O Arquipélago Gulag
Aleksandr Soljenítsin
Traduzido do russo por: António Pescada
Prefácio: Natália Soljenítsina
1.a edição em papel: março de 2017
Aleksandr Soljenítsin 1918-2008 combateu na Segunda Guerra Mundial e esteve preso e internado em campos de trabalho forçado de 1945 a 1953, após críticas privadas a Estaline. Ilibado na sequência da «abertura» criada pelo famoso discurso de Krutchev denunciando os crimes estalinistas, foi professor e iniciou o seu percurso de escritor nos anos 50. Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, classificado por Aleksandr Tvardovski, seu editor na revista Novy Mir, em 1962, como um «clássico», teve a sua publicação expressamente autorizada por Krutchev e foi estudado nas escolas. Mas a vida de escritor de Soljenítsin viria a ser atribulada e reprimida na sequência da recusa pela União dos Escritores da publicação de Pavilhão de cancerosos e da atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1970. Foi expulso da União Soviética em 1974, vivendo na Suíça, em França e nos Estados Unidos até à queda do Muro de Berlim, após o que regressou a Moscovo, em 1994, sendo recebido triunfalmente. As suas obras marcaram indelevelmente a literatura russa do século XX, inserindo-se na grande tradição narrativa de nomes como Tchekov, Tolstoi e Dostoievski.
Natália Soljenítsina
No Outono de 1961 apareceu na revista Novi Mir um estranho manuscrito: folhas impressas nas duas faces, sem margens, sem entrelinhas, intitulado «Sch-854», e sem indicação do autor. Anna Berzer, redatora do departamento de prosa, percebeu de imediato o valor da surpreendente novidade e passou-a ao diretor, Aleksandr Trifónovitch Tvardovski, com as palavras: «Um campo de trabalhos visto pelos olhos de um mujique, uma coisa muito popular.» «Estas poucas palavras eram o melhor meio para tocar o coração de Tvardovski — diria mais tarde Soljenítsin. Nem o mujique superior Aleksandr Tvardovski, nem o supremo mujique Nikita Khruschov, podem ficar indiferentes a esse mujique Ivan Deníssovitch… Como Aleksandr Tvardovski contava depois, à noite deitou-se na cama e pegou no manuscrito. Mas ao fim de duas ou três páginas decidiu que aquilo não era coisa para ler deitado. Levantou-se, vestiu-se. Em casa toda a gente estava a dormir, e ele passou a noite a ler o relato, intervalando com o chá na cozinha — leu uma vez, leu segunda vez. Assim se passou a noite, chegaram as horas a que os camponeses chamam da manhã, e Tvardovski já não se deitou. Telefonou e mandou investigar quem era o autor e onde estava. O que em especial lhe agradava era que aquilo não fosse nenhuma mistificação de um qualquer escritor conhecido, que o autor não fosse um literato, nem moscovita.»
A partir dessa noite, Tvardovski impôs a si mesmo um objetivo aparentemente inalcançável: publicar na revista o relato sobre um dia na vida de Ivan Deníssovitch. «Publicar! Publicar! Não havia outro objetivo. Vencer todos os obstáculos, chegar até às mais altas esferas do poder… Demonstrar, convencer, encostar as pessoas à parede. Diz-se que mataram a literatura russa. Uma ova! Aqui está ela, nesta pasta amarrada com cordões. Mas o autor? Quem é ele? Nunca ninguém o viu.»
«Ele» era afinal um professor secundário. Nos últimos cinco anos ensinara física e astronomia numa escola de Riazan. E antes? Ensinara matemática numa escola rural perto de Vladímir. E antes disso? Estivera desterrado, no Cazaquistão. (Em desterro «perpétuo», para mais — mas em 1956 o degelo khruschoviano descongelou esse «eterno congelamento».) Mas vamos por ordem.
Aleksandr Issáevitch Soljenítsin nasceu em 1918 em Kisslovodsk. Os pais (ambos de origem camponesa, os primeiros na sua família a obterem instrução) casaram-se em agosto de 1917 na frente da guerra, em que o pai serviu como alferes granadeiro na brigada de artilharia. Tendo abandonado a universidade de Moscovo em 1914 para se alistar como voluntário na guerra contra a Alemanha, em que combateu durante três anos e meio, regressando ao Kuban no início de 1918 — o pai morreu num acidente de caça seis meses antes do nascimento do filho, que a mãe educou sozinha. Levavam uma vida de miséria em casebres frios e decrépitos, aqueciam-se com carvão e tinham de acartar a água de longe, em baldes. Sânia lia muito e, «estranhamente, desde os oito ou nove anos pensava, por qualquer razão, que havia de ser escritor, sem ter ainda qualquer noção do que isso poderia ser». Soljenítsin passou a infância e a juventude em Rostov, onde terminou a escola secundária e depois a faculdade de física e matemática da universidade de Rostov, enquanto seguia um curso por correspondência da faculdade de Literatura do Instituto de História, Filosofia e Literatura (MIFLI). A guerra encontrou-o em Moscovo durante os exames de Verão.
Tendo começado a guerra como soldado raso, frequentou o curso acelerado de artilharia e a partir de dezembro de 1942 passou a comandar uma bateria de deteção acústica, com o posto de tenente. Combateu na frente Noroeste e depois na frente de Briansk. Depois da batalha de Oriol foi condecorado com a ordem da Guerra Patriótica de 2.a classe, e depois da tomada de Rogatchov, na Bielorrússia, recebeu a ordem da Estrela Vermelha. Ao comando da sua bateria, esteve ininterruptamente na frente até fevereiro de 1945, quando, já na Prússia oriental, com o posto de capitão, foi preso devido a uma correspondência, intercetada pela censura, com um amigo da escola. Nas suas cartas, os jovens oficiais chamavam a Estaline Cabecilha — por ter «traído a revolução», pela perfídia e pela crueldade. O castigo era inevitável. Ele tinha 26 anos. Apanhou oito anos de campo de trabalhos e «desterro perpétuo» depois de cumprida a pena de oito anos.
Durante a prisão, Soljenítsin, marcado pelas impressões da juventude antes da guerra, pelas cenas de guerra, pelos relatos dos seus companheiros de armas, pelas crueldades diárias das prisões e dos primeiros campos, começou a escrever, ou mais precisamente a compor na mente, sem papel. À pergunta: «Como se tornou escritor?» — Soljenítsin respondeu: «Profundamente, quando estava na prisão. Fiz algumas experiências literárias ainda antes da guerra, escrevia com persistência durante os anos de estudante. Mas não era um trabalho a sério, porque eu não tinha experiência de vida. Durante os anos de prisão comecei a trabalhar de modo conspirativo, ocultando o facto de escrever — era a coisa que eu mais escondia. A princípio memorizava os versos, e depois memorizava também a prosa.» Uma parte da sua pena foi cumprida na charachka*[1], onde os reclusos com alguma especialidade tratavam primeiro das ligações de rádio e depois também das telefónicas. Com esse material vivido foi escrito o romance O Primeiro Círculo.
Entre 1950 e 1953, Soljenítsin esteve no campo de trabalho correcional de Ekibastuz (no Cazaquistão), onde os presidiários eram despojados dos seus nomes e chamados pelos números, pregados no gorro, no peito, nas costas e no joelho. Ali trabalhou na brigada dos pedreiros, e depois na fundição. É esse o campo que ele descreve em Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch. O escritor recordava: «… nesse longo dia de Inverno no campo, carregava a padiola com um companheiro e pensei: como descrever toda a nossa vida no campo de trabalho? No fundo, basta descrever apenas um dia em pormenor… um dia do mais humilde dos trabalhadores, e nisso se reflete toda a nossa vida. E nem é preciso acrescentar quaisquer horrores, retratar algum dia especial. Basta que seja um dos dias mais vulgares, que compõem os anos. Raciocinava assim, e este projeto ficou-me na mente, mas durante nove anos não lhe toquei.»
Um ano antes de acabar de cumprir a pena, foi detetado em Soljenítsin um tumor canceroso. Operaram-no no hospital do campo, mas o cancro teve tempo para desenvolver metástases. Enviado para a aldeia de Kok-Terek, na região de Djambul, leciona matemática, física e astronomia numa escola secundária, e escreve. Mas as metástases crescem, as dores atormentam-no sem parar e Soljenítsin, tendo obtido a custo autorização do comando, parte para uma clínica oncológica de Tachkent, «já quase morto». A despeito dos prognósticos desesperados, as fortes doses de terapia de raios X restituem-no à vida. O tratamento durou vários meses. (Mais tarde, essa experiência da morte e da cura alimenta o romance Pavilhão dos Cancerosos.) Miraculosamente restabelecido, Soljenítsin considerava isso como um «adiamento» concedido pelo Altíssimo.
E só em maio de 1959, já em Riazan, se sentou a escrever o relato imaginado. Escreveu-o e escondeu-o. E só se arriscou a propô-lo para publicação mais de dois anos depois, a seguir ao estrondoso ataque de Khruschov ao «culto da personalidade» de Estaline, no XX Congresso. E agora Tvardovski, que tinha iniciado a batalha por Ivan Deníssovitch, começou a reunir recensões dos escritores mais prestigiosos para transmitir ao Olimpo do poder. Kornei Tchukovski intitulou o seu parecer «Um milagre literário»: «Chukhov é o típico russo simples: estoico, “resistente aos males”, tenaz, faz-tudo, astuto e bondoso…Com esta narrativa é um escritor poderoso, original e já maduro que faz a sua entrada na literatura… Até me horroriza pensar que um relato tão maravilhoso possa ficar no fundo de uma gaveta.» Samuil Marchak, à margem da sua recensão oficial, declarou: «Pela sua simplicidade e a sua coragem [o autor] descende talvez do arcipreste Avvakum… Nas obras dele era o povo que falava em seu próprio nome…» Depois de ler o manuscrito, Anna Akhmátova salientou: « Cada cidadão, de todos os duzentos milhões de cidadãos da União Soviética, tem a obrigação de ler e decorar esta história.»
E um ano depois de o «datiloscrito cavernoso» ter chegado à revista, coroando onze meses de esforços, de manobras, desesperos e esperanças de Tvardovski, a história foi publicada no número de novembro da Novi Mir, com uma tiragem de mais de cem mil exemplares. Era um prodígio. «A publicação da minha novela na União Soviética em 1962 — dizia Soljenítsin vinte anos mais tarde — era como se, contra as leis da física, por exemplo, os objetos começassem a erguer-se do chão por si mesmos ou as pedras frias começassem a aquecer até se incendiarem.»
Durante esse mês de novembro o telefone da Novi Mir não parava de tocar: as pessoas agradeciam, choravam, procuravam o autor. Nas bibliotecas inscreviam-se nas listas de espera, nas ruas de Moscovo os moscovitas assediavam os quiosques — a memória desses acontecimentos permanecia viva mais de trinta anos depois, como recorda o académico Serguei Averintsev: «Com a inesquecível publicação desse número onze da revista Novi Mir, a vida das nossas gerações desanimadas desde a infância adquiriu pela primeira vez alguma cor: acorda, olha aqui, a história ainda não acabou! Valia a pena caminhar pelas ruas de Moscovo… e ver junto de cada quiosque de jornais os nossos compatriotas a pedirem, todos a uma voz, a revista entretanto já esgotada! Nunca hei de esquecer… um homem que não conseguia lembrar-se do nome Novi Mir e pedia à empregada do quiosque: “Bem, aquilo, aquilo, onde vem escrita toda a verdade!” E ela compreendia o que ele queria dizer; era preciso ver aquilo… Não se trata aqui da história da literatura, mas da história da Rússia.» Nesse mesmo mês de novembro, Varlam Chalamov escreveu a Soljenítsin: «Estive duas noites sem dormir, a ler e reler a novela, a recordar… Esta novela é como um poema, tudo nela é perfeito, tudo tem um sentido. Cada linha, cada cena, cada caracterização tão lacónica, inteligente, subtil e profunda, que eu penso que a Novi Mir em toda a sua existência não publicou nada tão completo, tão forte.»
No entanto, o «degelo» khruschoviano depressa acabou, e logo na segunda metade dos anos 1960 Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch foi retirado das bibliotecas por uma diretiva secreta, e em janeiro de 1974 um decreto da Direção Geral de proteção dos segredos de Estado na imprensa lançou a proibição de todas as obras de Soljenítsin publicadas na URSS. Mas por essa altura a novela já tinha sido lida por milhões dos nossos cidadãos, traduzida e editada em dezenas de línguas europeias e asiáticas.
Mas o mais importante é que a publicação de Ivan Deníssovitch parecia ter quebrado um dique: «Chegavam-me cartas às centenas — dizia Soljenítsin, aturdido —, traziam-me novos maços delas da Novi Mir, e todos os dias o correio de Riazan me trazia outras, dirigidas simplesmente a “Riazan”, sem endereço… A explosão de cartas vindas de toda a Rússia era demasiado ar para qualquer pulmão, e que elevado panorama da vida dos presidiários, nunca dantes alcançado — afluíam para mim biografias, casos, acontecimentos»… Não é pois de surpreender que a necessidade de escrever o Arquipélago se lhe tenha imposto como um dever moral.
Assim se tornou Soljenítsin o cronista acreditado da desgraça do povo.
* * *
No entanto, não era fácil encontrar o modo de elaborar o material imenso, desorganizado, que inesperadamente chegava. Era preciso aceitar tudo o que se tinha conservado e encontrar o lugar para cada episódio: «No campo acontecia-me ter que partir ferro fundido, grandes objetos de ferro fundido em pedaços mais pequenos, que eram lançados num forno… e obtinha-se ferro para outros usos completamente diferentes. Assim chamo eu por graça aos meus materiais, bocados de ferro fundido de muito alta qualidade. Lanço-os na refundição e eles surgem sob nova forma.»
Mas que forma dar a esse ferro refundido? Soljenítsin era um convicto adversário da invenção de novas formas apenas pela novidade; considerava que, apurando bem o ouvido, o próprio material nos dita a forma, a densidade e a trama da obra. Assim foi também desta vez: «Nunca pensei na forma da investigação literária, foi o material do Arquipélago que ma ditou. Uma investigação literária é a utilização do material factual, vivo (não transformado), para que dos factos isolados, dos fragmentos, reunidos, no entanto, segundo as capacidades literárias do autor, se extraia com toda a evidência uma ideia geral, que de modo nenhum seja inferior a uma investigação científica.
Mas era impossível dispor tranquilamente, de maneira livre, deste material explosivo. Era preciso esconder até o próprio facto de que estava a trabalhar em semelhante livro. O escritor nunca conservou, nem juntou numa mesma mesa todos os materiais recolhidos. O essencial do Arquipélago escreveu-o num lugar secreto, o Esconderijo, como lhe chamava. Trabalhou ali dois invernos seguidos — 1965-1966 e 1966-1967. Mas só um quarto de século depois, em 1991, pôde indicar — sem perigo para os seus amigos fiéis — o lugar do seu Esconderijo e contar como decorria o trabalho. Era numa quinta nas proximidades de Tartu, na Estónia, que estava desabitada no inverno; a casa tinha janelas grandes, fogões antigos, uma reserva de lenha. «Cheguei à querida Tartu numa manhã de neve e de geada, que dava um enfeite especial ao seu ambiente de velha cidade universitária — completamente estrangeira, europeia… e pela primeira vez na vida tive uma sensação de segurança, como se tivesse escapado completamente ao maldito cerco do GB. Essa sensação tranquilizadora facilitou o início do meu trabalho.»
No primeiro inverno o escritor permaneceu no Esconderijo 65 dias, no segundo 81. Durante esse tempo, centenas de notas esparsas transformaram-se num texto ardente, num livro de mais de mil páginas dactilografadas. «Nunca na minha vida trabalhei como durante esses 146 dias no Esconderijo; era até como se não fosse eu, era arrastado, a minha mão escrevia e eu era apenas uma mola preparada, comprimida durante meio século e agora solta… No segundo inverno apanhei uma forte constipação, andava curvado e a tremer, e lá fora estava um frio de trinta graus negativos. No entanto cortava lenha, aquecia o fogão, fazia uma parte do trabalho em pé, com as costas apoiadas à parede escaldante do fogão, em vez dos sinapismos; outra parte fazia-a deitado debaixo dos cobertores e assim escrevi, com uma febre de 38°, o único capítulo humorístico («Os zeks como nação»). Não tinha qualquer ligação com o mundo exterior… mas tudo aquilo que existia no mundo exterior não me podia interessar: liguei-me ao meu material secreto, e o meu objetivo único e final era que dessa ligação nascesse o Arquipélago… Essas semanas foram o auge da minha vitória e da minha renúncia.»
Passou-se mais um ano a escrever, a completar, a corrigir o Arquipélago, e finalmente em maio de 1968, numa pequena datcha dos arredores de Moscovo — por enquanto não havia vizinhos, ninguém ouvia o ruído das máquinas de escrever — reuniram-se o escritor com as suas assistentes, três pares de mãos para dactilografar e verificar o texto definitivo. «Do alvorecer até ao crepúsculo corrige-se e dactilografa-se o Arquipélago, e todos os dias há uma máquina que se avaria, e eu próprio a arranjo, ou a levo a consertar — recordava Soljenítsin. — O mais horrível era que tínhamos connosco o único original — todas as versões dactilografadas do Arquipélago. Se o GB fizesse de repente uma investida, todo o lamento, o murmúrio de agonia de milhões, todos os testamentos não proferidos dos mortos lhe cairiam nas mãos e eu já não conseguiria reconstituir tudo isso… Conseguiram transpor tantos decénios, seria possível que Deus os abandonasse agora? Será completamente impossível a justiça na terra russa?»
Mas já o Arquipélago está terminado, microfilmado, a película enrolada, de modo que será mais fácil guardá-lo e em devido tempo enviá-lo para um lugar seguro e inacessível. E nesse mesmo dia chega a notícia: há uma possibilidade, nos próximos dias, de enviar o Arquipélago! — «Apenas nos descontraímos um pouco, porque o trabalho estava acabado, e já o sino tocava a rebate, a rebate! — nesse mesmo dia e quase à mesma hora! Não há planeamento humano capaz de acertar desta maneira! Toca o sino! Toca o sino do destino e dos acontecimentos — ensurdecedor! — e não há ainda quem o ouça, na floresta tenra e verde de junho.»
Sacha Andréiev, um russo de Paris, neto do escritor Leonid Andréiev, veio a Moscovo por uma semana com um grupo da UNESCO — alguns amigos de Soljenítsin conhecem bem toda a família. Pedir-lhe, ou não? E ele concordará? E se o revistarem na alfândega? É a perdição do livro, do autor e dele mesmo. Mas haverá outra oportunidade como esta? «Trata-se de gente com as mãos limpas, não interesseira, com um puro sentimento russo.» Seria tão bom respirar agora um pouco, descansar — mas não o permite o sentimento do dever para com as vítimas. Decidiram enviar. «Mal o coração acabava de sair de uma inquietação, e já outra o aflige. Não há descanso.» Passou-se uma semana sombria, inquieta, opressiva, até que chegou a notícia do sucesso. Soljenítsin estava feliz: «Que liberdade! Que leveza! Abraçar o mundo inteiro! Pois estarei eu agrilhoado? Serei um escritor amordaçado? O meu caminho está livre em todos os sentidos! Caiu tudo aquilo que me ameaçou durante anos, e abre-se o espaço para a principal obra da minha vida — A Roda Vermelha.»
* * *
Em outubro de 1970 — uma explosão na rádio, vinda de Estocolmo: foi atribuído a Soljenítsin o Prémio Nobel de literatura! «Pela força moral com que prosseguiu a eterna tradição da literatura russa.»
«O prémio caiu-me em cima da cabeça como uma neve alegre!» — disse Soljenítsin a recordar esse tempo. Mas, aparentemente, que alegria era essa? Havia cinco anos que o seu nome estava proibido, o arquivo pessoal apreendido e confiscado, não se publicava nem uma linha sua na URSS; depois de Ivan Deníssovitch tinham-lhe publicado apenas quatro contos, o romance, a novela, as peças de teatro e até os poemas em prosa tinham pela frente um muro intransponível, e só o Samizdat se alimentava deles com gratidão. Um ano antes, Soljenítsin tinha sido excluído da União de Escritores. Mas ele continua a escrever, termina Agosto de Catorze, primeiro «Elo» da sua epopeia sobre a revolução russa. Não vai a Estocolmo receber o prémio com receio de que não o deixem regressar.
Mas o sucesso está, pensa Soljenítsin, em que o prémio veio muito cedo: «Recebi-o quase sem ter mostrado ao mundo os meus escritos, apenas Ivan Deníssovitch, o Pavilhão e uma versão aligeirada do Círculo, e tudo o resto era mantido de reserva. Mas agora, desta altitude, podia fazer rolar os livros um atrás do outro, como bolas atraídas pela força da gravidade… A falta principal que me atormentava era o Arquipélago. A princípio, previa publicá-lo no Natal de 1971. Mas a data chegou, e passou… eu já tinha o Prémio Nobel e ia agora protelar? Para aqueles que nos campos haviam sido atirados das carroças, aos quatro de cada vez, para as valas comuns como madeiros congelados, as minhas razões não eram razões nenhumas. Pois não seria ainda tempo, em 1971, de falar do que acontecera em 1918, e em 1930, e em 1945? De compensar a sua morte ao menos com uma narrativa?…»
E no entanto o Arquipélago é apenas um herdeiro, um filho da Revolução. O que sobre ela se escreveu no nosso país é ainda mais deturpado, desviado, dissimulado, e as próximas gerações terão ainda mais dificuldade em entendê-la. Revelar o Arquipélago, é meter a cabeça no patíbulo, este livro não será perdoado ao autor, e os zeks que deram os seus testemunhos vão passar um mau bocado. Depois do Arquipélago já não deixarão escrever um romance sobre a revolução — portanto, o melhor é escrever o máximo possível antes.
«Na literatura de paz dos países em paz, o que leva o autor a determinar a ordem de publicação dos livros? A sua maturidade. A sua disposição. Mas no nosso país isso não é de modo nenhum tarefa do escritor, mas de uma estratégia tensa. Os livros são como divisões ou corpos de exército: ora devem escavar trincheiras e esconder-se na terra, sem disparar nem pôr a cabeça de fora; ora devem, às escuras e sem fazer barulho, atravessar as pontes; ora, ocultando os preparativos até ao mais pequeno pedaço de terra, surgir de repente num ataque combinado de um lado e num momento inesperados. E o autor, como principal cabo de guerra, ora faz avançar uns, ora desloca outros para ficarem à espera.»
Soljenítsin está mergulhado de cabeça no Outubro de Dezasseis, e reúne materiais para os seguintes nós, parte para a região de Tambov em busca dos rastos espezinhados da revolta de Antónov, e marca definitivamente a saída do Arquipélago para maio de 1975. Mas o destino decide de maneira diferente. Em agosto de 1973, depois de uma longa perseguição a um dos assistentes de Soljenítsin, numa sucessão de acontecimentos trágicos, o KGB descobre e confisca um exemplar preparatório dactilografado do Arquipélago. O escritor tem conhecimento disso por uma estranha conjunção de circunstâncias com que por vezes nos surpreendem as nossas cidades de milhões de habitantes — e logo, em 5 de setembro, envia para Paris a ordem: imprimir imediatamente! E que na primeira página surjam as palavras:
«De coração constrangido, abstive-me durante anos de imprimir este livro, que já estava pronto: o dever perante os que ainda vivem sobrepunha-se ao dever perante os mortos. Mas agora, quando os serviços de segurança do Estado se apoderaram deste livro, não me resta mais nada se não publicá-lo imediatamente.»
O livro foi composto e impresso em segredo pela editora da emigração IMKA-press — e em 28 de dezembro de 1973 a rádio e a imprensa mundial anunciam: saiu em Paris o primeiro tomo do Arquipélago Gulag. A princípio foi a completa estupefação e o silêncio, porque se estava no Ano Novo — mas a partir de meados de janeiro desencadeia-se a ruidosa perseguição nos jornais, todos os dias aumentando de um grau a «ira popular». Em resposta chegam ecos da Europa: «Um ponto de interrogação traçado a fogo sobre toda a experiência soviética desde 1918.» «Talvez um dia cheguemos a considerar a publicação do Arquipélago como o sinal do início da desagregação do sistema comunista.» «Soljenítsin apela ao arrependimento. Este livro pode tornar-se o mais importante livro do renascimento nacional, se no Kremlin o souberem ler.» E sobre a perseguição: «Contra insurretos armados pode-se enviar tanques, mas contra um livro?» «O fuzilamento, a Sibéria, o manicómio só confirmariam que Soljenítsin tem razão.» Os jornalistas ocidentais em Moscovo procuram chegar até ao escritor: «Como acha que as autoridades vão agir para consigo?» — Ele responde: «Não tenciono fazer qualquer prognóstico. Cumpri o meu dever para com os que morreram e isso dá-me alívio e tranquilidade. Esta verdade estava condenada ao aniquilamento total, exterminavam-na, afogavam-na, queimavam-na, desfaziam-na em pó. Mas aí está ela unida, viva, impressa — e isto já ninguém o poderá limpar nunca.» E anuncia que prescinde dos seus honorários pelo Arquipélago: «irão para a perpetuação da memória dos mortos e para ajuda às famílias dos presos políticos da União Soviética».
O poder procura febrilmente a maneira de se livrar de Soljenítsin. Não ousavam esmagá-lo diante dos olhos do mundo inteiro, que já lia o Arquipélago. Em 12 de fevereiro de 1974 detiveram-no, levaram-no para a prisão de Lefortovo, acusaram-no de «traição à pátria», e no dia seguinte emitem o Decreto de privação da cidadania, conduzem-no sob escolta ao aeroporto e expulsam-no do país.
* * *
Que livro é este, O Arquipélago Gulag? O que resultou da refundição dos pesados restos de ferro fundido?
«O Arquipélago surge do mar» — assim se intitula o capítulo sobre as lendárias Solovki, o primeiro campo soviético. Quais são pois os contornos do Arquipélago que surge à superfície?
Seguindo o autor, entramos numa embarcação, em que navegamos de ilha em ilha, ora forcejando por estreitas passagens, ora avançando por amplos canais retilíneos, sufocando nas ondas do alto mar. A força da sua arte é tal, que de espectadores externos depressa nos transformamos em participantes ativos da viagem: estremecemos ao ouvir o murmúrio: «Está preso!», mortificamo-nos na cela toda a primeira noite sem dormir, com o coração em sobressalto caminhamos para o primeiro interrogatório, debatemo-nos em vão nos tormentos do processo, máquina de moer carne, lançamos olhares para a câmara dos condenados à morte, ali ao lado, e depois da comédia do «julgamento», ou mesmo sem julgamento nenhum, atiram-nos para as ilhas do arquipélago. — Dias e dias seguidos viajamos no «vagão-zak», atormentados pela sede; nos campos de trânsito, somos roubados pelos criminosos; nos campos de trabalhos em Kolimá ou na Sibéria, esgotados pela fome, gelamos nos «trabalhos gerais». Se nos chegarem as forças, olhamos em redor e vemos à nossa volta — e ouvimos os relatos — camponeses e sacerdotes, antigos membros do partido e militares, bufos e «acomodados», presos de direito comum e «rapazitos», pessoas de todas as fés e de todos os povos da União Soviética. E vemos a direção do campo, e os guardas, «rapazes de pistola-metralhadora». E os campos de trabalhos forçados, as colunas de zeks com os números em tiras de pano e guardados por cães pastor prontos a quebrar as trelas. Talvez nós mesmos nunca ousássemos a fuga — mas com que paixão, e esperança, e desespero seguimos as fugas dos mais corajosos! E chega o tempo das revoltas — lemos sobre elas e sabemos que também estaríamos com todos eles «quando a terra ferve na zona». — E aqueles de nós que sobreviveram vão parar ao desterro, e esse desterro é por vezes mais duro do que o campo. Aqui ficamos a saber que milhões dos nossos concidadãos foram expulsos dos seus lugares de origem: a «peste dos mujiques» acabou com os melhores trabalhadores, os camponeses independentes com as suas famílias, em cada convulsão da luta interna no partido «limpavam» e desterravam centenas de milhares de citadinos inocentes, e durante e depois da Grande Guerra desterravam povos inteiros.
E ainda para além dessa tela gigantesca, por cima dessas centenas de destinos humanos, Soljenítsin expõe a história das nossas vagas repressivas, da «nossa canalização», e segue o caminho desde os decretos de Lenine até aos éditos de Estaline — e torna-se evidente com uma clareza brutal que não foi um encadeamento de «erros» e de «violações da legalidade» que criou a Arquipélago maldito, mas que este foi o inevitável produto do próprio Sistema, incapaz de conservar o poder sem essa ferocidade inumana.
No entanto, se O Arquipélago Gulag se limitasse a isso, teria o destino dos tratados de história: à medida que a época descrita vai ficando distante no passado, tornam-se, no melhor dos casos, fontes de informação sobre ela, a sua memória. Mas «é impossível encarar o Arquipélago como uma obra apenas de literatura, embora se trate de literatura, e de grande literatura… Trata-se de algo inteiramente único, sem paralelo (equivalente) na literatura russa nem na literatura ocidental» — escreveu um dos primeiros críticos. O que é isto então? Um estudo histórico? Memórias pessoais? Um tratado político? Uma reflexão filosófica? Não, «será antes uma mistura de todos esses géneros em que o todo é mais significativo do que as suas partes constitutivas».
Mais próximo do que todos está quem chamou ao Arquipélago um poema épico. Mas de que fala o poema?
«Que feche imediatamente o livro o leitor que espera encontrar nele um requisitório — escreveu Soljenítsin. — Se isso fosse assim tão simples! — que existissem em alguma parte pessoas de alma negra que por perversidade praticam ações más, e só é preciso distingui-las das restantes e eliminá-las. Mas a linha que separa o bem do mal atravessa o coração de todas as pessoas… Essa linha é móvel, oscila dentro de nós com o passar dos anos. Mesmo num coração dominado pelo mal, ela deixa sempre um pequeno espaço do bem. E mesmo no coração mais generoso há um inextirpável cantinho de mal».
Este livro fala da elevação do Espírito humano, do seu combate singular com o mal. Por isso, ao fechá-lo, o leitor, para além da mágoa e da raiva, sente um afluxo de força e de luz.
* * *
«O carácter extraordinário deste livro está também em que se tornou instantaneamente um bestseller internacional e é difundido em milhões de exemplares (nenhum outro escritor, clássico ou contemporâneo, atingiu até agora esses números), e isto sem ter sido publicado na pátria do autor» — escreveu-se no Ocidente.
O Arquipélago está já traduzido em dezenas de línguas, foi reeditado muitas vezes, debatido em centenas de artigos — mas na URSS, por tê-lo lido clandestinamente em cópias de má qualidade, quase ilegíveis, pode-se ir parar à prisão. E mesmo assim, alguns temerários continuam a reproduzi-lo, à máquina e em papel de fotografia, e um valente arranjou maneira de fotocopiar clandestinamente a edição de Paris; outro, na sua oficina de marceneiro, corta-o e encaderna-o, obtendo uns livrinhos artesanais, e enviou mesmo um desses livrinhos ao autor com a seguinte nota: «Tenho a alegria de lhe enviar de presente uma edição local do Livro. (Edição: 1500 exemplares, primeira tiragem 200 ex.). Confio em que Deus não permitirá a interrupção deste trabalho. A edição não se destina apenas, nem principalmente, aos snobes moscovitas, mas à província. Cidades já abrangidas: Iakutsk, Khabarovsk, Novossibirsk, Krasnoiarsk, Sverdlovsk, Saratov, Krassnodar, Tver e outras mais pequenas…» — «Foi um sentimento extraordinário: receber aqui, no estrangeiro, um livro como este vindo da Rússia! — anotava Soljenítsin. — Uma edição incrível, mortalmente perigosa para os seus editores… Assim, estes rapazes russos pousaram o pescoço no cepo para que o Arquipélago chegasse até à Rússia profunda. É impossível imaginá-los sem verter lágrimas…»
… Passaram dezesseis anos. O nosso país mudou. O Arquipélago Gulag foi publicado. Foi retirada ao autor a acusação de «traição» e ele pôde regressar à Pátria. Muitas coisas, embora nem tudo, deixaram de ser secretas. Uma investigadora que passou longos meses no nosso país escreve: «Ao ler O Arquipélago Gulag um pouco mais de quinze anos após a desintegração da URSS, o que impressiona não é o facto de haver no livro alguns erros factuais, mas o facto de que estes sejam tão poucos, considerando que o autor não tinha acesso aos arquivos, nem aos documentos oficiais… Precisamente devido à sua veracidade, o Arquipélago não perdeu a atualidade nem a importância, impossíveis de lhe retirar» (Anne Applebaum, autora de um livro sobre a história do Gulag (2003), que recebeu o prémio Pulitzer). — Mas «toda a questão está precisamente em que, por mais verídica e objetiva que seja uma “investigação”, qualquer investigação, ela nunca será o próprio fenómeno da verdade, pois que não tem em si a força para encarnar. Toda a questão está em que o dom de encarnar só o artista o possui, é essa a sua vocação, a sua missão e o seu culto, e… nessa realização e encarnação, cheia de carne e de sangue, começou a “arte” a viver uma nova vida e uma nova força» (Aleksandr Chmemann).
Com tanto que se não cumpra a triste profecia de Lídia Tchukóvskaia na sua carta a Soljenítsin, depois de ler o Arquipélago: «Isto é um milagre que faz reviver as pessoas, que altera a composição do sangue, que renova as almas. Mas o mal é este: você viveu a guerra, a prisão, os trabalhos forçados, a glória, o amor, o ódio, a expatriação — tudo. Só há uma coisa que não conhecerá: uma análise artística, literária, das suas obras. A admiração e a indignação impedem as pessoas de apreciarem a genialidade artística e alcançarem a sua natureza… Quando nascerá o crítico que explicará a frase de Soljenítsin, o parágrafo de Soljenítsin, o capítulo de Soljenítsin? O mais fácil será a especificidade do léxico, mas e a sintaxe? O ritmo oculto, na ausência de um ritmo visível? A amplitude da palavra? A novidade no modo de dar movimento, de desenvolver o pensamento? Quem empreenderá esse trabalho ou ao menos o iniciará? Para analisar, é preciso acostumar-se, deixar de sentir a queimadura — e nós estamos presos ao sentido, às informações, a dor queima-nos…»
E é possível que seja justificado o receio de Iossif Brodski, o nosso quinto laureado com o Nobel: «Se o poder soviético não tinha o seu Homero, obteve-o na pessoa de Soljenítsin… Talvez dentro de dois mil anos a leitura do Gulag proporcione o mesmo prazer que a leitura da Ilíada proporciona hoje. Mas se não se ler o Gulag hoje, pode acontecer que muito antes de dois mil anos não haja ninguém para ler nenhum dos dois livros.»
* * *
Vivendo no estado norte-americano do Vermont, Soljenítsin recebia cartas de professores americanos queixando-se de que os seus estudantes não conseguiam vencer os três tomos do Arquipélago, e que seria bom preparar para eles uma edição abreviada em inglês. O autor opôs-se, mas no fim de contas o professor Edward Erikson convenceu-o e apresentou-lhe para apreciação uma versão num só volume. Aleksandr Issáievitch, com um suspiro, concordou e disse-me: «Que fazer? Se não o conseguem ler completo, pois que leiam esse. Mas na Rússia, quando chegar a altura, não será necessário abreviar.» (O Arquipélago abreviado por Erikson foi publicado nos Estados Unidos em 1985, depois em Inglaterra e em seguida noutros países, e é amplamente utilizado no Ocidente por professores e estudantes).
