daqueles que haviam distorcido as ideias de Smith quando disse que "décadas do fundamentalismo do mercado livre lançaram as bases da derrocada”.
O francês Anne-Robert-Jacques Turgot (p. 65) era um dentre um pequeno grupo de pensadores conhecidos por fisiocratas, que acreditavam que a riqueza nacional vinha da agricultura. O duplo interesse de Turgot na tributação e na produção da terra levou-o a elaborar a teoria que explica como a produção de cada trabalhador extra muda conforme mais trabalhadores são adicionados ao processo produtivo. Um colega fisiocrata, Guerneau de Saint-Péravy, sugeriu que para cada trabalhador a mais o montante de produção adicional é constante; em outras palavras, cada trabalhador a mais acrescenta a mesma produção que o anterior. Porém, em 1767, Turgot ressaltou que um solo sem preparo produz muito pouco quando semeado. Se o solo é arado uma vez, a produção aumenta; duas vezes, ela pode quadruplicar. No final, o trabalho a mais passa a acrescer cada vez menos à produção, porque se exaure a fertilidade do solo.
A função da tecnologia
A ideia de Turgot é que adicionar um fator variável (trabalhadores) a um fator fixo (terra) faz o último trabalhador adicionar menos à produção do que o primeiro. Conhecido como "rendimentos marginais decrescentes", este é um dos mais importantes pilares da teoria econômica moderna. Explica não só por que custa mais produzir mais, mas também por que os países lutam para ficar ricos se a população cresce sem melhorias tecnológicas.
Em 1769, Anne-Robert-Jacques Turgot (p. 65) observou que, apesar de necessária, a água não é tida como algo precioso num país com muita água. Sete anos depois, Adam Smith (p. 61) levou adiante essa ideia, notando que, embora nada seja mais útil que a água, quase nada pode ser trocado por ela. Ainda que um diamante tenha um valor bem pequeno quanto ao uso, "uma quantidade muito grande de outros bens costuma ser trocada por ele". Em outras palavras, existe uma contradição aparente entre os preços de certos produtos e sua importância para as pessoas.
Utilidade marginal
Pode-se explicar esse paradoxo com um conceito chamado de utilidade marginal: a quantidade de prazer ganho com a última unidade do produto consumida. Em 1889, o economista austríaco Eugen von Böhm-Bawerk explicou-o com o exemplo de um agricultor com cinco sacos de trigo. O uso que o lavrador faz do trigo vai de importante — alimentar-se — a trivial — alimentar os pássaros. Se ele perde um saco de trigo, deixará de alimentar os pássaros. Mesmo que o agricultor precise do trigo para se alimentar, ele se disporá a pagar pouco pelo saco de trigo, porque este gera só um pouco de satisfação (alimentar os pássaros).
A água é abundante, mas os diamantes são raros. Um diamante a mais tem grande utilidade marginal e impõe um preço mais alto que um copo a mais de água.
Quem suporta a carga tributária? A questão crucial da "incidência do imposto" intrigou o talentoso economista Anne-Robert-Jacques Turgot, ministro das Finanças da França de 1774 a 1776. A questão não é tão simples quanto "quem deve pagar imposto", porque os impostos afetam muita coisa, de preços e lucros à quantidade de produtos consumidos e às rendas recebidas. Mudanças nesse sentido podem repercutir na economia de modo surpreendente. A "carga" de um imposto — assumida como aquilo que diminui a felicidade, o bem-estar ou o dinheiro — pode ser passada de um indivíduo ou grupo a outro. Se você planeja tirar férias e um novo imposto sobre combustíveis eleva a passagem aérea acima do que você pode pagar, o imposto causa descontentamento. O novo imposto sobre combustíveis reduz seu bem-estar, mas não necessariamente o lucro da companhia aérea.
Quem deve pagar imposto?
Turgot disse que os impostos influem no mercado livre e devem ser simplificados. Grupos poderosos não deveriam ter isenção tributária, e os detalhes de sua aplicação são importantes. Sua recomendação era de um imposto único sobre o produto nacional líquido — o total de bens e serviços menos a depreciação.
Seu pensamento foi influenciado pela fisiocracia, doutrina econômica anterior, que postulava que só a agricultura (terra) produz excedente. Outros setores não dão superávit e não podem arcar com impostos — sempre tentam passá-los adiante, aumentando preços e taxas até que enfim atinjam os proprietários de terra. Como os agricultores pagam muito do seu excedente em aluguel aos proprietários, que nada produzem, Turgot argumentou que os proprietários deveriam ser tributados sobre o aluguel recebido.
Depois os economistas refinaram os princípios de justiça e eficiência de um sistema tributário ideal. Justiça abarca a ideia de que os mais capazes de pagar devem pagar mais; que pessoas semelhantes devem pagar impostos semelhantes; e que quem se beneficia dos gastos públicos — como ao usar uma ponte nova — deve contribuir. Eficiência significa tanto a eficácia na coleta quanto a maximização do bem-estar social, aumentando ao mesmo tempo a receita necessária. Os economistas dizem que eficiência significa perturbar o mercado o menos possível, quanto mais para não reduzir os incentivos à mão de obra e ao investimento.
Modelo de imposto perfeito
Nas últimas décadas houve avanços enormes na sofisticação do modelo tributário, integrando justiça e eficiência. A teoria dos "mercados perfeitos", por exemplo, diz que os impostos sobre produtos essenciais devem ser uniformes e aplicados apenas aos bens "finais" (à venda aos consumidores finais); os impostos sobre a renda, ligados mais à capacidade que à renda; e os impostos sobre lucros empresariais e rendimentos do capital devem ser mínimos. A análise da "falha de mercado", por outro lado, diz que os impostos sobre coisas indesejáveis, como poluição, aumentam o bem-estar coletivo.
Em geral, as políticas tributárias seguiram a direção apontada por essas teorias, atentando ao mesmo tempo para a receita e a aceitação política.
Sempre que trabalham em grupo, as pessoas decidem invariavelmente quem vai fazer o quê. Foi o grande Adam Smith (p. 61) quem tornou essa divisão do trabalho uma ideia central da economia. No início do seu influente livro A riqueza das nações, Smith explica as diferenças entre a produção de uma coisa realizada por uma pessoa em todas as etapas e aquela realizada por diversas pessoas com uma tarefa para cada uma. Em 1776, Smith notou que, se um homem faz um alfinete passando por todas as etapas necessárias, ele "talvez não faça um alfinete em um dia". Mas, ao dividir o processo entre diversos homens, cada qual se dedicando a uma só etapa, muitos alfinetes seriam feitos em um dia. Smith concluiu que a divisão do trabalho provoca "em todo ofício um aumento proporcional da capacidade produtiva do trabalho".
O motor do crescimento
Smith não foi o primeiro a avaliar o valor da divisão do trabalho. Cerca de 2.200 anos antes, Platão afirmara que o Estado precisava de especialistas, como agricultores e construtores, para suprir suas necessidades. O filósofo islâmico Al-Ghazali (1058-1111) observou que, se levarmos em conta cada etapa da produção do pão, desde a retirada das ervas daninhas dos campos à colheita do trigo, veríamos que o pão só existe com a ajuda de mais de mil trabalhadores.
Muitos pensadores relacionaram a divisão do trabalho ao crescimento das cidades e dos mercados. Alguns achavam que a divisão do trabalho gerava o crescimento; outros disseram que o crescimento das cidades permitia a divisão do trabalho. Na ideia de Smith, a inovação foi ele pôr a divisão do trabalho no coração do sistema econômico, insistindo ser a força motriz do crescimento. Quanto mais especializados os trabalhadores e as empresas, maior o crescimento do mercado e maior o retorno dos investimentos.
Um mal necessário
Karl Marx (p. 105) percebeu a força dessa ideia, mas acreditava que a divisão do trabalho fosse um mal necessário. A especialização aliena, condenando os operários à condição deprimente de uma máquina que faz tarefas repetitivas. Ele diferenciava a divisão técnica do trabalho, como cada serviço específico na construção civil, e a divisão social, que é imposta por hierarquias de poder e status.
A divisão do trabalho é a norma na maioria das empresas atuais. Muitas das grandes empresas hoje terceirizam os serviços que antigamente eram realizados por funcionários próprios com trabalhadores estrangeiros mais baratos, dando à divisão do trabalho um dimensão nova, internacional.
No século XVIII, os iluministas passaram a pensar na possibilidade de aumentar a parte da sociedade por meio de reforma socioeconômica sensata. O economista britânico Thomas Malthus era uma voz pessimista nessa época otimista, afirmando que o crescimento da população condena a sociedade à pobreza. Malthus dizia que o impulso sexual humano causava o aumento cada vez mais rápido do povo. A produção de alimentos não o acompanharia, por causa da lei dos rendimentos decrescentes: quanto mais gente trabalha em certa área, menor a produção extra. O resultado é um desequilíbrio crescente entre o número de pessoas e a oferta de alimento.
Contudo, há uma força contrária. Malthus achava que a má nutrição e as doenças causadas por uma oferta alimentar mais limitada ocasionariam uma mortalidade crescente e evitariam o descontrole do desequilíbrio. Menos alimento para o mundo também implicaria sustento menor para as crianças, e o índice de natalidade cairia. Isso reduziria a pressão sobre a terra, restituindo os padrões de vida.
A armadilha malthusiana
Além de evitar a fome total, a mudança nos índices de natalidade e mortalidade faz a população não mais se beneficiar de altos padrões de vida por longo tempo. Suponha que a economia tenha um golpe de sorte com a descoberta de terra. Mais terra dá um incentivo único à produção de mais alimento para cada pessoa. Cada uma fica mais saudável, e o índice de mortalidade cai. Um padrão de vida mais alto permite mais filhos. Juntos, esses fatores fazem a população crescer. A produção de alimentos não segue o ritmo, e a economia retoma o padrão de vida anterior, mais baixo. A isso se chama armadilha malthusiana: padrões de vida mais altos são sempre sufocados pelo aumento da população. Assim, aconteça o que for, a economia sempre volta a uma produção de alimentos que sustente uma população estável.
Malthus previa uma estagnação econômica, com o povo lutando para sobreviver e seu crescimento sendo refreado por fome e doenças.
Porém, esse modelo - uma economia de agricultores que labutam com ferramentas simples num lote imutável de terra — já estava defasado na virada do século XVIII. Novas técnicas já permitiam maior produção de alimentos com a mesma quantidade de terra e de mão de obra. Novas máquinas e fábricas proporcionavam uma produção maior de bens por trabalhador. O progresso tecnológico implicou padrões de vida cada vez mais altos para o povo. Em 2000, a população da Grã-Bretanha mais que triplicara em relação à época de Malthus, com renda dez vezes maior.
Com o tempo, a tecnologia superou as restrições agrícolas e demográficas. Malthus não previu isso. Hoje, suas ideias se refletem no receio de que o nível populacional pressione a capacidade da Terra de um modo que a nova tecnologia não consiga superar.
Concorrência é a chave do funcionamento eficiente dos mercados livres. A presença de vários produtores num mercado incentiva a produção e mantém os preços baixos, pois cada um compete para atrair clientes. Se há só um fornecedor — um monopólio —, ele pode optar por restringir sua produção e cobrar preços altos.
Entre esses dois extremos está o oligopólio, em que poucos fornecedores — às vezes apenas dois ou três — dominam o mercado de certo produto. A concorrência entre os produtores num oligopólio seria obviamente interessante para o consumidor, mas existe uma alternativa para os produtores que pode ser mais vantajosa para seu nível de lucro: cooperação. Se optam por isso e combinam não solapar um ao outro, eles podem agir em grupo e ditar os termos do mercado em benefício próprio.
Formação de cartéis
Esse tipo de cooperação entre empresas é chamado pelos economistas de "conluio". A precificação resultante torna os mercados menos eficientes. O economista escocês Adam Smith (p. 61) reconheceu a importância do interesse individual nos mercados livres, mas desconfiava das intenções dos fornecedores a ponto de advertir: "As pessoas de um mesmo ramo raramente se reúnem, nem por alegria e diversão, mas a conversa termina em conspiração contra o público ou em alguma trama para elevar os preços".
A cooperação entre produtores existe desde que o mercado existe, e as empresas de muitos ramos do comércio formaram associações em benefício mútuo. No século XIX nos EUA, essas práticas restritivas ou monopolistas eram chamadas "trustes", termo hoje substituído por cartel, que atua no âmbito nacional e internacional. O truste ganhou conotação negativa, embora fosse notório nas economias alemã e americana dos anos 1920 e 1930.
No século XX, os EUA e a União Europeia (UE) usaram leis para coibir o conluio. Contudo, os cartéis de produtores ainda são um traço das economias de mercado. A cooperação pode ser um simples acordo entre duas empresas, como quando a Unilever e a Procter & Gamble uniram-se para fixar o preço de um sabão em pó na Europa em 2011, ou pode tomar a forma de uma associação comercial internacional, como a International Air Transport Association (Iata). A função original da Iata era fixar o preço das passagens, o que motivou acusações de conluio, mas ela ainda representa o setor aéreo. Os cartéis também se formam pela cooperação entre governos de países produtores de certo produto, como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), fundada em 1960 para determinar o preço do petróleo dos países-membros.
Desafios para os cartéis
Contudo, há dificuldades para formar e manter um cartel, o qual se fundamenta nos preços e na confiança entre os membros. Os integrantes de um cartel não podem apenas determinar preços; precisam acordar cotas de produção para manter esses preços e, claro, sua parte nos lucros. Quanto menos membros num cartel, mais fáceis as negociações. Os cartéis são mais fortes quando existe um número pequeno de empresas responsáveis pela maior parte da oferta.
A segunda dificuldade é garantir que os membros do cartel acatem as regras. Os produtores são atraídos ao conluio pela perspectiva de preços mais altos, mas esse egoísmo é também o ponto fraco do acordo. Um membro do cartel pode sentir-se tentado a "trapacear", produzindo mais e cobrando menos que os colaboradores. Na verdade, essa é uma versão do dilema do prisioneiro (p. 238), em que dois detentos podem optar entre guardar segredo e confessar. Se os dois ficam em silêncio, terão penas leves, mas, se apenas um confessa, este terá imunidade, e o seu parceiro no crime receberá uma pena pesada. A melhor estratégia para ambos é não dizer nada (o que implica detenção menor), mas a tentação é optar pela imunidade e confessar, na esperança de que o outro não o faça. As táticas aplicadas aí são idênticas para os cartéis, nos quais as vantagens para todos os atores serão maiores se eles cooperarem, mas serão maiores ainda para aquele que romper o acordo, enquanto os outros sofrerão a consequência.
Na prática, é isso que tende a ocorrer num cartel, sobretudo quando as cotas não são divididas por igual. Os 12 membros da Opep, por exemplo, reúnem-se com regularidade para acertar a produção e os preços, mas é raro estes serem seguidos. Os membros menores e menos ricos percebem a chance de ter mais lucro e excedem sua cota de produção, reintroduzindo a concorrência e enfraquecendo o poder do cartel como um todo. Basta uma trapaça para solapar a operação, e, quanto mais membros no cartel, maior o perigo de desobediência às regras.
Cumprimento de acordos
É muito frequente um membro de um cartel — o maior produtor — aparecer como "cumpridor". Quando a eficiência da Opep, por exemplo, é ameaçada por um país como Angola, que produz a mais para aumentar seu lucro, a Arábia Saudita, o mais forte membro do cartel, pode tomar uma atitude para impedi-lo. Por ser o maior produtor e ter os menores custos de produção, ela pode se dar ao luxo de aumentar a produção e baixar os preços a um patamar que sirva de punição aos países menores ou até os leve à falência, reduzindo simultaneamente seus lucros por pouco tempo. No entanto, em muitos casos à tentação de trapacear e a relutância do cumpridor de reduzir seus lucros acabam levando à dissolução do cartel. A dificuldade de formar e manter cartéis implica que essas "conspirações" sejam menos comuns do que Adam Smith imaginaria. Nos anos 1960, o economista americano George Stigler provou que a suspeição natural dos concorrentes atua contra o conluio de um cartel e que a existência dos cartéis torna-se menos provável à medida que mais empresas entram no mercado. Como resultado, mesmo nos setores em que existam poucos produtores de porte, como o de consoles de videogame e o de celulares, a preferência recai sobre a concorrência, e não a cooperação.
Entretanto, os poucos cartéis existentes são ameaça suficiente ao mercado para que os governos sintam necessidade de intervir. A pressão dos consumidores contra a combinação de preços motivou a legislação "antitruste" (veja à direita) no século XX, tornando ilegais os cartéis na maioria dos países. Devido à dificuldade de comprovar o conluio, muitas dessas leis oferecem imunidade ao primeiro integrante de um cartel que confesse como — no dilema do prisioneiro —, criando mais uma oportunidade para dissolver o cartel. Essa tática teve um sucesso notável em 2007, quando a Virgin Atlantic Airlines, preocupada com uma investigação sobre conluio de preços nos voos atlânticos, confessou o acordo com a British Airways, punida com pesada multa.
Aprovação do governo
Alguns economistas libertários, como Stigler, são céticos quanto à necessidade dessas leis, dada a instabilidade dos cartéis. Os governos costumam ser ambíguos sobre os cartéis e consideram certas formas de cooperação, em tese, desejáveis. Por exemplo, ao mesmo tempo que a política de fixação de preços da lata foi considerada conluio, a Opep é às vezes vista com um olhar mais benevolente como bloco comercial cujas políticas geram estabilidade. O mesmo argumento foi usado em defesa dos cartéis públicos existentes em certos setores em tempos de depressão nacional, como o do petróleo e o do aço. Se regulamentada pelos governos, a cooperação entre produtores pode estabilizar a produção e os preços, proteger os consumidores e os pequenos produtores e tornar o setor como um todo internacionalmente competitivo. Cartéis públicos como esses foram comuns na Europa e nos EUA nos anos 1920 e 1930, mas a maioria desapareceu após a Segunda Guerra Mundial. Os cartéis nacionais continuam sendo uma característica da economia japonesa.
Em 1776, quando publicou A riqueza das nações (pp. 54-61), Adam Smith observou que os comerciantes à sua volta achavam que havia dois motivos para uma empresa falir: falta de dinheiro e superprodução. Ele derrubou o primeiro desses mitos explicando a função do dinheiro na economia, mas coube a um economista posterior, o francês Jean-Baptiste Say, despachar o segundo. Sua obra de 1803, Tratado de economia política, explica a improbabilidade da superprodução. Say disse que, assim que se faz um produto, ele cria um mercado para outros produtos "em toda a grandeza do seu valor". Isso significa, por exemplo, que o dinheiro ganho por um alfaiate para fazer e vender uma camisa é então usado para comprar pão do padeiro e cerveja do cervejeiro. Say acreditava que as pessoas não queriam guardar o dinheiro, e portanto o valor total dos produtos ofertados se igualaria ao valor total dos produtos procurados. A expressão comum do que se conhece por lei de Say é "a oferta cria sua própria demanda" — frase que Say nunca usou e talvez tenha sido cunhada em 1921 pelo economista americano Fred Taylor em seu Principles of economics.
Essa ideia era importante para Say porque, se a oferta cria uma demanda de valor igual, nunca existiria superprodução, ou abundância", na economia como um todo. Claro que as empresas podem confundir o nível da procura de um bem e produzi-lo a mais, mas o economista austro-americano Ludwig von Mises (p. 147) diria depois que o empreendedor atrapalhado" logo sairia do mercado por causa das perdas, e os recursos não utilizados seriam realocados para áreas mais lucrativas da economia. De fato, é impossível superproduzir em tudo, porque as necessidades humanas são muito maiores que a nossa capacidade de fazer produtos.
A lei de Say tornou-se arena de conflito entre economistas clássicos e keynesianos. Aqueles, como Say, achavam que a produção — ou o lado da oferta na economia — fosse o fator mais importante. Os keynesianos afirmam que só há crescimento com demanda maior.
Por que guardar dinheiro?
Em sua obra-prima de 1936, Teoria geral, John Maynard Keynes (p. 161) criticou a lei de Say, centrando-se na função do dinheiro na economia. Say afirmara que todo o dinheiro ganho é gasto na compra de outros produtos. Dito de outra forma, a economia funciona como que baseada num sistema de escambo. Keynes, contudo, disse que as pessoas podem às vezes guardar dinheiro por outros motivos que não comprar mercadorias. Podem, por exemplo, querer poupar parte de sua renda. Se essa poupança não fosse emprestada a outros (como por meio de um banco) e investida na economia (como capital para tocar uma empresa, talvez), o dinheiro não mais circularia. Como as pessoas guardam dinheiro, a procura de bens acabaria sendo menor do que o valor dos bens produzidos. Esse estado de "demanda negativa" é chamado de "insuficiência de demanda", e Keynes disse que ela causaria um desemprego generalizado.
Dada a penúria da economia internacional durante a Grande Depressão no início dos anos 1930, o argumento de Keynes parecia ter muita força, ainda mais comparado com um mundo fundamentado na lei de Say, que dizia que o desemprego só ocorreria em certos setores e por curto tempo.
Os gastos públicos devem ser financiados por empréstimos ou impostos? Essa questão foi abordada em detalhe primeiro pelo economista britânico David Ricardo durante as custosas Guerras Napoleônicas com a França (1803-15). Em seu livro de 1817, Princípios de economia política e tributação, Ricardo disse que o método de financiamento não fazia diferença. Os contribuintes devem perceber que o empréstimo tomado hoje pelo governo levará a mais tributação no futuro. Em todo caso eles serão tributados, de modo que devem poupar a quantia que seria cobrada hoje a fim de cumprir essa eventualidade. Ricardo afirmou que as pessoas compreendem as restrições do orçamento público e continuam a gastar como sempre, seja a decisão do governo tributar ou tomar emprestado, porque sabem que afinal lhes custará o mesmo. Essa ideia ficou conhecida como equivalência ricardiana.
Imagine uma família com um pai viciado em jogos de azar que tira dinheiro dos filhos. O pai diz aos filhos que os deixará ficar com o dinheiro neste mês, porque ele o pegou emprestado do amigo Alex. O despreocupado caçula, Tom, gasta seu dinheiro extra. O esperto filho mais velho, Tiago, percebe que no mês seguinte o empréstimo terá de ser pago com juro, e é provável que seu pai lhe peça o dinheiro. Guarda o dinheiro extra de hoje, sabendo que terá de dá-lo ao pai em um mês. Tiago nota que sua riqueza não muda e não tem por que alterar seus gastos hoje. Ricardo estava teorizando e nunca disse que a equivalência ricardiana seria óbvia no mundo real. Ele achava que os cidadãos comuns sofrem da mesma ilusão fiscal que o Tom do nosso exemplo e gastam o dinheiro que têm. No entanto, alguns economistas modernos afirmam que os cidadãos não têm essa ilusão.
O debate moderno
A ideia ressurgiu em um artigo do economista americano Robert Barro (1944-) em 1974, que examina as situações em que as pessoas gastam apesar de impostos e empréstimos. Uma suposição é que elas tomam decisões racionais e fazem previsões perfeitas; sabem que os gastos de hoje significam impostos depois. No entanto, é improvável que isso aconteça dessa maneira. Tomar emprestado e emprestar também devem ocorrer com taxas de juro idênticas, sem custos de transação.
Outro problema é que a vida humana é finita. Se as pessoas são egoístas, tendem a não se importar com os impostos que serão cobrados depois que morrerem. Barro afirmou, contudo, que os pais se importam com os filhos e costumam deixar alguma herança, em parte para que os filhos consigam pagar quaisquer impostos que surjam após a morte dos pais. Assim, os indivíduos, ao tomar uma decisão, consideram o impacto dos impostos esperados após sua morte.
Gastos públicos
A equivalência ricardiana, às vezes chamada neutralidade da dívida, é um tema polêmico hoje por causa dos altos gastos, empréstimos e tributação dos governos modernos. A descoberta de Ricardo foi usada pelos economistas neoclássicos como argumento contra as políticas keynesianas — gastos públicos para aumentar a demanda e incentivar o crescimento. Esses economistas dizem que, se o governo gasta para tirar a economia da depressão, suas expectativas racionais são motivo suficiente para que ele preveja impostos mais altos no futuro, a fim de não responder cegamente hoje pela maior quantidade de moeda no sistema. Todavia, as evidências práticas — a favor e contra — não levam a uma conclusão firme.
Ciclos econômicos são a alternância entre um forte crescimento econômico, um período de expansão, e um período de retração ou estagnação econômica. Costumam ser chamados de ciclos de crescimento e retração. O historiador suíço Jean-Charles Sismondi foi quem identificou primeiro a ocorrência de crises econômicas periódicas, mas foi outro economista, o francês Charles Dunoyer (1786-1862), que revelou depois sua forma cíclica. Sismondi contestou a ortodoxia do "o mercado sabe mais" de Adam Smith (p. 61), Jean-Baptiste Say (p. 75) e David Ricardo (p. 84). Eles achavam que, se o mercado ficasse à própria sorte, rápida e facilmente se atingiria o equilíbrio econômico, gerando pleno emprego. Sismondi dizia que se chegaria a uma espécie de equilíbrio, mas só após uma "quantidade terrível de sofrimento".
Antes de Sismondi publicar Novos princípios de economia política, em 1819, os economistas menosprezavam as altas e as baixas econômicas no curto prazo ou as atribuíam a fenômenos externos, como a guerra. Sismondi mostrou que os movimentos econômicos de curto prazo devem-se a resultados naturais das forças de mercado — superprodução e subconsumo —, causadas por desigualdades durante os tempos de alta.
Alimentando o crescimento
Se a economia cresce e as empresas vão bem, os trabalhadores podem pedir aumento de salário e comprar mais dos produtos que produzem. Isso alimenta o crescimento econômico. À medida que mais produtos são vendidos, a economia se expande, contratando mais trabalhadores para produzir mais bens. Os novos trabalhadores então têm dinheiro para comprá-los, e a alta continua.
A concorrência leva todas as empresas a aumentar a produção, até que a oferta enfim ultrapasse a procura, declarou Sismondi. Isso faz as empresas baixar os preços para atrair clientela, originando lucros menores, salários menores e demissões na força de trabalho — em outras palavras, uma queda econômica seguida de recessão. As empresas começam a se recuperar quando os preços estão baixos a ponto de estimular a procura, e a concessão de crédito aumenta, iniciando o ciclo mais uma vez.
Uma das primeiras crises que confirmaram esse ciclo foi a do Pânico de 1825. Tratou-se de uma bem documentada quebra no mercado de ações, provocada apenas por fatores econômicos internos: investimentos especulativos em Poyais, país fictício criado por um criminoso para atrair investimentos-e a repercussão foi sentida em mercados de todo o mundo.
Sismondi criticou o enfoque de laissez-faire de Adam Smith e disse que era necessário o governo intervir para regulamentar o avanço da riqueza e evitar as crises periódicas.
A descoberta desses ciclos permitiu aos economistas analisar a economia sob outro olhar e criar estratégias, a fim de evitar quebras e recessões. Keynes usou a obra de Sismondi e Dunoyer para elaborar teorias próprias, que viriam a constituir uma das abordagens econômicas dominantes no mundo no século XX.
As ideias do célebre David Ricardo, economista britânico do século XVIII, claramente ganharam a forma do mundo em que ele vivia e de sua vida pessoal. Ele vivia em Londres, Inglaterra, num tempo em que o mercantilismo (pp. 34-35) era a doutrina econômica dominante, defendendo pesadas restrições ao comércio internacional. Por isso os governos adotaram diretrizes que visavam aumentar as exportações e reduzir as importações, numa tentativa de enriquecer a nação pela entrada de ouro. Na Inglaterra, essa política vinha dos tempos da rainha Elizabeth I. Ricardo achou que, nolongo prazo, fosse provável que tais diretrizes protecionistas refreassem a capacidade do país de aumentar a sua riqueza.
Proteção comercial inicial
Ricardo preocupava-se sobretudo com as Leis dos Cereais. Durante as Guerras Napoleônicas (1799- 1815), uma vez que não era possível importar trigo da Europa, o preço do grão subiu na Grã- -Bretanha. Consequentemente, muitos latifundiários aumentaram a área dedicada à lavoura em suas terras. Porém, quando a guerra começou a perder força, em 1812, o preço do trigo caiu. Sendo assim, os latifundiários, que também controlavam o Parlamento, aprovaram as Leis dos Cereais no final da guerra, em 1815, a fim de restringir a importação de trigo e estabelecer um preço mínimo para o grão. Essas leis protegeram os agricultores, mas também elevaram o preço do pão para além do que os mais pobres podiam pagar, numa época em que soldados e marinheiros que retornavam ao país não conseguiam emprego. Ricardo, apesar de ser um proprietário rico, opôs-se com vigor às Leis dos Cereais. Afirmou que as leis empobreceriam a Grã-Bretanha e elaborou uma teoria que seria o esteio de quem quisesse justificar o livre comércio entre os países.
Vantagem comparativa
Adam Smith (p. 61) assinalou que a diferença climática entre Portugal e Grã-Bretanha permitia que ambos se beneficiassem do comércio. Um trabalhador português podia produzir mais vinho que um britânico, que por sua vez podia produzir mais la que um português. Qualquer pessoa ou Estado capaz de produzir mais por recurso unitário do que um concorrente tem uma "vantagem absoluta". Smith disse que tanto a Grã-Bretanha quanto Portugal lucrariam mais especializando-se naquilo que faziam melhor e negociando o excedente. A contribuição de Ricardo foi ampliar o argumento de Smith, para examinar se os países se beneficiariam da especialização e do comércio quando um tinha vantagem absoluta em ambos os bens. Valeria a pena negociar se um país produzia mais vinho e mais lã por trabalhador do que outro país?
Outro enfoque é analisar se uma pessoa que faz chapéus e sapatos melhor do que outra deveria dividir seu tempo entre os dois serviços ou escolher um deles e negociar com o trabalhador menos capacitado que faz o outro produto (veja a ilustração à esquerda). Suponha que o trabalhador superior faça chapéus 20% melhor, mas faça sapatos 50% melhor - ambos terão interesse em que ele faça exclusivamente sapatos (o produto em que ele realmente é melhor), e o homem menos dotado faria chapéus (o produto que ele faz menos mal).
A lógica desse argumento é aproveitar os custos relativos da produção de um bem, quanto à quantidade de tempo de produção usada ou perdida. Como o trabalhador melhor faz sapatos tão bem, o custo de ele produzir chapéus é alto — ele teria de abrir mão de boa parte da valiosa produção de sapatos. Embora em termos absolutos o trabalhador menos capacitado faça sapatos e calçados pior que o superior, seu custo relativo ao fazer chapéus é menor que o do trabalhador superior. Isso porque ele perde uma produção menor por chapéu do que o superior. Diz-se, assim, que o trabalhador menos capacitado tem uma "vantagem comparativa" em chapéus, enquanto o superior tem uma vantagem comparativa em sapatos. Quando os países se especializam em bens nos quais têm vantagem comparativa, mais bens são produzidos no total, e o comércio rende mais produtos mais baratos para os dois países.
A vantagem comparativa resolve um paradoxo destacado por Adam Smith — o de que os países que fazem produtos piores (que teriam "desvantagem absoluta" neles) ainda assim podem exportá-los com lucro.
Vantagem no século XX
O que determina a vantagem comparativa? Os economistas suecos Eli Heckscher e Bertil Ohlin afirmaram que ela vem de países com abundância de capital e mão de obra. Países ricos em capital têm vantagem comparativa em produtos intensivos em capital, como máquinas. Os países ricos em mão de obra têm vantagem comparativa em produtos intensivos em trabalho, como bens agrícolas. O resultado é que os países tendem a exportar bens que usam seu fator de produção abundante, as nações com capital abundante, como os EUA, têm mais probabilidade, portanto, de exportar bens industrializados. A análise de Heckscher e Ohlin levou a outra previsão. O comércio não só tenderia a reduzir as diferenças nos preços de bens em países diferentes como também reduziria a diferença entre salários: a especialização em setores intensivos em mão de obra nas economias com mão de obra abundante tenderia a impulsionar o preço dos salários, enquanto um efeito na outra direção seria notado num país com capital abundante. Assim, apesar do aumento geral em curto prazo, no fim existirão perdedores e ganhadores e a consequente oposição à abertura do comércio.
Os clamores por protecionismo são tão audíveis hoje quanto no tempo de Ricardo. Em 2009, a China acusou os EUA de "protecionismo desenfreado", por causa dos pesados impostos sobre pneus chineses importados. A decisão de aumentar as tarifas veio após pressão dos trabalhadores americanos, que viram a importação de pneus crescer de 14 para 46 milhões de 2004 a 2008, reduzindo a produção nos EUA e provocando o fechamento de fábricas. Contudo, como os EUA haviam antes acusado a China de subsidiar deslealmente sua indústria, as tensões cresceram. A China ameaçou com aumentos retaliativos nos impostos de importação sobre carros e carnes de ave americanos.
As tarifas criam efeitos que se espalham pelas economias. A proteção obtida para os produtores de pneus nos EUA com tarifas sobre pneus, por exemplo, teve impactos negativos. Os preços mais altos dos pneus aumentaram o custo dos carros americanos, tornando-os menos competitivos e reduzindo a procura. A retaliação da China também prejudicou os setores exportadores americanos. O emprego de alguns trabalhadores em pneus nos EUA pode ter sido salvo, mas na economia como um todo mais empregos se perderam.
Protecionismo hoje
O economista americano Mancur Olson ajudou a explicar por que os políticos ainda impõem diretrizes que têm tudo para prejudicar a economia como um todo, embora os custos sejam bem conhecidos. Ele destaca que os poucos que estão contra os impostos - grandes produtores nacionais e seus funcionários — sofrem um impacto visível das importações baratas. Todavia, o número potencialmente maior de consumidores que têm de pagar mais por causa das tarifas e os trabalhadores de setores correlatos que perderão o emprego por causa de impactos indiretos estão espalhados por toda a economia.
Comércio contemporâneo
A maioria dos economistas concorda com a visão ricardiana básica sobre o comércio e acredita que ela ajudou, em particular, os países industrializados de hoje. Os economistas americanos David Dollar e Aart Kraay disseram que nas últimas décadas o comércio ajudou os países em desenvolvimento a crescer e reduzir a pobreza.
Outros economistas duvidam que o comércio sempre ajude os países em desenvolvimento. O economista americano Joseph Stiglitz (p. 338) diz que esses países costumam sofrer de falhas de mercado e fraqueza institucional que podem tornar custosa demais uma liberalização comercial muito rápida.
Existem também contradições entre a teoria e a prática. Quando o governo da Índia retirou as tarifas sobre importações do óleo de palmeira da Indonésia, por exemplo, isso elevou o padrão de vida de milhões de indianos, confirmando a teoria de Ricardo, mas destruiu o sustento de um milhão de agricultores que cultivavam amendoim para extrair óleo, substituído pelo óleo de palmeira. Em um mundo ricardiano perfeito, os agricultores de amendoim simplesmente passariam a produzir outros bens, mas na prática não podem, porque seu capital está imobilizado - uma máquina que processa amendoins não tem outra utilidade.
Os críticos de Ricardo afirmam que no longo prazo impactos assim podem impedir a industrialização e a diversificação de países pobres. Além do mais, embora os ricos países industrializados tenham se tornado negociantes de sucesso, eles não praticaram o livre comércio quando começaram a se desenvolver. A maneira de os países criarem vantagem comparativa de longo prazo pode ser mais complexa do que indica o modelo de Ricardo. Chega-se a afirmar que a Europa e depois os Tigres Asiáticos (pp. 282-87) a conquistaram por meio da proteção ao comércio, e suas qualificações foram adquiridas antes que o comércio se abrisse.
Na segunda metade do século XVII, os economistas começaram a observar o que ocorria nos mercados monopolistas e de concorrência acirrada. Descobriram que os monopólios tendem a conter a produção para manter elevados os preços e os lucros. Onde havia plena concorrência, os preços caíam ao nível dos custos, os lucros eram baixos e a produção, alta. O economista francês Antoine Cournot queria descobrir o que acontecia quando havia apenas poucas empresas vendendo produtos similares.
Duopólios em duelo
Cournot criou seu modelo baseado num duopólio de empresas que vendiam aos consumidores águas minerais idênticas. As duas empresas não podem formar um cartel trabalhando juntas, nenhuma outra empresa pode entrar no setor (porque não há outras nascentes), e cada empresa tem de decidir, ao mesmo tempo, quantas garrafas de água fornecer.
A produção total da indústria é a soma das decisões de produção das duas empresas. Cada empresa deve escolher a produção que maximize seu lucro com base no que ela acha que será a produção da outra empresa. Se a empresa A pensa que a empresa B não produzirá nada, A vai escolher a produção baixa de um monopolista para maximizar seus lucros. Por outro lado, se A acha que B produzirá muito, ela pode optar por não produzir nada, porque os preços cairiam tanto que a produção não seria rentável. Cournot representou as decisões das duas empresas numa "curva de reação". O equilíbrio do mercado é o ponto em que as duas curvas de reação se cruzam. Nele, cada empresa está vendendo a quantidade mais rentável ante o que a outra empresa está fazendo. Essa ideia de equilíbrio ficou conhecida como equilíbrio de Nash, e é um elemento central da teoria dos jogos, ramo da economia moderna que analisa a interação estratégica entre empresas e indivíduos.
Cournot usou a matemática para encontrar esse equilíbrio e provar que os duopolistas escolheriam uma produção maior do que a de um monopólio, mas menor do que na concorrência perfeita. Em outras palavras, seria melhor para a sociedade haver mais empresas do que uma monopolista, mas pior do que a concorrência perfeita.
Desse ponto de partida, Cournot ampliou o modelo para mostrar que, se o número de empresas aumenta, a produção da indústria aproxima-se de modo tranquilizador do nível esperado para a concorrência perfeita. O modelo de Cournot foi aprimorado pelo economista francês Joseph Bertrand, que demonstrou que, se as empresas optam por seu nível de preço almejado em vez de pela produção, o equilíbrio de duopólio iguala-se ao da concorrência perfeita. Isso porque qualquer empresa que fixe um preço alto será superada pela outra, que roubará todos os seus compradores. Dessa maneira, o preço será levado ao nível mais competitivo.
Monopólio é uma situação em que uma empresa controla um mercado, como o de telefonia móvel. Ela pode ser o único fornecedor de um produto ou serviço ou pode ter uma fatia dominante do mercado. Em muitos países se diz que uma empresa é monopólio se detém mais de 25% de um mercado.
Há milênios se sugere que o preço dos bens é maior nos monopólios do que se muitas empresas os fornecessem. Já Aristóteles (384-322 AC) alertara para o problema em uma história sobre o filósofo grego Tales de Mileto. As pessoas provocavam Tales por praticar a filosofia, que para elas era uma profissão inútil que não dava dinheiro. Para provar que estavam erradas, Tales comprou todas as prensas de azeite no inverno, quando estavam baratas, e então, usando seu poder monopolista, vendeu-as por preços muito altos no verão, quando eram necessárias. Ficou rico. Para Tales, a moral era que os filósofos podiam ser ricos se quisessem. Para os economistas, a história adverte para o poder potencial do monopólio.
O poder do mercado
Em 1848, o cientista político inglês John Stuart Mill publicou seus Princípios de economia política, reunindo boa parte das ideias de que a falta de concorrência elevava os preços. A opinião geral era que alguns setores tendiam para a falta de concorrência, o que se criava ou por meios artificiais, como a adoção pelo governo de um imposto sobre as mercadorias importadas, ou por meios naturais, como o crescimento constante de empresas. Grandes empresas começaram a dominar o mercado, porque a indústria do final do século XIX precisava de um volume de capital cada vez maior. As empresas que podiam crescer conquistando uma porção do mercado suficiente para financiar o investimento necessário tinham a capacidade de usar seu poder de mercado para tirar dos negócios as concorrentes de menor porte e cobrar preços mais altos.
Durante a Revolução Industrial, o fornecimento de carvão, ferrovias e água mostrou uma tendência para a concentração da propriedade. Na mineração, a propriedade da terra ficou em poucas mãos. No caso das ferrovias e do abastecimento de água, não havia alternativa a um número restrito de empresas que ofereciam os serviços, porque a escala da infraestrutura necessária era tão grande que, se houvesse mais que poucas empresas, ninguém seria capaz de cobrir seus custos. Mill, como Adam Smith (p. 61) antes dele, achava que essas características dos mercados não levariam inevitavelmente ao monopólio. O mais provável era o conluio entre as empresas, que lhes permitia fixar preços altos. Esses acordos levariam a custos elevados para os consumidores, da mesma maneira que com os monopólios.
Trabalho no monopólio
Mill percebeu que não só no mercado de bens a ausência de concorrência forçava a alta dos preços. Os efeitos monopolistas podem surgir também no mercado de trabalho. Ele apontou para o caso dos ourives, que ganhavam salários muito mais altos que as pessoas com qualificação similar, pois eram considerados confiáveis — traço raro e dificilmente comprovável. Isso criava uma barreira significativa à entrada no mercado, de modo que quem lidava com ouro podia exigir um preço monopolista para seus serviços. Mill notou que a situação dos ourives não era um caso isolado. Observou que grande parte das classes trabalhadoras era impedida de entrar em profissões qualificadas porque implicavam muitos anos de formação e treinamento. A maioria das famílias não podia arcar com esse custo, e aqueles que podiam desfrutavam salários muito acima do que era de esperar. Do mesmo modo, alguns historiadores viam nas guildas da era medieval um exemplo de artesãos privilegiados que tentavam dar fim à concorrência de outros trabalhadores.
O economista britânico Alfred Marshall (p. 110) analisou em detalhe, a partir do final dos anos 1890, os efeitos dos monopólios nos preços e no bem-estar dos consumidores. Ele queria descobrir se o preço mais alto e a produção menor resultantes dos monopólios causavam a redução do bem-estar geral da sociedade. Em seus Princípios de economia, Marshall formulou o conceito de excedente do consumidor — a diferença entre o montante que um consumidor se dispõe a pagar por um bem e a quantia realmente paga. Suponha que o consumidor comprasse uma maçã por 20 pence e estivesse disposto a pagar 50 por ela. Seu excedente na compra da maçã é de 30 pence. Num mercado com muitas empresas, elas competem no preço e fornecem juntas uma quantidade de maçãs que gera certa quantidade de excedente do consumidor em geral. Por uma maçã vendida ao último consumidor, sua vontade de pagar será igual ao preço, e nenhuma outra maçã pode ser vendida. A perda de bem-estar no monopólio vem do fato de que menos maçãs são vendidas em comparação com o montante que teria sido vendido em mercados de concorrência perfeita. Em suma, isso significa que existem maçãs que poderiam ser fornecidas ao mercado e gerariam um excedente do consumidor, mas elas nunca chegam ao mercado.
Vantagens do monopólio
Monopólios também criam efeitos mais complexos nos preços e no bem-estar. Marshall afirmou que um monopolista poderia na realidade reduzir seus preços para atrair clientes para sua rede de telefonia, por exemplo, por ser provável que as pessoas continuassem usando o serviço, desde que instalado, apesar de tecnologias rivais, como os celulares, oferecerem alternativas no mínimo tão boas.
Certos economistas assinalaram que o monopólio pode ter efeitos benéficos. Em muitos mercados, ele pode ter custos menores do que o total de custos de um grupo de empresas menores, porque o monopolista gasta menos em publicidade e usa inteiramente as economias de escala. Por isso, ele pode usufruir lucros maiores, mesmo que seu preço seja menor do que se muitas empresas — com custos maiores — estivessem competindo. Nesse caso, os preços mais baixos ajudariam os consumidores e o crescimento da economia.
Do mesmo modo, empresas maiores podem tentar obter lucros de monopólio, expulsando as rivais pelo corte drástico dos preços no curto prazo. Os economistas chamam isso de preço predatório. No longo prazo, os consumidores podem sofrer com a monopolização do mercado. Porém, nos anos 1950 e 60, o economista americano William Baumol afirmou que não importa se existe monopólio, desde que não haja barreiras à entrada e à saída no mercado — a simples ameaça de concorrência faria o monopólio fixar o preço em um patamar competitivo. Isso porque um preço mais alto atrairia novos participantes, que pegariam uma fatia do mercado do monopólio. Por esse motivo, os preços num monopólio podem não ser mais altos que num mercado com várias empresas concorrentes.
Monopólios naturais
Um argumento que começou a tomar forma na época de Marshall foi o de que alguns monopólios são "naturais", por causa das enormes vantagens de custo de haver apenas uma empresa. Muitos serviços públicos são monopólios naturais, como a telefonia, o gás e a água. O custo fixo de criar uma rede de distribuição de gás é enorme, comparado com o custo de bombear uma quantidade a mais de gás. Essa ideia levou muitos países a aceitar a existência de monopólios nacionais nos serviços de utilidade pública. Ainda assim, os governos passaram a intervir nesses mercados, para conter os possíveis efeitos monopolistas. O problema é que, nos monopólios naturais, os custos fixos são tão altos que a obrigação de cobrar um preço competitivo pode fazer a empresa não ser lucrativa. Entre as soluções desse problema estão a nacionalização indiscriminada de setores ou a criação de agências reguladoras que imponham limites ao aumento de preços, ajudando os consumidores, mas garantindo a viabilidade econômica do setor.
Os economistas do pensamento dominante afirmam que os mercados monopolizados ficam pouco aquém do ideal de concorrência perfeita. Essa opinião gerou políticas antitruste dos governos, que procuram levar os mercados à concorrência. Isso implicou a adoção de medidas para evitar que os monopólios abusem do poder de mercado, como a quebra de monopólios e a proibição de fusões de empresas que criem monopólios.
A moderna Escola Austríaca e também o economista americano Thomas DiLorenzo (1954-) criticam esse enfoque. Ambos dizem que a verdadeira concorrência de mercado não é o comportamento passivo de empresas em concorrência perfeita que atuam em estado de equilíbrio. É, sim, uma rivalidade mortal entre um número quase sempre pequeno de grandes empresas. A concorrência ocorre pela concorrência via preços ou não, através de publicidade e marketing, e por meio da criação de produtos e de inovação pelas grandes empresas.
Um pouco afastado dessa escola de economistas, o austríaco Joseph Schumpeter (p. 149) também frisou a probabilidade de monopólio quando empresas que concorrem na criação de produtos dominam mercados inteiros em razão do lucro potencial. Os economistas concordam que a concorrência real é boa para os consumidores. Não têm tanta certeza, porém, de que o monopólio seja ou não compatível com isso. No início do século XX, o economista alemão Robert Liefman afirmou que "só uma combinação peculiar de concorrência e monopólio origina a maior satisfação possível de desejos".
Em 1841, o jornalista escocês Charles Mackay publicou Ilusões populares e a loucura das massas, clássico estudo psicológico dos mercados e do comportamento irracional das pessoas em "manada". O livro aborda alguns dos exemplos mais famosos de especulação frenética na história, como o da tulipomania (anos 1630), o Plano do Mississippi de John Law (1719-20) e a Bolha dos Mares do Sul (1720).