E vinte anos depois, nos últimos anos de vida de Aleksandr Issáievitch, tivemos de reconhecer que também na Rússia a vida moderna não dá possibilidade — se não aos estudantes, pelo menos aos alunos do secundário — de ler o Arquipélago completo. E, com alguma amargura, Aleksandr Issáievitch encarregou-me de organizar o Arquipélago num só volume, «para as escolas». Esta tarefa era diferente da tarefa do professor Erikson na mesma medida em que os alunos russos diferem dos americanos — não tanto pelo conhecimento, como pela «experiência genética» e pela «memória coletiva».
Coloquei como meu objetivo, mantendo o maior volume possível, conservar a estrutura, a arquitetura do livro, para que ele não se transforme numa coletânea de episódios e de fragmentos, mas continue uma viagem ininterrupta pelas ilhas do Arquipélago. E para que o nosso piloto continuasse a ser o próprio Autor, estabelecendo a sua própria trajetória extraordinariamente traçada para esta navegação.
No texto proposto conservam-se todos os 64 capítulos, embora condensados, do Arquipélago completo (apenas três deles foram «radicalmente resumidos: apresentam-se somente os seus títulos e algumas linhas sumárias). Acrescentaram-se algumas notas explicativas. Completou-se o glossário de termos da prisão e abreviaturas soviéticas. Estabeleceu-se pela primeira vez um glossário dos nomes mais importantes.
Na etapa final do trabalho, foram-me indicadas importantes correções, conselhos e propostas pela colaboradora e amiga de muitos anos de Soljenítsin, Elena Tchukóvskaia, pelos professores T. I. Eriómina, E. S. Abeliuk, S. V. Volkov. Agradeço-lhes do coração a eles e aos meus filhos, cujo apoio constante foi muito importante para mim neste trabalho difícil e de grande responsabilidade.
Abril de 2010
Natália Soljenítsina
DEDICADO
A todos aqueles a quem a vida não chegou
para contar isto.
Eles que me perdoem
por não ter visto tudo,
não recordar tudo,
não ter adivinhado tudo.
No ano de mil novecentos e quarenta e oito, eu e alguns amigos meus demos com uma notícia extraordinária na revista Priroda (Natureza) da Academia das Ciências. Escrevia-se ali em letras pequenas que durante umas escavações no rio Kolimá havia sido descoberta uma lente de gelo subterrâneo — uma antiga corrente congelada, e nessa corrente, também congelados (há dezenas de milhares de anos), alguns exemplares de uma fauna fossilizada. Esses peixes, ou tritões mantiveram-se tão frescos, testemunhava o cientista correspondente, que os participantes, quebrando o gelo, os tinham comido com gosto.
Os pouco numerosos leitores da revista devem ter ficado bastante surpreendidos ao saber que a carne dos peixes se pode conservar tanto tempo no gelo. Mas poucos deles terão compreendido o verdadeiro e rico sentido dessa nota inconsiderada.
Nós compreendemos logo. Vimos toda a cena com clareza, até nos seus pormenores: como os homens ali presentes quebravam o gelo com encarniçada pressa; como, desprezando os altos interesses da ictiologia e acotovelando-se uns aos outros, arrancavam pedaços da carne milenar, os passavam pelo lume, os descongelavam e se saciavam.
Compreendemo-lo porque nós próprios pertencíamos ao número desses presentes, dessa poderosa tribo dos zeks, única na Terra, a única que podia comer tritão com gosto.
E Kolimá era a maior e a mais célebre ilha, o polo da ferocidade desse assombroso país do Gulag, retalhado pela geografia num arquipélago, mas fundida pela psicologia num continente — um país quase invisível, quase intangível, que era habitado pelo povo dos zeks.
Este arquipélago recortava-se como um conjunto de enclaves e pintalgava outro país, que o incorporava, penetrava nas suas cidades, pendia sobre as suas ruas — e no entanto alguns não se apercebiam, muitos tinham ouvido qualquer coisa vagamente, só os que lá tinham estado sabiam tudo.
Mas, como se tivessem perdido o uso da fala nas ilhas do Arquipélago, guardavam silêncio.
Numa inesperada viragem da nossa história, veio a público uma parte insignificante desse Arquipélago. Mas as mesmas mãos que nos apertavam as algemas, estendem-nos agora, conciliadoras, as palmas das mãos: «Não se deve!… Não se deve remexer no passado!… Quem falar do passado perde um olho!» No entanto o provérbio conclui: «E quem o esquecer perde os dois!»
Os decénios vão passando e lambendo de maneira irremissível as cicatrizes e as chagas do passado. Durante este tempo, algumas ilhas tremeram, desagregaram-se, o mar polar do esquecimento agita-se sobre elas. E algum dia no século futuro esse Arquipélago, o seu ar e os ossos dos seus habitantes, congelados no interior de uma camada glaciar, serão como um inverosímil tritão.
Não tenho a pretensão de escrever a história do Arquipélago: não me foi dado ler os documentos. Mas alguém alguma vez conseguirá lê-los?… Aqueles que não desejam recordar, já tiveram tempo bastante (e terão ainda mais) para destruir por completo todos os documentos.
Tendo assimilado os onze anos que ali passei, não como uma vergonha, não como um sonho maldito, mas quase chegando a amar aquele mundo monstruoso, e além disso, agora que por uma feliz reviravolta me tornei depositário de numerosas cartas e relatos tardios, talvez consiga transmitir alguma coisa dos ossos e da carne — de restos de carne ainda viva, do tritão ainda vivo.
Não há neste livro personagens nem acontecimentos inventados. As pessoas e os lugares são designados pelos seus nomes próprios. Se são mencionados pelas iniciais, é apenas porque a memória humana não conservou os nomes — mas tudo se passou exatamente assim.
Um homem sozinho não teria forças para compor este livro. Para além de tudo o que eu trouxe do Arquipélago, na minha pele, na memória, nos ouvidos e nos olhos, o material para este livro foi-me dado sob a forma de relatos, recordações e cartas:
[segue-se uma lista de 227 nomes]
Não lhes exprimo aqui a minha gratidão pessoal: isto é o nosso monumento comum à memória de todos os torturados e mortos.
Desta lista, gostaria de destacar aqueles que dedicaram muito trabalho a ajudar-me, para que o livro fosse provido de referências bibliográficas precisas de livros dos fundos de bibliotecas atuais ou há muito retirados e destruídos, de modo que encontrar um exemplar exigia muita obstinação; mais ainda aqueles que me ajudaram a esconder este manuscrito num momento difícil, e depois a reproduzi-lo.
Mas ainda não chegou o momento de poder nomeá-los.[2]
O velho deportado das Solovki, Dmitri Petróvitch Vitkovski, devia ter sido redator deste livro. Mas a meia vida que passou lá (as suas memórias do campo intitulam-se Meia-vida) provocou-lhe uma precoce paralisia. Já privado do uso da fala, conseguiu ler apenas alguns dos últimos capítulos e convencer-se de que se contaria tudo.
Mas se ainda durante muito tempo a liberdade não se iluminar no nosso país, a própria leitura e transmissão deste livro serão um grande perigo — de modo que devo saudar reconhecidamente o futuro leitor — em nome daqueles, dos que morreram.
Na época da ditadura e rodeados de inimigos por todos os lados, manifestámos por vezes uma brandura desnecessária, uma supérflua mansidão.
Krilenko, discurso no processo do «Partido industrial»
Como se chega a esse Arquipélago misterioso? A todas as horas voam para lá aviões, navegam barcos, atroam comboios — mas não há neles uma única inscrição que indique o lugar de destino. E tanto os funcionários das bilheteiras, como os agentes da Sovturist e da Inturist ficarão pasmados se lhes pedirmos um bilhete para lá.
Não sabem, não ouviram falar nem do Arquipélago no seu conjunto, nem de nenhuma das suas inumeráveis ilhotas.
Aqueles que vão dirigir o Arquipélago, chegam lá através da escola do MVD*.
Os que vão guardar o Arquipélago, são convocados através dos centros de recrutamento militar. Mas aqueles que vão para lá morrer, como eu e você, leitor, têm de passar forçosa e unicamente através da detenção.
Detenção! Será necessário dizer que isso constitui uma quebra em toda a nossa vida? Que é um raio que se abate sobre nós? Um choque moral insuportável, a que nem todas as pessoas conseguem adaptar-se e que leva muitas vezes à loucura?
O universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem. Cada um de nós é um centro do universo, e o universo desmorona-se quando nos murmuram: « Você está preso!».
Mas se você é preso, será possível que alguma coisa fique de pé depois desse terramoto?
Mas tanto os mais subtis como os mais simples de nós, de cérebro obscurecido, incapazes de abarcar essa deslocação do universo, não encontram nesse momento, de toda a sua experiência de vida, mais nada para extrair a não ser:
— Eu? Porquê?
Pergunta repetida milhões e milhões de vezes ainda antes de nós e que nunca obteve resposta.
A detenção é uma transição instantânea, surpreendente, uma trasladação, uma transmutação de um estado para outro.
Pela longa e sinuosa rua da nossa vida, passávamos felizes ou arrastávamo-nos penosamente ao lado de vedações e mais vedações — paliçadas de madeira apodrecida, pequenos muretes de barro, de tijolo, de betão, cercas de ferro forjado. Nunca nos interrogámos: o que estará lá por trás? Nem pelo olhar, nem pelo raciocínio, não tentámos espreitar o que havia por trás, e é aí que começa o país Gulag, mesmo ao lado, a dois metros de nós. E também não notávamos nessas vedações a inumerável quantidade de portas e cancelas bem dissimuladas. Todas, todas essas cancelas estavam preparadas para nós! — e eis que uma delas, fatal, se abriu rapidamente de par em par e quatro mãos brancas de homens nos agarraram por uma perna, pelo braço, pela gola, pelo gorro, pelas orelhas — e nos arrastam como um saco, e a cancela atrás de nós, a cancela fecha-se sobre a nossa vida passada, para sempre.
E pronto. Você está preso!
E não encontrará nada que responder a isso, além de um balido de cordeiro:
— Eu? Porquê?…
E é tudo. E não conseguirá assimilar mais nada na próxima hora, nem sequer nas próximas vinte e quatro horas.
E no meio do seu desespero cintilará ainda uma lua de circo, de brinquedo: «Isto é um erro! Tudo se esclarecerá!»
Tudo o resto, que é já hoje uma tradição e até tem representação literária sobre a detenção, acumula-se e organiza-se não já na sua memória desordenada, mas na memória da sua família e dos vizinhos de apartamento.
É o toque estridente da campainha a meio da noite ou as pancadas rudes na porta. É a entrada galharda dos animados rapazes operacionais com as botas sujas. É a testemunha assustada que vem atrás deles.
De uma detenção tradicional fazem também parte os preparativos, com mão trémula, por aquele que vai ser levado: uma muda de roupa, um bocado de sabão, um pouco de comida, e ninguém sabe do que vai precisar, o que pode levar, o que deve vestir, e os operacionais dão pressa, interrompem: «Não é preciso levar nada. Lá dão comida. Lá está calor.» (Tudo mentira. E dão pressa, para atemorizar, meter mais medo.)
Uma detenção tradicional é também, depois de levarem o pobre detido, a ocupação do apartamento durante muitas horas por uma força estranha, numerosa, esmagadora, que quebra, arranca das paredes, rasga, atira ao chão os objetos dos armários e das mesas, espalha e pisa com as botas. E não há nada sagrado durante uma busca! Na detenção do maquinista do caminho de ferro Inóchin, havia num quarto um pequeno caixão com uma criança que acabava de morrer. Os homens da lei retiraram a criança do caixão, e também ali revistaram. E retiram os doentes da cama, e retiram-lhes as ligaduras. E durante uma devassa não há nada que possa ser considerado absurdo! Ao nosso melhor especialista do Tibete, Vostrikov, apreenderam-lhe preciosos manuscritos tibetanos antigos (e os discípulos do falecido mal conseguiram retirá-los do KGB trinta anos mais tarde!). Confiscaram a Vostrikov o arquivo dos Ostiacos do Ienissei, proibiram o sistema de escrita e o abecedário inventado por ele — e este pequeno povo ficou sem língua escrita. Em linguagem intelectual tudo isto demora muito tempo a descrever, mas o povo diz acerca das buscas: buscam o que ninguém lá pôs.
Levam aquilo que separaram, e por vezes obrigam o próprio detido a transportá-lo — para a goela deles, e para sempre, sem retorno.
É assim que imaginamos a detenção.
E, de facto, a detenção noturna do tipo aqui descrito é a preferida, porque apresenta importantes vantagens. Todos os que vivem no apartamento ficam afetados pelo terror logo à primeira pancada na porta. O detido é arrancado do calor do leito, está ainda envolto na impotência do ensonado, com a mente toldada. Na detenção noturna, os operacionais têm superioridade de forças: aparecem vários homens armados contra um, que ainda nem conseguiu abotoar as calças.
As detenções noturnas têm ainda a vantagem de que nem os prédios vizinhos, nem as ruas da cidade veem quantos foram levados durante a noite. É como se não tivesse acontecida nada. Por aquela mesma faixa de asfalto percorrida durante a noite pelas carrinhas celulares, caminha de dia o povo jovem com bandeiras e flores e entoando canções alegres.
Mas os arrecadadores, cujo serviço consiste precisamente e apenas nas detenções, para os quais os horrores dos detidos são repetitivos e fastidiosos, têm uma compreensão muito mais ampla da operação de detenção. Possuem uma grande teoria, não se deve pensar que ela não existe. A ciência da detenção é um capítulo importante do curso geral de gestão das prisões. As detenções têm uma classificação, segundo vários critérios: noturnas e diurnas; no domicílio, no trabalho e em viagem; primeiras e reiteradas; isoladas ou em grupo. As detenções diferem pelo grau de surpresa exigido, pelo grau de resistência previsto (mas em dezenas de milhões de casos não se esperava qualquer resistência, que de resto nunca houve). As detenções distinguem-se pela seriedade da busca a efetuar; pela necessidade de fazer ou não o inventário para confisco, selagem de salas ou apartamentos; pela necessidade de deter também a mulher depois do marido, e enviar os filhos para a casa de crianças, ou toda a restante família para o desterro, ou mandar também os velhos para um campo.
As detenções são por vezes muito variadas quanto à sua forma. Irma Mendel, uma húngara, conseguiu na Internacional Comunista (em 1926) dois bilhetes para o teatro Bolchoi, nas primeiras filas. O comissário de instrução Kleguel andava a cortejá-la e ela convidou-o. Comportaram-se com muita ternura durante todo o espetáculo, e depois ele acompanhou-a… diretamente à Lubianka*. E se num belo dia de junho de 1927, na rua Kuznetski Most, a bela Anna Skripnikova, de tranças aloiradas, que acabava de comprar um tecido azul para um vestido, é convidada por um qualquer janota ainda novo a sentar-se numa caleça (e o cocheiro compreendeu logo e franziu o sobrolho: os Órgãos não lhe pagarão) — fiquem sabendo que não se trata de um encontro amoroso, mas também de uma detenção: vão já virar para a Lubianka e entrar pela goela negra do portão. E se (vinte e duas primaveras mais tarde) o segundo capitão Boris Burkovski, de túnica militar branca, a cheirar a água de Colónia cara, compra um bolo para uma jovem — não jurem que a jovem receberá esse bolo, e que este não será retalhado pelas facas dos investigadores e levado pelo segundo capitão para a sua primeira cela. Não, no nosso país nunca se desdenhou da detenção diurna, nem da detenção em viagem, nem da detenção no meio de uma multidão fervilhante. No entanto, ela é executada de maneira limpa e — surpreendentemente! — as próprias vítimas, de acordo com os agentes operacionais, comportam-se com a maior compostura possível para não deixar que os vivos percebam a queda de um condenado.
Nem todos podem ser detidos em casa com uma prévia pancada na porta (e se alguém bate à porta, é o «administrador do prédio», ou o «carteiro»), e nem todos podem ser detidos no local de trabalho. Às altas patentes, militares ou do partido, era-lhes por vezes dada uma nova missão, atribuíam-lhes uma carruagem-salão e prendiam-nos durante a viagem.
À entrada da fábrica, depois de você apresentar o livre-trânsito, chamam-no de parte e você está preso; levam-no do hospital militar com uma temperatura de 39° (Hans Bernstein), e o médico não opõe qualquer objeção contra a sua detenção (ele que experimentasse opor-se!); levam-no diretamente da mesa de operações, da operação a uma úlcera do estômago (N. M. Vorobiov, inspetor regional de educação, 1936) — e quase morto, a sangrar, metem-no numa cela (recorda Karpunitch); você (Nádia Levítskaia) solicita uma entrevista com a sua mãe condenada, e concedem-lha! — mas isso é apenas para uma acareação, seguida de detenção! Numa loja de produtos alimentares chamam-no à secção de encomendas, e ali o prendem; prende-o o peregrino que você acolheu uma noite em sua casa por amor de Cristo; prende-o o eletricista que veio para retirar o contador; prende-o o ciclista que chocou consigo na rua; o condutor do comboio, o motorista de táxi, o funcionário da caixa económica, e o diretor de uma sala de cinema — todos eles o detêm, e só muito tarde você verá o bem dissimulado cartão de identidade bordô.
Por vezes as detenções até parecem um jogo — há nelas tanta inventiva supérflua, tanta energia, quando mesmo sem isso a vítima não ofereceria resistência. Pois segundo parece, bastaria enviar uma notificação a todos os coelhinhos que figuram na lista e eles próprios viriam obedientemente à hora marcada, ao minuto, com um embrulho na mão aos portões de ferro da segurança do Estado, para ocuparem a superfície de chão na cela que lhes estava destinada. (É de resto assim que detêm os kolkhozianos, pois não íamos agora deslocar-nos às cabanas deles de noite por caminhos intransitáveis. Convocam-no para o soviete da aldeia e ali o prendem.)
Durante várias décadas, as detenções políticas no nosso país distinguiam-se por serem detidas pessoas que não eram culpadas de nada e por isso não estavam preparadas para qualquer resistência. Criava-se um sentimento geral de fatalismo, a ideia (de resto bastante justa, dado o nosso sistema de passaportes) de que era impossível escapar ao GPU-NKVD. Não se pedia outra coisa. Uma ovelha mansa para os dentes do lobo.
A inocência geral engendra a inércia geral. Talvez ainda não te levem a ti? Talvez escapes? A. I. Ladijenski era professor principal na escola da aldeia remota de Kologriv. Em 1937, no mercado, um camponês aproximou-se dele e comunicou-lhe uma mensagem de alguém: «Aleksandr Ivánitch, vai-te embora, estás na lista!» Mas ele deixou-se ficar: se toda a escola depende de mim e os próprios filhos deles estudam comigo, como podem eles prender-me?… (Alguns dias depois detiveram-no.) Nem todos conseguem, como Vânia Levitski, compreender desde os catorze anos: «Toda a pessoa honesta deve ir parar à prisão. Agora está lá o meu pai, e quando eu crescer prendem-me também a mim.» (Prenderam-no aos vinte e três anos.) A maioria entorpece na miragem da esperança. Se tu estás inocente, por que te vão prender? Isto é um erro! Já te arrastam pelo colarinho e tu continuas a exorcizar para contigo: «Isto é um erro! Quando tudo se esclarecer, soltam-me!»
E nesse caso, para quê fugir?… E como poderias tu resistir?… Não farias mais que piorar a tua situação, dificultarias o esclarecimento do erro. E não só não resistes, como até desces a escada em bicos dos pés, como te mandaram, para que os vizinhos não ouçam.
As coisas que se passam na alma de um recém-detido! Só isto valeria um livro. Pode haver nela sentimentos de que nem suspeitávamos. Quando, em 1921, detiveram Evguénia Doiarenko, de dezanove anos, e três jovens tchekistas lhe revolveram a cama, e a cómoda com a roupa interior, ela manteve-se tranquila: não há ali nada, não encontrarão nada. E de repente agarraram o seu diário íntimo, que ela nem à sua mãe poderia mostrar — e essa leitura das suas linhas por três rapazes estranhos e hostis afetou-a mais fortemente do que toda a Lubianka com as suas grades e subterrâneos. Para muitas pessoas, esses sentimentos e laços pessoais, afetados pela detenção, podem ser muito mais fortes do que as ideias políticas ou o medo da prisão. A pessoa que não está interiormente preparada para a violência é sempre mais fraca do que quem pratica a violência.
São raros os inteligentes e os temerários que compreendem instantaneamente. Grigóriev, diretor do instituto de geologia da Academia das Ciências, quando o foram deter em 1949, barricou-se e esteve duas horas a queimar papéis.
Por vezes, o principal sentimento do detido é de alívio e até… de alegria, em especial durante as epidemias de detenções: quando à tua volta não param de levar outros como tu e só a ti não te vêm buscar, demoram a decidir-se — isso é esgotante, é um sofrimento pior do que qualquer detenção, e não apenas para uma alma débil.
«Resistência! Onde esteve a vossa resistência?» — recriminam agora os que escaparam àqueles que sofreram.
Sim, era preciso começar aqui, no momento da detenção.
Não começou.
* * *
E pronto, eis que te levam. Durante uma detenção diurna há inevitavelmente aquele momento breve, irrepetível, em que te levam — não às claras, por uma medrosa persuasão, ou inteiramente às claras, com as pistolas à vista —, te levam através da multidão entre centenas de outros igualmente inocentes e condenados. E não te taparam a boca. Podias e devias por força gritar! Gritar que vais preso! Que uns miseráveis disfarçados andam à caça das pessoas! Que as prendem por falsas denúncias! Que está em curso uma surda repressão sobre milhões de pessoas! E, ao ouvir esses gritos muitas vezes por dia e em todos os pontos da cidade, talvez os nossos concidadãos se insurgissem? Talvez as detenções deixassem de ser tão fáceis!?
Mas dos teus lábios ressequidos não sai nem um único som, e a multidão que passa descuidadamente considera-te a ti e aos teus carrascos uns amigos que se passeiam.
Eu próprio tive muitas vezes a oportunidade de gritar.
No décimo primeiro dia depois da minha detenção, três parasitas do SMERCH*, mais sobrecarregados com as três malas de troféus do que comigo, conduziram-me à estação da Bielorrússia, em Moscovo. Designavam-se como escolta especial, mas na verdade as espingardas automáticas só lhes dificultavam o transporte das pesadas malas — bens roubados na Alemanha por eles e pelos seus chefes da contraespionagem do SMERCH da 2.a Frente da Bielorrússia e que agora traziam para as famílias. Uma quarta mala transportava-a eu sem qualquer vontade, onde vinham os meus diários e os meus escritos — provas contra mim.
Nenhum dos três conhecia a cidade, e eu devia escolher o caminho mais curto para a prisão, eu próprio devia conduzi-los à Lubianka, onde eles nunca tinham estado (e eu confundia-a com o Ministério dos Negócios Estrangeiros).
Depois de um dia passado na contraespionagem do exército; depois de três dias na contraespionagem da frente, onde os companheiros de cela me instruíram (sobre os logros da investigação, as ameaças, os espancamentos; que uma vez detido não te largam nunca mais; sobre a inevitabilidade dos dez anos) — há já quatro dias que por milagre viajo como livre entre pessoas livres, embora as minhas costelas já se deitassem na palha podre junto ao balde das fezes, embora os meus olhos já tivessem visto companheiros espancados e sem dormir, os ouvidos ouvissem a verdade, a minha boca comesse a sopa aguada — porque é que continuo calado? Porque é que não esclareço a multidão enganada, no meu último minuto em público?
Fiquei calado na cidade polaca de Brodnica — mas talvez ali as pessoas não percebessem russo? Não gritei nem uma palavra nas ruas de Bialystok — mas possivelmente isto não interessa nada aos polacos? Não proferi um som na estação de Wolkowyck — mas havia ali pouca gente. Como se nada fosse, passeei com estes bandidos pela plataforma de Minsk — mas a estação ainda estava em ruínas. E agora conduzo atrás de mim estes agentes da contraespionagem sob a cúpula branca do vestíbulo circular superior do metro Bielorrússkaia radial, inundado de luz elétrica, e de baixo para cima sobem ao nosso encontro duas escadas rolantes paralelas carregadas de moscovitas. Parece que olham todos para mim! Por uma fita contínua, sem fim, arrastam-se de lá de baixo, das profundezas da ignorância, desembocam na cúpula cintilante, na minha direção, esperando ao menos uma palavrinha de verdade — por que me calo eu então??!…
Cada pessoa tem sempre uma dúzia de razões simples para não se sacrificar.
Alguns têm ainda esperança numa saída favorável e receiam comprometê-la com o seu grito (porque não nos chegam notícias do outro mundo, não sabemos que desde o instante da detenção o nosso destino já está decidido pela pior variante e é impossível piorá-la). Outros ainda não amadureceram ao ponto de compreender os conceitos que se cristalizam num grito lançado à multidão. Pois só o revolucionário tem sempre as palavras de ordem na ponta da língua e que lhe saem por si mesmas; mas onde as iria buscar o pacato cidadão comum que não se mete em nada? Ele simplesmente não sabe o que há de gritar. E finalmente, há ainda uma categoria de pessoas que têm o peito demasiado cheio, cujos olhos viram demasiado, para que possam despejar todo esse lago em alguns gritos sem nexo.
Mas eu — estou calado ainda por outro motivo: porque aqueles moscovitas que ocupam os degraus de duas escadas rolantes são em todo o caso poucos para mim — poucos! O meu grito será ouvido aqui por duzentas, ou duas vezes duzentas pessoas — e quanto aos outros duzentos milhões?… Tenho o pressentimento confuso de que algum dia gritarei para duzentos milhões…
E entretanto, sem que eu abra a boca, a escada rolante arrasta-me irresistivelmente para o inferno.
E continuarei calado ainda na Okhotni Riad.
Não grito perto do Metrópole.
Não agito os braços no Gólgota da praça Lubianka…
* * *
A minha detenção foi por certo do género mais fácil que se possa imaginar. Não me arrancou aos braços da família, não me separou da vida doméstica que nos é tão grata. Num insípido mês de fevereiro europeu, ela arrancou-me da nossa faixa de terra que avançava para o mar Báltico, onde não era muito claro se nós cercávamos os alemães ou se eles nos cercavam a nós — e privou-me apenas da divisão a que estava habituado e do espetáculo dos três últimos meses da guerra.
O comandante da brigada chamou-me ao posto de comando, pediu-me a pistola, não sei porquê, eu entreguei-lha, sem suspeitar de qualquer astúcia — e de repente, do meio do grupo de oficiais que se mantinham imóveis e tensos a um canto, saíram dois agentes da contraespionagem, atravessaram a sala em alguns saltos e, deitando ao mesmo tempo as quatro mãos à estrela do gorro, aos galões, ao cinto e ao saco de campanha, gritaram em tom dramático:
— Você está preso!
E eu, corado e traspassado da cabeça aos pés, não achei nada mais inteligente do que perguntar:
— Eu? Porquê?!…
Embora esta pergunta fique habitualmente sem resposta, surpreendentemente eu obtive uma resposta! Isto merece ser lembrado porque está demasiado fora dos nossos costumes. Mal os agentes da contraespionagem tinham acabado de me depenar e, assustados pelo estremecimento das vidraças devido às explosões alemãs, me empurravam à pressa para a saída — soou de repente um chamamento enérgico que me era dirigido — sim! Por cima do surdo abismo que se cavava entre mim e os que ficavam, abismo resultante da palavra «preso» que caíra pesadamente, por cima dessa barreira para lá da qual já nenhum som se filtrava, passaram estas palavras inimagináveis, fabulosas, ditas pelo comandante da brigada:
— Soljenítsin. Volte aqui.
E eu, numa reviravolta brusca, soltei-me das mãos dos da contraespionagem e voltei para junto do comandante. Conhecia-o mal, ele nunca condescendia em ter simples conversas comigo. Para mim, a sua cara exprimia sempre ordem, comando, ira. Mas agora iluminava-se pensativamente — com vergonha pela sua participação involuntária num caso sórdido? Num impulso para se colocar acima da lastimável subordinação de toda uma vida? Dez dias antes, de uma bolsa onde tinha ficado a sua divisão de fogo, composta por doze canhões pesados, eu tirei a minha bateria de reconhecimento quase intacta, e ele devia agora abdicar de mim por causa de um pedaço de papel com um carimbo?
— Você… — perguntou com voz autoritária — tem um amigo na Primeira Frente Ucraniana?
— Não pode!… Não tem o direito! — gritaram ao coronel o capitão e o major da contraespionagem. A comitiva de oficiais do estado-maior encolheu-se assustada a um canto, como se receasse partilhar a inaudita irreflexão do comandante da bateria (e, sendo da secção política, preparavam-se já para transmitir material acerca do comandante da brigada). Mas para mim já era bastante: percebi logo que estava a ser detido por causa da correspondência com o meu amigo da escola, e compreendi de onde devia esperar os perigos.
E Zakhar Gueorguievitch Travkin bem podia ter ficado por aqui. Mas não! Continuando a purificar-se e a aprumar-se perante si mesmo, levantou-se da mesa a que estava sentado (nunca se levantava para me receber nessa vida anterior!), estendeu-me a mão através da linha pestilenta (nunca me estendera a mão quando eu era livre!) e, durante o aperto de mãos, perante o mudo pavor da comitiva, com calor no seu rosto sempre severo, disse corajosamente, com toda a clareza:
— Desejo-lhe boa sorte, capitão!
Eu não só já não era capitão, como era um inimigo do povo desmascarado (porque no nosso país qualquer detido, desde o momento da detenção, está completamente desmascarado). Ele desejava então sorte a um inimigo?…
Os vidros estremeciam. As explosões alemãs dilaceravam a terra a duzentos metros de distância, lembrando que aquilo não poderia acontecer além, mais no interior da nossa terra, sob a redoma de uma existência imobilizada, mas apenas sob o bafo de uma morte próxima e igual para todos.[3]
* * *
Este livro não será de memórias da minha própria vida. Por isso não contarei os pormenores cómicos da minha extravagante detenção. Nessa noite, os da contraespionagem desesperaram por completo de decifrar o mapa (nunca tinham conseguido fazê-lo) e com amabilidades entregaram-mo a mim e pediram-me que dissesse ao motorista como chegar à contraespionagem do exército. Eu próprio nos conduzi, a mim e a eles, àquela prisão, e em sinal de gratidão fui logo metido não numa cela, mas num calabouço. Era impossível não falar dessa pequena arrecadação de uma casa camponesa alemã, que servia de prisão temporária.
Tinha o comprimento do corpo de um homem, e de largura podiam deitar-se três homens à justa, um quarto ficava muito apertado. Eu era precisamente esse quarto, empurrado já depois da meia-noite. Os três que estavam deitados olharam-me com os olhos estremunhados de sono à luz da lamparina de querosene e moveram-se, dando-me espaço para cair de lado e introduzir-me pouco a pouco pela força da gravidade. E assim, no chão juncado de palha triturada, ficámos oito botas viradas para a porta e quatro capotes. Eles dormiam, eu fervia. Quanto mais seguro de mim eu me sentia como capitão meio dia antes, mais doloroso era ficar ali apertado no fundo daquele cubículo. De vez em quando os rapazes acordavam devido ao entorpecimento do flanco, e virávamo-nos todos ao mesmo tempo.
De manhã eles acordaram, bocejaram, grasnaram, encolheram as pernas, meteram-se pelos cantos — e começaram as apresentações.
— E tu, foi porquê?
Mas uma vaga aragem de alerta já tinha soprado sobre mim debaixo do teto infesto da contraespionagem, e eu surpreendi-me candidamente.
— Não faço ideia. Mas esses canalhas dizem alguma coisa?
No entanto, os meus companheiros de calabouço — tanquistas de capacetes negros macios — não eram dissimulados. Eram três corações simples e honestos de soldados, o género de pessoas a que eu mais me ligara durante os anos da guerra, sendo eu próprio mais complexo e menos bom. Eram todos eles oficiais. Os seus galões também lhes haviam sido arrancados com fúria, em alguns pontos ainda lhes pendiam as linhas. Nas camisas sebentas, as manchas claras eram os vestígios das condecorações arrancadas, as cicatrizes escuras e vermelhas nos rostos eram a recordação de ferimentos e queimaduras. Por desgraça, a sua divisão viera recompor-se para esta aldeia, onde estava sediada a contraespionagem do 48.° exército. Para comemorar o combate que decorrera na antevéspera, na véspera embebedaram-se e na periferia da aldeia irromperam nos banhos, para onde, segundo viram, tinham ido lavar-se duas jovens atraentes. As jovens conseguiram escapar, meio despidas, às pernas bêbedas e desobedientes deles. Mas uma delas não era uma qualquer, era a amiguinha do chefe da contraespionagem do exército.
Sim! Havia já três semanas que a guerra decorria em solo alemão e todos nós sabíamos bem: se as jovens fossem alemãs, podia-se violentá-las, depois fuzilá-las, e isso seria quase uma distinção de combate; se fossem polacas ou nossas, russas deportadas, podia-se em todo o caso fazê-las correr nuas pela horta e dar-lhes umas palmadas nas coxas — e isso não passava de uma distração divertida. Mas como aquela era a «mulher de campanha» do chefe da contraespionagem, um qualquer sargento da retaguarda arrancou imediatamente com fúria os galões a três oficiais combatentes, galões confirmados por uma ordem da frente, arrancou-lhes as condecorações atribuídas pela Presidência do Soviete Supremo — e agora esses militares veteranos, que tinham feito toda a guerra e aniquilado talvez mais de uma linha de trincheiras inimigas, esperavam julgamento de um tribunal militar que sem os tanques deles não teria ainda sequer chegado até àquela aldeia.
Apagámos a lamparina, que mesmo assim já tinha queimado todo o ar que ali havia para respirarmos. A porta tinha uma fresta do tamanho de um bilhete-postal, por onde entrava uma luz indireta do corredor. Como se receassem que o romper do dia nos tornasse o calabouço demasiado espaçoso, enfiaram lá um quinto homem. Entrou envergando um capote novo do exército vermelho, um gorro também novo e, quando ficou em frente da fresta, mostrou-nos uma cara fresca de nariz arrebitado com as faces todas rosadas.
— De onde vens, irmão? Quem és tu?
— Venho do outro lado — respondeu ele prontamente. — Sou um espião.
— Estás a brincar? — dissemos nós, atônitos. (Que fosse um espião, e ele mesmo o dissesse, nem Cheinin, nem os irmãos Tur escreveram nunca uma coisa assim!)
— Achas que se pode brincar em tempo de guerra? — suspirou o sujeito sensatamente. — E como é que se pode voltar para casa depois de ter sido prisioneiro? Ora digam-me.
Mal ele tinha começado o seu relato de como, vinte e quatro horas antes, os alemães o introduziram através da frente para que ele viesse aqui espiar e destruir pontes, e de como fora imediatamente entregar-se ao batalhão mais próximo, mas o comandante do batalhão, sonolento e extenuado, não acreditara que ele fosse espião e o mandara à enfermeira para que lhe desse uns comprimidos — quando de repente novas impressões nos assaltaram:
— Formar! Mãos atrás das costas! — lançou através da porta, aberta de par em par, um sargento-ajudante inteiramente capaz de arrastar um canhão de 122 milímetros.
Todo o pátio da casa camponesa estava já ocupado por um cordão de soldados com espingardas automáticas, que guardavam a vereda que nos era indicada para contornar o palheiro. Eu explodi de indignação ao ver um sargento ignorante ordenar-nos, a nós, oficiais, as «mãos atrás das costas», mas os tanquistas obedeceram e eu segui-os.
Atrás do palheiro havia um pequeno cercado quadrado, com neve ainda não derretida espezinhada — todo sujo de excrementos humanos, de maneira tão desordenada e tão densa por todo o espaço que era difícil encontrar um lugar onde pôr os pés e abaixar-se. No entanto lá conseguimos e todos os cinco nos abaixámos em lugares diferentes. Dois soldados com armas automáticas postaram-se com ar sombrio diante de nós, ali abaixados, e o sargento, antes de passado um minuto, pôs a apressar-nos com severidade:
— Vamos lá despachar! Entre nós aliviamo-nos depressa!
Perto de mim estava um dos tanquistas, originário de Rostov no Don, um primeiro-tenente alentado e carrancudo. Tinha o rosto escurecido de pó de metal ou de fumo, mas uma grande cicatriz vermelha que lhe atravessava a face era bem visível.
— Onde é isso, entre nós? — perguntou ele calmamente, sem mostrar qualquer intenção de se apressar a voltar para o calabouço, que tresandava a petróleo.
— Na contraespionagem SMERCH! — atalhou o sargento com orgulho e em voz mais sonora do que era necessário. (Os da contraespionagem gostavam muito dessa palavra fabricada com muito mau gosto a partir de «smert chpionam»* Achavam-na intimidante.)
— Pois entre nós, fazemo-lo devagar — respondeu o primeiro-tenente, pensativo. Tinha o capacete puxado para trás, revelando na cabeça o cabelo ainda por rapar.
O seu traseiro de combatente estava exposto ao vento fresco e agradável.
— Onde é isso, entre vós? — latiu o sargento em voz mais alta do que era necessário.
— No Exército Vermelho — respondeu muito calmamente o primeiro-tenente acocorado, medindo com o olhar aquele paquiderme frustrado.
Tais foram os primeiros sorvos da minha respiração de prisioneiro.
Quando agora se condena a arbitrariedade do culto, fala-se sempre e só dos anos de 1937-1938. E isto começa a fixar-se na memória, como se não tivesse havido prisões nem antes nem depois de 1937-1938.
Mas eu não receio enganar-me ao dizer: a torrente de 1937-1938 não só não foi a única, como nem foi sequer a principal; foi apenas, talvez, uma das três maiores torrentes que empolaram os tenebrosos e fétidos tubos da nossa canalização prisional.
Antes dela houve a torrente de 1929-1930, como um bom rio Obi, que empurrou para a tundra e para a taiga uns quinze milhões de mujiques (ou talvez mais). Mas os mujiques são gente sem voz, sem escrita, não escreveram protestos nem memórias. Por causa deles, os juízes de instrução não trabalharam afincadamente pela noite dentro, com eles não gastaram protocolos — bastavam as deliberações do soviete rural. Essa torrente transbordou, foi absorvida pelos gelos eternos, e mesmo as mentes mais ardorosas quase não se lembram dela. Como se não tivesse afetado a consciência russa. E no entanto Estaline não cometeu (nem o leitor e eu) crime mais grave do que esse.
E depois houve a torrente de 1944-1946, como um bom Ienissei: atiraram para os canos de esgoto nações inteiras e ainda milhões e milhões de homens que ficaram prisioneiros e depois voltaram. Mas essa torrente era também principalmente de pessoas simples que não escreveram memórias.
Enquanto que a torrente de 1937 apanhou também e levou para o Arquipélago pessoas de alta posição, gente com um passado de membros do Partido, gente instruída, e à volta deles ficaram muitas pessoas magoadas nas cidades, muitos que sabiam manejar a caneta! — e agora todos juntos escrevem, falam, recordam: o ano trinta e sete! O Volga da mágoa popular!
Mas vá-se lá falar do ano «trinta e sete» ao tártaro da Crimeia, ao calmuco ou ao checheno — ele limita-se a encolher os ombros. E o que é o ano de trinta e sete para Leninegrado, quando já antes houvera o ano de trinta e cinco? E para os reincidentes, ou para os povos do Báltico, não foram piores os anos de 1948-1949? E se os ciosos do estilo e da geografia me acusarem ainda de ter esquecido alguns rios da Rússia, que algumas torrentes não foram indicadas, deem-me algumas páginas! Dessas torrentes outros rios se formarão.
* * *
Nesta enumeração, o mais difícil é começar…
Pelo sentido e pelo espírito da revolução, é fácil adivinhar que durante os seus primeiros meses as prisões de Kresti (das Cruzes), de Butirki e muitas outras prisões provinciais aparentadas — se encheram de grandes ricaços; de personalidades políticas destacadas, de generais e oficiais; e ainda dos funcionários dos ministérios e de todo o aparelho do Estado que não cumpriam as disposições do novo poder.
No entanto, V. I. Lenine definira objetivos ainda mais vastos. No artigo «Como organizar a emulação» (7-10 de janeiro de 1918)[4], proclamava como objetivo único comum «limpar a terra russa de todos os insetos nocivos». E por insetos entendia não apenas todos os estranhos à classe operária, mas também os «operários que se esquivam ao trabalho», por exemplo os tipógrafos das tipografias do partido em Petrogrado. (Eis o que faz o distanciamento no tempo. Agora temos dificuldade em compreender como é que os operários, que acabavam de se tornar ditadores, se esquivavam a um trabalho que faziam para si próprios.) É verdade que as formas de limpeza previstas por Lenine nesse artigo eram variadas: nuns casos metê-los na prisão, noutros pô-los a limpar as latrinas, noutros ainda «depois de saírem da prisão dar-lhes bilhetes de identidade amarelos», noutros fuzilar o parasita.
Insetos eram, naturalmente, os membros dos zemstvos*. Eram insetos os cooperativistas. Todos os proprietários de imóveis. Havia também muitos insetos entre os professores de liceu. Eram insetos todos os sacerdotes, e mais ainda todos os frades e as freiras. Muitos insetos escondiam-se sob o uniforme dos ferroviários, era necessário extirpá-los, e alguns deles, açoitá-los. Quanto aos telegrafistas, eram na sua massa, por qualquer razão, uns insetos inveterados, que não simpatizavam com os Sovietes.
Mesmo estes grupos que aqui enumerámos constituem já um número imenso, que exige muitos anos de trabalho de limpeza.
E quantos malditos intelectuais de todo o género, estudantes turbulentos, excêntricos vários, buscadores da verdade e alienados, dos quais já Pedro I se ufanava de ter limpo a Rússia e que sempre atrapalham um Regime harmonioso e severo?
E teria sido impossível levar a cabo essa limpeza sanitária, ainda por cima, nas condições da guerra, usando as antiquadas formas processuais e normas jurídicas. Mas adotou-se uma forma completamente nova: a repressão extrajudicial, trabalho ingrato que foi abnegadamente assumido pela Tcheka, Comissão Extraordinária de toda a Rússia — Sentinela da Revolução —, único órgão de repressão na história da humanidade a acumular nas suas mãos: a vigilância, a detenção, a instrução do processo, a acusação, o julgamento e a execução da sentença.
Em 1918, para acelerar também a vitória cultural da revolução, começaram a esventrar e a extrair as relíquias dos santos, a confiscar os objetos de culto. Em defesa das igrejas e mosteiros devastados eclodiam as revoltas populares. Aqui e ali tocavam os sinos a rebate e os crentes ortodoxos acorriam, alguns armados de varapaus. Naturalmente, era necessário arrumar um ou outro ali mesmo, e prender mais alguns.
Refletindo agora acerca dos anos 1918-1920, ficamos algo embaraçados: devemos incluir nas torrentes das prisões todos aqueles que foram despachados sem chegarem à cela da prisão? E em que rubrica incluir todos aqueles que os comités de camponeses pobres arrumaram para lá da entrada do soviete rural ou ao fundo do quintal?
Outra dificuldade não pequena é decidir: deve-se atribuir a esta torrente prisional, ou antes ao saldo da guerra civil as dezenas de milhares de reféns, esses pacíficos habitantes contra os quais não havia qualquer acusação e cujos nomes nem sequer estavam inscritos a lápis em nenhuma lista, capturados para extermínio como meio de intimidação e represália contra o inimigo militar ou a massa sublevada? Isto era assim explicado abertamente (Latsis, jornal Terror Vermelho, de 1 de novembro de 1918): «Não fazemos guerra contra indivíduos. Exterminamos a burguesia como classe. Não busquem provas materiais de que o acusado agiu contra os Sovietes por actos ou por palavras. A primeira pergunta que lhe devem fazer é a que classe ele pertence, qual é a sua origem social, a educação, a instrução ou a profissão. Estas questões é que devem determinar o destino do acusado. É nisso que está o sentido e a essência do terror vermelho.»
* * *
Já na Primavera de 1918 começou a correr a torrente ininterrupta de muitos anos dos socialistas traidores. Todos esses partidos — socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas, socialistas populares —, durante dezenas de anos apenas fingiram ser revolucionários, apenas usaram a respetiva máscara — e para isso até foram para os trabalhos forçados, sempre para se fingirem tais. E só no movimento impetuoso da revolução se revelou a essência burguesa desses sociais-traidores. Era natural que se procedesse à sua detenção! Nenhum cidadão do Estado russo que alguma vez tivesse feito parte de algum partido que não o bolchevique escapava ao seu destino: estava condenado (se não conseguisse correr para os comunistas sobre as tábuas do naufrágio). Podia não ser preso imediatamente, podia sobreviver até 1922, até 1932 ou mesmo até 1937, mas as listas estavam guardadas, a sua vez chegaria, a sua vez chegava, detinham-no ou apenas o convidavam amavelmente e faziam-lhe uma única pergunta: tinha sido membro de… desde… até…? Depois disso a sua sorte podia variar. Alguns iam parar diretamente a uma das célebres prisões centrais czaristas (por sorte, essas centrais continuavam a manter-se). A outros propunham-lhes que fossem para o desterro — oh, não por muito tempo, dois anitos ou três. Ou coisa mais suave ainda: apenas apanhar um menos no passaporte (direito de residir em toda a parte, menos num certo número de cidades), escolher ele mesmo o lugar de residência, menos numa dessas tais; mas depois, faça favor, viver fixamente nesse lugar e esperar a vontade do GPU.*
Esta operação prolongou-se por muitos anos. Era um grandioso e silencioso jogo de paciência, cujas regras eram absolutamente incompreensíveis para os contemporâneos. Algumas mãos cuidadosas, sem perder um instante, agarravam uma ficha que passara três anos num certo monte, e mudavam-na suavemente para outro monte. Aquele que estivera numa central — era enviado para o desterro (e para um lugar bem distante); quem tinha purgado o «menos» — ia também para o desterro (mas já fora da visibilidade do «menos»), do desterro para outro desterro, e depois novamente para uma central (mas já outra); paciência e mais paciência era a dominante naqueles que distribuíam o jogo da paciência. (Korolenko escreveu a Gorki em 29.6.1921: «A história há de notar algum dia que a revolução bolchevique reprimiu os mencheviques e os socialistas-revolucionários com os mesmos meios que o regime czarista». Oh, se fosse só isso! — todos eles teriam sobrevivido.)
Nessa operação da Grande Paciência foi exterminada a maior parte dos velhos condenados políticos.
* * *
Na Primavera de 1922, a Comissão Extraordinária de combate à contrarrevolução e à especulação, cujo nome acabava de ser mudado para GPU*, decidiu intervir nos assuntos da igreja. Era preciso fazer também a «revolução eclesiástica» — substituir a direção por outra que escutasse o céu apenas com um ouvido, e com o outro escutasse a Lubianka. Assim prometiam ser os clérigos da igreja viva, mas não conseguiam apoderar-se do aparelho da igreja sem ajuda externa. Para isso foi detido o patriarca Tikhon e foram instaurados dois ruidosos processos com fuzilamentos: em Moscovo, dos fiéis que difundiram a mensagem do patriarca, em Petrogrado, do metropolita Veniamin, que impedia a transferência do poder da igreja para os partidários da igreja viva. Nas províncias e distritos foram detidos aqui e ali os metropolitas e os arcebispos, e como sempre, depois dos peixes grandes, seguia-se o cardume dos pequenos — arciprestes, monges e diáconos, sobre os quais nada se dizia nos jornais. Prendiam-se aqueles que recusavam submeter-se à pressão da igreja viva.
Os eclesiásticos eram sempre parte obrigatória da captura diária, as suas cabeças grisalhas surgiam em cada cela, e depois em cada leva destinada às Solovki.
Detinham-se, encarceravam-se e desterravam-se intensivamente frades e freiras, que tanto enegreciam a anterior vida russa. Os círculos alargavam-se constantemente, e em breve começaram a pescar também entre os crentes laicos, pessoas de idade, em especial mulheres, mais obstinadas na sua fé e às quais agora, nas prisões de trânsito e nos campos de detenção, também chamavam monjas.
Na verdade, considerava-se que as prendiam não propriamente pela sua fé, mas por proferirem em voz alta as suas convicções e pela educação dos filhos nesse espírito. Como escreveu Tânia Khodkevitch:
Podes livremente rezar,
Mas… só Deus pode escutar.
(Por estes versos apanhou dez anos.) Uma pessoa que acredite que possui uma verdade espiritual, deve ocultá-la… aos seus filhos!! Todos os religiosos apanhavam dez anos, que era então a pena de prisão máxima.
* * *
Os anos passam, e tudo aquilo que não é refrescado vai-se apagando da nossa memória. Envolto na distância, o ano de 1927 consideramo-lo como o ano desafogado e de abundância da NEP ainda não suprimida. Mas foi um ano abalado pelas explosões nos jornais, e era entendido no nosso país, era-nos incutido como a véspera de uma guerra pela revolução mundial. O assassínio em Varsóvia do embaixador plenipotenciário soviético Voikov[5] inundou colunas inteiras dos jornais de junho; Maiakovski dedicou-lhe quatro poemas retumbantes.
Com união,
Organização,
Firmeza
E repressão
Torçamos o pescoço
À matilha desenfreada.
Reprimir quem? A quem torcer o pescoço? Pois é aqui que começa a seleção Voikovski. Como sempre, em todas as agitações e tensões, prendem-se os de antes, prendem-se os anarquistas, os socialistas-revolucionários, os mencheviques, ou simplesmente os intelectuais.
Uma filosofia confortável engendra um termo jurídico confortável: profilaxia social. Ele é introduzido, aceite, e logo entendido por toda a gente. (Um dos chefes da construção do canal do mar Branco, Lazar Kogan, assim o dirá dentro de pouco tempo: «Acredito que você não é culpado de nada: mas, sendo um homem instruído, deve compreender que se procedeu a uma vasta profilaxia social!»)
Também em Moscovo começa uma limpeza planificada bairro a bairro. Em toda a parte alguém deve ser detido. Para a Lubianka, para as Butirki, correm mesmo de dia as carrinhas celulares, os automóveis ligeiros, os camiões fechados, as carroças abertas. Engarrafamento aos portões, engarrafamento no pátio. Não há tempo para descarregar e registar os detidos. (O mesmo se passa noutras cidades. Em Rostov, no Don, na cave da casa trinta e três, o aperto era tanto nesses dias que a recém-chegada Boiko mal encontrou um espaço para se sentar.)
Um exemplo típico dessa torrente: algumas dezenas de jovens juntam-se nuns serões musicais sem a concordância da GPU. Ouvem música, depois bebem chá. Para pagar o chá, reúnem as contribuições voluntárias de alguns copeques cada um. É perfeitamente claro que essa música é a cobertura para o seu espírito contrarrevolucionário e o dinheiro é reunido não para o chá, mas para ajudar a burguesia mundial agonizante. E detiveram-nos a todos, deram-lhes penas de três a dez anos (Anna Skripnikova apanhou cinco anos), e aos instigadores que não confessaram (Ivan Nikoláevitch Varentsov e outros), fuzilaram-nos!
Só a dimensão do SLON — Campo especial de Solovki — limitava ainda a dimensão da colheita Voikov. Mas o Arquipélago GULAG iniciava a sua vida maligna e em breve espalhava as metástases por todo o corpo do país.
* * *
Chegou há muito o tempo de quebrar a intelectualidade técnica, que se considera demasiado insubstituível e não está acostumada a acatar as ordens.
Esse trabalho de saneamento começou em pleno a partir de 1927 e mostrou de imediato ao proletariado todas as causas dos nossos fracassos e carências económicas. Sabotagem nos caminhos de ferro (e daí a dificuldade em arranjar lugar num comboio). Sabotagem na indústria petrolífera (e não se consegue encontrar querosene). Sabotagem na indústria têxtil (e por isso o trabalhador não tem nada que vestir). Sabotagem nas minas de carvão (e por isso morremos de frio)! Na metalurgia, nos armamentos, na construção de máquinas, na construção naval, na química, nas minas, no ouro e na platina, na irrigação — por toda a parte os abcessos purulentos da sabotagem! De todos os lados, os inimigos com as suas réguas logarítmicas! A GPU ofegava a apanhar e carregar os sabotadores. Cada sector da economia, cada fábrica e cada oficina de artesãos deviam procurar no seu interior os sabotadores e, mal começavam, logo os encontravam (com a ajuda da GPU). E que refinados malfeitores eram esses velhos engenheiros, que variadas maneiras satânicas tinham de sabotar! Nikolai Karlovitch von Meck, no comissariado do povo das vias de comunicação, apresentava-se como muito dedicado à construção da nova economia, era capaz de falar vivamente e durante muito tempo dos problemas económicos da construção do socialismo e gostava de dar conselhos. Um desses nocivos conselhos era: aumentar as composições dos comboios de mercadorias, não recear aumentar o peso dos carregamentos. Através da GPU, von Meck foi desmascarado (e fuzilado): ele queria conseguir o desgaste das vias, dos vagões e das locomotivas e deixar a República sem caminhos de ferro, no caso de uma intervenção estrangeira! E quando, pouco tempo depois, o novo comissário do povo, camarada Kaganovitch*, decidiu ordenar precisamente a sobrecarga das composições de mercadorias, e torná-las mesmo duas e três vezes mais pesadas (descoberta que lhe valeu a ele e a outros dirigentes serem condecorados com a Ordem de Lenine) — os malignos engenheiros intervieram agora como limitadores — bradaram que isso era demasiado, desgastava ruinosamente o material circulante, e foram justamente fuzilados por falta de confiança nas possibilidades dos transportes socialistas.
Assim quebraram em poucos anos a coluna vertebral da velha engenharia russa, que era a glória do nosso país, heróis prediletos de Garin-Mikhailovski e de Zamiátin.
Em 1928 dá-se em Moscovo o sensacional processo das minas[6] — sensacional pela publicidade, pelas estonteantes confissões e pela autoflagelação dos acusados (ainda que nem todos). Dois anos depois, em setembro de 1930, são julgados com estrépito os organizadores da fome (são eles! são eles! ei-los!) — 48 sabotadores da indústria alimentar. Em fins de 1930, realiza-se ainda com maior estrondo e já impecavelmente ensaiado, o processo do «Partido Industrial»[7]: aqui, todos os acusados sem exceção assumem todo e qualquer repugnante absurdo. Nestes processos apresenta-se apenas uma pequena parte dos detidos, só aqueles que concordam em acusar-se a si próprios e acusar outros, de maneira antinatural, na esperança de alguma indulgência. Mas a maioria dos engenheiros, que tiveram coragem e sensatez para repelir os absurdos dos instrutores do processo, esses foram julgados sem barulho, mas também eles — os que não confessaram — apanham os mesmos dez anos aplicados pela comissão do GPU.
As torrentes fluem debaixo do chão, pelos tubos, canalizam a vida florescente à superfície.
Precisamente a partir desse momento, é dado um importante passo para a participação de todo o povo na canalização, para repartir por todo o povo a responsabilidade por ela: aqueles cujos corpos ainda não caíram nos alçapões da canalização, que os tubos ainda não conduziram ao Arquipélago, devem desfilar à superfície com bandeiras, glorificar os tribunais e alegrar-se com as repressões judiciais.
E eis que pelas fábricas e repartições, antecipando-se à decisão do tribunal, operários e empregados votam colericamente a favor da pena de morte contra os patifes dos réus. E já no processo do «Partido Industrial», são comícios e manifestações de toda a população (a que se juntam até os alunos das escolas), a marcha cadenciada de milhões e o rugido atrás dos vidros do edifício do tribunal: «À morte! À morte! À morte!»
Nesta viragem da nossa história soavam vozes solitárias de protesto ou de abstenção — era necessária muita coragem para, naquele coro e naqueles gritos, dizer «não!». Numa reunião do instituto politécnico de Leninegrado, o professor Dmitri Apolinarievitch Rojanski absteve-se (ele, compreendem, é contra a pena de morte em geral, porque isso, compreendem, na linguagem da ciência, é um processo irreversível) — e foi logo detido! O estudante Dima Olitski absteve-se, e foi logo detido! E todos esses protestos morriam à nascença.
E aproxima-se, devagar, mas aproxima-se a vez de meter na prisão os membros do partido governante! Por enquanto (1927-1929) é a «oposição operária»[8] ou os trotskistas, que escolheram um líder malfadado. Por enquanto são umas centenas, em breve serão milhares. Mas o mal é começar. A todos chega a sua vez. Um membro atrás do outro, mastigando a partir da cauda, a bocarra chegará à sua própria cabeça.
* * *
Assim borbulharam e fustigaram as torrentes — mas por cima de todas elas rolou e precipitou-se em 1927-1930 a torrente dos milhões de deskulakizados. Ela foi desmesuradamente grande e não caberia nem mesmo na desenvolvida rede de prisões, mas passou-lhes ao lado, ia diretamente para as prisões de trânsito, para o país do Gulag. Em toda a história da Rússia não houve nada que se lhe comparasse. Foi uma migração de povos, uma catástrofe étnica. Mas os canais do GPU-GULAG estavam tão habilmente desenhados, que as cidades não teriam dado por nada! — se não tivessem sido abaladas por uma estranha fome de três anos, uma fome sem seca e sem guerra.
Essa torrente distinguia-se de todas as anteriores também porque neste caso não houve o cuidado de começar por deter o chefe da família, e decidir depois o que fazer com os restantes membros. Pelo contrário, neste caso queimavam-se logo os ninhos completos, levavam sempre famílias inteiras e até procuravam ciosamente que nenhum dos filhos de catorze, dez ou seis anos se escapasse: todos deviam ir para o mesmo lugar, para o mesmo extermínio comum. (Esta foi a primeira experiência do género, pelo menos na história moderna. Será depois repetida por Hitler com os judeus e uma vez mais por Estaline com as nações infiéis ou suspeitas.)
Esta torrente continha muitos poucos daqueles «kulaks», designados por esse nome para desviar as atenções. Em russo chama-se «kulak» ao traficante rural mesquinho e desonesto, que enriquece não com o seu trabalho, mas à custa do trabalho alheio, pela agiotagem e a corretagem no comércio. Eles eram muito poucos em cada localidade mesmo antes da revolução, e a revolução privou-os por completo de campo de atuação.
Mas o empolamento do termo mordaz «kulak» continuou de modo irresistível e por volta de 1930 já se designavam assim todos os camponeses sólidos — sólidos na sua exploração agrícola, sólidos no trabalho e até simplesmente nas suas convicções. O apodo «kulak» era utilizado para quebrar a solidez. Como feras, perdendo toda a noção de «humanidade», perdendo os conceitos humanos acumulados ao longo de milénios — começaram a prender os melhores produtores de cereais juntamente com as famílias e, sem quaisquer bens, nus, a atirá-los para as regiões desabitadas do norte, para a tundra e para a taiga.
Mas dos campos coletivizados começaram a surgir novas torrentes:
— a torrente dos sabotadores da agricultura. Por toda a parte começaram a descobrir-se agrónomos sabotadores, que toda a sua vida tinham trabalhado honestamente e agora enchiam deliberadamente os campos russos de ervas daninhas;
— a torrente dos «que defendiam o não cumprimentos das obrigações de fornecimento de cereais ao Estado» (o comité distrital comprometia-se, mas o kolkhoze não cumpria — prisão!);
— a torrente dos cortadores de espigas. O corte noturno de espigas nos campos! — uma forma absolutamente nova de ocupação agrícola e uma nova forma de colheita! Por
essa ocupação amarga e pouco produtiva (nem nos tempos da servidão os camponeses chegaram a semelhante miséria!), os tribunais aplicavam penas pesadas: dez anos como pela mais perigosa pilhagem da propriedade socialista, segundo a célebre lei de agosto de 1932 (na linguagem vulgar dos presidiários a lei dos sete oitavos).
Mas por fim até vamos poder tomar fôlego! Finalmente agora acabaram-se as torrentes maciças! — o camarada Molotov disse em 17 de maio de 1933: «Não consideramos ser nossa tarefa a repressão em massa.» Ufa-ufa, já era tempo. Acabaram-se os medos noturnos! Mas por que ladram os cães? Aboca! Aboca!
Ora vejam! Começou a torrente Kirov vinda de Leninegrado, onde a tensão foi considerada tão forte que se criaram estados-maiores do NKVD junto de cada comité executivo de bairro e se introduziu o processo judicial
«acelerado» (já antes ele não primava pela lentidão) e sem direito de recurso (já antes ninguém recorria). Considera-se que em 1934-1935 um quarto da população de Leninegrado foi limpa[9].
* * *
Coisa paradoxal: durante os longos anos da sua atividade, os Órgãos omnipresentes e sempre vigilantes, tiraram toda a sua força de um único artigo dos 148 da parte especial do Código Penal de 1926.
Na verdade não existe debaixo da cúpula celeste conduta, desígnio, ação ou inação que não possa ser punida pela mão pesada do artigo 58.
O artigo 58 constava de catorze parágrafos.
Mas nenhum parágrafo do artigo 58 era interpretado de maneira tão ampla e com tão ardente consciência revolucionária como o Décimo. Visava: «A propaganda ou agitação que contenham um apelo ao derrubamento ou enfraquecimento do Poder Soviético… e também a difusão, preparação ou conservação de literatura com esse mesmo conteúdo.» E estabelecia, em tempo de paz, apenas o limite mínimo da pena (não baixo! não demasiado suave!), e não havia limite máximo!
Tal era a coragem da grande Potência perante a palavra do seu súbdito.
O parágrafo décimo primeiro era de um género especial: não tinha conteúdo autónomo, sendo um contrapeso de agravamento para qualquer dos anteriores, se a ação se preparava de maneira organizada ou se os criminosos atuavam numa organização.
Na realidade este parágrafo era tão largamente interpretado que não era exigida nenhuma organização. Eu próprio senti a maneira elegante como era aplicado este parágrafo. Éramos dois, que em segredo trocávamos impressões — ou seja um embrião de organização, ou seja uma organização! (Aliás, o segundo de nós não recebeu esse contrapeso.)
Mas o parágrafo décimo segundo era o que mais dizia respeito à consciência dos cidadãos: referia-se à não denúncia de um qualquer dos atos enumerados. E não havia limite superior para o castigo do grave pecado da não denúncia!
Esse parágrafo era em si mesmo tão vasto e inclusivo que não necessitava de mais alargamento. Sabia e não disse — é como se tivesse cometido!
* * *
A espada de Damasco do artigo 58, testada em 1927, foi usada com pleno estrépito e amplitude no ataque da Lei contra o Povo em 1937-1938.
No Outono, quando se esperava confiadamente uma grande amnistia geral pelo vigésimo aniversário de Outubro, o galhofeiro Estaline acrescentou ao Código Penal novas e nunca vistas penas de prisão — 15, 20 e 25 anos.
Não é necessário repetir aqui tudo o que já foi amplamente escrito e ainda será muitas vezes repetido sobre o ano de 1937: que foi desferido um golpe demolidor sobre os quadros dirigentes superiores do partido, a direção soviética, os comandos militares e a direção do próprio GPU-NKVD. É pouco provável que em alguma região se tenha mantido o primeiro-secretário do partido ou o presidente do comité executivo regional — Estaline escolheu outros que lhe eram mais favoráveis.
Eis um pequeno quadro do que acontecia naqueles anos. Uma conferência distrital (na região de Moscovo) da organização do partido. Dirige-a o novo secretário do comité distrital, em substituição daquele que foi recentemente detido. No final da conferência adota-se uma mensagem de fidelidade ao camarada Estaline. É claro, todos se levantam (como durante a conferência todos se levantavam de um salto de cada vez que o nome dele era referido). Na pequena sala eclode «uma tempestade de aplausos, que se transforma em ovação». Três minutos, quatro minutos, cinco minutos, os aplausos continuam tempestuosos e a transformar-se em ovação. Mas já doem as palmas das mãos. Já os braços levantados entorpecem. Já as pessoas de mais idade começam a ofegar. E já isto começa a tornar-se insuportavelmente estúpido até para aqueles que sinceramente adoram Estaline. Contudo: quem se atreve a ser o primeiro a interromper? Porque aqui, na sala, estão também a aplaudir de pé alguns membros do NKVD, e espreitam a ver quem será o primeiro que se atreve a parar!… E os aplausos na pequena sala desconhecida, ignorada pelo chefe, prolongam-se por seis minutos, sete minutos, oito minutos!… Eles sucumbem! Estão perdidos! Já não conseguem parar, enquanto não caírem de coração rebentado! O diretor de uma fábrica de papel local, homem sólido e independente, está na presidência e aplaude! — nono minuto! Décimo minuto! Olha com tristeza para o secretário do comité distrital, mas este não se atreve a parar. Loucura geral! E o diretor da fábrica de papel, ao 11.° minuto, assume o ar de homem prático e senta-se no seu lugar à mesa da presidência. E então — ó milagre! — onde foi parar o irresistível e indescritível entusiasmo geral? Todos pararam no mesmo aplauso e se sentaram ao mesmo tempo. Estavam salvos! O esquilo lembrou-se de saltar para fora da roda!…
Contudo, é precisamente assim que se descobrem os espíritos independentes. E é assim que os extirpam. Nessa mesma noite o diretor da fábrica foi detido. Facilmente acham outro motivo para lhe aplicar dez anos. Mas depois da assinatura do 206.° (conclusão das investigações), o instrutor do processo lembra-lhe:
— E nunca seja o primeiro a parar de aplaudir!
(Mas que fazer? Como havemos de parar?…)
É isto a seleção segundo Darwin. É isto o esgotamento pela estupidez.
Os intelectuais não foram esquecidos nas torrentes anteriores, e também agora o não serão. Basta a denúncia de um estudante, acusando um professor do seu instituto de citar cada vez mais Marx e Lenine e não citar Estaline, e o conferencista já não virá à conferência seguinte. E se ele nunca faz citações?… Em Leninegrado são presos todos os orientalistas da geração média e da geração mais jovem. São presos todos os membros do Instituto do Norte. Não desdenham também dos professores do secundário. Em Sverdlovsk foi aberto um processo a trinta professores das escolas médias, encabeçados pelo diretor da inspeção académica regional, Perel. Uma das terríveis acusações: armaram nas escolas árvores de Natal para incendiar as escolas! [10]
A par das torrentes principais, havia uma torrente especial: as esposas, os membros da família. Como norma, os membros da família apanhavam todos oito anos.
— O pesquisador de minas Nikolai Merkurievitch Mikov, devido a uma qualquer anomalia nos estratos, faz duas galerias convergentes falharam o encontro: artigo 58-7, 20 anos!
— um eletricista tem uma rotura de um cabo de alta tensão no seu setor: 58-7, 20 anos;
— um canalizador desligava o altifalante no seu apartamento sempre que transmitiam as intermináveis cartas a Estaline. Um vizinho denunciou-o: elemento socialmente nocivo, 8 anos;
— um construtor de fornos semianalfabeto, nos seus tempos livres, gostava de escrever a sua assinatura — isso elevava-o aos seus próprios olhos. Como não tinha papel em branco, assinava nos jornais. O seu jornal com rubricas traçadas no rosto do Pai e Mestre foi encontrado pelos vizinhos na casa de banho comunitária. Propaganda antissoviética, 10 anos.
As detenções alastravam pelas ruas e pelos prédios como uma epidemia. Montes de vítimas! Montanhas de vítimas! Ataque frontal do NKVD: a S. P. Matvéieva, numa mesma onda, mas por «casos» diferentes, detiveram-lhe o marido e três irmãos (três desses quatro homens nunca mais voltaram).
E a divisão continuava a ser a mesma: de noite as carrinhas celulares, de dia as manifestações.
Mas quem é que notou em 1940 a torrente das esposas por não renegarem os maridos? E quem é que se lembra, mesmo em Tambov, de que nesse ano de paz prenderam os membros da orquestra de jazz que tocava no cinema «Modern», porque afinal eram todos inimigos do povo?
Mas permitam, não foi em 1939 que nós estendemos a mão para ajudar os ucranianos ocidentais, os bielorrussos ocidentais, e depois em 1940 também os do Báltico e os moldavos? Os nossos irmãos revelaram-se não muito limpos, e correram dali numa torrente de profilaxia social para o desterro no norte, para a Ásia central — e eram muitas centenas de milhares.
* * *
Na guerra com a Finlândia fez-se uma primeira experiência: julgar como traidores à Pátria os nossos soldados que caíram prisioneiros. Primeira experiência na história da humanidade! — mas vejam lá, nós não demos por nada!
Terminaram o ensaio — e precisamente começou a guerra e com ela uma grandiosa retirada. Na Lituânia foram abandonados à pressa unidades militares inteiras, regimentos, divisões de artilharia e de defesa antiaérea — mas conseguiram deslocar vários milhares de famílias de lituanos suspeitos. Esqueceram-se de evacuar fortalezas inteiras, como a de Brest, mas não se esqueceram de fuzilar os presos políticos nas celas e nos pátios das prisões de Lvov, Rovensk, Tallin e muitas outras prisões das regiões ocidentais. Na prisão de Tartu fuzilaram 192 pessoas e atiraram os corpos para um poço.
Em 1941 os alemães cercaram e isolaram tão depressa Taganrog, que na estação ficaram vagões de mercadorias carregados de presos para evacuação. Que fazer? Não vamos agora libertá-los. Nem entregá-los aos alemães. Mandaram vir cisternas cheias de petróleo, regaram os vagões e depois deitaram fogo. Todos morreram queimados vivos.
Na retaguarda, logo a primeira torrente da guerra foi a dos propagadores de boatos e semeadores do pânico. Depois foi a vaga dos recetores de rádio ou peças de aparelhos de rádio. Por uma lâmpada de rádio encontrada (por denúncia) aplicavam dez anos.
Ao mesmo tempo, houve a torrente dos alemães — alemães da região do Volga, colonos da Ucrânia e do Cáucaso do Norte, e em geral todos os alemães que viviam na União Soviética. O critério determinante era o sangue, e até os heróis da Guerra Civil e velhos membros do partido, mas que eram alemães, iam para esse desterro.
A partir do fim do Verão de 1941 e mais ainda no Outono, desabou a torrente dos sitiados. Eram defensores da pátria, aqueles que vários meses antes as nossas cidades tinham acompanhado na despedida com fanfarras e flores, que depois disso tiveram que suportar os mais duros ataques dos tanques alemães e que, no caos geral e sem terem culpa nenhuma, não caíram prisioneiros, não! — mas em grupos combatentes isolados passaram algum tempo no cerco alemão e depois conseguiram sair. E em vez de os abraçarem fraternalmente no seu regresso (como faria qualquer exército do mundo), deixá-los descansar e voltar depois às fileiras — conduziram-nos sob suspeita, sob desconfiança, em grupos desarmados e sem direitos, a postos de controlo e de triagem, onde os oficiais das Secções Especiais começavam por desconfiar de cada palavra deles e até de que fossem quem diziam ser.
A partir de 1943, quando a guerra mudou a nosso favor, começou, mais abundante de ano para ano até 1946, a torrente de muitos milhões dos territórios ocupados da Europa. Dividiam-se em duas partes principais:
— os civis que tinham vivido sob a ocupação alemã;
— os militares que tinham ficado prisioneiros de guerra.
Cada pessoa que ficava sob a ocupação queria em todo o caso continuar a viver e por isso atuava, e por isso podia teoricamente ganhar todos os dias o sustento e o futuro motivo de condenação: se não de traição à pátria, pelo menos de cumplicidade com o inimigo.