A hipótese de Mackay era que as multidões, ao agir num delírio coletivo de especulação, podem fazer os preços subir bem além de qualquer valor intrínseco que os produtos tenham. Quando os ativos sobem sem controle, ocorre a bolha econômica, na qual os preços sobem, mas se tornam cada vez mais instáveis — e a bolha estoura, como as de verdade.
Tulipomania
A tulipomania holandesa dos anos 1630 é um dos exemplos mais antigos e notórios de uma bolha econômica. No início do século XVIII, as tulipas de Constantinopla ficaram muito populares entre os ricos da Holanda e da Alemanha, e logo todos as queriam. Achava-se que elas dessem riqueza e sofisticação a quem as tivesse, e a classe média holandesa ficou obcecada pelas variedades raras. Em 1636, a procura de espécies raras de tulipa cresceu tanto que elas eram negociadas na Bolsa de Amsterdā.
Muitos ficaram ricos de repente. Uma isca dourada atraía as pessoas tentadoramente, e todos — de nobres a criados — correram para os mercados de tulipas, imaginando que a paixão por essas flores seria eterna. Mas, quando os ricos pararam de plantar tulipas no jardim, diminuiu o encanto delas, e as pessoas perceberam que a loucura não podia continuar. A venda passou a ser frenética, a confiança naufragou e o preço das tulipas despencou. Para quem tomara dinheiro emprestado para investir, foi um desastre.
A formação das bolhas
O economista americano Peter Garber disse que os especuladores nessas situações compram um ativo com pleno conhecimento de que o preço está bem acima de qualquer "valor fundamental", mas o fazem por esperar que os preços subam mais antes de desabar. Como os preços não podem subir para sempre, o caso envolve a crença irracional de que "o cara para quem eu vou vender é mais burro [do que eu] e não vai ver o baque chegar". Todavia, Garber acha que às vezes há motivos reais por trás das altas de preços — como a moda na França de as mulheres usarem tulipas raras no vestido. Mas, em qualquer bolha, o conselho se repete: "O comprador que se cuide”.
Embora a maior parte da economia diga respeito às economias de livre mercado, não se deve esquecer que por longo período do século XX até um terço do mundo esteve sob alguma forma de regime comunista ou socialista. Esses Estados tinham uma economia centralizada, ou planificada. Os filósofos políticos procuravam uma alternativa ao capitalismo ainda quando surgiram as economias de livre mercado. Porém, um argumento realmente econômico para o comunismo não foi formulado até meados do século XIX, quando Karl Marx (p. 105) escreveu sua crítica ao capitalismo.
Se a influência de Marx é tida como política, ele era, talvez mais que qualquer outro, um economista. Acreditava que a organização econômica da sociedade forma a base de sua organização social e política; a economia, portanto, conduz a mudança. Marx via a história não da perspectiva da guerra ou do colonialismo, mas como uma progressão de sistemas econômicos diferentes, que geravam novas maneiras de organização social.
Com a ascensão do mercado vieram os comerciantes, e, com as fábricas, o proletariado industrial. O feudalismo fora substituído pelo capitalismo, que por sua vez seria suplantado pelo comunismo. Em seu Manifesto comunista, de 1848, Marx disse que isso ocorreria com revolução. Para explicar o que considerava ser uma mudança inevitável, Marx analisou o sistema capitalista e sua fraqueza inerente em Das Kapital (O capital), em três volumes.
Contudo, Marx não foi totalmente crítico do capitalismo. Ele o via como etapa historicamente necessária no progresso econômico, substituindo sistemas que ele considerava ultrapassados: o feudalismo (em que os camponeses eram legalmente ligados ao senhor proprietário de terras) e o mercantilismo (em que os governos controlam o comércio exterior). Com quase admiração, descreveu como o capitalismo havia impulsionado a inovação tecnológica e a eficiência industrial. Mas acreditava que afinal o capitalismo era apenas uma etapa de transição e um sistema imperfeito cujas falhas levariam inevitavelmente à sua queda e substituição.
No centro de sua análise estava a divisão da sociedade em uma "burguesia" - uma minoria que possuía os meios de produção — e um "proletariado" — a maioria, que constituía a força de trabalho. Para Marx, essa divisão caracterizava o capitalismo.
Trabalhadores explorados
Com o advento da indústria moderna, a burguesia realmente se tornou a classe dominante, pois a propriedade dos meios de produção deu-lhe o controle da maioria da população, o proletariado. Enquanto os trabalhadores produziam bens e serviços em troca de salário, os donos do capital — os industriais e donos de fábricas — vendiam esses bens e serviços para ter lucro. Se, como acreditava Marx, o valor de um produto se baseava no trabalho necessário para produzi-lo, os capitalistas deveriam dar o preço dos bens finais, primeiro somando o preço do trabalho ao custo inicial do produto e depois adicionando o lucro. Num sistema capitalista, o trabalhador deve produzir um valor maior que o que ele recebe em salários. Assim, os capitalistas extraem dos trabalhadores uma mais-valia — o lucro.
Para elevar o lucro, claro que é do interesse do capitalista manter os salários baixos, mas também introduzir tecnologia para aumentar a eficiência, em geral condenando o pessoal a um trabalho degradante ou monótono ou ao desemprego. Essa exploração da mão de obra, vista por Marx como um traço imprescindível do capitalismo, recusa aos trabalhadores tanto uma recompensa financeira adequada quanto a satisfação no trabalho, alienando-os do processo de produção. Marx argumentou que essa alienação inevitavelmente ocasionaria agitação social.
Concorrência e monopólio
Outro elemento essencial do capitalismo é a concorrência entre os produtores. Para tanto, a empresa deve tentar não só reduzir os custos de produção como ter preço mais baixo que o dos concorrentes. Nesse processo, produtores fracassam e vão à falência, enquanto outros assumem uma parte maior do mercado. A tendência, disse Marx, era cada vez menos produtores controlarem os meios de produção e uma burguesia sempre menor concentrar a riqueza. No longo prazo, isso criaria monopólios que poderiam explorar não só os trabalhadores, mas também os consumidores. Ao mesmo tempo, as fileiras do proletariado se inchariam com a ex-burguesia e os desempregados.
Marx considera a concorrência a causa de outra falha do sistema capitalista: o desejo de se lançar em mercados onde os lucros crescem estimula uma produção maior, às vezes independente da demanda. Essa superprodução leva não só ao desperdício, mas à estagnação e até ao declínio de toda a economia. Por natureza, o capitalismo não é planejado e é governado apenas pelas complexidades do mercado - crises econômicas são resultado inevitável da defasagem da oferta e da procura. Portanto, o crescimento em uma economia capitalista não é uma progressão suave, mas cortada por crises periódicas, que, achava Marx, teriam frequência cada vez maior. A dificuldade criada por essas crises seria sentida sobretudo pelo proletariado.
Para Marx, tais fraquezas aparentemente insuperáveis da economia capitalista levariam ao seu colapso final. Para explicar como isso ocorreria, ele usou a concepção do filósofo alemão Georg Hegel que mostrava como ideias contraditórias se resolviam num processo dialético: qualquer ideia ou situação (a "tese" inicial) contém em si uma contradição (a "antítese"), e desse conflito surge uma noção nova, mais rica (a "síntese").
Marx considerava que as contradições inerentes às economias — personificadas nos conflitos entre grupos ou classes diferentes — conduziam à mudança histórica. Ele analisou a exploração e a alienação do proletariado pela burguesia sob o capitalismo como um exemplo de contradição social, em que a tese (capitalismo) contém a própria antítese (os trabalhadores explorados). A opressão e a alienação destes, associadas à instabilidade inerente de uma economia capitalista, tropeçando de crise em crise, resultaria em enorme descontentamento social. Uma revolução proletária era tanto inevitável quanto necessária para trazer o sucessor do capitalismo na progressão histórica (a síntese): o comunismo. Marx encorajou a revolução nas palavras finais do Manifesto comunista: "Os proletários não têm nada a perder, senão seus grilhões. Têm um mundo para ganhar. Trabalhadores de todos os países, uni-vos!".
Revolução
Marx previu que, deposta a burguesia, os meios de produção seriam tomados pelo proletariado. De início, isso levaria ao que Marx chamou de "ditadura do proletariado" — uma forma de socialismo em que o poder econômico estaria nas mãos da maioria. Contudo, esse seria apenas um primeiro passo no rumo da abolição da propriedade privada em favor da propriedade coletiva num Estado comunista. Em contrapartida a essa análise exaustiva do capitalismo, Marx escreveu relativamente pouco sobre os detalhes da economia comunista que substituiria o capitalismo, a não ser que se basearia na propriedade coletiva e seria uma economia planificada, a fim de garantir a coerência de oferta e procura. Uma vez que essa fase afastasse todas as desigualdades e instabilidades do capitalismo, o comunismo, em seu entender, viria como o auge do avanço histórico. Não surpreende que sua crítica da economia capitalista tenha causado hostilidade. A maioria dos economistas da época considerava o livre mercado a forma de garantir o crescimento econômico e a prosperidade, ao menos para certa classe de gente. Mas Marx não ficou desamparado, ainda mais entre os pensadores políticos, e sua previsão da revolução comunista mostrou-se correta- ainda que não onde ele esperara, na Europa e nos EUA industrializados, mas em países rurais como Rússia e China.
Marx não viveu para ver surgir Estados comunistas como a União Soviética e a República Popular da China, e ele não poderia ter previsto a real ineficiência dessas economias planificadas. Hoje, sobrevive só um punhado de economias comunistas planificadas (Cuba, China, Laos, Vietnã e Coreia do Norte). Corre um debate sobre que grau de comunismo "marxista" tiveram esses Estados sob a liderança de Stálin e Mao, mas a derrocada do comunismo no bloco oriental e a liberalização da economia chinesa foram vistas por muitos economistas como prova de que a teoria de Marx estava errada.
Economias mistas
Nas décadas após a Segunda Guerra Mundial, a Europa Ocidental aprimorou uma "terceira via" entre o comunismo e o capitalismo. Muitos Estados europeus ainda funcionam com economia mista, com grau variado de intervenção estatal e propriedade, embora alguns, mais claramente a Grã-Bretanha, tenham trocado a economia mista por uma política econômica mais de laissez-faire, em que o Estado tem papel menor. Todavia, com o comunismo bastante desacreditado e o colapso do capitalismo aparentemente não tão perto quanto no tempo de Marx, parece estar errada a teoria de que o dinamismo do capitalismo deságua numa crise e numa revolução. Entretanto, a teoria econômica marxista tem seus seguidores, e as recentes crises financeiras provocaram uma reavaliação de suas ideias. Desigualdade crescente, concentração da riqueza em poucas grandes empresas, crises econômicas frequentes e o "aperto do crédito" de 2008 foram atribuídos à economia de livre mercado. Mesmo sem chegar a defender a revolução ou mesmo o socialismo, um grupo crescente de pensadores — nem todos da esquerda política — tem levado a sério elementos da crítica de Marx ao capitalismo.
A história da importância do trabalho na apuração do valor dos bens remonta aos antigos filósofos gregos. Por cerca de 200 anos a partir de meados do século XVII, o trabalho dominou as ideias econômicas. Nas sociedades primitivas e pré-industriais, o papel do trabalho na determinação do ritmo com que um bem podia ser trocado por outro era bem simples. Se uma pessoa levasse uma semana para terminar uma rede de pesca, era improvável que ela conseguisse trocá-la por uma colher de madeira feita em uma manhã. Porém, a questão se tornou muito mais complicada com o aparecimento das sociedades industriais modernas no século XVIII. Os economistas clássicos Adam Smith (p. 61) e David Ricardo (p. 84) desenvolveram cada um a sua teoria de valor relacionada ao trabalho, mas foi o filósofo alemão Karl Marx (p. 105) quem realizou a mais famosa descrição da teoria do valor-trabalho em sua obra magna O capital.
Trabalho e custo
A ideia de Marx foi a de que a quantidade de trabalho usada para produzir um bem é proporcional ao seu valor. A teoria costuma ser justificada pelo seguinte raciocínio: se um corte de cabelo exige meia hora de trabalho, com $40 por hora o corte de cabelo vale $20. Se ele também precisar do uso de tesoura e escovas que custam $60 e perdem $1 do valor (por uso) em cada corte de cabelo, o valor total do corte é $21. Dos instrumentos, a própria tesoura custa $20 porque tomou 45 minutos de trabalho para ser forjada de um pedaço de aço, que custou $12,50. O mesmo raciocínio pode ser aplicado para entender por que o pedaço de aço custa $12,50, apurando o tempo e o custo da produção do aço a partir de minério de ferro. Pode-se apurar o gasto de todos os insumos intermediários até chegar aos recursos naturais, que são gratuitos — de modo que todo o valor foi criado pelo trabalho.
Marx assinalou que, por ser muito difícil calcular o valor de qualquer bem dessa maneira, o valor deve ser determinado pelo tanto de trabalho "congelado" que certo bem contém. Disse também que o valor é determinado pela quantidade "normal" de trabalho esperado na produção do bem. Um cabeleireiro ineficiente pode levar uma hora para cortar o cabelo de alguém, mas o custo do corte não pode ser majorado em $20. Marx não negou que a oferta e a procura no mercado influenciem o valor ou o preço dos bens no curto prazo, mas disse que no longo prazo a estrutura básica e a dinâmica do sistema de valor devem provir do trabalho
Oferta e procura estão entre as pedras fundamentais da teoria econômica. A interação entre a quantidade de um produto disponível no mercado e a ânsia dos consumidores de comprá-lo constitui o alicerce dos mercados.
A importância da oferta e da procura nas relações econômicas já era estudada na Idade Média. O erudito escocês Duns Scotus reconheceu que o preço devia ser justo para o comprador, mas devia também levar em conta os custos da produção e, portanto, ser justo para o produtor. Os economistas estudaram depois os efeitos dos custos da oferta nos preços finais, e Adam Smith (p. 61) e David Ricardo (p. 84) relacionaram o preço de um produto ao trabalho necessário à sua produção. Essa é a clássica teoria do valor-trabalho.
Nos anos 1860, novas teorias econômicas, sob a bandeira da escola neoclássica, contestaram essas ideias. Essa escola criou a teoria da utilidade marginal (pp. 114-15), segundo a qual a satisfação que um consumidor ganha ou perde por ter mais ou menos de um produto interfere tanto na procura quanto na oferta.
O economista britânico Alfred Marshall aliou a análise da oferta ao novo enfoque neoclássico da procura. Marshall viu que a oferta e a procura funcionam juntas para gerar o preço de mercado. Sua obra foi importante na medida em que ilustrou a dinâmica variável da oferta e da procura nos mercados de curto prazo (como o de bens perecíveis), em oposição aos de longo prazo (como o de ouro). Ele aplicou a matemática às teorias econômicas e criou a "cruz de Marshall", gráfico que representa a oferta e a procura como linhas cruzadas. O ponto em que elas se cruzam é o preço de "equilíbrio", que contrabalança à perfeição as necessidades de oferta (o produtor) e de procura (o consumidor).
A lei da oferta
A quantidade de um produto que certa empresa decide produzir é determinada pelo preço a que ela consegue vendê-lo. Se os diversos custos de produção (trabalho, material, máquinas e instalações) equivalem a mais do que o mercado se dispõe a pagar pelo produto, a produção não será considerada lucrativa e será reduzida ou suspensa. Se, por outro lado, o preço de mercado de um artigo for substancialmente maior que os custos de produção, a empresa procurará aumentar a produção para ter o máximo de lucro possível. A teoria pressupõe que a empresa não tem influência sobre o preço de mercado e deve aceitar o que o mercado oferece.
Por exemplo, se o custo de produção de um computador é de $200, a produção não será lucrativa caso o preço de mercado do computador fique abaixo de $200. Por outro lado, se o preço de mercado do computador for $1 mil, a empresa tentará produzir o máximo possível para maximizar os lucros. Observa-se a lei da oferta na curva da oferta (página ao lado): cada um dos pontos da curva diz quantas unidades a empresa se dispõe a produzir por certo preço.
Além disso, deve-se distinguir entre custos fixos e variáveis. O exemplo acima supõe que a produção pode ser aumentada com o custo unitário de produção constante. Porém, na prática não ocorre assim. Se a fábrica de computadores só consegue produzir 100 máquinas por dia e existe demanda para 110, ela deve julgar se é mais sensato abrir uma nova fábrica, com os imensos custos adicionais decorrentes, ou vender os computadores por um preço levemente mais alto, a fim de reduzir a procura a só 100 por dia.
A natureza da procura
A lei da procura vê as coisas da perspectiva do consumidor, não do produtor. Quando o preço de um bem aumenta, a procura cai inevitavelmente (exceto a de bens como remédios). Isso porque alguns consumidores não poderão mais pagar por ele ou porque decidem que podem ter mais satisfação gastando em outra coisa.
Usando o mesmo exemplo, se o computador custar apenas $50, o volume de vendas será alto, pois mais pessoas poderão comprá-lo. Por outro lado, se custar $10 mil, a procura será bem baixa, pois só os muito ricos poderão arcar com ele. À medida que aumentam os preços, cai a procura.
Não há um nível para que os preços baixem e estimulem a procura. Se o preço do computador cair abaixo de $5, todos poderão comprar um, mas ninguém precisa de mais que dois ou três computadores. Os consumidores percebem que é melhor gastar em outra coisa, e a procura se nivela.
O preço não é o único fator que influi na procura. Os gostos e as atitudes do consumidor também são um fator importante. Se um produto entra na moda, toda a curva da procura se desloca para a direita; os consumidores procuram mais produtos de cada preço. Dada a posição estática da curva da oferta, isso faz o preço aumentar. Como os gostos do consumidor podem ser manipulados por meio de técnicas como publicidade, os produtores podem influenciar a forma e a posição da curva da procura.
Em busca do equilíbrio
Enquanto os consumidores sempre tentarão pagar o menor preço possível, os produtores procurarão vender pelo maior possível. Quando os preços estão muito altos, os consumidores perdem o interesse e se afastam do produto. Porém, se os preços estão muito baixos, não faz mais sentido financeiramente para a empresa continuar a produzir o produto. Deve-se atingir uma média satisfatória — um preço de equilíbrio aceitável tanto para o consumidor quanto para o produtor. Esse preço se encontra onde a curva da oferta intercepta a curva da procura, resultando num valor que os consumidores desejam pagar e pelo qual os produtores se dispõem a vender.
Muitos fatores complicam essas leis relativamente simples. A localização e o tamanho do mercado são cruciais na determinação dos preços, bem como o tempo. O preço pelo qual os produtores se dispõem a vender não é influenciado apenas pelos custos de produção.
Por exemplo, imagine uma banca no mercado que venda produtos agrícolas. O agricultor chega tendo já pago os custos de produção, as sementes, o trabalho de plantio, a colheita e o transporte para a feira. Ele sabe que, para ter lucro, deve vender cada maçã por $1,20. Assim, no começo do dia ele decide comercializar suas maçãs por esse preço. Se suas vendas estão indo bem, ele talvez ache que pode ganhar mais e aumente o preço para $1,25. Isso pode causar uma redução nas vendas, mas ele ficará feliz se conseguir vender todo o seu estoque. Contudo, se o fim do dia se aproxima e o vendedor percebe que ainda tem maçãs de sobra, ele pode decidir baixar o preço para $1,15, a fim de não ficar com um excedente de maçãs, que apodrecerão antes da próxima oportunidade de vendê-las.
Neste exemplo, os custos de produção são fixos, e a urgência de vender a colheita é o fator premente. Ele é útil para ilustrar as diferenças entre os mercados de curto prazo e longo prazo. O agricultor decidirá quantas maçãs colherá na próxima safra, com base nas últimas vendas, e assim o mercado atingirá o equilíbrio.
O mercado do agricultor também é limitado pela distância. Existe apenas um raio dentro do qual faz sentido econômico para o agricultor vender os seus produtos. Por exemplo, o custo envolvido na remessa das maçãs ao exterior tiraria a competitividade de seus preços diante dos produtores locais. Isso significa que, em certa medida, o agricultor tem liberdade de fixar seu preço um pouco acima, porque os consumidores não têm condições de viajar para procurar alternativas.
A situação inversa à do fruto/agricultor é a do mercado de um produto mundial, como o do ouro. Nesse mercado de longo prazo, o detentor de ouro não sofre pressão do tempo para vender. Pode ter confiança em que o valor se manterá. Quanto maior o mercado e mais disseminado o conhecimento dele, é mais provável que o produto encontre seu preço de equilíbrio. Isso torna significativa qualquer pequena alteração no preço, a qual gerará uma corrida de compra e venda.
Embora esses exemplos criem maior complexidade no mercado, eles condizem com a regra básica de que os fornecedores só venderão por um preço que eles considerem aceitável, enquanto os compradores só comprarão pelo preço que eles achem razoável.
Todos os exemplos dizem respeito a um mercado em que bens materiais são negociados, mas a oferta e a procura são relevantes em todo o raciocínio econômico. O modelo é aplicável, por exemplo, ao mercado de trabalho. Aqui, o indivíduo é o fornecedor — ele vende o seu trabalho —, e os empregadores são os consumidores — procuram comprar o trabalho o mais barato possível. Muitos mercados são analisados como um sistema de oferta e procura, com a taxa de juro atuando como preço.
Os economistas denominam a obra de Marshall de análise de "equilíbrio parcial", por demonstrar como um mercado isolado atinge o equilíbrio por meio das forças da oferta e da procura. Entretanto, a economia é feita de muitos mercados diferentes em interação constante. A questão de como todos eles podem conviver num estado de "equilíbrio geral" é um problema complexo que foi analisado por Léon Walras (p. 120) no século XIX.
Aristóteles foi a primeira pessoa a observar que uma coisa útil em grande quantidade perderia a utilidade. A ideia de que, quanto mais se consome de um produto, menor é o aumento da satisfação que se tem, é cultuada na teoria econômica como a lei da utilidade marginal decrescente (UMD). Marginal refere-se a mudanças no "limite", como comer mais um bombom. Utilidade é "o prazer ou a dor" da decisão de consumir. Em sua Teoria da economia política (1871), o economista britânico William Jevons mostrou que a utilidade pode ser medida por correlação com a quantidade disponível do produto.
Curvas da procura
O conceito de UMD tornou-se mais importante à medida que os economistas se empenharam para entender o que determina o preço dos produtos. Se todos costumam concordar que um bombom a mais acrescente menos utilidade, então faz sentido que só queiramos mais um bombom se o preço cair, pois bombons a mais dão menos prazer — então só os compraremos se custarem menos. A procura resultante tem relação negativa com o preço, o que, junto com a oferta, ajuda a definir o preço de equilíbrio ou "natural" de um bombom.
Existem muitas exceções à lei da UMD, como encontrar a última peça de um quebra-cabeça, o que é muito prazeroso. Produtos viciantes, como drogas e álcool, também são exceções — quanto mais consumidos, mais apreciados. O princípio também faz certas suposições, como "o consumo deve ser continuo", Comer uma caixa de bombons de uma vez só, por exemplo, demonstra melhor o princípio da UMD do que comê-los espaçadamente em um dia."
Contribuições positivas
A UMD tem aplicações importantes, ainda mais para justificar uma distribuição mais igualitária de renda para criar maior bem-estar social. Se o governo tomasse $1 de uma pessoa muito rica e o desse a uma muito pobre, a utilidade total da sociedade aumentaria.
A teoria da utilidade foi ampliada para situações em que as pessoas têm de tomar decisões diante de incerteza e risco. Nesse caso, elas decidem com base em suas preferências de bens e em sua avaliação da probabilidade dos diferentes resultados. Nos anos 1950, o matemático americano Leonard J. Savage demonstrou que as pessoas fazem escolhas diferentes - as decisões são influenciadas não só por graus diferentes de utilidade que as pessoas atribuem aos produtos, mas também por seu conforto com o risco: as pessoas avessas ao risco fazem escolhas que reduzam o grau de risco enfrentado por elas.
Em 1895, o economista britânico Alfred Marshall (p. 110) demonstrou como a oferta e a procura criam o preço dos produtos. Depois de explicar as regras gerais, como quanto maior a procura, menor o preço, ele mostrou que pode existir um exceção interessante. Marshall disse que um aumento de preço poderia, em certas circunstâncias, criar um aumento surpreendente na procura. Ele atribuiu a descoberta dessa exceção ao conhecido economista e estatístico escocês da época Sir Robert Giffen. Os produtos cuja procura sobe ao aumentarem os preços chamam-se bens de Giffen.
O bem de Giffen original era o pão, o mais importante produto básico da parcela mais pobre da população britânica no século XIX. Os mais pobres da classe trabalhadora gastavam grande parte de sua renda em pão, alimento necessário para a vida, mas tido como inferior ante o luxo atribuído à carne. Marshall disse que, quando o preço do pão subia, os mais pobres tinham de gastar mais com o pão para ter calorias suficientes para sobreviver — eles tinham de comprar pão em vez de carne. Como resultado, se o preço do pão subia, a procura também subia.
Inferior e pobre
O bem de Giffen depende de certas suposições. Primeiro, deve se tratar de um bem inferior, ou seja, um bem que as pessoas comprem menos à medida que sua renda aumenta, por haver opções melhores — nesse caso, carne em detrimento do pão. Segundo, o consumidor deve gastar grande parte da renda nesse produto, daí o exemplo referir-se à parcela mais pobre da sociedade. Por último, não devem existir alternativas ao produto. No caso do pão, não existe um produto básico alternativo mais barato.
Dados os pressupostos, um aumento no preço do pão cria dois efeitos. Faz as pessoas comprar menos pão, porque a satisfação que ele dá pelo dinheiro gasto a mais diminui em relação a outros bens. O efeito substitutivo faria o pão seguir a regra geral de o preço mais alto causar procura menor. Contudo, quando o preço do pão aumenta, reduz-se o poder de gastar em outras coisas, e, pelo fato de o pão ser um bem inferior, a renda mais baixa fará crescer a sua procura. O que torna o bem de Giffen tão especial é que, como o pobre gasta tanto da sua renda com pão, o efeito de renda é tão grande que supera o efeito de substituição, de modo que, quando o preço sobe, algumas pessoas compram mais. Outro exemplo de bem de Giffen é o das batatas durante a Fome das Batatas na Irlanda (1842-53), quando os preços crescentes teriam causado aumento na procura de batatas.
Prova imprecisa
Marshall foi criticado por Francis Edgeworth (1845-1926), outro economista britânico, por postular a existência de um bem que contradiz a regra básica da procura, sem nenhuma prova concreta. Em teoria, os bens de Giffen são coerentes com o comportamento dos consumidores — a interação da renda e dos efeitos substitutivos — que está por trás da curva da procura. Mas, mesmo que existam, os bens de Giffen são raros: a prova vem de contextos especiais, e alguns dos casos mais famosos são dúbios. Mas os economistas ainda estão à sua procura. Em estudo de 2007, os economistas de Harvard Robert Jensen e Nolan Miller apresentaram provas do comportamento de Giffen na procura de arroz pelas famílias pobres da China.
Há muito tempo existe algo que atrai os economistas na ideia de que a economia deve reagir com a mesma previsibilidade matemática de leis científicas, como as leis do movimento de Newton. Essas leis reduzem a três relações matemáticas simples e confiáveis todo o universo físico complexo e abundante. É possível encontrar relações semelhantes no mundo complexo e mutável dos mercados?
Em 1851, um professor britânico chamado Francis Edgeworth publicou Mathematical physics, um dos primeiros estudos matemáticos da economia. Ele percebeu que a economia lida com relações entre variáveis, o que significa que pode ser expressa em equações. Edgeworth pensava nos benefícios econômicos de uma perspectiva utilitária — ou seja, crendo que se pudesse mensurar os resultados em unidades de felicidade ou de prazer.
Outros economistas também ficaram intrigados com a ideia de um enfoque matemático. Na Alemanha, Johann von Thünen elaborou equações para um salário de trabalho justo e um uso mais lucrativo da terra. Na França, Léon Walras, acadêmico que seria depois chamado "o maior de todos os economistas", tentava descobrir um arcabouço científico-matemático para toda a disciplina. Walras era fervoroso em sua convicção de ser possível descobrir leis econômicas que fariam da economia uma "ciência moral pura" (descrevendo o comportamento humano) que ficasse lado a lado com a "ciência natural pura" de Newton. Sua teoria do equilíbrio geral foi concebida para explicar a produção, o consumo e os preços em toda a economia.
Oferta e procura
Walras concentrou-se de início no funcionamento das trocas — como interagem os preços dos bens, a quantidade de bens e a procura dos bens. Quer dizer, ele tentava apenas entender como a oferta e a procura se complementavam. Walras achava que o valor de algo à venda dependia essencialmente de sua rareté — que significa "raridade", mas foi usado por ele para exprimir a intensidade do desejo por uma coisa. Nisso Walras diferia de muitos de seus contemporâneos, entre eles Edgeworth e William Stanley Jevons (p. 115), para quem a utilidade — na forma de prazer ou praticidade — é que era crucial para o valor.
Walras passou a construir modelos matemáticos para descrever a relação entre oferta e procura. Eles revelaram que, à medida que o preço sobe, a procura cai, e a oferta cresce. Quando a procura e a oferta casam, o mercado está em estado de equilíbrio. Isso refletia o mesmo equilíbrio de forças evidente nas leis do movimento de Newton.
Equilíbrio geral
Para ilustrar esse equilíbrio, imagine que o preço atual de mercado dos celulares seja $20. Em uma feira, os vendedores têm cem celulares e querem $20 por cada um. Se cem compradores forem à feira, cada qual pronto para pagar $20, o mercado de celulares baratos está em equilíbrio, porque a oferta e a procura estão perfeitamente balanceadas, sem escassez nem excedentes.
Walras pôs-se então a aplicar a ideia de equilíbrio a toda a economia, a fim de criar uma teoria de equilíbrio geral. Esta se baseou no pressuposto de que, quando as mercadorias estão em excesso em determinado local, o preço deve ser alto demais. Como os preços são considerados "altos demais" por comparação, se num mercado eles estão assim, deve haver outro em que eles estejam "baixos demais", provocando excedentes no mercado de preço mais alto.
Walras criou um modelo matemático para toda a economia, inclusive bens, como cadeiras e trigo, e fatores de produção, como capital e trabalho. Tudo se interligava e dependia do resto. Ele insistia que a interdependência era primordial; mudanças de preço não ocorrem no vazio — só ocorrem por mudanças na oferta e na procura. Além disso, quando os preços mudam, tudo o mais também muda. Uma pequena alteração numa parte da economia pode repercutir na economia inteira. Por exemplo, suponha que comece uma guerra num país grande produtor de petróleo. Os preços do produto em todo o mundo subirão, o que terá efeitos de largo alcance em governos, empresas e indivíduos — desde os preços aumentados nos postos de gasolina e o custo aumentado do aquecimento em casa ao cancelamento de uma viagem de lazer ou negócios agora cara.
No rumo do equilíbrio
Walras conseguiu reduzir seu modelo matemático de uma economia a poucas equações contendo preços e quantidades. Ele tirou duas conclusões de seu trabalho. A primeira foi que o estado de equilíbrio geral é possível em tese. A segunda foi que, sempre que uma economia se inicia, um mercado livre consegue levá-la para o equilíbrio geral. Então, um sistema de mercados livres seria inerentemente estável.
Walras mostrou como isso poderia acontecer com uma ideia que ele chamou de tâtonnement (tateamento), em que a economia "tateia" seu caminho rumo ao equilíbrio, do mesmo modo que um montanhista tateia seu caminho montanha acima. Ele pensou nisso imaginando um "leiloeiro" hipotético a quem compradores e vendedores apresentassem informações a respeito dos diferentes preços pelos quais eles comprariam ou venderiam mercadorias. O leiloeiro então anunciaria os preços em que a oferta e a procura se igualam no mercado, e só então a compra e a venda começariam.
Falhas no modelo
Walras fez questão de ressaltar que se tratava apenas de um modelo matemático, feito para ajudar os economistas. Não deveria ser interpretado como uma descrição do mundo real. Sua obra foi amplamente ignorada por seus contemporâneos, vários dos quais achavam que as interações no mundo real eram complexas e caóticas demais para que surgisse um verdadeiro estado de equilíbrio.
Num âmbito técnico, as complexas equações de Walras eram difíceis demais para diversos economistas dominarem — outro motivo para ele ser ignorado, embora seu aluno Vilfredo Pareto (p. 131) tenha levado o trabalho do mestre a novas direções. Nos anos 1930, duas décadas após a morte de Walras, suas equações passaram pelo crivo do brilhante matemático húngaro-americano John von Neumann. Ele apontou uma falha nas equações de Walras e demonstrou que algumas soluções resultavam em preço negativo, o que implicava os vendedores pagarem aos compradores.
John Maynard Keynes (p. 161) era um crítico ferrenho da abordagem de Walras, argumentando que a teoria do equilíbrio geral não é um bom quadro da realidade, porque as economias nunca estão em equilíbrio. Keynes também afirmou que de nada serve pensar num esforço de longo prazo pelo equilíbrio, porque, além de bastante angustiante, "no longo prazo estaremos todos mortos".
Todavia, as ideias de Walras foram resgatadas no trabalho dos economistas americanos Kenneth Arrow e Lionel W. McKenzie e do economista francês Gérard Debreu (p. 211) nos anos 1950, que criaram um modelo mais polido (pp. 210-13). Usando matemática rigorosa, Arrow e Debreu obtiveram condições em que o equilíbrio econômico geral de Walras se sustentaria.
Economias calculáveis
A evolução dos computadores nos anos 1980 permitiu que os economistas calculassem os efeitos das interações entre diversos mercados em economias reais. Esses modelos de equilíbrio geral computável (EGC) aplicaram a ideia de Walras de interdependência a situações particulares, para analisar o impacto da mudança de preços e de políticas governamentais.
O atrativo do EGC é que ele pode ser usado por grandes organizações — como governos, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional — para fazer cálculos rápidos e certeiros mostrando o estado da economia inteira, além de mostrar os efeitos da mudança de parâmetros.
Hoje, a análise do equilíbrio parcial — considerando as forças que equilibram oferta e procura num só mercado — é a primeira coisa que um estudante de economia aprende. As descobertas de Walras sobre o equilíbrio geral também continuam a gerar trabalhos na vanguarda da teoria econômica. Para diversos economistas, o equilíbrio e a existência de forças que levam a economia a esse estado continuam sendo princípios fundamentais. Essas ideias talvez constituam a essência da análise econômica dominante.
A "elasticidade" da demanda é a reação a mudanças em outro fator, como o preço. O britânico Alfred Marshall (p. 110) costuma ser tido como o primeiro economista que definiu esse conceito, em 1890, mas cinco anos antes o estatístico alemão Ernst Engel publicara um ensaio mostrando como as mudanças na renda alteram o nível da demanda. A origem do conceito pode ser controversa, mas sua importância, não. A elasticidade da demanda logo se tornou um dos mais usados recursos de análise econômica.
Marshall foi um dos primeiros que formalizaram a ideia de que a procura cai quando o preço sobe. Bastou depois um pequeno passo para ver que a demanda de produtos diferentes (como pão e caviar) variava em graus diferentes quando seu preço mudava. Marshall viu que, quando o preço de bens essenciais como pão era alterado, a procura mudava muito pouco. O pão tem muito pouca reatividade a alterações no preço por ter poucos substitutos. Por outro lado, a procura de bens de luxo pode reagir muito mais ao preço - diz-se que esse produto é "elástico ao preço". Marshall reconheceu que entre as pessoas com renda média a procura de luxos como caviar é bem mais sensível à mudança de preço que entre os super-ricos, que podem arcar com tanto quanto quiserem.
Lei de Engel
Ernst Engel disse que as pessoas, à medida que enriquecem, aumentam os gastos com alimentos proporcionalmente menos que o seu aumento de renda. A demanda de alimentos é "inelástica à renda" — ideia que ficou conhecida como lei de Engel. Ele estudou o orçamento de 199 famílias na Bélgica e provou que, enquanto a procura de bens básicos como alimento crescia menos rápido quando a renda subia, a demanda de luxos — como férias — crescia no mínimo tão rápido quanto o aumento na renda. Os economistas identificaram dois tipos de produto ou bem. O primeiro — bens normais — são aqueles cuja procura aumenta junto com a renda. Os luxos são uma espécie de bem normal, chamado bem superior, cuja demanda cresce à proporção do aumento da renda. No segundo tipo de bem — bens inferiores —, a demanda cai quando a renda sobe.
Alguns grupos de bens, como alimentos, contêm tanto luxos quanto necessidades (como caviar e pão). Isso significa que pode ser enganoso julgar o impacto da renda crescente no alimento como grupo. Outra complicação é que um produto não é sempre normal ou inferior — isso pode mudar com diferentes níveis de renda. Com renda a mais, os muito pobres podem comprar mais pão, quem tem renda alta pode comprar mais caviar, mas os milionários podem abandonar o caviar por flocos de ouro comestível.
No final do século XVIII, Adam Smith (p. 61) escreveu sobre o impacto da concorrência na capacidade das empresas de definir os preços e ter lucros acima de um nível "natural". Contudo, não houve análise formal do caso, até que o economista britânico Alfred Marshall (p. 110) publicou Princípios de economia em 1890. As ideias no modelo de Marshall continuam essenciais na teoria econômica dominante, embora tenham sido criticadas por não representarem a verdadeira natureza da concorrência.
Concorrência perfeita
O modelo que Marshall criou para explicar a incapacidade das empresas de fixar os próprios preços foi chamado de "concorrência perfeita". Na verdade, Marshall preferia as expressões "livre concorrência" e "mercados perfeitos".
O modelo baseia-se em um grupo de pressupostos, tirados das ideias dos economistas clássicos, sobre as condições do mercado e o comportamento das empresas.
O primeiro pressuposto é o de que há tantas empresas vendendo o produto a tantos clientes que cada uma das empresas e cada um dos consumidores representam uma parte desprezível do mercado. O segundo pressuposto é o de que toda empresa tenta vender um produto idêntico. Terceiro, o modelo supõe que todas as empresas têm liberdade de entrar no setor ou sair dele à vontade e são capazes de alterar ou adquirir os fatores de produção necessários para produzir os bens com facilidade.
Concorrência em ação
O mercado de câmbio perfaz as condições de concorrência perfeita e é um exemplo útil para explorar seu funcionamento. Há no mundo tantas empresas vendendo moeda estrangeira que cada qual totaliza uma fração ínfima do mercado de dólares, por exemplo. Elas vendem a milhões de compradores que precisam comprar moeda, e cada comprador (um turista, por exemplo) também compõe uma parte insignificante do mercado.
Em segundo lugar, o dólar ou o euro que o turista compra de cada empresa é exatamente o mesmo, de modo que o comprador não se importa de qual empresa ele o compra. Terceiro, qualquer um pode começar a comprar e a vender moeda estrangeira sem nenhuma barreira legal, social ou tecnológica à frente — é fácil entrar no mercado.
No mercado perfeito existe informação perfeita — todos os atores sabem qual o "preço em vigor". Aqueles que fazem câmbio sabem o tempo todo quanto é pago por certa moeda. Além disso, cada empresa sabe tudo sobre os custos de produção das demais. Essa transparência implica que nenhum consumidor pode ser levado a pagar preço mais alto e que as empresas conhecem o modo melhor e mais barato de fornecer o produto. Por fim, as empresas interesseiras tencionam maximizar os lucros. Os trabalhadores buscam o trabalho mais bem pago, e os investidores capitalistas buscam mercados com os maiores lucros.
Os pressupostos do modelo de Marshall provocam certos efeitos para as empresas dos setores de concorrência perfeita. Um dos mais importantes é que elas não têm poder sobre o preço que cobram. Isso porque há tantas vendendo um produto idêntico que, se qualquer uma tentar vender por preço maior que o dos concorrentes, não venderá nada. Isso é praticamente certo porque o consumidor tem perfeito conhecimento dos preços cobrados por todas as empresas. Desse modo, o preço de mercado é definido pela interação coletiva de todas as empresas e todos os consumidores, e cada empresa deve aceitar o preço de venda do produto. Elas têm de "acatar" o preço, e não criá-lo.
Venda competitiva
A representação-padrão do setor de concorrência perfeita de Marshall (veja abaixo) demonstra essa ideia. Por exemplo, em qualquer momento existe um preço mundial do trigo — como $350 por tonelada —, que é fixado pelo setor. Por esse preço do setor (indicado pela linha pontilhada no diagrama), cada produtor pode vender quanto quiser, mas não venderá nada por qualquer preço acima daquele (porque os compradores podem recorrer a outros). Os produtores podem vender por preço menor que o dos outros, mas não teriam vantagem nisso — um preço mais baixo não atrairia procura maior, pois na concorrência perfeita cada produtor é uma parte ínfima da oferta mundial total (no trigo, isso é em torno de 700 milhões de toneladas) Baixando o preço, o produtor apenas baixaria o próprio lucro. Ele tem apenas de decidir de que produção precisa para aumentar seu lucro. No caso demonstrado no gráfico, são 3 mil toneladas, que o produtor sabe que venderá por $350 a tonelada.
Nesse exemplo, o produtor vende o trigo por muito mais que seu custo de produção. Ao vender 3 mil toneladas por $350 cada tonelada, a renda do produtor é de $1,05 milhão; seus custos, porém, são de $450 mil. O lucro dele é renda menos custos — neste caso, $600 mil. Esse é um exemplo do que os economistas clássicos, como David Ricardo (p. 84), descrevem como "preço de mercado afastando-se do preço natural". Todavia, em um mercado de concorrência perfeita, lucros altos assim não se sustentam no longo prazo.
Lucro de curto prazo
Os economistas clássicos, como Smith e Ricardo, sabiam dos efeitos de um preço bem acima do exigido para cobrir os custos nos mercados competitivos. O alto nível de lucro atuaria como incentivo para a entrada de novas empresas no setor. A falta de barreiras à entrada num mercado perfeito facilita a entrada de qualquer empresa, Em nosso exemplo, é fácil imaginar os produtores trocando a produção de cevada pela de trigo, se for mais lucrativo produzir este. O impacto dos novos entrantes seria aumentar a oferta total e, por pressão da concorrência, forçar os preços para baixo, de modo que em pouco tempo as empresas poderiam ter um nível "normal" de lucro. Isso ocorreria quando o preço apenas cobrisse os custos de produção - o lucro excedente (mostrado em azul no gráfico) desapareceria
Quando os pressupostos que embasam a concorrência perfeita são violados, as empresas podem ter lucros enormes no longo prazo. Por exemplo, se há qualquer barreira à entrada em um setor — como as tecnológicas ou legais —, os lucros excedentes não são afastados por concorrência. A forma mais extrema disso é o monopólio. Para aumentar os lucros, o monopolista cobra um preço mais alto e produz menos do que produziria num mercado de concorrência perfeita. Por isso os economistas acreditam que os mercados de concorrência perfeita sejam mais benéficos à sociedade que os monopolizados. Na situação de baixa produção do monopólio, os consumidores ganhariam com a produção de unidades a mais. Mas, nos mercados de concorrência perfeita, essas unidades adicionais são produzidas quando mais empresas entram no mercado — os preços caem quando os lucros altos são limitados pela competição.
Perfeição impossível
Existem algumas controvérsias quanto ao modelo de concorrência perfeita de Marshall. Numa delas, existem poucos — se é que algum — setores reais que se aproximem dos pressupostos que justificam o modelo. Na verdade, tanto o mercado de câmbio quanto a agricultura não são bons exemplos da teoria da concorrência perfeita por causa da existência de grandes empresas que podem influir no preço e porque os governos podem e manipulam esses mercados. Os defensores da concorrência perfeita dizem que o modelo representa uma forma teórica, ideal, da estrutura do mercado que é útil para entender o comportamento das empresas, mesmo que não existam setores que atendam a esses requisitos.
Uma crítica mais fundamental é que a concorrência perfeita descrita por Marshall perdeu seu sentido real; na verdade, não há "concorrência" no modelo. As empresas fazem produtos idênticos, reagindo passivamente aos preços e aceitando que terão lucro normal. Isso está muito distante da situação sugerida por Smith, em que as empresas tentam loucamente fazer produtos diferentes e melhores do que os concorrentes, os quais elas tentarão vender por preço mais alto, introduzindo sempre, ao mesmo tempo, novas tecnologias para reduzir os custos e aumentar os lucros de modo compatível.
As críticas a esse ponto da concorrência perfeita continuaram pelo século XX. O economista austro-britânico Friedrich Hayek (p. 177) disse que a concorrência é um processo dinâmico de descoberta em que os empresários buscam novas oportunidades num mundo em constante mudança — não é só a cópia estéril de preços sugerida no modelo de Marshall.
No século XIX, um grupo de filósofos britânicos ditos utilitaristas lançou a ideia de que a felicidade pode ser medida e aumentada, ou agregada. O economista italiano Vilfredo Pareto discordou. Em seu Manual de economia política, ele apresentou uma definição mais fraca de bem-estar social que passou a dominar a economia moderna. Seu argumento baseava-se numa classificação de felicidade relativa chamada "utilidade ordinal", em vez da medida absoluta de felicidade ("utilidade cardinal").
Pareto disse que as pessoas conhecem suas preferências e fazem o que é melhor para elas. Se todos seguirem o próprio gosto, limitados como são pelos obstáculos que enfrentam, a sociedade logo chegará a um ponto em que ninguém ficará melhor sem prejudicar alguém. Esse estado é conhecido como ótimo de Pareto, ou eficiência de Pareto.
Ótimo de Pareto
Suponha que o casal Joana e João goste de arroz. Se tivermos um saco de arroz, qualquer divisão entre eles — mesmo que um fique com todo o arroz — seria ótima, porque só tirando o arroz da pessoa se faria mal a ela. Assim, o ótimo de Pareto é diferente de justiça.
Na maioria das situações, há muitos bens e gostos. Por exemplo, se João gosta de arroz e não de frango, e Joana gosta de frango e não de arroz, uma alocação em que João ficasse com tudo seria de ineficiência de Pareto: a transferência do frango de João para Joana a ajudaria e não faria mal a João. Em geral, as preferências não são tão claras: os dois talvez gostem de frango e de arroz em graus diferentes. Assim, Joana e João podem trocar pequena quantidade de frango e de arroz até que surja uma alocação ótima.
Todos podemos concordar
O uso do ótimo de Pareto reduz a necessidade de decidir entre interesses conflitantes. Evitar esses julgamentos é a característica da economia positiva (descrição de como são as coisas), ao contrário da economia normativa (a prescrição de como deveriam ser). Pareto afirmou que os mercados livres são eficientes em seu sentido do termo. Isso formalizou a ideia de Adam Smith de que o interesse próprio e a concorrência de livre mercado funcionam pelo bem comum (pp. 54-61).