Condenavam com mais rigor e mais severidade aqueles que tinham permanecido na Europa, nem que fosse como escravos dos alemães, porque tinham visto um pouco da vida europeia e podiam falar dela, e esses relatos, sempre desagradáveis para nós, eram especialmente desfavoráveis nos anos do pós-guerra, de ruína e desorganização.
Foi por esse motivo e não pelo simples facto de terem caído prisioneiros dos alemães que a maioria dos nossos prisioneiros de guerra foram julgados — em especial aqueles que viram no Ocidente um pouco mais do que o campo da morte alemão.
No meio da torrente geral dos libertos da ocupação alemã, passaram também rapidamente, um após outro, os fluxos das nações faltosas:
Em 1943 — calmucos, chechenos, inguches, balcários, karachaevos;
Em 1944 — os tártaros da Crimeia.
Não teriam sido expedidos com tanta rapidez e energia para o seu desterro eterno se os Órgãos não tivessem sido auxiliados pelas tropas regulares e pelos camiões militares. Unidades militares cercavam com bravura as aldeias, e em vinte e quatro horas, com a celeridade de uma impetuosa operação de comando, aquelas pessoas que tinham construído ali os seus ninhos para séculos, eram levadas para as estações ferroviárias e logo carregadas em comboios que partiam imediatamente para a Sibéria, para o Cazaquistão, para a Ásia Central, para o Norte da Rússia. Vinte e quatro horas depois, as suas terras e os seus bens eram já transferidos para os seus sucessores.
Como os alemães no início da guerra, também agora todas aquelas nações eram expedidas exclusivamente pelo critério do sangue, sem inquéritos — membros do partido, heróis do trabalho, e heróis da guerra ainda não terminada seguiam também para lá.
A partir de fins de 1944, quando o nosso exército chegou à Europa Central, pelas canalizações do GULAG correu também a torrente dos emigrantes russos — velhos que tinham partido no tempo da revolução, e jovens que ali tinham crescido. (É verdade que não os prendiam todos, mas aqueles que em 25 anos tinham manifestado, ainda que vagamente, as suas opiniões políticas ou que o tivessem feito antes disso, durante a revolução.)
Foram presos quase um milhão de refugiados do poder soviético durante os anos da guerra — civis de todas as idades e de ambos os sexos, refugiados no território dos aliados, mas perfidamente entregues por eles, em 1946-1947, às mãos dos soviéticos. Eram principalmente simples camponeses que guardavam um sério agravo pessoal contra os bolcheviques. Todos eles foram enviados para o extermínio no Arquipélago. Em que parte do mundo e em que continente os governos ocidentais se atreveriam a entregar assim tanta gente, sem temer a fúria da opinião pública nos seus países?
* * *
É preciso lembrar que este capítulo não procura de modo nenhum enumerar todas as torrentes que foram fertilizar o GULAG, mas apenas aquelas que tiveram um matiz político. Do mesmo modo que, num curso de anatomia, depois da descrição pormenorizada da circulação sanguínea, se pode começar de novo e proceder à descrição em pormenor do sistema linfático, assim se pode seguir de novo desde 1918 até 1953 as torrentes dos de direito comum e dos propriamente criminosos. Também aqui se esclareceriam muitos decretos famosos, que forneciam ao insaciável Arquipélago abundante material humano. O decreto sobre o absentismo no trabalho. O decreto sobre o lançamento de produtos de má qualidade. O decreto sobre a destilação ilícita. O decreto para punição dos kolkhozianos por não cumprirem a norma obrigatória de dias de trabalho.
O decreto sobre a militarização dos caminhos de ferro levou aos tribunais multidões de mulheres e de adolescentes, que eram quem principalmente trabalhava nos caminhos de ferro durante os anos da guerra.
No entanto, neste capítulo não entraremos na análise alargada e profunda das torrentes do direito comum e criminal. Mas não podemos, ao chegar ao ano de 1947, passar em silêncio um dos mais grandiosos decretos de Estaline. Já referimos a célebre lei «de sete o oitavo», ou dos « sete oitavos», lei em virtude da qual detiveram abundantemente — por uma espiga, por um pepino, por duas batatas, por um cavaco de lenha, por um carrinho de linhas (no auto escrevia-se «duzentos metros de material de costura», em todo o caso seria vergonhoso escrever «um carrinho de linhas») — tudo sempre por dez anos.
Mas as exigências do tempo, como as entendia Estaline, mudavam, e essa dezena, que parecia bastante em vésperas de uma guerra feroz, agora, depois de uma vitória histórica a nível mundial, parecia bastante fraca. E em 4 de junho de 1947 foi tornado público um decreto que foi imediatamente batizado pelos presidiários animosos como decreto dos « quatro sextos».
A superioridade do novo decreto estava na duração das penas: se, para ganhar coragem, não era só uma rapariga que ia apanhar espigas, mas três («bando organizado»), se vários rapazolas de doze anos iam aos pepinos ou às maçãs, apanhavam até vinte anos de campo; na fábrica, a pena máxima foi aumentada para vinte e cinco anos (um quarteirão). Enfim, corrigia-se uma antiga injustiça, em que só a não denúncia política era considerada crime de Estado — agora também à não denúncia de roubo dos bens do Estado ou do kolkhoze aplicavam-se três anos de campo de trabalho ou sete anos de desterro.
Nos anos que se seguiram ao decreto, divisões inteiras de habitantes do campo e da cidade foram enviados para cultivar as ilhas do GULAG em substituição dos indígenas que lá morriam. Na verdade, essas torrentes passavam pela milícia e pelos tribunais comuns, sem ir obstruir os canais da segurança do Estado que, mesmo assim, estavam sobrecarregados nos anos que se seguiram à guerra.
* * *
Esta nova linha de Estaline — segundo a qual depois da vitória sobre o fascismo era necessário prender mais energicamente que nunca, muitos e por muito tempo — refletiu-se também logo naturalmente sobre os presos políticos.
Os anos 1948-1949 foram marcados pela tragicomédia dos reincidentes, inédita mesmo nas iniquidades estalinistas.
Eram assim chamados na linguagem do GULAG aqueles infelizes que tinham escapado em 1937, que tinham saído com vida de dez anos insuportáveis, impossíveis e que agora, em 1947-1948, extenuados, quebrados, acabavam de pousar um pé tímido em terra livre — na esperança de se arrastarem até ao fim no pouco que lhes restava de vida.
Mas uma qualquer fantasia selvagem (ou uma persistente maldade, ou uma insaciável vingança) levou o Generalíssimo vitorioso a dar uma ordem: prender outra vez esses inválidos, sem nova culpa! Para ele era mesmo desvantajoso, do ponto de vista económico e político, encher a goela da máquina com os próprios dejetos dela. Mas foi precisamente isso que Estaline decidiu. Este foi um caso em que uma personalidade histórica impõe os seus caprichos à necessidade histórica.
E a todos eles, acabados de se ligarem a novos lugares e a novas famílias, os foram buscar. Levaram-nos com o mesmo cansaço indolente com que também eles caminhavam. Já sabiam tudo de antemão — conheciam todo o caminho da cruz. Não perguntavam «porquê?» nem diziam aos familiares «eu volto», vestiam as roupas mais sujas, lançavam na bolsa do campo o tabaco ordinário e iam assinar o auto. (Que era o mesmo para todos: «Você esteve preso?» — «Estive.» — «Aqui tem mais dez».)
E então o Egocrata apercebeu-se de que isso não bastava — prender os sobreviventes de 1937! Também é preciso prender os filhos desses seus inimigos jurados! Porque eles crescem, e ainda lhes dá para se vingarem. Depois da grande confusão europeia, Estaline conseguiu, em 1948, voltar a rodear-se com êxito de uma proteção sólida, baixar mais o teto e nesse espaço cercado adensar a anterior atmosfera de 1937.
As torrentes eram semelhantes à de 1937, mas as penas eram diferentes: agora o padrão não era já a velha dezena patriarcal, mas o novo quarteirão estalinista. Agora a dezena era já como pena para crianças.
Também não foram esquecidas as torrentes nacionais. Fluía constantemente a torrente dos banderistas, capturados nas florestas onde combatiam. Mais ou menos a partir de 1950 começou também a torrente das mulheres dos banderistas[11] — aplicavam-lhes a dezena, por não terem denunciado.
Das três repúblicas bálticas, eram levados em comboios inteiros, para a deportação na Sibéria, citadinos e camponeses.
Nos últimos anos da vida de Estaline, começou a desenhar-se a torrente dos judeus (desde 1950 começaram a levá-los aos poucos, como cosmopolitas).
Para isso foi iniciado os «processo dos médicos»[12]. Parece que ele se preparava para organizar um grande massacre de judeus.
No entanto, este foi o primeiro desígnio da vida dele que falhou. Deus ordenou-lhe — ao que parece por mãos humanas — que saísse da sua carcaça.
* * *
O relato que precede deve ter mostrado, parece-me, que o desenraizamento de milhões e o povoamento do Gulag eram resultados de uma lógica friamente calculada e de uma tenacidade constante.
Que no nosso país nunca houve prisões vazias, mas sempre cheias ou superlotadas.
Que enquanto vocês se compraziam a penetrar nos segredos inofensivos do núcleo atómico, estudavam a influência de Heidegger em Sartre e colecionavam reproduções de Picasso, viajavam em carruagem-cama para estâncias balneares ou acabavam de construir datchas nos arredores de Moscovo — as carrinhas celulares percorriam as ruas, e os tchekistas batiam e tocavam às portas.
E eu acho que este relato mostra que os Órgãos justificavam sempre o pão que comiam.
Se os intelectuais de Tchékhov, que passavam o tempo a conjeturar o que aconteceria dentro de vinte, trinta ou quarenta anos, tivessem obtido a resposta de que dentro de quarenta anos, na Rússia, haveria instrução de processo com tortura, que apertariam o crânio de um homem com um aro de ferro, que meteriam uma pessoa numa banheira com ácidos, torturariam um homem nu e manietado com formigas e percevejos, enfiariam no orifício anal uma vareta de espingarda aquecida num fogareiro a petróleo (a «marca secreta»), e como forma mais suave torturariam uma pessoa durante uma semana sem dormir, sem beber e a espancariam até ficar em carne viva — nenhuma peça de Tchékhov chegaria ao fim e todas as personagens iriam parar ao manicômio.
E não apenas os heróis de Tchékhov, mas qual o russo normal do princípio do século que podia acreditar, que podia suportar semelhante calúnia contra o futuro radioso? Aquilo que ainda se harmonizava no reinado de Aleksei Mikháilovitch, que no tempo de Pedro I já parecia barbaridade, que no tempo de Biron[13] podia ser aplicado a dez ou vinte pessoas e se tornou completamente impossível no reinado de Catarina — no florescimento do grande século XX, numa sociedade concebida segundo o princípio socialista, nos anos em que já voavam os aviões, tinham aparecido os filmes sonoros e a rádio — foi perpetrado não por um celerado, não num lugar escondido, mas por dezenas de milhares de homens-feras especialmente treinados, sobre milhões de vítimas indefesas.
E será horrível apenas essa explosão de um atavismo, agora chamado com ligeireza «culto da personalidade»? Não é também horrível que nesses mesmos anos tenhamos festejado o centenário da morte de Púchkin? Tenhamos representado com despudor essas mesmas peças de Tchékhov, embora tivéssemos já obtido a resposta às suas perguntas? O mais horrível ainda é que nos digam: não se deve falar disso! Se vamos recordar o sofrimento de milhões, isso destruirá a perspectiva histórica! Falem antes dos altos-fornos, dos laminadores, dos canais abertos…
Não se compreende porque é que amaldiçoamos a Inquisição. Pois, além das fogueiras, não havia também solenes cultos religiosos? Não se compreende porque é que detestamos tanto a servidão. Afinal não se impedia o camponês de fazer o seu trabalho de todos os dias. E ele podia ir cantar de casa em casa no Natal, e nas Trindades as raparigas teciam coroas…
* * *
Em diferentes anos e décadas, a instrução do processo pelo artigo 58 quase nunca buscou o apuramento da verdade, consistindo apenas no inevitável procedimento sórdido: agarrar um homem ainda há pouco livre, por vezes orgulhoso, sempre impreparado, dobrá-lo, fazê-lo passar por um tubo estreito, onde os ganchos da armadura lhe rasgavam os flancos, onde lhe era impossível respirar, de modo a que ele implorasse para chegar ao outro extremo — e o outro extremo do tubo expelia-o já transformado num perfeito indígena do Arquipélago e já na terra prometida. (O ingénuo obstina-se em pensar que o tubo pode ter também uma saída para trás.)
No Dicionário da Língua Russa, de Dal, faz-se a seguinte distinção: o inquérito difere da instrução porque é feito para apurar previamente se há fundamento para a instrução.
Oh, santa simplicidade! Pois se os Órgãos nunca souberam o que era um inquérito! As listas enviadas pelos dirigentes ou a primeira suspeita, a denúncia de um informador ou mesmo uma denúncia anónima levavam à detenção e depois à inevitável acusação. E a ligação aqui era muito simples: visto que era preciso acusar a qualquer custo, tornavam-se inevitáveis as ameaças, a violência e as torturas, e quanto mais fantástica era a acusação, mais brutal devia ser a instrução, para obrigar à confissão. A violência e as torturas não são apanágio do ano de 1937, mas um fenómeno longo e de caráter geral. Nunca houve barreiras espirituais ou morais que pudessem impedir os Órgãos de recorrerem à tortura.
Mas se até àquele ano, para a aplicação da tortura era necessária uma certa formalidade, uma autorização para cada caso de instrução (ainda que fosse fácil obtê-la) — em 1937-1938, a violência e a tortura foram autorizadas sem limite aos instrutores, segundo as exigências do seu trabalho e o prazo concedido. Também não havia qualquer regulamentação quanto às formas de tortura e toda a inventividade era admitida. Em 1939 foi suprimida essa autorização tão vasta e geral, e de novo se exigia a regularização por escrito para aplicação da tortura. Mas já no final da guerra e nos anos seguintes foram decretadas certas categorias de presos em relação aos quais estava antecipadamente autorizado um vasto leque de torturas.
Como os carrascos medievais, os nossos comissários instrutores, procuradores e juízes aceitaram considerar como prova principal de culpa a confissão do acusado. Porém, a ingénua Idade Média, para forçar a desejada confissão, recorria a processos dramáticos imaginosos: a roldana, a roda, o braseiro, o escovilhão e a empalação. Mas no século XX consideraram essa concentração de meios fortes como supérflua e incómoda para aplicação em massa.
E além disso, aparentemente, havia ainda outra circunstância: como sempre, Estaline nunca proferia a última palavra, os subordinados é que deviam adivinhar e ele deixava sempre uma escapatória para recuar. Era em todo o caso na história da humanidade a primeira vez que se aplicava a tortura planificada de milhões, e apesar de toda a força do seu poder Estaline não podia ter a certeza absoluta do êxito. Em todos os casos tinha de manter a sua casula angelicamente limpa.
É pois de crer que não existisse uma lista de torturas e de escárnios que fosse entregue aos instrutores sob forma impressa. Exigia-se simplesmente que cada departamento de instrução apresentasse ao tribunal dentro do prazo um certo número de coelhos que tivessem confessado tudo. Apenas se dizia (oralmente mas com muita frequência), que todas as medidas e todos os meios eram bons, uma vez que estavam dirigidos a um objetivo elevado; que ninguém pediria contas a um instrutor pela morte de um interrogado; que o médico prisional devia intervir o menos possível no decurso da instrução.
Os verdadeiros limites do equilíbrio humano são muito estreitos, e não há qualquer necessidade da roldana ou do braseiro para pôr uma pessoa mediana fora de si.
Experimentemos enumerar alguns dos procedimentos mais simples que quebram a vontade e a personalidade do detido, sem lhe deixar marcas no corpo.
— Comecemos pelas noites. Porque é que decorre à noite tudo o mais importante no enfraquecimento das almas? Porque é que os Órgãos, desde os seus primeiros anos de existência, escolhiam atuar à noite? Porque à noite, arrancado ao sono (mesmo que ainda não tenha começado a tortura do sono), o detido não consegue estar equilibrado e lúcido como durante o dia — está mais maleável.
— A persuasão num tom de franqueza. A coisa mais simples. Para quê brincar ao gato e ao rato? E o instrutor fala num tom displicente e amigável: «Tu bem vês que de qualquer maneira vais ser condenado. Se resistires, aqui, na prisão, estás feito, arruínas a saúde. Mas se fores para o campo de trabalho, encontras ar, luz… De modo que o melhor é assinares já.» Muito logicamente. E são sensatos aqueles que concordam e assinam, se… Se é só deles próprios que se trata! Mas isso é raro. E a luta é inevitável.
— O insulto grosseiro. É um meio simples, mas pode ser muito eficaz em pessoas educadas. Conheço dois casos com sacerdotes, em que eles cederam ao simples insulto.
— O golpe do contraste psicológico. As mudanças bruscas: todo o interrogatório ou uma parte dele ser extremamente amável, e depois, de repente, agarra-se num pisa-papéis: «Ah, canalha! Levas com nove gramas na nuca!» Como variante: alternam dois instrutores, um deles é todo cheio de fúria e de violência, o outro é simpático, quase cordial. De cada vez que o acusado entra no gabinete, treme, nunca sabe qual vai encontrar. O contraste fá-lo querer assinar com o segundo e confessar até coisas que não fez.
— A humilhação prévia. Nas célebres caves da GPU de Rostov («Número trinta e três») por baixo do grosso passeio de vidro (um antigo entreposto), os presos à espera do interrogatório eram colocados durante algumas horas deitados de bruços no chão e proibidos de levantar a cabeça, de produzir qualquer som.
— A intimidação. O método mais utilizado e muito variado. Muitas vezes em ligação com promessas aliciantes e, claro, falsas. No ano de 1924: «Não confessa? Terá de ir para as Solovki. Àqueles que confessam, libertamo-los.» No ano de 1944: «Depende de mim qual o campo para onde vais. Há campos e campos. Agora até temos os de trabalhos forçados. Se fores teimoso, apanhas vinte e cinco anos de trabalhos subterrâneos, com algemas!»
— A mentira. Nós, pobres cordeirinhos, não podemos mentir, mas o instrutor está sempre a mentir e nenhum desses artigos se aplica a ele. A intimidação aliada às promessas aliciantes e à mentira são o meio fundamental de ação sobre os parentes do detido, chamados a testemunhar. «Se você não testemunhar assim (da maneira exigida), será pior para ele… Vai arruiná-lo completamente… (o que sente uma mãe ao ouvir isto?). Só assinando este papel (que lhe põem à frente) o poder salvar.»
— O jogo com a afeição às pessoas de família — funciona muito bem com o acusado. Ameaçam prender todos aqueles a quem ele ama.
Do mesmo modo que na natureza nenhuma classificação tem compartimentos rígidos, também não conseguimos separar com nitidez os métodos psíquicos e físicos. Como classificar, por exemplo este divertimento:
— O método sonoro. Sentar o acusado a uma distância de seis ou oito metros e obrigá-lo a falar cada vez mais e a repetir. Isto é difícil para uma pessoa já extenuada.
— O método luminoso. A luz elétrica intensa acesa vinte e quatro horas por dia na cela ou numa box, uma lâmpada desmesuradamente forte para um espaço pequeno e de paredes brancas. As pálpebras inflamam-se, o que é muito doloroso. E no gabinete do instrutor viram para o acusado os projetores do escritório.
— A prisão começa pela box, ou seja uma caixa ou um armário. À pessoa que acaba de ser arrancada à liberdade, ainda embalada no seu movimento interior, fecham-na numa caixa, por vezes com uma lâmpada acesa e onde se pode sentar, por vezes escura e tão estreita que só pode estar em pé e ainda apertado com a porta. E mantêm-na ali durante algumas horas, meio dia, um dia inteiro. Horas de total ignorância! Alguns ficam de espírito abatido — e então fazem-lhes o primeiro interrogatório! Outros exacerbam-se — é melhor ainda, agora vão insultar o instrutor, cometer uma imprudência e será fácil processá-los.
— Quando não havia boxes bastantes, procediam ainda de outra maneira. A Elena Strutínskaia, no NKVD de Novotcherkass, sentaram-na durante seis dias no corredor num tamborete — de tal maneira que ela não se podia encostar a nada, não dormia, não caía e não se levantava. Isto durante seis dias! Experimente você ficar assim seis horas.
Ou então obrigavam-no simplesmente a ficar de pé. Pode ficar de pé só durante a duração do interrogatório, o que também cansa e quebra. Pode também ficar sentado durante os interrogatórios, mas tendo que ficar de pé entre um e outro interrogatório (colocam uma sentinela, um vigilante para o não deixar encostar-se à parede e, se adormecer ou cair, dar-lhe pontapés e levantá-lo). Por vezes basta um dia de estátua, para que a pessoa fique sem forças e faça todas as declarações.
— Durante todos esses 3, 4, 5 dias em pé, habitualmente não dão de beber.
Torna-se cada vez mais compreensível a combinação dos meios psicológicos e físicos. Compreende-se igualmente que todas as medidas citadas se associem a:
— Privação do sono, método que a Idade Média não avaliara devidamente: não sabia como é estreita a margem em que o homem conserva a sua personalidade. A privação do sono (combinada ainda por cima com a estátua, com a sede, a luz viva, o medo e a incerteza — que torturas são as tuas!?) perturba a razão, quebra a vontade, e a pessoa perde a noção do seu «eu».
A privação do sono é um grande meio de tortura e que não deixa quaisquer sinais visíveis, nem sequer motivo para queixas, caso surgisse amanhã uma inspeção nunca vista. «Não o deixaram dormir? Mas isto não é uma casa de repouso!» Pode-se dizer que a privação do sono se tornou um meio universal nos Órgãos, que saiu da categoria das torturas para a regra da segurança do Estado. Em todas as prisões de instrução não se pode dormir nem um minuto desde o levantar até ao recolher (em Sukhanovka e em mais algumas, o beliche é para isso recolhido na parede durante o dia, e noutras não se podem simplesmente deitar e mesmo sentados não podem fechar as pálpebras). E principalmente, todos os interrogatórios são de noite.
— Um desenvolvimento do método anterior é a instrução em cadeia. Não só não te deixam dormir, como te interrogam três ou quatro dias seguidos por turnos de instrutores.
— Os calabouços. Por muito mal que se estivesse numa cela, o calabouço é sempre pior do que ela; dali a cela parece sempre o paraíso. No calabouço a pessoa é esgotada pela fome e habitualmente pelo frio (em Sukhanovka há também calabouços escaldantes). Por exemplo, os calabouços de Lefortovo não são aquecidos, despem o detido até ficar em roupa interior, por vezes só em cuecas, e ele tem de ficar ali imóvel (não há espaço), de três a cinco dias (só ao terceiro dia dão uma sopa aguada quente). Nos primeiros minutos pensa: não resistirei nem uma hora. Mas por um qualquer prodígio, suporta os seus cinco dias, contraindo talvez uma doença para toda a vida.
Os calabouços apresentam algumas variantes: humidade, água. Já depois da guerra, na prisão de Tchernovits, mantiveram Macha Gógol durante duas horas descalça com água gelada pelos tornozelos — confessa! (Ela tinha dezoito anos, que lástima as suas pernas e quanto tempo ainda teria de viver com elas!)
— Deve-se contar como uma variante do calabouço o encerramento de pé, num nicho? Já em 1933, no GPU de Khabarovsk, torturaram dessa maneira S. A. Tchebotariov: fecharam-no, nu, num nicho de betão de maneira que ele não podia dobrar os joelhos, nem estender ou mover os braços, nem virar a cabeça. Mas isto não é tudo! Começou a pingar-lhe água fria no alto da cabeça (que coisa de antologia!…) e a escorrer-lhe fiozinhos pelo corpo. Não o avisaram, é claro, que isto era só por vinte e quatro horas. Seja horrível ou não seja, a verdade é que ele perdeu os sentidos e no dia seguinte encontraram-no como morto. Durante muito tempo não foi capaz de se lembrar de onde tinha vindo nem o que se passara na véspera. Durante um mês esteve incapacitado até para os interrogatórios.
— A fome já foi aqui referida, na descrição do efeito combinado. Extrair confissões do detido através da fome é um meio bastante frequente. A escassa ração prisional, em 1933, ano sem guerra, era de 300 gramas, em 1945, na Lubianka, era de 450 gramas; o jogo com as autorizações e proibições de receber encomendas ou comida de fora, são procedimentos universais, aplicados a todos.
— O espancamento, sem deixar marcas. Espancam com bastões de borracha, com matracas e com sacos cheios de areia. É muito doloroso quando nos batem nos ossos, por exemplo quando o instrutor dá pontapés nas canelas, onde o osso está quase à superfície. O comandante de regimento Karpunitch-Braven foi espancado durante vinte e um dias seguidos. (Diz ele agora: «Ao fim de trinta anos doem-me todos os ossos e a cabeça».) Segundo as suas recordações, e pelos relatos que ouviu, conta cinquenta e dois meios de tortura.
Será necessário continuar a enumeração? Ainda há muito que enumerar? O que é que não inventam os ociosos, os saciados, os insensíveis?…
Meu irmão! Não condenes aqueles que, em tal situação, se mostraram fracos e assinaram o que não deviam…
* * *
Pois bem. Nem essas torturas, nem mesmo os meios mais «leves» são necessários para obter declarações da maioria, para apanhar entre os dentes de ferro os cordeiros que não estão preparados e que só querem regressar ao aconchego do seu lar.
Desde a juventude, instruem-nos para a nossa profissão; para os deveres de cidadãos; para o serviço militar; para os cuidados com o próprio corpo; para o comportamento decoroso; e até para a compreensão do belo (bem, isto não muito). Mas nem a educação, nem a instrução, nem a experiência nos preparam de modo nenhum para a maior prova da nossa vida: a detenção sem motivo e o interrogatório sobre nada.
… E como fazer? Como podes resistir? — sensível à dor, fraco, com vivas ligações de afeto, sem preparação?…
O que é preciso para ser mais forte do que o instrutor e que toda aquela armadilha?
É preciso entrar na prisão sem tremer pela vida confortável que se deixa para trás. É preciso dizer a si próprio, ao passar o limiar: a vida acabou-se, um pouco cedo, mas não há nada a fazer. Nunca mais voltarei à liberdade. Estou condenado, acabado — agora ou um pouco mais tarde, mas mais tarde será ainda mais difícil, portanto é melhor mais cedo. Já não possuo bens. Os meus próximos morreram para mim e eu morri para eles. A partir de hoje, o meu corpo é para mim um corpo inútil, estranho. Só o meu espírito e a minha consciência me são caras e importantes.
E em face de semelhante detido a instrução treme!
Só aquele que renuncia a tudo vencerá!
Mas como transformar o próprio corpo em pedra?
Vejamos como os membros do grupo de Berdiáiev se deixaram transformar em marionetas para o tribunal, mas o próprio Berdiáiev não. Quiseram arrastá-lo para o processo, prenderam-no duas vezes, levaram-no (em 1922) para um interrogatório noturno no gabinete de Dzerjinski. Mas Berdiáiev não se humilhou, não implorou, e expôs-lhes com firmeza os princípios religiosos e morais pelos quais não aceitava o poder instituído na Rússia — e não só reconheceram a inutilidade de o levar a tribunal, como o puseram em liberdade. Um homem que mostrou o seu ponto de vista!
N. Stoliárova recorda a sua vizinha de tarimba na prisão de Butirki, em 1937, uma velhinha. Interrogavam-na todas as noites. Dois anos antes, o antigo metropolita, fugido do desterro, tinha pernoitado em casa dela, em Moscovo. — «Não o antigo, mas o autêntico metropolita! Na verdade, tive a honra de o acolher.» — «Bom, está bem. Mas, para casa de quem foi ele, depois de Moscovo?» — «Sei. Mas não digo!» (O metropolita fugiu para a Finlândia, através de uma corrente de crentes.) Os instrutores sucediam-se e reuniam-se em grupos, agitavam os punhos diante do rosto da velhinha, mas ela dizia-lhes: «Vocês não podem fazer nada de mim, nem que me cortem aos bocados. Porque vocês têm medo dos vossos chefes, têm medo uns dos outros, até têm medo de me matar («perderão o elo»). Mas eu não tenho medo de nada! Estou pronta a responder perante Deus agora mesmo!»
Não se pode dizer que a história dos revolucionários russos nos tenha dado melhores exemplos de firmeza. Mas aqui não há comparação, porque os nossos revolucionários nunca souberam o que era uma instrução verdadeiramente boa, com cinquenta e dois meios de tortura.
Chechkovski não torturou Radíchev. E Radíchev sabia bem, pelos costumes da época, que os seus filhos continuariam a servir como oficiais da guarda e ninguém lhes estragaria a vida. E ninguém confiscaria o património de Radíchev. E mesmo assim na sua breve instrução de duas semanas, esse homem notável renegou as suas convicções, os seus livros e pediu clemência.
Nicolau I não teve a crueldade de prender as mulheres dos dezembristas, de obrigá-las a gritar no gabinete do lado ou de torturar os próprios dezembristas. Não foram responsabilizadas as pessoas que «sabiam da preparação da revolta e não a denunciaram». E nem uma sombra caiu sobre os parentes dos condenados (houve um manifesto especial sobre isso). Mas até Riléiev «respondeu minuciosamente, francamente, sem nada ocultar». Até Pestrel se rachou e disse os nomes dos seus camaradas (ainda em liberdade), a quem tinha encarregado de enterrar o jornal Russkaia Pravda, e o lugar onde estava enterrado. Foram raros os que, como Lenine, brilharam pela irreverência e o desprezo perante a comissão de inquérito.
No final do século passado e princípio do presente século, um oficial da gendarmaria retirava imediatamente uma pergunta se o acusado a considerava despropositada ou intromissão na vida íntima. — Quando em 1938, em Krest, espancaram o velho preso político Zelenski com varetas de espingarda, despindo-lhe as calças como um rapazinho, ele desatou a chorar na cela: «Os instrutores czaristas nem se atreveriam a tratar-me por “tu”!»
* * *
A nossa detenção (minha e de Nikolai Vitkevitch, meu colega de processo) teve um caráter infantil, embora fôssemos já oficiais combatentes na frente. Durante a guerra, eu e ele trocávamos correspondência entre dois sectores da frente e não conseguíamos, mesmo com a censura militar, impedir-nos de exprimir quase abertamente nas cartas o nosso descontentamento político e as nossas invetivas contra o Sábio dos Sábios, cujo nome tínhamos codificado de um modo transparente de Pai para Cabecilha. (Quando mais tarde nas prisões eu contava o meu caso, a nossa ingenuidade só provocava riso e espanto. Diziam-me que não era possível encontrar outros dois tansos como nós.)
O gabinete de I. I. Ezépov, instrutor do meu processo, era alto, espaçoso, com uma janela muito grande — e, aproveitando a altura de cinco metros, tinham pendurado um retrato de quatro metros, de corpo inteiro, do poderoso Soberano. Por vezes o comissário instrutor colocava-se diante dele e jurava com ar teatral: «Estamos prontos a dar a vida por ele! Por ele estamos prontos a atirar-nos para debaixo dos tanques!» Diante desta grandiosidade do retrato, quase de altar, parecia lastimável o meu balbucio sobre não sei que purificação do leninismo, e eu próprio um sacrílego blasfemo, merecedor somente da morte.
Só o conteúdo das nossas cartas dava naquele tempo material bastante para nos condenar aos dois; a partir do momento em que elas começaram a cair na mesa dos operacionais da censura, o nosso destino estava decidido, e apenas nos deixaram combater mais algum tempo, ter alguma utilidade. Mas mais grave: desde a minha detenção, quando os quatro blocos de notas dos diários de guerra, escritos com um lápis duro e pálido, em letras finas como agulhas e que em algumas partes já começavam a apagar-se, foram atirados pelos operacionais para a minha maleta, lacrados e me encarregaram de levar essa maleta para Moscovo, uma tenaz em brasa apertou-me o coração. Aqueles diários eram a minha pretensão de me tornar escritor. Não confiava na força da nossa surpreendente memória, e durante todos os anos da guerra tentava escrever tudo aquilo que via (o que era ainda meia desgraça) e tudo aquilo que ouvia das outras pessoas. Sem quaisquer precauções, eu registara ali relatos dos meus camaradas de regimento sobre a coletivização, sobre a fome na Ucrânia, sobre o ano de 1937, e, por escrúpulo e sem nunca me ter enfrentado com o NKVD, indicava claramente quem me contara tudo aquilo. E todos esses relatos, tão naturais na primeira linha da guerra, face a face com a morte, estavam agora aos pés da fotografia de quatro metros de Estaline e faziam soprar o ar húmido da prisão sobre os meus puros, corajosos, inquietos camaradas de armas.
Aquele diário foi o que mais me pesou durante a instrução do processo. E só para que o instrutor não fosse suar as estopinhas sobre os meus cadernos e extrair deles o nervo vital da livre tribo dos combatentes da frente, eu arrependia-me do que era preciso e abandonava o que era preciso dos meus erros políticos. Esgotei-me assim a caminhar sobre o fio da navalha até ver que não me traziam ninguém para acareação; até que surgiram sinais evidentes do fim da instrução; até que, no quarto mês depois da minha detenção, todos os blocos de notas dos meus diários de guerra foram atirados para a bocarra infernal do fogão da Lubianka, e ali jorraram numa girândola de faúlhas vermelhas na morte de mais um romance na Rússia e as borboletas negras de fuligem voaram pela chaminé mais alta.
Os nossos passeios de presos faziam-se em baixo dessa chaminé — numa caixa de betão, no telhado da Grande Lubianka, ao nível do quinto andar. Os muros erguiam-se ainda acima do sexto andar numa altura de três homens. Os nossos ouvidos ouviam Moscovo, o diálogo das buzinas dos automóveis. Mas víamos apenas aquela chaminé, sentinela no miradouro do sexto andar, e aquele infeliz trecho de céu de Deus, condenado a estender-se sobre a Lubianka.
Oh, aquela fuligem! Ela continuava a cair naquele primeiro mês de maio depois da guerra. O meu sacrificado diário era apenas um fiozinho minúsculo daquela fuligem. E eu recordava a manhã gélida e ensolarada do mês de março em que estava sentado no gabinete do instrutor do processo. Ele fazia as suas perguntas grosseiras habituais; anotava, deturpando as minhas palavras. Pela janela, nos lugares em que o gelo derretera, avistavam-se os telhados de Moscovo, os telhados e por cima deles uns fuminhos alegres. Mas eu não olhava para lá, olhava para o monte de manuscritos que ocupava todo o centro do gabinete de trinta metros quadrados, meio vazio, que acabava de ser ali despejado e que estava ainda por classificar. Em cadernos, pastas de cartão, em encadernações improvisadas, em maços e simplesmente em folhas soltas — aqueles manuscritos formavam um montículo funerário do espírito humano, e esse montículo na sua forma cónica era mais alto do que a secretária do instrutor e quase o tapava a ele da minha vista. E fui tomado por uma onda de fraterna compaixão pelo trabalho daquele desconhecido que tinham detido na noite anterior, e os frutos da devassa haviam sido atirados para o chão de parquete do gabinete de torturas, aos pés do Estaline de quatro metros. Eu estava sentado a tentar adivinhar: que vida fora do comum fora levada ali naquela noite para ser supliciada, despedaçada e depois queimada?
Oh, quantos projetos e trabalhos não foram destruídos neste edifício! — Toda uma cultura aniquilada. Oh, fuligem, fuligem das chaminés da Lubianka! E o pior é que os nossos descendentes vão considerar a nossa geração mais estúpida, desprovida de talento, mais taciturna do que ela foi!…
* * *
Segundo o Código de Processo Penal, o procurador deve acompanhar vigilantemente a instrução de qualquer processo. Mas no nosso tempo ninguém punha a vista em cima de um procurador até ao chamado «interrogatório no gabinete do procurador», que significava que a instrução chegava ao fim. Também eu passei por esse interrogatório.
O tenente-coronel Kotov, um louro calmo, bem alimentado, insípido, nem mau nem bom, estava sentado à secretária e, bocejando, examinava pela primeira vez o meu processo. Durante uns quinze minutos ainda continuou, na minha presença, a tomar conhecimento dele. Depois ergueu os olhos apáticos para a parede e perguntou, com indolência, o que tinha eu a acrescentar às minhas declarações.
A sua moleza, o temperamento pacífico e o cansaço por todos aqueles intermináveis e estúpidos casos, como que me contagiaram. E não lhe coloquei nenhuma questão sobre a verdade. Pedi apenas que corrigisse um absurdo: éramos dois acusados no processo, mas fomos investigados separadamente (eu em Moscovo, o meu amigo na frente), e deste modo eu estava no processo sozinho, acusado pelo parágrafo 11.°, ou seja como grupo. Pedi-lhe, razoavelmente, que suprimisse esse aditamento do parágrafo 11.°.
Ele continuou a folhear o processo por mais cinco minutos, claramente sem encontrar nele a nossa organização, abriu os braços e disse:
— E então? Uma pessoa é uma pessoa, duas pessoas são gente.
E premiu o botão para que me viessem buscar.
Pouco tempo depois, numa noite de fins de maio, fui chamado pelo instrutor do meu processo àquele mesmo gabinete do procurador em que havia um relógio de bronze com figuras sobre o fogão de mármore, para o «duzentos e seis» — assim chamavam, segundo o número do artigo do código, a formalidade do exame do processo pelo próprio acusado e a sua última assinatura. Sem duvidar de que obteria a minha assinatura, o instrutor estava já a redigir o auto de acusação.
Levantei a capa da grossa pasta e logo no interior da capa li em texto impresso esta coisa impressionante: que no decurso da investigação, eu tinha afinal o direito de apresentar queixas por escrito sobre a incorreta condução da instrução — e que o instrutor era obrigado a juntar essas minhas queixas cronologicamente ao processo! No decurso da instrução! Mas não depois dela terminada…
Infelizmente, dos milhares de presos com quem estive depois nenhum sabia desse direito.
Continuei a folhear. Via fotocópias das minhas cartas e a interpretação completamente deturpada do seu sentido por comentadores desconhecidos (como o capitão Líbin). E vi a hiperbólica falsidade em que o capitão Ezepov envolveu as minhas prudentes declarações.
— Não estou de acordo. A sua instrução do processo foi feita de maneira incorreta — disse eu num tom não muito resoluto.
— Pois bem, vamos começar do princípio! — disse ele apertando os lábios com ar sinistro. — Metemos-te no lugar onde mantemos os politsai. [14]
Do princípio?… Parecia mais fácil morrer do que recomeçar tudo do princípio. O que tinha pela frente era em todo o caso a promessa de uma espécie de vida. (Se eu soubesse que vida era essa!…)
E assinei. Assinei mesmo com o parágrafo 11.°. Na altura não conhecia o peso dele, só me diziam que não aumentava a pena. Por causa do 11.° parágrafo fui parar ao campo de trabalhos forçados. Por causa do 11.° parágrafo depois da «libertação» fui desterrado para sempre, sem qualquer julgamento.
E talvez tenha sido o melhor. Sem uma e a outra coisa não teria escrito este livro…
Em toda esta trituração entre as engrenagens do grande Estabelecimento Noturno, onde se mói a nossa alma e a carne já nos pende como os farrapos de um maltrapilho, sofremos demasiado, demasiado mergulhados na nossa dor, para ver com um olhar lúcido e profético os pálidos carrascos que nos torturam. O excesso de sofrimento interior tolda-nos os olhos — de outro modo, que historiadores nós seríamos dos nossos torcionários! — porque eles nunca se descreverão si próprios em carne e osso.
É conhecido o episódio em que Alexandre II, esse mesmo acossado pelos revolucionários que por sete vezes o tentaram matar, um dia em que visitou o edifício de detenção preventiva na rua Chpalernaia (tio da Casa Grande) e mandou que o encerrassem na solitária 227, onde permaneceu mais de uma hora — queria penetrar no estado de espírito daqueles que ali mantinha presos.
Não se pode negar que para o monarca era um ato moral, uma necessidade e uma tentativa de encarar o assunto no sentido espiritual.
Mas é impossível imaginar algum dos nossos comissários instrutores, incluindo Abakumov e Béria, que quisesse nem que fosse por uma hora entrar na pele de um detido e ficar fechado na solitária a meditar.
Se alguém sabia que os casos eram fictícios, eram de certeza o instrutores dos processos! Fora das reuniões oficiais, como podiam seriamente dizer, entre eles e a si mesmos, que desmascaravam criminosos? E no entanto continuavam a preencher autos, folhas e mais folhas, para nos mandar apodrecer nos campos.
Eles compreendiam que os casos eram fictícios, e no entanto continuavam o trabalho, ano após ano. Como era isso?… Ou se obrigavam a não pensar (e isso é já a destruição da pessoa), ou simplesmente aceitavam: é preciso! Aquele que escrevia as instruções para eles não se podia enganar.
Mas, lembro-me, não era assim que argumentavam os nazis?
Ou pode ainda evocar-se a força da Doutrina de Vanguarda, uma ideologia de granito. Um comissário instrutor do sinistro Orotukan (serviço punitivo de Kolimá, em 1938), sensibilizado pela facilidade com que M. Lurie, diretor do complexo industrial de Krivoi Rog, assinou as declarações que o levariam a um segundo período de pena no campo de trabalhos, quando chegara o tempo de ser libertado, disse-lhe: «Pensas que temos algum prazer em aplicar meios? — (Modo suave de dizer tortura.) — Mas temos de fazer aquilo que o partido exige de nós. Tu que és um velho membro do partido, diz-me, o que farias no nosso lugar?»
Mas o mais frequente era o cinismo. Os galões azuis compreendiam o funcionamento da máquina de picar carne. O instrutor Mironenko, dos campos de Djida (1944) dizia ao condenado Babitch, orgulhoso até da racionalidade da frase: «A instrução e o julgamento são apenas formalidades jurídicas, que já não podem mudar o vosso destino. Se é preciso fuzilar-vos, mesmo que estejam absolutamente inocentes, fuzilam-nos na mesma. E se for preciso absolver-vos, mesmo que sejam culpados, serão absolvidos.»
«Deem-nos um homem, e nós arranjaremos o caso!» — assim gracejavam muitos deles, era um provérbio seu. Para nós era tortura, mas para eles era um bom trabalho.
* * *
Privados da esfera superior da existência humana pelo tipo de atividade e pela opção de vida que fizeram, os servidores do Estabelecimento Azul viviam com tanta mais plenitude e avidez na esfera inferior. E aí eram dominados e dirigidos pelos dois instintos mais fortes (além da fome e do sexo) dessa esfera inferior: o instinto do poder e o instinto do lucro. (Em especial o do poder. Na nossa época ele era mais importante do que o dinheiro.)
Mas isto é um arrebatamento — tu és ainda jovem, digamos entre parênteses, és um ranhoso, mas andaste três anitos naquela escola, e olha como levantaste voo! Como mudou a tua posição na vida! Como mudaram os teus movimentos, o teu olhar, a maneira como viras a cabeça! Está reunido o conselho científico do instituto — tu entras, e todos reparam, e até estremecem; não te vais sentar no lugar do presidente, deixemos isso para o reitor, tu sentas-te ao lado, mas todos compreendem que o mais importante aqui és tu, da secção especial. Podes ficar cinco minutos e sair, tens essa vantagem sobre os professores, mas depois franzes as sobrancelhas sobre a decisão deles (ou melhor ainda: os lábios) e dizes ao reitor: «Não pode ser. Há motivos…» E pronto! E não se fará! — Ou então és da secção especial da contraespionagem militar, apenas tenente, mas o velho coronel corpulento, comandante da unidade, levanta-se quando tu entras, procura adular-te, agradar-te, nem vai beber com o chefe do estado-maior sem te convidar. Não importa que tenhas apenas duas estrelinhas pequenas, até é divertido: porque as tuas estrelinhas têm um peso completamente diferente, medem-se com outra escala, diferente da dos vulgares oficiais. Tu tens sobre todas as pessoas dessa unidade militar, ou dessa fábrica, ou desse distrito, um poder que vai incomparavelmente mais fundo que o do comandante, do diretor ou do secretário do comité distrital. Esses dispõem do seu serviço, dos seus salários, do seu bom nome, mas tu dispões da liberdade deles. E ninguém se atreverá a falar de ti numa reunião, ninguém se atreverá a escrever a teu respeito no jornal, e não apenas a falar mal! Nem a falar bem se atreverão! Tu existes, todos te sentem! — mas é como se não existisses. E por isso estás acima do poder normal desde que cobriste a cabeça com esse boné azul celeste.
Mas nunca te esqueças de uma coisa: também tu serias um cepo como todos os outros se não tivesses a sorte de te tornares um pequeno elo dos Órgãos, esse ser flexível, vivo, inteiriço. E tudo agora é teu, tudo é para ti, mas com a condição de seres fiel aos Órgãos! Sempre te defenderão. Sempre te ajudarão a devorar qualquer um que te ofenda! E a eliminar do caminho qualquer empecilho! Mas sê fiel aos Órgãos! Faz tudo o que te mandarem! Eles pensam por ti qual é o teu lugar: hoje és da secção especial, amanhã ocuparás o cadeirão do instrutor. Não te surpreendas com coisa nenhuma: só os Órgãos conhecem a verdadeira função e a categoria das pessoas, aos outros deixam-nos simplesmente jogar: um qualquer artista emérito ou herói dos campos socialistas — basta um sopro, e acabou-se. («Quem és tu?» — perguntou o general Serov em Berlim ao mundialmente célebre biólogo Timoféiev-Ressovski. «E tu, quem és?» — perguntou por seu lado Timoféiev-Ressovski sem se desconcertar, com a sua audácia de cossaco. «O senhor é cientista?» — corrigiu-se Serov.
O posto de instrutor exige, é claro, trabalho: é preciso entrar de dia, entrar de noite, ficar sentado horas e horas — mas não moas a cabeça com as «provas» (deixa que o acusado quebre a sua cabeça com isso) —, faz como os Órgãos precisam, e tudo estará bem. Dependerá de ti conduzires a instrução de modo mais agradável, não te extenuares, ou até talvez divertires-te. Afinal é enfadonho, sempre a mesma coisa, enfadonhas aquelas mãos trémulas, aqueles olhos suplicantes, a submissão cobarde — se ao menos algum resistisse! «Gosto dos adversários fortes! É agradável quebrar-lhes a espinha!» (Chitov, instrutor de Leninegrado).
E de resto, perante quem te hás de acanhar? Se gostas de mulheres (e quem é que não gosta?) — serás um parvo se não te aproveitares da tua situação. Umas são atraídas pela tua força, outras cedem por medo. Encontraste em qualquer parte uma rapariga que te agradou — será tua, não pode escapar. Reparaste numa qualquer mulher casada? É tua! — porque não te custa nada afastar o marido.
Para saber o que significa ter um boné azul marinho é preciso passar por isso! Qualquer coisa que tenhas visto é tua! Qualquer apartamento que te agrade é teu! Qualquer mulher é tua! Qualquer inimigo, fora do caminho! A terra sob os teus pés é tua! O céu por cima de ti é teu, azul!
* * *
Mas a paixão do lucro, é uma paixão geral. Como não utilizar um poder tão grande e sem controlo para enriquecer? Era preciso ser santo!…
Se nos fosse dado saber o motor oculto de algumas detenções, veríamos com espanto que a par da regra geral de prender, a escolha particular de quem prender e a sorte pessoal de cada um dependia em três quartas partes dos casos do interesse privado e da vingança pessoal, e metade desses casos de cálculos interesseiros do NKVD local (e do procurador, é claro, não os vamos deixar de parte).
Como começou, por exemplo, o périplo de dezanove anos de Vassíli Grigórievitch Vlassov pelo Arquipélago? Foi o caso que ele, como presidente da cooperativa de consumo local (antiga aldeia de Kadi, na região de Ivanovsk), promoveu a venda de uns tecidos destinada aos membros do partido (que não fosse para o povo, não perturbava ninguém), e a esposa do procurador não conseguiu comprar nada: não estava presente, o procurador Russov teve vergonha de se chegar ao balcão e Vlassov não se lembrou de dizer — «eu posso guardar alguma coisa para si» (e, pelo seu carácter, nunca o diria). E mais: o procurador Russov levou à cantina do partido um amigo que não estava lá registado (ou seja, era de uma categoria mais baixa), e o diretor da cantina não autorizou que servisse o almoço a esse amigo. O procurador exigiu a Vlassov que o castigasse, e Vlassov não o castigou. Para mais, ofendeu gravemente o NKVD do distrito. E assim o puseram na lista da oposição de direita!…
As considerações e os atos dos galões azuis chegam a ser tão mesquinhos que é de ficar espantado. O delegado operacional Sentchenko tirou a um oficial do exército detido a prancheta e a bolsa de campanha e utilizava-as na presença dele. O instrutor Fiódorov (estação de Rechiota, caixa postal 235), durante a busca no apartamento de um cidadão livre, roubou-lhe um relógio de pulso. — O instrutor Nikolai Fiódorovitch Krujkov, durante o bloqueio de Leningrado, declarou a Elena Viktorovna Strakhovitch, esposa do seu acusado K. I. Stakhovitch: «Preciso de um cobertor acolchoado. Traga-mo!» Ela respondeu: «Esse quarto onde tenho as coisas de Inverno está selado.» Então ele foi a casa dela; sem quebrar o selo de chumbo, desmontou o puxador da porta («é assim que trabalha o NKGB!» — explicou ele alegremente) e começou a retirar de lá as roupas quentes, e de caminho ainda meteu ao bolso objetos de cristal (E. V. por sua vez retirou o que podia, que era seu. «Já chega de tirar coisas!» — deteve-a ele enquanto continuava a tirar.) É infinito o número de casos como estes.
* * *
No entanto, o destino fatídico de se deterem a si próprios não é assim tão raro para os galões azuis, não há nenhum seguro contra esse destino, e a inteligência inferior diz: é raro acontecer, são raros aqueles a quem acontece, eu escapo e os nossos não me abandonam.
Os seus procuram realmente não os abandonar na desgraça, há entre eles uma convenção tácita: arranjar-lhes ao menos uma situação de favor.
Mas aqueles que caem numa torrente arriscam tudo (também eles têm as suas torrentes!…) A torrente é um elemento mais forte do que os próprios Órgãos, e aqui já ninguém te socorre, com medo de ser arrastado para o mesmo abismo.
As torrentes nasciam por uma qualquer misteriosa lei de renovação dos Órgãos — um pequeno sacrifício periódico, para dar um ar de pureza aos que ficavam. Alguns cardumes de guebistas deviam sacrificar-se com a mesma firmeza com que o esturjão vai morrer entre as pedras do rio para ser substituído pelos filhotes. E os reis dos Órgãos, e os ases dos Órgãos, e os próprios ministros, na hora marcada pelas estrelas, colocavam a cabeça sob a sua própria guilhotina.
Um cardume foi arrastado atrás de Iágoda. É provável que muitos desses nomes gloriosos, que ainda nos vão maravilhar no Bielomorcanal, tenham caído nesse cardume, e os nomes deles foram depois apagados das linhas poéticas.
O segundo cardume foi em breve arrastado pelo efémero Ejov.
E depois o cardume de Béria.
E o corpulento e seguro de si Abakumov já tinha caído antes, sozinho.
A história dos Órgãos será algum dia contada (se os arquivos não arderem) passo a passo — com os números e o brilho dos nomes.
* * *
Mas como aconselha a sabedoria popular: se falas ao lobo, fala como o lobo.
Esta raça de lobos, de onde apareceu ela no nosso povo?
Não será da nossa raiz? Do nosso sangue?
Para não enxaguarmos demasiado depressa o branco manto dos justos, perguntemos a nós mesmos: se a minha vida tivesse sido diferente, não me teria tornado também um carrasco destes?
É uma pergunta terrível, se lhe respondermos honestamente.
Lembro-me do terceiro ano da universidade, no Outono de 1938. Nós, rapazes do Komsomol, fomos chamados ao comité distrital uma primeira vez, e uma segunda vez, e, quase sem nos pedir a nossa opinião, metem-nos nas mãos um questionário para preencher: já temos demasiados físico-matemáticos e químicos, a Pátria necessita de que vocês vão para a escola do NKVD. Mas nós recusámos com firmeza (tínhamos pena de deixar a universidade).
Um quarto de século mais tarde pode-se pensar: pois sim, vocês compreendiam a vaga de detenções que fervia à vossa volta, as torturas nas prisões e para que lamaçal vos queriam arrastar. Mas não! Porque as carrinhas celulares circulavam de noite, e nós éramos dos que desfilavam de dia, com bandeiras. Como podíamos saber e por que havíamos de pensar nas detenções? Que substituíssem todos os dirigentes regionais para nós era absolutamente indiferente. Prenderam dois ou três professores, mas nós não íamos com eles ao baile, e seria ainda mais fácil fazer os exames. Nós, rapazes de vinte anos, desfilávamos nas colunas dos que nasceram com Outubro e esperava-nos, como aos da nossa idade, o mais radioso futuro.
É difícil caracterizar o sentimento íntimo, sem base em quaisquer argumentos, que nos impediu de entrar para a escola do NKVD. Não decorria de quaisquer lições ouvidas sobre materialismo histórico: dessas lições depreendia-se claramente que a luta contra o inimigo interno era uma frente de combate intenso e uma tarefa honrosa. Isso contrariava até a nossa vantagem prática: naquele tempo, uma universidade de província não nos podia prometer nada além de uma escola rural num lugar remoto e um ordenado exíguo; as escolas do NKVD prometiam uma ração especial e um ordenado duas ou três vezes superior. A resistência não vinha da cabeça, mas algures do peito. Bem te podiam gritar de todos os lados: «é preciso!», e a tua cabeça também, dizia: «é preciso!», mas o peito rebela-se: não quero, repugna-me. Arranjem-se sem mim, eu não participo.
Isto vinha de muito longe, talvez de Lérmontov. Daquelas décadas da vida russa em que para um homem decente era coisa reconhecida e dita em voz alta que não havia serviço pior e mais abjeto que o de gendarme.
No entanto, alguns de nós deixaram-se aliciar nessa altura. Penso que se tivessem pressionado com mais força, todos nós teríamos cedido. Pois eu quero imaginar: se, quando rebentou a guerra, eu tivesse já os galões quadrados de oficial nas lapelas azuis, o que teria sido de mim?
Bem pode fechar o livro neste ponto aquele leitor que espera encontrar nele uma acusação política.
Se isso fosse assim tão simples! — que em tal lugar houvesse pessoas de alma negra, tramando perfidamente negros planos, e bastasse apenas distingui-las das restantes e liquidá-las. Mas a linha que separa o bem e o mal atravessa o coração de cada homem. E quem vai destruir um bocado do seu próprio coração?
Ao longo da vida de um coração, essa linha desloca-se dentro dele, ora comprimindo-se pela alegria do mal, ora libertando espaço para a eclosão do bem. Um mesmo homem, em diferentes idades, em diferentes circunstâncias da vida, pode ser inteiramente diferente. Ora próximo do diabo, ora quase um santo. Mas o nome não muda e nós atribuímos-lhe tudo.
Sócrates recomendou: «Conhece-te a ti mesmo!»
E à beira da cova para a qual íamos empurrar os nossos ofensores, nós paramos, perplexos: as circunstâncias fizeram com que fossem eles os carrascos, e não nós.
E se Maliutka Skurátov nos tivesse chamado a nós, talvez também não tivéssemos recusado.
Do bem ao mal vai apenas um passo, diz o provérbio.
Portanto, também assim é do mal ao bem.
Assim que a memória das ilegalidades e torturas começou a agitar a nossa sociedade, de todos os lados começaram a dizer-nos, a escrever, a objetar: também havia lá gente boa!
Normalmente, não devia haver: evitavam aceitar essas pessoas, examinavam-nas bem antes de serem admitidas. Essas pessoas procuravam maneira de se livrarem. Durante a guerra, em Riazan, um piloto aviador de Leninegrado, depois do hospital, implorou no dispensário antiturbeculose: «Descubram-me qualquer coisa! Querem integrar-me nos Órgãos!» Os radiologistas descobriram-lhe uma infiltração tuberculosa e imediatamente os da segurança o recusaram.
Os que lá iam parar por engano, ou se integravam naquele meio, ou eram expelidos por ele, eliminados, atirados para debaixo das rodas. Mas mesmo assim não ficariam alguns?
Em Kichiniov, um jovem tenente da segurança do Estado foi ter com Chipovelnikov um mês antes da detenção: vá-se embora, vá-se embora, porque o querem prender! (Foi por si mesmo, ou foi a mãe que o mandou salvar o sacerdote?) E depois da detenção coube a esse mesmo tenente escoltar o padre Viktor. E lamentava-se: porque é que não fugiu?
Quando o instrutor Goldman deu a Vera Kornéieva para o assinar o seu artigo 206, ela compreendeu os seus direitos e começou a examinar a fundo o processo de todos os dezassete participantes do seu «grupo religioso». Ele enfureceu-se, mas não podia recusar. Para não se enfadar com ela, levou-a para um grande gabinete onde havia uma meia dúzia de funcionários diversos, e saiu. A princípio Kornéieva esteve a ler, mas depois estabeleceu-se uma conversa — e Vera iniciou um verdadeiro sermão religioso em voz alta. (Mas é preciso conhecê-la. Era uma pessoa brilhante, de inteligência viva e de palavra fácil, embora em liberdade fosse apenas serralheira, moça de estrebaria e doméstica.) Escutavam-na retendo a respiração, fazendo perguntas, para aprofundar. Aquilo era uma grande surpresa para todos eles, vinda de onde não esperavam. Juntaram-se pessoas de outros serviços, encheram a sala. Embora não fossem instrutores, mas datilógrafas, estenógrafas, encadernadores de processos, era o meio deles, os Órgãos, em 1946. Ela conseguiu dizer muitas coisas. Sobre os traidores à pátria: porque é que não os houve na Guerra Patriótica de 1812, no tempo da servidão? Nesse tempo era natural que os houvesse! Mas falou principalmente da fé e dos crentes. Dantes, dizia ela, vocês apostavam tudo no desencadear das paixões, «rouba quem te roubou» — e nesse tempo os crentes, naturalmente, eram um estorvo. Mas agora que vocês querem construir e gozar neste mundo, porque é que perseguem os melhores cidadãos? Esse é afinal para vós o material mais precioso: porque o crente não precisa de ser controlado, o crente não rouba nem se esquiva ao trabalho. E vocês pensam em construir uma sociedade justa com os interesseiros e os invejosos? Tudo se vai desmoronar. Porque é que cospem na alma das melhores pessoas? Deixem a igreja separada do Estado, não a agridam, não perderão nada com isso! Vocês são materialistas? Então confiem na instrução, que ela dissipará a fé. Mas para quê prender? — Aqui, entrou Goldman e quis interrompê-la rudemente. Mas todos começaram a gritar com ele: «Cala a boca, tu!… Cala-te!… Fala, fala, mulher!» (Pois como chamar-lhe? Cidadã? Camarada? Tudo isso era proibido, enredavam-se nas convenções. Mulher! Assim não se enganariam, tal como Cristo.) E Vera continuou na presença do instrutor do seu processo!
Porque é que aqueles ouvintes de Kornéieva, nos escritórios da Segurança, se impressionaram tão vivamente com as palavras de uma detida insignificante?
Por mais gélido que seja o pessoal vigilante da Casa Grande, deve restar nele o núcleo mais íntimo da alma, o núcleo do núcleo? Natália Postroieva conta que uma vez estava a ser levada para o interrogatório por uma vigilante impassível, muda, zarolha, e de repente algures ao lado da Casa Grande começaram a cair bombas, parecia que iriam cair em cima delas. E a vigilante agarrou-se à sua prisioneira e horrorizada abraçou-a, procurando o calor e a compaixão humana. Mas passou o bombardeamento. E a zarolha voltou ao seu estado anterior: «Ponha as mãos atrás das costas! Avance!» — Claro que isto não é grande mérito, tornar-se pessoa no auge do pavor. Assim como não é prova de bondade o amor pelos filhos («ele é bom pai de família», diz-se muitas vezes a justificar os patifes).
Porque é que eles já há dois séculos valorizam com tanta tenacidade a cor do céu? No tempo de Lérmontov já era assim — «e vós, fardas azuis!»; depois foram os bonés azuis, as dragonas azuis, as lapelas azuis: ordenaram-lhes que fossem menos notados, e o azul, ocultando-se do reconhecimento popular, recuava cada vez mais para as cabeças e os ombros — e ficaram os galões, as tarjas estreitas — mas mesmo assim azuis!
Será apenas mascarada?
Ou será que tudo o que é negro deve, ao menos de vez em quando, comunicar com o céu?
A ideia é bonita.
Como entender isto: facínora? O que é isso? Isso existe no mundo?
Sentimo-nos mais inclinados a dizer que não podem existir pessoas assim, que não existem.
É admissível que nos contos se desenhem facínoras, para as crianças, para simplificar o quadro. Mas quando a grande literatura mundial dos séculos passados — Shakespeare, Schiller, Dickens — nos atira para a cara com figuras de facínoras, qual deles o mais negro, já achamos isso teatro de feira, incómodo para a nossa percepção contemporânea. Os facínoras deles reconhecem-se perfeitamente como facínoras e a sua alma é negra. E raciocinam assim: não posso viver sem fazer mal. Deixem-me cá pôr o meu pai contra o meu irmão! Deixem-me cá deleitar-me com os sofrimentos da minha vítima! Iago refere claramente os seus objetivos e impulsos — negros, nascidos do ódio.
Não, não é assim que as coisas se passam! Para fazer o mal, a pessoa tem primeiro que considerá-lo como um bem ou como uma ação considerada legítima. A natureza do homem, felizmente, fá-lo procurar uma justificação para as suas ações.
As justificações de Macbeth eram fracas, e por isso o remorso roía-lhe a consciência. E o próprio Iago era um cordeirinho. A fantasia e a força espiritual dos facínoras de Shakespeare limitavam-se a uma dezena de cadáveres. Porque eles não tinham ideologia.
A ideologia! — é ela que dá a desejada justificação ao crime e a longa firmeza necessária ao facínora. Aquela teoria social que o ajuda a desculpar perante si mesmo e perante os outros os seus atos e a não ouvir censuras, nem maldições, mas elogios e estima. Assim se apoiavam os inquisidores no cristianismo, os conquistadores no engrandecimento da pátria, os colonizadores na civilização, os nazis na raça, os jacobinos e os bolcheviques na igualdade, na fraternidade, na felicidade das gerações futuras.
Por causa da ideologia, o século XX teve de sofrer a provação de um crime à escala de milhões de vítimas. Não é possível refutá-lo, nem contorná-lo, nem silenciá-lo — e perante isto como ousamos nós insistir em que não há facínoras? E quem foi que exterminou esses milhões? Sem facínoras não teria havido o Arquipélago.
A física conhece a noção de limiar nas grandezas ou nos fenómenos. Enquanto não for ultrapassado um certo limiar conhecido da natureza, codificado pela natureza, nada sucederá. Por mais que se projete luz amarela sobre o lítio, ele não liberta eletrões; mas se cintilar um fraco raio azul — e ei-los arrancados (foi ultrapassado o limiar do efeito fotoelétrico)! Se arrefecermos o oxigénio a mais de cem graus negativos, podemos comprimi-lo com qualquer pressão, que o gás mantém-se, não cede! Mas ao ultrapassar os cento e dezoito, escorre, é líquido.
E, pelos vistos, o crime é também uma grandeza com limiar. Sim, o homem hesita, oscila toda a sua vida entre o mal e o bem, escorrega, cai, levanta-se, arrepende-se, volta a cair; mas enquanto não for ultrapassado o limiar do crime, está ainda no limite da nossa esperança. Mas quando pela densidade dos maus atos, ou pelo seu grau, ou pelo carácter absoluto do seu poder, ele passa de repente esse limiar — já está fora da humanidade. E talvez para sempre.
* * *
A ideia que os homens têm da justiça, desde tempos imemoriais, compõe-se de duas metades: a virtude triunfa e o vício é castigado.
Nós tivemos a sorte de viver até um tempo em que a virtude, embora não triunfe, nem sempre é perseguida pelos cães. A virtude, espancada, débil, é agora autorizada a entrar com os seus andrajos e ficar sentada a um canto, desde que não abra o bico.
No entanto, ninguém se atreve a falar do vício. Sim, escarneceram da virtude, mas sem que houvesse vício. Sim, alguns milhões foram empurrados pela escarpa, mas não houve culpados. E se alguém ousa abrir o bico: « mas e aqueles que…» — logo de todos os lados o censuram, nos primeiros tempos amistosamente: «ora, que é isso, camaradas! Para quê remexer em velhas feridas?!»
E quando na Alemanha Ocidental, em 1966, foram julgados OITENTA E SEIS MIL criminosos nazis, nós exultámos, não poupámos páginas dos jornais e horas de transmissões de rádio, e depois do trabalho ficámos para o comício e votámos: é pouco! Mesmo oitenta e seis mil é pouco! E vinte anos de tribunais, é pouco! Há que continuar!
Mas no nosso país julgaram (segundo os dados oficiais) cerca de trinta pessoas.
Aquilo que acontece para lá do Oder, para lá do Reno, impressiona-nos. Mas aquilo que se passa nos arredores de Moscovo ou atrás das paliçadas verdes de Sotchi, e que os assassinos dos nossos maridos e pais se desloquem pelas nossas ruas e nós lhes dêmos passagem, não nos impressiona, não nos comove, é «remexer no passado».
Contudo, se transpuséssemos os oitenta e seis mil da Alemanha Ocidental proporcionalmente para nós, isso seria para o nosso país UM QUARTO DE MILHÃO!
Um enigma que nós, contemporâneos, não conseguiremos resolver: porque é que é dado à Alemanha castigar os seus facínoras, e à Rússia não? Que caminho funesto será o nosso, se não pudermos limpar-nos desse mal que apodrece no nosso corpo?
O país que, por oitenta e seis mil vezes, do estrado do tribunal, condenou o crime (e o condenou irrevogavelmente na literatura e entre a juventude) — ano após ano, degrau a degrau, purifica-se dele.
E nós, o que devemos fazer?… Algum dia os nossos descendentes chamarão a algumas das nossas gerações as gerações dos papa-açordas: após permitirmos submissamente que nos espancassem aos milhões, tratámos com solicitude os assassinos na sua próspera velhice.
Não se pode, no século XX, passar dezenas de anos sem distinguir o que são as atrocidades do foro dos tribunais e o que é o «passado» em que «não se deve mexer»!
Devemos condenar publicamente a própria ideia de repressão de umas pessoas por outras. Ao calar o vício, ao fechá-lo no nosso corpo só para que não saia para o exterior, estamos a semeá-lo, e ele acabará por brotar mil vezes no futuro. Não castigando, e nem sequer censurando os facínoras, não só protegemos a sua insignificante velhice, como minamos sob os pés das novas gerações quaisquer fundamentos de justiça. É por isso que elas crescem na «indiferença», e não pela «fraqueza do trabalho educativo». Os jovens assimilam a ideia de que a infâmia nunca é castigada na terra, mas traz sempre a prosperidade.
E será desconfortável, horrível viver num país assim.
Como compreender isto — uma cela e de repente o amor?…
Ficar sentado, semicerrar os olhos e rememorar: em quantas celas estiveste durante o cumprimento da pena.
Até é difícil contá-las. E em cada uma delas, homens, homens… Numa dois homens, noutra, cento e cinquenta. Num lugar estiveste cinco minutos; noutro, um longo Verão.
Mas, de entre todas, porás sempre na tua contagem especial a primeira cela, onde encontraste outros teus semelhantes, com o mesmo destino perdido. Hás de recordá-la toda a vida com a mesma emoção como talvez só o primeiro amor. E essas pessoas que compartilhavam contigo o chão e o ar do cubo de pedra, nesses dias em que repensavas toda a tua vida de uma nova maneira — essas pessoas hás de recordá-las ainda como sendo da tua família.
E durante esses dias eram a tua única família.
Aquilo por que passaste nessa primeira cela da instrução do processo não tem nada em comum com toda a tua vida antes, nem toda a tua vida depois. Bem podem as prisões ter existido milhares de anos antes de ti e outro tanto depois (gostaria de pensar que menos…) — uma cela única e irrepetível é aquela em que estiveste durante a instrução do processo.
Ela era talvez horrível para um ser humano. Um calabouço infestado de piolhos e de percevejos, sem janela, sem ventilação, sem uma tarimba, o chão sujo, uma caixa chamada KPZ — anexa a um soviete rural, a um posto da milícia, a uma estação ferroviária ou a um porto. A solitária da prisão de Arkhanguelsk, onde os vidros eram pintados de zarcão para que a luz de Deus nos chegasse apenas deformada, purpúrea, enquanto uma vela de quinze vátios estava permanentemente acesa no teto. Ou a «solitária» na cidade de Tchoibalsan, onde num chão de seis metros quadrados estiveram durante meses catorze homens apertados que mudavam a posição das pernas por comando. Ou uma das celas «psiquiátricas» de Lefortovo, por exemplo a 111, pintada de negro e também com uma lâmpada de vinte vátios permanentemente acesa, e no resto igual a todas as de Lefortovo: chão de asfalto; torneira do aquecimento no corredor, nas mãos do carcereiro.
Mas não foi a esse chão sujo, nem às paredes sombrias, nem ao cheiro do balde das fezes que tu ganhaste amor — foi àqueles homens como tu, com os quais te viravas à voz de comando; a qualquer coisa que palpitava entre as vossas almas; às palavras por vezes surpreendentes deles; e aos teus pensamentos libertos que planavam, nascidos precisamente ali, até aos quais ainda há pouco não serias capaz de elevar-te nem alcançar.
Até essa primeira cela, por quantas coisas tiveste ainda de passar! Meteram-te num buraco, numa box ou numa cave. Ninguém te dirigia uma palavra humana, ninguém te lançava um olhar humano — apenas te picavam com picos de ferro o cérebro e o coração, tu gritavas, tu gemias, e eles riam-se.
Durante uma semana ou um mês estiveste sozinho entre inimigos, e já te despedias da razão e da vida — e de repente estavas vivo, e levaram-te para junto dos teus amigos. E recuperaste a razão.
É isso a primeira cela!
Tu esperavas essa cela, sonhavas com ela quase como com a libertação — mas o que faziam era arrastar-te de uma fenda para te meter numa cova, de Lefortovo para uma qualquer lendária e diabólica Sukhanovka.
Sukhanovka é a prisão mais horrível que existe no MGB*. É com ela que nos metem medo, o nome dela é proferido pelos instrutores com um sibilar maléfico. (E daqueles que por lá passaram já não há nada a esperar: ou debitam absurdos incoerentes ou já não são deste mundo).
Sukhanovka é o antigo convento de Santa Catarina, com dois edifícios — o dos que cumprem pena e outro, com sessenta e oito celas, para os que estão em período de instrução. A carrinha celular leva duas horas a chegar lá, e pouca gente sabe que essa prisão fica a poucos quilómetros de Gorki Leninskie e da antiga propriedade de Zinaida Volkónskaia. O lugar a toda a volta é lindíssimo.