Já no início da Revolução Industrial, quando pequenas instalações deram lugar a grandes fábricas, tornou-se claro que as empresas maiores produziam a um custo menor. Ao crescer e fazer mais, a empresa usa mais trabalho, máquina e matérias-primas; assim, uma fábrica maior tem custos totais mais altos. Mas pode produzir mais por custo unitário menor. Essa queda nos custos médios chama-se economia de escala.
Em 1890, o economista britânico Alfred Marshall (p. 110) explorou esse efeito em Princípios de economia. Ele destacou que, quando as empresas aumentam a produção, no curto prazo só podem alterar o número de trabalhadores para aumentar a produção. Como cada trabalhador a mais adiciona menos à produção do que os anteriores a ele, os custos unitários sobem. Porém, no longo prazo, se uma empresa duplica a fábrica, a mão de obra e o maquinário, ela poderá se aproveitar da especialização do trabalho, e os custos cairão.
Nos anos 1960, outro economista britânico, Alfred Chandler (1918- -2007), mostrou que o crescimento das grandes companhias causou uma nova Revolução Industrial no início do século XX. Empresas grandes passaram a dominar o setores, produzindo mais bens por custo menor e tirando concorrentes do mercado. Essas grandes empresas em geral usufruíam um "monopólio natural".
No fim do século XIX, os economistas debatiam ainda o que definia o valor de um produto. Em 1914, o economista austríaco Friedrich von Wieser convenceu-se de que o valor de uma coisa era determinado por aquilo de que era preciso abrir mão para obtê-la. Ele disse que, em um mundo onde as pessoas têm carências infinitas e só dispõem de uma quantidade restrita de recursos para supri-las, a escassez criaria a necessidade de opções. Weiser chamou esse conceito de "custo de oportunidade" em Theorie der gesellschaftlichen wirtschaft (1914). Em 1935, o economista americano Lionel Robbins afirmou que a tragédia da vida humana é ter de desistir de uma coisa a fim de escolher outra.
Custo real
Isso quer dizer que o custo de ir ao cinema, por exemplo, não é bem o custo do ingresso, mas o prazer que se perde ao abrir mão da segunda opção. Então, embora exista uma consequência monetária na escolha de algo, o custo de oportunidade significa mais: você não pode assistir a um filme e patinar ao mesmo tempo. Às vezes existe o chamado custo de oportunidade, mesmo sem custo monetário. Wieser concluiu que, afinal, o preço de um produto era definido pelo desejo em relação a ele, o que se media por aquilo de que as pessoas se dispunham a desistir para obtê-lo, mais do que quanto custara produzi-lo.
A expressão "negociação coletiva" foi cunhada pela reformista socialista britânica Beatrice Webb em 1891 para descrever a organização dos trabalhadores em sindicatos, que negociam salários e condições com os empregadores em nome dos trabalhadores. Webb e seu marido, Sidney, fizeram campanha contra a pobreza, e seus livros provocaram mudanças no âmbito do governo. Em 1894, eles publicaram History of trade unionism, documentando a ascensão dos sindicatos durante a Revolução Industrial na Grã-Bretanha, quando grande número de trabalhadores foi despejado nas novas fábricas. As condições eram duras, a segurança no emprego, praticamente nenhuma, e os salários, perto da miséria. As Leis de Combinação de 1799 e 1800 proibiram os sindicatos, e qualquer trabalhador que se unisse a outro para ganhar aumento de salário ou diminuição do expediente era condenado a três meses de cadeia. Em 1824, essas leis foram revogadas, e os sindicatos formaram-se rapidamente, sobretudo na indústria têxtil. Uma série de greves levou a uma nova lei, que limitou os direitos sindicais a reuniões para negociação coletiva.
Ao aumentar a filiação a sindicatos na Europa ao longo do século XIX, criou-se um debate entre os que consideravam os sindicatos dentro da tradição das corporações de ofícios, negociando melhores condições de trabalho para seus membros, e aqueles que os viam como a vanguarda da revolução, lutando por um mundo melhor para todos os trabalhadores
Uma luta constante
A negociação coletiva foi amplamente adotada porque funciona para empregadores e trabalhadores. Simplifica demais a combinação das condições, pois um acordo em geral é aplicável a todo um setor.
Contudo, desde os anos 1980 os sindicatos e o poder de negociação coletiva diminuíram drasticamente. O economista americano Milton Friedman (p. 199) afirmou que a sindicalização proporciona salários mais altos aos filiados em detrimento de empregos e reduz os salários nos setores não sindicalizados. Talvez por essa razão ou outras mais políticas, os governos sempre procuram conter o poder sindical proibindo greves solidárias.
A globalização da produção também isolou grupos de trabalhadores nacionais. Os termos sob os quais as pessoas trabalham num produto global costumam ser determinados localmente entre os trabalhadores e a empresa, e não para todo o setor no país inteiro.
O economista americano Thorstein Veblen foi o primeiro a notar que o comportamento econômico é ditado por fatores psicológicos, como medo e busca de status, tanto quanto pelo interesse pessoal racional. Tendo crescido numa comunidade agrícola norueguesa em Minnesota, Veblen foi um forasteiro que observou os americanos super-ricos e interesseiros dos anos 1890. Em 1899, ele publicou sua crítica devastadora, A teoria da classe ociosa, em que afirmava que as qualidades marcantes da classe alta nova-iorquina eram como as dos chefes tribais — um excesso de diversão e dinheiro. Os ricos não compravam as coisas por precisar delas, mas para exibir riqueza e status. Veblen foi o primeiro a chamar isso de "consumo conspícuo".
Armadilha do consumo
Hoje, os "bens de Veblen" (p. 117) são artigos de luxo, como um carro Porsche e um relógio Rolex. A satisfação da pessoa cresce quanto mais deles ela tenha e quanto menos os outros tenham. Veblen acreditava que as sociedades ricas pudessem sofrer da "armadilha do consumo relativo", em que a produção é desperdiçada nesses bens. Desde que mais pessoas os consumam, haverá menos ganhos no bem-estar geral. Certos economistas afirmam que o consumo excessivo, alimentado pelos gastos com cartão de crédito, contribuiu para a crise financeira mundial de 2008.
Se um supermercado jogou caixas num jardim próximo para economizar dinheiro com coleta de lixo, ele sem dúvida é responsável pela limpeza. Contudo, quando o dano é menos óbvio mas custa para a sociedade — como uma fábrica poluir o ar —, o sistema de mercado tem uma solução?
Tributação de poluidores
Nos anos 1950, os economistas passaram a se referir a esses custos como externalidades, pois não se refletem nos preços de mercado e afetam terceiros. Isso é uma falha de mercado: já que a fábrica não precisa arcar com os custos sociais reais de suas ações, ela produz poluição a mais em relação ao que é socialmente aceito. O economista britânico Arthur Pigou disse que o jeito era tributar o poluidor. Esse "imposto pigouviano", como foi chamado, tinha a intenção de garantir que os custos totais da poluição fossem computados nas decisões do poluidor, de modo que a empresa só poluiria se os compradores estivessem dispostos a pagar pelos danos. Os governos hoje usam essa ideia em políticas como impostos para reduzir as emissões de carbono. Muitos acham que, além da eficiência econômica, é moralmente correto fazer o poluidor pagar e transferem a responsabilidade pelo problema à empresa. Todavia, não é simples impor um imposto pigouviano. Como o próprio Pigou ressaltou, estimar corretamente o custo real da poluição não é fácil.
O sociólogo alemão Max Weber interessava-se pelos contrastes no sucesso econômico de vários países no século XVI ao XIX. Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, ele afirmou que o norte da Europa e os EUA se saíram melhor que os países católicos da América do Sul por causa das crenças protestantes em predestinação, vocação e ética no trabalho. Para os católicos, o reconhecimento divino é evento futuro: deve-se levar uma vida decente e realizar boas ações para ser salvo. Porém, os ensinamentos protestantes, sobretudo os dos calvinistas, diziam que havia um "eleito" pré-escolhido destinado a ser salvo, que levaria uma vida virtuosa por fazer parte dos eleitos. Suas ações na vida física não os levariam à salvação, mas apenas mostrariam que eles já estavam destinados ao Paraíso. Como a Bíblias estimula o trabalho duro e a frugalidade, os protestantes visavam incorporar essas qualidades e mostrar que estavam entre os salvos, enquanto os outros enfrentavam a condenação. Sem poder comprar luxos, reinvestiam os lucros em seus negócios.
Vocações divinas
O catolicismo pregava que a única vocação dada por Deus era o sacerdócio, mas os protestantes achavam que as pessoas podiam ser chamadas a qualquer um dos ofícios seculares. A crença de que estavam servindo a Deus os encorajou a trabalhar com fervor religioso, fazendo-os produzir mais bens e ganhar mais dinheiro.
Weber acreditava que a fé protestante levava inevitavelmente a uma sociedade econômica capitalista, porque dava aos crentes a oportunidade de ver a busca de lucro como mostra de devoção, e não motivo de suspeição moral como ganância e ambição. A ideia da predestinação também os fez não se preocuparem com desigualdade social e pobreza, pois a riqueza material indicava riqueza espiritual.
Todavia, o argumento de Weber pode ser contestado. A principal potência europeia nos séculos XVI e XVII e primeira superpotência mundial foi a Espanha, inteiramente católica. Também se veem outros casos conflitantes na ascensão de países asiáticos que nunca foram protestantes ou cristãos. O Japão é a terceira maior economia do mundo, e a China cresce rapidamente.
Em países de alta renda, os governos quase sempre respondem por 30%-50% dos gastos na economia. Cerca de metade consiste em "aportes sociais", ou gastos com bem-estar. Na história, gastos sociais tão altos são um acontecimento bem recente, dos anos 1930 e 40.
Os gastos com bem-estar têm história longa. No século XVI, a Lei dos Pobres, na Inglaterra, supunha haver três tipos de pobre: os pobres dignos de ajuda (idosos, jovens e doentes), os desempregados dignos de ajuda (os que queriam trabalhar e não achavam emprego) e os pobres indignos (pedintes). Os primeiros dois grupos recebiam comida e dinheiro doados por moradores, mas o terceiro era tratado como criminoso. Com a industrialização, mudou a opinião sobre os pobres, e no século XVIII muita gente achava que os pobres eram os únicos culpados de sua situação. Os economistas britânicos David Ricardo (p. 84) e Thomas Malthus (p. 69) pediram a abolição da Lei dos Pobres, porque as doações desestimulavam o trabalho.
Essa opinião se disseminou, mas havia outra, do filósofo britânico John Stuart Mill (p. 95), em 1848. Mill afirmava que a economia voltava-se apenas para a produção — a distribuição da riqueza é escolha da sociedade. Em sua obra sobre política, Mill geralmente defendia a limitação do papel do governo, mas nesse caso, disse ele, o Estado deveria intervir para ajudar os incapazes de se superar e dar aos cidadãos a educação necessária para que ganhassem a vida.
Quando se ampliou o direito ao voto nos países europeus nos séculos XIX e XX, houve mais exigências de gastos sociais e redistribuição da riqueza. Sistemas elaborados de saúde e ensino público desenvolveram-se com os de benefícios sociais.
Pobreza no século XXI
Depois de 1800, criou-se enorme disparidade de riqueza entre a Europa e a América do Norte e o resto do mundo. A pobreza é um problema persistente no sul da Ásia e na África subsaariana. Os economistas enfatizam o papel da saúde, da educação e do transporte, bem como assistência direta aos pobres, para reduzir a pobreza.
O economista indiano Amartya Sen (p. 257) afirmou que pobreza são limitações nas "capacidades e funcionamentos" — as coisas que a pessoas conseguem fazer ou ser —, não os bens ou serviços a que elas têm acesso. Essa ideia reflete-se nas perguntas constantes sobre a linha da pobreza ser absoluta (atender às exigências básicas) ou relativa (como uma porcentagem da renda média).
O filósofo alemão Karl Marx descreveu a organização econômica socialista em sua grande obra, O capital, de 1867 (pp. 100-05). A economia socialista, diz ele, requer que o Estado possua os meios de produção (como fábricas). Concorrência é desperdício. Marx propôs que a sociedade funcionasse como uma fábrica enorme e acreditava que o capitalismo inevitavelmente causaria a revolução.
Os economistas levaram a sério as ideias de Marx. Quando o italiano Vilfredo Pareto (p. 131) usou a matemática para demonstrar que a concorrência de livre mercado produz resultados eficazes, ele também disse que estes poderiam ser atingidos pelo planejamento central socialista. Seu compatriota economista Enrico Barone elaborou a ideia em Il ministro della produzione nello stato collettivista (1908). Poucos anos depois, a Europa foi tomada pela Primeira Guerra Mundial, vista por muitos como o fracasso catastrófico da velha ordem. A Revolução Russa de 1917 deu um exemplo da tomada socialista da economia, e as potências derrotadas na guerra — Alemanha, Áustria e Hungria — viram os partidos socialistas tomar o poder.
Os economistas do livre mercado eram incapazes de apresentar contra- -argumentos teóricos ao socialismo. Mas então, em 1920, o austríaco Ludwig von Mises levantou uma objeção fundamental ao dizer que o planejamento no socialismo era impossível.
Cálculo com moeda
O artigo de Von Mises de 1920, Economic calculation in the socialist commonwealth, continha uma contestação simples: dizia que a produção na economia moderna é tão complexa que a informação dada pelos preços de mercado — gerados pela rivalidade de muitos produtores voltados para o lucro — é essencial ao planejamento. Preços e lucros são necessários para determinar onde está a procura e orientar o investimento. Suas ideias iniciaram um debate entre capitalismo e socialismo, chamado "cálculo socialista" ou "debate de sistemas".
Imagine o planejamento de uma ferrovia ligando duas cidades. Que percurso ela deve fazer? E será que deve mesmo ser construída? Essas decisões exigem a comparação de benefícios e custos. Os benefícios são economia nas despesas de transporte de muitos passageiros. Os custos incluem horas de trabalho, ferro, carvão, maquinário etc. É essencial usar uma unidade comum para fazer esse cálculo: a moeda, cujo valor se baseia nos preços de mercado. Contudo, no socialismo, deixam de existir os preços genuínos desses itens — o Estado tem de criá-los. Von Mises disse que, com relação aos bens de consumo, não havia grande problema. Não é difícil decidir, com base nas preferências do consumidor, se a terra é destinada à produção de mil litros de vinho ou 500 litros de óleo. Nem se trata de problema para a produção simples, como numa empresa familiar. Pode-se fazer um cálculo mental fácil sobre gastar um dia fazendo um banco, uma panela, um muro ou cortando frutas. Contudo, uma produção complexa exige um cálculo econômico formal. Sem ele, disse Von Mises, a mente "simplesmente ficaria perplexa ante os problemas de gestão e localização".
Preços de mercado
Além de usar os preços da moeda como unidade comum para avaliar projetos, no capitalismo o cálculo econômico tem duas outras vantagens. Primeira, os preços de mercado refletem automaticamente as avaliações de todos os envolvidos no comércio. Segunda, os preços de mercado refletem técnicas de produção factíveis tecnológica e economicamente. A rivalidade entre os produtores implica a escolha de técnicas de produção o mais lucrativas possível.
Von Mises afirmou que preços de mercado genuínos dependem da existência de dinheiro, que deve ser usado em todas as etapas - para comprar e vender os artigos presentes na produção e para comprá-los e vendê-los ao consumo. O dinheiro é usado de modo mais restrito no sistema socialista — pagar salários e comprar bens finais. Mas ele deixa de ser necessário no âmbito da produção estatal da economia, assim como não é necessário no funcionamento interno de uma fábrica. Von Mises considerou alternativas ao dinheiro, como a ideia de Marx de avaliar os produtos pelo número de horas de trabalho usadas na produção. Essa mensuração, porém, ignora a escassez relativa dos diversos materiais, as diversas qualidades da mão de obra ou o tempo real (em oposição ao trabalho) tomado pelo processo de produção. Só os preços de mercado levam em conta esses fatores.
Mudança de preço
Von Mises e seus seguidores da Escola Austríaca não acreditavam que as sociedades atingissem o equilíbrio, mas oscilavam "naturalmente" em torno de certo nível, ou estado de equilíbrio. Ele afirmou que as economias estão em desequilíbrio constante — sempre mudam, e os participantes são cercados de incerteza. Além do mais, um planejamento central simplesmente não pode adotar os preços que antes prevaleciam em um sistema de mercado. Se o planejamento central depende de preços vindos de um sistema diferente, como o socialismo poderia suplantar a economia de mercado?
A contestação de Von Mises provocou várias reações. Certos economistas disseram que a planificação central podia igualar oferta e procura por tentativa e erro, como no processo que Léon Walras (p. 120) sugerira para criar equilíbrio na economia de mercado. Contudo, esse enfoque matemático não diferia em nada do raciocínio de Barone, e qualquer debate sobre equilíbrio matemático era irrealista para a Escola Austríaca.
Defensores de Von Mises, Lionel Robbins e Friedrich Hayek (p. 177) acrescentaram que tal computo não era viável. Fora isso, o sistema socialista não conseguiria replicar o risco que os empresários assumem perante a incerteza no sistema de mercado. Em 1936, os economistas Oskar Lange e Abba Lerner propuseram um sistema de "socialismo de mercado", pelo qual empresas estatais diferentes tentam maximizar os lucros, segundo preços fixados pelo Estado. Hayek, novo paladino da Escola Austríaca, liderou a resposta ao socialismo de mercado (pp. 172-77), argumentando que só o livre mercado poderia dar a informação e os incentivos necessários.
Socialismo em ação
Em parte de sua existência, a União Soviética usou uma forma de socialismo de mercado. De início pareceu ir bem, mas o sistema econômico sofria de problemas persistentes. Houve tentativas periódicas de reforma, mudando as metas de produção para vendas e tentando dar mais discrição às empresas estatais. Mas estas quase sempre escondiam dos planejadores centrais os recursos, atingiam as metas por atalhos que não atendiam às necessidades dos clientes e negligenciavam tarefas externas aos seus planos. Houve desperdício considerável, e a produção ficou bem aquém das metas. Quando o sistema ruiu, a preocupação da Escola Austríaca com incentivos e informação parecia justificada.
Von Mises era igualmente crítico de qualquer tipo de intervenção governamental na economia de mercado. Para ele, a intervenção produz efeitos adversos que levam a nova intervenção, até que, pouco a pouco, a sociedade é levada ao socialismo real. Na economia de mercado, as empresas lucram por servir aos consumidores, e na opinião dele — e da Escola Austríaca — não deveriam existir restrições a tal atividade proveitosa. A Escola Austríaca não aceita o conceito de falha de mercado, ou ao menos o considera superado pela falha do governo. Ela crê que o monopólio seja causado por governos, e não pela empresa privada. As externalidades (resultados que não se refletem nos preços de mercado), como poluição, são levadas em conta pelos consumidores ou solucionadas por associações voluntárias ou pelas reações daqueles cujos direitos de propriedade são afetados por elas.
Para a Escola Austríaca, uma das piores formas de intervenção governamental é na oferta de moeda. Ela afirma que, quando os governos inflacionam a oferta de moeda (emitindo mais dinheiro, por exemplo), as taxas de juro ficam muito baixas, o que, por sua vez, resulta em investimentos ruins. A única coisa a fazer quando uma bolha estoura é aceitar as falhas comerciais e a consequente depressão. Essa doutrina recomenda o fim dos bancos centrais e o lastreamento da moeda em um padrão real, como o ouro. A Escola Austríaca acredita piamente num governo laissez-faire.
Em 1900, havia cinco escolas econômicas principais: o marxismo, a Escola Histórica Alemã (também crítica do sistema de mercado) e três versões do enfoque dominante de livre mercado — a Escola Britânica (liderada por Alfred Marshall), a Escola de Lausanne (centrada no equilíbrio geral através de equações matemáticas) e a Escola Austríaca (liderada por Carl Menger - p. 335). A Britânica e a de Lausanne tornaram-se a linha econômica dominante, mas a Austríaca trilhou um caminho inflexível. Só há pouco tempo, após a crise financeira de 2008 e a derrocada do socialismo, sua popularidade começou a crescer.
Quando vem a recessão e as empresas e os empregos começam a sumir, costuma surgir o clamor pela intervenção do governo para atacar esses efeitos. O economista austríaco Joseph Schumpeter, que escrevia em meio à Grande Depressão dos anos 1930, discordou. Insistiu que as recessões são o modo de o capitalismo avançar, largando o ineficiente e abrindo caminho ao novo crescimento, num processo chamado por Karl Marx (p. 105) de "destruição criativa".
Schumpeter achava que os empreendedores estão no coração do progresso capitalista. Se Adam Smith (p. 61) via o lucro sair dos rendimentos do capital e Marx da exploração do trabalho, Schumpeter disse que o lucro vem da inovação, que não provém do capital nem do trabalho. Ele via o empreendedor como uma nova classe de gente, um "arrivista" fora da classe capitalista ou trabalhadora, que inova, criando produtos e formas de produção em condições incertas.
A resposta criativa do empreendedor à mudança econômica o faz destacar-se dos donos de empresas existentes, que só dão "respostas adaptativas" a mudanças econômicas menores. Forçados a levar suas inovações ao mercado, os empreendedores correm riscos e inevitavelmente enfrentam resistência. Perturbam a velha ordem e abrem novas oportunidades de lucro. Para Schumpeter, a inovação cria mercados com mais eficiência que a "mão invisível" de Smith ou a concorrência do livre mercado.
Rompendo barreiras
Schumpeter disse que, embora um novo mercado possa crescer depois da inovação, outros logo a imitam e passam a sugar os lucros do inovador original. Com o tempo, o mercado começa a estagnar. As recessões são um meio vital para as coisas voltarem a progredir, tirando o que é morto, ainda que o processo seja doloroso. Nos últimos anos, os estrategistas de negócios, como o economista americano Clayton M. Christensen, têm diferenciado dois tipos de inovação. As inovações "de sustentação" mantêm um sistema em curso e quase sempre são melhorias tecnológicas. Por outro lado, as inovações "de ruptura" abalam o mercado e realmente provocam movimentação, alterando-o pela inovação de produtos. Por exemplo, embora a Apple não tenha inventado a tecnologia dos toca-músicas digitais, ela aliou um produto de belo projeto (iPod) a um programa de download de músicas (iTunes) para fornecer um novo acesso à música.
Marx achava que a destruição criativa dava ao capitalismo enorme energia, mas também crises explosivas que o destruiriam. Schumpeter concordou, mas afirmou que ele se destruiria devido ao seu sucesso, não ao fracasso. O austríaco considerava os monopólios o motor de inovação, mas disse que estes estavam fadados a crescer e se tornar empresas supergrandes, cuja burocracia enfim sufocaria o espírito empreendedor que lhe dera vida.
Em 1936, John Maynard Keynes publicou sua obra inovadora Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, quase sempre citada como Teoria geral. O livro foi importante porque levou as pessoas a considerar o funcionamento da economia de uma perspectiva totalmente diversa. Fez de Keynes um dos economistas mais famosos do mundo.
Desde que o economista escocês Adam Smith (p. 61) publicou A riqueza das nações, em 1776, delineando o que se chamaria economia clássica, a economia era considerada um conjunto perfeitamente equilibrado de mercados isolados e de tomadores de decisões. O consenso entre os economistas era de que a economia chegaria espontânea e naturalmente ao equilíbrio, e quem quisesse trabalhar encontraria emprego.
Keynes virou do avesso boa parte do sistema de causa e efeito do modelo clássico. Também afirmou que a macroeconomia (toda a economia) se comportava bem diferente da microeconomia (uma porção da economia). Formado na escola clássica, Keynes declarou que lutou para se libertar de seu raciocínio habitual. Seu sucesso nisso, porém, levou a um enfoque econômico radical que apresentou um conjunto inteiramente diferente de causas do desemprego e soluções também diferentes.
Por um século antes da publicação da Teoria geral, a pobreza, e não o desemprego, era o problema persistente. Até os anos 1880, países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, que passavam por rápido crescimento em resultado da Revolução Industrial, gozaram de avanços generalizados nos padrões de vida, mas os bolsões de miséria absoluta permaneceram.
O pobre ocioso
Fazia muito tempo que os economistas viam a pobreza como a maior questão de política social, mas no final do século XIX o desemprego dos trabalhadores passou a causar preocupação crescente. De início, achou-se que o problema fosse causado por doença ou alguma falha de caráter do trabalhador, como indolência, vício, falta de iniciativa ou de ética laboral. Isso significa que se considerava o desemprego um problema dos indivíduos, que por alguma razão eram incapazes de trabalhar, e não um problema da sociedade em geral. Sem dúvida não era tido como questão de que a política pública devesse se ocupar.
Em 1909, a ativista social britânica Beatrice Webb (p. 135) apresentou o Minority report of the royal commission on the poor laws. Foi o primeiro documento que traçou o conceito e as políticas de um estado de bem-estar social, afirmando que "o dever de organizar o mercado nacional de trabalho, a fim de evitar ou reduzir o desemprego, deve caber a um ministro". Usou-se pela primeira vez o termo "desemprego involuntário". Com isso surgiu a ideia de que o desemprego é causado não por deficiências dos indivíduos, mas por condições econômicas do meio que estão fora do controle deles.
Desemprego involuntário
Em 1913, o conceito de desemprego involuntário era entendido conforme a definição do economista britânico Arthur Pigou (p.336): situação em que os trabalhadores de um setor desejavam trabalhar pelo salário corrente mais do que era exigido. Mesmo hoje, essa definição seria considerada uma boa descrição da natureza involuntária do desemprego, na medida em que assinala que não se deu aos trabalhadores a opção de trabalhar ou não. Na época, a visão clássica de desemprego ainda predominava. Segundo ela, o desemprego era principalmente voluntário - existia porque os trabalhadores preferiam não trabalhar pelo salário vigente ou participar de alguma "atividade fora do mercado", como cuidar de crianças. Quem defendia esse ponto de vista insistia que o desemprego involuntário deveria ser enfrentado com mecanismos automáticos e autocorretivos do livre mercado.
De acordo com a visão clássica, o desemprego involuntário não persistiria muito tempo: o jogo dos mercados sempre voltaria rapidamente ao pleno emprego na economia. Existem evidências de que Keynes de início simpatizava com essa opinião. Em A treatise on money (1930), ele escreveu que as empresas têm três opções quando os preços caem mais rápido que os custos: suportar as perdas, fechar as portas ou se empenhar com os empregados na redução de seus ganhos por unidade produzida. Só esta última, disse Keynes, era capaz de restaurar o verdadeiro equilíbrio do ponto de vista nacional.
Contudo, depois da quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e da Grande Depressão que se espalhou pelo mundo a seguir, Keynes mudou de ideia. O colapso financeiro de Wall Street aprisionou as economias do mundo num ciclo de produção decrescente - nos EUA, ela caiu 40%. Em 1931, a renda nacional americana caíra dos US$87 bilhões de antes da quebra para US$ 42 bilhões; em 1933, 14 milhões de americanos estavam sem emprego. As figuras esquálidas assombravam a paisagem — a rápida queda dos padrões de vida fica evidente nas imagens da pobreza e do desespero da época. Ao testemunhar essa devastação, Keynes inspirou-se para escrever a Teoria geral.
A Grande Depressão
Keynes tomou o mundo da Grande Depressão como ponto de partida. O funcionamento normal do mercado parecia incapaz de criar a pressão necessária para corrigir o problema de desemprego alto, persistente e involuntário na economia. Em geral, o número de pessoas ativas é determinado pelo nível dos salários reais — o nível dos salários em relação ao preço dos bens e serviços ofertados. Em tempos de recessão, os preços dos bens tendem a cair mais rápido que o nível dos salários, porque a procura de bens se reduz e os preços caem, ao passo que os trabalhadores resistem ao corte nos salários. Isso faz o salário real aumentar. Com tal nível mais alto de salários reais, cresce o número de pessoas dispostas a trabalhar e diminui o número de trabalhadores procurados pelas empresas, pois estão mais caros. O resultado é o desemprego.
Salários rígidos
Um modo de eliminar o desemprego seria a mão de obra excedente (as pessoas sem trabalho) criar pressão para os salários caírem, dispondo-se a trabalhar por menos do que o salário corrente. Os economistas clássicos acreditavam que os mercados fossem suficientemente flexíveis para se ajustar e fazer baixar os salários reais. Mas Keynes disse que os salários monetários podiam ser "rígidos" (p.303) e não se ajustariam: o desemprego involuntário persistiria. Keynes argumentou que os trabalhadores eram incapazes de voltar ao trabalho aceitando salários menores. Ele assinalou que, depois de um colapso na procura, como ocorrera na Grande Depressão, as empresas poderiam hipoteticamente querer empregar mais trabalhadores por salários reais menores, mas na realidade não podem. Isso porque a procura por produção é restringida pela ausência de procura dos bens que elas fazem na economia como um todo. Os trabalhadores querem se oferecer mais, e as empresas querem fazer mais, pois do contrário as fábricas e o maquinário ficam ociosos. A ausência de demanda aprisiona trabalhadores e empresas num círculo vicioso de desemprego e subprodução.
O papel do governo
Keynes concluiu que a solução da questão do desemprego involuntário fugia ao controle dos trabalhadores e das empresas. A solução, disse, era os governos gastarem mais na economia, de modo que a procura global de produtos crescesse. Isso estimularia as empresas a admitir mais trabalhadores e, à medida que Os preços subissem, os salários reais cairiam, fazendo a economia retomar o pleno emprego. Para Keynes, não importava como o Estado gastaria mais. Ficou famosa sua afirmação de que "o Tesouro poderia encher garrafas usadas com papel-moeda e as enterrar [...] e deixar à iniciativa privada, de acordo com os bem experimentados princípios do laissez-faire, a tarefa de desenterrar novamente as notas". Desde que o governo injetasse demanda na economia, todo o sistema começaria a se recuperar.
Salários gerais
A Teoria geral não é fácil de entender — até Keynes disse achá-la "complexa, mal organizada e às vezes obscura" — e ainda hoje ocorre um debate considerável sobre o que precisamente Keynes quis dizer, sobretudo com a diferença entre desemprego involuntário e voluntário. Uma explicação de o alto desemprego ser involuntário baseia-se na ideia de que a procura de mão de obra pelas empresas é determinada pelo salário real que elas devem pagar. Trabalhadores e empresas só podem negociar o montante salarial quanto àquele serviço ou àquele setor — não têm controle algum sobre o nível de preços na economia mais ampla, geral. De fato, salários menores podem reduzir o custo da produção e, por conseguinte, também os preços dos bens, implicando que o salário real não cairá ao nível necessário para acabar com o desemprego. Desse modo, o desemprego é involuntário, porque os trabalhadores são impotentes para fazer algo a respeito. Existe um ponto de vista disseminado de que os sindicatos podem resistir ao ajuste dos salários ao nível exigido pelo pleno emprego por meio de ação coletiva, e assim os desempregados são impedidos de obter emprego. Keynes inseriu esse tipo de desemprego na categoria voluntária, alegando que os trabalhadores em geral concordam aberta ou tacitamente em não trabalhar por menos do que o salário corrente. O raciocínio de Keynes era diferente do da economia posterior, que acabou dominada pela modelagem matemática. Boa parte da macroeconomia do pós-guerra pôs-se a esclarecer o que Keynes dissera e a configurar seu raciocínio em modelos e equações mais formais. O economista britânico John Hicks (p. 165) formulou ideias keynesianas num modelo financeiro chamado ISLM. Após a guerra, o ISLM tornou-se o modelo- -padrão macroeconômico e ainda é uma das primeiras coisas que se ensinam aos estudantes de economia.
Novas interpretações
As considerações atuais sobre a obra de Keynes dizem que o que mais preocupa os trabalhadores é o seu salário em relação ao dos outros trabalhadores. Eles têm uma ideia da sua posição numa hipotética "tabela de salários da categoria" e vão combater com unhas e dentes qualquer redução de ganho que os faça descer nessa tabela. É interessante notar que um aumento geral no nível de preços por causa da inflação, que também causaria a redução dos salários reais, é combatido com menos intensidade, porque atinge a todos os trabalhadores.
As teorias econômicas conhecidas como modelos de salário de eficiência (p. 302) perguntam-se por que as empresas não baixam os salários para aumentar os lucros e respondem que as empresas relutam em fazer isso porque o corte salarial desmotivaria os trabalhadores ativos, que sentiriam ameaçada a sua posição relativa na tabela da categoria. O resultado global do corte de salários implicaria, na verdade, uma perda nos lucros, porque o benefício de salários menores é mais do que superado pela redução na produtividade, resultante do moral baixo ou da saída de trabalhadores qualificados. Assim, os trabalhadores não podem dar a si mesmos um preço para trabalhar. Os correspondentes modelos "neokeynesianos" de determinação salarial propõem outras explicações para os salários rígidos (p. 303).
Ressurgimento do clássico
O keynesianismo caiu em desgraça nos anos 1970, quando as economias europeias enfrentaram problemas. As ideias clássicas a respeito do desemprego foram reavivadas pela chamada escola "neoclássica" de economistas, que mais uma vez desmentiram a possibilidade de um desemprego involuntário persistente. O economista americano Robert Lucas (1937-) foi um dos líderes do ataque ao keynesianismo. Quando lhe perguntaram como definiria um contador que dirige um táxi por não encontrar emprego de contador, Lucas respondeu: "Eu o definiria de taxista se o que ele faz é dirigir um táxi". Para os clássicos modernos, o mercado sempre se abre, e os trabalhadores sempre têm a opção de trabalhar ou não.
Os teóricos dos salários de eficiência talvez concordem que todos os trabalhadores que querem emprego numa recessão podem encontrá-lo, mas eles acham que alguns trabalhadores — como o contador — são subutilizados e não maximizam seu valor para a economia. Como taxista, o homem continua sendo um contador involuntariamente desempregado. Quando a demanda na economia retomar o nível normal, ele voltará à sua ocupação mais produtiva e mais eficiente: contabilidade.
A diferença fundamental nas opiniões sobre a capacidade de ajuste dos mercados está no centro do debate entre economistas keynesianos e clássicos.
Realidade clássica
Keynes talvez concordasse com o economista americano Joseph Stiglitz (p. 338), ganhador do Nobel, segundo o qual se poderia dizer que, na Grande Depressão nos EUA, um quarto da força de trabalho desempregada de Chicago havia optado pelo desemprego, já que poderia ter ido para a Califórnia para apanhar frutas em fazendas, junto com os outros milhões que fizeram o mesmo. Stiglitz disse que ainda assim isso continuava a representar um fracasso enorme do mercado e, se a teoria clássica sustenta que não se pode fazer nada além de sentir pena dos desempregados por terem tido esse azar, seria muito melhor não consultarmos a teoria.
Existe um elemento de risco em qualquer operação comercial na economia de mercado. Antes de decidir uma linha de ação, é preciso considerar os resultados possíveis e comparar o retorno potencial com sua probabilidade, ou seja, calcular a "utilidade esperada". Se há uma alternativa segura, em geral ela é preferida à opção mais arriscada, a menos que o retorno esperado na opção mais arriscada seja bem mais sedutor. Quanto maior o risco, maior deve ser o lucro para atrair investidores.
A semelhança com a comparação das chances no jogo é clara. Matemáticos do século XVIII fizeram os primeiros estudos sobre o risco, analisando as probabilidades nos jogos de azar. Nos anos 1920, o economista americano Frank Knight foi um dos primeiros que analisaram a relação entre risco e lucro na economia de livre mercado. Ele também diferenciou risco e incerteza. Segundo a sua definição, há risco quando o resultado dos atos não é conhecido, mas pode-se determinar a probabilidade de vários resultados potenciais. Isso permite uma análise matemática do grau de risco, contra o qual se pode estar assegurado. Então, há como comparar realisticamente a utilidade esperada com as alternativas.
Para Knight, "incerteza" diz respeito a uma situação em que não se conhece a probabilidade dos resultados, e assim não se pode aferir a utilidade esperada dos vários resultados possíveis. Isso significa que o risco não pode ser medido matematicamente. Knight diz que há lucro quando as empresas estão dispostas a aceitar uma incerteza inafiançável e a recompensa do risco, mesmo que a economia esteja em equilíbrio por muito tempo.
Investidores e empresários quase sempre atuam sob risco e incerteza, reconhecendo o potencial dos retornos altos. Em certas ocasiões, essa atitude de "quem ousa vence" pode ser extrema, como no caso de negociantes de títulos e banqueiros que já contam com ganhar ou perder uma enorme fortuna. A maioria das pessoas, como os poupadores comuns que põem suas economias numa poupança com juros fixos, prefere jogar com segurança, privando-se de lucros para obter o rendimento de um investimento sem risco. Existe, em suma, um espectro de preferências de risco, que vai do propenso ao risco ao avesso a ele, do mesmo modo que existe uma gama de graus de risco. A atração de um retorno alto pode tentar até o mais conservador a assumir certo grau de risco.
Graus de risco
O risco aplica-se a todos os tipos de atividade econômica, inclusive investir dinheiro em ações, fazer empréstimos sem garantia mais que com garantia e vender produtos em um mercado completamente novo. Nossas decisões econômicas pessoais também são determinadas pelo risco: se trabalhamos para um empregador ou abrimos um negócio próprio e como investimos as economias. Os mercados de seguro só existem porque temos aversão ao risco. Corretores de seguro e atuários, agências de rating de crédito e pesquisa de mercado podem ajudar a estimar o grau de risco e se os retornos o justificam, mas certo grau insondável de risco sempre existirá.
A macroeconomia tenta explicar o funcionamento da economia inteira. Em 1758, o economista francês François Quesnay (p. 45) demonstrou que os grandes gastos feitos por quem está no topo da pirâmide econômica — os proprietários de terra — eram multiplicados por quem recebia o dinheiro e o gastava.
No século XX, o economista britânico John Maynard Keynes analisou especificamente por que os preços e a mão de obra não revertem para o equilíbrio, ou níveis naturais, nas depressões. A economia clássica — a escola de pensamento dominante do século XVIII ao XX — diz que isso deveria ocorrer naturalmente com o funcionamento normal do livre mercado. Keynes concluiu que a forma mais rápida de ajudar uma economia a se recuperar seria incentivar a demanda com gastos públicos no curto prazo.
A ideia-chave aqui era a do multiplicador, debatido por Keynes e outros, sobretudo Richard Kahn, e depois elaborada matematicamente por John Hicks. Propõe que, só o governo investe em projetos grandes (como construção de uma ferrovia) durante a recessão, o emprego cresce mais do que o número de trabalhadores empregados diretamente. A renda nacional sobe mais do que a quantia gasta pelo governo.
Isso porque os trabalhadores nos projetos do governo gastam parte de sua renda em coisas feitas por outras pessoas ao seu redor, e esse gasto cria mais empregos. Esses trabalhadores novos gastam parte de sua renda, criando ainda mais empregos. Esse processo continua, mas o efeito se reduzirá em cada rodada de gastos, pois cada vez uma parte da renda extra será poupada ou gasta em produtos estrangeiros. A estimativa-padrão é de que cada $1 de gasto público deve criar um aumento na renda de $1,40 com esses efeitos secundários.
Em 1936, o economista britânico John Hicks criou um modelo matemático baseado no multiplicador keynesiano, chamado modelo ISLM (investimento, poupança, demanda de liquidez e oferta de moeda). Ele seria usado para prever como as mudanças nos gastos públicos ou a tributação impactariam no nível de emprego por meio do multiplicador. No pós-guerra, ele se tornou o instrumento-padrão para explicar o funcionamento da economia.
Alguns economistas criticaram o preceito do multiplicador keynesiano, dizendo que os governos financiariam gastos com tributação ou dívida. Os impostos tirariam dinheiro da economia, criando efeito oposto ao desejado, e a dívida causaria inflação, reduzindo o poder aquisitivo daqueles salários vitais.
Os economistas creem que as pessoas são racionais, no sentido de que farão o que der o mais alto retorno econômico, seja ao escolher um carro ou o presidente. O economista austríaco Karl Polanyi subverteu essa ideia: disse que o importante era que as pessoas são seres sociais submersos numa "sopa" de cultura e tradição. Essa sopa é que nutre a economia, afirmou ele, não motivos de lucro de indivíduos calculistas.
Economia das ilhas
Em A grande transformação (1944), Polanyi escreveu sobre as ilhas Trobriand, da Papua-Nova Guiné, cuja economia tribal era conduzida pelo comportamento não econômico de maneira surpreendente. Mesmo hoje, o comércio ocorre por meio de presentes, não pela barganha. Os moradores das ilhas fazem viagens perigosas a tribos vizinhas para dar de presente colares de conchas vermelhas e braçadeiras brancas, e a prática é ditada por costumes e ritos mágicos chamados kula. Os presentes não são guardados, mas passados adiante. Ao mostrar generosidade, eles aumentam seu prestígio social. A ânsia por status, não lucro, é o motor do negócio.
As economias tribais são sem dúvida diferentes da dos países industrializados atuais. Polanyi afirmou que, com o desenvolvimento das nações europeias, o anonimato do mercado superou os costumes e a tradição. Mesmo assim, a sopa de cultura e os laços sociais ainda sustentam economias avançadas.
O historiador econômico israelense Avner Offer (1944-) documentou o papel de preceitos não mercadológicos na vida econômica moderna, inclusive os de troca de presentes e favores. Como os habitantes das ilhas, as sociedades modernas praticam a redistribuição da riqueza — de outro modo não seria possível construir estradas ou armar exércitos. Atividades econômicas domésticas como cozinhar, limpar e cuidar dos filhos - tanto nas economias tradicionais como nas modernas — são feitas mais por sua utilidade que por lucro. Offer estima que na Grã-Bretanha do fim do século XX esse tipo de produção não mercadológica tenha chegado a 30% da renda pública.
Economias individualistas
Polanyi achava que as economias proviessem das características "substantivas" das sociedades — suas peculiaridades culturais. Para o purista econômico tudo isso é irrelevante e encobre o que na verdade impulsiona as economias: os sinais que os preços enviam a indivíduos racionais cuja sede de ganhar vence a religião e a cultura, mesmo nas comunidades mais tradicionais. Essas duas posições só podem ser resolvidas se for possível reduzir as normas que conduzem sociedades inteiras aos atos de indivíduos egoístas. Para Polanyi, porém, os mercados modernos e as estruturas sociais estavam em conflito, e, onde os mercados se expandissem, logo haveria uma insurreição social.
A maioria das pessoas acha que o princípio básico de I uma economia de livre mercado é que as empresas são gerenciadas no melhor interesse dos acionistas. Segundo os economistas americanos Adolf Berle e Gardiner Means, essa opinião é inteiramente errada. Seu livro de 1932, A moderna sociedade anônima e a propriedade privada, lançou uma luz sobre a governança corporativa e mostrou que a balança do poder pendeu dos donos da companhia para seus executivos.
Berle e Means afirmaram que o domínio dos executivos começara na Revolução Industrial quando surgiu o sistema fabril. Um número crescente de trabalhadores foi reunido no mesmo lugar, onde davam seu trabalho à gerência em troca de salário. As empresas modernas geram a riqueza de diversos indivíduos (os acionistas). Estes entregam o controle delas a um grupo gerencial, dessa vez em troca de dividendos. Ambos os casos resultam numa direção poderosa que não deve satisfação a ninguém.
Acionistas apáticos
Berle e Means identificaram os acionistas modernos como donos passivos. Esses donos entregam sua riqueza à governança da empresa e não mais tomam decisões sobre "como tomar conta" de seus investimentos — deram essa responsabilidade e esse poder à gerência. A apatia dos pequenos acionistas implica que eles ou mantêm o status quo ou deixam de exercer sua opção de voto. Isso pode estar fora de seu alcance — se realmente quisessem mudar as coisas, comprariam mais ações ou convenceriam um número suficiente de acionistas a forçar a mudança. Consequentemente, os donos de companhias têm influência cada vez menor na condução delas. Esse fato não chega a ser um problema quando os interesses da direção coincidem com os dos acionistas. No entanto, se presumirmos que a direção está agindo em nome próprio e buscando lucro pessoal, seus interesses serão bem diferentes daqueles dos proprietários.
Berle e Means defenderam uma mudança na legislação de empresas que devolvesse aos acionistas o poder sobre a companhia. Eles insistiram que os acionistas deveriam receber o direito de contratar e demitir diretores e realizar reuniões gerais periódicas. Quando o livro deles foi lançado, a lei das sociedades anônimas americanas não contava com medidas desse tipo, e Berle e Means foram decisivos na fundamentação do sistema legal empresarial da atualidade.
Fracassos empresariais
Hoje, o fracasso da governança de empresas é o cerne de boa parte do descontentamento popular com o capitalismo. Como os contribuintes tornaram-se donos majoritários de algumas grandes empresas, a liderança empresarial passou a ficar sob os holofotes, revelando o caráter interesseiro de alguns altos executivos, que são compensados com salários e bônus sempre crescentes. Muitos acham que os acionistas continuam importantes diante da máquina empresarial.
Nos anos 1930, o economista norueguês Ragnar Frisch elaborou uma nova disciplina chamada "econometria". Seu objeto era desenvolver métodos para explicar e prever os movimentos da economia. A econometria é a aplicação de métodos de prova matemática às teorias econômicas, dando uma base estatística para comprovar ou contestar uma teoria. As crenças econômicas, como "melhor educação implica salário mais alto", podem estar corretas, mas só há como prová-las com uma equação que pegue dados do grau de aprendizagem e os compare com os níveis salariais. A econometria também permite analisar tendências passadas do mercado e prever o desempenho extraindo padrões de dados econômicos.
Ciladas estatísticas
Embora a econometria seja um recurso de explicação empírica importante, há ciladas. Por exemplo, velhas tendências do mercado não garantem o desempenho futuro do mercado. Também é difícil levar em conta todas as variáveis. Na educação, por exemplo, a aprendizagem não é o único fator que afeta o salário — qualificações imensuráveis também podem atuar. Esses problemas talvez reduzam a validade dos resultados de modelos econômicos. Também vale notar que não se deve confundir importância estatística com importância econômica.
Em 1932, o economista britânico Lionel Robbins provocou polêmica ao publicar Um ensaio sobre a natureza e a importância da ciência econômica, que continha uma nova definição de economia. Robbins definiu-a como ciência das ações humanas diante de recursos limitados com vários usos. Baseou sua definição no fato de que as necessidades humanas são infinitas, mas há apenas uma quantidade finita de recursos.
Quando uma carência é atendida, outra lhe toma o lugar. Contudo, existem apenas recursos limitados (terra, mão de obra, empreendedorismo e capital) para satisfazer esses desejos. Escassez significa que nem todos os desejos podem ser atendidos.
Necessidades x recursos
A tensão entre necessidades ilimitadas e recursos limitados é a base da economia. Todo recurso tem um uso alternativo — por exemplo, se um campo é usado como pasto, ele não pode dar uma safra ao mesmo tempo. Isso significa ter de decidir a melhor maneira de usar os recursos. Robbins acreditava que esse fosse o problema de qualquer sociedade — decidir quais e quantos bens produzir, a fim de satisfazer os consumidores. É a própria escassez de recursos que lhes dá o valor que têm.