Ao chegar ali, o preso é encerrado, para o atordoarem, num calabouço vertical tão estreito que, se não conseguir estar de pé, só lhe resta apoiar-se nos joelhos de encontro à parede, pois não há outra posição. Num calabouço desses chegam a mantê-lo mais de um dia — para que o espírito quebre. Em Sukhanovka a comida é delicada e saborosa, como em nenhuma outra prisão do MGB — porque é trazida da casa de repouso dos arquitetos, porque não há ali cozinha onde preparar a beberagem de porcos. Mas aquilo que um arquiteto come — as batatas fritas e o bitoque — é ali dividido por doze pessoas. E por isso não só andas eternamente faminto, como em toda a parte, mas também doente.
As câmaras-celas foram todas acondicionadas para dois presos, mas os que estavam em instrução de processo eram as mais das vezes mantidos sozinhos. As celas medem um metro e meio por dois. No chão de pedra estão cravadas duas cadeirinhas, como dois cepos, e em cada cepo se o carcereiro faz funcionar uma fechadura inglesa incrustada na parede, cai da parede às sete horas da noite (ou seja à hora dos interrogatórios, que são sempre de noite) uma prateleira e um colchão de palha do tamanho de um colchão de uma criança. Durante o dia a cadeirinha está livre, mas é proibido sentar-se nela. A janelinha está sempre fechada, só de manhã o carcereiro a abre durante dez minutos. Nunca há passeios, e a higiene é só às seis da manhã, à noite não há. Para cada bloco de sete celas, há dois guardas, e por isso o olho espreita com tanta frequência como o tempo que o guarda demora a passar de duas portas para a terceira — estás sempre a ser visto e sempre à mercê deles.
Mas se venceste todo o duelo com a loucura, todas as provações da solidão e resististe — mereceste a tua primeira cela! E agora, nela, a tua alma vai cicatrizar.
Agora, pela primeira vez, não verás inimigos. Agora verás pela primeira vez outros vivos que também seguem pelo teu caminho e a quem podes unir contigo na alegre palavra nós.
Sim, essa palavra que tu talvez desprezasses em liberdade, quando com ela suprimiam a tua individualidade («todos nós como um só!… nós indignamo-nos ardentemente!… nós exigimos!… nós juramos!…») — revela-se-te agora como deliciosa: não estás sozinho no mundo! Ainda existem seres sábios e espirituais — pessoas!
* * *
Quando o meu duelo com o instrutor do processo já durava há quatro dias e quatro noites, o carcereiro, tendo esperado que eu me deitasse na minha box iluminada por uma luz ofuscante, começou a abrir a minha porta. Eu ouvia tudo, mas antes que ele dissesse: «Levante-se! Para o interrogatório!» — queria continuar deitado ainda três centésimos de segundo com a cabeça na almofada e imaginar que dormia. No entanto o carcereiro fugiu à frase habitual e disse: «Levante-se! Reúna a roupa da cama!»
Perplexo e agastado, porque ele me privava do momento mais precioso, enrolei as grevas, calcei as botas, vesti o capote, pus o gorro de Inverno, enrolei o colchão num braçado. O carcereiro, em bicos de pés, indicando-me por sinais que não fizesse barulho, conduziu-me num silêncio tumular pelo corredor do quarto piso da Lubianka, ao lado da mesa do chefe do sector, diante dos números reluzentes das celas, das tampas verde oliva das vigias, e abriu-me a cela número 67. Entrei, ele fechou logo a porta atrás de mim.
Embora tivesse decorrido apenas um quarto de hora desde o silêncio, os presos têm um tempo de sono tão precário e tão escasso, que quando eu entrei os habitantes da cela 67 já dormiam nas camas metálicas, com os braços por cima do cobertor.
Ao ruído da fechadura todos os três estremeceram e ergueram instantaneamente a cabeça. Também eles esperavam que alguém fosse para interrogatório.
Aquelas três cabeças assustadas erguidas, aquelas três caras com a barba por fazer, enrugadas, pálidas pareceram-me tão humanas, tão amáveis, que fiquei de pé, abraçado ao colchão, e sorri de felicidade. E eles também sorriram. E que expressão esquecida aquela! E só numa semana!
— Da liberdade? — perguntaram-me. (Primeira pergunta habitual a um novo.)
— Nã-ão — respondi. (Primeira resposta habitual de um novo.)
Queriam eles dizer que eu por certo tinha sido detido há pouco tempo e portanto vinha da liberdade. Mas eu, depois de noventa e seis horas de instrução, não achava de modo nenhum que vinha da «liberdade». Pois não era eu já um preso experiente?… E no entanto, eu vinha da liberdade! E um velhinho sem barba, com umas sobrancelhas negras muito vivas já me fazia perguntas sobre notícias militares e políticas. Impressionante! Embora estivéssemos nos últimos dias de fevereiro de 1945, eles não sabiam nada nem sobre a conferência de Ialta, nem do cerco da Prússia Oriental, nem em geral da nossa ofensiva junto a Varsóvia em meados de janeiro, nem da lamentável retirada dos aliados em dezembro. Segundo as ordens, os acusados não deviam saber nada do mundo exterior — e eles não sabiam nada!
Eu estava disposto a passar metade da noite a contar-lhes tudo — com orgulho, como se todas as vitórias e conquistas fossem obra das minhas mãos. Mas então o carcereiro de serviço trouxe o meu leito, e era preciso fazer a cama sem barulho.
Armámos a cama — e então eu poderia contar tudo (em voz baixa, claro, e deitado, para não ir imediatamente daquele conforto para o calabouço), mas o terceiro morador da cela, de meia-idade mas já com cabelos grisalhos na cabeça rapada, disse com a secura própria dos nortenhos.
— Amanhã. A noite é para dormir.
E isto era o mais razoável. Qualquer um de nós podia a qualquer momento ser arrancado para interrogatório e ficar lá até às seis horas da manhã, quando o instrutor vai dormir, e aqui já é proibido dormir.
Uma noite de sono não perturbado era mais importante do que os destinos do planeta.
Eles voltaram-se, cobriram os olhos com os lenços por causa da lâmpada de duzentos vátios, enrolaram nas toalhas o braço que ia ficar de fora, que gelava em cima do cobertor, ocultaram o outro braço como os ladrões, e adormeceram.
Deitei-me, todo em festa por estar entre pessoas. Porque ainda uma hora antes não podia esperar que me pusessem junto com alguém. Eu podia muito bem ter acabado a vida com uma bala na nuca (o instrutor do processo estava constantemente a prometer-me isso), sem ter visto ninguém. Sobre mim continuava a pender a instrução do processo, mas muito mais distante! No dia seguinte iria contar-lhes, no dia seguinte também eles contariam — que interessante seria o dia seguinte, um dos melhores da minha vida!
* * *
Aquele velho das sobrancelhas vivas (aos sessenta e três anos não tinha nada o porte de um velho) chamava-se Anatoli Ilitch Fastenko. Ele embelezava muito da nossa cela da Lubianka — como depositário das velhas tradições prisionais russas e como história viva das revoluções russas.
O apelido Fastenko lemo-lo nós ali mesmo, na cela, num livro que nos veio parar às mãos sobre a revolução de 1905.
Fora condenado pela primeira vez a pena de prisão ainda em rapaz, em 1904, mas posto em liberdade depois do Manifesto de 17 de outubro de 1905.
Depois de recuperar a liberdade, Fastenko e os seus camaradas voltaram imediatamente à ação revolucionária. Em 1908 apanhou oito anos de trabalhos forçados, o que significava: quatro anos de grilhetas e quatro de desterro. Os primeiros quatro anos, passou-os na prisão central de Sebastopol.
Em contrapartida, esteve pouco tempo no desterro do Ienissei. Comparando os seus relatos com o facto conhecido de que os nossos revolucionários fugiam do desterro às centenas — e a maior parte das vezes para o estrangeiro — chega-se à conclusão de que do desterro czarista só o preguiçoso não fugia, de tal modo isso era fácil. Fastenko «fugiu», ou seja, limitou-se a abandonar o local de desterro sem identificação. Atravessou tranquilamente de comboio toda a mãe Rússia até à Ucrânia. Ali deram-lhe um passaporte alheio, e ele partiu para atravessar a fronteira austríaca. A empresa era tão pouco perigosa e Fastenko estava tão longe de sentir o cheiro da perseguição, que revelou uma despreocupação surpreendente: tendo chegado à fronteira e entregado o passaporte ao funcionário da polícia, descobriu de repente que não se lembrava do seu novo apelido. Que fazer? Os passageiros eram cerca de quarenta e o funcionário já tinha começado a chamá-los. Fastenko teve uma ideia: fingiu que estava a dormir. Ouvia como entregavam todos os passaportes, e repetiam várias vezes o apelido de Makárov, mas mesmo assim ainda não tinha certeza de que fosse ele. Finalmente o dragão do regime czarista inclinou-se para o clandestino e tocou-lhe no ombro: «Senhor Makárov! Senhor Makárov! Por favor, o seu passaporte!»
Fastenko viajou até Paris. Ali conheceu Lenine e Lunatcharski, desempenhou algumas tarefas administrativas na escola do partido em Longjumeau. Ao mesmo tempo aprendia a língua francesa, olhava o mundo à sua volta — e apeteceu-lhe conhecer mais mundo. Antes da guerra foi para o Canadá, onde se tornou operário, e esteve nos Estados Unidos. O tipo de vida livre desses países impressionou-o: concluiu que nunca haveria ali nenhuma revolução proletária e era pouco provável que ela fosse ali necessária.
E então aqui na Rússia — mais cedo do que previam — aconteceu a revolução longamente esperada, e todos regressaram. Fastenko já não sentia em si o anterior arrebatamento por essas revoluções. Mas regressou, obedecendo àquela lei que impele as aves à migração.
Quando Fastenko regressou à RSFSR, em consideração pela sua atividade clandestina, queriam à viva força promovê-lo, e ele poderia ter ocupado um cargo importante; mas não queria isso, aceitou um modesto lugar na Editorial Pravda, depois outro ainda mais modesto e depois mudou-se para a empresa municipal «Mosgoroformlenie», onde trabalhou completamente anónimo.
Eu surpreendi-me: porquê um caminho tão evasivo? Respondeu-me de modo incompreensível: «Cão velho não se habitua à corrente».
Compreendendo que não era possível fazer nada, Fastenko apenas queria humanamente ficar inteiro. Já tinha passado à reforma pacata com uma pequena pensão — e talvez tivesse chegado assim até 1953. Mas, por desgraça, detiveram o seu vizinho de apartamento L. Soloviov, que, bêbedo, se gabou algures de ter uma pistola. Uma pistola é por força o terror, e Fastenko, com o seu passado de social-democrata, era um terrorista acabado. E agora o instrutor do processo colava-lhe o terror, e ao mesmo tempo, é claro, acusava-o de estar ao serviço da espionagem francesa e canadiana, e de ser um informador da polícia secreta czarista. E em 1945, a troco de um gordo ordenado, um gordo instrutor consultava com ar sério arquivos das direções provinciais da polícia czarista e redigia autos sérios de interrogatórios e grupos conspirativos, senhas, pontos de apoio e reuniões de 1903.
E a velha mulher Fastenko (não tinham filhos) fazia-lhe chegar de dez em dez dias, como era permitido, as encomendas que estavam ao seu alcance: um bocado de pão negro de trezentos gramas (que se comprava no mercado a cem rublos o quilo!) e uma dúzia de batatinhas cozidas e peladas (e ainda perfuradas com uma sovela, na revista).
E a visão daquelas pobres encomendas — na verdade sagradas — despedaçava o coração.
Era isto que um homem merecia por sessenta e três anos de honestidade e de dúvidas.
* * *
Os quatro leitos ainda deixavam no meio espaço para uma mesa. Mas alguns dias depois de mim meteram lá mais um quinto preso e puseram a cama no meio.
O novo foi lá colocado uma hora antes da alvorada, e três de nós não levantaram a cabeça; só um saltou da cama, começaram a falar num murmúrio, nós tentávamos não ouvir, mas era impossível não distinguir o murmúrio do novo: era tão sonoro, alarmado, tenso e quase à beira do choro, que se podia perceber que entrava na nossa cela um drama invulgar. O novo perguntava se eram muitos os fuzilados.
E quando na alvorada saltámos todos da cama ao mesmo tempo (continuar na cama dava direito ao calabouço), vimos — um general! Na verdade ele não tinha quaisquer sinais distintivos, nem sequer descosidos ou arrancados; mas o dólman caro, o capote macio, o rosto e toda a sua figura — era sem dúvida um general e não apenas um qualquer major-general. Era baixo de estatura, atarracado, muito largo de tronco e de ombros, e de cara bastante gorda, mas essa gordura de quem comia bem não lhe dava um ar de bonomia, mas de importância, de pertença às altas esferas. O seu rosto terminava — não por cima, é certo, mas por baixo — com uma mandíbula de buldogue, e era aí que se concentravam a sua energia, o gosto pela autoridade, que lhe permitiram alcançar essa patente com tão pouca idade.
Começaram as apresentações e verificou-se que Leonid Vonifátievitch Zikov era ainda mais novo do que parecia, apenas ia cumprir trinta e seis anos («se não me fuzilarem»), e mais surpreendente ainda: não era nenhum general, nem mesmo coronel, nem sequer militar — era engenheiro!
Engenheiro?! Eu tinha precisamente sido educado num meio de engenheiros e lembro-me muito bem dos engenheiros dos anos vinte: desse intelecto aberto e irradiante, esse humor livre e inofensivo, essa leveza e amplitude de pensamento, o desembaraço com que passavam de um domínio a outro da engenharia e em geral da técnica para a sociedade, para a arte. Além disso, aquela educação, a facilidade de palavra, harmoniosa e sem termos vulgares; e sempre, em todos, uma marca de espírito impressa no rosto.
No início dos anos trinta perdi a ligação com esse meio. Depois veio a guerra. E agora tinha à minha frente um engenheiro. Um daqueles que vieram substituir os que tinham sido exterminados.
Não se poderia negar-lhe uma vantagem: era muito mais forte, com mais entranhas do que os outros. Conservava a força dos ombros e dos braços, embora há muito não precisasse deles. Liberto do peso da polidez, olhava com brusquidão, falava num tom terminante, sem esperar sequer que pudesse haver objeções. Também cresceu de maneira diferente dos outros, e trabalhava de outra maneira.
O pai dele lavrava a terra no sentido mais literal e autêntico. Liónia Zikov era um daqueles rapazes camponeses desgrenhados e ignorantes, com a perda de cujos talentos Bielinski e Tolstoi tanto se afligiam. Não era nenhum Lomonóssov nem teria chegado à Academia, mara era talentoso — e teria ficado a lavrar a terra se não fosse a revolução. Na era soviética ingressou no Komsomol, e foi essa qualidade, superando os outros talentos, que o arrancou da obscuridade, da rudeza e o elevou como um míssil através da faculdade operária até à Academia Industrial. Entrou em 1929 — precisamente na época em que expediam como gado os outros engenheiros para o Gulag. Era necessário criar rapidamente os seus engenheiros — conscientes, dedicados. Cem por cento leais. Era esse o momento em que os célebres postos de comando da indústria soviética ainda por criar estavam vagos. E o destino da sua formação era ocupá-los.
A vida de Zikov tornou-se uma cadeia de êxitos, uma grinalda em espiral para as alturas. Nesses anos extenuantes de 1929 a 1933, quando a guerra civil no país se travava não com metralhadoras, mas com cães pastores alemães, em que filas de pessoas agonizantes de fome se arrastavam para as estações ferroviárias na esperança de partir para a cidade, mas não lhes vendiam os bilhetes, e não tinham como partir — e, de velho gabão grosseiro e alpercatas de entrecasca de tília, morriam numa massa resignada junto à vedação das estações — durante esse tempo Zikov não só ignorava que o pão era distribuído aos citadinos por senhas de racionamento, como tinha uma bolsa de estudante de novecentos rublos (um trabalhador não qualificado recebia sessenta). Tendo sacudido a poeira dos sapatos, o seu coração não sofria pelo campo: a sua nova vida tecia-se noutro lugar, entre os vencedores e os dirigentes.
Nem chegou a ser um vulgar capataz: teve imediatamente sob as suas ordens dezenas de engenheiros e milhares de operários, era engenheiro-chefe de grandes construções nos arredores de Moscovo. Com o início da guerra, foi naturalmente evacuado com o seu comité principal para Alma-Ata e ali dirigiu construções ainda maiores junto ao rio Ili, só que agora eram presidiários que trabalhavam.
Os anos da guerra na distante retaguarda foram os melhores da vida de Zikov! Entrou depressa e habilmente no novo ritmo de guerra da economia nacional: tudo para a vitória, arranca e avança, a guerra cobrirá tudo! Fez apenas uma concessão à guerra: desistiu dos fatos e gravatas e, integrando-se no caqui, mandou fazer umas botas de calfe e um dólman de general, aquele mesmo com que agora chegava junto de nós. Assim estava na moda, como toda a gente, para não provocar a irritação dos inválidos ou os olhares reprovadores das mulheres.
Mas as mais das vezes, as mulheres olhavam-no com outros olhos; vinham ter com ele para comerem, para se aquecerem, para se divertirem. O dinheiro passava-lhe pelas mãos em abundância, as notas borbulhavam como de um barril a abarrotar, as notas de dez rublos eram como copeques, os mil rublos eram como um rublo — Zikov não poupava os rublos, não acumulava, não os contava.
Estava tão habituado à maleabilidade da matéria, à sua corrida desenfreada de javali pela terra! Estava tão habituado a que entre os dirigentes fosse tudo gente sua, a que fosse sempre possível arranjar, conciliar, dissimular! Esqueceu-se de que quanto maior é o êxito, maiores são as invejas. Como agora ficara a saber pela instrução do processo, desde 1936 havia um dossiê sobre ele por causa de uma história levianamente contada numa companhia de copos. Depois foram-se juntando as pequenas denúncias e os testemunhos dos agentes. E houve ainda a denúncia segundo a qual em 1941 ele não se tinha demorado a partir de Moscovo, porque estava à espera dos alemães (de facto ele demorara-se na altura, ao que parece, por causa de uma mulher). Zikov procurava atentamente que todas as suas maquinações financeiras decorressem com limpeza, mas esqueceu-se de pensar que havia ainda o artigo 58. E mesmo assim, esse bloco podia não desabar sobre ele se, por presunção, não tivesse recusado a um certo procurador materiais para construir uma datcha. Então o seu processo despertou, estremeceu e rolou pela encosta.
Todos nós, na cela, estávamos de humor carregado, mas nenhum de nós se deixou abater como Zikov, nem encarou a detenção tão tragicamente como ele. Junto de nós, Zikov compreendeu que se arriscava a apanhar um máximo de dez anos, que no campo de trabalhos seria naturalmente mestre de obras e não conheceria a desgraça, do mesmo modo que a não conhecera antes. Mas isto não o consolava minimamente. Estava demasiado abalado pelo naufrágio de uma tão excelente vida! Várias vezes, sentado na cama diante da mesa, com a cara gorducha apoiada nas mãos curtas e grossas, com os olhos perdidos e enevoados, punha-se a cantarolar em voz baixa:
Esquecido e abandonado
Nos anos da mocidade,
Órfão, desamparado…
E nunca conseguia ir além disto! — chegado aqui, explodia em soluços. Toda a força que emanava dele, mas que não podia derrubar as paredes, transformava-se em piedade por si mesmo.
E pela mulher. A mulher, que ele há muito não amava, vinha agora cada dez dias (não era permitido com mais frequência) trazer-lhe encomendas abundantes e ricas — pão branco, manteiga, caviar vermelho, vitela, esturjão. Ele dava a cada um de nós uma sandes e tabaco para um cigarro, debruçava-se sobre as suas vitualhas expostas (um festival de odores e de cores em comparação com as batatas azuladas do velho clandestino), e de novo lhe corriam as lágrimas, redobradas. Surpreendia-me que ele pudesse soluçar daquela maneira. O estoniano Arnold Suzi, nosso companheiro de cela grisalho, explicou-me: «A crueldade assenta obrigatoriamente num tapete de sentimentalismo. É a lei da compensação. Por exemplo, nos alemães essa combinação é mesmo uma característica nacional.»
E Fastenko, pelo contrário, era na cela o homem mais animado, embora pela sua idade fosse o único que já não podia sobreviver e voltar à liberdade. Abraçando-me pelos ombros, dizia:
O que é defender a verdade!
Pela verdade estás preso!
Ou ensinava-me a sua canção, dos trabalhos forçados:
Se for preciso morrer,
Nas minas ou nas prisões,
Sempre a causa há de florir
Nas futuras gerações!
Acredito! E possam estas páginas ajudar a concretizar essa sua fé!
* * *
Os dias de dezesseis horas da nossa cela são pobres em acontecimentos exteriores, mas tão interessantes que para mim, por exemplo, esperar dezesseis minutos pelo trólebus é muito mais enfadonho. Não havia acontecimentos dignos de atenção, mas ao anoitecer suspirávamos porque uma vez mais não nos chegara o tempo, uma vez mais o dia voara.
As horas mais difíceis do dia são as duas primeiras: ao ouvir o ruído da chave na fechadura saltamos sem demora, fazemos as camas e sentamo-nos nelas, desocupados e de alma vazia, ainda com a luz elétrica acesa. Este violento despertar matinal às seis horas, quando todo o mundo nos parece ainda abominável e toda a vida arruinada, e não há um sorvo de ar na cela, é especialmente absurdo para aqueles que passaram a noite no interrogatório e mal acabaram de adormecer. Há no entanto uma operação que se processa nessas duas horas: a ida às latrinas.
Trata-se daquela grosseira necessidade que não é decente referir em literatura. Nesse começo aparentemente natural do dia na prisão, há já uma armadilha estendida ao preso para todo o dia. Devido à imobilidade e à escassez da comida, ao pesado torpor da noite, ao levantar, não estamos ainda de modo nenhum em condições de ajustar contas com a natureza. E eis que depressa nos fazem voltar à cela e nos fecham até às seis da tarde. Agora vamos ficar preocupados com a aproximação da hora do interrogatório diurno, e com os acontecimentos do dia, encher-nos com a ração de pão, a água e a sopa aguada, mas já ninguém nos deixará voltar às gloriosas instalações, cujo fácil acesso os homens livres não são capazes de avaliar devidamente.
Mas já se ouve que começam a distribuir os óculos, as portas abrem-se. E trouxeram também os nossos óculos. Fastenko só os usa para ler, Suzi usa-os constantemente. Pronto, já os pôs e deixou de franzir os olhos. Com aquela armação de chifre, de linhas direitas por cima dos olhos, o seu rosto torna-se de repente mais severo, penetrante, como concebemos o rosto de um homem culto do nosso século. Ainda antes da revolução, estudou em Petrogrado, na faculdade de histórico-filosóficas e durante os vinte anos da Estónia independente manteve uma excelente língua russa, indistinguível da nossa. Depois obteve formação jurídica em Tartu. Além do estoniano, sua língua materna, domina ainda o inglês e o alemão, e durante todos estes anos lia constantemente o The Economist londrino, estudou as constituições e os códigos de vários países e aqui na nossa cela representa dignamente a Europa. Era um advogado notável na Estónia a quem chamavam kuldsuu (boca de ouro).
Há nova movimentação no corredor: um parasita de bata cinzenta, um tipo sólido que não está na frente de batalha, traz-nos num tabuleiro as nossas cinco rações de pão e dez torrões de açúcar. Estes quatrocentos e cinquenta gramas de pão mal fermentado e mal cozido, com o miolo húmido e pantanoso, metade de batata, é a nossa muleta e o principal acontecimento do dia. Começa a vida! Começa o dia, é quando ele começa! Cada um de nós tem uma infinidade de problemas: terá aproveitado devidamente a sua ração da véspera? Deve cortá-lo com um fio? Ou parti-lo com avidez? Ou ir debicando aos poucos? Esperar pelo chá ou comê-lo imediatamente? Deixar para o jantar ou comê-lo todo ao almoço? E quanto de cada vez?
Nove horas. Inspeção da manhã. Começa o dia. Já chegam algures os comissários-instrutores. O guarda chama-nos com ar de grande mistério: diz só a primeira letra: «quem é o S?», «quem é o F?». Esta ordem é para prevenir os erros do guarda: se ele disser um apelido que não é desta cela, nós ficamos a saber quem mais está ali.
Nos dias luminosos, da pala do poço do pátio da Lubianka, de um qualquer vidro do sexto ou do sétimo piso, reflete-se para a nossa cela uma pálida réstia de sol. Para nós é como um verdadeiro ser vivo e querido! Seguimos ternamente o seu movimento pela parede acima, cada passo cheio de significado prenuncia a hora do passeio, conta as meias horas que faltam para o almoço, e mesmo antes do almoço desaparece.
Para os presos dos três primeiros pisos da Lubianka o passeio é mau: fazem-nos sair para o húmido pátio inferior — o fundo de um estreito poço entre os edifícios da prisão. Em contrapartida, os presos do quarto e do quinto pisos saem para um espaço que é um ninho de águia — o telhado do quinto piso. Solo de betão, muros de betão da altura de três homens, ao nosso lado um vigilante sem arma, e mais acima uma sentinela com uma espingarda automática — mas o ar autêntico e o autêntico céu! «Mãos atrás das costas! Caminhar a dois e dois! Não falar! Não parar!» — mas esquecem-se de proibir de erguer a cabeça! E tu, naturalmente, ergues a cabeça para trás. Aqui vês não o sol refletido, não um reflexo — mas o verdadeiro Sol! O próprio Sol eternamente vivo! Ou as suas palhetas douradas peneiradas através das nuvens primaveris.
A Primavera promete a felicidade a toda a gente, e ao presidiário dez vezes mais. Oh, o céu de abril! Pouco importa que eu esteja na prisão. Pelos vistos não me vão fuzilar. Em contrapartida, aqui torno-me mais inteligente. Aqui compreenderei muitas coisas, Céu! Ainda vou corrigir os meus erros — não perante eles — mas perante ti, Céu! Aqui aprendi a compreendê-los — e vou corrigi-los.
Como vindo de uma profunda fossa, sobe até nós da praça Dzerjinski o canto rouco ininterrupto das buzinas dos automóveis. Para aqueles que correm ao som dessas buzinas, elas parecem a trombeta da vitória — mas daqui são claramente uma insignificância.
O passeio dura apenas vinte minutos, mas quantas preocupações o rodeiam, quantas coisas é preciso conseguir fazer!
Embora seja proibido falar durante o passeio, isso não importa, é preciso saber fazê-lo — aqui provavelmente nem o bufo, nem o microfone nos ouve.
Durante o passeio, eu e Suzi procuramos ir no mesmo par — eu e ele conversamos na cela, mas é aqui que gostamos de falar do mais importante. Com ele treino uma faculdade nova para mim: a de apreender com paciência e persistência coisas que nunca estiveram no meu plano e que parecem não ter qualquer relação com a linha da minha vida, claramente traçada. Desde a infância que sei, por qualquer razão, que o meu objetivo é a história da revolução russa. Mas eis que o destino me juntou a Suzi, e agora ele fala-me com entusiasmo do seu tema, e o seu tema é a Estónia e a democracia. E embora nunca antes tenha pensado em interessar-me pela Estónia, e menos ainda pela democracia burguesa, agora oiço e não me canso de ouvir os seus apaixonados relatos sobre os vinte anos de liberdade desse povo discreto e laborioso de grandes homens, com os seus modos lentos e ponderados; inicio-me de bom grado na trágica história da Estónia: a pequena bigorna estoniana, desde tempos imemoriais apertada entre dois martelos, o teutónico e o eslavo. Desferiam sobre ela novos golpes alternadamente do oriente e do ocidente — e não se via o fim dessa alternância, e ainda hoje não se vê. E voltaram a atingir a Estónia ainda em 1940, e em 1941, e em 1944, e alguns dos seus filhos foram mobilizados pelo exército soviético, outros pelo exército alemão, e outros ainda fugiram para a floresta. E em Tallin, os intelectuais já de certa idade explicavam que era tempo de sair desse círculo vicioso, separar-se de algum modo e viver independente. E assim que as nossas tropas lá entraram, todos esses sonhadores foram detidos logo na primeira noite nos seus apartamentos de Tallin. Agora, uns quinze deles estavam na Lubianka em Moscovo, cada um numa cela diferente, acusados segundo o artigo 58-2 do desejo criminoso de autodeterminação.
O regresso do passeio à cela é de cada vez como uma pequena detenção. Depois do passeio seria bom petiscar alguma coisa, mas é melhor não pensar, não pensar nisso! É péssimo se o autor de um livro começa a descrever em pormenor o sabor da comida — fora com esse livro! Fora Gógol! Fora Tchékhov! — há neles demasiada comida!
A biblioteca da Lubianka é o seu ornamento. Provavelmente juntaram nela livros confiscados em bibliotecas particulares; os bibliófilos que os colecionaram já entregaram a alma a Deus. Mas o principal é que durante décadas de censura em todas as bibliotecas do país a segurança do Estado esqueceu-se de espreitar no seu seio — e aqui, no próprio covil, podia-se ler Zamiátin, Pilniak, Penteleimon Románov e qualquer volume das obras completas de Merejkovski. (Alguns gracejavam: consideram-nos mortos, e por isso deixam ler os nossos livros proibidos.)
Naquelas horas anteriores ao almoço lê-se muito. Mas uma frase pode fazer-te levantar a correr, da janela para a porta, da porta para a janela. Queres mostrar a alguém aquilo que leste e explicar o que daí se conclui, e já começa uma discussão. Também se discute muito nessas horas!
Finalmente chega a hora do almoço na Lubianka. Muito antes ouvíamos tinidos no corredor, depois traziam, como num restaurante, num tabuleiro para cada um dois pratos de alumínio (não escudelas): uma concha de sopa e uma concha de papas aguadas, sem gordura.
Depois chega a hora da segunda ida à latrina, que o mais certo é tu teres esperado febrilmente todo o dia. Que leve se torna de repente o mundo inteiro! Como logo se simplificam todas as grandes questões — já sentiram?
As noites imponderáveis da Lubianka! (De resto, só são imponderáveis se não estás à espera de um interrogatório noturno.) O corpo sem peso, na medida em que está satisfeito com as papas que ingeriu, para que a alma não lhe sinta a opressão. Como os pensamentos são ligeiros e livres! Não seria com isso que Púchkin sonhava:
Quero viver, para pensar e sofrer!
Pois nós sofremos, e pensamos e não há mais nada nas nossas vidas. E como foi fácil alcançar esse ideal… É claro que também à noite discutimos, mas em todo o caso à noite já não temos tanta vontade de discutir como de ouvir qualquer coisa interessante e até reconciliadora e falar todos em boa harmonia.
Um dos temas preferidos para estas conversas na prisão é o das tradições presidiárias, o de como eram antes as prisões. Temos connosco Fastenko e por isso ouvimos esses relatos em primeira mão. O que mais nos comove é que, dantes, ser preso político era motivo de orgulho, que não só os seus verdadeiros familiares (parentes, famílias) os não renegavam, como até vinham jovens desconhecidas e apresentavam-se como noivas, para conseguirem visitas. E a anterior tradição das encomendas festivas para os presos? Ninguém na Rússia festejava a Páscoa sem levar encomendas aos presos anónimos, para o rancho comum da prisão. Levavam pernil de Natal, pastéis de massa, bolinhos de Páscoa. Uma pobre velha qualquer levava uma dezena de ovos pintados, e sentia o coração leve. E o que é feito dessa bondade russa?
E o que eram esses presentes de festa para os presidiários? Seria apenas um pouco de comida saborosa? Eles comunicavam o sentimento caloroso de que em liberdade havia alguém que pensava neles, se preocupava.
Conversamos assim sobre toda a espécie de assuntos, recordamos coisas divertidas — e entretanto já chegou a inspeção silenciosa da noite, e já nos levaram os óculos, e a lâmpada já piscou três vezes. Sinal de que dentro de cinco minutos será o silêncio!
Depressa, depressa, agarremos o cobertor! Assim como na frente não sabes se no minuto seguinte, agora mesmo, cairá ao teu lado uma rajada de projéteis, também aqui nós não sabemos se não virá o fatídico interrogatório da noite. Deitamo-nos, colocamos um braço sobre o cobertor, procuramos expulsar os pensamentos da cabeça. Dormir!
* * *
Na véspera do Primeiro de Maio retiraram das janelas as cortinas de defesa antiaérea. Era visível que a guerra chegava ao fim. Nessa noite, a Lubianka estava silenciosa como nunca, não tinha ainda acabado a semana da Páscoa, as festas entrecruzavam-se. Os instrutores andavam todos a passear por Moscovo, não chamaram ninguém para interrogatório. No meio do silêncio ouviu-se alguém protestar contra qualquer coisa. Levaram-no da cela para uma box (pelo ouvido distinguíamos a posição de todas as portas) e com a porta aberta espancaram-no longamente. No silêncio que pairava ouvia-se com nitidez cada pancada no corpo mole e na boca que asfixiava.
No dia dois de maio lançaram uma salva de trinta disparos, o que significava: capital europeia. Como só restavam duas por tomar, Praga e Berlim, restava-nos adivinhar qual delas.
Em 9 de maio trouxeram-nos o almoço juntamente com o jantar, o que na Lubianka só se fazia no Primeiro de Maio e no 7 de Novembro.
Só assim percebemos o fim da guerra.
À noite houve uma nova salva de trinta disparos. Já não havia mais capitais por tomar. E nessa mesma noite ouviu-se mais uma salva, creio que de quarenta disparos — e isto era já mesmo o fim.
Por cima da pala da nossa janela e das outras celas da Lubianka e de todas as janelas das prisões de Moscovo, também nós, antigos combatentes da frente, olhávamos o céu pintado pelos fogos de artifício, cortado pelos projetores.
Boris Gammerov, um jovem soldado do destacamento antitanque, desmobilizado por invalidez (uma ferida incurável nos pulmões), que já havia sido preso com um grupo de estudantes, estava nessa noite numa cela sobrelotada de Butirki, em que metade eram prisioneiros de guerra e combatentes da frente. Ele descreveu essa última salva numa oitava das mais simples e prosaicas: quando já estávamos deitados nas tarimbas, tapados com os capotes; acordámos com o barulho; erguemos as cabeças, semicerrámos os olhos para a pala: ah, uma salva; e deitámo-nos
E voltamos a tapar-nos com os capotes.
Com aqueles mesmos capotes — com a lama das trincheiras, a cinza dos fogos de campo, rasgados por estilhaços dos obuses alemães.
Aquela Vitória não era para nós. Não era para nós aquela Primavera.
Em junho de 1945, todas as manhãs e todas as tardes chegavam às janelas da prisão de Butirki os sons metálicos de orquestras, vindos de perto — da rua Lessnaia ou da Novoslobódskaia. Tocavam só marchas, que repetiam uma e outra vez.
Nós ficávamos em pé junto às janelas da prisão, abertas de par em par mas opacas devidos às palas esverdeadas de vidro armado, e ouvíamos. Já chegara até nós o rumor de que se preparavam para a grande parada da Vitória, marcada para a Praça Vermelha num domingo de junho, quarto aniversário do início da guerra.
As pedras colocadas nos alicerces estão lá para gemer e enterrar-se no solo, e não são elas que devem coroar o edifício. Mas até o direito de ocupar um lugar digno nos alicerces foi negado àqueles que, insensatamente abandonados, tinham recebido nos seus corpos, em plena fronte e em pleno peito, os primeiros golpes desta guerra, evitando a vitória do inimigo.
Aquela Primavera de 1945 nas nossas prisões foi principalmente a dos prisioneiros russos. Eles passavam pelas prisões da União em cardumes cinzentos, enormes e densos como os arenques no oceano.
Não foram só os prisioneiros que passaram por estas celas — por eles fluía a torrente de todos aqueles que tinham estado na Europa: os emigrantes da Guerra Civil; os da nova Alemanha de leste; os oficiais do Exército Vermelho demasiado bruscos e ousados nas suas conclusões, de modo que Estaline podia recear que eles se lembrassem de trazer da campanha europeia a liberdade europeia, como já outros tinham feito cento e vinte anos antes deles. Contudo, a maior parte eram prisioneiros. E entre os prisioneiros de diversas idades a maior parte eram da minha idade, e nem sequer da minha, mas da idade de Outubro — aqueles que nasceram com Outubro, e que, em 1937, sem que nada os perturbasse, desfilaram em massa na manifestação comemorativa dos vinte anos e cuja classe no início da guerra constituía precisamente o quadro do exército, desfeito em algumas semanas.
Assim essa aflitiva Primavera das prisões ao som das marchas da Vitória tornou-se a Primavera expiatória da minha geração.
Nós, a quem no berço cantavam: «Todo o poder aos Sovietes!». Nós que estendíamos as mãozinhas infantis crestadas do sol para o punho do clarim dos Pioneiros e à exclamação «Estejam preparados!» respondíamos: «Sempre preparados!»; nós que introduzíamos armas em Buchenwald e ali ingressávamos no partido comunista — somos nós que estamos agora entre as ovelhas negras só porque ficámos vivos. (Os prisioneiros de Buchenwald foi só por terem sobrevivido que foram parar aos nossos campos de trabalho: como é que tu pudeste escapar no campo de extermínio? Há aqui algo de suspeito!)
Já quando nós cortávamos a Prússia Oriental ao meio, eu vi as colunas desanimadas dos prisioneiros que regressavam — os únicos desgostosos quando à volta todos estávamos alegres —, e já então a sua tristeza me deixou pasmado, embora ainda não compreendesse a causa. Apeei-me, aproximei-me daquelas colunas espontaneamente formadas (porquê em colunas? Por que formaram eles, se ninguém os obrigava? Os prisioneiros de guerra de todas as nações voltavam dispersos! Mas os nossos queriam voltar o mais submissos possível…). Eu usava então os galões de capitão; com os galões e algumas palavras trocadas de caminho não houve maneira de saber: por que vinham eles tão tristes? Mas eis que o destino me arrastou também a mim na esteira daqueles prisioneiros, e eu já caminhava com eles da contraespionagem do exército para a contraespionagem da frente, onde ouvi os primeiros relatos deles, ainda não muito claros para mim, e agora, sob as cúpulas de tijolo vermelho do castelo de Butirki, senti que esta história de alguns milhões de prisioneiros russos me ficava pregada para sempre, como o alfinete que trespassa uma barata. A história de como eu próprio fui parar à prisão pareceu-me insignificante. Compreendi que o meu dever era colocar o ombro a um canto da própria carga comum — e levá-la até ao fim, enquanto não me esmagasse. Sentia-me agora como se tivesse sido feito prisioneiro junto com aqueles rapazes na travessia de Soloviovka, na bolsa de Khárkov, nas pedreiras de Kerch; e, de mãos atrás das costas, transportava o meu orgulho soviético para trás do arame farpado do campo de concentração; e, com um frio gélido, permanecia horas na bicha para uma concha de kawa (sucedâneo de café) frio e ficava estendido no chão como um cadáver, sem conseguir chegar à caldeira; no campo-68 (Suvalki), escavei com as mãos e a tampa da marmita um buraco em forma de sino (mais estreito em cima) para não passar o Inverno em campo aberto; e um prisioneiro enfurecido rastejou até mim, que gelava, para me roer a carne que arrefecia abaixo do cotovelo; e a cada dia que passava, a consciência aguçada pela fome, na barraca dos tifosos e junto do arame farpado do campo vizinho dos ingleses, uma ideia clara penetrou no meu cérebro moribundo: que a Rússia Soviética rejeitava os seus filhos agonizantes. Os «orgulhosos filhos da Rússia» foram-lhe necessários enquanto se deitavam debaixo dos tanques, enquanto ainda era possível fazê-los avançar para o ataque. Mas encarregar-se de alimentá-los no cativeiro? Eram bocas supérfluas. E testemunhas supérfluas de derrotas vergonhosas.
Por vezes queremos mentir, mas a Língua não nos deixa. Acusaram esses homens de traidores, mas cometeram um notável erro de linguagem — os instrutores, os procuradores e os juízes. E os próprios acusados, e todo o povo, e os jornais repetiram e fixaram esse erro, revelando involuntariamente a verdade: quiseram declará-los traidores à Pátria, mas ninguém disse nem escreveu mesmo nos materiais dos tribunais outra coisa que não fosse «traidores da Pátria».
Tu o disseste! Não eram traidores a ela, mas traidores dela (por ela). Não foram eles, infelizes, que traíram a Pátria, mas foi a Pátria calculista que os traiu, e isto por três vezes.
A primeira vez traiu-os mediocremente no campo de batalha — quando o governo fez tudo o que podia para perder a guerra: destruiu a linha de fortificações, expôs a aviação a ser destroçada, desmontou os tanques e a artilharia, privou os exércitos dos melhores generais e proibiu-os de resistirem. Os prisioneiros de guerra eram precisamente aqueles cujos corpos apararam o golpe e detiveram a Wehrmacht.
A segunda, a Pátria traiu-os cruelmente abandonando-os à morte no cativeiro.
E agora, pela terceira vez, traia-os desavergonhadamente engodando-os com o amor materno («A Pátria perdoou! A Pátria chama-vos!») e lançando-lhes o laço estrangulador logo na fronteira.
Que infâmia lançada contra tantos milhões: trair os seus combatentes e declará-los traidores?! E com que facilidade nós os excluímos das nossas contas: traiu? — vergonha! — riscá-lo! Mas ainda antes de nós riscou-os o nosso Pai: lançou a flor da intelectualidade moscovita para o açougue de Viazma com carabinas Berdan de 1866, e mesmo assim só uma para cada cinco homens. (Qual será o Lev Tolstoi que desenvolverá esse Borodino diante de nós?) E em dezembro de 1941 o Grande Estratego enviou — absurdamente, apenas para efeito de um comunicado de ano novo — CENTO E VINTE MIL dos nossos rapazes atravessarem o estreito de Kertch, quase tantos homens como todos os russos que havia em Borodino — e entregou-os a todos sem combate aos alemães.
E contudo, por qualquer razão, não é ele o traidor, mas eles é que são traidores.
E com que facilidade nós cedemos aos epítetos preconcebidos, com que facilidade concordámos em considerar esses homens abnegados como traidores! Tantas guerras que a Rússia travou (antes tivessem sido menos…), e houve muitos traidores em todas essas guerras? Alguma vez se notou que a traição se tivesse enraizado na alma do soldado russo? Mas eis que no regime mais justo do mundo começou a mais justa guerra — e de repente há milhões de traidores entre o povo mais simples. Como compreender isto? Como explicar?
Ao nosso lado combateu contra Hitler a Inglaterra capitalista, onde a pobreza e os sofrimentos da classe operária foram tão eloquentemente descritos por Marx — e porque é que entre eles houve nesta guerra um único traidor, o comerciante «lorde Haw-Haw»? E no nosso país, milhões?
Porque é horrível abrir a boca para o dizer, mas talvez seja afinal uma questão de regime?…
Já um provérbio russo antigo justificava o cativeiro: «O prisioneiro grita, mas o morto nunca». No tempo do czar Aleksei Mikhailovitch davam o título de nobre por ter sofrido o cativeiro. E em todas as guerras que se seguiram, era tarefa da sociedade trocar os seus prisioneiros, acarinhá-los e reconfortá-los. Cada fuga do cativeiro era glorificada como um gesto de grande heroísmo. Durante toda a Primeira Guerra Mundial fizeram-se na Rússia coletas de meios para ajudar os nossos prisioneiros, as nossas enfermeiras eram autorizadas a ir à Alemanha visitá-los. E todos os números dos jornais lembravam aos leitores que os seus compatriotas sofriam um pérfido cativeiro. Todos os povos ocidentais faziam o mesmo durante essa guerra: encomendas, cartas, todas as formas de apoio circulavam através dos países neutrais. Os prisioneiros de guerra ocidentais não se humilhavam a ir comer à marmita alemã e falavam com desprezo à guarda alemã. Os governos ocidentais atribuíam aos seus soldados que caíam prisioneiros anos de serviço, promoções normais e até um soldo.
Só o soldado do Exército Vermelho, em todo o mundo, não se rende ao inimigo! — Assim estava escrito no regulamento («Ivan plen nicht» — gritavam os alemães das suas trincheiras) — e quem podia imaginar todo este sentido?! Há guerra, há morte, mas prisioneiros não! — Olha a descoberta!
Só o nosso soldado, repudiado pela pátria e o mais insignificante aos olhos dos inimigos e dos aliados, estendia a mão para a lavadura dos porcos, distribuída nos pátrios traseiros do Terceiro Reich. Só para ele estava hermeticamente fechada a porta de casa, ainda que as almas jovens tentassem não acreditar: um qualquer artigo 58-1-6, e segundo ele em tempo de guerra não havia castigo mais suave do que o fuzilamento! Para os outros, dos inimigos, para nós, dos nossos!
(Todos estes prisioneiros de guerra foram detidos, é claro, não por traição à pátria, pois para qualquer imbecil era evidente que só os vlassovistas podiam ser condenados por traição. Estes foram todos presos para que não recordassem a Europa entre os seus conterrâneos da aldeia. Aquilo que não vês, não te faz sonhar…)
* * *
E assim, quais os caminhos que se abriam aos prisioneiros de guerra russos? Legal, só um: deitar-se e deixar-se pisar. Todos os outros caminhos que o teu cérebro desesperado possa inventar, vão todos contra a Lei.
A fuga para a pátria, através da cerca do campo, através de meia Alemanha ou dos Balcãs — conduzia ao SMERCH e ao banco dos réus: como é que tu conseguiste fugir, se os outros não conseguem? Há aqui qualquer coisa suspeita. Fala, canalha, qual a tarefa com que te enviaram? (Mikhail Burnátsev, Pável Bondarenko e muitos, muitos outros).
A fuga para junto dos guerrilheiros ocidentais, para as forças da Resistência, apenas adiaria o momento em que teria de responder perante o Tribunal, mas isso tornava-te ainda mais perigoso: tendo vivido livremente entre as populações europeias, podias contrair um espírito muito pernicioso. E se não tiveste medo de fugir e depois combater, eras um homem resoluto, duplamente perigoso no regresso à pátria.
Arranjar maneira de sobreviver no campo de concentração à custa dos compatriotas e camaradas? Tornar-se polizei, comandante, auxiliar dos alemães e da morte? A lei estalinista não te punia por isso com uma pena mais severa do que pela participação nas forças da Resistência — o artigo era o mesmo, a mesma a pena (e pode-se perceber porquê: esse homem era menos perigoso!). Mas uma lei interior, inexplicavelmente ancorada em nós, proibia esse caminho a todos, menos à escória.
Excluídas estas quatro vias, impraticáveis ou inaceitáveis, restava uma quinta: esperar os recrutadores, esperar o que proporiam.
Às vezes, por sorte, vinham representantes das zonas rurais e recrutavam trabalhadores agrícolas para os Bauers; ou representantes de firmas que recrutavam engenheiros e operários. Segundo o alto imperativo de Estaline, neste caso devias negar que eras engenheiro, ocultar que eras um operário qualificado. Construtor ou eletricista, só conservarias a tua pureza patriótica se continuasses no campo de concentração a cavar a terra, a apodrecer ou a esgaravatar nas lixeiras. Nesse caso, por traição simples à pátria, poderias, de cabeça erguida, com orgulho, apanhar dez anos, mais cinco de privação de direitos. Agora por traição à pátria agravada com o trabalho para o inimigo, ainda por cima na tua especialidade, apanhavas, de cabeça baixa — dez anos mais cinco de privação de direitos!
Esta era a subtileza de hipopótamo em que Estaline tanto se distinguia!
Mas apareciam também recrutadores de caráter completamente diferente — russos que em geral eram ainda há pouco comissários políticos vermelhos, porque os guardas brancos não faziam esse trabalho. Os recrutadores organizavam um comício no campo de concentração, injuriavam o poder soviético e convidavam-nos a inscreveram-se nas escolas de espiões ou nas unidades de Vlassov.*
Quem nunca passou fome como os nossos prisioneiros de guerra, não roeu como eles os morcegos que apareciam no campo, não cozeu solas velhas, dificilmente compreenderá a força material invencível que adquire qualquer apelo, qualquer argumento, se atrás dele, para lá dos portões do campo, fumega a cozinha de campo e todo aquele que concorda é logo alimentado de papas até encher a barriga — ao menos uma vez! Ao menos mais uma vez na vida!
Um homem a quem levámos ao ponto de rilhar morcegos, retirámos-lhe nós mesmos qualquer dever não só perante a pátria, mas até perante a humanidade!
E aqueles dos nossos rapazes que nos campos de prisioneiros de guerra se alistavam nos cursos rápidos de espiões, quase todos eles imaginavam que, mal os alemães os passassem para o lado soviético, se apresentariam imediatamente às autoridades, entregariam os seus equipamentos e instruções e juntamente com o bondoso comando se ririam dos estúpidos alemães, envergariam o uniforme do exército vermelho e voltariam com ânimo às fileiras dos bravos. Eram rapazes simples, conheci muitos deles — de cara redonda, sem artifícios, com a pronúncia simpática de Viatka ou de Vladimir. Alistavam-se com ânimo como espiões, tendo como instrução apenas a quarta ou a quinta classe da escola rural e sem qualquer experiência na utilização de uma bússola ou de um mapa.
Assim imaginavam, aparentemente da única maneira adequada, a sua saída da situação. Poderia parecer que este intento do comando alemão era simplesmente custoso e tolo. Mas não! Hitler tocava no mesmo tom que o seu irmão déspota. A mania da espionagem era um dos traços principais da loucura de Estaline. Achava que o país estava a fervilhar de espiões. Todos os chineses que viviam no Extremo Oriente soviético apanharam com o artigo 58-6, e foram expedidos para os campos do norte onde desapareceram. O mesmo destino atingiu os chineses que participaram na Guerra Civil, salvo os que se tinham escapado a tempo. Centenas de milhares de coreanos foram eLivross para o Cazaquistão, sob a mesma suspeita. Todos os soviéticos que abrandavam o passo diante do hotel Inturist, ou que alguma vez ficaram numa mesma fotografia com uma fisionomia estrangeira, sofriam a mesma acusação. Aqueles que olhavam demasiado tempo para uma via férrea, para uma ponte rodoviária, para uma chaminé de fábrica, sofriam a mesma acusação. Todos os numerosos comunistas estrangeiros que se demoravam na União Soviética, eram acusados, antes de mais nada, de espionagem. Estaline parece ter recuperado e multiplicado a célebre sentença de Catarina: ele preferia deixar apodrecer noventa e nove inocentes, do que deixar escapar um único verdadeiro espião. Assim sendo, como se poderia acreditar nos soldados russos que realmente passaram pelas mãos da espionagem alemã?! E que facilidade para os carrascos do MGB, esses milhares de soldados que afluíam da Europa e não ocultavam que se haviam inscrito voluntariamente como espiões! Que surpreendente confirmação dos prognósticos do Sábio dos Sábios! Venham, venham, seus patetas! O artigo e a paga já estão preparados para vocês!
Mas é oportuno colocar a questão: em todo o caso houve também alguns que não aceitaram nenhum recrutamento; e não trabalharam em lado nenhum na sua especialidade para os alemães; e não foram denunciantes nos campos; e passaram toda a guerra nos campos de concentração como prisioneiros de guerra, sem pôr o nariz de fora; e contudo não morreram, apesar de isso ser quase inacreditável! Por exemplo, faziam isqueiros de restos de metal, como os engenheiros eletrotécnicos Nikolai Andréievitch Semiónov e Fiódir Fiódorovitch Karpov, e com isso conseguiam alguma comida. Será possível que a Pátria não lhes tenha perdoado por terem caído prisioneiros?
Não, não lhes perdoou! Conheci Semiónov e Karpov em Butirki, quando eles já tinha apanhado o que lhe ditava a lei… quanto? O leitor perspicaz já sabe: dez anos e cinco de mordaça. E sendo engenheiros brilhantes, recusaram a proposta alemã para trabalharem na sua especialidade! E em 1941 o alferes Semiónov foi para a frente como voluntário. E em 1942 ainda andava com o coldre vazio, sem a pistola (o instrutor do processo não compreendia porque é que ele não tinha dado um tiro na cabeça com o coldre). E evadiu-se três vezes do cativeiro. E em 1945, depois da libertação do campo de concentração, foi integrado a título disciplinar num tanque nosso (para um assalto de blindados) — e tomou Berlim, recebeu a ordem da Estrela Vermelha — e só depois disso foi definitivamente detido e condenado. É este o espelho da nossa Némesis.
«Ah, se eu soubesse…» — tal era o principal refrão das celas naquela Primavera. Se eu soubesse que me iam receber assim! Que me enganavam assim! Que teria este destino! — pois eu teria regressado à pátria? Nem por nada! Ia para a Suíça, para a França! Para além do mar! Para lá do oceano! Para lá de três oceanos.
* * *
Naquela Primavera havia também nas celas muitos emigrantes russos.
Isto parecia quase como um sonho: o regresso de uma história esquecida. Os ativistas políticos do movimento dos Brancos já não eram nossos contemporâneos na terra, mas fantasmas de um passado dissipado. Na nossa compreensão soviética, se os emigrantes russos — mais dispersos do que as tribos de Israel — continuavam ainda a viver algures, era como pianistas em restaurantes manhosos, como criados, lavadeiras, mendigos, morfinómanos, cocainômanos, cadáveres em decomposição. Antes da guerra de 1941 nem nos nossos jornais, nem na literatura, nem na crítica literária havia quaisquer sinais que permitissem imaginar que os russos do estrangeiro constituíssem um grande mundo espiritual, que se desenvolvesse aí a filosofia russa, que houvesse um Bulgákov*, Berdiáiev, Frank, Losski, que a arte russa cativava o mundo, com Rakhmáninov, Chaliápin, Benois, Diaguilev, Pavlova, o coro cossaco de Jarov, que se desenvolviam estudos profundos de Dostoievski (que nesse tempo era em geral amaldiçoado no nosso país), que havia um extraordinário escritor chamado Nabókov-Sirin, que Búnin ainda estava vivo e que tinha escrito alguma coisa naqueles vinte anos, que se editavam revistas literárias, se montavam espetáculos, se reuniam congressos de emigrantes em que se falava a língua russa, e que os homens emigrados não tinham perdido a capacidade de se casarem com mulheres emigrantes, e que estas lhes davam filhos que eram nossos coetâneos.
As ideias que se espalhavam no nosso país acerca dos emigrados eram tão falsas que os soviéticos nunca acreditariam: que houve emigrantes que em Espanha combateram não a favor de Franco, mas a favor dos republicanos; e que em França, entre os emigrantes russos, Merejkovski e Guippius ficaram sozinhos e isolados por não se terem distanciado de Hitler. Durante a ocupação da França muitos emigrantes russos, velhos e jovens, aderiram ao movimento da Resistência, e depois da libertação de Paris acorreram em massa à embaixada soviética a entregar pedidos de regresso à pátria. Seja a Rússia o que for, é a Rússia! — era a sua palavra de ordem, e assim demonstravam que já antes não mentiam quanto ao seu amor por ela. (Em 1945-1946, nas prisões, era quase felizes que se sentiam, porque aquelas grades e aqueles carcereiros eram nossos, russos; olhavam com espanto como os rapazes soviéticos coçavam a nuca. «Para que diabo voltámos? Sentíamo-nos apertados na Europa»?)
Mas pela mesma lógica estalinista segundo a qual se devia meter na prisão todo o cidadão soviético que tivesse vivido no estrangeiro, como poderiam os emigrantes escapar a esse destino? Nos Balcãs, na Europa Central, em Kharbina, prendiam-nos imediatamente assim que chegavam as tropas soviéticas; apanhavam-nos nos apartamentos e nas ruas, exatamente como com os nossos. Por enquanto detinham apenas os homens, e não todos, só aqueles que se tinham manifestado politicamente. Em França concediam-lhes a cidadania soviética, em cerimônias, com flores, transportavam-nos confortavelmente para a pátria, e aqui abarbatavam-nos logo. Com os emigrados em Xangai o processo foi mais longo — em 1945 os braços não chegavam até lá. Mas deslocou-se lá um representante do governo soviético e tornou público um decreto do Presídium do Soviete Supremo: perdão a todos os emigrados! Como não acreditar? O governo não pode mentir! (Se esse decreto existia ou não existia — em qualquer caso ele não obrigava os Órgãos.) Os emigrados de Xangai exultaram. Propunham-lhes que trouxessem todas as coisas que quisessem (trouxeram até automóveis, a pátria havia de precisar), instalar-se na União onde quisessem; e trabalhar, é claro, em qualquer especialidade. De Xangai trouxeram-nos de barco. Já nos barcos a sorte era diferente: em alguns deles, por qualquer razão, não davam comida. Também a partir do porto de Nakhodka (um dos principais lugares de transbordo para o Gulag) o destino foi diferente. Quase todos foram embarcados num comboio de vagões de mercadorias, como detidos, só que ainda não havia uma escolta severa nem cães. Alguns foram levados para lugares habitados, para cidades, e de facto deixaram-nos lá viver durante dois, três anos. Outros foram logo levados no comboio para um campo, algures além-Volga e descarregaram-nos numa floresta com forte declive, com os seus pianos de cauda brancos e as suas mesas jardineiras. Nos anos 1948-1949 os repatriados do Extremo-Oriente que sobreviveram foram de novo passados a rodo.
Entre os emigrados na Europa encontrava-se Igor Tronko, homem da minha idade. Travámos amizade. Estávamos ambos enfraquecidos, secos, com a pele cinzenta e amarelecida colada aos ossos, magros, altos, oscilando às rajadas do vento estival no pátio de recreio de Butirki, andávamos sempre ao lado um do outro com passo de velhos e discutíamos as nossas vidas paralelas. Eu e ele tínhamos nascido no mesmo ano, no sul da Rússia. Ambos éramos crianças de peito quando o destino, remexendo no seu saco rapado, me estendeu a mim uma palhinha curta, e a ele uma longa. E eis que o destino dele o levou para lá do mar, embora o seu pai «guarda branco» fosse apenas um modesto telegrafista.
Para mim era muito interessante, através da vida dele, imaginar toda a minha geração de compatriotas que ali estava. Eles tinham crescido sob boa vigilância familiar, com posses modestas ou mesmo com dificuldades. Todos tinha recebido excelente educação e, conforme os seus meios, boa formação. Cresceram alheios aos vícios do século que abrangiam toda a juventude europeia (leviandade perante a vida, irreflexão, fúria de viver, elevada criminalidade) — isto porque cresceram à sombra da indelével desgraça das suas famílias. Em todos os países onde eles cresceram, só reconheciam a Rússia como sua pátria. A sua educação espiritual decorreu baseada na literatura russa, tanto mais amada quanto nela estava toda a sua pátria. As noções que tinham acerca da nossa verdadeira vida eram as mais pálidas, mas a nostalgia da pátria era tanta que, se em 1941 os chamassem, todos eles acorreriam ao Exército Vermelho. Aos vinte e cinco, vinte e sete anos, essa juventude já tinha formulado e defendia com firmeza o seu ponto de vista. Assim, o grupo de Igor era os dos «não aprioristas». Proclamavam que, não tendo partilhado com a pátria todo o complexo fardo das últimas décadas, ninguém tinha o direito de decidir fosse o que fosse sobre o futuro da Rússia, nem sequer propor alguma coisa, mas apenas de ir e entregar todas as suas forças àquilo que o povo decidisse.
Passámos muito tempo lado a lado nas tarimbas. Eu fiz o possível por apreender o mundo dele, e esse encontro revelou-me (e depois, outros encontros confirmaram) a ideia de que o refluxo de uma parte significativa das forças espirituais ocorrido na Guerra Civil nos retirou um grande e importante ramo da cultura russa. E todo aquele que a ama verdadeiramente procurará a reunificação de ambos os ramos — o da metrópole e o do estrangeiro. Só então ela atingirá a plenitude, só então se mostrará capaz de um desenvolvimento sem deficiências.
Sonho viver até esse dia.
* * *
O homem é fraco, fraco. No fim de contas, até os mais obstinados de nós desejavam o perdão nessa Primavera. Ninguém queria ser enviado para lá do círculo polar, para o escorbuto, para a distrofia. E não se sabe porquê, floresceu e espalhou-se em especial pelas celas a lenda sobre o Altai. Os raros que alguma vez lá haviam estado, e em especial os que nunca lá tinham ido, inspiravam nos companheiros de cela sonhos melodiosos: que região, o Altai! A vastidão siberiana, o clima suave. Rios de mel com margens de trigo. A estepe e as montanhas. Rebanhos de ovelhas, caça, peixe. Aldeias ricas e populosas…
Ah, refugiar-se naquela tranquilidade! O som puro e sonoro do canto do galo no ar límpido! Acariciar o focinho bom e sério de um cavalo! E malditos sejam todos os grandes problemas, que outro qualquer mais estúpido moa a cabeça convosco. Repousar ali das obscenidades dos comissários-instrutores, do fastidioso esvaziar de toda a tua vida, do ruído das fechaduras da prisão, do ar viciado da cela. A vida que nos é dada é tão pequenina, tão curta! — e nós cometemos o crime de a expor a uma metralhadora qualquer, entrámos com ela, assim pura, no sórdido monturo da política! Lá, no Altai, acho que viveria na mais baixa e obscura isba no extremo da aldeia, junto ao bosque. E penetraria no bosque, não para apanhar lenha nem cogumelos, entraria simplesmente, abraçaria dois troncos de árvore: meus queridos! Não preciso de mais nada!…
E aquela Primavera por si mesma incitava à clemência: a Primavera do fim de uma guerra tão monstruosa! Víamos que nós, os presidiários, fluíamos aos milhões e que mais milhões ainda nos acolheriam nos campos de reclusão. Não pode ser que se deixem assim tantos milhões de pessoas na prisão depois de uma tão grande vitória mundial! Haverá por certo uma grande amnistia e em breve nos libertarão a todos. Alguns até juravam terem lido no jornal que Estaline, em resposta a um qualquer correspondente americano (como se chama ele? — não me lembro…), disse que depois da guerra haveria no nosso país uma amnistia como o mundo nunca tinha visto. E a um qualquer o próprio comissário instrutor dissera que em breve haveria uma amnistia-geral.
Mas — para a clemência é necessária a razão.
Não escutávamos aqueles mais lúcidos de nós que diziam que num quarto de século nunca houve amnistia para os presos políticos, e nunca haverá. Repelíamos aqueles de nós que eram mais sensatos e diziam que estávamos presos aos milhões precisamente porque a guerra tinha acabado: na frente já não éramos necessários, na retaguarda éramos perigosos, mas nas construções distantes nem um tijolo seria assente sem nós. (Não estávamos suficientemente desprendidos de nós mesmos para penetrar nos cálculos, se não malévolos, ao menos económicos, de Estaline: quem é que aceitaria agora, depois de desmobilizado, abandonar a família e a casa e partir para Kolimá, para Vorkuta, para a Sibéria, onde ainda não havia nem estradas, nem casas? Era já quase uma tarefa do Plano de Estado: fornecer ao MVD o número de pessoas a prender.) Amnistia! Esperávamos Uma magnânima e vasta amnistia e ansiávamos por ela!
Houvera uma amnistia de numerosos presos políticos no dia do tricentenário dos Románov. [15] Seria então possível que agora, tendo alcançado uma vitória à escala de um século, e até de mais de um século, o governo estalinista fosse tão mesquinhamente vingativo?…
Há uma verdade simples, mas que é preciso descobrir por meio do sofrimento: abençoadas não são as vitórias na guerra, mas as derrotas! Depois das vitórias querem-se ainda mais vitórias, depois das derrotas quer-se a liberdade — e habitualmente consegue-se.
A vitória de Poltava foi uma desgraça para a Rússia: trouxe atrás de si dois séculos de grandes tensões, de devastação, de falta de liberdade, e novas guerras. A derrota de Poltava foi benéfica para os suecos: tendo perdido a vontade de combater, os suecos tornaram-se o mais florescente e livre dos povos da Europa.
Nós estamos tão habituados a orgulhar-nos da vitória sobre Napoleão, que perdemos de vista que foi precisamente graças a ela que a libertação dos camponeses não se deu meio século mais cedo (a ocupação francesa não foi uma realidade para a Rússa). Já a guerra da Crimeia trouxe-nos as liberdades.
Na Primavera de 1945, cada novo preso que chegava à cela, a primeira coisa que lhe perguntávamos era: o que ouviste dizer sobre a amnistia? Mas se levavam dois ou três da cela com as coisas — os mais entendidos comparavam imediatamente os seus casos e deduziam que aqueles eram os mais ligeiros e que, portanto, os iam libertar. Começou!
Tudo o que nos nossos corpos batia, pulsava, vibrava, ficava parado do choque de alegria: a porta ia-se abrir e…
Mas para a clemência é necessária a razão…
Em meados de julho, o guarda do corredor mandou um velho da nossa cela lavar as latrinas e ali, cara a cara (na presença de testemunhas não se atreveria), perguntou-lhe, com compaixão: «Por qual artigo, paizinho?» — «Pelo cinquenta e oito!» — «Não és abrangido…» — suspirou o guarda. Disparate! — decidiram na cela —, o guarda é simplesmente analfabeto.
Em 27 de julho, vinte de nós, de várias celas, fomos levados aos banhos. Depois, amolecidos, reconfortados — levaram-nos pelo pequeno jardim cor de esmeralda de Butirki, onde os pássaros (o mais certo era serem só pardais) chilreavam, ensurdecedores, e o verde das árvores parecia insuportável aos olhos desacostumados. Nunca os meus olhos captaram com tanta força o verde das folhas como naquela Primavera! E nunca na vida eu tinha visto nada mais próximo do paraíso de Deus do que aquele jardinzinho de Butirki, ao percorrer as áleas asfaltadas em não mais de trinta segundos!
Levaram-nos à estação de Butirki (o lugar onde chegam e de onde partem os presos; o nome é muito apropriado, e além disso o vestíbulo principal é parecido com uma boa estação), fecharam-nos numa grande box espaçosa. Estava mergulhada numa meia penumbra e o ar era fresco: a única janelinha ficava muito alta e sem pála. Dava para aquele mesmo pequeno jardim, pela bandeira aberta a chilreada dos pássaros ensurdecia-nos e no vão da janela um raminho verde-claro agitava-se, prometendo a todos nós a liberdade e o regresso a casa.
Durante três horas ninguém nos tocou, ninguém abriu a porta. Nós caminhávamos, caminhávamos pela box e, quando não podíamos mais, sentávamo-nos nos bancos de ladrilhos. O raminho continuava a acenar, a acenar através da fresta e os pardais chilreavam como danados.
De repente a porta rangeu e chamaram um de nós, um pacato contabilista de trinta e cinco anos. Ele saiu. A porta fechou-se. Pusemo-nos a caminhar ainda mais esforçadamente na nossa caixa, estávamos a ferver.
Novo estrondo. Chamaram outro, e fizeram entrar o primeiro. Precipitámo-nos para ele. Mas não era ele! A vida tinha parado na sua cara, os olhos muito abertos estavam cegos. Com movimentos incertos, movia-se vacilante pelo chão liso da box. Estava ferido? Tinham-no agredido com uma tábua de engomar?
— Então? Então? — perguntávamos nós, suspensos. Com uma voz que anunciasse o fim do universo, o contabilista disse:
— Cinco! Anos!
E de novo a porta rangeu — voltavam tão depressa como se os tivessem levado à latrina para uma ligeira necessidade. Este voltou radiante. Pelos vistos, libertavam-no.
— Então? Então? — juntámo-nos à volta dele com esperança. Agitou o braço, sufocando de riso.
— Quinze anos!
Era demasiado absurdo para acreditar imediatamente.
Na box ao lado da estação de Butirki, conhecida como da busca (é ali que habitualmente revistam os que acabam de chegar, e o espaço bastava para que cinco ou seis guardas revistassem vinte presos de uma vezada) não havia agora ninguém, as toscas mesas de busca estavam vazias, e só a um lado, debaixo de uma lâmpada, estava sentado a uma pequena mesa improvisada um major do NKVD de cabelos negros. Um tédio paciente — era a principal expressão do seu rosto. Ele perdia o tempo em vão, enquanto traziam e levavam os presos um a um. Era possível recolher as assinaturas muito mais depressa.
Indicou-me um pequeno tamborete à sua frente, do outro lado da mesa, perguntou-me o meu apelido. À direita e à esquerda do tinteiro diante dele havia duas pilhas de papéis brancos iguais, no formato de meia folha de papel de máquina — o formato usado nas administrações dos prédios para o certificado de atribuição de combustível, e nas repartições para a compra de material de escritório. Folheando na pilha da direita, o major encontrou o papel que me correspondia. Retirou-o, leu-o à pressa, com indiferença (eu percebi que me davam oito anos) e logo se pôs a escrever no verso com uma caneta que o texto me tinha sido comunicado em tal data.
O meu coração não teve sequer meia pulsação mais — de tal modo aquilo era banal. Seria possível que aquilo fosse a minha sentença, uma viragem decisiva na minha vida? Eu desejaria emocionar-me, sentir aquele momento, e não conseguia de maneira nenhuma. E o major já me estendia a folha virada pelo verso. E à minha frente uma caneta escolar de sete copeques, com um farrapo de papel pescado no tinteiro.
— Não, eu próprio tenho de ler.
— Acha que o quero enganar? — objetou preguiçosamente o major. — Bem, leia.
E de má vontade largou o papelinho. Eu voltei-o e, de propósito, olhei-o com todo o vagar, nem sequer palavra a palavra, mas letra a letra. Estava escrito à máquina, mas não era o original que eu tinha à frente, era uma cópia:
Extrato
Do despacho da OSO NKVD URSS de 7 de julho de 1945, N. °…
Tendo examinado:
a acusação
contra agitação
e tentativa de
(nome data e
lugar de nascimento).
Cópia fiel.
Decidiu-se:
aplicar a (nome) por
criar organização
antissoviética 8 (oito)
anos de campo de trabalho correcional.
O Secretário…
Devia eu simplesmente assinar e sair em silêncio? Olhei para o major: iria ele dizer-me alguma coisa, esclarecer? Não, não diria nada.
Já tinha feito sinal com a cabeça ao guarda, para preparar o seguinte.
Para dar ao menos algum significado ao momento, perguntei-lhe com ar trágico:
— Mas isto é horrível! Oito anos! Porquê?
E eu próprio ouvi que as minhas palavras soavam a falso: nem eu nem ele sentíamos que aquilo fosse horrível.
— Aqui — indicou-me o major uma vez mais.
Assinei. Simplesmente não achava que mais fazer.
— Então, permita-me que escreva aqui um recurso. A sentença é injusta.
— Faça-o nos termos legais — disse mecanicamente o major, colocando o meu papelucho na pilha da esquerda.
— Passe! — ordenou-me o guarda.
E eu passei.
(Faltou-me presença de espírito. Gueorgui Tenno, a quem, é verdade, entregaram um papel para vinte e cinco anos, respondeu assim: «Mas isto é prisão perpétua! Antigamente, quando condenavam uma pessoa a prisão perpétua, tocavam tambores, convocavam a multidão. Mas aqui, é como uma lista para a distribuição de sabonetes — toma lá vinte e cinco e vai-te!»