Hoje a definição de Robbins é bastante aceita, mas há quem diga que a economia deve ser vista com mais amplitude — uma investigação de como as sociedades geram recursos ao longo do tempo.
A corrente econômica dominante sempre teve críticos. Seu foco em fórmulas matemáticas e suas suposições às vezes amplas levaram economistas a contestar tanto seus métodos quanto a falta de evidência empírica. Muitos desses críticos são da esquerda política, para os quais a linha dominante dá apoio evidente a um livre mercado injusto.
Linha minoritária, a Escola Austríaca afirmou bem o contrário. Defensora ferrenha do livre mercado, mas crítica da corrente dominante, ela conseguiu um lugar único na disciplina. O mais destacado desses radicais era o economista austro-britânico Friedrich Hayek. Ele disputa com John Maynard Keynes (p. 161) o título de mais influente economista do século XX e fez uma série de contribuições ao ideário político e econômico. Elas abrangiam economia, direito, teoria política e neurociência. Seus textos tinham um conjunto de princípios coerentes, bem argumentados, que ele considerava estar na tradição do liberalismo clássico: apoio aos mercados livres, apoio à propriedade privada e profundo ceticismo com acapacidade dos governos de moldar a sociedade.
Criação de ditaduras
A declaração mais lembrada de Hayek apareceu em O caminho da servidão. Na época, havia um entusiasmo crescente pela intervenção do governo e o planejamento central. Hayek disse que todas as tentativas de impor uma ordem coletiva na sociedade estão fadadas ao fracasso. Afirmou que levariam, inevitavelmente, ao totalitarismo do fascismo ou ao comunismo stalinista. Como qualquer planejamento atua obrigatoriamente contra a "ordem espontânea" do mercado, ele só pode ocorrer com certo grau de força ou coerção. Quanto mais esse governo faz planos e os imponha, mais coerção é necessária. Como os governos não são bem informados sobre os detalhes do funcionamento do mercado, o planejamento está destinado a fracassar por completo em suas metas e ao mesmo tempo tornar-se cada vez mais coercivo para compensar as falhas. Nesse ponto, a sociedade cairia num Estado totalitário, em que a liberdade seria extinta, por mais moderadas que fossem as metas iniciais dos planejadores.
Os economistas da esquerda disseram que a economia planificada não só era possível como era mais eficiente que o mercado livre. Seu primeiro adversário significativo, em 1920, foi outro membro da Escola Austríaca, Ludwig von Mises (p. 147), que disse que o socialismo — aí no sentido de planejamento central — não é viável economicamente. Não dá meios racionais de precificação dos produtos, pois depende do diktat (comando inquestionável) de um planejador ou comitê central para realizar as decisões de distribuição, que num mercado livre são executadas por centenas de milhares de pessoas. A quantidade de informação necessária para avaliar a escassez e o excedente de um mercado e fixar os preços corretamente é tão grande que a tentativa está fadada ao fracasso. O socialismo, escreveu Von Mises, é a "abolição da economia racional". Só um mercado livre, com propriedade privada, pode propiciar a base das decisões de preço descentralizadas que uma economia complexa exige.
Defesa do socialismo
O economista polonês Oskar Lange, porém, discordou de Von Mises. Ele respondeu à altura às afirmações de Von Mises num artigo de 1936, On the economic theory of socialism, usando uma elaboração da teoria do equilíbrio geral. Essa teoria, que só foi aperfeiçoada depois da Segunda Guerra Mundial, é uma representação matemática de uma economia de mercado resumida ao essencial. Todas as imperfeições dos mercados foram retiradas, e todos os participantes do mercado têm informação plena e atuam apenas em interesse próprio. Com base nisso, disse Lange, um comitê de planejamento central poderia fixar o conjunto inicial de preços na economia e depois permitir que todos na sociedade negociassem livremente, ajustando sua procura e sua oferta pautando-se pelos preços dados. O comitê de planejamento depois ajustaria os preços de acordo com a procura e a oferta. O resultado, declarou ele, seria eficaz. O planejamento poderia também reduzir as desigualdades de renda e restringir a tendência do mercado ao pensamento de curto prazo.
Lange usou as suposições comuns da microeconomia (de que a oferta e a procura determinam o preço) e as pôs de ponta-cabeça. Sua obra embasaria a economia de bem-estar, que analisa como os mercados livres podem atingir metas sociais desejáveis.
A Escola Austríaca
Contudo, Hayek e seus colegas apresentaram uma versão bem diversa das virtudes do mercado livre. Eles não presumiram que os mercados não tivessem imperfeições ou que as pessoas fossem bem informadas. Ao contrário, disseram, pelo fato de as pessoas e as empresas serem mal informadas e a sociedade, imperfeita, o mecanismo de mercado é a melhor maneira de distribuir os produtos. Essa visão tornou-se um preceito importante da Escola Austríaca.
Em situação de ignorância permanente, afirmou Hayek, o mercado é o melhor meio existente não para dar informação, mas para adquiri-la. Cada indivíduo e cada empresa sabem melhor de sua situação: têm produtos e serviços que as pessoas querem, podem planejar para o futuro e veem os preços que são relevantes para elas. A informação é específica e dispersa entre todos na sociedade. Os preços se movem em reação às ações de indivíduos e empresas e portanto refletem a quantidade total de informação disponível para toda a sociedade.
Hayek sustentou que essa "ordem espontânea" é a melhor forma de organizar a complexa economia moderna, já que o conhecimento sobre a sociedade nunca é perfeito. As tentativas de impor restrições coletivas a essa ordem representam um retorno às ordens instintivas, primitivas, da sociedade — e o mercado livre deve ser defendido contra isso.
Tirania coletiva
A ideia de uma ordem espontânea passou a dominar o pensamento de Hayek, e seus textos voltaram-se cada vez mais para questões políticas Estas foram mais bem apresentadas em The constitution of liberty (1962), que afirma que o governo só deveria agir para manter o funcionamento espontâneo do mercado, no que seja possível. A propriedade privada e os contratos são sagrados, e a sociedade livre deve seguir regras que se aplique a todos — ao próprio Estado inclusive. Além disso, se necessário, o Estado pode agir contra forças coletivistas que ameacem solapar o primado da lei. Hayek era totalmente a favor da democracia, mas crítico de sua inclinação, em certos casos, para a "tirania democrática do coletivo".
Nasce o neoliberalismo
Após a Segunda Guerra Mundial, a necessária reconstrução dos países levou a um consenso keynesiano, que propunha uma intervenção maior do governo na economia. Ao mesmo tempo, Hayek e outros da Escola Austríaca formaram a Sociedade Mont Perelin, que atuava como influência orientadora dos grupos de especialistas do livre mercado que surgiram durante o colapso do consenso keynesiano nos anos 1970. Um novo enfoque parecido da política econômica floresceu na América do Sul, mas foi sua adoção pelo governo de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e pelo de Ronald Reagan, nos EUA, que o tornaram significativo no mundo. Era o neoliberalismo, que seguia de perto as ideias da outrora difamada Escola Austríaca.
Os setores estatais foram privatizados, e os governos reduziram sua intervenção no funcionamento do mercado. A União Soviética desmoronou, dando novo ímpeto ao aparente triunfo dos temas hayekianos na política. Por todo o mundo, mesmo as parcelas antes categoricamente opostas aos mercados livres acreditaram que não havia alternativa viável, até mesmo o Partido Trabalhista britânico, que fora o alvo direto do Caminho da servidão de Hayek. Os economistas dominantes, fortes defensores do pensamento do livre mercado, como Milton Friedman, tornaram-se influentes. Em 2000, um "novo consenso" prevaleceu na macroeconomia, enfatizando o papel restrito do Estado.
Nova relevância
Apesar do aparente triunfo dos temas austríacos na economia e do Prêmio Nobel de Hayek em 1974, a teoria e os métodos distintos da Escola Austríaca continuaram em grande parte marginalizados. Todavia, o colapso do sistema financeiro mundial em 2007-08 e o subsequente resgate de bancos provocaram um interesse renovado em suas doutrinas. A Free Banking School de economia tomou a frente no ataque ao socorro aos bancos, afirmando que representa uma interferência injustificada no mercado. A Free Banking School, que propõe o fim do monopólio do governo na oferta de moeda, inspirou-se num ensaio de 1976 de Hayek, Denationalization of money, e suas ideias ganharam terreno. Os programas keynesianos de gastos públicos aumentados receberam crítica similar. Com a economia dominante em frequente estado de agitação, a Escola Austríaca deve exercer nova influência.
Nascido na Rússia, o economista Simon Kuznets referiu-se ao surgimento da economia moderna como revolução controlada, em que a fábrica tomou o lugar da fazenda. Os padrões de vida mais altos resultantes exigem mudanças econômicas e sociais mais profundas do que indicava de início uma taxa de crescimento numérica, simples. Kuznets chamou esse processo de "crescimento econômico moderno" e mostrou que o sucesso dessa conquista é o que diferencia os países ricos do resto.
A característica principal da teoria de crescimento de Kuznets é que a renda per capita cresce rápido, mesmo que a população aumente: há mais pessoas, e elas são mais ricas. Essa expansão é provocada pela disseminação de fábricas e máquinas. Com um aumento do capital para manter o crescimento industrial, os trabalhadores são levados de pequenas empresas familiares para companhias e fábricas impessoais. Porém, novas tecnologias e métodos de produção de grande escala não podem ser explorados se as pessoas são analfabetas, supersticiosas ou presas à aldeia. Para Kuznets, esse crescimento causa mudanças sociais profundas, com urbanização maior e enfraquecimento da religiosidade.
Revolução Industrial
A Grã-Bretanha foi o primeiro país a atingir o crescimento econômico moderno. A Revolução Industrial do século XVIII a pôs a caminho de se tornar uma nação industrializada avançada. A energia do vapor e as invenções remodelaram a produção. Os trabalhadores deixaram o campo e foram para as fábricas. As cidades cresceram. Novos transportes e tecnologias de comunicação permitiram às empresas britânicas penetrar na economia mundial. Sua economia não se transformou da noite para o dia, mas as mudanças sociais, tecnológicas e institucionais persistiram. Geraram melhorias inéditas nos padrões de vida de uma população crescente.
A disseminação do verdadeiro crescimento econômico moderno foi limitada. Entre os países ricos, como EUA, Austrália e Japão, o processo continua hoje. Após a primeira fase de industrialização, essas economias evoluíram, afastando-se da indústria pesada e aproximando-se do setor de serviços, o que implicará outros tipos de mudança social.
Nos anos 1840, o engenheiro e economista francês Jules Dupuit propôs a cobrança de pedágio nas pontes e estradas construídas por ele. Sugeriu que as pessoas pagassem o que pudessem. Ele foi o primeiro economista a considerar preços diferentes para pessoas diferentes pelo mesmo serviço — a chamada discriminação de preços. Em geral só pode ocorrer onde exista certo poder de monopólio, que permite às empresas cobrar preços diferenciados.
Em 1920, três "graus" diferentes de discriminação de preços foram identificados pelo economista britânico Arthur Pigou (p. 336). O primeiro grau de discriminação é o modelo que Dupuit usou: a empresa cobra de uma pessoa o máximo que ela deseja pagar. Na prática, isso é raro, porque exige que o vendedor saiba a avaliação do bem feita por cada indivíduo.
O segundo grau de discriminação grau implica reduzir o preço de cada unidade adicional comprada. Esta opção costuma ser usada por supermercados, em ofertas como "compre um e leve outro pela metade do preço".
O terceiro grau de discriminação, talvez a forma mais usual, é a identificação de clientes por suas características — por exemplo, um cinema oferecer ingressos mais baratos a crianças, estudantes e aposentados.
Efeitos da discriminação
Em seu livro de 1933 The economics of imperfect competition, a economista britânica Joan Robinson analisou os efeitos da discriminação de preços na sociedade. A maioria dos clientes pensa instintivamente que a discriminação é injusta em suas três formas. Se cada garrafa de refrigerante custa o mesmo para ser feita, por que o supermercado não vende também a primeira pelo preço mais baixo? Por que os ingressos de cinema podem ser mais baratos? Interpretamos essas ofertas como se o monopolista aumentasse seu lucro à custa de seus fregueses.
Robinson descobriu que o monopolista tem a mesma produção, mas cobra preços mais altos de certas pessoas, e os consumidores realmente saem perdendo. Porém, às vezes a discriminação de preços pode permitir que as pessoas façam o que não poderiam fazer não fosse ela. Quando as companhias ferroviárias discriminam o preço, por exemplo, os passageiros nos horários de pico pagam mais, mas nos outros períodos faz sentido a empresa cobrar menos, porque ela precisa incentivar as pessoas a pegar o trem. Assim, embora alguns consumidores paguem mais, um número maior pode viajar por preço menor. Desse modo, os consumidores em geral se beneficiam quando as empresas cobram preços diferentes de pessoas diferentes.
O padrão-ouro foi um sistema monetário que lastreava as moedas em ouro, garantindo seu valor. Entrou em vigor na Grã-Bretanha em 1812, e o mundo o adotou em 1871.
O sistema propiciava uma firme âncora para o sistema monetário internacional ao correlacionar as taxas de câmbio das várias moedas ao preço do ouro. Também serviu de mecanismo de transferência de ouro entre os países para refletir as novas balanças comerciais e os fluxos de capital. Contudo, a Primeira Guerra Mundial exigiu um financiamento excessivo dos governos, e o sistema começou a desmoronar.
Certos países abandonaram o padrão-ouro para poder tomar empréstimos e fazer gastos substanciais, quase sempre financiados por emissão de moeda. Terminada a guerra, não houve um retorno suave à situação anterior — países como a Alemanha haviam exaurido suas reservas de ouro e não puderam retomar a filiação, e outros readotaram o padrão com taxas de câmbio tremendamente variáveis.
O abandono do ouro
Nos anos 1930, durante a Grande Depressão, diversos países deixaram o padrão-ouro ao tentar expandir a economia desvalorizando sua moeda a fim de incentivar a exportação. Ao mesmo tempo, o comércio internacional, que fora bastante livre antes da guerra, sujeitou-se a uma gama crescente de restrições, pois os países tentavam manter posição em um mercado mundial encolhido. Essas políticas ajudaram a prolongar a Depressão, já que cada nova restrição ou desvalorização reduzia mais o mercado mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, as potências aliadas dedicaram-se à reconstrução econômica. Na conferência de junho de 1944 em Bretton Woods, New Hampshire, EUA, os delegados concordaram com o plano americano de atrelar as moedas ao dólar. Este, por sua vez, seria mantido pelo governo dos EUA com taxa de câmbio fixa em relação ao preço do ouro.
O sistema era supervisionado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que se responsabilizaria pela abertura de um fundo de emergência, e criou-se o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird, hoje ligado ao grupo do Banco Mundial) para financiar projetos de desenvolvimento. Em 1947, o Acordo Geral de Tarifas e Comécio (Gatt) passou a visar à reconstrução do comércio internacional. Juntas, essas novas organizações tentaram renovar a cooperação econômica entre as nações, cuja falta havia sido muito custosa no entreguerras.
Esse sistema sustentou quase 30 anos de crescimento econômico excepcional, mas tinha falhas estruturais. Os constantes déficits comerciais dos EUA (importações superando exportações) ajudaram a manter vivo o sistema, mas os dólares inundaram o exterior até que os estoques desta moeda excederam as reservas de ouro dos EUA, elevando o preço do ouro em dólar acima do preço fixado para o ouro. Com o aumento dos gastos públicos dos EUA, a pressão piorou. Em 1971, o presidente Nixon rompeu o elo dólar-ouro, encerrando o sistema de Bretton Woods.
Uma das principais perguntas dos economistas é "como os países pobres ficaram ricos?" Após a Segunda Guerra Mundial, ela ressurgiu com força. O esfacelamento dos impérios coloniais criara nações independentes, cujo padrão de vida caía cada vez mais em relação ao de seus antigos senhores. Muitos sofriam rápido crescimento populacional e precisavam de um crescimento correspondente em produtos e serviços já produzidos, a fim de aumentar o padrão de vida.
A Europa recuperou-se rápido da guerra, ajudada pelo Plano Marshall — enorme injeção de dinheiro do governo dos EUA que financiou a reconstrução da infraestrutura e das indústrias. O economista polonês Paul Rosenstein-Rodan disse que, para a economia progredir, os novos países independentes dos anos 1950 e 60 precisavam de um "grande impulso" de investimento, como a Europa recebera do Plano Marshall.
Outra ideia correlata era de que os países atravessam uma série de etapas que os leva de sociedades tradicionais a economias de consumo de massa. Walt Rostow, economista americano que apresentou essa teoria, disse que as sociedades tradicionais só se desenvolvem com investimentos de capital enormes: é o grande impulso que provoca a decolagem para o crescimento sustentável. Ele acaba transformando paises pobres em grandes economias, com alto padrão de vida para a maioria da população. A questão de como fazer os investimentos necessários para o grande impulso tornou-se primordial no novo campo da economia desenvolvimentista.
Construção simultânea
Rosenstein-Rodan afirmou que, nos países menos desenvolvidos, o mercado não consegue destinar com eficiência recursos para investimentos benéficos que gerem crescimento. Isso porque grandes projetos, como estradas, portos e fábricas, são complementares: a existência de um torna os outros economicamente viáveis — o que pode originar um dilema: o primeiro investimento só seria lucrativo se um segundo fosse feito, mas este só seria lucrativo se o primeiro tivesse sido feito. Por exemplo, uma fábrica precisa de uma usina de energia por perto para ser viável, mas a usina só é lucrativa se existe uma fábrica que compre a energia. Há dois resultados possíveis: um, nem fábrica nem usina existem; dois, ambos existem.
O mesmo tipo de argumento aplica-se a combinações de produção mais complexas. Imagine que uma enorme fábrica de calçados seja construída em uma economia subdesenvolvida. Ela faz $10 milhões em sapatos, e a receita das vendas vai para salários e lucro. Porém, essa fábrica só é viável se toda a renda que ela gerar (para os trabalhadores) for gasta em sapatos, quando na realidade as pessoas gastam numa série de produtos. Suponha que se gastem 60% da renda em pão, 20% em roupas, 10% em querosene e 10% em sapatos. Se fábricas de pão, roupas, querosene e sapatos fossem construídas nessa região, a renda gerada por essas empresas seria gasta nos produtos de cada indústria na mesma proporção. As indústrias só são viáveis quando existem juntas, nas proporções corretas.
Encadeamentos essenciais
O economista alemão Albert Hirschman usou o termo "encadeamento" para se referir às interligações entre indústrias. Por exemplo, uma fábrica de tinta ajuda no progresso de uma fábrica de carros aumentando a oferta de tinta. Hirschman chamou isso de "encadeamento prospectivo". A expansão da indústria de tinta aumenta a procura de produtos químicos para fazer tintas e assim aumenta a lucratividade das indústrias químicas. Isso se chama "encadeamento retrospectivo". Na prática, as indústrias têm vários encadeamentos prospectivos e retrospectivos com outras indústrias, criando uma rede complexa de interações que podem tornar economicamente viável toda uma base de produção diversificada.
Esse grande impulso implica que países que não têm nada passem a ter de tudo. Por não terem nem usina de energia nem fábrica, as economias em desenvolvimento de repente precisam de ambas. Por não terem nenhum setor industrial, elas devem criar todos ao mesmo tempo. Todavia, como cada investimento precisa dos outros, é difícil empresários individuais darem o empurrão. Por isso Rosenstein-Rodan e outros disseram que o grande impulso deve partir do Estado, não de mercados privados.
Os governos do mundo em desenvolvimento no pós-guerra que seguiam essa linha envolveram-se em grandes programas de investimento, realizando projetos industriais e de infraestrutura em meio a planos de desenvolvimento nacional. Considerava-se que as nações menos desenvolvidas tinham duas economias: os setores agrícolas tradicionais (com muita mão de obra improdutiva) e os setores modernos, formados por novas indústrias. A ideia era que o grande impulso sugaria o excesso de mão de obra das zonas rurais e o levaria aos novos empreendimentos industriais. Esse raciocínio deu o argumento lógico para grandes injeções de ajuda externa, vistas como combustível da iniciativa de investimento. O investimento conduzido pelo Estado provocou uma industrialização benéfica em certos lugares. Alguns países do sudeste da Ásia tiveram expansão industrial e rápido crescimento da renda; sua aliança bem-sucedida de um Estado ativo e grandes empresas tornou-se conhecida como modelo de Estado desenvolvimentista. Contudo, as condições em que o Plano Marshall foi aplicado em 1948 diferiam daquelas das novas nações dos anos 1950-muitas tentativas com o grande impulso fracassaram.
Investimento ineficiente
No início, os investimentos necessários ao desenvolvimento econômico podem parecer óbvios. Ainda assim, coordenar um programa de investimentos em muitas indústrias é uma tarefa árdua. Os governos só conseguem criar indústrias viáveis se conhecem o equilíbrio correto da produção — a fatia certa de sapatos, roupas e pão —, que decorre da composição da demanda do consumidor. Só se pode explorar as interações entre os diversos tipos de produção quando se conhecem em detalhe os encadeamentos prospectivos e retrospectivos das indústrias. Nem todos os governos dispõem de perícia, informação ou poder político para ter sucesso nesse empenho.
Muitos países acabaram ficando com indústrias estatais inchadas e ineficientes que não conseguiram deslanchar um crescimento sustentável. Quase sempre se tentou a industrialização impondo tarifas comerciais — a importação de produtos era proibida, na esperança de que as indústrias iniciantes progredissem. A proteção estatal de empresas contra a concorrência estrangeira gerou a "rent-seeking" (busca de renda) — pressão sobre o governo de grupos comerciais que tentam preservar privilégios. Isso frequentemente acarretou relações íntimas entre governos e industriais com contatos políticos, impedindo a concorrência e a inovação.
Nos anos 1970, o grande impulso foi criticado pelos economistas. neoclássicos (p. 247), como o americano Paul Krugman, para quem as economias em desenvolvimento não diferiam em essência das desenvolvidas. Disseram que um comportamento economicamente racional e o poder da sinalização dos preços eram tão válidos nos países pobres quanto nos ricos. O investimento era importante, mas devia ter distribuição correta através da economia. Os mercados, não os governos, eram os melhores árbitros para decidir onde investir.
Essa nova onda de pensamento sustentava que as economias em desenvolvimento eram prejudicadas não pela ineficiência inerente aos seus mercados, mas por políticas erradas. O envolvimento excessivo do governo havia rompido o mecanismo de preços (os preços são fixados pela oferta e pela procura) e atrapalhara sua capacidade de distribuir recursos com eficiência. Boa política significava "acertar os preços" e permitir que o mecanismo do mercado funcionasse livremente, para que os recursos fossem mais bem empregados. Caminhar para a frente era recuar as fronteiras do Estado, acabar com a busca de renda e deixar o mecanismo de preços agir soberano.
Nos anos 1980, essa revisão do pensamento levou à ascensão da política de desenvolvimento de livre mercado. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional introduziram "programas de ajuste estrutural" para injetar princípios de mercado nas economias africanas. A dita "terapia de choque", usada na Europa Oriental por essas instituições depois da queda do comunismo, visava estabelecer rapidamente sistemas de mercado. Porém, esses experimentos com o mercado livre acabaram criticados por aumentar a pobreza e ao mesmo tempo falhar na construção de economias dinâmicas e diversificadas.
Políticas pró-mercado
A desilusão com o ajuste estrutural fez surgir hoje um novo consenso, que funde as reflexões dos primeiros pensadores desenvolvimentistas a uma visão mais otimista dos mercados. Atualmente os mercados são considerados vitais nos países pobres para criar incentivos que mobilizem recursos de um modo lucrativo. Ao mesmo tempo, economistas como o americano Joseph Stiglitz denunciaram os fracassos do mercado no âmbito das pequenas empresas, os quais costumam refrear os países em desenvolvimento. Por exemplo, não dá para investir lucrativamente se as empresas não conseguem obter empréstimo. Talvez o Estado tenha um papel na correção dessas falhas e possa ajudar, assim, o mecanismo de preços a funcionar mais suave. Esse consenso, às vezes chamado enfoque pró-mercado, vê o Estado e os mercados como complementares.
Porém, no início do século XXI ressurgiram as ideias do grande impulso mais explícitas. Em 2000, as Nações Unidas traçaram metas de desenvolvimento até 2015, as quais incluem universalização do ensino fundamental, erradicação da fome e redução da mortalidade infantil. Isso implica que os países doadores mantenham o fluxo da ajuda prometida e exige grandes investimentos coordenados através de uma série de setores e projetos de infraestrutura.
Em 1944, o matemático americano John von Neumann e o economista alemão Oskar Morgenstern criaram a teoria da utilidade esperada para mostrar como as pessoas decidem sob incerteza. "Utilidade" é uma medida de satisfação, e os economistas usam unidades de utilidade para falar da quantidade de satisfação obtida em vários resultados. A teoria presume que as pessoas são racionais quando diante de opções sem resultado garantido: elas comparam a utilidade obtida de cada resultado possível segundo a probabilidade de ocorrerem e então escolhem a opção que promete maior utilidade. O modelo usa um enfoque matemático da tomada de decisões e tem sido usado para analisar todo tipo de comportamento econômico em situações de incerteza.
Contudo, em 1953, o economista francês Maurice Allais contestou a teoria daquela que ele chamou de Escola Americana de economia. Assinalou que a teoria da utilidade esperada baseia-se em uma suposição, conhecida como axioma da independência, segundo o qual as pessoas olham sem paixão para a possibilidade dos resultados e a utilidade que tirarão de cada um. Elas veem cada opção de maneira independente, ignorando quaisquer fatores em comum em cada opção. Allais disse que raramente isso era verdade, se é que era. Sua opinião se chamaria paradoxo de Allais.
Escolha irracional
Não conseguimos ver o processo de pensamento das pessoas quando elas fazem escolhas, mas podemos observar as opções que elas fazem e ver se são compatíveis com a racionalidade e o axioma da independência. Imagine que você pode optar entre uma maçã e uma laranja e escolha a maça. Agora imagine que lhe dão as alternativas de uma maçã, uma laranja e um pêssego. O axioma da independência pressupõe que você escolheria de novo a maçã, ou o pêssego, mas não optaria pela laranja, porque o acréscimo do pêssego não pode mudar sua preferência por maçãs a laranjas.
A violação da independência detectada por Allais, porém, ocorre em situações de incerteza. Suponha que você possa escolher entre duas "loterias", cada qual com vários resultados possíveis de probabilidades particulares. A primeira loteria lhe dá 50% de chance de uma maçã e 50% de chance de um pêssego. A segunda dá 50% de chance de uma laranja e 50% de chance de um pêssego. Como você prefere maçãs a laranjas, deve escolher a primeira loteria — pelo axioma da independência, a adição do pêssego na loteria, tornando-a um resultado igualmente provável em ambas as opções, não deveria fazer diferença na escolha da maçã. Mas na prática quase sempre faz.
Em experimentos usando modalidades mais complexas desse tipo de alternativa, as pessoas violam com frequência o axioma da independência, o que conflita com a ideia econômica básica de que elas sempre agem racionalmente. Por algum motivo, a existência de outras opções num grupo de alternativas parece importar — e faz diferença. A descoberta desses comportamentos gerou o novo campo da economia comportamental (pp. 266-69), que tenta elaborar modelos mais realistas de tomada de decisão do ponto de vista psicológico.
John Maynard Keynes (p. 161) escreveu nos anos 1930 que as políticas de controle da oferta de moeda eram quase sempre ineficazes. Ele acreditava que a alteração das taxas de juro ou da oferta de moeda não afetava a economia de modo previsível. Os governos acertariam mais se usassem uma política fiscal — mudando a composição de gastos públicos e tributação — para obter proteção contra o desemprego e a inflação. Em 1945, as opiniões de Keynes eram amplamente aceitas.
Todavia, a partir dos anos 1950, o economista americano Milton Friedman começou a contestá-lo com a ideia de que "a moeda é importante". Para Friedman, a moeda afeta a produção em curto prazo, e os preços, apenas em longo prazo. Ele afirmou que a política monetária tem um papel valioso na condução da economia — ideia hoje conhecida como monetarismo.
Em 1963, Friedman publicou com sua colega Anna Schwartz A monetary history of the United States, 1867-1960. Eles analisaram o papel da moeda nos ciclos econômicos e descobriram que as flutuações no crescimento monetário precediam as flutuações no crescimento da produção. Atribuíram a Grande Depressão de 1929-33, em particular, à incompetência do Federal Reserve — o Banco Central dos EUA —, que permitira ou fizera o volume da moeda cair mais de um terço.
Teoria do consumo
A defesa de Keynes de gastos públicos nas baixas econômicas baseou-se em parte em suas ideias sobre o consumo. Segundo ele, quando a renda pessoal aumenta, o consumo também aumenta, mas não na mesma proporção. Numa baixa, as pessoas guardam dinheiro, o que prolonga a queda. Em tal situação, se o governo investe, as rendas aumentam, com efeitos grandes e previsíveis sobre o consumo, restituindo o pleno emprego na economia.
Em 1957, Friedman publicou A theory of the consumption function, obra importante que começou a contestar a ortodoxia keynesiana. Friedman disse que as pessoas diferenciam "renda permanente" — seus ganhos estáveis por muito tempo, que elas se sentem seguras de gastar — e "renda transitória" — que é menos perene, pode ser positiva ou negativa e não afeta seu consumo. As pessoas com renda alta têm renda transitória positiva e consomem apenas uma porção da renda total; aquelas com renda mais baixa têm renda transitória negativa e consomem mais que a sua renda. Porém, caso se somem todas as rendas, as transitórias positivas e negativas anulam-se mutuamente em boa parte. A teoria de Friedman parecia coincidir bem com as evidências. Numa amostra da população, o consumo não cresceu muito com a renda. Mas, ao ser medido ao longo do tempo tendo por base a população inteira (para que os efeitos da renda transitória fossem anulados), o consumo cresceu com a renda. Friedman concluiu que o modelo de consumo de Keynes estava errado. Os gastos públicos teriam função de renda transitória e simplesmente "dispersariam" os gastos privados. Não ocorreriam baixas sem fim causadas por consumo inadequado.
Teoria quantitativa da moeda
Friedman quis mostrar que a política monetária funcionava: uma mudança na quantidade de moeda na economia provoca um efeito previsível na renda total. Keynes dissera que essa relação é instável, porque as pessoas guardavam dinheiro por motivos diferentes — alguns eram o que ele chamou de "especulativos" e difíceis de identificar. Para provar que a teoria quantitativa estava certa, Friedman precisava provar que a demanda de moeda era estável. Ele tinha de apresentar uma teoria verificável sobre a demanda de moeda.
Em 1956, Friedman publicou The quantity theory of money: a restatement. Ele considerava a moeda como um bem, uma "morada temporária do poder aquisitivo". A demanda do mercado por um produto depende do orçamento geral das pessoas e de seu preço relativo diante de produtos concorrentes, assim como do gosto do comprador. Para Friedman, a demanda de moeda sofria influência de certos fatores. Primeiro, ela aumentaria com o nível geral de preços, pois a moeda é necessária por seu poder de comprar bens reais. Também seria influenciada pela riqueza "real" das pessoas ou sua renda permanente e pelos rendimentos de dinheiro, títulos, ações e bens duráveis. Por fim, a demanda de moeda teria a influência dos "gostos", que neste contexto significam fatores como incerteza econômica, que leva as pessoas a guardar dinheiro.
Dado um nível bem definido de procura de moeda, os consumidores não exigiriam uma oferta extra de moeda; eles já teriam o dinheiro de que precisavam. Assim, gastariam qualquer dinheiro extra. Como os preços não se ajustam de imediato no curto prazo, não haveria produção maior. Mas, no longo prazo, os preços se ajustariam, e o único efeito da moeda extra seriam preços maiores. O enfoque de Friedman pode então ser visto como uma retomada da teoria quantitativa da moeda, uma fórmula que diz MV = PT, em que "M" é a oferta de moeda e "V" representa a velocidade de circulação do dinheiro. "P" é o nível de preços, que, multiplicado por "T" (número de transações), resulta no valor total das transações. Em suma, essa equação diz que, se V e T são constantes, uma oferta de moeda maior implica um nível de preços maior. No longo prazo, a moeda não tem efeitos "reais" na economia.
Desemprego natural
A palavra "monetarismo" foi usada primeiro em 1968, ano em que Friedman apresentou uma nova interpretação da curva de Phillips (p. 203), referente à suposta relação estável entre inflação e desemprego, que permitiria aos governos escolher entre menos inflação com mais desemprego ou mais inflação com menos desemprego. Friedman desmentiu que existisse essa oposição, a não ser no curtíssimo prazo. Ele disse que existe uma única "taxa natural" de desemprego, que consiste em trabalhadores desempregados temporariamente enquanto procuram emprego. Na prática, a economia tem pleno emprego quando o desemprego está em seu índice natural. Se os governos gastam para que o desemprego fique abaixo de sua faixa natural, aumentando a inflação, os assalariados inflacionarão ainda mais suas exigências salariais. Duas coisas podem acontecer aí: o desemprego retornar à taxa natural com o novo índice de inflação mais alto; o governo tentar manter o baixo índice de desemprego, mas à custa de uma inflação acelerada.
A conclusão era clara: é fútil os governos tentarem estabilizar o emprego com política fiscal. O aumento da oferta de moeda também só acarreta preços mais altos. No longo prazo, a curva de Phillips é uma linha vertical reta no índice natural de desemprego.
O hiato de tempo entre as mudanças monetárias e as mudanças na produção costuma ser de poucos trimestres. A movimentação dos preços pode levar de um a dois anos ou mais para ocorrer. Esses hiatos são consideravelmente variáveis. Por isso Friedman aconselhou os governos a não tentar usar a política monetária para manipular os mercados diretamente, pois é fácil interpretar errado o que acontece na economia. Eles deveriam seguir uma regra simples: garantir que a moeda tenha aumentos constantes de 2% a 5% (conforme a definição de moeda escolhida) anuais.
A nova escola de macroeconomia clássica, liderada pelos economistas americanos Robert Lucas e Thomas Sargent, apresentou uma revisão desse argumento baseada nas expectativas racionais da política econômica futura. O modelo de Friedman tratava as expectativas como se elas apenas se adaptassem a erros passados. Lucas e Sargent disseram que as expectativas das pessoas são previdentes. Como as pessoas veem o que o governo planeja, qualquer tentativa deste de reduzir o desemprego abaixo da taxa natural levará imediatamente a uma inflação mais alta. Ou seja, a curva de Phillips é vertical também no curto prazo — os governos não têm nem mesmo o poder de reduzir o desemprego.
Monetarismo na prática
Não demorou muito para que as advertências de Friedman se mostrassem corretas. Nos anos 1970, o suposto conflito da curva de Phillips caiu por terra, pois a inflação e o desemprego aumentaram juntos — fenômeno chamado estagflação. Os governos passaram a instituir metas de crescimento da oferta de moeda no planejamento. Alemanha, Japão, EUA, Reino Unido e Suíça adotaram metas monetárias nos anos 1970. Todavia, viu-se que era difícil controlar o aumento monetário. Um problema era que tipo de moeda visar. A maioria dos bancos centrais visava uma forma mais ampla de moeda, que incluía depósitos bancários a prazo fixo (que não podem ser retirados dentro de um certo período). Porém, era difícil controlá-la. A atenção voltou-se então para a base monetária restrita, ou seja, cédulas, moedas e reservas do banco central. Isso era mais fácil de controlar, mas parecia não ter uma relação estável com a chamada moeda ampliada.
Os experimentos monetaristas fracassaram em grande parte, mas o impacto do monetarismo foi significativo. Passou de uma prescrição política sobre a oferta de moeda para um programa voltado para a redução do envolvimento do governo em todos os aspectos da economia. Hoje, poucos discordariam de que "a moeda importa". A política monetária recebe tanta atenção quanto a política fiscal e em geral serve para controlar a inflação. Mas a forma mais pura de monetarismo e as consequências de sua política dependem de suposições controversas: de que existe uma demanda de moeda previsível e a oferta de moeda pode ser controlada facilmente pelas autoridades. Nos anos 1990, os países se afastaram das metas monetárias. Muitos começaram a usar a taxa de câmbio para controlar a inflação ou atrelar a política de taxa de juros à tendência da inflação.
Durante trinta anos após a Segunda Guerra Mundial, as economias mais desenvolvidas do mundo usufruíram seu mais longo período de crescimento. O desemprego estava baixo, a renda aumentou, e os economistas achavam que haviam superado a crise dos anos 1930.
Essa confiança vinha da crença no poder da intervenção do governo para orientar a economia, que foi resumida convincentemente na curva de Phillips. Em 1958, o neozelandês Alban William Phillips publicou The relationship between unemployment and the rate of change of money wages, mostrando a ligação entre a inflação salarial e o desemprego no Reino Unido de 1861 a 1957. Anos de alta inflação eram anos de baixo desemprego, e vice-versa.
Inflação ou desemprego?
Uma obra posterior mostrou relações similares e estáveis em outros países desenvolvidos. Os governos perceberam que existia uma oposição entre inflação e desemprego. Podiam pegar o ponto preferido na curva de Phillips, optando por desemprego baixo e inflação alta ou inflação baixa e desemprego alto, e ajustar suas políticas para tanto. Aumentando ou reduzindo os gastos e endurecendo ou afrouxando a política monetária (oferta de moeda e taxas de juro), eles poderiam regular a demanda agregada (gasto total) para arrumar a economia na curva. A economia era tratada como uma máquina gigante. Todas as questões principais da macroeconomia — todo o sistema econômico do país — aparentemente se resumiam a soluções técnicas, em vez de batalhas ideológicas.
A curva casava bem com a macroeconomia keynesiana (pp. 154-61), comum na época. Quando o desemprego estava alto, achava-se que a queda nos mercados de trabalho e de bens reduziria salários e preços. A inflação seria baixa. Quando a taxa de emprego estava alta, a demanda adicional na economia — talvez com gastos públicos — não aumentava a produção e o emprego, mas fazia baixar preços e salários; a inflação subiria. Contudo, nos anos 1970 essa relação estável sumiu. O desemprego e a inflação subiram juntos, num estado conhecido por "estagflação". O economista americano Milton Friedman (p. 199) explicou o fato de um modo que seria dominante na teoria macroeconômica, ao dizer que, além de mostrar a relação entre os preços reais e o desemprego, a curva de Phillips precisava levar em conta as expectativas de inflação. As pessoas percebiam que, quando o governo aumentava os gastos para estimular a economia (e aumentar o emprego), logo haveria inflação. Em consequência, qualquer aumento nos gastos públicos em período de desemprego alto era tido como sinal de inflação iminente, e os trabalhadores pediam aumento salarial antes de os preços realmente subirem. No longo prazo, declarou Friedman, não há oposição conflituosa entre desemprego e inflação. A economia se ajusta numa "taxa natural" de desemprego. As tentativas do governo de estabilizar a economia só incentivavam a expectativa de inflação futura, e então surgia uma inflação real.
A contestação de Friedman abriu caminho para um ataque à macroeconomia keynesiana, e os governos buscaram opções para melhorar a oferta monetária e de mão de obra, em vez de tentar controlar a demanda.
Em 1936, a Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John Maynard Keynes, pôs a questão do consumo em posição central: se a procura total na economia é crucial para que ela funcione bem, os grupos que compõem essa procura têm grande importância. Os gastos públicos ficaram sob o controle do governo. O investimento das empresas foi relacionado à taxa de juro. Mas o consumo das famílias representava um desafio maior.
Keynes (p. 161) afirmou que as famílias consomem uma fração de sua renda e guardam o resto, e as famílias ricas poupam mais. A proporção do gasto de todas as famílias determina o tamanho do "multiplicador" (pp. 164-65) — a quantia que o gasto do governo aumenta quando executado. Ele cria empregos e renda, que são multiplicados pelo gasto daqueles que receberam emprego e renda adicional, e desse modo influi na economia em geral. Para os economistas keynesianos, o efeito multiplicador está por trás da maneira como a economia se move no tempo entre crescimento e recessão. Por essa razão, é fundamental obter um quadro preciso do consumo. A teoria de Keynes faz três previsões empíricas. Primeira, as famílias ricas poupam mais que as pobres. Segunda, com o tempo, à medida que a economia cresce, a quantia que as pessoas gastam sobe menos rapidamente do que a renda, pois as familias estão mais ricas e, assim, gastam proporcionalmente menos. Terceira, em decorrência disso, as economias mais ricas se tornarão cada vez mais "letárgicas": quando o consumo cai em relação à renda, reduz-se o multiplicador, e a economia começa a estagnar
Poupança de uma vida
Contudo, as previsões teóricas não combinaram bem com a realidade. A relação entre consumo familiar e renda no longo prazo mostrou-se estável em países diversos, ao invés de baixar com o crescimento. Ela flutuou em curtos períodos, mas não se alterou de modo palpável em nenhuma direção. Após a Segunda Guerra Mundial, os economistas previram a estagnação, mas em todo lado as economias melhoraram. Duas soluções desse mistério tiveram aceitação. Ambas diziam que indivíduos racionais não consomem cegamente a renda atual, mas olham para o futuro e criam expectativas de quanto devem poupar. Em 1954, o economista italiano Franco Modigliani disse que isso estava relacionado com as etapas da vida. Quando são economicamente ativas, as pessoas poupam para a velhice. Quando mais velhas, elas usam a poupança. Tentam manter constante o consumo, reduzindo-o com o tempo. Isso ficou conhecido como hipótese do ciclo de vida.
Três anos depois, o economista americano Milton Friedman (p. 199) propôs a teoria correlata de que as pessoas reduzem o consumo ao longo do tempo, deixando-o próximo de sua "renda permanente" — expectativa de ganhos futuros, baseada sobretudo na riqueza presente. Qualquer renda extra é "transitória" e será poupada, no que se conhece por hipótese da renda permanente.
Avanços mais recentes nas teorias de consumo sugerem que de fato os consumidores tendem a usar "regras práticas" e outras formas de comportamento "não racional" ao tomarem decisões sobre quanto gastar e poupar.
A economia comum pressupõe a existência de mercados e que os governos detêm a alavanca das políticas, necessária para estimular os mercados na direção dos tipos benéficos de comércio, investimento e inovação. Os economistas institucionais, no entanto, vão mais fundo — buscam a origem dos mercados, seu envolvimento com o Estado e as condições políticas e sociais que auxiliam a atividade econômica.
O economista americano Douglass North definiu instituições como "as restrições criadas pelo homem para dar forma às interações humanas". Essas restrições são as "regras do jogo" e se mostram no aspecto formal e no informal. As restrições formais são as regras arraigadas na lei e na política de cada país, e as restrições informais, os códigos, os costumes e as tradições sociais. Juntas, elas compõem as instituições de Norton e estabelecem as regras amplas do jogo no qual os seres humanos interagem como trabalhadores, consumidores e investidores.
Mercados e propriedade
Os direitos de propriedade — física e intelectual — são uma instituição essencial para o crescimento econômico. North investigou o aparecimento dos direitos de propriedade na Inglaterra e disse que eles surgiram em 1688, quando a Coroa sujeitou-se ao Parlamento. Antes, o monarca expropriava recursos sem consideração pelos direitos privados de propriedade. North notou que, após a restrição ao poder da Coroa, as trocas ficaram menos caras, e os incentivos aumentaram. Seu ponto de vista foi contestado, mas continua influente.
O exemplo de North revela a tensão existente no coração da economia institucional. O Estado garante a ordem, que lhe dá o poder de ativar os direitos de propriedade, já que não sobrevivem na anarquia. Contudo, é esse mesmo poder que também permite ao Estado usar recursos em benefício próprio.
O economista turco-americano Daron Acemoğlu (1967-) provou que essa tensão tem raízes na origem colonial das sociedades. Em regiões como a África, onde havia a ameaça de doenças infecciosas, os colonizadores não ficaram muito tempo. Foram criadas instituições com o propósito de extrair recursos naturais rapidamente para enriquecer um Estado, e não para promover o crescimento econômico. Nas colônias norte-americanas, mais agradáveis, os colonos criaram instituições que propiciaram um crescimento duradouro.
As instituições determinam o sucesso e o fracasso das economias — criam a estrutura essencial. Os economistas ainda precisam identificar com clareza que mutação institucional dispara o progresso econômico. É difícil reformar as instituições, pois o passado sempre deixa marcas no presente.
O modelo-padrão de comportamento econômico, descrito primeiro por Adam Smith (p. 61) no século XVIII, supõe que os participantes do mercado são todos racionais e bem informados. Porém, nem sempre é assim.
O economista americano Kenneth Arrow foi um pioneiro na análise do problema de informação incompleta nos mercados. Ele destacou que, ainda que as partes concordem em assinar um contrato, não existe garantia de que qualquer uma o cumprirá. Se uma parte não observar o comportamento da outra, pode haver um incentivo para a não observada deixar de cumprir todas as cláusulas do contrato sem que a outra saiba. Existe um desequilíbrio de informação, porque as ações são ocultadas.
Risco moral
Chama-se essa situação de "risco moral". No mercado de seguros, por exemplo, uma apólice pode ser um incentivo para o segurado correr mais riscos, por saber que a seguradora cobrirá o custo de quaisquer danos. O resultado é que as seguradoras oferecem cobertura menor, por medo de estimular um risco excessivo e acabar assumindo custos altos. Isso significa que haverá uma falha de mercado: os que compram seguro pagarão caro demais, e muitas pessoas serão excluídas do mercado de seguros. Arrow afirmou que, em tais circunstâncias, existe justificativa para o governo intervir e corrigir a falha de mercado.
O risco moral pode surgir em qualquer situação em que uma pessoa (o "principal") tenta levar a outra (o "agente") a se comportar de certo modo. Se o comportamento desejado pelo principal exige esforço do agente e se o principal não pode observar as ações do agente, este tem motivo e oportunidade para se safar. Os contratos de seguro são entre empresas e seus clientes, mas o problema também ocorre dentro de uma empresa: os funcionários podem se safar quando o empregador não os está observando. Esses problemas principal-agente quase sempre aparecem em contratos de longo prazo para tarefas complexas. Em tais circunstâncias, não se pode estipular com antecedência cada exigência, e o risco moral pode surgir de modo inesperado. Os problemas principal-agente fizeram aparecer muitos livros sobre gestão de tarefas complexas, enfocando as melhores maneiras de escrever contratos.
Grande demais para falir?
Mais recentemente, o risco moral tornou-se uma questão crítica nos argumentos políticos após a crise financeira de 2008. Quando se diz que os bancos são "grandes demais para quebrar", pode estar ocorrendo uma versão de risco moral. Como sabem que seu fracasso pode causar uma recessão, os bancos talvez acreditem que o governo vai socorrê-los em qualquer caso. Há economistas que afirmam que isso faz os bancos assumirem investimentos com risco excessivo. A crise do euro de 2012 também é tida como exemplo de risco moral: suspeita-se que países como a Grécia conduziram a economia achando que fossem "grandes demais para quebrar".
Nos anos 1860 e 70, a ciência econômica predominante havia criado um conjunto claro de afirmações sobre o mundo, apresentando modelos matemáticos com os quais os economistas puderam avaliar o comportamento individual em certas condições de mercado. Esses modelos foram tirados da matemática que descrevia o mundo natural, em rápida evolução. Esse avanço, às vezes chamado "revolução marginalista", incluiu a afirmação de que o valor é determinado pelas preferências pessoais e pelos recursos, não por um padrão mais objetivo ou absoluto, o que permitiu apresentar de um modo novo questões teóricas prementes. A "mão invisível" do mercado de Adam Smith realmente guiava indivíduos egoístas aos melhores resultados possíveis? Os mercados eram ou não um modo mais eficiente de orientar a sociedade? Seria possível existir um mercado inteiramente livre?
Mercados estáveis
O economista francês Léon Walras (p. 120) foi um dos pioneiros nessa revolução na teoria. Ele tentou mostrar que os mercados, se deixados à vontade, podem obter um resultado estável para toda a sociedade, equilibrando com perfeição as exigências dos consumidores com a oferta de bens e serviços. Sabia-se que um só mercado pode atingir o equilíbrio, mas não era claro se um grupo de mercados faria o mesmo.
A questão do "equilíbrio geral" foi solucionada rigorosamente em 1954 pelo matemático francês Gérard Debreu e pelo economista americano Kenneth Arrow (p. 209). Aplicando matemática avançada, eles mostraram que, sob dadas circunstâncias, um grupo de mercados poderia obter equilíbrio geral. Em certo sentido, Arrow e Debreu reviram o argumento de Adam Smith de que os mercados livres acarretam ordem social. Mas Smith fizera uma afirmação mais forte do que a puramente factual de que os mercados convergem para um ponto de estabilidade. Disse também que esse equilíbrio era desejável por implicar uma sociedade livre.
Resultados do ótimo de Pareto
Os economistas modernos medem a conveniência usando um conceito chamado "ótimo de Pareto" (pp. 130-31). Pelo ótimo de Pareto, é impossível melhorar a situação de uma pessoa sem piorar a de outra. Ocorre uma melhora na economia se os bens mudam de mãos de tal forma que aumente o bem-estar de pelo menos uma pessoa. Arrow e Debreu ligaram o equilíbrio de mercado ao ótimo de Pareto. Ao fazê-lo, comprovaram rigorosamente a opinião máxima de Smith de que os resultados do mercado são bons. Eles chegaram a isso comprovando dois teoremas, chamados "teoremas fundamentais da economia de bem-estar".
O primeiro teorema do bem-estar postula que qualquer economia de livre mercado pura em equilíbrio alcançou necessariamente "ótimo de Pareto" — que ela leva a uma distribuição de recursos em que é impossível melhorar a situação de alguém sem piorar a de outro. Os indivíduos começam com uma "dotação" de bens. Fazem trocas entre si e chegam a um equilíbrio, que o teorema sustenta ser eficaz.
O ótimo de Pareto é um critério ético fraco. Uma situação em que um rico tem tudo de um bem desejado e as outras pessoas não têm nada dele seria o ótimo de Pareto porque seria impossível tirar parte do bem do rico sem piorar a situação dele. Então, esse primeiro teorema do bem-estar diz que os mercados são eficientes, mas não diz nada sobre a questão crucial da distribuição.
O segundo teorema do bem-estar toca nesse problema. Na economia existem tipicamente muitas alocações de recursos segundo o ótimo de Pareto. Algumas serão distribuições bem iguais, outras, bastante desiguais. O teorema diz que qualquer uma dessas distribuições Pareto-ótimo pode ser obtida por meio de mercados livres — conceito referido pelos economistas como "curva do contrato". Porém, para obter uma dessas alocações específicas, é preciso fazer uma redistribuição de dotações individuais. Depois as trocas podem começar, e ocorre a alocação de recursos segundo o ótimo de Pareto.
A implicação prática aqui é que o governo pode redistribuir os recursos — por meio da cobrança de impostos — e depois depender do livre mercado para garantir a eficiência da alocação. A equidade (justiça) e a eficiência andam de mãos dadas.
Limites da realidade
Os resultados de Arrow e Debreu dependem de suposições estritas: se elas não são válidas, a eficiência pode ser comprometida, situação chamada pelos economistas de "falha de mercado". Para o teorema ser válido, os indivíduos têm de se comportar conforme a racionalidade econômica. Eles precisam reagir com perfeição aos sinais do mercado, algo que sem dúvida não ocorre na realidade. O comportamento das empresas tem de ser competitivo, enquanto na prática o mundo está cheio de monopólios.
Além disso, os teoremas do bem-estar não se sustentam quando há economias de escala, como nas situações em que existem empresas grandes com altos custos de instalação — por exemplo, muitas companhias de utilidade pública. Outra condição importante para a eficácia do equilíbrio é não haver "externalidades" — custos e benefícios não computados nos preços de mercado. Por exemplo, o barulho de uma oficina de motos pode atrapalhar a produção de uma firma de contabilidade ao lado, mas os donos da oficina não levam em conta esse custo mais amplo, porque ele não afeta seus custos particulares. As externalidades impedem a eficiência. Além disso, se os indivíduos não tiverem informação plena sobre os preços e as características dos bens que estão comprando, é provável que os mercados fracassem.
O que os teoremas dizem
Dá vontade de perguntar qual é a razão desse modelo se suas suposições estão tão longe da realidade a ponto de não serem aplicáveis a qualquer situação, mas os modelos teóricos não pretendem ser descrições fiéis da realidade - se fossem, o modelo de Arrow e Debreu seria inútil. Ao contrário, seus teoremas respondem uma pergunta crucial: em que condições os mercados geram eficiência? O rigor dessas condições, então, nos diz quanto e de que modo as economias reais se afastam da referência de eficiência total. As condições de Arrow e Debreu indicam o que deveríamos fazer para chegar mais perto da eficiência. Poderíamos, por exemplo, tentar dar um preço à poluição para lidar com as externalidades, quebrar monopólios para tornar os mercados mais competitivos ou criar instituições para informar os consumidores sobre os produtos que compram.
O trabalho de Arrow e Debreu formou o alicerce da maior parte da economia do pós-guerra. Foram feitas tentativas para refinar as descobertas deles e investigar a eficiência da economia com suposições diferentes. Grandes modelos macroeconômicos, tanto teóricos quanto empíricos, foram feitos com o enfoque do equilíbrio geral de Arrow e Debreu. Houve quem os criticasse por não apreender a natureza caótica e imprevisível das economias reais. Essas vozes ficaram mais altas recentemente, quando esses modelos não conseguiram prever a crise financeira de 2008.
A primeira vista, pode parecer que a matemática da votação tem pouco a ver com a economia. Todavia, na área da economia do bem-estar e na teoria da escolha social em particular, ela tem papel crucial. A teoria da escolha social foi elaborada pelo economista americano Kenneth Arrow nos anos 1950. Ele percebeu que, para avaliar o bem-estar econômico de uma sociedade, os valores de seus membros individuais têm de ser computados. Em nome de decisões coletivas que determinem o bem- -estar e o estado social de uma sociedade, deve haver um sistema pelo qual os indivíduos expressem suas preferências e que reúna essas preferências. O processo decisório coletivo depende de um sistema de votação justo e eficiente. Contudo, em Social choices and individual values (1951), Arrow demonstrou que havia um paradoxo.
Paradoxo do voto
O chamado paradoxo do voto foi descrito pela primeira vez 200 anos antes pelo pensador político e matemático francês Nicolas de Condorcet (1743-94). Ele descobriu que é possível uma maioria de votantes preferir A a B e B a C e ainda, ao mesmo tempo, preferir C a A. Por exemplo, se um terço dos votantes classificam as opções A-B-C, outro terço B-C-A e o terço restante C-A-B, então a maioria claramente prefere A a B e B a C. Intuitivamente, esperamos que C fique no fim da lista de opções. Mas a maioria também prefere C a A. Em tais casos, tomar uma decisão coletiva justa é sem dúvida problemático.
Arrow provou que um sistema de votação que realmente reflita as preferências do eleitorado não é só problemático, mas impossível. Ele propôs um conjunto de critérios de justiça que precisa ser satisfeito por um sistema de votação ideal. Então, demonstrou que nenhum sistema consegue satisfazer todas essas condições. Na verdade, quando se cumpre a maioria das suposições razoáveis, há um resultado não discernível. Um dos critérios de justiça era que não deveria haver um "ditador" — nenhum indivíduo que determine a decisão coletiva. Mas, paradoxalmente, quando todas as outras condições se a aplicam, surge esse ditador.
O bem-estar de muitos
O paradoxo de Arrow (também chamado teorema da possibilidade geral) é a pedra angular da moderna teoria da escolha social, e os critérios de justiça de Arrow compõem a base da concepção de métodos justos de votação que considerem as preferências individuais.
A teoria da escolha social é hoje um importante campo de estudo da economia de bem-estar, por avaliar os efeitos das políticas econômicas. Essa área, que se iniciou com a elaboração de teoremas abstratos, foi aplicada a situações econômicas concretas em que governos e planejadores comparam o bem-estar de muitas pessoas. Grande parte disso tem implicações profundas nos problemas econômicos fundamentais de distribuição de recursos e de riqueza.
As primeiras contas nacionais modernas foram criadas nos EUA nos anos 1930 pelo economista russo-americano Simon Kuznets. Seu trabalho pioneiro levou depois à criação das contas nacionais no Reino Unido, na Alemanha e em outros países desenvolvidos. Essas contas abrangiam a soma de todas as transações da economia durante um ano para chegar ao resultado da renda nacional, que ficou conhecido como produto interno bruto (PIB). Economistas antigos, como o francês François Quesnay, haviam tentado obter medidas semelhantes, mas fracassaram devido ao tamanho aparente da tarefa. Ela só se tornou possível com avanços na estatística, nas técnicas de pesquisa e nos estudos de toda a economia.
Cálculos demais
Desde sua primeira aparição, os números do PIB exerceram atração quase irresistível sobre políticos, jornalistas e economistas. De modo simples, pareciam mostrar um resumo de todos os fatos mais importantes da economia. Um PIB crescente significa mais empregos e salários mais altos, enquanto um PIB em queda implica desemprego e incerteza. Após a Segunda Guerra Mundial, os debates sobre política econômica logo se tornaram pouco mais que uma série de discussões sobre a melhor maneira de aumentar o PIB. Buscaram-se outras políticas, mas todas tinham o mesmo objetivo.
Contudo, isso ignorou questões significativas. O PIB é apenas um número, e talvez não o mais importante. Não existe uma ligação obrigatória entre o PIB e o bem-estar social real, como assinalou o próprio Kuznets em palestra no Congresso dos EUA. Um PIB crescente pode ser distribuído muito desigualmente, de modo que poucas pessoas têm muito dinheiro, e muitas têm bem pouco. Outros fatores que fazem as pessoas felizes, como relações de família ou com amigos, simplesmente não estão registrados nessa escala. Entretanto, o PIB tornou-se a estatística econômica primordial, usada para mostrar que o país ia bem. Muitos acreditaram, ainda que não se tenha comprovado, que mesmo onde o PIB não condizia com o bem-estar ambos se moviam na mesma direção.
Em 1974, o economista americano Richard Easterlin fez uma contestação direta ao conceito de PIB e renda nacional. Ele analisou pesquisas sobre felicidade em 19 países relativas às três décadas anteriores e afirmou que a ligação entre PIB e bem-estar não era tão forte quanto se pensava. Easterlin descobriu que a felicidade declarada aumentava com a renda, como era de esperar. Mas, para quem ganhava acima do nível de subsistência, a variação na felicidade em países diversos não se alterava muito, apesar das grandes diferenças na renda nacional. O povo dos países ricos não era necessariamente o mais feliz.
Com o passar do tempo, o retrato pareceu ainda mais peculiar. Nos EUA houve aumentos contínuos e comparativamente rápidos do PIB no período desde 1946, mas o grau de felicidade declarada nas pesquisas não parecia acompanhá-los — na verdade, declinou nos anos 1960. Parece que o dinheiro realmente não comprava a felicidade.
Os resultados das pesquisas de Easterlin ficaram conhecidos como paradoxo de Easterlin. Eles desencadearam novas pesquisas sobre a relação entre economia e bem-estar, que haviam ficado dormentes desde o final do século Um festival de primavera no Butão é comemorado com dança. Em 1972, o rei decretou que seu governo instituiria políticas que maximizassem a "felicidade interna bruta". XIX. Os pesquisadores tentaram avaliar como as decisões de indivíduos, empresas e governo impactam a sensação das pessoas sobre si mesmas e a sociedade.
Outra explicação veio com o conceito de "rotina hedonista", proposto em 1971 pelos psicólogos americanos Phillip Brickman e Donald Campbell. Eles disseram que as pessoas se adaptam muito rápido a seus níveis correntes de bem-estar, mantendo-o apesar dos acontecimentos, bons ou ruins. Quando a renda aumenta, elas logo se adaptam ao novo nível de segurança material, encarando-o como normal e, portanto, sem ser mais felizes do que antes. Uma versão radical dessa teoria seria concluir que, além das rendas de subsistência, todo desenvolvimento econômico é em essência irrelevante para o bem-estar, pois a felicidade das pessoas é determinada por algo bem diferente, como caráter ou amizades.
Por outro lado, os pesquisadores expuseram a importância do status e das comparações com outras pessoas. Por exemplo, se ninguém tem carro em uma sociedade, não ter carro faz pouca diferença. Mas, assim que algumas pessoas compram carro, as que não têm um podem sentir isso como perda de status. "Igualar-se aos vizinhos” significa que, quando a economia cresce, a nova riqueza tem impacto positivo limitado sobre a felicidade declarada. Todos acabam numa corrida febril, tentando freneticamente ultrapassar os outros. Quanto mais desigual a sociedade, pior isso se torna.
A contestação do paradoxo
À medida que cresceu o interesse pelo paradoxo de Easterlin nos anos 2000, ele começou a ser contestado. Com dados de um grupo maior de países, os economistas americanos Betsey Stevenson e Justin Wolfers afirmaram em 2008 que a felicidade aumenta com a renda em países diferentes e que um salário crescente também provoca bem-estar maior.
Em geral, os pesquisadores descobriram que, se renda mais alta não se traduz facilmente em um grau maior de felicidade, perder renda tem um efeito bastante negativo no bem-estar. Sobretudo demissão e desemprego afetam duramente o bem-estar, assim como doença grave e novas deficiências.
Em outras palavras, existe uma relação entre PIB e renda nacional, mas não é simples. À medida que dados melhores ficaram disponíveis, a noção de felicidade e bem-estar como metas passíveis de política governamental ganhou adeptos. Por sua vez, isso causou a lenta remoção do PIB como variável econômica crítica de interesse. O argumento é simples: se as variáveis econômicas amplamente divulgadas não captam aspectos importantes da vida econômica e social, basear-se nelas implicaria políticas ruins. Se as políticas se baseassem em "indicadores de felicidade" e não só no PIB, novas prioridades surgiriam. Entre elas poderiam estar medidas para estimular um equilíbrio melhor entre vida pessoal e trabalho. O desemprego poderia ser considerado mais custoso e se poderiam tomar medidas mais fortes para reduzi-lo. Já estão em uso indicadores mais amplos de bem-estar, especialmente em debates sobre países em desenvolvimento: por exemplo, o índice de desenvolvimento humano (IDH) associa renda à expectativa de vida e educação. Já se disse que a atenção concentrada no crescimento do PIB ajudou a ocultar os problemas criados pelo crescimento das dívidas antes da crise financeira de 2008. Se existissem indicadores mais amplos, mais sintonizados com a percepção do bem-estar e mais próximos dos interesses reais das pessoas, o indicador de um PIB crescente não teria sido motivo para comemoração.
A teoria econômica comum sustenta que a economia é mais eficiente onde existem mercados para todos os bens e serviços, e todos que os usam são bem informados. Como não se pode mudar a distribuição de recursos para melhorar a situação de uma pessoa sem piorar a de outra, o bem-estar da sociedade é um bem como outro num mercado livre. A melhor política existente, segundo os defensores do livre mercado, é o governo eliminar as imperfeições dos mercados, tornando-os o mais próximos possível do ideal.
Atuando com imperfeições
Existem, no entanto, condições rígidas para a consecução de políticas eficientes. Em 1956, o economista australiano Kelvin Lancaster e seu colega canadense Richard Lipsey demonstraram que, em certas circunstâncias, as políticas que visam melhorar a eficiência do mercado podem piorar tudo. Em um ensaio intitulado The general theory of second best, eles avaliaram casos em que uma imperfeição do mercado era permanente — e que não havia como o governo corrigi-la ou eliminá-la. Não havia o "primeiro ótimo". Em casos assim, a intervenção do governo em qualquer parte da economía pode piorar os efeitos das imperfeições existentes, afastando o mercado ainda mais do ideal. A reflexão de Lancaster e Lipsey foi de que, se onde uma imperfeição num mercado não pode ser eliminada, todos os outros mercados a evitarão. Eles obterão uma eficiência relativa na distribuição de recursos, dada a existência da imperfeição.
A menos pior
Lancaster e Lipsey foram adiante: quando uma distorção é corrigível, mas outras não, a melhor opção de política pode ser o contrário daquilo que a teoria recomenda. Por exemplo, talvez seja melhor o governo distorcer mais o mercado se ele quiser melhorar o bem-estar geral. As políticas ideais, então, não podem ser orientadas só por princípios abstratos; devem ser fundamentadas na plena compreensão do funcionamento conjunto dos mercados.
Um exemplo clássico é o de um monopolista que polui um rio na produção. A poluição é tanto custosa para a sociedade como uma consequência inevitável da produção. Não pode ser eliminada do processo e é uma imperfeição permanente do mercado. Mas o monopólio pode ser eliminado.
A teoria econômica comum diria ao governo que rompesse o monopólio e criasse mais concorrência no mercado. Isso aproximaria a economia do ideal de eficiência. Contudo, os produtores concorrentes produziriam mais do que um único produtor e também aumentariam a poluição. O resultado quanto ao bem-estar da sociedade como um todo é incerto. A população pode lucrar com o aumento da produção e os custos mais baixos, mas perderia com mais poluição. A solução do "segundo ótimo" seria deixar o monopólio em funcionamento.
A teoria do segundo ótimo continua sendo crucial para a política econômica, recomendando que os governos ajam com cautela em vez de tentar alcançar o ideal.
Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental teve de reconstruir sua economia e seu sistema político do zero. O chanceler Konrad Adenauer empreendeu essa tarefa em 1949, após a ocupação aliada. O modelo que ele escolheu tinha origem nas ideias de Franz Böhm e Walter Eucken, da Escola de Freiburg, dos anos 1930, que ressurgiu nos anos 1940 como "ordoliberalismo". Seus principais defensores eram Wilhelm Röpke e Alfred Müller-Armack. Esses economistas pretendiam atingir o que Müller-Armack chamava de economia social de mercado: não só uma "economia mista", em que o governo provê o mínimo dos bens públicos necessários, mas uma via intermediária entre o capitalismo de livre mercado e o socialismo, a fim de obter o melhor dos dois. A indústria continuou privada e tinha liberdade de concorrência, mas o governo propiciava vários bens e serviços públicos, como seguridade social com assistência de saúde universal, pensões, auxílio desemprego e medidas que baniam monopólios e cartéis (acordos entre empresas). Em tese, isso permitiria o crescimento econômico de mercados livres, mas ao mesmo tempo produziria inflação baixa, baixo desemprego e uma distribuição de riqueza mais igualitária.
Milagre econômico
A mistura de mercados livres com elementos do socialismo funcionou espantosamente bem. A Alemanha viveu um Wirtschaftswunder ("milagre econômico") nos anos 1950 que a transformou de uma nação destruída pela guerra em uma nação desenvolvida. Economias sociais de mercado evoluíram em outros lugares, sobretudo na Escandinávia e na Áustria. Quando a Europa iniciou a união econômica, a economia social de mercado foi elevada a modelo para a Comunidade Econômica Europeia nos anos 1950. Muitos países europeus prosperaram sob alguma forma de economia social de mercado, mas, nos anos 1980, alguns especialmente a Grã-Bretanha — foram atraídos pelas ideias de Milton Friedman (p. 199), que defendia um governo "menor". A primeira-ministra britânica Margaret Thatcher criticou o modelo europeu por sua intervenção estatal e impostos altos, que, para ela, impediam a concorrência.
Com o colapso do comunismo no bloco oriental, as economias planificadas da Europa Oriental foram substituídas por várias versões da economia mista. Ao mesmo tempo, alguns dos países comunistas remanescentes passaram a introduzir reformas. Na China, por exemplo, o premiê Deng Xiaoping adotou elementos da economia de livre mercado na economia centralizada, no que ele chamou de "economia de mercado socialista com características chinesas". Seu objetivo era estimular o crescimento econômico e se tornar competitivo no palco mundial. Hoje a economia da China ainda está bem distante do modelo social de mercado europeu, mas deu passos significativos na direção de uma economia mista.
Nos anos 1950, o economista americano Robert Solow elaborou um modelo de crescimento econômico que previu a uniformização dos padrões de vida em todo o globo. Sua previsão era de que o capital tem rendimentos decrescentes: investimentos extras geram uma produção cada vez menor. Como os países pobres têm pouco capital, o capital extra adicionaria muita produção, e esses retornos atrairiam investimento. Presume-se que os países tenham acesso à mesma tecnologia; ao usá-la, os países pobres empregam o capital adicional para aumentar a produção. O efeito é maior do que num país mais rico. Portanto, o crescimento é maior nos países pobres, e seu padrão de vida alcança o dos países ricos, num efeito que os economistas chamam de convergência.
Desde os anos 1950, poucos países asiáticos alcançaram os ocidentais, mas muitos países africanos ficaram bem atrás. As premissas de Solow nem sempre são reais. A tecnologia não é universal; mesmo que o conhecimento seja acessível, pode haver barreiras ao seu uso. O capital nem sempre vai para os países pobres — por exemplo, direitos de propriedade frouxos e instabilidade política afastam investidores. Enfim, a teoria do crescimento endógeno, aprimorada nos anos 1980, vai além do modelo de Solow com pesquisas mais realistas sobre os efeitos do avanço tecnológico. Nessa teoria, as novas técnicas desenvolvidas por uma empresa podem beneficiar outras, o que talvez provoque retornos crescentes do investimento. Então, em vez de convergência, o resultado pode ser de divergência entre os países.
Padrões de vida
A convergência pode ser medida por outros fatores que não a renda. Saúde e alfabetização estão ligadas à renda, mas de modo imperfeito: alguns países pobres têm população relativamente saudável e letrada. A expectativa de vida pode aumentar muito com intervenções sanitárias simples como vacinação. Assim, sem levar em conta a renda, os países pobres têm mais sucesso em melhorar o padrão de vida.
Apesar disso, muitos economistas ainda tentam explicar as diferenças de renda. A atenção se deslocou do capital e da tecnologia aos pré-requisitos necessários para os países em desenvolvimento convergirem com os ricos.
Globalização é um termo de significado diferente para políticos, executivos e cientistas sociais. Para os economistas significa a integração de mercados, o que eles sempre acharam bom.
No século XVIII, Adam Smith (p. 61) chamou de protecionistas as ideias do velho mercantilismo, que pretendiam restringir a entrada de produtos estrangeiros. Para ele, o comércio internacional aumentaria os mercados e daria mais eficiência aos países que se especializassem em certos produtos. A integração de mercados costuma ser considerada inevitável, por vir com uma onda de nova tecnologia — telefones mais inteligentes, aviões mais rápidos e expansão de internet. A globalização também é afetada por opções que os países fazem — às vezes conscientes, às vezes acidentais. Embora a mudança tecnológica aproxime as nações, as políticas escolhidas podem afastá-las.
A globalização atual não é inédita. Ela aumentou e diminuiu ao longo do tempo à medida que as nações escolhiam políticas diversas. Essas escolhas aumentaram o efeito do progresso tecnológico na integração dos mercados, mas também o restringiram.
A integração de mercados é a fusão de muitos em um só. Em certo mercado, um produto tem um só preço: o preço da cenoura é o mesmo na zona Leste e na zona Oeste de Paris, se essas regiões fazem parte do mesmo mercado. Se o preço da cenoura na zona Oeste fosse maior, a cenouras seriam levadas da zona Leste para lá, e os preços se nivelariam. O preço da cenoura em Paris e em Lisboa, contudo, pode ser bem diferente, e o alto custo do transporte e outras despesas tornariam contraproducente para os portugueses levar seu estoque para a França caso os preços fossem mais altos lá. Em mercados diferentes, o preço de um mesmo bem pode ser diferente por um longo período.
A integração global de mercados implica a eliminação das diferenças de preço entre os países, pois todos os mercados tornam-se um. Um modo de acompanhar o avanço da globalização é ver as tendências de convergência (semelhança) de preços nos países. Quando os custos do comércio internacional caem, aumenta a chance de as empresas se aproveitarem das diferenças de preço — por exemplo, de os portugueses entrarem no mercado francês. Os custos comerciais caem quando formas de transporte são criadas ou quando ficam mais rápidas e mais baratas. Além disso, alguns custos são impostos pelo homem: os Estados criam barreiras ao comércio, como tarifas e cotas de importação. Quando estas são reduzidas, o custo do comércio internacional cai.
Ascensão do comércio mundial
O comércio de longa distância existe há séculos, pelo menos desde as missões comerciais dos fenícios no primeiro milênio antes de Cristo. Esse comércio teve o incentivo de populações e rendas crescentes, que criaram a demanda de novos produtos. Contudo, as barreiras comerciais que dividem os mercados não mudaram muito. A globalização só decolou realmente nos anos 1820, quando as diferenças de preço passaram a diminuir. Isso foi causado por uma revolução no transporte - o advento dos navios a vapor e das ferrovias, a invenção da refrigeração e a abertura do canal de Suez, que cortou o tempo de viagem entre a Europa e a Ásia. Na véspera da Primeira Guerra Mundial, a economia internacional era bastante integrada, mesmo pelos padrões do século XX, com fluxos de capital e de mão de obra sem precedentes.
Do século XIX em diante, o avanço tecnológico ajudou a integrar os mercados. É isso que faz a globalização parecer irreversível — quando inventada uma tecnologia como o transporte a vapor, ela não é desinventada, mas tende a se tornar mais viável economicamente em mais países. Boa parte desse desenvolvimento foge ao controle direto dos governos. Todavia, de um só golpe os governos podem impor tarifas e outros tipos de barreiras ao comércio, cortando importações e dificultando o comércio.
Nos tempos modernos, a mais surpreendente reversão da globalização provocada por políticas ocorreu na Grande Depressão dos anos 1930. Quando os países entraram em recessão, os governos impuseram tarifas. Estas deveriam fazer os consumidores procurar produtos nacionais. Em 1930, os EUA aprovaram a tarifa Smoot-Hawley, que aumentou a alíquota sobre bens importados a um nível recorde. Essas tarifas reduziram a procura de produtos estrangeiros. Outros países reagiram, impondo tarifas. O resultado foi o colapso do mercado mundial, que intensificou os efeitos da Depressão. Foram necessárias três décadas para reconstruir a economia mundial.
Integração
No final do século XX, a globalização da maioria dos mercados voltou ao nível de logo antes da Primeira Guerra. Hoje, os mercados são mais integrados que nunca, pois os custos de transporte continuam a cair, e a maioria das tarifas foi eliminada.
Uma previsão do futuro da globalização envolve a eliminação de outros tipos de barreira ao comércio causados por diferenças institucionais entre os países. Os mercados estão inseridos nas instituições — nos direitos de propriedade, na legislação e nas regulamentações. As diferenças entre as instituições nacionais criam custos comerciais, do mesmo modo que as tarifas ou a distância. Por exemplo, pode haver leis diferentes no Quênia e na China sobre o que acontece quando um comprador não paga, dificultando para o exportador chinês recuperar o que lhe devem caso haja uma ação judicial, com o que a empresa poderia relutar em entrar no mercado queniano. Apesar da suspensão de tarifas, o mundo está longe de ser um mercado único. Por causa dessas incompatibilidades institucionais, as fronteiras ainda contam. A integração plena exige a eliminação de diferenças legais para criar um espaço institucional único. Alguns economistas dizem que esse processo está em curso e é inevitável, e que os mercados mundiais levam à harmonização das instituições nacionais. Pense numa empresa multinacional que escolha um país para abrir uma fábrica. Para atrair o investimento dela, o governo pode cortar impostos e abrandar exigências legais. Outros países fazem o mesmo. Com a menor arrecadação tributária, os países têm menos capacidade de financiar sistemas assistenciais e programas educacionais. Todas as decisões políticas voltam-se para a integração com os mercados mundiais. Não haveria produtos nem serviços incompatíveis com isso.
Globalização x democracia
O economista turco Dani Rodrik (1957-) criticou essa visão de "integração profunda", chamando-a de indesejável e muito longe de inevitável e dizendo que persiste uma diversidade institucional considerável entre os países. O ponto de partida de Rodrik é de que as opções sobre a direção da globalização estão sujeitas a um "trilema" político. As pessoas querem a integração de mercados pela prosperidade que ela traz; também querem democracia e uma nação soberana e independente. Rodrik diz que as três são incompatíveis. Só duas são possíveis ao mesmo tempo. A solução do trilema implica formas diferentes de globalização.
O trilema vem do fato de que uma integração de mercados profunda, ou mais completa, requer a remoção de variações institucionais entre os países. Mas cada eleitorado nacional quer tipos diferentes de instituição. Em comparação com os eleitores dos EUA, os europeus tendem a preferir Estados bastante assistencialistas. Então, uma estrutura mundial única, em que as nações ainda existam, significa ignorar as preferências do eleitorado de alguns países. Isso conflitaria com a democracia, e os governos ficariam no que o jornalista americano Thomas Friedman (1953-) chamou de "camisa de força de ouro". Por outro lado, uma estrutura institucional mundial em que a democracia reinasse exigiria um "federalismo global" — um único eleitorado internacional e a dissolução das nações.
Hoje estamos longe da camisa de força de ouro e do federalismo global. Os Estados são fortes, e a persistente diversidade institucional entre os países indica que as preferências variadas de populações diferentes importam. Desde a Segunda Guerra Mundial, o trilema de Rodrik tem sido resolvido com o sacrifício da integração profunda. Os mercados têm se aproximado ao máximo ante a diversidade de instituições dos países. Rodrik chamou a isso de "compromisso de Bretton Woods", referindo-se às instituições mundiais criadas após a guerra (pp. 186-87) — o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Essas organizações visavam evitar a repetição da reação catastrófica vista nos anos 1930 na forma de uma integração controlada, em que os Estados eram livres para fazer políticas nacionais e se desenvolver segundo vias institucionais variadas.
A era da liberalização, a partir dos anos 1980, viu o compromisso de Bretton Woods se enfraquecer, com a agenda política cada vez mais orientada para a integração profunda. Rodrik afirma que a diversidade institucional deve ser preservada em detrimento da integração profunda. O desejo dos eleitores europeus de assistencialismo e sistemas públicos de saúde não é apenas econômico, mas sua visão de justiça. A diversidade institucional reflete esses valores diferentes. Na prática, existe mais de um caminho institucional para uma economia saudável. Os requisitos para o crescimento nos países em desenvolvimento atuais podem ser diferentes dos das nações desenvolvidas. Com a imposição de um modelo institucional mundial, corre-se o risco de pôr uma camisa de força nos países, sufocando seu desenvolvimento econômico. A globalização pode ter limite, e este talvez seja de que a fusão completa das economias não é nem factível nem, afinal, desejável.
Com intenso crescimento de início após a Segunda Guerra Mundial, as economias de planejamento central da Europa Oriental enfrentaram problemas cada vez mais óbvios. Conseguiam mobilizar recursos em ampla escala para tarefas bem definidas, como produção de armamentos, mas tinham dificuldade em questões mais complexas. A escassez era constante, pois produtos e serviços — ao contrário do planejado — não eram entregues na hora, na quantidade necessária ou com a qualidade adequada. O hiato entre Oriente e Ocidente se ampliou.
Restrição orçamentária fraca
Alguns regimes tentaram fazer reformas no planejamento. A Hungria foi mais longe, introduzindo elementos de concorrência de mercado a partir dos anos 1960. Em tese, isso deveria beneficiar o mercado, trazendo inovação, ampliando as opções e ao mesmo tempo mantendo a capacidade de propiciar bens sociais amplos, como pleno emprego. Na prática, após sucessos iniciais, o sistema manteve escassez e ineficiência.
Na tentativa de entender o problema, o economista húngaro János Kornai saiu-se com o conceito de "restrição orçamentária fraca". Nos mercados concorrenciais, as decisões das empresas em geral se sujeitam a restrições orçamentárias "rígidas": as receitas precisam ao menos cobrir os custos, ou elas têm perdas financeiras. Isso disciplina as empresas a economizar em insumos e vender a produção de um modo que maximize os lucros. Kornai notou que, em economias planejadas como a da Hungria, as empresas não eram submetidas a essa disciplina: tinham restrições orçamentárias fracas, não rígidas. O Estado as protegia da ameaça de falência as que produziam bens essenciais nunca seriam obrigadas a fechar. Mesmo depois de algumas reformas terem sido realizadas, o Estado continuava a socorrer as empresas falimentares. Além disso, as empresas usavam de barganha política para se safar de pagar suprimentos ou evitar a tributação.
A restrição orçamentária fraca implica às empresas não precisarem cobrir os custos com a receita. Elas costumam exigir insumos a mais em relação ao nível de produção, gerando uma procura excessiva de certos insumos e depois escassez derivada da ineficiência. A escassez acaba chegando aos compradores, que acham as prateleiras do mercado vazias. Para Kornai, a escassez sujeitava os consumidores a uma "substituição forçada" — a necessidade de comprar a segunda opção disponível, dada a escassez.
Socorros financeiros
Ineficiências desse tipo se somaram à grave fraqueza das economias planificadas. O socorro garantido e a falta de disciplina orçamentária acarretavam pouco incentivo às empresas para fornecer bens e serviços com eficiência.
Kornai fala das restrições orçamentárias fracas como uma "síndrome" do planejamento central que não tem cura, porque só uma mudança sistêmica completa traria uma solução. O problema não era restrito aos países socialistas- Kornai afirmou que grandes bancos ocidentais têm restrição orçamentária fraca, já que esperam ser socorridos pelo governo, pondo o sistema bancário sob alto grau de risco. Por outro lado, pode soar injusto instituir restrições rígidas ao orçamento em cada Estado ou autoridade governamental local — como mandar prender uma família inadimplente. Na prática, mesmo as mais livres economias de mercado contêm uma mistura de restrições orçamentárias fracas e rígidas.
Você faz cálculos estratégicos quando imagina como outra pessoa reagirá ao que você faz. Realizar com sucesso as interações sociais econômicas é um pouco como um jogo de xadrez, em que os jogadores devem escolher um movimento de acordo com o possível movimento do outro jogador. Até os anos 1940, a economia evitava essa questão. Os economistas presumiam que todo comprador e vendedor fossem pequenos demais comparados com o tamanho total do mercado, de modo que ninguém podia escolher o preço que pagava por um produto ou o salário pelo qual vendia seu trabalho. Afirmava-se que, como as opções pessoais não influem nos outros, elas podiam ser ignoradas. Contudo, ainda em 1838 o economista francês Antoine Augustin Cournot (p. 91) avaliou quanto duas empresas produziriam baseadas no que uma achava que a outra faria, mas esse foi um caso isolado de análise de interações estratégicas.
Em 1944, os matemáticos americanos John von Neumann e Oskar Morgenstern publicaram a inovadora obra Theory of games and economic behavior. Eles afirmaram que muitas partes do sistema econômico eram dominadas por um número pequeno de participantes, como empresas grandes, sindicatos ou o governo. Em tal situação, o comportamento econômico precisava ser explicado em relação às interações estratégicas. Ao analisar jogos simples com duas pessoas que são de "soma zero" (um vence, e o outro perde), eles pretendiam criar regras gerais sobre o comportamento estratégico das pessoas em qualquer ocasião, o que passou a se chamar teoria dos jogos.
Von Neumann e Morgenstern analisaram os jogos cooperativos em que são dadas aos jogadores algumas ações possíveis, cada qual com um resultado particular, ou recompensa (pay-off). Os jogadores têm a oportunidade de discutir a situação e chegar a um plano de ação acordado. Um exemplo real desse jogo foi dado pelo matemático americano Merrill Flood, que deixou seus três adolescentes fazerem propostas (lances) pelo direito de um deles de trabalhar como babá por um pagamento máximo de US$4. Eles puderam discutir o problema e formar uma aliança, mas, se não conseguissem chegar a um consenso, o pior apostador ganharia. Para Flood, as soluções do problema eram fáceis, como resolver por lote ou dividir o arrecadado por igual. No entanto, seus filhos não conseguiram achar uma solução, e afinal um deles fez o lance de 90 centavos para fazer o trabalho.
Equilíbrio de Nash
No início dos anos 1950, um matemático americano jovem e brilhante, John Nash, ampliou esse trabalho para ver o que acontecia quando os jogadores tomam decisões independentes em situações não cooperativas — em que não há oportunidade de comunicação ou colaboração. A cooperação é um resultado possível, mas só se cada jogador achar que ela aumenta suas chances de sucesso. Nash notou um estado de equilíbrio nesses jogos, no qual nenhum dos jogadores quer mudar de atitude. O jogador escolhe sua melhor estratégia, presumindo que o adversário também procura a sua melhor. Para Nash, em tal situação nenhum dos jogadores quer mudar de atitude, porque "a estratégia de cada jogador é ótima diante da dos outros". Hoje esse estado é conhecido como equilíbrio de Nash. Houve um grande florescimento da teoria dos jogos depois da Segunda Guerra Mundial, principalmente no grupo de especialistas da Rand (nome que vem da empresa Research and Development — pesquisa e desenvolvimento). Criada pelo governo dos EUA em 1946, a Rand recebeu a incumbência de pôr a ciência a serviço da segurança nacional. Empregou matemáticos, economistas e outros cientistas para pesquisar áreas como a da teoria dos jogos, que era considerada particularmente relevante para a política da Guerra Fria.
Em 1950, os teóricos da Rand conceberam dois exemplos de jogos não cooperativos. O primeiro foi publicado com o nome de "So Long Sucker" (Até mais, bobo). Esse jogo foi feito especificamente para ser o mais cruel possível do ponto de vista psicológico. Forçava os jogadores a fazer alianças, mas no fim, para ganhar, era preciso enganar o parceiro. Conta-se que, depois de experimentar jogá-lo, maridos e mulheres iam para casa em táxis separados.
O dilema do prisioneiro
Talvez o exemplo mais famoso de um jogo não cooperativo seja o dilema do prisioneiro. Foi criado em 1950 por Melvin Dresher e Merrill
Flood, ampliando o trabalho de Nash. O dilema envolve dois criminosos capturados que ficam presos separadamente durante o interrogatório. São oferecidas a eles duas opções: se ambos testemunharem contra o outro, eles serão condenados a uma pena mediana na cadeia que será difícil, mas suportável. Se nenhum testemunhar contra o outro, ambos receberão uma pena curta, que eles cumprirão com facilidade. Contudo, se um testemunhar e o outro não, o primeiro será libertado, e o homem que ficou em silêncio receberá uma pena longa que lhe arruinará a vida.
O dilema de cada detento é trair ou não trair. Se ele trair o parceiro, será libertado ou acabará com uma pena mediana. Se ele confia que o parceiro não o trairá, poderá ter uma pena curta ou passará muito tempo na cadeia. Para evitar a possibilidade da "recompensa do bobo" — acabar com uma sentença longa —, o equilíbrio de Nash é sempre trair. O interessante é que a estratégia "dominante" (melhor) de traição mútua não aumenta o bem-estar do grupo. Se ambos se recusassem a trair, o tempo total de prisão seria reduzido.
Dresher e Flood testaram o dilema do prisioneiro em dois dos seus colegas para ver se a previsão de Nash estava correta. Eles fizeram um jogo em que cada jogador poderia escolher confiar ou trair o outro. A compensação foi preparada de tal forma que houvesse uma recompensa do bobo, mas também uma opção de troca cooperativa que beneficiaria a ambos os jogadores, solução que refletia o trabalho anterior de Von Neumann e Morgenstern com jogos cooperativos.
A experiência teve cem rodadas. Essa versão repetitiva do jogo deu aos jogadores a chance de punir ou recompensar a atitude anterior do parceiro. Os resultados mostraram que o equilíbrio de Nash de traição fora escolhido apenas 14 vezes, contra 68 vezes da solução cooperativa. Dresher e Flood concluíram que pessoas de carne e osso aprendem rápido a escolher uma estratégia que aumente seu benefício. Nash afirmara que a experiência tinha falhas porque deu margem a muita interação e que o único ponto de equilíbrio verdadeiro era a traição.
Jogo de guerra e paz
A versão interativa do dilema do prisioneiro acabou conhecida como jogo de guerra e paz. Foi usado para explicar a melhor estratégia na Guerra Fria com a União Soviética. À medida que se criavam novas tecnologias, como a de mísseis balísticos intercontinentais, cada lado tinha de decidir se investia uma quantidade enorme de dinheiro para comprar tais armas. A nova tecnologia poderia implicar a capacidade de ganhar uma guerra relativamente indolor se o outro lado não inventasse uma nova arma. A consequência de não a criar era ou uma economia enorme de dinheiro, caso o outro lado também não a desenvolvesse, ou a recompensa do bobo de derrota total, caso o outro lado a criasse.
A importância da obra de Nash, em contexto mais amplo, foi mostrar que poderia haver um equilíbrio entre indivíduos independentes e interesseiros, que criaria estabilidade e ordem. Na verdade, afirmou-se que o equilíbrio obtido por indivíduos que tentam maximizar sua recompensa produzia resultados mais seguros e estáveis que quando os jogadores tentavam levar em conta o outro.
Nash dividiu o Prêmio Nobel de economia de 1994 com outros dois economistas que ajudaram a aprimorar a teoria dos jogos. Nascido na Hungria, o economista John Harsanyi provou que os jogos em cujos participantes não têm informação completa sobre motivos ou recompensas podem mesmo assim ser analisados. Uma vez que a maioria das decisões estratégicas na vida é tomada em meio a incerteza, essa foi uma descoberta significativa. Um exemplo real pode ser o de os bancos não saberem qual será a atitude do banco central diante de inflação e desemprego, e não saberem, portanto, se as taxas de juro subirão para reduzir a inflação ou serão reduzidas para aumentar o emprego. Como os lucros das empresas no mercado financeiro são determinados pela taxa de juro que o banco central definirá, as empresas precisam ser capazes de avaliar o risco de emprestar mais ou menos dinheiro. Harsanyi mostrou que, mesmo que os mercados não saibam com que alvo o banco central está mais preocupado, a teoria dos jogos consegue identificar o equilíbrio de Nash, que é a solução do problema.
O jogo centípede
Outro economista responsável pelo aprimoramento da teoria dos jogos foi o alemão Reinhard Selten, que concebeu o conceito de perfeição de subjogo em jogos de muitas etapas. A ideia é que deveria haver um equilíbrio em cada etapa, ou "subjogo", de um jogo inteiro. Isso pode ter grandes consequências. Um exemplo é o jogo centipede, em que os jogadores passam certa soma de dinheiro entre si e, cada vez que o fazem, a pilha de dinheiro aumenta 20%. Existem duas maneiras de o jogo terminar: o dinheiro é passado entre eles por cem rodadas (daí o nome centípede), e então a quantia total é dividida, ou em certa etapa um jogador decide ficar com a pilha de dinheiro que recebeu. A opção de cada jogador é cooperar passando o dinheiro adiante ou sair e ficar com o dinheiro. Na última rodada, o melhor que o jogador pode fazer é sair e ficar com o dinheiro. Isso implica que na penúltima rodada a saída é também a melhor opção prevendo a saída mais à frente do adversário. Dando prosseguimento a essa lógica de trás para a frente, a saída predomina em cada rodada, de modo que a escolha perfeita do subjogo é sair na primeira rodada. Contudo, o resultado parece paradoxal, porque o montante de dinheiro na primeira rodada é muito pequeno, e não vale a pena sair do jogo por ele.
Essa ideia foi aplicada à situação em que há uma grande rede de lojas por todo o país e uma concorrente prepara-se para entrar no mercado em uma ou mais cidades. A rede pode ameaçar baixar os preços no local em que a nova empresa tenciona entrar. Essa ameaça pode parecer real e proveitosa, pois não tomaria muito do lucro da rede e impediria que a outra empresa entrasse nessa região. A estratégia ideal quanto ao equilíbrio de Nash parece ser a de a rede travar uma guerra de preços e a nova empresa não entrar no mercado. Todavia, segundo Selten, se a empresa existente for forçada a baixar os preços toda vez que uma nova concorrente tentar entrar em um de seus mercados, as perdas acumuladas seriam grandes demais. Assim, olhando para a frente e raciocinando para trás, a ameaça de uma guerra de preços é irracional. Selten conclui que a entrada da nova empresa sem uma guerra de preços é perfeita no subjogo.
Racionalidade limitada
Esses paradoxos vêm da suposição de que os indivíduos que participam dos jogos são totalmente racionais. Selten propôs uma teoria mais realista de tomada de decisão. Embora as pessoas às vezes tomem decisões com cálculo racional, quase sempre o fazem com base em experiências anteriores e princípios. Elas nem sempre usam cálculo racional, mas podem ser o que os teóricos chamam de "limitadamente racionais": capazes de escolher por intuição as soluções mais atraentes a jogos que possam não ser perfeitos no subjogo.
A teoria dos jogos tem seus críticos, para os quais ela conta histórias maravilhosas, mas não passa no exame principal de qualquer teoria científica: não consegue fazer previsões úteis sobre o que virá. Um jogo pode ter muitos equilibrios. Um setor que acabe se transformando num cartel pode ser um resultado tão racional quanto aquele que leva a uma guerra de preços. Além disso, as pessoas não tomam decisões com base em um infindável "se eu fizer isto e eles fizerem aquilo ou se eu fizer aquilo e eles fizerem isto".
O economista americano Thomas Schelling abordou essa questão ao se aprofundar na ideia de que os gatilhos do comportamento não se baseiam apenas em probabilidades matemáticas. No "jogo de coordenação", em que ambos os jogadores são recompensados se pensam na mesma carta, que carta do baralho você escolheria se quisesse se igualar a alguém? Você pegaria o ás de espadas?
Os países ricos dizem que não querem manter a pobreza dos países pobres, e sim que as relações entre eles ajudem os dois lados. Todavia, nos anos 1960 o economista alemão Andre Gunder Frank afirmou que as políticas de desenvolvimento do mundo ocidental, ao lado do livre comércio e do investimento, perpetuam a divisão do mundo. Preservam o domínio do mundo rico e mantêm a pobreza nos países pobres. Frank chamou a isso de "teoria da dependência".
Comércio desequilibrado
Os países ocidentais ricos nunca foram parceiros menores num bloco de países poderosos e avançados economicamente, como ocorre hoje com os países pobres. Por isso certos economistas notaram que as políticas que ajudaram os países avançados a se desenvolver podem não beneficiar os países pobres.
A liberalização do comércio internacional costuma ser louvada por economistas como uma maneira infalível de ajudar as economias subdesenvolvidas. Contudo, a teoria da dependência de Frank diz que tais políticas em geral provocam situações em que os países ricos se aproveitam dos pobres. Os países subdesenvolvidos produzem matérias-primas, compradas pelos países ricos, que então fabricam produtos vendidos internamente ou aos outros países desenvolvidos. Isso acarreta um sistema comercial desequilibrado, no qual a maior parte do comércio dos países pobres é com nações ricas e desenvolvidas. Só uma pequena porcentagem se dá com países em desenvolvimento. Em decorrência, os países mais pobres veem-se em posição fraca para negociar — fazem comércio com potências maiores e mais ricas —, e lhes são recusadas as condições comerciais favoráveis de que precisam para prosperar.
Costuma-se dizer que essas forças implicam a separação da economia mundial em um "núcleo" de países ricos para os quais flui a riqueza de uma "periferia" de países pobres marginalizados. A economia dos países pobres tende também a se organizar de tal modo que não incentiva o investimento, que é um estímulo crucial ao crescimento da economia de qualquer país.
Quando os países ricos levam indústria e investimentos aos países pobres, eles dizem que ajudam a economia dos países pobres a crescer. Os teóricos da dependência declaram que, na realidade, os recursos nacionais são explorados, os trabalhadores são mal pagos e os lucros, distribuídos a acionistas no exterior, e não reinvestidos na economia do país.
Via alternativa
Para evitar os perigos apontados pelos teóricos da dependência, alguns países pobres adotaram uma via diferente. Em vez de se abrirem ao comércio mundial, à globalização e ao investimento estrangeiro, decidiram isolar-se. Há quem diga que a ascensão dos Tigres Asiáticos — Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Coreia do Sul — e o extraordinário crescimento econômico da China revelam falhas na teoria da dependência. Era um grupo de economias em desenvolvimento para as quais o comércio exterior foi uma força de crescimento e industrialização rápidos. Há pouco tempo, a teoria da dependência teve eco nos movimentos antiglobalização, que continuam a questionar o enfoque clássico.
O aumento da intervenção e dos gastos do governo após a Segunda Guerra Mundial propiciou uma nova maneira significativa para os economistas pensarem sobre a economia inteira. Eles acreditavam em particular que o governo pudesse estimular a economia usando políticas monetárias e fiscais (impostos e gastos) para obter uma produção permanentemente mais alta e desemprego mais baixo.
As primeiras críticas a esses modelos keynesianos tinham um exame detido da ideia de "expectativas". As expectativas importam porque o que as pessoas acham que vai acontecer afeta seu comportamento no presente. De início, achou-se que as expectativas fossem "adaptativas". Isso quer dizer que as pessoas criam expectativas sobre o futuro baseadas apenas no que já aconteceu — se o acontecimento A levou ao acontecimento B, o mesmo ocorrerá de novo. Em cada caso, os indivíduos se ajustam no hiato entre o que esperavam acontecer e o resultado real.
Reconheceu-se que a necessidade de levar em conta as expectativas na teoria econômica enfraquecia o resultado das políticas keynesianas (pp. 154-61), com as quais os governos aumentam os gastos para aumentar a demanda. Essas políticas presumem que, se os salários aumentam em decorrência de um incentivo do governo à economia, ocorrerá um aumento na atividade econômica real das pessoas elas trabalharão mais. Na realidade, o aumento da demanda também implica o aumento de preços, de modo que em termos reais os salários não aumentaram. As pessoas são levadas temporariamente a pensar que o salário monetário maior reflete um aumento no salário real, porque elas levam um tempo para perceber que os preços também subiram — sua expectativa quanto a preços futuros ajusta-se lentamente. Desse modo, o governo consegue aumentar a produção da economia por meio de uma política monetária ou fiscal (de fato) enganando o povo.
Porém, isso só é assim no curto prazo: quando as expectativas se ajustam, as pessoas percebem que seu salário real não aumentou, e a economia retoma o nível de emprego mais baixo original.
Expectativas racionais
Esse modo de moldar expectativas era simples, mas falho. Se as pessoas só olhassem para o passado ao fazer previsões, é bem provável que elas sempre estivessem erradas. Os choques inesperados na economia, fazendo-a se desviar (mesmo temporariamente) de uma rota anterior, se tornariam erros permanentes nas previsões. Mas, se as pessoas cometessem erros de previsão persistentes, elas perderiam constantemente para o mercado o que não parece retratar o comportamento individual.
Foi a insatisfação com a teoria das expectativas adaptativas que levou o importante economista americano John Muth à teoria das "expectativas racionais", em 1961. No centro dessa teoria encontra-se uma ideia bastante simples. Se os compradores são racionais, eles não adivinham os preços futuros com base nos anteriores. Ao contrário, tentarão prever os preços baseados na informação disponível e usando criticamente um modelo correto da economia. Farão previsões abalizadas, sem seguir cegamente o comportamento passado — e isso porque, se não criarem expectativas racionalmente, serão punidos pelo mercado e perderão dinheiro.
Usamos expectativas racionais o tempo todo. Os agricultores, por exemplo, tomam decisões sobre o que plantar com base nos preços obtidos antes, nas condições atuais e nas probabilidades futuras. Eles não supõem que, se plantarem a mesma quantidade do mesmo produto de cinco anos antes, este terá o mesmo preço de mercado - nem os vendedores de produtos agrícolas. A punição do mercado obriga as pessoas a ter comportamento racional, e, com o tempo, suas expectativas podem ser consideradas tão boas quanto o melhor modelo econômico existente. A teoria das expectativas racionais é aparentemente simples, mas tem consequências assombrosas. De acordo com as expectativas adaptativas, a intervenção do governo pode funcionar por um tempo, porque pegaria as pessoas de surpresa. Elas não conseguiriam prever políticas futuras, de modo que um aumento inesperado nos gastos agiria como um choque "positivo" na economia, com efeitos reais em curto prazo. Mesmo esses efeitos temporários são impossíveis, segundo a teoria das expectativas racionais, pois as previsões pessoais de aumentos de preço ajustam-se de imediato.
Antecipando os fatos
Em 1975, dois economistas americanos, Thomas Sargent e Neil Wallace, disseram que, se as expectativas são racionais, os indivíduos não só passam a esperar uma intervenção do governo, mas adaptam seu comportamento de tal maneira que aquela política seria ineficaz. Pressupondo expectativas racionais, as pessoas saberiam que o governo teve um motivo para gerar choques, como a tentativa de manter baixo o desemprego. Elas ajustariam suas expectativas de acordo. Por exemplo, entenderiam que o fato de o governo usar uma política monetária (como baixar as taxas de juro) para manter o nível de emprego implica inflação mais alta. Por conseguinte, as pessoas alteram suas expectativas quanto ao aumento de salário e de preços. Em vez de se sentirem mais ricas, a expectativa de inflação anula os efeitos das taxas de juro mais baixas propostas pelo governo. Assim, a política monetária torna-se totalmente ineficaz, porque sempre será levada em conta, e o comportamento alterado das pessoas a anulará.
Os responsáveis pelas políticas já acreditaram que existisse uma oposição entre desemprego e inflação — que os governos pudessem incentivar a economia e obter um nível de emprego mais alto no longo prazo com inflação mais alta (pp. 202-03). Segundo a teoria das expectativas racionais, essa oposição se desvanece. O desemprego é determinado pela capacidade produtiva da economia: a produtividade e a capacidade tecnológica das empresas e a eficiência de seus mercados. Os responsáveis pelas políticas não conseguem incentivar a economia além desse nível de emprego.
A crítica de Lucas
O economista americano Robert Lucas ressaltou que, se as expectativas individuais se ajustam conforme a política oficial, quer dizer que toda a estrutura da economia — os conjuntos de relações entre diferentes famílias, empresas e o governo — se altera com mudanças na política. Em decorrência, nem sempre os efeitos da política são os almejados. Isso passou a ser conhecido como a "crítica de Lucas", que teve força suficiente para convencer a maioria dos economistas de que são falhas as tentativas de moldar uma economia inteira mexendo em suas relações estruturais, como fazem os modelos keynesianos. Ao contrário, os modelos devem focar as preferências sub-reptícias mais profundas das pessoas e os recursos e as tecnologias que orientam o comportamento individual. Lucas sugeriu um novo enfoque "neoclássico" da macroeconomia, propiciando um retorno parcial ao mundo pré-keynesiano. Os modelos posteriores de "ciclos econômicos reais" afirmaram que as mudanças no emprego são determinadas por alterações em fatores de mão de obra "reais", como aumento na produtividade ou mudanças nas preferências pessoais por lazer e não por trabalho. O elemento crítico tanto dos ciclos econômicos reais quanto dos modelos neoclássicos é que eles espelham a macroeconomia no efeito do comportamento racional dos indivíduos.
Embora na realidade as pessoas nem sempre tenham expectativas racionais, a pressuposição de que elas as têm ajuda os economistas a elaborar modelos que atuam como guias úteis do funcionamento da economia. As expectativas racionais têm sido criticadas por economistas comportamentais, que trabalham com modelos mais realistas do ponto de vista psicológico.
Nos anos 1960, a economia dominante adotou um conjunto de princípios para entender como as pessoas decidiam. Os seres humanos são racionais e calculistas. Diante de opções diversas e de um futuro incerto, eles atribuem uma probabilidade a cada resultado futuro possível e fazem a escolha condizente. Querem aumentar sua "utilidade esperada" (a quantidade de satisfação que almejam) com base no que creem sobre a probabilidade de resultados futuros diferentes, preferindo a opção com maior utilidade esperada.
Contudo, esse conjunto de ideias foi contestado por resultados que indicavam, mesmo em experimentos, que os seres humanos não se comportam como na teoria. Uma das críticas mais importantes se encontrava no paradoxo de Ellsberg, divulgado pelo economista americano Daniel Ellsberg em 1961, mas inspirado numa ideia apresentada primeiro por John Maynard Keynes (p. 161) nos anos 1930.
Aversão à ambiguidade
Ellsberg descreveu um experimento de raciocínio em que se oferecia um prêmio em dinheiro se uma bola de certa cor fosse retirada de uma urna imaginária (veja acima). As apostas feitas pelos participantes mostraram que as pessoas tendem a fazer uma escolha pensada quando recebem informações para tirar algum grau de probabilidade, e portanto risco. Todavia, o comportamento delas muda se um resultado futuro parece ambíguo, e esse é o paradoxo que diverge da teoria da utilidade esperada. As pessoas preferem saber mais sobre as incertezas que enfrentam, e não menos. Como disse o ex-secretário da Defesa dos EUA Donald Rumsfeld (1932-), as pessoas preferem "os desconhecidos conhecidos" aos "desconhecidos desconhecidos". O resultado do experimento foi reproduzido em vários outros experimentos reais desde que Ellsberg publicou seu ensaio. Passou a se chamar "aversão à ambiguidade", e às vezes "incerteza knightiana", por causa do economista americano Frank Knight (p. 163). Querendo saber mais sobre os "desconhecidos desconhecidos", as pessoas podem agir de modo incoerente em relação a escolhas anteriores mais lógicas e ignorar questões de probabilidade ao fazer uma escolha.
Conhecer o desconhecido
O paradoxo de Ellsberg foi polêmico. Economistas afirmam que ele pode muito bem estar dentro da teoria convencional e que as condições experimentais não reproduzem adequadamente o comportamento de uma pessoa que se vê diante de uma ambiguidade real. No entanto, a crise financeira de 2008 provocou um interesse renovado pelo problema da ambiguidade. As pessoas querem saber mais sobre os riscos desconhecidos e imensuráveis que a teoria da utilidade esperada não abrange.
O início dos anos 1960, as instituições das economias do pós-guerra estavam sólidas. Perto do final da Segunda Guerra Mundial, criou-se o sistema de Bretton Woods (pp. 186-87), para regulamentar as relações financeiras entre os grandes Estados industriais, fundamentando o capitalismo ocidental num sistema de taxas de câmbio fixas que controlava os fluxos de capital e moeda no mundo todo. O comércio internacional se recuperara depois da queda dos anos entreguerras, e o crescimento econômico era rápido.
Todavia, o sistema tinha falhas. Primeiro houve problemas com o balanço de pagamentos (a diferença entre o que um país paga pelas importações e o que ele recebe das exportações). As crises do balanço de pagamentos ocorreram porque os países não conseguiram ajustar com facilidade suas taxas de câmbio no sistema internacional. Junto com mercados de trabalho enxutos e preços nacionais inflexíveis, os mecanismos antes automáticos e ditados pelo mercado, que deixavam os países ajustar-se aos choques econômicos externos, não funcionavam muito bem. Isso originou uma série de crises quando os países não conseguiram pagar as importações com os ganhos das exportações. Várias iniciativas para a integração das economias europeias passaram a aventar a possibilidade de unificação monetária entre os países europeus. Começaram com o Tratado de Paris de 1951, que estabeleceu áreas comuns de comércio de carvão e aço. Em 1961, o economista canadense Robert Mundell foi o primeiro a tentar analisar o que ele chamou de "área monetária ótima".
Áreas monetárias
Mundell procurou responder ao que a princípio parecia uma pergunta estranha: em que área geográfica uma moeda deve ser usada? Na época, a questão era quase inédita. Aceitava-se tranquilamente que cada economia tinha a sua moeda nacional. A ideia de que isso podia não ser a melhor solução não ocorrera a ninguém. Mundell percebeu que, se a história tinha dado às nações moedas próprias, não queria dizer que lhes tivesse dado a melhor solução. Sem dúvida o uso de moedas diferentes acarretava um custo, pois elas precisavam ser trocadas para haver comércio. De um lado, seria muito ineficiente ter uma moeda distinta para cada código postal de uma cidade. De outro lado, uma moeda para o mundo inteiro seria uma camisa de força indesejável para tantas economias diversas. Mundell perguntou-se qual seria o melhor ponto entre esses dois extremos.
Em primeiro lugar, é importante entender por que os países precisam de moedas diferentes. Um país com moeda própria pode tomar decisões a respeito de sua oferta monetária e taxas de juro e, portanto, pode fazer uma política monetária sob medida para as situações econômicas nacionais. Além disso, se as taxas de câmbio de sua moeda não são fixas, o câmbio com seus parceiros comerciais pode ser ajustado para compensar desequilíbrios no comércio. Suponha que um país agrícola negocie com uma economia fabril. Um aumento repentino na produtividade da economia fabril deveria causar um excesso de demanda de produtos agrícolas e um excesso de oferta de bens industrializados. A economia fabril passaria a ter déficit no balanço de pagamentos, importando mais (em valor) do que suas exportações. O déficit faz a moeda do país industrializado se desvalorizar, barateando suas exportações e desse modo, incentivando-as e restaurando o equilíbrio.
Agora suponha que a economia fabril e a economia agrícola tivessem a mesma moeda. Nesse caso, o tipo de ajuste citado acima não seria possível, e talvez as moedas distintas trouxessem mais benefícios. Pode ser também que uma área econômica única como aquela constituída pela economia fabril - seja de fato composta de vários Estados. Portanto, seria melhor para eles compartilhar uma moeda.
Ciclos econômicos
As reflexões posteriores sobre o tema ajudaram a esclarecer as condições em que uma zona monetária seria mais viável economicamente. A fim de estar mais preparada para uma moeda única, a região precisaria ter mercados flexíveis de capital e mão de obra, permitindo o movimento livre de ambos conforme as demandas do mercado. Assim, preços e salários precisariam ser flexíveis, ajustando-se às mudanças na oferta e na procura e sinalizando ao capital e à mão de obra móveis aonde deveriam ir. As diferentes partes da região também precisariam ter ciclos econômicos similares, permitindo que o banco central comum para a moeda única atuasse corretamente em toda a região. Também seriam necessários mecanismos para enfrentar a falta de sincronia dos ciclos econômicos na região. O mais óbvio desses problemas são as transferências fiscais — pegar impostos de uma área em crescimento e aplicá-los a outra em recessão. Esta situação e o fracasso em resolvê-la teriam graves consequências na Europa.
Introdução do euro
A ideia de uma moeda única para a Europa começou a ganhar feição em 1979, quando se formou o sistema monetário europeu para estabilizar as taxas de câmbio. Por fim, em 1999, criou-se a eurozona (a área da moeda única), com 11 Estados-membros da União Europeia (UE). Ao mesmo tempo que os Estados da UE negociavam muito entre si e suas instituições haviam suspendido as restrições ao livre movimento de mão de obra, capital e produtos, achou-se necessário impor limitações à filiação ao euro para garantir que a moeda realmente funcionasse.
Os "critérios de convergência", consagrados pelo Tratado de Maastricht de 1992, foram elaborados para assegurar que todos os países que desejassem filiar-se ao euro tivessem economias parecidas e estivessem em etapa parecida em seus ciclos econômicos (crescimento ou recessão). O mecanismo da taxa de câmbio (MTC) anterior já tentara parear as moedas nacionais entre si dentro da UE. O euro significou um passo adiante, ao extinguir todas as moedas e fixar permanentemente as taxas de câmbio. Foram instituídas novas regras significativas sobre a dívida pública. Sob o pacto de estabilidade e crescimento de 1997, nenhum país poderia ter dívida interna de mais que 60% do produto interno bruto (PIB) e déficit anual acima de 3% do PIB. Um novo Banco Central Europeu atuaria na zona do euro, substituindo os bancos centrais nacionais e estabelecendo a política monetária de todos os países-membros.
Falha fatal
Todavia, as cláusulas do euro não continham um mecanismo de compartilhamento de riscos — significativamente, elas não contaram com um meio de transferências fiscais (receita tributária) entre os países europeus. A razão para tanto foi simples - e política. Apesar de muitos instrumentos de transferência estarem em vigor, como a Política Agrícola Comum, nenhum país da UE queria perder a prerrogativa de fixar seus impostos e limites de gastos. As transferências fiscais pelo continente exigiriam uma autoridade central forte, capaz de pegar os impostos de regiões com excedente e redistribuí-los às deficitárias - por exemplo, tributar na Alemanha e gastar na Grécia Mas faltou vontade política para praticar isso. Os líderes europeus esperavam, ao contrário, que o pacto de estabilidade e crescimento fosse um vínculo suficiente nas atividades governamentais, a ponto de um mecanismo de transferência fiscal ser desnecessário.
Crise na eurozona
O euro funcionou bem por quase uma década depois de lançado. O comércio europeu cresceu até 15% em certas estimativas. Os mercados de capital e trabalho ficaram mais flexíveis. O crescimento, sobretudo nos países mais pobres, como a Irlanda e os do sul da Europa, foi impressionante. Mas por baixo desse verniz havia problemas profundos. As diferenças no custo da mão de obra ajudaram a exacerbar os desequilíbrios comerciais entre os países. A zona do euro como um todo estava muito equilibrada com o resto do mundo, exportando mais ou menos o que importava. Porém, dentro da zona do euro surgiram enormes diferenças. O norte da Europa tinha superávits comerciais crescentes, que se igualaram aos déficits crescentes do sul. Sem mecanismos para permitir transferências fiscais dos países superavitários para os países deficitários, esses déficits acabaram na verdade financiados pelo acúmulo de dívidas crescentes no sul. Quando estourou a crise financeira em 2008, o sistema desequilibrado chegara ao extremo.
A crise do euro causou o questionamento de a Europa ser ou não uma área monetária ideal. Alguns países pareciam deslocados em matéria de comércio, e a falta de um mecanismo de transferência fiscal impediu que os desequilíbrios fossem superados. O pacto de estabilidade e crescimento não tinha força suficiente para obrigar as economias nacionais diferentes a convergir.
Os países-membros do euro enfrentam escolhas difíceis. Caso se crie um instrumento para realizar as transferências fiscais, esses países talvez sejam capazes de superar sua desigualdade. Se tal mecanismo não obtiver consenso político, a própria existência do euro poderá estar ameaçada.
O indiano Amartya Sen cresceu durante a grande fome de Bengala de 1943. Ele tinha apenas nove anos quando chegou à sua escola um homem que não comia havia 40 dias. Antes desse encontro, Sen não sabia do sofrimento em sua região. Ninguém em sua família e nas famílias dos amigos foi atingido. Mesmo com tão pouca idade, Sen ficou chocado com o sofrimento causado pelo sistema de classes. Quase 40 anos depois, a lembrança da fome de Bengala fez Sen pesquisar e escrever em 1981 sobre o tema em Poverty and famines: an essay on entitlement and deprivation. Ele concluiu que, ao contrário da crença popular, a fome não é causada por escassez de comida. Safras ruins, estiagem ou redução na importação de alimentos são fatores que contribuem, mas um fator mais importante é a distribuição da comida.
Direitos fundamentais
Uma escassez absoluta de alimentos é muito rara. É bem mais comum a comida não ser fornecida a quem mais precisa dela. Sen chamou o conjunto de bens e serviços a que os indivíduos têm acesso de seus "direitos fundamentais". A fome é um exemplo de falha nos direitos fundamentais, e direitos fundamentais dependem de muito mais do que a quantidade de alimento produzida. Numa economia moderna fundada na troca, a maioria das pessoas não produz o próprio alimento: elas trocam um produto (seu trabalho) por outro produto (dinheiro), que é então trocado de novo por comida. O fato de uma família ter ou não comida suficiente depende do que ela consegue permutar conforme o preço da comida. A fome ocorre quando os direitos fundamentais das famílias (os bens a que elas têm acesso, não a quantidade em geral disponível) estão aquém da quantidade mínima necessária à sobrevivência. Isso pode acontecer quando o preço dos alimentos sobe ou os salários caem.
Sen analisou a fome de Bengala de 1943 e fomes mais recentes na África e na Ásia para coletar provas empíricas que confirmassem sua tese. Ele descobriu que em Bengala a produção total de alimentos, embora mais baixa que no ano anterior ao início da fome, havia sido mais alta que nos anos sem fome. Sen concluiu que a principal causa da fome era que o salário dos lavradores não acompanhava o preço crescente dos alimentos em Calcutá, em decorrência da inflação. A Índia, então governada pelos britânicos, passava por alto crescimento, pois o governo britânico injetara dinheiro em meio ao esforço de guerra. Isso fez diminuir a capacidade dos trabalhadores de comprar comida, e eles passaram fome.
Sen afirmou que particularmente os países democráticos devem ser capazes de evitar as piores fomes. Seu enfoque pioneiro provocou uma reviravolta nas crenças e nas reflexões sobre a fome.
Nos anos 1960, a estabilidade das instituições do mundo do pós-guerra estava muito abalada. O sistema de Bretton Woods (pp. 186-87), de taxas de câmbio fixas vinculadas ao dólar americano, por sua vez atrelado ao preço do ouro, começava a ruir. Os EUA apresentavam déficits persistentes (importações acima das exportações), enquanto em outros lugares as seguidas crises do balanço de pagamentos provocavam exortações pela adoção de taxas de câmbio flutuantes e livres. Em 1971, o presidente dos EUA, Richard Nixon, tomou uma decisão definitiva: unilateralmente, encerrou o atrelamento do dólar ao ouro, encerrando todo o sistema de Bretton Woods.
Ao mesmo tempo, as economias nacionais viviam um aumento constante no índice de inflação. O keynesianismo (pp. 154-61), ideário econômico que predominara no pós-guerra, estava sob ataque frequente. Os mercados financeiros, regulamentados com rigidez desde os anos 1930, pressionaram pelo fim das restrições a suas atividades, as quais foram suspensas em 1972, quando a Bolsa Mercantil de Chicago recebera permissão para redigir o primeiro contrato de derivativos de taxas de câmbio.
Contratos futuros
Os derivativos existiam havia séculos. Um derivativo é um contrato redigido não diretamente para uma mercadoria, mas alguma característica associada a ela. Por exemplo, um dos primeiros contratos típicos de derivativos foi "a termo", que especifica o preço e a data futura de entrega de um produto, como o café. A vantagem desse acordo é permitir aos produtores fechar para os seus clientes um preço futuro, independentemente do resultado das colheitas e da produção no caso de bens agrícolas. O derivativo visava reduzir o risco e dar garantia futura. Isso se chama "proteção" (hedge). Porém, o contrato de derivativo também funciona ao contrário. Em vez de garantir o futuro, ele pode ser usado para apostar com o futuro. Um contrato a termo congela a entrega dos produtos por certo preço em certa data. Mas, se o preço de mercado imediato (o "preço à vista") na data for menor que o do contrato a termo, pode-se fazer lucro fácil. Claro, se o preço de mercado for maior que o especificado, haverá perda. Além disso, os contratos de derivativos, por não envolverem o pagamento dos ativos ou das mercadorias reais, mas apenas o direito de comprar esses produtos no futuro, permitem negociação de grande quantidade. Os derivativos dão aos negociadores alavancagem — "muito por pouco".
Desistência do ativo
Os contratos de derivativos se padronizaram e puderam então ser comprados e vendidos no mercado como qualquer outro produto. A primeira bolsa que ofereceu derivativos negociáveis de produtos agrícolas foi o Chicago Board of Trade, em 1864. Contudo, a possibilidade de especulação que todo contrato de derivativos contém causou proibições frequentes ao seu uso. Os contratos "cash settlement" causaram uma preocupação particular. Tratava-se de contratos de derivativos em que a entrega do ativo em questão não precisava ocorrer no dia especificado; dinheiro podia substituí-lo. Nesse momento, perdeu-se toda a ligação real entre o produto em questão e o derivativo, e a possibilidade de uma conduta meramente especulativa era imensa.
Desregulamentação
O reconhecimento desse potencial especulativo motivou os governos a instituir regras rígidas. Dos anos 1930 em diante, os derivativos de cash settlement foram considerados uma forma de jogo de azar nos EUA, não investimento, e controlados com rigor. As bolsas ficaram proibidas de negociá-los. Com o fim do sistema de câmbio fixo em 1971, logo surgiu a necessidade de proteção contra taxas de câmbio flutuantes potencialmente instáveis. As restrições foram suspensas, e o mercado de derivativos expandiu-se rapidamente.
Esse foi o cenário de um problema crítico. Não existiam meios confiáveis de precificar com exatidão os derivativos, uma vez que, por natureza, eram contratos bastante complexos. Mesmo uma simples "opção" (o direito e não a obrigação de negociar o ativo em questão em certo momento do futuro) tinha um preço determinado por diversas variáveis, como o preço atual do ativo, o tempo do prazo final da opção e a variação de preço esperada. A descoberta de uma fórmula matemática para essa questão foi feita em 1973 pelos economistas americanos Myron Scholes e Fischer Black e aprimorada pelo também americano Robert C. Merton no mesmo ano.
Esses economistas fizeram elaborações com certas suposições e reflexões sobre os mercados financeiros para simplificar o problema. Primeiro, usaram a regra de "não arbitragem", pela qual os preços em um mercado financeiro em funcionamento normal refletem toda a informação disponível. Um preço de uma ação indicava tanto o valor de uma companhia na data quanto o que os investidores esperavam dele no futuro. Seria impossível ter lucro garantido protegendo-se contra o risco futuro, porque os preços já incorporavam toda a informação em que se baseava a proteção.
A segunda suposição foi de que é sempre possível elaborar um contrato de opção que espelhe uma carteira de ativos. Ou seja, qualquer tipo de carteira de ativos pode ser protegido com perfeição por opções. Todo risco desaparece com essa garantia. Terceiro, eles presumiram que, embora os preços dos ativos flutuem aleatoriamente com o tempo, variam de modo regular, chamado de "distribuição normal". Isso em geral implica que os preços não se distanciam muito em um intervalo curto de tempo.
Com essas suposições, Black, Scholes e Merton conseguiram criar um modelo matemático sólido para estabelecer o preço de um contrato de opção padronizado, com base nos movimentos do preço do ativo em questão. Os contratos de derivativos, outrora considerados instrumentos não confiáveis, podiam agora ser realizados em ampla escala usando a informática. Estava aberto o caminho para uma vasta expansão dos negócios com derivativos.
O modelo de precificação de opções que Black, Scholes e Merton criaram propiciou um modo todo novo de pensar sobre os mercados financeiros. Podia até ser usado ao contrário. Os preços existentes de opções alimentavam o modelo de precificação de trás para a frente, para gerar "volatilidades implícitas", criando uma nova maneira de lidar com o risco: em vez de negociar com base em preços ou preços esperados, as carteiras de ativos podiam ser montadas segundo o que indicava o preço de mercado. O risco em si, conforme a descrição dos modelos matemáticos, podia ser negociado e controlado.
A quebra de 2008
A explosão da inovação financeira, ajudada pela sofisticada matemática e pelo crescente poder da computação, ajudou a incentivar uma expansão extraordinária do sistema financeiro ao longo de várias décadas. De um tamanho desprezível nos anos 1970, o mercado mundial de derivativos cresceu em média 24% ao ano, atingindo um total de € 457 trilhões em 2008 — cerca de 20 vezes o produto interno bruto internacional. As aplicações multiplicaram-se, pois as empresas encontraram um modo novo e aparentemente seguro de gerir os riscos dos empréstimos.
Em setembro de 2008, quando o banco de investimentos americano Lehman Brothers faliu, ficou claro que aquela expansão tinha pontos fracos fatais. Entre eles, foi crucial a dependência na suposição de uma distribuição normal: a ideia de que a maioria dos preços se agrupa em torno de uma média e de que preços extremos são muito raros. Porém, isso já havia sido contestado em 1963, quando o matemático francês Benoît Mandelbrot dissera que os movimentos extremos de preços eram muito mais comuns do que se esperava.
Após a quebra, esses modelos vêm sendo revistos. Os economistas comportamentais (pp. 266-69) e os econofísicos usam modelos e técnicas estatísticas da física para entender melhor os mercados financeiros e o risco.
Até os anos 1980, a teoria econômica corrente era dominada pela ideia do "homem econômico racional" (pp. 52-53). Os indivíduos eram tidos como agentes que encaram todas as decisões racionalmente, comparam custos e benefícios e tomam uma decisão que lhes dará o melhor proveito. Os economistas pensavam que era assim que as pessoas se comportavam em situações de certeza ou incerteza e formalizaram a ideia da tomada de decisão racional na teoria da utilidade esperada (pp. 162-63). Na realidade, porém, as pessoas costumam tomar decisões irracionais que não lhes dão a melhor compensação e podem até prejudicar seus planos.
Os primeiros estudos desses caprichos de comportamento foram feitos em 1979 por dois psicólogos israelense-americanos, Amos Tversky e Daniel Kahneman. Eles analisaram a psicologia da tomada de decisão e respaldaram suas hipóteses com exemplos empíricos. Seu principal ensaio, Prospect theory: an analysis of decision under risk, delineou uma teoria que assinalou um novo ramo de estudo chamado economia comportamental, que visava tornar as teorias econômicas sobre tomadas de decisão mais realistas do ponto de vista psicológico.
Lidando com o risco
Tversky e Kahneman descobriram que as pessoas costumam violar as suposições-padrão dos economistas sobre o comportamento, sobretudo quando as consequências são imprevistas. Viu-se que, longe de agirem racionalmente em interesse próprio, as pessoas são influenciadas pelo modo como a decisão é apresentada e reagem de uma maneira que desmente a teoria convencional.
Fazia tempo que os economistas achavam que as pessoas fossem "avessas ao risco". Por exemplo, se têm opção entre realmente receber $1.000 ou 50% de chance de receber $2.500, é mais provável que optem pelos $1.000 garantidos — apesar de a expectativa média incerta da segunda opção ser de $1.250. Os psicólogos montaram a situação contrária, dando às mesmas pessoas a opção de perder inteiramente $1.000 ou ter uma chance de 50% de não perder e 50% de perder $2.500. As pessoas que escolheram a opção segura na situação anterior agora optaram pela alternativa mais arriscada do jogo de não perder ou perder muito. Isso se chama propensão ao risco.
O enfoque-padrão da decisão sob incerteza presumia que o indivíduo é avesso ao risco, propenso ao risco ou não se importa. Essas preferências quanto ao risco ocorreriam se o indivíduo estivesse diante de risco de ganho ou perda. Contudo, Tversky e Kahneman descobriram que as pessoas são avessas ao risco quando diante de ganho, mas propensas ao risco quando diante de perda: a natureza da preferência individual parece mudar. O trabalho deles mostrou que as pessoas são "avessas ao risco" e, portanto, desejam assumir riscos para evitar a perda na situação em que não assumiriam riscos para ganhar algo. Por exemplo, a queda da utilidade ao perder $10 mostra-se maior do que o ganho de utilidade ao ganhar $10.
Esses caprichos do comportamento revelam que o modo de apresentar as opções influencia a decisão, mesmo que os resultados sejam os mesmos. Por exemplo, pense numa situação em que uma doença possa matar 600 pessoas. Existem dois programas para combater a doença: o A salva 200, e o B oferece uma chance de um terço de salvar 600 pessoas contra uma chance de dois terços de que nenhuma será salva. Quando o problema é apresentado dessa maneira, a maioria se mostra avessa ao risco — opta pela certeza de salvar: 200 pessoas. Todavia, se a questão é reformulada, tendo como opção o programa C, que dá como certa a morte de 400 pessoas, ou o programa D, que dá chance de um terço de que ninguém morrerá contra uma chance de dois terços de que 600 pessoas morrerão, a maioria opta pelo arriscado programa D.
Os resultados finais dos pares de opções são os mesmos: tanto em A quanto em C temos 400 mortos, enquanto em B e em D há o resultado esperado de 400 mortes. Mas as pessoas preferem a opção que mais lembra um jogo. Elas tendem mais a evitar a perda de vidas (uma perda) do que a salvação (um ganho). Dão maior valor subjetivo à perda de algo do que ao ganho de algo - a sensação de perder $10 é pior que a de ganhar $10.
Essa tendência para a aversão à perda significa que, quando as opções de mudança são formuladas de tal modo que as consequências pareçam negativas, é mais provável que as pessoas vejam a mudança como um problema. Isso pode ser usado para influenciar as pessoas. Por exemplo, se o governo quer encorajar o povo a adotar algo, é mais provável que tenha sucesso em enfatizar os ganhos positivos por tomar tal decisão. Se, por outro lado, o governo quiser que a população rejeite algo, deverá se concentrar no que ela perderá.
Processos e resultados
Kahneman e Tversky mostraram ainda que o processo de decisão pode influir na opção, mesmo quando não influi na recompensa final. Por exemplo, imagine um jogo de duas etapas em que os jogadores podem escolher entre duas opções na segunda etapa, caso cheguem lá. Contudo, eles devem fazer a escolha antes da primeira etapa. Um exemplo desse jogo está na página ao lado.
Nesse jogo de duas etapas, a maioria das pessoas escolhe a opção garantida de $3.000. Mas, quando a decisão é entre uma chance menor de ganhar $4.000 ou uma chance maior de $3.000, a maioria prefere a chance menor de ganhar mais dinheiro. Por que a mudança?
Nesse processo de duas etapas, as pessoas ignoram a primeira etapa, porque é comum aos dois resultados. Elas veem as opções como uma escolha entre um ganho garantido e uma simples chance de ganho, embora as probabilidades sejam alteradas pela primeira etapa. Isso contradiz o padrão econômico de racionalidade, pelo qual as decisões sofrem influência apenas dos resultados finais.
O fim do homem racional?
As principais descobertas desse trabalho - de que gostamos menos da dor do que de ganhar e interpretamos as perdas e os ganhos num contexto - ajudaram a esclarecer por que as pessoas tomam decisões incompatíveis com a teoria da utilidade ou a ideia do "homem econômico racional". A teoria é um alicerce da economia comportamental e também tem tido grande influência no marketing e na publicidade. Entendendo como decidimos, os marqueteiros podem comercializar os produtos com maior eficiência. Um bom exemplo disso são as promoções de loja, com "descontos enormes" em artigos que antes tinham preço inflacionado.
A Prospect theory tem implicações em muitos tipos de decisões econômicas comuns. Por exemplo, a teoria explica por que as pessoas viajam à outra parte da cidade para economizar $5 em um DVD de $15, mas é improvável que façam a mesma viagem para poupar $5 numa TV de $400, muito embora sua riqueza líquida seja atingida na mesma quantia em qualquer caso. A aversão à perda explica ainda o que é chamado de efeito de dotação: as pessoas costumam dar a um objeto um valor maior quando o possuem - e não querem perdê-lo - do que antes de possuí-lo quando se trata apenas de "ganho provável".
A economia comportamental é fundamental para o entendimento da economia e deu à economia moderna o realismo da psicologia. A Prospect theory foi a primeira a declarar que as pessoas não são simplesmente 100% máquinas racionais. As implicações dessa descoberta - para as teorias econômicas e as políticas governamentais - têm alcance muito amplo. Por exemplo, ter uma sensação de propriedade pode alterar a maneira de cuidar das coisas.
Diz o senso comum que, se o governo quer mais dinheiro para gastar em serviços públicos, ele deve aumentar os impostos, por mais impopular que isso seja. Do mesmo modo, cortar impostos pode implicar corte nos serviços públicos. Todavia, alguns economistas disseram que nem sempre é assim e que o corte nos impostos pode fazer aumentar a arrecadação, e não diminuí-la.
Essa é uma ideia fundamental dos economistas do "supply-side" dos anos 1980. O lado da oferta é a parte da economia que faz e vende bens, em oposição ao lado da procura, o da compra dos bens. Os economistas da oferta afirmam que a melhor maneira de fazer a economia crescer é aprimorar as condições do lado da oferta, liberando as empresas de regulamentações e cortando subsídios e alíquotas tributárias altas.
Da tributação aos paraísos O argumento da receita para cortar impostos surgiu com o economista americano Arthur Laffer. Ele disse que, se o governo não cobra imposto, não recebe receita. Se cobra 100% de imposto, não recebe receita também, pois ninguém vai trabalhar. Mas, mesmo abaixo de 100%, o imposto sobre a renda muito alto tira das pessoas o estímulo para o trabalho. Essa redução nas horas de trabalho tem mais peso que a alíquota alta, e o resultado é a queda da receita tributária. Quando as alíquotas são altas demais, também se pode perder a receita dos que ganham mais, que saem do país ou põem o dinheiro em paraísos fiscais — países que cobram imposto baixo ou nenhum. Laffer traçou uma curva em forma de sino (à esquerda) para mostrar que, em algum lugar entre os extremos de nenhum imposto e 100% de imposto, há um ponto em que o governo maximiza a receita.
O argumento é que, de um ponto de partida de impostos altos, os cortes de impostos, com outras políticas que fortaleçam o lado da oferta, podem aumentar a eficiência econômica e gerar maior receita tributária. Nos anos 1970, quando Laffer elaborou suas teorias, alguns países taxavam certas pessoas em 70%, e outros poucos, os mais ricos em 90%. Os economistas discordaram do ápice da curva de Laffer. Os direitistas disseram que a economia estava um ponto à direita do pico da curva, indicando que o corte de impostos aumentaria a receita. Os esquerdistas discordaram.
Situação ganha-ganha
Para os políticos de direita, a teoria de Laffer era atraente: eles podiam ser populares cortando impostos e ainda prometer manter os serviços públicos. Nos EUA em 1981, o presidente Ronald Reagan cortou os impostos mais altos e continuou herói para muitos dos mais pobres no país. Contudo, há poucas provas de que a ideia funcione. Nos EUA e em outros países, os impostos estão bem abaixo do nível dos anos 1970. Mas a suposta receita abundante não veio. Em vez dela, os cortes de impostos têm sido financiados em grande parte por déficits crescentes da dívida.
Uma crença comum entre os investidores é que eles conseguem "vencer", ou superar, o mercado de ações. O economista americano Eugene Fama discordou. Efficient capital markets (1970) conclui que é impossível vencer o mercado com constância. Sua teoria chama-se hipótese do mercado eficiente.
Fama afirmou que todos os investidores têm acesso às mesmas informações divulgadas que seus adversários, de modo que os preços das ações refletem por completo o conhecimento disponível. Esse é o "mercado eficiente". Como ninguém sabe que novidade será anunciada, seria quase impossível os investidores terem lucro sem usar informação indisponível na concorrência, ou "informações privilegiadas", o que é ilegal.
Todavia, foram destacados problemas na hipótese por economistas comportamentais. Eles dizem que a teoria não leva em conta a superconfiança do investidor nem o instinto de "grupo". Esse problema se manifestou na bolha das pontocom nos anos 1990, em que se culpou a "exuberância irracional" por inflar artificialmente as ações de tecnologia, e a mais recente crise financeira de 2007-08.
Após essas crises, muitos analistas consideram a teoria supérflua; alguns até a culparam pelas quebras. O próprio Eugene Fama reconheceu que investidores desinformados podem desviar o rumo do mercado e fazer os preços ficarem "um tanto irracionais".
O economista americano Robert Axelrod escreveu em 1984 A evolução da cooperação. Baseava-se nos resultados de uma série de jogos em que especialistas na teoria dos jogos se enfrentavam em programas de computador, para ver quem se saía melhor. O jogo que eles disputaram foi o dilema do prisioneiro (p.238), que envolve dois ladrões presos pela polícia. Cada detento deveria confessar, ficar em silêncio ou "entregar" o outro? O jogo investiga se é mais inteligente cooperar em nome do benefício mútuo ou agir com egoísmo.
A melhor estratégia
Axelrod descobriu que a cooperação pode vir de atos interesseiros. Sua série de jogos testou muitas estratégias. A mais bem-sucedida foi a simples "olho por olho", em que um jogador coopera na primeira jogada e depois espelha o adversário, não sendo nunca o primeiro a "capitular". As abordagens de mais sucesso foram as "amáveis". Descobriu-se que a cooperação dava resultados mutuamente benéficos. Mas não se deve ser muito amável - se alguém é traído, é crucial revidar na jogada seguinte. Para manter a credibilidade, os jogadores devem revidar imediatamente se forem "entregues". Esse enfoque da análise da competição e cooperação tornou-se um campo rico que examina como surgem as regras sociais e até as morais.
Até que o economista americano George Akerlof começasse a estudar preços e mercados nos anos 1960, a maioria dos economistas achava que os mercados deixariam qualquer um que quisesse vender produtos por certo preço fazer negócio com qualquer um que quisesse comprar produtos por certo preço. Akerlof mostrou que em muitos casos isso não ocorre, Sua obra principal, The market for lemons (1970), explica como a incerteza causada por informação restrita pode levar a uma falha de mercado. Akerlof afirmou que os compradores e vendedores têm uma quantidade diferente de informação, e essas diferenças, ou assimetrias, podem ter efeitos desastrosos no funcionamento dos mercados.
Informação "assimétrica"
O comprador de um carro usado tem menos informação sobre a qualidade dele do que o vendedor que o possui. O vendedor já pôde verificar se o carro está pior que outro parecido — se ele é um "abacaxi" (ou "limão", nos EUA), cheio de defeitos. Um comprador que acabe com um abacaxi se sente enganado. A existência de abacaxis desconhecidos no mercado cria incerteza na cabeça do comprador, que passa a se preocupar com a qualidade de todos os carros usados à venda. Essa incerteza faz o comprador baixar o preço que deseja pagar por qualquer carro, e então os preços caem no mercado.
A tese de Akerlof é uma versão atual de uma ideia dada de início pelo financista inglês sir Thomas Gresham (1519-79). Ele notou que, quando as moedas com teor de prata mais alto ou menos alto estavam em circulação, o povo tentava se apegar às mais valiosas, indicando que "dinheiro ruim tira o bom de circulação". Do mesmo modo, os vendedores com carros melhores que a média os retirarão do mercado por não conseguirem um preço justo de um comprador incapaz de dizer se o carro é ou não um abacaxi. Isso significa que "a maioria dos carros negociados vai ser um abacaxi". Em tese, isso poderia baixar tanto Os preços que o mercado faliria e não haveria comércio por preço nenhum, ainda que haja negociantes dispostos a comprar e vender.
Seleção adversa
Outro mercado em que os abacaxis influem no comércio é o de seguros. No seguro-saúde, por exemplo, os compradores de apólices sabem mais sobre seu estado de saúde que os vendedores. Então as seguradores se veem negociando com pessoas que elas prefeririam evitar: as menos saudáveis. Como os prêmios de seguro aumentam com a idade, uma porcentagem maior de "abacaxis" compra apólices, mas as empresas não conseguem identificá-los com precisão. Isso se chama "seleção adversa", e sua probabilidade significa que as seguradoras acabam, na média, com riscos muitos maiores que os cobertos pelos prêmios. Isso tem provocado em alguns lugares a suspensão de apólices de seguro médico de pessoas acima de determinada idade.
Após a Segunda Guerra Mundial, o pensamento keynesiano (pp. 154-61) dominava a economia. Propunha que os governos mantivessem alto o nível de emprego com duas políticas discricionárias, instituídas para atingir metas específicas com um conjunto particular de ações. As duas políticas com esse fim eram a fiscal (gastos públicos e tributação) e a monetária (taxas de juro e oferta de moeda).
Em 1977, dois economistas — Finn Kydland, da Noruega, e Edward Prescott, dos EUA — publicaram um artigo intitulado Rules rather than discretion, afirmando que uma política discricionária era na verdade contraproducente. O argumento baseava-se no conceito das expectativas racionais, criado pelo economista americano John Muth (p. 247). Muth dizia que as crenças incorretas sobre os preços custam caro e os indivíduos, que são racionais, procuram evitar seus erros planejando com antecedência.
Antes disso, os modelos macroeconômicos pressupunham que as pessoas só olhassem para trás, esperando ingenuamente que o futuro parecesse o passado. O novo modelo entendia que, se as pessoas coletam informações e são racionais, elas podem prever — e preveem — as intervenções do governo. Então, adaptam seus atos à esperada política governamental, que se torna menos eficaz. Uma política discricionária só funciona quando é de surpresa, e é difícil surpreender indivíduos racionais.
Como exemplo, imagine um professor indulgente que tente convencer um aluno preguiçoso a fazer a lição de casa. O professor The diz que, se não entregar a tarefa, será punido. Mas o aluno sabe que o professor é tolerante e não gosta de punir. O aluno prevê que não será punido se não entregar o trabalho. Assim, ele não faz o dever de casa. O objetivo do professor de que o aluno entregasse a lição é minado pelo comportamento racional do aluno.
Kydland e Prescott afirmaram que as promessas do governo de inflação baixa enfrentam o mesmo problema. O governo não gosta de desemprego alto e então incentiva a economia para mantê-lo baixo, mas isso aumenta a inflação. Como o professor que ameaça com uma punição que ele não cumprirá, o governo tem objetivos conflitantes. As pessoas sabem disso e não acreditam na promessa do governo de inflação baixa. Isso desfaz a meta de aumentar a procura para implicar um nível de emprego mais alto, porque se sabe que salários mais altos serão compensados com preços mais altos. Contando com expectativas racionais, o efeito do incentivo é simplesmente inflação mais alta.
Regra inflexível
A solução para o nosso professor seria uma regra compulsória da escola que punisse trabalhos entregues com atraso, de modo que ele a cumprisse. Do mesmo modo, Kydland e Prescott propuseram que, em vez de ter total liberdade para instituir a política econômica, os governos deveriam seguir diretrizes claras. Uma solução mais radical do dilema do professor seria delegar a punição a um diretor rigoroso. Em política macroeconômica, esse tipo de papel pode ser desempenhado por bancos centrais independentes que deem menos importância ao nível de emprego e mais peso à inflação baixa do que o governo. Seu controle da política monetária deixa o governo se dedicar com credibilidade a baixar a inflação. O período de inflação baixa nos anos 2000 costuma ser atribuído ao aparecimento de bancos centrais independentes.
Não há sistema que garanta um bom retorno no mercado de ações. Era de esperar que a economia, com seus modelos teóricos de que sempre se retoma o equilíbrio, deveria nos dar esse instrumento. A maior parte da teoria econômica baseia-se nas leis de movimento elaboradas nos anos 1680: toda ação leva a um resultado, e todo acontecimento está ligado a uma cadeia casual para trás e para a frente no tempo, no que se chama de processo "linear". A economia tradicional constrói suas previsões de grande escala - o equilíbrio a que uma economia chegará - com o efeito combinado do comportamento de indivíduos racionais em reação aos preços.
Em busca da complexidade
Se o mundo real funciona assim, por que é tão difícil prever as crises no mercado de ações? Há economistas que dizem que todo o enfoque linear é obsoleto. O austríaco Friedrich Hayek (p. 177) acreditava que a economia fosse complexa demais para ter modelos como a física. Uma resposta a essas dúvidas é a teoria da complexidade, surgida da obra de termodinâmica do químico russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003). Ao contrário da economia tradicional, esse enfoque reconhece que as ações previsíveis e regulares dos indivíduos não necessariamente implicam uma economia estável e previsível.
Em 1975, os economistas franceses Jean-Michel Grandmont e Alan Kirman declararam que as economias são "sistemas complexos". Nos modelos de concorrência perfeita da economia tradicional, os indivíduos não interagem diretamente entre si, mas reagem aos preços, mudando constantemente seu comportamento e preços para obter o melhor resultado. Num sistema complexo como uma economia, os indivíduos interagem diretamente entre si usando as simples "regras práticas", em vez de cálculos racionais, quase como abelhas na colmeia. Isso pode acarretar padrões de comportamento complexos na economia como um todo.
Economia caótica
Ideias ligadas aos argumentos de Grandmont e Kirman estão presentes na teoria do caos, iniciada nos anos 1950 pelo matemático e meteorologista americano Edward Lorenz, que tentava descobrir por que não se conseguia prever o tempo num futuro distante. Suas análises por computador revelaram que mudanças ínfimas na atmosfera se multiplicavam para criar alterações drásticas no tempo.
Para analisar as variações caóticas, os teóricos criaram uma forma de matemática "não linear" Eles disseram que, como ocorre com o tempo, uma mudança ínfima nas condições iniciais pode gerar um resultado tão diferente que o processo parece caótico, seja nas variações do mercado de ações, seja no crescimento econômico. Se estiverem certos, então os equilíbrios previsíveis, o alicerce da maioria das teorias econômicas, estão bastante incorretos.
A palavra "capital" é mais empregada em relação ao maquinário usado na produção — capital físico. Uma definição mais ampla inclui as qualificações da mão de obra — capital humano. O uso eficiente de capital físico e humano foi reconhecido há muito tempo como crucial para a economia, mas nos anos 1990 o cientista político americano Robert Putnam falou de uma forma menos concreta de capital, feita de relações sociais. Ele disse que as redes sociais também importam para o desempenho econômico. Assim como a chave de fenda (capital físico) ou a formação universitária (capital humano), os contatos sociais podem aumentar a produtividade, porque influem na capacidade de indivíduos e grupos. As interações no trabalho, na comunidade e no lazer podem ser consideradas "capital social".
As redes sociais ajudam as pessoas a melhorar suas qualificações, promover sua carreira e aumentar a produtividade geral pelo estímulo à cooperação e à troca de informação. Por outro lado, quando essas ligações minguam, o desempenho econômico padece. Putnam notou que desde os anos 1960 a população dos países desenvolvidos tornou-se mais isolada, vivendo em zonas urbanas com senso de comunidade reduzido. Ele diz que isso contribuiu para o declínio econômico. Ainda que nem todos os economistas concordem com essa análise, o capital social hoje é tido em geral como elemento significativo do desempenho econômico.
Um novo campo da economia desenvolveu-se nos anos 1970 quando o economista americano George Akerlof publicou suas descobertas sobre a superação das disparidades no acesso à informação (pp. 274-75).
O economista americano Michael Spence disse que, na prática, se o Sujeito 1 tem mais informação que o Sujeito 2 numa transação, é provável que o Sujeito 1 mande um sinal para que o Sujeito 2 possa tomar uma decisão mais abalizada.
O exemplo dado por Spence foi o da entrevista de emprego, em que o empregador tem menos informação que o candidato de seu potencial produtivo. O candidato entrega um currículo com sua formação, que pode não ter relevância alguma para o cargo almejado, mas sinaliza a disposição para trabalhar duro e se esforçar. Segundo Spence, o ensino superior, ao contrário da formação profissional, tem sobretudo uma função sinalizadora, e os eventuais "bons" funcionários investem em maior formação para sinalizar seu potencial de produtividade mais alto. O contrário disso, por exemplo, o empregador usar a entrevista para obter informação, chama-se detecção. Quem quer comprar um carro usado ou conseguir um empréstimo usa perguntas de detecção para obter informação antes de decidir. Sinalização e detecção são usadas em todas as transações comerciais.
Após a Segunda Guerra Mundial, a economia de alguns países do leste da
Ásia cresceu espetacularmente. Liderados por novos governos muito intervencionistas, esses países se transformaram de economias estagnadas em dinâmicas potências industriais em apenas duas décadas. Os chamados Tigres Asiáticos — Coreia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Taiwan — foram seguidos por Malásia, Tailândia, Indonésia e, depois, China. Essas nações obtiveram um crescimento constante na renda per capita mais rápido do que qualquer outra região. O PIB (produto interno bruto, o total da renda nacional de produtos e serviços) costuma ser usado para medir a riqueza do país. Em 1950, o PIB per capita da Coreia do Sul (o PIB dividido pelo número de habitantes) era metade do PIB do Brasil; em 1990, era o dobro; em 2005, três vezes maior. Esse crescimento provocou queda surpreendente na pobreza. No final do século XX, os quatro Tigres Asiáticos iniciais tinham um padrão de vida que rivalizava com o dos países da Europa Ocidental, mudança sem precedentes na história, apelidada de "milagre do leste da Ásia".
O ambiente que gerou os Tigres Asiáticos foi forjado por intervenção governamental e pela relação intensa entre o Estado e a economia, modelo que ficou conhecido como "Estado desenvolvimentista". Depois da Segunda Guerra Mundial, era grande a expectativa de desenvolvimento das nações mais pobres, e a meta de rápido progresso econômico tornou-se o motor da política econômica governamental. Burocracias fortes envolveram-se na condução de atividades econômicas do setor privado de um modo muito mais arrojado do que ocorrera na Europa Ocidental. Contudo, esses governos preservaram a iniciativa privada, num modelo que pouco se parecia com o planejamento estatal do bloco comunista. Os Tigres Asiáticos deram forma ao desenvolvimento, investindo mais em ramos estratégicos e promovendo a atualização tecnológica dos produtores. Isso provocou o deslocamento dos trabalhadores da agricultura para o crescente setor industrial. O grande investimento na educação deu aos trabalhadores a qualificação exigida pelos novos setores, e as indústrias passaram a exportar seus produtos, tornando-se a força motriz de um crescimento constante levado pelo comércio.
Nova espécie de Estado
Nunca se vira esse tipo de Estado. Ele desafiou as opiniões ortodoxas sobre o papel do Estado na economia. A economia tradicional considera que o Estado deve corrigir as falhas do mercado — os governos fornecem bens públicos, como defesa e iluminação, que a iniciativa privada sozinha não costuma propiciar. Garantem que instituições como os tribunais funcionem bem, para que os contratos sejam cumpridos e os direitos de propriedade, protegidos, mas, fora isso, o papel deles é ínfimo. Quando os pré-requisitos para a atividade do mercado já existem, diz a economia clássica que o Estado deve retirar-se e deixar o mecanismo de preço trabalhar sozinho. Considera-se que as instituições pró-mercado e um Estado restrito tenham sido cruciais para o sucesso econômico britânico durante a industrialização.
Alguns economistas sustentam que isso também ocorreu nas economias de sucesso do leste da Ásia: ao promover o desenvolvimento, esses Estados sustentaram os mercados sem interferir neles. Suas intervenções ajudaram a distribuir recursos e investimentos de um modo condizente com o espírito de mercado: em certo sentido, o Estado "corrigiu os preços". Para fazer isso, os governos cultivaram a estabilidade macroeconômica, vital para dar confiança aos investidores. Eles intervieram para corrigir falhas do mercado e forneceram defesa e ensino. Também construíram a infraestrutura, como portos e ferrovias, cujo custo alto afastava a iniciativa privada. Entende-se que os Estados desenvolvimentistas do leste da Ásia tenham tido sucesso porque seguiram o mercado.
Liderando o mercado
O economista neozelandês Robert Wade afirma que os Estados desenvolvimentistas do leste da Ásia tanto lideraram quanto seguiram os mercados. Conduziram a expansão de setores selecionados, proporcionando crédito barato e subsídios. Ao liderar os mercados, sua alocação preferida de recursos foi bem diferente daquela que teria sido feita pelos mercados sozinhos. Para a economista americana Alice Amsden, a característica foi que o Estado "fixou preços errados" de propósito, a fim de forjar novos tipos de vantagem competitiva. Os "setores nascentes", alimentados com subsídios e proteção comercial, acabaram levados ao crescimento. O Estado impôs parâmetros de desempenho às empresas, pois podia suspender o tratamento preferencial quando necessário.
Robert Wade afirma que o modo como esses Estados preferiram liderar o mercado explica a criação de vantagens comparativas em setores em que antes não existia nenhuma. De início, os preços dos produtos de um novo ramo não eram competitivos no plano internacional. Além disso, a produção de um novo bem em geral exigiu a instalação simultânea de outras indústrias de infraestrutura. A coordenação desse processo é mais difícil para a iniciativa privada que para o Estado.
Os ramos nascentes protegidos tornaram-se competitivos quando receberam os incentivos clássicos para aprender a ser mais eficientes. A fim de obter a educação econômica das novas empresas e a coordenação da produção inicial, os governos precisaram violar os preços estreitos do mercado. Isso ocorreu no setor siderúrgico da Coreia do Sul. Nos anos 1960, o Banco Mundial aconselhou o governo sul-coreano a não entrar nesse setor por não ter aí nenhuma vantagem comparativa — outros países poderiam bater seus preços com facilidade. Nos anos 1980, a Posco, grande empresa coreana, já era uma das siderúrgicas mais eficientes do mundo.
Interferência política
As experiências com políticas intervencionistas fora do leste da Ásia não haviam tido sucesso, manchando a reputação do Estado desenvolvimentista. Na América Latina e na África, o tratamento preferencial dado a empresas e setores gerou incentivos pobres: as empresas se viram protegidas da concorrência, mas o Estado não aplicou parâmetros de desempenho. Os setores nascentes nunca se tornaram exportadores de sucesso.
Sobretudo na América Latina, o tratamento preferencial passou a ser ligado à política, com pequeno rendimento econômico: empresas com bons contatos receberam subsídios e proteção tarifária, mas não vieram a ser mais produtivas. Com o tempo, viraram um escoadouro do orçamento público, mais absorvendo que gerando recursos. "Fixar preços errados" não ajudou a formar vantagens comparativas nos novos ramos. Ao contrário, causou uma produção ineficiente e estagnação econômica.
No leste da Ásia, os Estados bem- -sucedidos mostraram-se mais bem preparados para resistir à pressão de interesses privados. Depois de criar sua nova companhia siderúrgica nos anos 1960, o governo da Coreia do Sul exigiu dela que atingisse as metas de eficiência. Se surgissem interesses políticos que o impedissem de disciplinar a empresa, o Estado se tornaria escravo de interesses, não da eficiência geral da economia. O Estado tinha de permanecer autônomo e resistir à pressão para favorecer grupos particulares. Ao mesmo tempo, o Estado deu crédito e assistência técnica às empresas — para tanto e para verificar o rendimento delas, os tentáculos do Estado precisaram alcançar as menores engrenagens da economia. A burocracia econômica necessitava de informação detalhada sobre os investimentos potenciais e relação constante com os gerentes.
O economista americano Peter Evans chamou de "autonomia embutida" esses indicadores dos Estados desenvolvimentistas bem-sucedidos. Só quando ela está instalada é que o Estado pode tentar "fixar os preços errados" sem ser cooptado por interesses. Não é fácil criá-la, e sua inexistência pode ser fator de resultados ruins da intervenção estatal em outras regiões em desenvolvimento.
A ascensão da China
Com a crise financeira do leste da Ásia nos anos 1990, o modelo do Estado desenvolvimentista voltou a ser questionado. Muitos notaram que instituições que haviam gerado um rápido crescimento industrial após a Segunda Guerra Mundial perderam força no final do século XX. Por outro lado, a incrível ascensão da China ressuscitou a ideia do Estado desenvolvimentista ou no mínimo de políticas e instituições que produzam transformação econômica rápida e ao mesmo tempo se afastam das prescrições da economia clássica A China iniciou uma série de reformas no sistema comunista no final dos anos 1970. Criou um modelo próprio de Estado desenvolvimentista, que lembrava o dos Tigres Asiáticos, e tinha um governo autoritário responsável pela promoção do setor privado e das exportações. A agricultura foi descoletivizada, e as indústrias estatais ganharam mais autonomia e se sujeitaram à concorrência. Essas reformas ajudaram a desencadear a vasta expansão da atividade econômica privada, sem a introdução de direitos de propriedade como os ocidentais.
Incentivos alternativos surgiram de instituições exclusivas da China: por exemplo, do "Sistema de Responsabilidade da Casa", pelo qual os gerentes ficaram responsáveis pelos lucros e pelas perdas da empresa, tornando desnecessária a propriedade privada. Os resultados foram impressionantes. Ainda que a China continue pobre em relação à Europa Ocidental, seu crescimento rápido tirou da pobreza 170 milhões de pessoas na década de 1990, o que representou queda de três quartos da pobreza nas regiões em desenvolvimento.
A história da China e dos Tigres Asiáticos mostra que não existe um só caminho para o desenvolvimento. O modo como esses Estados intervieram na economia foi muito diferente de qualquer coisa que tenha ocorrido na Europa quando ela se desenvolvia. Todavia, parece que todos os modelos de desenvolvimento, mesmo os bem-sucedidos, acabam sofrendo restrições. Os benefícios do Estado desenvolvimentista se reduziram nos Tigres Asiáticos nos anos 1990 — as instituições que haviam funcionado numa década começaram a falhar na seguinte. Um dia o Estado chinês também poderá perder a potência. Ele terá de se reinventar se quiser que sua ascensão espetacular prossiga.
Crise cambial é uma queda forte e repentina no valor da moeda de um país em relação a outras. Por cerca de trinta anos após a Segunda Guerra Mundial, as principais moedas do mundo foram governadas pelo sistema de Bretton Woods (pp. 186-87), baseado em taxas de câmbio fixas, não ajustáveis.
Quando esse sistema terminou, em 1971, as crises cambiais tornaram-se mais comuns. Em geral, elas são desencadeadas por pessoas que vendem uma moeda nacional em grande quantidade. Essa atitude parece vir da fusão de expectativas e certas fraquezas econômicas correlatas (ditas "fundamentais") — ou seja, as reações das pessoas a problemas percebidos. Os economistas têm tentado criar um modelo matemático dessa interação, mas, sempre que pensam ter encontrado um modelo que reflete os dados, surge um novo tipo de crise.
Crises cambiais no contexto
Como furacões, as crises financeiras acontecem com frequência surpreendente, mas é difícil prevê-las. Séculos atrás, quando o dinheiro era baseado em metais preciosos, a moeda costumava perder o valor por causa de depreciação, que ocorria quando um governante reduzia o teor do metal precioso na cunhagem. Depois que a moeda passou a ser impressa em papel por bancos centrais, a inflação alta as fez desabar. Foi assim na Alemanha em 1923, onde a certa altura os preços duplicavam em dois dias. Contudo, não é necessário haver hiperinflação para ocorrer uma crise monetária. Por exemplo, durante a Grande Depressão de 1929-33, os preços de produtos como minerais e alimentos despencaram, e as moedas dos países latino- -americanos, que dependiam de exportações, caíram com eles.
Diretrizes incompatíveis
Em texto de 1979, o economista americano Paul Krugman mostrou que, para ocorrer uma crise cambial, bastava o governo implementar políticas incompatíveis com a taxa de câmbio.
A ideia de Krugman é a base dos modelos de crises cambiais de primeira geração. Esses modelos presumem uma taxa de câmbio fixa entre a moeda nacional e uma moeda estrangeira e que o governo tem déficit orçamentário (gasta mais do que arrecada com impostos), que ele financia emitindo moeda. Ao aumentar a oferta de moeda, essa política cria uma incompatibilidade com o valor da moeda determinado pela taxa de câmbio fixa. Mantendo estáveis os demais fatores, a política econômica fará o valor "real" da moeda nacional cair.
A seguir, os modelos pressupõem que o banco central venda suas reservas de moeda estrangeira, a fim de sustentar a própria moeda. Todavia, supõe-se que as pessoas percebam que as reservas internacionais do banco central se esgotarão. Assim, a taxa de câmbio terá de "flutuar" (ser negociada livremente) e cairá. O modelo propõe a existência de uma "taxa-sombra de câmbio", aquela que seria a taxa de câmbio caso o banco central não aplicasse a taxa de câmbio fixa. Analisando o déficit público, as pessoas sabem quanto é (e será) essa taxa-sombra em qualquer momento. No instante em que notarem que é melhor vender a moeda nacional pela taxa de câmbio fixa, elas provocarão um ataque especulativo e comprarão todas as reservas de moeda estrangeira do banco central. Então a moeda nacional será forçada a flutuar, e a taxa-sombra depreciada se tornará a taxa de câmbio real. O ataque especulativo ocorre no ponto em que a taxa-sombra em depreciação constante se iguala à taxa de câmbio fixa.
Esse modelo parecia condizer com as crises monetárias da América Latina nos anos 1970 e 1980, e com a do México, em 1982. Todavia, em 1992-93, estourou uma crise cambial no Sistema Monetário Europeu (SME) que pareceu contradizer o modelo. Sob o mecanismo de taxa de câmbio (MTC) desse sistema, os países europeus realmente fixaram, ou atrelaram, sua moeda ao marco alemão. Várias moedas foram pressionadas por especuladores, sobretudo o financista George Soros. Seria difícil negar que países como o Reino Unido estivessem adotando políticas incompatíveis com a taxa de câmbio visada. O Reino Unido tinha um déficit orçamentário muito baixo e antes tivera superávit. No entanto, em 1992 foi obrigado a se retirar do SME, provocando grande constrangimento político ao ministro das Finanças, Norman Lamont. Era necessário um novo modelo para explicar esses acontecimentos.
Crises autorrealizáveis
Nos modelos de primeira geração, a política do governo é "fixa": as autoridades usam mecanicamente suas reservas estrangeiras para defender a moeda. A segunda geração de modelos deu ao governo uma alternativa: ele pode estar comprometido com uma taxa de câmbio fixa, mas essa "norma" tem uma cláusula de escape. Se o desemprego fica muito alto, o governo pode abandonar seu compromisso com o câmbio fixo, porque os custos sociais da defesa da moeda (por exemplo, por meio de taxas de juro altas) são grandes demais. Vimos essa escolha difícil no drama da Grécia em 2012. No entanto, não fosse um ataque especulativo, os custos sociais extras não subiriam. Esses modelos implicam a possibilidade de mais de um resultado, que os economistas chamam de "equilíbrios múltiplos". Um ataque especulativo ocorre se muitas pessoas creem que outras vão atacar a moeda. Então aquelas a atacam, dando origem a uma crise. Porém, se as pessoas não acreditam nisso, a crise pode não acontecer. Nesses modelos, as crises são "autorrealizáveis". Eles afirmam que, em caso extremo, uma crise pode ocorrer independentemente dos fundamentos econômicos do país. Esses novos modelos, baseados no trabalho de economistas como o americano Maurice Obstfeld, mostraram-se mais realistas que os anteriores, por permitirem que o governo use instrumentos para defender a moeda, como o aumento da taxa de juro para evitar sua desvalorização. Pareceram também condizentes com a experiência da crise do MTC, em que os governos tinham a limitação do alto nível de desemprego.
Fragilidade financeira
A crise do leste da Ásia de 1997 (veja na seção anterior) pareceu não se inserir nos dois primeiros tipos de modelo. O desemprego não era um problema, mas ainda assim as moedas do leste da Ásia se viram de repente sob enorme ataque especulativo. Nos modelos de segunda geração, a cláusula de escape da desvalorização deveria aliviar a economia dos custos sociais, mas a baixa acentuada das moedas seguiu-se de uma queda econômica grave, mas curta. A fragilidade financeira, provocada por alta e baixa bancária, desempenhou papel significativo. Diante disso, os economistas concentraram-se na interação entre as fraquezas da economia e as expectativas autorrealizáveis dos especuladores.
A terceira geração de modelos levou em conta novos tipos de fragilidade financeira, como aqueles que surgiram quando empresas e bancos pegaram empréstimos em moeda estrangeira e emprestaram em moeda nacional. Os bancos não poderiam pagar a dívida caso a moeda fosse desvalorizada. Essas espécies de fraqueza poderiam desencadear ataques especulativos e crises.
Além de elaborar teorias, os economistas procuram indícios de sinas de alerta de crises monetárias. Em um artigo de 1996, Jeffrey Frankel e Andrew Rose revisaram as crises cambiais de 105 países em desenvolvimento de 1971 a 1992. Descobriram que as desvalorizações ocorrem quando as entradas de capital estrangeiro param, quando as reservas de moeda estrangeira do banco central estão baixas, quando o crescimento do crédito no país está alto, quando aumentam taxas de juro estrangeiras importantes (sobretudo o dólar americano) e quando a taxa de câmbio real (preços de produtos negociados no país em relação aos estrangeiros) está alta, o que significa que os bens de um país não são competitivos em mercados estrangeiros. Os economistas dizem que, ao monitorar esses sinais de alerta, as crises podem ser previsíveis até um ou dois anos antes.
Como evitar as crises
Há estudos que indicam que de 5% a 25% da história recente foi de crise. Novas crises continuarão a surpreender, mas alguns sinais podem ajudar a avisar quando os furacões monetários estão a caminho, como a taxa de câmbio real, exportações e contas correntes e o volume de moeda na economia em relação às reservas internacionais do banco central. As experiências das últimas décadas expuseram as raízes financeiras das crises. Hoje os economistas falam de "crises gêmeas" — escaladas violentas de crises cambiais e bancárias.
Acha-se que a rápida desregulamentação financeira e a liberalização de mercados de capital internacionais tenham causado crises em países com fracas instituições financeiras e reguladoras. Além de dar atenção aos sinais macroeconômicos de crises futuras, os governos precisam cuidar daquelas vulnerabilidades institucionais.
Os leilões existem há muito tempo, mas só recentemente os economistas perceberam que eles são um campo de provas ideal para as estratégias de competição da teoria dos jogos. Essa teoria ganhou destaque nos anos 1950, quando os matemáticos viram que jogos simples podiam esclarecer situações em que as pessoas competem diretamente. Foi difícil aplicar essa ideia ao mundo real. Contudo, as regras rígidas de um leilão, com número restrito de participantes e estratégias de compra estudadas, pareceram bem próximas da teoria.
Tipos de leilão
O primeiro que aplicou a teoria dos jogos aos leilões foi o economista canadense William Vickrey, nos anos 1960. Ele comparou os três tipos mais comuns de leilão. "Leilão inglês" é o método usado nas casas de arte britânicas, nas quais os lances sobem até que sobre um participante. No "leilão holandês", usado, por exemplo, nos mercados de flores da Holanda, o preço cai até chegar àquele que alguém pagará. Em um "leilão de primeiro preço", os participantes apresentam lances fechados, e o mais alto vence. Vickrey propôs um quarto tipo de leilão, parecido com o de primeiro preço, mas no qual o vencedor paga tanto quanto o segundo maior lance.
Usando a matemática, Vickrey provou que, quando os lançadores avaliam os itens separadamente, todos os quatro tipos de leilão rendem o mesmo para o vendedor, descoberta chamada de "teorema da equivalência de receitas".
Lances-sombra
Vickrey provou que é melhor os negociantes fazerem lance menor que a sua avaliação, estratégia que os teóricos denominam "sombrear", do contrário poderão pagar acima da cotação. Esse recurso ganhou importância especial nos anos 1970, quando se viu que as companhias petrolíferas que faziam lances pelo direito de perfuração em alto-mar quase sempre acabavam pagando demais. Os teóricos de leilões descobriram o fenômeno da "maldição do vencedor": o item acaba com o participante que mais o supervalorizou. Imagine que você dê um lance vencedor de $100 por um quadro. Você ganha, porque seu lance é superior ao dos outros. Supondo que o segundo maior lance fosse $98, você poderia ter oferecido lance menor — $ 98,01 — e ainda assim venceria. Em geral, o arrematador paga "a mais", neste caso com diferença de $1,99.
A teoria pode ser usada para conceber leilões que maximizem a receita do vendedor e garantam que o bem fique com o comprador que mais lhe dá valor. O sucesso do governo dos EUA nos leilões do espectro na década de 1990 (veja o quadro à direita) criou uma animação por essa nova área de economia. Para muitos, provou que a teoria dos jogos não era apenas teoria, mas se aplicava a mercados reais. Outros insistem que os leilões são um tipo especial de mercado e que até eles podem não ser explicados inteiramente pela teoria dos jogos. A verdade é que os leilões agora se expandiram bem além de seus domínios tradicionais de aquisições do governo e vendas de títulos públicos.
A instabilidade dos sistemas econômicos tem sido debatida ao longo da história da economia. A visão dos economistas clássicos, seguindo a tradição iniciada por Adam Smith, é que a economia sempre retoma um equilíbrio estável. Sempre haverá perturbações que criam altas e baixas — padrão às vezes chamado de ciclo econômico, mas a tendência é de estabilidade, com uma economia de pleno emprego.
A Grande Depressão de 1929 levou alguns economistas a analisar os ciclos econômicos em detalhe. Em 1933, o economista americano Irving Fisher mostrou como a alta pode virar uma baixa por meio de instabilidades causadas por dívidas excessivas e preços em queda. Três anos depois, John Maynard Keynes (p. 161) questionou a ideia de que a economia se autocorrige. Em sua Teoria geral, ele formulou a tese de que a economia poderia acabar em uma depressão da qual teria pouca chance de escapar.
Essas obras foram etapas no entendimento da natureza instável das economias modernas. Em 1992, Hyman Minsky reavaliou o problema em seu ensaio "A hipótese da instabilidade financeira", que diz que a economia capitalista moderna contém as sementes da autodestruição.
Na opinião de Keynes, a economia capitalista moderna é diferente da que existia no século XVIII. A principal diferença é o papel das instituições monetárias e financeiras. Em 1803, o economista francês Jean-Baptiste Say (p. 75) fez uma interpretação clássica da economia, de que ela é em essência um refinado sistema de escambo, em que as pessoas produzem bens que elas trocam por dinheiro, usado para permutar pelos bens que quiserem. A permuta real é um bem por outro: o dinheiro é apenas um lubrificante. Keynes argumentou que o dinheiro faz mais que isso: permite que as transações ocorram ao longo do tempo: uma empresa toma dinheiro emprestado hoje para construir uma fábrica, que ela espera gere lucro, que poderá ser usado no futuro para pagar o empréstimo e os juros. Minsky ressaltou que não apenas empresas fazem parte desse processo: os governos financiam a dívida pública, e os consumidores tomam empréstimos altos para comprar carros e casas. Estes também fazem parte do complexo mercado financeiro que permite as transações ao longo do tempo.
Comerciantes de dívidas
Minsky afirmou que existe uma segunda grande diferença entre a economia pré-capitalista e a moderna. Segundo ele, o sistema bancário não se limita a juntar credores e mutuários, mas também se esforça para inovar a forma de vender recursos e tomá-los emprestados. Entre exemplos recentes disso estão os instrumentos financeiros chamados obrigações de dívida garantida (CDOs), criadas na década de 1970. As CDOS reúnem diferentes ativos financeiros (empréstimos) — alguns de alto risco, outros de baixo risco. Esses novos ativos foram então divididos em partes menores para ser vendidos. Cada parte continha dívidas variadas. Em 1994, surgiram os credit default swaps, visando proteger estes ativos contra o risco de inadimplência. Ambas as inovações incentivaram a oferta de empréstimos no sistema financeiro, o que aumentou a oferta de liquidez, ou dinheiro vivo, no sistema. Minsky concluiu que essas inovações implicavam que não seria mais possível aos governos controlar o volume de dinheiro na economia. Se existisse demanda de empréstimos, os mercados financeiros encontrariam um modo de atender a ela.
Segundo Minsky, após a Segunda Guerra Mundial as economias capitalistas já não eram dominadas por um grande governo ou grandes empresas. Ao contrário, estavam sujeitas à influência dos grandes mercados monetários. A influência dos mercados financeiros no comportamento das pessoas criou um sistema que continha as sementes da sua própria destruição. Ele declarou que, quanto mais longo o período de crescimento econômico estável, mais as pessoas acreditavam que a prosperidade continuaria. Como a confiança aumentava, o desejo de assumir riscos fazia o mesmo. Paradoxalmente, longos períodos de estabilidade resultavam numa economia com grande tendência para uma instabilidade fatal.
Minsky explicou o caminho da estabilidade para a instabilidade ao analisar três tipos de opções de investimento, que podem ser exemplificados com simplicidade pela maneira de comprar imóveis. A decisão mais segura é pedir emprestado um montante que a renda pessoal consiga restituir, junto com os juros, por determinado tempo. Minsky chamou isso de unidades de proteção, que criam risco baixo para o credor e o devedor. Se as pessoas se sentem mais confiantes no futuro, elas talvez façam um financiamento maior, só de juros — a renda paga apenas os juros do empréstimo, não o empréstimo em si. A esperança era de que um crescimento econômico estável aumentasse a procura, para que o valor da casa fosse maior no final do prazo do que no início. Minsky chamou esses indivíduos de mutuários especulativos.
Com o tempo, se a estabilidade e a confiança ainda existissem, o desejo de assumir riscos maiores incentivaria as pessoas a comprar uma casa com uma renda que nem pagaria os juros, de modo que o volume total da dívida aumentaria, ao menos no curto prazo. A expectativa seria de que o preço dos imóveis subisse suficientemente rápido para cobrir a falta de pagamento de juros. Esse terceiro tipo de investimento criaria a maior das instabilidades no futuro e, para Minsky, era feito por mutuários investidores Ponzi — em referência a Charles Ponzi, imigrante italiano nos EUA, um dos primeiros presos por executar o golpe financeiro que hoje leva seu nome. Os "esquemas Ponzi" captam recursos financeiros com a oferta de rendimentos muito elevados. De início, os criminosos usam o dinheiro de novos investidores para pagar os dividendos, mantendo a ilusão de que o investimento é rentável, e atraem novos clientes. No entanto, logo o esquema falha, por não pagar o elevado montante de rendimentos prometidos. Quem investe num esquema desses costuma perder grande parte do dinheiro.
Bolha imobiliária
A história recente do mercado imobiliário dos EUA é um exemplo de que uma economia que teve um longo período de estabilidade cria dentro de si condições para a instabilidade. Nos anos 1970 e 80, um financiamento garantido por hipoteca era oferecido de um modo que garantia o pagamento dos juros e do principal, o que Minsky chamou de unidades de proteção. No entanto, no final da década de 1990, um período constante de crescimento provocara aumento nos preços dos imóveis, convencendo um número crescente de pessoas a tomar financiamentos, pois se especulava que os preços ainda subiriam. Então o sistema financeiro passou a oferecer uma série de negócios com hipotecas tipo Ponzi a mutuários que tinham renda tão baixa que nem pagava os juros do empréstimo — eram as hipotecas "de alto risco" (subprime). A dívida mensal se somava à dívida total. Se os preços de imóveis continuassem a subir, o valor da propriedade seria maior que a dívida. Enquanto mais gente entrasse no mercado, os preços continuariam aumentando. Ao mesmo tempo, o setor financeiro que oferecia financiamentos fez um pacote com elas e vendeu-as a bancos como ativos que dariam renda contínua por 30 anos.
O fim do jogo foi em 2006. Como a economia dos EUA se estagnou, as rendas caíram, e a procura de novas moradias, também. Quando os aumentos nos imóveis começaram a desacelerar, desencadeou-se a primeira série de uma inadimplência crescente, pois os mutuários viram a dívida crescer, em vez de encolher. Aumentou o número de imóveis desapropriados, e os preços caíram.
Em 2007, a economia dos EUA chegou ao que ficou conhecido como "momento Minsky", o ponto em que a especulação insustentável se transforma em crise. O colapso do mercado imobiliário deixou OS bancos com dívidas enormes, e, como ninguém sabia quem tinha comprado a dívida hipotecária tóxica, as instituições pararam de fazer empréstimos entre si. Em decorrência, bancos passaram a falir — o mais famoso foi o Lehmann Brothers, em 2008. Como Minsky previra, ocorreu um colapso quase catastrófico no sistema financeiro, porque um período de estabilidade havia gerado um volume enorme de dívidas, criando as condições para a instabilidade.
Minsky também previra as três atitudes possíveis para conter a fatal instabilidade e os problemas derivados dessas correções.
Primeiro, o banco central poderia agir como emprestador de última instância, socorrendo o sistema bancário. Minsky notou que isso poderia aumentar ainda mais a instabilidade no sistema no futuro, pois incentivaria os estabelecimentos bancários a assumir maiores riscos, sabendo que seriam salvos.
Segundo, o governo poderia aumentar a dívida pública para estimular a demanda na economia. No entanto, até os governos têm dificuldade de financiar dívidas numa crise. Terceiro, os mercados financeiros poderiam ficar sujeitos a regulamentação mais rígida. Minsky acreditava firmemente que isso fosse necessário no longo prazo. Porém, a velocidade com que os mercados financeiros se inovam dificultaria essa regulamentação.
Segundo Minsky, a instabilidade financeira é crucial para explicar o capitalismo moderno. O dinheiro não é mais um véu que esconde o funcionamento real da economia; tornou-se a economia. Hoje as ideias de Minsky despertam uma atenção cada vez maior.
Os economistas americanos Carl Shapiro e Joseph Stiglitz sustentam que as empresas pagam mais que o salário de mercado porque sempre existe um núcleo de desemprego. Explicam isso com a ideia de "salários de eficiência". Os empregadores pagam mais porque vale a pena — obtêm mais dos funcionários.
Isso deriva das "imperfeições" do mercado. Os empregadores não podem observar o esforço dos trabalhadores sem custo (problema chamado de "risco moral"). Por isso Shapiro e Stiglitz dizem que os salários de eficiência acabam com o "corpo mole". Se os funcionários soubessem que teriam emprego assim que demitidos, seriam tentados a descuidar do serviço. Os salários mais altos e a ciência de que a demissão pode implicar um longo desemprego aumentam o custo da perda do trabalho e fazem os funcionários trabalhar melhor.
Os patrões também não podem aferir sem custo a capacidade dos trabalhadores, e os salários de eficiência devem ajudar a atrair candidatos melhores. Entre outras explicações está o desejo do empregador de aumentar o moral e reduzir a rotatividade (quanto mais alto o salário, mais fácil manter o pessoal e evitar novo treinamento). Salários altos também mantêm a saúde do trabalhador para que faça um bom serviço. Isso é mais importante nos países em desenvolvimento. Os salários de eficiência explicam ainda por que as empresas não cortam salários quando cai a demanda: os funcionários se demitiriam.
A economia keynesiana (pp. 154-61) supõe que os salários monetários tendem a não cair: eles são "rígidos" e reagem devagar às mudanças no estado do mercado. Quando vem uma recessão e os preços caem, o valor real dos salários aumenta. As empresas então procuram menos mão de obra, e o desemprego sobe.
Os economistas neokeynesianos, como o americano John Taylor, tentam explicar a rigidez. Nos anos 1970, a figura das expectativas racionais (pp. 244-47) solapou a economia keynesiana. Não poderia existir desemprego persistente, porque os salários cairiam e as políticas do governo para levantar a economia não funcionariam. O novo pensamento keynesiano mostrou que, mesmo com as expectativas racionais, o desemprego persistiria e a política governamental seria eficaz, porque a rigidez salarial não poderia coexistir com indivíduos racionais.
Taylor e o economista americano Greg Mankiw dizem que os preços podem ser rígidos devido aos chamados "custos de menu" — os custos das mudanças, como imprimir a nova lista de preços. A rigidez também pode ser causada por contratos trabalhistas, em que os salários são fixos por um tempo. O comportamento individual e a racionalidade não existiam nos primeiros modelos keynesianos. Os economistas neokeynesianos puseram suas conclusões sobre alicerces teóricos mais firmes.
Em geral é fácil decidir onde comprar pão ou sabonete — há supermercados em todo canto. E encontrar um modelo específico de carro usado ou um instrumento musical antigo? De acordo com uma visão tradicional do mercado — em que oferta e procura sempre se equilibram —, vendedores e compradores se encontram de imediato, sem custo, e têm plena informação sobre o preço de todos os produtos e serviços. Porém, quem já tentou achar um carro usado, uma nova casa ou um parceiro sabe que é raro isso acontecer de verdade.
Conflitos de busca
Diz-se que os mercados têm "conflitos de procura" quando compradores e vendedores não se acham automaticamente. Os economistas elaboraram aos poucos a "teoria da busca", para investigar tais conflitos. Um dos principais focos dessa teoria é a procura de emprego e o desemprego.
O modelo clássico do mercado de trabalho supõe um plano de oferta de mão de obra (número de trabalhadores dispostos a trabalhar por certo salário) e um plano de procura de mão de obra (número de vagas oferecidas por certo salário). Quando o salário de cada plano se ajusta, a oferta se iguala à procura, e o mercado se equilibra. Então, como podem existir trabalhadores à procura de trabalho e empregadores à procura de trabalhadores?
O economista americano George Stigler disse nos anos 1960 que o mercado de "único salário" usado pelos economistas clássicos só ocorreria quando a informação sobre salários ofertados ou procurados não custasse nada. Em todo mercado, em que os produtos (como empregos) são diferentes, a busca tem custos. Quanto maiores, maior a gama de salários por um serviço similar. Quem procura emprego nota que os salários diferem entre empregadores e tem de decidir a que distância e por quanto tempo procurá-lo. Stigler mostrou que, para fazer a procura ideal, os trabalhadores deveriam rejeitar qualquer salário inferior ao seu "salário de reserva" (o menor que aceitariam) e aceitar qualquer oferta maior. Esse modelo — traçar um nível aceitável — funciona na procura em qualquer mercado, mesmo o de agências de encontro.
Em 2010, os economistas Peter Diamond, Christopher Pissarides e Dale Mortensen receberam juntos o Prêmio Nobel por seu trabalho com a teoria da procura e do ajuste. Diamond descobriu que até um aumento ínfimo no custo da busca leva a aumento no preço dos produtos. Os compradores relutam em pagar a segunda ou a terceira busca, de modo que, se o aumento de preços é pequeno no local em que busca, os vendedores sabem que os compradores não notarão, porque não os comparam com o resultado das outras buscas.
A teoria da busca e do ajuste tem implicações no desenvolvimento eficiente do auxílio desemprego. Benefícios incondicionais reduziriam os incentivos ao desempregado para procurar e aceitar ofertas de emprego. Mas os que são concebidos de um modo que estimule a procura devem ajudar a melhorar a eficiência dos mercados de trabalho.
Desde a Revolução Industrial, desenvolvimento econômico e prosperidade ocorreram por causa da tecnologia, sustentada principalmente por combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. Porém, está cada vez mais claro que a prosperidade tem um custo: não só estamos esgotando rápido os recursos naturais, como também a queima de combustíveis fósseis polui a atmosfera. Um conjunto crescente de provas aponta como causa do aquecimento global as emissões de gases de efeito estufa, em particular o dióxido de carbono (CO2), e hoje o consenso entre cientistas de todo o mundo é que sofreremos uma mudança climática devastadora se não cortarmos as emissões rápida e drasticamente.
As implicações são econômicas e ambientais, mas economistas e governos estão divididos quanto às medidas a tomar. Até recentemente, muitos argumentaram que os custos do combate às mudanças climáticas mais ameaçam a prosperidade econômica que criam benefícios eventuais. Alguns ainda contestam as evidências de que a mudança do clima deve-se ao homem, e outros dizem que o aquecimento da Terra até pode ser benéfico. Um número crescente admite hoje que se deve avaliar a questão e encontrar soluções econômicas.
Fatos econômicos
Em 1982, o economista americano William Nordhaus publicou How fast should we graze the global commons?, analisando em detalhe o impacto econômico da mudança climática e as possíveis soluções. Ele assinalou que certas características do problema do clima o tornam singular quanto às soluções econômicas: a longa escala do tempo, as incertezas, a internacionalidade da questão e a distribuição desigual de benefícios e custos pelo planeta.
O governo da Grã-Bretanha pediu em 2006 ao economista britânico Nicholas Stern um estudo sobre a economia da mudança climática. A Resenha de Stern teve conclusões claras, com argumentos sólidos em favor de ação imediata para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Stern estimou que o custo eventual da mudança do clima seria de até 20% do produto interno bruto (PIB, ou renda nacional total), em comparação com o custo de cerca de 1% do PIB caso se tomasse uma atitude imediata. Em 2009, Nordhaus estimou que, sem intervenção, os danos econômicos com a mudança climática seriam em torno de 2,5% da produção mundial por ano até 2099. Os maiores danos seriam suportados por regiões tropicais de baixa renda, como a África tropical e a Índia.
A questão não era mais se conseguiríamos cortar as emissões, mas se poderíamos nos dar ao luxo de não cortá-las e como fazê-lo. Existem fortes argumentos em favor da intervenção do governo: do ponto de vista econômico, a atmosfera pode ser considerada um bem público (pp. 46-47) que tende a ser de baixa oferta pelos mercados; a poluição pode ser vista como externalidade (p. 137), em que os custos sociais de uma ação não se refletem nos preços e, portanto, não são inteiramente suportados por aqueles sujeitos a ela. Por esses motivos, Stern classificou a mudança do clima de maior falha de mercado jamais experimentada.
Nações desiguais
O primeiro obstáculo para economistas como Nordhaus e Stern foi convencer os governos a adotar medidas nocivas à economia no curto prazo, mas que atenuariam consequências mais danosas no longo prazo. O segundo foi encontrar o modo mais eficiente de instituir diretrizes sobre emissões. Nem todos os governos se convenceram facilmente. As economias mais desenvolvidas, que são maioria em áreas temperadas, provavelmente não sofrerão as piores consequências do aumento da temperatura mundial. As prováveis mudanças no clima atingirão os países pobres com maior intensidade. Isso significa que, em muitos casos, os países com maior incentivo para atenuar os efeitos da mudança climática são aqueles que geram menos poluição.
Os piores poluidores, como EUA, Europa e Austrália, têm relutado em aceitar que os governos imponham políticas caras. Mesmo que o fizessem, a poluição não se restringe aos seus territórios. O problema é mundial e exige ação coletiva de escala internacional.
A necessidade de ação coletiva foi reconhecida primeiro na "Cúpula da Terra" da ONU, em 1992, que exigiu de todos os seus membros que coibissem as emissões de gases de efeito estufa. Muitos governos elaboraram políticas ambientais e estratégias para implantá-las. Uma solução é a regulamentação na forma de punição, como multas por produção excessiva de poluentes, mas é difícil determinar cotas de emissão que sejam justas com todas as empresas envolvidas. E também é difícil aplicar as multas.
Outra opção, sugerida primeiro pelo economista britânico Arthur Pigou em 1920, é a imposição de impostos de poluição (p. 137). A cobrança de impostos de empresas que emitem gases de efeito estufa e de fornecedores e produtores de energia sobre o volume de carbono liberado na atmosfera funcionaria como um desincentivo da poluição. Impostos sobre combustíveis fósseis desencorajariam seu consumo excessivo. A ideia de Pigou é fazer os indivíduos arcar com todos os custos sociais de seus atos, para "internalizar" a externalidade.
Créditos de carbono
Pode-se entender a poluição como falha de mercado porque normalmente não há mercado para ela. Os economistas afirmam que, se houvesse, o ótimo social seria o volume emitido, porque os poluidores arcariam com o custo total de seus atos. Assim, outra proposta de solução do problema do clima é criar um mercado para a poluição com créditos de emissões. Isso implica o governo (ou um grupo de governos trabalhando juntos) determinar um nível aceitável de emissões de CO2, por exemplo, e depois leiloar as permissões a empresas cujos negócios necessitam lançar dióxido de carbono. Como as permissões são negociáveis, se a empresa precisa aumentar as suas, ela pode comprar créditos de outra que não tenha usado a sua cota. Esse plano tem a vantagem de premiar as empresas que cortam suas emissões e então vendem seu excedente. Isso pode desestimular as empresas de superar sua cota e ter de comprar créditos a mais. O volume total de emissões, todavia, continua o mesmo e é controlado por uma autoridade central.
Protocolo de Kyoto
Se os créditos de emissão são sem dúvida um passo na direção certa, o problema precisa ser enfrentado mundialmente para afastar o risco de mudança climática. Todavia, acordos internacionais, como o Protocolo de Kyoto, não obtiveram ratificação universal. Em 1997, 141 países participaram dos debates, mas em 2012 apenas 37 haviam concordado em aplicar suas metas de emissão de gases. Os EUA têm sempre rejeitado os termos do acordo, e o Canadá retirou-se em 2011. Mesmo os países que se comprometeram a conter as emissões não têm cumprido suas metas. Países desenvolvidos, como EUA e Austrália, afirmam que adotá-los prejudicaria sua economia. Economias em desenvolvimento, como China, Índia e Brasil, dizem que não devem pagar pela poluição causada pelo Ocidente (muito embora elas próprias venham se tornando grandes poluidoras). Por outro lado, países mais avançados ecologicamente, como Alemanha e Dinamarca, concordaram em reduzir suas metas em 20%.
Modelagem econômica
Os economistas criaram vários modelos para estudar o impacto econômico da mudança climática, como o modelo Dinâmico Integrado de Clima e Economia (Dice), de Nordhaus, apresentado pela primeira vez em 1992 (veja a página ao lado). Ele correlaciona emissões de CO, ciclos de carbono, mudança climática, danos climáticos e fatores que afetam o crescimento.
Hoje, a maioria dos economistas concorda que a mudança climática é um problema complexo com potencial de causar danos graves e persistentes. A solução não é óbvia, mas em 2007 Nordhaus disse crer que o segredo do sucesso está não em projetos grandes e ambiciosos, como o de Kyoto, mas em ideias "universais, previsíveis e incômodas", como a harmonização tributária do carbono.
O produto interno bruto (PIB) é o índice econômico mais citado. Ele faz uma quantificação sucinta da atividade econômica interna do país por um ano — e dá a impressão de relacionar diretamente fatores importantes, como renda familiar e taxa de emprego. Contudo, apesar de toda a sua relevância nos debates econômicos, o PIB sofre de problemas consideráveis.
Esses problemas e limitações concentram-se no modo de cálculo do PIB e no que ele inclui. Sua apuração depende da coleta de dados das transações econômicas. O princípio por trás dele é que tudo que se compre ou venda em um ano deve ser registrado pelo PIB. Os estatísticos do governo conduzem pesquisas aprofundadas para chegar a esse número. Todavia, tudo que se compra e vende numa nação não equivale a toda a atividade econômica realizada. Nem o número final capta inevitavelmente boa parte do que as pessoas valorizam num país. Por exemplo, um ambientalista diria que o PIB não leva em conta o esgotamento de recursos naturais. O desflorestamento é geralmente adicionado ao PIB, presumindo que a madeira seja vendida. Porém, um recurso natural potencialmente insubstituível é consumido, e o PIB não indica nada disso. Do mesmo modo, se uma atividade econômica produz poluição, o PIB computa apenas os produtos vendidos e ignora efeitos indesejáveis, como perda de biodiversidade ou piora da saúde pública.
Trabalho feminino
Existem outros problemas com o cálculo final do PIB. Em seu influente livro de 1988, If women counted, Marilyn Waring, ex-parlamentar na Nova Zelândia, declarou que o PIB menospreza o trabalho realizado por mulheres. Elas são responsáveis por grande parte do trabalho nas residências de todo o mundo, bem como pela maior parte da criação de crianças e da assistência a idosos. Esse trabalho é sem dúvida necessário do ponto de vista econômico, pois, por exemplo, ajuda a garantir a reprodução da força de trabalho. Mas, na vasta maioria dos casos, tal trabalho não é remunerado e portanto não entra no cálculo do produto interno bruto.
Exclusão das mulheres
As diferenças de contabilidade no cálculo da produção econômica podem ser bastante arbitrárias, tratando trabalhos equivalentes em essência de modo muito diferente. A culinária é atividade "econômica ativa" quando a comida é vendida e "atividade econômica inativa" quando não. A única diferença al é a presença ou a ausência de uma transação de mercado, embora a atividade seja idêntica. Uma exclui as mulheres, enquanto a outra, não.
Existe, então, um enorme preconceito de género implícito nas contas nacionais, e o verdadeiro valor econômico do trabalho das mulheres é subestimado sistematicamente nos métodos convencionais de contabilidade. Waring foi ainda mais longe e afirmou que o sistema-padrão internacional de cálculo da renda nacional — o Sistema de Contas Nacionais da ONU — é um exemplo de "patriarcado aplicado": em outras palavras, uma tentativa da economia masculina de excluir as mulheres de um modo que acaba reforçando as divisões de gênero em todo o mundo.
As críticas de Waring e aquelas de outras economistas feministas ajudaram a dar forma às discussões sobre o futuro da contabilidade da renda nacional. Os debates atuais sobre como levar em conta o bem-estar e o desenvolvimento de índices sociais mais amplos de progresso econômico indicam um desejo crescente de vencer as amarras e as limitações do PIB como índice de valor.
Os economistas costumam acreditar que as nações comerciavam entre si por serem diferentes: os países tropicais vendiam açúcar aos temperados, e estes exportavam lã. Alguns faziam melhor certas coisas — eles tinham uma "vantagem comparativa", por causa de seu clima e solo.
No entanto, há um bom motivo para acreditar que não seja só isso. Em 1895, Catherine Evans, de Dalton, na Geórgia, EUA, visitava uma amiga e notou uma colcha feita em casa. Inspirada, ela fez uma parecida e passou a ensinar às pessoas. Logo surgiram empresas têxteis, criando uma indústria de tapetes que dominou o mercado, contradizendo a explicação comum do comércio internacional, pois a Geórgia não tinha vantagem comparativa em tapetes.
Capricho da história
Em 1979, o economista americano Paul Krugman propôs uma nova teoria, que aceitava a influência de acidentes na história, como uma indústria surgir ao acaso na Geórgia. Ele notou que existe muito comércio entre economias similares. A produção tem economias de escala: o primeiro investimento numa fábrica de carros faz os custos baixar, à medida que mais carros são feitos. Qualquer país pode fazer carros, mas, quando um começa, ele adquire uma vantagem de custo que o outro país dificilmente superará. Então, uma região pode dominar o comércio de um produto por um capricho da história.
O crescimento econômico é movido por inovação e invenção. Certas inovações são incrementais, enquanto outras revolucionam. Uma furadeira melhor pode ser uma de muitas inovações pequenas que tornam as economias mais produtivas. A descoberta da eletricidade, porém, foi realmente revolucionária; ela transformou as economias nos últimos dois séculos, permitindo o uso de novos tipos de máquina. Há pouco tempo, os economistas começaram a pensar nesses saltos. Os americanos Timothy Bresnahan e Manuel Trajtenberg chamam a eletricidade de "tecnologia de uso geral". Uma furadeira melhor ajuda os construtores; a eletricidade torna todas as empresas mais produtivas. No entanto, os efeitos positivos desses avanços revolucionários podem demorar para ser sentidos.
Exploração da tecnologia
No final dos anos 1980, o economista americano Robert Solow (p.225) pensou ter descoberto um paradoxo: a proliferação da tecnologia da informação e comunicação (TIC) não parece ter influído na produtividade. Na Revolução Industrial, a difusão do motor a vapor foi bastante lenta: levou tempo para ele ser rentável e as empresas se organizarem para usá-lo. A TIC teve efeito mais rápido, mas demorou para se disseminar. A solução do paradoxo de Solow é que os benefícios totais das tecnologias de uso geral demoram a aparecer.
Nas últimas décadas do século XX, os países mais pobres do mundo detinham uma dívida assombrosa, que passou de US$ 25 bilhões em 1970 para US$ 523 bilhões em 2002.
Nos anos 1990, estava claro que existia uma crise da dívida. Nenhum país africano muito endividado tinha prosperado. Na verdade, a maioria estava em tal dificuldade econômica que não conseguia nem pagar o serviço da dívida sem um sofrimento intenso, quanto mais fazer os investimentos necessários para sair do círculo vicioso de declínio econômico. As campanhas pelo cancelamento da dívida se intensificaram.
Muitos ativistas assumiram uma postura moral, criticando o papel negligente ou egoísta dos países ricos e de instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que haviam feito vários dos empréstimos. Os ativistas disseram que, como os países ricos deram os empréstimos ou para garantir apoio na Guerra Fria ou para assegurar contratos para suas empresas, tinham obrigação de suspender a dívida. O economista americano Michael Kremer adotou o argumento jurídico de que, já que muitas dívidas haviam sido contraídas por regimes corruptos para proveito próprio, elas poderiam ser consideradas "odiosas", o que significa que os países não precisam pagá-las. O Banco Mundial, por exemplo, continuou a emprestar ao ex-ditador Mobutu Sese Seko, do Zaire (hoje República Democrática do Congo), mesmo depois que um representante do FMI denunciou que ele roubava o dinheiro. Várias das dívidas da África do Sul foram feitas pelo regime do apartheid, tido por muitos como um governo ilegítimo.
Outros, como Jeffrey Sachs, usaram um argumento econômico. Sachs afirmou que cancelar a dívida e ampliar a ajuda poderia estimular o crescimento nos países pobres. Os argumentos foram tão contundentes que os membros do G8 (oito maiores economias do mundo) concordaram em cancelar US$40 bilhões de dívidas em 2005. Outro americano, William Easterly, diz que o perdão da dívida premia políticas econômicas ruins e a corrupção nos países devedores. Muitos criticam os programas de reforma de livre mercado que são uma condição para a ajuda, o que pode prejudicar as perspectivas econômicas dos países agraciados.
É interessante notar que a crise da dívida hoje passou do mundo menos desenvolvido para os outrora prósperos países da Europa. Aí, vêm sendo impostas medidas parecidas de austeridade de livre mercado, mas, o que é fundamental, as dívidas não têm sido canceladas.
Durante a Grande Depressão no início dos anos 1930, cerca de 9 mil bancos americanos faliram — um terço do total. Contudo, só nos anos 1980 a teoria econômica começou a lidar com questões básicas, como por que os bancos existem e o que causa uma corrida aos bancos - em que os depositantes entram em pânico e correm para retirar seu dinheiro de bancos que eles acham que podem falir. O artigo que iniciou o debate foi Bank runs, deposit insurance, and liquidity, escrito em 1983 pelos economistas americanos Douglas Diamond e Philip Dybvig. Eles mostraram que bancos saudáveis podem ser vítimas de uma corrida e falir.
Investimentos líquidos
Diamond e Dybvig fizeram um modelo matemático de uma economia para mostrar como ocorre a corrida aos bancos. O modelo tem três momentos no tempo — como segunda, terça e quarta-feira — e pressupõe que só exista um bem ou produto disponível para o público, que ele pode consumir ou investir.
Cada pessoa começa com certa quantidade do bem. Segunda-feira, as pessoas podem fazer duas coisas com seu bem: guardá-lo, caso em que recebem a mesma quantidade na terça para consumir, ou podem investi-lo. Se escolherem isto, o que só pode ser feito na segunda, elas receberão muito mais na quarta. Todavia, se sacarem o investimento antes, na terça-feira, elas receberão menos do que investiram. Esses investimentos, feitos por período fixo, são os chamados investimentos "sem liquidez" — que não se transformam facilmente em dinheiro vivo, como os ativos líquidos.
Paciente e impaciente
Diamond e Dybvig presumem que existam dois tipos de pessoas: as pacientes, que esperam até a quarta- -feira, quando consomem mais, e as impacientes, que querem consumir na terça. Mas elas não sabem que tipo de pessoa elas são até a terça- -feira. A decisão que as pessoas enfrentam na segunda é quanto guardar e quanto investir. A única incerteza nesse modelo é as pessoas serem pacientes ou impacientes. Os bancos devem ter uma boa noção das probabilidades: em geral, 30% das pessoas podem se mostrar impacientes e 70%, pacientes. Então é possível que as pessoas guardem e invistam quantias proporcionais a isso. Mas, o que quer que escolham, isto nunca será, afinal, um resultado eficiente, pois os impacientes talvez nunca invistam e os pacientes talvez nunca guardem nada. Um banco soluciona esse problema. Nesse modelo, achamos que o banco é o lugar em que as pessoas concordam em juntar seus bens e dividir os riscos. O banco dá às pessoas um contrato de depósito e depois investe e guarda os bens em grande quantidade.
O contrato de depósito dá um retorno mais alto do que a custódia e um rendimento mais baixo que um investimento e permite às pessoas retirar seus bens do banco ou na terça ou na quarta-feira, sem penalidade. Ao juntar os bens pessoais, o banco, sabendo da proporção de pessoas pacientes e impacientes, reserva bens suficientes para cobrir a necessidade dos impacientes e investe o bastante para atender aos pacientes. No modelo Diamond-Dybvig, essa é uma solução mais eficiente do que a que as pessoas encontrariam sozinhas, porque, dada a quantidade, o banco pode fazer isso de um modo que o indivíduo não pode.
Na terça, o banco tem ativos sem liquidez — o investimento das pessoas pacientes que colherão um rendimento na quarta-feira. Ao mesmo tempo, ele tem de pagar aos impacientes seus depósitos na hora. Sua capacidade de fazer isso é a razão de sua existência.
Diamond e Dybvig provaram que essa característica também torna o banco vulnerável a uma corrida bancária. A corrida ocorre quando as pessoas pacientes ficam pessimistas com o que receberão do banco na quarta e retiram seu depósito na terça-feira. Sua atitude implica o banco vender seus investimentos com prejuízo; ele não terá recursos para pagar todos os clientes pacientes e impacientes, e os que estiverem no fim da fila não receberão nada. Sabendo disso, os clientes ficam ansiosos por estar no começo da fila.
O pessimismo pode advir de preocupação com os investimentos, saques de outras pessoas ou a sobrevivência do banco. Isso cria a possibilidade de uma corrida ao banco autorrealizável, mesmo que o banco esteja sólido. Suponha, por exemplo, que na terça eu ache que outras pessoas vão sacar seu depósito e então decido fazer o mesmo, por temer que o banco vá à falência. Agora suponha que muitas outras pessoas achem o mesmo. Só isso já causa uma corrida ao banco, mesmo que o banco seja capaz de cumprir suas obrigações hoje e amanhã. Esse é um exemplo do que se chama em economia "equilíbrios múltiplos" — mais de um resultado. Aqui existem dois resultados: um "bom", em que o banco sobrevive, e um "ruim", em que ele afunda por causa da corrida. Onde isso acaba depende mais das crenças e das expectativas das pessoas que da verdadeira saúde do banco.
Prevenindo corrida aos bancos
Diamond e Dybvig mostraram como os governos podem reduzir o problema da corrida aos bancos. Em parte, o modelo deles defendia o sistema de garantia federal de depósitos dos EUA, pelo qual o Estado assegura o valor de todos os depósitos bancários até certa quantia. Instituído em 1933, esse sistema reduziu as falências de bancos. Em março de 1933, o presidente Franklin D. Roosevelt declarou feriado bancário nacional para evitar que o povo retirasse suas economias. Por opção, o banco central pode atuar como "emprestador de última instância" dos bancos. Mas sempre existe incerteza quanto ao que o banco central fará. A garantia de depósito é ideal, por assegurar que as pessoas pacientes não façam parte de uma corrida bancária.
Opiniões alternativas
Existem outras explicações para a existência dos bancos, como o seu papel de investimento. O banco pode reunir e manter informação privada sobre investimentos, separando os bons dos ruins e expressando com eficiência essa informação privada nos rendimentos proporcionados aos poupadores. Ele pode oferecer aos depositantes um rendimento que só é possível se ele próprio realizar seu papel de monitoramento.
Em 1991, os economistas americanos Charles Calomiris e Charles Kahn publicaram um artigo discordando da opinião de Diamond e Dybvig. Disseram que as corridas são benéficas para os bancos. Não existindo a garantia de depósito, os clientes têm estímulo para ficar de olho no desempenho do banco. A ameaça de uma corrida também incentiva o banco a investir com segurança. Esse é um lado do chamado "risco moral" (pp. 208-09), O outro é que a direção do banco tomará decisões mais arriscadas do que não havendo garantia de depósitos. O problema de risco moral tornou-se claro na crise de poupança e empréstimo dos anos 1980 nos EUA, quando os financiadores imobiliários tiveram permissão para fazer empréstimos mais arriscados e a garantia de depósito foi ampliada. Cresceram as falências de bancos americanos.
Crises recentes
É difícil provar qual dessas visões sobre a corrida aos bancos está correta, pois na prática não existe explicação isolada. Há várias formas de risco moral num banco. O acionista do banco talvez encoraje um apetite de risco maior, porque ele só perde o seu investimento. Um funcionário do banco que ganhe bônus talvez assuma riscos, porque é só um emprego que está em jogo. Uma solução do risco moral que costuma ser proposta é implantar uma regulamentação mais rígida.
As recentes crise bancárias em geral começaram com perdas nos investimentos. Os bancos são forçados a vender ativos para reduzir os empréstimos que tomam. Isso acarreta mais queda nos preços dos ativos e mais perdas. Segue-se uma corrida aos depósitos, que pode se espalhar para outros bancos e virar pânico. Se todo o sistema bancário é afetado, chama-se crise bancária sistêmica. Na crise de 2007-08, as corridas ocorreram, apesar de existir a garantia de depósitos. Grande parte da crise recente aconteceu em instituições que não são tão regulamentadas como os bancos, por exemplo, os fundos de hedge, que faziam quase a mesma coisa que um banco: tomar emprestado no curto prazo e emprestar no longo prazo.
Muitos países fortaleceram sua garantia de depósitos durante a crise financeira que começou em 2007-08. É compreensível, pois as falências bancárias podem ter um efeito devastador na economia real, rompendo a ligação entre pessoas com poupança e pessoas que precisam de dinheiro para investir. O argumento do risco moral é como prevenção de incêndio, na medida em que se preocupa com a proteção da economia contra crises futuras. Todavia, o meio de uma crise talvez não seja o momento para tomar medidas preventivas.
Em fevereiro de 2012, 111 milhões de americanos viam o Superbowl pela televisão. No intervalo passou um anúncio de carros Chrysler que também se tornaria tema de conversa. "É intervalo nos Estados Unidos também", dizia a publicidade. "As pessoas estão sem emprego e sofrendo... Detroit nos mostra que dá para sair desta. Este país não pode ser derrubado com um soco."
A insinuação patriótica petulante do anúncio — comprar da Chrysler para salvar o emprego dos americanos — casou com o sentimento de muitos americanos de que os EUA haviam deixado o poder econômico escapar para os estrangeiros, sobretudo os chineses. Foi esse tipo de sentimento que tornou tão sedutoras as explicações da crise financeira de 2008 dadas por Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, banco central dos EUA. Ele elaborou tal raciocínio a partir de 2005, antes de a crise se instalar de verdade, e sua tese centrava-se nos desequilíbrios mundiais na poupança e nos gastos.
É crucial na ideia de Bernanke o balanço de pagamentos (BP) dos EUA. O BP de um país é a conta das transações monetárias entre ele e o resto do mundo. Se importa mais do que exporta, sua balança comercial é deficitária, mas a contabilidade precisa se equilibrar. O déficit é compensado de outro modo, por exemplo, por fundos de investimento estrangeiros ou usando as reservas do banco central.
Bernanke assinalou que o déficit dos EUA subiu bruscamente no fim dos anos 1990, atingindo US$640 bilhões, ou 5,5% do PIB, em 2004. O investimento foi constante na época, mas a poupança interna caiu de 16,5% do PIB para 14% de 1996 a 2004. Se a poupança doméstica caiu, embora o investimento estivesse estável, o déficit só pode ter sido financiado por dinheiro estrangeiro.
A fartura da poupança
Bernanke disse que o déficit era pago pela "fartura da poupança mundial" — um acúmulo de poupança em países que não os EUA. Por exemplo, os chineses, que têm enorme superávit comercial com os EUA, nem estavam investindo todos os seus ganhos no país nem comprando coisas, mas enfurnando-os na poupança e em reservas de moeda. Bernanke destaca vários motivos para a fartura de poupança mundial além da frugalidade chinesa, entre eles o aumento do preço do petróleo e a formação de "fundos de guerra" para se resguardar de choques financeiros futuros.
À primeira vista, é prudente poupar, uma salvaguarda para o futuro. Contudo, a poupança no mundo capitalista internacional é uma moeda de duas faces. Qualquer dinheiro que vá para a poupança é dinheiro perdido no investimento direto ou no gasto de consumo, mas ela não some simplesmente. O argumento de Bernanke é que o dinheiro da fartura de poupança em outros países acabava inundando os mercados de capital nos EUA.
Abundância de dinheiro
Essa dinheirama reduziu as taxas de juro e o incentivo dos americanos e europeus para poupar. Com os mercados credores aparentemente inundados com dinheiro fácil, os emprestadores fizeram o impossível para fechar negócios. Para atender à demanda de escoadouros para o dinheiro estrangeiro, a engenharia financeira dos EUA saiu-se com produtos como as obrigações de dívida garantida (CDOS), que aliavam hipotecas de alto risco a dívidas de baixo risco, para obter obrigações de classificação de crédito AAA, ou seja, um conceito de risco muito baixo.
Ao mesmo tempo, os preços de imóveis dispararam em duas dúzias de países, pois mesmo quem tinha renda baixa conseguia pôr um pé na varanda da casa própria. Algumas das hipotecas que financiariam essa alta — chamadas subprime (de alto risco) nos EUA — foram concedidas a pessoas que não poderiam pagá-las.
A crise
Em 2008, uma série de insolvências de hipotecas de alto risco denunciou o fato de que várias instituições financeiras haviam investido muitas vezes mais que o valor de seu capital. O banco de investimentos Lehman Brothers faliu em 2008, e diversas outras instituições financeiras pareciam correr tamanho perigo de entrar em colapso que tiveram de ser socorridas por pacotes do governo na maioria dos países ricos.
Pareceu que a ideia simples da mensagem de Bernanke era de que a crise financeira se devia totalmente à poupança chinesa e aos gastos excessivos dos americanos. Essa também foi a mensagem da Ascensão do dinheiro (2008), de Niall Ferguson, que analisa a crise de crédito e se centra na malfadada "Chimérica" — a ligação simbiótica (ou, para alguns, parasítica) entre China e EUA. A ideia atraiu muita gente dos círculos financeiros americanos, pois parecia insinuar que os moderados chineses eram culpados da crise.
Bernanke foi categórico: o dinheiro chinês avivou o incêndio americano, embora alegue que só uma pequena parte foi para ativos de alto risco. Em 2011, disse ele, "os superávits de conta corrente da China foram usados quase todos para adquirir ativos nos EUA, mais de 80% deles em títulos do tesouro e de agências muito seguros".
A fartura efêmera
Muitos economistas contestaram a hipótese de Bernanke. No blog financeiro Naked Capitalism (Capitalismo Nu), Yves Smith disse que a fartura da poupança mundial é mito, observando que a poupança internacional permaneceu bastante estável desde meados dos anos 1980. O economista americano John B. Taylor declara que, embora houvesse um aumento na poupança fora dos EUA, sua queda no país indicava que não havia hiato entre poupança e investimento, e portanto era falsa a ideia de uma inundação mundial de dinheiro barato.
Outros economistas assinalam que os déficits em conta corrente dos EUA e de outros países somavam bem menos de 2% do fluxo de dinheiro e só poderiam ter um efeito ínfimo. Também ficou difícil sustentar a hipótese da fartura da poupança ao aplicá-la à Europa. A Alemanha, por exemplo, nos anos anteriores à crise de 2008, era rica em poupança. A teoria da fartura da poupança levava a concluir que os poupadores alemães teriam feito acordos financeiros especulativos na Irlanda e na Espanha, e não posto o dinheiro em instituições da Alemanha, o que pareceu muito improvável.
Uma "fartura bancária"?
Hyun Song Shin, professor de economia da Universidade de Princeton, disse que as inundações de capital especulativo em busca de títulos hipotecários vieram não de uma fartura de poupança, mas de um sistema bancário "sombra" — a complexa variedade de entidades financeiras que ficam fora do sistema bancário normal, inclusive fundos de hedge, money market e veículos estruturados de investimento. Os bancos sombras europeus e americanos estavam ávidos por encontrar esses títulos e os acharam na Irlanda e na Espanha, bem como nos EUA.
Os mercados de que participam esses bancos paralelos são dominados por derivativos, que são "instrumentos financeiros" — aposta em cima de aposta sobre qual direção os mercados tomarão, embasadas por fórmulas matemáticas sofisticadas. A acusação aqui é que os negócios com derivativos podem estimular o risco excessivo. Cria ainda um mercado em que as instituições financeiras têm lucros vultosos apostando em insolvências, como a dos títulos garantidos por hipotecas.
As reservas extras de uma fartura de poupança talvez sejam irrelevantes nesse cassino virtual. Aliás, aparentemente o problema foi que os bancos negociavam sem reserva de dinheiro suficiente. Bernanke salienta que, enquanto compradores chineses e do Oriente Médio investiam em títulos americanos com fundos de superávits comerciais e exportação de petróleo, os bancos europeus tiveram de pedir dinheiro emprestado para investir, ficando expostos quando a crise chegou.
Os economistas divergem sobre os desequilíbrios comerciais por trás da fartura de poupança. Alguns dizem que o déficit comercial dos EUA é sustentável e que sempre seria facilmente financiado pela poupança estrangeira. Outros preocupam-se com o pouso forçado da economia americana caso os fluxos de capital parem. Boa parte disso virou uma discussão política entre os EUA e a China, já que políticos americanos têm acusado os chineses de manter sua moeda deslealmente baixa, a fim de bancar seu superávit comercial.
Na maior parte do século XX, os economistas se perguntaram como o crescimento econômico afeta a renda das pessoas. O crescimento aumenta ou diminui a desigualdade de renda? Em 1994, o economista italiano Alberto Alesina e o economista turco Dani Rodrik viraram a pergunta do avesso: como a distribuição de renda afeta o crescimento econômico?
Alesina e Rodrik examinaram dois fatores em seu modelo: mão de obra e capital (riqueza acumulada). Para eles, o crescimento econômico é movido pelo crescimento do total de capital, mas os serviços do governo são financiados por imposto sobre o capital. Isso significa que, quanto mais altos os impostos sobre o capital acumulado, menor incentivo haverá para acumular capital, e menor será o índice de crescimento da economia.
Aqueles cuja renda provém sobretudo de capital acumulado preferem uma alíquota de imposto mais baixa. Por outro lado, a pessoa que não acumulou riqueza e cuja renda vem toda de seu trabalho tende a preferir uma alíquota de imposto maior, que lhe propiciará serviços públicos e melhor distribuição da riqueza acumulada. As alíquotas são fixadas pelos governos, em reação a preocupações do povo. Mesmo uma ditadura não pode ignorar o desejo do povo, por temer ser derrubada. Por isso se fixa a alíquota com o objetivo de agradar ao máximo possível de pessoas - ou seja, a alíquota preferida pelo eleitor médio (aquele bem no meio do espectro de opiniões dos eleitores). Segundo a lógica de Alesina e Rodrik, se a distribuição de capital e da riqueza acumulada é feita por igual na sociedade, o eleitor médio será relativamente rico de capital e portanto exigirá uma alíquota modesta, que não impedirá o crescimento. Se, porém, existem desigualdades de riqueza maiores, com muito do capital acumulado concentrado numa pequena elite, a maioria é pobre e exigirá uma alíquota mais alta, que sufocaria o crescimento. Alesina e Rodrik afirmam que, quanto maior a igualdade econômica em qualquer sociedade, maior a taxa de crescimento da economia.
Crescimento e igualdade
A explicação de Alesina e Rodrik não é tudo. Algumas pessoas acham que os dois economistas não identificaram direito causa e efeito. O economista espanhol Xavier Sala-i-Martin (1962-), por exemplo, diz que o crescimento econômico alimentou uma taxa reduzida de desigualdade de renda no mundo. O Banco Mundial declarara que a redução da pobreza no planeta — que pode ajudar a reduzir a desigualdade — deve-se mais ao crescimento econômico. Por outro lado, os países que se desenvolvem mais devagar, como muitos da África, sofreram décadas com pequeno ou nenhum avanço. Isso prejudicou os padrões de vida e impediu a redução da pobreza. Os mais pobres ficam para trás, e a desigualdade persiste.
Uma reforma serve para dar impulso à economia e beneficiar toda a população pela transformação das instituições. Pode-se achar que as reformas benéficas para a economia são bem recebidas e executadas. Porém, às vezes existe uma boa resistência à reforma, mesmo daqueles que se beneficiariam dela no final. A fim de "consertar" uma economia e fazê-la voltar a crescer, é necessário remover as ineficiências dentro do sistema econômico, o que pode ser difícil se o país é dirigido em benefício próprio por uma classe política irresponsável, como ocorre no mundo em desenvolvimento.
Reforma e influência
Os economistas turcos Dani Rodrik e Daron Acemoğlu destacaram que, quando grupos poderosos entendem que seus privilégios desaparecerão por causa de uma reforma econômica, eles podem usar sua influência para adotar políticas econômicas que redistribuam renda ou poder para si mesmos. Podem também distorcer as políticas, de modo que as medidas não sejam implantadas com eficiência. Acemoğlu disse que isso quase sempre ocorre quando as elites políticas são muito irresponsáveis, de modo que suas ações são pouco verificadas e avaliadas. As reformas costumam ter esses traços, porque tendem a não tratar dessas restrições políticas. Todavia, em países com dirigentes muito responsáveis, os benefícios das reformas já devem ter sido colhidos. Por esses motivos, as reformas são mais eficazes em "países intermediários", onde é provável que tenham resultados positivos significativos, e, ao mesmo tempo, a elite política não tenha poder suficiente para desbaratá-las.
Ganhadores e perdedores
Contudo, também existem problemas ao implantar uma reforma nas sociedades intermediárias. Quando se propõe a reforma econômica, quase sempre está claro quem serão os seus ganhadores e os perdedores. Isso desestimula as pessoas a aceitar as medidas, mesmo que no fim haja mais ganhadores que perdedores. Pode existir a tendência de manter o statu quo; as pessoas gostam de proteger o que já têm e de reduzir o risco de perdê-lo.
Se uma reforma econômica benéfica é proposta, mas engavetada por falta de apoio popular, os políticos e os economistas podem voltar a propô-la no futuro, acreditando que ela fará bem à economia e à sociedade. No entanto, sem informação nova de apoio, a sociedade pode voltar a rejeitá-la. Por outro lado, se uma reforma benéfica é implantada sem apoio popular e gera mais ganhadores que perdedores, acaba conquistando a simpatia do povo e não é rejeitada.
A maioria das tentativas de reforma centra-se em medidas concebidas para mudar instituições "formais", como tribunais e sistemas eleitorais. Seu sucesso depende de as instituições "informais" subjacentes e a política circundante a apoiarem. Sem isso, reformas de leis e constituições não costumam mudar muita coisa.
Os movimentos do mercado imobiliário são um espelho dos ciclos de alta e baixa da economia como um todo — períodos em que a produção real da economia atinge o nível mais alto e mais baixo do ciclo econômico, que se desloca por períodos de contração e expansão, em geral a intervalos de três a sete anos.
Há várias razões para o investimento habitacional ser alto nos períodos de crescimento econômico. Existem mais empregos, e uma economia em alta leva muita gente a pensar em ter uma casa própria. Ao mesmo tempo, os credores começam a relaxar as exigências para o empréstimo, facilitando a compra, e mais moradias são vendidas. Quando isso acontece, a procura em alta faz subir os preços das moradias. Os que vendem são capazes de liquidar grandes hipotecas. Os construtores continuam investindo em maiores estoques de moradias para lucrar com os altos preços.
Os preços de imóveis em geral são resistentes, ou seja, não mudam rápido em razão de fatores que poderiam influenciá-los. Esse é um dos motivos por que os imóveis são tidos como investimento tão bom, e, em vez de os preços se ajustarem para baixo, eles ficam estáveis, mesmo que o volume de vendas caia.
Indício de recessão
Embora os preços de imóveis sejam geralmente resistentes, eles podem estagnar; a redução no investimento residencial é quase sempre o primeiro indício de que uma recessão está a caminho. Em países mais desenvolvidos, o mercado imobiliário começou a cair antes de cada grande recessão nos últimos cinquenta anos. O mercado habitacional só se recupera quando os consumidores confiam que o valor de sua casa vai aumentar. Essa confiança aumenta com a melhora da economia. Quando a venda de moradias retorna ao nível normal, o investimento habitacional cresce, abrindo vagas de emprego e ajudando a economia a crescer.
Os economistas analisam a relação entre o mercado imobiliário e a economia em geral e acreditam que, ao estudar os investimentos em moradias, podem prever com precisão recessões e recuperações. Em seu livro de 2006 Housing prices and the macroeconomy, os economistas britânicos Charles Goodheart e Boris Hofmann mostraram que existe uma correlação entre o desempenho econômico e aqueles preços. Dizem que, seguindo as políticas adequadas, seria possível reduzir bastante ou até evitar os piores efeitos de uma recessão.
Infelizmente isso não ocorreu na "bolha" imobiliária que estourou nos EUA em 2008. Aí, as rápidas inovações financeiras criaram instabilidade no financiamento de hipotecas, criando uma confiança excessiva no consumidor e uma alta insustentável. O mercado imobiliário foi a causa do estouro.
Ações Unidades de propriedade de uma empresa.
Balança comercial Diferença no valor de importações e exportações de um país em certo período.
Banco central Instituição que administra a moeda de um país, altera a oferta de moeda e determina as taxas de juros. Também pode servir de emprestador para bancos em última instância.
Bem Algo que satisfaz o desejo ou exigência do consumidor. Termo em geral referente a um produto ou matéria-prima.
Bem público Produtos ou serviços, como iluminação pública, não fornecidos por empresas privadas.
Capital Dinheiro e ativos físicos (como máquinas e infraestrutura) usados para gerar renda. Ingrediente essencial da atividade econômica, assim como terra, mão de obra e empresa.
Capitalismo Sistema econômico em que os meios de produção são propriedade privada, as empresas concorrem para vender produtos com lucro e os trabalhadores trocam seu trabalho por um salário.
Cartel Grupo de empresas que concordam em cooperar de tal modo que a produção de determinado bem seja limitada, e os preços, elevados.
Ciclo econômico Flutuação no crescimento de toda a economia caracterizado por períodos de expansão (alta) e retração (baixa).
Commodity (mercadoria) Termo genérico usado com relação a qualquer produto ou serviço que possa ser comercializado. É em geral empregado em referência a matérias-primas que sempre têm aproximadamente a mesma qualidade e podem ser compradas em quantidade.
Comunismo Sistema econômico marxista em que imóveis e meios de produção são propriedade coletiva.
Concorrência Há concorrência quando dois ou mais produtores tentam conquistar um comprador oferecendo as melhores condições.
Concorrência perfeita Situação idealizada em que compradores e vendedores detêm informação plena e existem tantas empresas produzindo o mesmo bem que um vendedor sozinho não consegue influir no preço.
Conluio Acordo de não concorrência entre duas ou mais empresas, a fim de determinar preços.
Consumo Valor de bens ou serviços comprados. As compras individuais são somadas pelo governo para calcular o total do consumo nacional.
Crise de crédito Redução súbita na disponibilidade de crédito no sistema bancário. A crise de crédito costuma ocorrer após um período de grande oferta de crédito.
Curva de oferta Gráfico que mostra a quantidade de um produto ou serviço que os vendedores produzem por preços diferentes.
Curva de procura ou demanda Curva em gráfico que mostra a quantidade de um produto ou serviço comprada por preços diferentes.
Curva de Phillips Gráfico que ilustra a suposta relação inversa entre a inflação e o desemprego.
Custo marginal Aumento nos custos totais causado pela produção de uma unidade a mais.
Déficit Um desequilíbrio. Déficit comercial é excesso de importações ante as exportações; déficit público é excesso de gastos em relação à receita tributária.
Deflação Queda no preço dos produtos e serviços num determinado período. A deflação está associada a períodos de estagnação econômica.
Depreciação Redução do valor de um ativo num período, causado por uso, desgaste ou obsolescência.
Depressão Declínio grave e duradouro da atividade econômica em que cai a produção, cresce o desemprego e o crédito é escasso.
Dívida Promessa feita por uma parte (devedor) a outra (credor) de que pagará o empréstimo.
Duopólio Controle do mercado feito por duas empresas.
Economia Sistema total da atividade econômica em certo país ou área, abarcando toda a produção, a mão de obra, o comércio e o consumo que ali ocorrem.
Economia clássica Enfoque inicial da economia concebido por Adam Smith e David Ricardo, centrado no crescimento das nações e no livre mercado.
Economia comportamental Ramo da economia que estuda os efeitos de fatores psicológicos e sociais nas decisões.
Economia de livre mercado Economia em que as decisões sobre a produção são tomadas por pessoas e empresas privadas com base na oferta e na procura, e os preços são determinados pelo mercado.
Economia mista Economia em que parte dos meios de produção pertence ao Estado, e parte é iniciativa privada, misturando aspectos da economia planejada e da economia de mercado. Em sentido estrito, praticamente todas as economias são mistas, mas o resultado varia bastante.
Economia neoclássica Enfoque dominante na economia atual. Baseia-se na oferta e na procura e em indivíduos racionais, e é em geral expressa matematicamente.
Economia planejada Veja Economia planificada.
Economia planificada Economia em que todas as atividades são controladas por uma autoridade central, como o Estado. Também chamada economia planejada.
Economia social de mercado Modelo econômico elaborado na Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra Mundial, caracterizado por economia mista, em que o setor privado é estimulado, mas o governo intervém na economia para garantir justiça social.
Elasticidade Sensibilidade de determinada variável econômica (como a procura) em relação a outra (como o preço). Os preços dos bens podem ser elásticos ou inelásticos.
Empreendedor Pessoa que assume risco comercial na esperança de ter lucro.
Equilíbrio Estado de igualdade num sistema. Em economia, os mercados estão em equilíbrio quando a oferta se iguala à procura.
Escola Austríaca Escola de economia fundada por Carl Menger no final do século XIX. Atribui às atividades econômicas às ações e à livre escolha das pessoas e se opõe a qualquer intervenção do governo na economia.
Escola de Chicago Grupo de economistas ligado à Universidade de Chicago, EUA, que defende com avidez o livre mercado e cujos ideais de desregulamentação e liberalização do mercado predominaram nos anos 1980.
Estagflação Período de inflação e desemprego altos e crescimento baixo.
Eurozona Região de países da União Europeia que optaram pela unidade monetária. Todos usam a mesma moeda, o euro, e a política monetária é ditada pelo Banco Central Europeu.
Externalidades Custo ou benefício de uma atividade econômica que é sentido por alguém não ligado diretamente a tal atividade e não se reflete no preço.
Falência Declaração legal de que um indivíduo ou empresa não consegue pagar suas dívidas.
Falha de mercado Situação na qual o mercado não tem resultados ideais do ponto de vista social. A falha de mercado pode se dever à falta de concorrência (como um monopólio), informação incompleta, custos e benefícios não computados (externalidades) ou falta de pessoal para o lucro (como os bens públicos).
Fatores de produção Insumos usados para fazer bens ou serviços: terra, mão de obra, capital e empresa.
Flexibilização quantitativa Injeção de dinheiro novo na economia pelo banco central.
Fundo Monetário Internacional (FMI) Organização internacional fundada em 1944 para supervisionar o sistema de câmbio após a guerra e mais adiante fornecedora de dinheiro para países pobres.
Globalização Livre trânsito de dinheiro, produtos e pessoas pelas fronteiras internacionais. Maior interdependência econômica entre os países por meio da integração de produtos, mão de obra e mercados de capitais.
Grande Depressão Período de recessão econômica internacional de 1929 a meados dos anos 1930. Começou nos EUA com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York.
Hiperinflação Índice de inflação muito alto.
Imposto Cobrança feita pelo governo a empresas e indivíduos. Seu pagamento é obrigatório por lei.
Inadimplência ou insolvência Incapacidade de pagar um empréstimo nos termos acordados.
Inflação Situação em que os preços de bens e serviços numa economia mantêm tendência de alta.
Informação assimétrica Desigualdade de informação. Por exemplo, compradores e vendedores têm mais ou menos informação sobre um produto do que outros.
Investimento Injeção de capital a fim de aumentar a produção futura, como uma nova máquina ou treinamento da força de trabalho.
Keynesianismo Escola de pensamento econômico baseada nas ideias de John Maynard Keynes, em defesa dos gastos públicos para tirar a economia da recessão.
Laissez-faire Termo francês que significa "deixe fazer", usado em referência a um mercado sem intervenção governamental.
Liberalismo econômico Ideologia segundo a qual o bem é maior quando as pessoas recebem liberdade individual máxima para fazer escolhas de consumo. O liberalismo econômico defende a economia de livre mercado.
Liquidez Facilidade com que um ativo pode ser usado para comprar algo, sem que isso cause redução em seu valor. Dinheiro é o ativo mais líquido, pois pode ser usado de imediato para comprar produtos ou serviços, sem prejuízo do seu valor.
Livre comércio Importação e exportação de bens e serviços sem imposição de tarifas ou cotas.
Macroeconomia Estudo da economia como um todo, com a análise de fatores que a atingem, como taxas de juros, inflação, crescimento e desemprego.
Macroeconomia neoclássica Escola de pensamento dentro da macroeconomia que usa modelos de análise baseados inteiramente no contexto neoclássico.
Mão invisível Ideia de Adam Smith de que os indivíduos buscam seus interesses no mercado, beneficiando inevitavelmente toda a sociedade, como se houvesse uma "mão invisível" a guiá-los.
Mercado altista Período em que o valor de ações e outros títulos sobe.
Mercado baixista Período de declínio no valor de ações ou outros títulos.
Mercantilismo Doutrina que predominou na Europa Ocidental do século XVI ao XVIII. Ressaltava a importância do controle do governo sobre o comércio exterior para manter positiva a balança comercial.
Microeconomia Estudo do comportamento econômico de indivíduos e empresas.
Moeda fiduciária Forma de moeda que não tem lastro de produto físico como o ouro, mas tem valor derivado da confiança das pessoas nela. As principais moedas do mundo são fiduciárias.
Monetarismo Escola de pensamento econômico que crê que o papel fundamental do governo é controlar a oferta de moeda. É associado ao economista americano Milton Friedman e a governos conservadores dos anos 1970 e 80.
Monopólio Mercado em que existe apenas uma empresa. Em geral, um monopolista tem produção baixa, que ele então vende por preço alto.
Multiplicador keynesiano Teoria de que o aumento nos gastos do governo na economia produz um aumento ainda maior na renda.
Obrigação Forma de empréstimo a juro para levantar capital. Obrigações são certificados de um emissor (governo ou empresa) em troca de quantia em dinheiro. O emissor concorda em pagar a quantia com juros em data futura determinada.
Oferta Quantidade de um produto disponível para compra.
Oligopólio Setor com pequeno número de empresas. No oligopólio existe o risco de as empresas formarem cartel para fixar os preços.
Orçamento Plano financeiro que lista despesas e receitas previstas.
Ótimo de Pareto Condição em que não se pode alterar a alocação de bens para melhorar a situação de alguém sem piorar a de outra pessoa. Leva o nome de Vilfredo Pareto.
Padrão-ouro Sistema monetário em que uma moeda tem lastro em reserva de ouro e em tese pode ser trocada a pedido por certa quantidade de ouro. Nenhum país usa o padrão-ouro atualmente.
Permuta Sistema em que produtos ou serviços são trocados diretamente, sem usar um intermediário, como o dinheiro.
PIB Veja Produto interno bruto.
Planejamento central Sistema de controle centralizado de uma economia pelo governo, no qual as decisões referentes à produção e distribuição de bens são tomadas por comissões governamentais.
PNB Veja Produto nacional bruto.
Política fiscal Diretrizes do governo sobre impostos e gastos.
Política monetária Diretrizes do governo que visam mudar a oferta de moeda ou as taxas de juro, a fim de estimular ou refrear a economia.
Preço Quantia que se paga em dinheiro ou bens a um vendedor em troca de bens ou serviços.
Procura ou demanda Quantidade de bens e serviços que uma pessoa ou um grupo de pessoas deseja e pode comprar.
Produto interno bruto (PIB) Medida da renda nacional em um ano. O PIB é calculado pela soma da produção total anual do país e costuma ser usado para medir sua atividade econômica e sua riqueza.
Produto nacional bruto (PNB) Valor total dos bens e serviços produzidos em um ano por empresas nacionais, operem elas no país ou no exterior.
Protecionismo Política econômica que visa limitar o comércio internacional, pela qual um país impõe tarifas ou cotas às importações.
Recessão Período em que cai a produção total da economia.
Relação inversa Situação em que uma variável diminui, enquanto a outra aumenta.
Rendimentos marginais decrescentes Situação em que cada unidade adicional de algo propicia cada vez menos benefício.
Restrição orçamentária Limite de produtos e serviços que uma pessoa ou entidade consegue pagar.
Salários rígidos Salários que demoram a se alterar em relação às condições do mercado.
Sistema de Bretton Woods Sistema de taxas de câmbio criado pelos países mais industrializados em 1945. Atrelava o valor do dólar dos EUA ao ouro e o de outras moedas ao dólar.
Superávit Um desequilíbrio. Superávit comercial é uma exportação excessiva diante da importação; superávit orçamentário é um excesso de receita de impostos perante os gastos públicos.
Tarifa Imposto sobre importação, em geral para proteger produtores do país da concorrência estrangeira.
Taxa de câmbio Relação de troca de uma moeda por outra. A taxa de câmbio é o preço de uma moeda em relação ao das outras.
Taxa de juro Preço do empréstimo de dinheiro. A taxa de juro de um empréstimo costuma ser um percentual da quantia anual que deve ser devolvida somada ao montante emprestado.
Teoria da dependência A ideia de que recursos e riquezas passam dos países pobres para os ricos de tal modo que os pobres são incapazes de se desenvolver.
Teoria do caos Ramo da matemática que mostra que ínfimas mudanças nas condições iniciais podem causar efeitos significativos.
Teoria dos jogos Estudo das decisões estratégicas de indivíduos ou empresas em interação.
Total agregado Quantidade total. Por exemplo, a demanda agregada é a demanda total de bens e serviços na economia.
Utilidade Unidade usada para medir a satisfação ou felicidade obtidas com o consumo de produto ou serviço.
Utilidade marginal Mudança na utilidade (ou satisfação) total, que resulta do consumo de uma unidade a mais de um produto ou serviço.
Utilitarismo Filosofia segundo a qual as escolhas são feitas para aumentar a felicidade do maior número de pessoas.
Valor nominal Valor monetário de algo, expresso na moeda do dia. Os preços ou salários nominais mudam conforme a inflação e, portanto, não podem ser comparados em períodos diferentes (um salário de $50 não compraria o mesmo em 1980 e 2000).
Valor real Valor de algo medido segundo a quantidade de bens ou serviços que se podem comprar.
Vantagem absoluta Capacidade de um país de produzir com mais eficiência que outro.
Vantagem comparativa A capacidade de um país de fazer um produto com eficiência relativa maior que a de outro país, mesmo que este seja mais eficiente no todo.