Arnold Rappoport pegou na caneta e escreveu no verso: «Protesto categoricamente contra a sentença ilegal e terrorista e exijo a libertação imediata». Primeiro, o oficial esperou pacientemente, mas depois de ler enfureceu-se e rasgou o papel de cima abaixo e com ele o texto da decisão. Não importava, a sentença continuava em vigor: aquilo era apenas uma cópia.
Mas Vera Kornéieva, que esperava quinze anos, viu que no seu papel estava escrito apenas cinco. Desatou a rir, no seu riso radioso e apressou-se a assinar, com receio de que lhe tirassem a folha. O oficial teve dúvidas: «Mas você compreendeu o que eu lhe li?» — «Sim, sim, muito obrigada! Cinco anos de campos de trabalho correcional!»
János Rozsas, húngaro, leram-lhe a sua sentença de dez anos no corredor, em russo, e sem tradução. Assinou sem compreender que aquilo era a sentença, ficou muito tempo à espera do julgamento, e só muito mais tarde no campo recordou vagamente esse episódio e adivinhou.)
Eu voltei para a box com um sorriso. Salpicado de sol, aquele raminho continuava a agitar-se alegremente para lá da janela à brisa suave de julho. Aqui e ali, surgiam cada vez mais risos na box. Riamo-nos porque tudo se tinha passado sem problemas; riamo-nos do contabilista perturbado; riamo-nos das nossas esperanças dessa manhã, das despedidas dos companheiros de cela, e de como eles nos tinham pedido as encomendas regulamentares: quatro batatinhas, dois biscoitos.
O meu vizinho dizia-me, tranquilizador, reconfortante:
— Não importa, nós ainda somos novos, ainda viveremos.
O principal é não dar agora nenhum passo em falso. Vamos para o campo de trabalhos, e nem uma palavra a ninguém para que não nos preguem novas condenações. Trabalharemos honestamente e ficaremos calados, calados.
E ele acreditava tanto nesse programa, tinha tanta esperança no inocente grão entre as mós estalinistas! Dava vontade de concordar com ele, cumprir a pena calmamente, e depois apagar da cabeça tudo o que se tinha vivido.
Mas eu começava a sentir em mim: se para viver é preciso não viver — para quê então?
* * *
Não se pode dizer que o OSO tenha sido inventado depois da revolução. Já Catarina II aplicou quinze anos a um jornalista de quem não gostava, pode dizer-se através do OSO, porque não o levou a tribunal. E todos os imperadores desterravam também paternalmente, sem julgamento, aqueles que lhes desagradavam.
Havia portanto a tradição, mas demasiado frouxa. E depois, desculpem, que envergadura é essa, quando é possível enumerar os nomes e os casos?
A envergadura começou nos anos vinte, quando, para evitar constantemente os tribunais, se criaram as troikas, que funcionavam permanentemente. A princípio até salientavam isso com orgulho — troika do GPU! E não só não ocultavam os nomes dos membros, como pelo contrário os proclamavam. Quem não conhecia nas Solovki a famosa troika de Moscovo — Gleb Bokii, Vul e Vassíliev? Também é verdade que a palavra soa bem — troika! Há qui um pouco do som dos guizos da equipagem, do rebuliço do entrudo, e de mistura com isso, algum mistério: porquê «troika»? o que significa isso? Porque, enfim, no tribunal também não há quatro juízes! Mas uma troika não é um tribunal! O maior mistério no entanto está em que ela se reúne na ausência do acusado. Nós não estivemos lá, não vimos, apenas nos deram um papel: assine. A troika é ainda mais terrível do que o tribunal revolucionário. Depois a troika isolou-se ainda mais, enrolou-se, fechou-se numa sala isolada, e os apelidos ocultaram-se. Habituámo-nos assim à ideia de que os membros da troika não bebem, não comem e não caminham entre as pessoas. Afastaram-se uma vez para deliberar e foi para sempre, e só as sentenças nos são comunicadas através das datilógrafas. (E com devolução obrigatória: semelhante documento não pode ficar nas nossas mãos.)
Estas troikas respondiam a uma nova premente necessidade: uma vez detidas, as pessoas já não podiam ser postas em liberdade (bem, era uma espécie de departamento técnico de controlo junto da GPU: para que não houvesse refugo). Se a pessoa estivesse afinal inocente e fosse impossível levá-la a tribunal, lá estava a troika para lhe dar o seu «menos trinta e duas» (proibição de residência em trinta e duas capitais de província) ou dois-três anos de deportação, e já ficava avisado, marcado para sempre e da vez seguinte seria «reincidente».
Infelizmente, não nos competirá a nós escrever a história apaixonante desse Órgão. E de como em 1934 a troika passou a chamar-se Comissão Especial, e as troikas das regiões júris especiais dos tribunais regionais, ou seja, dos seus três membros permanentes, sem qualquer assistência popular e sempre à porta fechada. Assim prosperou o caro OSO até 1953, quando o nosso benfeitor Béria tropeçou por sua vez.
Durou dezanove anos, mas podem perguntar: quem é que dos nossos grandes homens orgulhosos fez parte dela; com que frequência e durante quanto tempo se reunia; com chá ou sem chá e de que é que acompanhavam o chá; e como decorria a própria discussão — conversavam entre si ou nem sequer conversavam? Não seremos nós a escrevê-lo, porque não sabemos. Apenas ouvimos dizer que a essência da OSO continuou a ser tríplice, e são conhecidos os três organismos que tinham nela os seus delegados permanentes: um do Comité Central do Partido, um do MVD, um da Procuradoria. No entanto, não será nenhum prodígio se algum dia viermos a saber que não havia quaisquer sessões, mas havia um quadro de datilógrafas experientes que faziam os resumos de protocolos inexistentes, e um chefe de serviços que dirigia as datilógrafas. Datilógrafas de facto havia, isso podemos garantir!
O OSO, a que em lugar nenhum, nem na Constituição, nem no Código Civil, se faz referência, revelou-se no entanto o mais cómodo triturador de carne — uma máquina dócil, pouco exigente e que dispensava as próprias leis. O Código era uma coisa, o OSO era outra coisa e passava bem sem os duzentos e cinco artigos dele, não os utilizava nem os mencionava. Como por piada se diz no campo: se não há tribunal, não há, mas a Comissão Especial está lá.
Naturalmente, para comodidade, também ele precisava de uma espécie de código, mas para isso elaborou uma série de siglas que facilitavam muito as operações (não é preciso moer muito a cabeça, andar à procura das formulações do Código), tão pouco numerosas que uma criança as pode memorizar:
— ASA — Agitação Anti-Soviética;
— NPGG — Travessia Ilegal da Fronteira do Estado;
— KRD — Atividade contrarrevolucionária;
— KRTD — Atividade Contrarrevolucionária trotskista (esta letrinha «t» dificultava muito a vida do presidiário nos campos);
— PCh — Suspeita de Espionagem (quando excedia os limites da suspeita, passava ao Tribunal);
— SVPCh — Ligações conducentes à Suspeita de Espionagem;
— KPM — Pensamento contrarrevolucionário;
— VAS — Tendências antissoviéticas em gestação;
— SOE — Elemento socialmente perigoso;
— CVE — Elemento socialmente nocivo;
— PD — Atividade Criminosa (atribuída de bom grado aos antigos presos dos campos, se não fosse possível acusá-los de mais nada); e finalmente, a muito ampla sigla
— TchS — Membro da família (de um condenado por qualquer das siglas anteriores).
Não esqueçamos que essas siglas não se repartiam igualmente pelas pessoas e pelos anos, mas, tal como os artigos do Código e os parágrafos das Leis, manifestavam-se por epidemias súbitas.
Mas entendamo-nos bem: o OSO não pretendia de modo nenhum ditar sentenças! — ele não ditava sentenças! — simplesmente aplicava punições administrativas, e nada mais. Era natural que tivesse plena liberdade jurídica!
Mas embora a punição não pretendesse tornar-se uma sentença do tribunal, podia chegar até aos vinte e cinco anos, até ao fuzilamento e incluía:
— privação de títulos e condecorações;
— confiscação de todos os bens;
— reclusão prisional;
— privação do direito de correspondência e uma pessoa desaparecia da face da terra de maneira ainda mais segura do que com o procedimento primitivo da sentença do tribunal.
Outra importante vantagem do OSO era a inexistência de recurso das suas resoluções — não havia onde apresentar queixa: não havia qualquer instância nem acima, nem abaixo dele. Estava submetido apenas ao ministro do interior, a Estaline e a Satanás.
Outra grande qualidade do OSO era também a rapidez: era limitada apenas pela técnica da datilografia.
E quando as prisões estavam a abarrotar, havia ainda a comodidade de que o detido, depois de terminada a instrução, podia não ocupar o seu lugar na prisão, não comer o pão gratuitamente, mas ser imediatamente enviado para o campo de trabalho e trabalhar ali honestamente. E a cópia do extrato podia lê-la muito mais tarde.
Acontecia que alguns trabalhassem muitos meses num campo sem conhecerem a sua sentença. Depois disso (conta I. Dobriak) reuniram-nos solenemente em formatura — não num dia qualquer, mas no 1.° de Maio de 1938, com bandeiras vermelhas içadas —, e notificaram-nos das sentenças da troika na região de Stalino: entre os dez e os vinte anos cada um. E o meu chefe de brigada no campo, Sinebriukhov, foi enviado nesse mesmo ano de 1938, num comboio cheio de presos sem julgamento, de Tcheliábinsk para Tcherepovets. Passavam-se os meses, e os presos a trabalharem. E de súbito, no Inverno, num dia de folga (repare-se em que dias; qual a vantagem para o OSO?) com um frio de rachar, fizeram-nos sair para o pátio e formar em filas; apareceu um tenente desconhecido, apresentou-se dizendo que fora enviado para comunicar as deliberações do OSO. Mas o tenente não era mau sujeito: ao ver o mau estado dos sapatos deles e as colunas de gelo ao sol, disse-lhes:
— Afinal, rapazes, para que hão de estar aqui a gelar? Fiquem sabendo: o OSO deu-vos a todos vocês dez anos, a alguns poucos oito anos. Compreendem? Destroçar!…
Nós esquecemos tudo. Recordamos não o que aconteceu, não a história, mas apenas a linha ponteada que quiseram gravar na nossa memória com um persistente buril.
Não sei se isto é um traço comum de toda a humanidade, mas é uma característica comum do nosso povo. Uma característica lastimável. Provém talvez da sua bondade, mas é lastimável. Faz de nós presa dos mentirosos.
Assim, se for conveniente que não recordemos nem os processos públicos, não os recordamos. Decorreram abertamente, os jornais escreveram sobre eles, mas não nos meteram na caixa craniana, e nós não os recordamos. (E na caixa craniana só entra porque o repetem todos os dias pela rádio.) Não falo da juventude, ela é claro que não sabe; falo dos contemporâneos desses processos.
Que dizer então dos processos que decorreram à porta fechada?… E já em 1918 os tribunais funcionavam em pleno! — quando ainda não havia nem leis, nem códigos, e os tribunais e os juízes só podiam orientar-se pelas necessidades do poder operário-camponês.
Naqueles anos dinâmicos, os sabres da guerra não enferrujavam nas bainhas, nem os revólveres punitivos arrefeciam nos coldres. Só mais tarde se lembraram de ocultar os fuzilamentos na noite, nos subterrâneos, e disparar na nuca. Mas em 1918, Stelmakh, um conhecido tchekista de Riazan, fuzilava em pleno dia, no pátio, de maneira que os condenados que esperavam a execução podiam observar pelas janelas da prisão.
Havia então um termo oficial: repressão extrajudicial. Não porque ainda não houvesse tribunais, mas porque havia a Tcheka. Só em ano e meio (1918 e metade de 1919) e só em vinte províncias da Rússia Central foram fuziladas pela Tcheka (ou seja, sem julgamento, fora dos tribunais) 8389 pessoas, descobertas 412 Organizações contrarrevolucionárias e detidas 87000 pessoas [16]
E os tribunais? Ora pois, os tribunais! No mês seguinte à revolução de Outubro foram criados tribunais ordinários, e tribunais revolucionários operários e camponeses (Decreto n.° 1 sobre os tribunais, 24 de novembro de 1917, pp. 12 e 13). Revelou-se também necessário criar um sistema único para o país de Tribunais Ferroviários Revolucionários. Depois, um sistema único de Tribunais Revolucionários das tropas de Segurança Interna.
Em 1918 todos esses sistemas funcionavam já em boa harmonia; contudo, o olhar vigilante do camarada Trotski notou a imperfeição dessa plenitude — e em 14 de outubro de 1918 assinou uma ordem para a formação de mais um novo sistema de Tribunais Militares Revolucionários.
«Os tribunais militares revolucionários são em primeiro lugar órgãos destinados a aniquilar, isolar, neutralizar e aterrorizar os inimigos da pátria operário-camponesa, e só em segundo lugar serão tribunais destinados a estabelecer o grau de culpabilidade de um determinado sujeito… A par dos órgãos judiciais devem existir órgãos de repressão judicial, se quiserem[17].»
O leitor percebe agora a diferença? Por um lado a Tcheka é a repressão extrajudicial. Por outro lado, o Tribunal Revolucionário, muito simplificado, profundamente impiedoso, mas mesmo assim em parte como que um tribunal. E entre eles? Não adivinham? Entre eles falta precisamente um órgão de repressão judicial — é isso o Tribunal Militar Revolucionário!
O fuzilamento «não pode ser considerado uma punição, é simplesmente o extermínio físico de um inimigo da classe operária» e «pode ser aplicado com fins de intimidação (terror) de semelhantes criminosos» (p. 40).
«A sentença deve ser aplicada quase imediatamente, para que o efeito da repressão seja o mais forte possível» (p. 50).
Seria possível continuar a citar, uma e outra vez, mas basta! Deixemos o olhar entranhar-se nesse passado e percorrer o mapa então em chamas do nosso país. Cada cidade conquistada durante a Guerra Civil era assinalada não apenas pelo fumo das armas no pátio da Tcheka, mas também pelas sessões insones do Tribunal. E para receber aquela bala na nuca não era preciso ser oficial branco, senador, latifundiário, monge, democrata — constitucionalista ou socialista — revolucionário. Ter mãos brancas, suaves, não calejadas, naqueles anos podia ser o bastante para a sentença de morte. Mas é fácil adivinhar que em Ijevsk, em Iaroslavl ou em Murom, em Kozlov ou em Tambov, as revoltas saíram caras mesmo aos de mãos calejadas. Porque foram muitas as agitações e revoltas dos camponeses entre 1918 e 1921, ainda que ninguém tenha fotografado nem filmado essas agitações da multidão armada de paus, forquilhas e machados, que avançavam contra as metralhadoras, e depois com as mãos amarradas — dez por cada um! — em fila para fuzilamento. Só em Sapojok se recorda a insurreição local, assim como a insurreição de Pitelin só em Pitelin é recordada. Naquele ano e meio, em vinte províncias, ficamos a saber o número de insurreições esmagadas: 344.[18] (E quantos foram casualmente tragados por essas mós, pessoas absolutamente casuais, cujo extermínio constitui uma inevitável metade da essência de qualquer revolução armada?)
Graças a pessoas de boa vontade chegou até nós um exemplar não destruído do livro com os discursos de acusação do exaltado revolucionário, primeiro comandante supremo, glorioso acusador dos maiores processos, e depois pérfido inimigo do povo, desmascarado, N. V. Krilenko.[19]
Certamente preferíamos ter visto os estenogramas desses processos, ouvir as dramáticas vozes de além-túmulo desses primeiros acusados e desses primeiros advogados.
Contudo, explica Krilenko, publicar os estenogramas « seria incómodo por uma série de razões técnicas» (p. 4), e era mais cómodo editar os seus discursos acusatórios e as sentenças dos Tribunais.
Segundo ele, os arquivos do Supremo Tribunal Revolucionário de Moscovo não estavam (em 1923) «em ordem», e «vários dos maiores processos decorreram sem estenogramas» (pp. 4, 5).
«O nosso tribunal não é aquele tribunal onde devam renascer as subtilezas e astúcias jurídicas… Nós criamos um novo direito e novas normas éticas» (p. 22). «Sejam quais forem as qualidades individuais [do réu], só lhe deve ser aplicado um método de apreciação: a avaliação do ponto de vista do interesse de classe» (p. 79).
Naqueles anos muitas pessoas viviam, viviam, e de repente ficavam a saber que a sua existência era improfícua.
Quanto à «conspiração militar» de 1919, «foi liquidada pela Tcheka em conformidade com a repressão extrajudicial» (p. 7), e assim se «demonstrou a sua existência» (p. 44). (Ao todo foram detidas mais de mil pessoas — íamos agora levá-las todas a tribunal?)
Vá-se lá agora relatar em boa ordem e em pormenor os processos judiciais daqueles anos…
Em todo o caso folheemos o livro de Krilenko.
O PROCESSO DO JORNAL RUSSKIE VEDOMOSTI (Boletim Russo). Este julgamento, um dos primeiros e mais precoces, foi um processo contra liberdade de palavra. Em 24 de março de 1918 este conhecido jornal de «professores» publicou o artigo de Savínkov, «Em viagem». Prefeririam ter prendido o próprio Savínkov, mas com essa maldita viagem, onde procurá-lo? Portanto encerraram o jornal, levaram ao banco dos réus o velho redator P. V. Égorov, e propuseram-lhe que explicasse: como se atreveu? Já estávamos na Nova Era havia quatro meses, era tempo de se habituar!
Égorov, ingenuamente, justificou-se, dizendo que era um artigo de um «destacado dirigente político, cujas opiniões têm um interesse geral, independentemente de serem ou não partilhadas pela redação». Além disso, não via qualquer calúnia na afirmação de Savínkov: «não esqueçamos que Lenine, Natanson e Ca vieram para a Rússia através de Berlim, ou seja que as autoridades alemãs os apoiaram no regresso à pátria» — porque de facto assim foi, a Alemanha do Kaiser em guerra ajudou o camarada Lenine a regressar. Krilenko exclama que não tenciona avançar a acusação de calúnia (mas porquê?…), o jornal é condenado por tentativa de influenciar as mentes!
Sentença: um jornal que se publicava desde 1864, que suportara as mais inimagináveis reações — é agora encerrado para sempre! (Por um artigo, e para sempre! É assim que se deve manter o poder.) E o redator Égorov… vergonha é dizê-lo… foi condenado a três meses de prisão em regime de isolamento. (Não será grande vergonha pensar: isto foi apenas em 1918! E se o velho sobreviver, prendem-no outra vez, e quantas vezes ainda o prenderão!)
* * *
O PROCESSO DOS «ECLESIÁSTICOS» (11-16 de janeiro de 1920) ocupa, na opinião de Krilenko, «o devido lugar nos anais da revolução russa».
Principais acusados: A. D. Samarin, personalidade conhecida na Rússia, antigo procurador-geral do Sínodo, que procurava a libertação da Igreja do poder czarista; Kuznetsov, professor de direito canónico na Universidade de Moscovo; dois conhecidos arciprestes de Moscovo.
A sua culpa: criaram o «Conselho da União das Paróquias de Moscovo», o que criou por sua vez uma guarda voluntária do Patriarca (crentes entre os quarenta e os oitenta anos, desarmados, naturalmente), que mantinha um serviço permanente de plantões no pátio do paço com esta tarefa: em caso de ameaça das autoridades ao Patriarca, tocar os sinos a rebate e usar o telefone para juntar o povo, seguir em multidão o Patriarca, aonde quer que o levassem e pedir ao Conselho de Comissários do Povo a sua libertação!
Que intento digno da velha Rússia, da santa Rússia! — Ao toque de rebate reunirem-se e ir em multidão apresentar uma súplica!…
Espanto do acusador: mas qual é o perigo que ameaça o Patriarca? Porque é que se lembraram de ir defendê-lo?
Pois, na verdade: durante dois anos o patriarca Tikhon não se calou — enviava mensagens aos comissários do povo, ao clero, ao seu rebanho; as suas mensagens, recusadas pelas tipografias, eram passadas à máquina de escrever (eis o primeiro Samizdat!); denunciava o extermínio de inocentes, a ruína do país — e qual o receio agora pela vida do Patriarca?
Segunda culpa dos acusados: por todo o país está em curso o inventário e confisco dos bens da Igreja — e o Conselho das paróquias difundia um apelo aos fiéis para que se opusessem às requisições, tocando a rebate. (O que era natural! Era assim que defendiam aqueles templos contra os tártaros!)
E terceira culpa: a constante e insolente entrega de requerimentos no Conselho de comissários do povo sobre os achincalhamentos da Igreja conduzia ao descrédito dos funcionários locais.
Analisando agora todas as culpas dos acusados, o que se pode exigir por esses horríveis crimes? Que dirá ao leitor a consciência revolucionária? Pois só o fuzilamento! Como Krilenko exigiu.
E o tribunal condenou Samarin e Kusnetsov ao fuzilamento, mas fazendo-os beneficiar da amnistia: no campo de concentração até à vitória total sobre o imperialismo mundial! (E ainda hoje eles estariam lá…)
Pedimos ao leitor que tenha sempre em vista: ainda em 1918 estabeleceu-se uma prática segundo a qual cada processo moscovita era um sinal de política judicial, era um modelo de vitrina. E o próprio Supremo Acusador nos explica de bom grado (p. 61): «em quase todos os tribunais da república têm decorrido» processos idênticos.
* * *
PROCESSO DO «CENTRO TÁTICO» (16-20 de agosto de 1920) — 28 réus e mais um certo número de acusados julgados à revelia.
Informa-nos o Supremo Acusador que além dos latifundiários e dos capitalistas «existia uma outra camada social — a chamada intelectualidade… Neste processo veremos como a história julga a ação da intelectualidade russa» e como a julga a revolução (p. 34).
«Essa camada social… foi submetida durante estes anos à prova de uma revisão geral». E como decorreu essa revisão? Assim: «A intelectualidade russa, ao entrar no cadinho da Revolução com palavras de ordem de poder do povo, saiu dele como aliada dos generais negros (nem sequer dos generais brancos!)…», (Krilenko, p. 54).
Encaramos com hostilidade as 28 pessoas aliadas dos generais negros. Esse Centro é que nos afeta em especial o nariz.
Na verdade, sentimos o coração um pouco aliviado quando ouvimos depois dizer que o Centro Tático agora em julgamento não era uma organização, porque não havia nele: 1) estatutos; 2) programa; 3) cotizações. Mas o que havia então? O seguinte: reuniam-se! (Formigueiro na espinha.) E, quando se reuniam, trocavam opiniões! (Um frio glacial.)
Eis as suas ações mais horríveis: em plena Guerra Civil… escreviam obras, redigiam notas, estabeleciam projetos. Sim, esses «especialistas em direito público, em ciências financeiras, em relações económicas, em direito judicial e instrução pública», escreviam obras! O professor S. A. Kotliarevski — sobre a estrutura federativa da Rússia, V. I. Stempkovski sobre a questão agrária (e, provavelmente, sem coletivização…), V. S. Muralevitch sobre a instrução pública na Rússia futura, o professor Kartachov um projeto de lei sobre as confissões religiosas. E o (grande) biólogo N. K. Koltsov (que não viu nada da pátria a não ser perseguições e execuções) permitia que essas baleias burguesas se reunissem no seu instituto.
O nosso coração de acusador salta do peito, ao antever a sentença. Ora que castigo, que castigo merecem estes acólitos dos generais? Só há um castigo para eles — fuzilamento! Isto não é uma exigência do acusador — isto é já uma sentença do Tribunal! (Infelizmente, depois suavizaram: campo de concentração até ao fim da Guerra Civil.)
«E mesmo que os acusados, aqui em Moscovo, não tenham movido um dedo — (como parece que foi o caso…) —, não faz diferença: … num momento como este até as conversas à volta do chá sobre qual o regime que deve substituir o Poder Soviético, pretensamente em queda, constitui um ato contrarrevolucionário… Durante a guerra civil é criminosa não apenas qualquer ação [contra o Poder Soviético] … a própria inação é criminosa» (p. 39).
Pronto, agora tudo se compreende. Eles são condenados ao fuzilamento por inação. À volta do chá.
Como diante de uma câmara cinematográfica em queda, passam rapidamente à nossa frente, numa película distorcida, as caras masculinas e femininas de vinte e oito pessoas. Não notámos as suas expressões! — estão assustados? Desdenhosos? Altivos?
Porque as suas respostas não figuram nos autos! Nem as suas últimas palavras! — por motivos técnicos…
Mas quem é esta mulher jovem que perpassou assim um instante?
É uma filha de Tolstoi, Aleksandra Lvovna. Krilenko perguntou-lhe o que fazia ela nessas reuniões. Respondeu: «Acendia o samovar!» — Três anos de campo de concentração!
Assim nasceu o sol da nossa liberdade. Assim nutrida e traquinas cresceu a nossa Lei, filha de Outubro.
Já esquecemos tudo isso.
Acompanhemos ainda um pouco a nossa lei na idade dos pioneiros.
O ano de 1922 — primeiro ano de paz — foi rico em processos públicos.
No final da Guerra Civil, como natural consequência dela, desencadeou-se na região do Volga uma fome inaudita. Uma fome tal que chegou ao canibalismo, em que os pais comiam os próprios filhos. Uma fome como a Rússia nunca conhecera, nem mesmo no Tempo das Revoltas.
Mas a genialidade de um político está em conseguir sucesso, mesmo da desgraça do povo. Isto surge como uma iluminação — matavam-se dois coelhos numa cajadada: os padres que alimentem agora o vale do Volga! Pois que são cristãos, são bonzinhos!
1) Se recusarem, culpamo-los de toda a fome, e liquidamos a Igreja;
2) se concordarem, varremos os templos;
3) e em qualquer caso aumentamos as reservas de divisas.
Como indica o patriarca Tikhon, logo em agosto de 1921, no início da fome, a Igreja criou comités diocesanos de ajuda às vítimas da fome, que começaram a reunir dinheiro. Mas admitir a ajuda direta da Igreja seria minar a ditadura do proletariado. Os comités foram proibidos, e o dinheiro confiscado para o tesouro.
E na região do Volga as pessoas comiam ervas, solas de sapatos e roíam as ombreiras das portas. E finalmente em dezembro de 1921 o Comité de Estado para ajuda às vítimas da fome propôs à Igreja: doar os bens valiosos para a ajuda às vítimas da fome — não todos, mas aqueles que não fossem importantes para as necessidades canónicas da liturgia. O patriarca concordou e em 19 de fevereiro de 1922 emitiu uma mensagem: autorizar os conselhos de paróquia a oferecer objetos que não fossem indispensáveis ao serviço do culto.
E assim, tudo corria de novo o risco de se dissolver no compromisso que enredava a vontade proletária.
E surge a ideia como um relâmpago! A ideia de um decreto! Um decreto do Comité Executivo Central de 26 de fevereiro: confiscar aos templos todos os valores em benefício das vítimas da fome!
Então, em 28 de fevereiro, o patriarca emitiu uma nova pastoral, fatídica: do ponto de vista da Igreja, semelhante ato é um sacrilégio e não podemos aprovar o confisco, que deve ser uma oferta voluntária.
E logo começou nos jornais uma campanha de descrédito do patriarca e dos altos dignitários da igreja, que asfixiavam a região do Volga com a mão descarnada da fome! E quanto mais firmemente o patriarca se obstinava, mais fraca se tornava a sua posição.
Em Petrogrado as coisas pareciam compor-se pacificamente. Na reunião de 5 de março de 1922 do Comité de Ajuda aos famintos, o metropolita Veniamin anunciou: «A Igreja ortodoxa está disposta a dar tudo para ajuda aos famintos» e apenas vê sacrilégio no confisco violento. Mas nesse caso não será necessário o confisco! O presidente do Comité de Ajuda de Petrogrado, Kanatchikov, afirmou que isto suscitava uma atitude benevolente do Poder Soviético para com a Igreja. (Era o que faltava!) Num impulso caloroso, todos se puseram de pé. O metropolita disse: «O que mais nos pesa é a discórdia e a hostilidade. Mas virá um tempo em que todos os russos se unirão.» Deu a sua bênção aos bolcheviques membros do Comité, e estes, de cabeça descoberta, acompanharam-no até à porta. Mas de novo se começa a tramar um qualquer compromisso! Os vapores venenosos do cristianismo intoxicam a vontade revolucionária. Essa união e essa entrega de valores não são necessárias aos famintos do Volga! A equipa invertebrada do Comité de Ajuda de Petrogrado é substituída, os jornais lançam campanhas contra os «maus pastores» e os «príncipes da igreja», e explica-se aos representantes da igreja: não precisamos nada das vossas oferendas! Nem de quaisquer conversações convosco! Tudo pertence ao poder — e ele tomará aquilo que achar necessário.
E começaram em Petrogrado, como por toda a parte, o confisco forçado e os conflitos.
Agora havia bases legais para iniciar os processos religiosos.
PROCESSO RELIGIOSO DE MOSCOVO (26 de abril — 7 de maio de 1922), no Museu Politécnico, Tribunal Revolucionário de Moscovo. Dezassete réus, arciprestes e leigos, acusados de difusão do apelo do patriarca. Esta acusação era mais importante do que a própria entrega ou não dos valores. O arcipreste A. N. Zaozerski deu os bens do seu templo, mas em princípio defende o apelo do patriarca, considerando o confisco violento como um sacrilégio — tornou-se a figura central do processo, e agora será fuzilado. (O que prova: o importante não é alimentar as vítimas da fome, mas aproveitar a ocasião para quebrar a Igreja.)
Em 5 de maio foi convocado ao tribunal como testemunha o patriarca Tikhon. Embora o público presente na sala já tivesse sido cuidadosamente escolhido, o fermento da velha Rússia estava ainda tão vivaz e ainda tão frágil a película do espírito dos Sovietes, que à entrada do patriarca mais de metade dos presentes se levantou para receber a bênção dele.
O patriarca assume toda a responsabilidade pela composição e difusão do apelo.
Presidente: Usou a expressão segundo a qual, enquanto tinha conversações com o Comité de Ajuda, o decreto foi publicado «nas suas costas»?
Patriarca: Usei, sim.
Presidente: Acha então que o poder soviético agiu incorretamente?
Argumento esmagador! Ainda no-lo repetirão milhões de vezes nos gabinetes noturnos de instrução! E nós nunca ousaremos responder com tanta simplicidade.
Patriarca: Sim.
Presidente: Considera as leis existentes no Estado obrigatórias para si, ou não?
Patriarca: Sim, reconheço, na medida em que elas não contrariam as regras da piedade.
(Se todos respondessem assim! Outra seria a nossa história!)
Segue-se um interrogatório sobre direito canónico. O patriarca esclarece: se a Igreja entrega por si mesma os valores, isso não é um sacrilégio, mas se lhos tiram contra sua vontade, é um sacrilégio.
O presidente, camarada Bek, estupefacto: O que é para si, afinal de contas, mais importante — os cânones da igreja ou o ponto de vista do governo soviético?
Inicia-se uma análise filológica. «Sviatotatsvo», que vem das palavras «sviato» (sagrado) e «tat» (ladrão).
Acusador: Portanto nós, representantes do poder soviético, somos ladrões de coisas sagradas? Chama ladrões aos representantes do Poder Soviético, ao Comité Executivo Central?
Patriarca: Eu apenas cito os cânones.
O tribunal decide abrir um processo penal contra o patriarca.
Em 7 de maio é lida a sentença: dos dezassete réus, onze são condenados ao fuzilamento. (Fuzilam cinco.) Como dizia Krilenko, não estamos aqui para brincadeiras.
Uma semana depois o patriarca foi destituído e preso. (Mas isso ainda não foi o fim. Por enquanto transferiram-no para o mosteiro Donskoi, onde o manterão em rigorosa reclusão. Lembram-se, ainda pouco antes Krilenko espantara-se: qual é o perigo que ameaça o patriarca?…)
Duas semanas mais tarde detiveram em Petrogrado o metropolita Veniamin. Acessível, dócil, visitante assíduo de fábricas e oficinas, popular entre o povo e entre o baixo clero, foi este metropolita que fizeram comparecer no…
PROCESSO RELIGIOSO DE PETROGRADO (9 de junho - 5 de julho de 1922). Os acusados (de resistência à entrega dos bens valiosos da igreja) eram algumas dezenas de pessoas, entre as quais professores de teologia, de direito canónico, arquimandritas e laicos. O principal acusado, P. A. Krassikov, era coetâneo e amigo de Lenine; Vladimir Ilitch apreciava-lhe o talento de violinista.
Desde a avenida Nevski até à esquina, todos os dias se concentrava uma densa multidão de povo, e quando conduziam o metropolita muitos ajoelhavam-se e cantavam «Senhor, salva a Tua gente!». Na sala, a maior parte do público eram soldados do exército vermelho, mas também eles se levantavam à entrada do metropolita com o seu capuz branco. Mas o acusador e o Tribunal chamavam-lhe inimigo do povo (notemos que o epíteto já tinha sido inventado).
Só foram ouvidas as testemunhas de acusação, as testemunhas de defesa não foram admitidas a depor.
O acusador Krassikov exclamou: «Toda a igreja ortodoxa é uma organização contrarrevolucionária. No fundo, toda a Igreja devia ser metida na prisão!»
Aproveitamos o caso raro de algumas frases do advogado de defesa do metropolita (I. S. Gurovitch) que se conservaram.
«Não existem provas de culpabilidade, não há factos, não há acusação… O que dirá a história? (Oh, que medo! A história esquece e não dirá nada!) — O confisco dos bens da Igreja em Petrogrado decorreu com toda a tranquilidade, mas o clero de Petrogrado está no banco dos réus, e as mãos de alguém estão a empurrá-lo para a morte. Mas não se esqueçam de que Igreja cresce com o sangue dos mártires. — (Mas no nosso país não crescerá!)
O Tribunal condenou à morte dez pessoas, que esperaram essa morte durante mais de um mês. Depois disso, o Comité Executivo Central indultou seis, mas os outros quatro (incluindo o metropolita Veniamin) foram fuzilados na noite de 12 para 13 de agosto.
Pedimos encarecidamente ao leitor que não se esqueça do princípio da multiplicação provincial. Onde houve dois processos religiosos, houve vinte e dois.
* * *
PROCESSO DOS SOCIALISTAS-REVOLUCIONÁRIOS (8 de junho - 7 de agosto de 1922). Tribunal Supremo.
Involuntariamente ficamos a refletir nas acusações proferidas nesse julgamento, inserindo-as na longa história dos Estados. Com exclusão de algumas poucas democracias parlamentares, numas poucas décadas, toda a história dos Estados é uma história de golpes de Estado e de tomadas do poder. E aquele que consegue fazer o seu golpe mais depressa e com mais solidez, nesse mesmo instante enverga o manto luminoso da Justiça, e todos os seus passos, passados ou futuros, são legítimos e dignos de ser cantados, e todos os passos passados e futuros dos seus inimigos azarados são criminosos e passíveis de julgamento e de punição.
Vinte, dez e cinco anos antes, os S-R eram um partido revolucionário próximo, na luta pelo derrubamento do czarismo, que tomaram sobre si (devido à sua tática de terror) o principal peso dos trabalhos forçados, que quase não atingiu os bolcheviques.
E eis que agora a primeira acusação contra eles é terem sido os iniciadores da Guerra Civil! Sim, foram eles que começaram tudo! Quando o Governo Provisório, apoiado e em parte constituído por eles, foi legalmente varrido pelas metralhadoras dos marinheiros, os socialistas-revolucionários tentaram, de maneira ilegal, defendê-lo.
E eis a segunda acusação: apoiavam a sua ilegal Assembleia Constituinte (eleita por voto direto, livre, igual e secreto) contra os marinheiros e o exército vermelho, que legalmente dispersava essa Assembleia e os manifestantes. Terceira acusação: não reconheceram a paz de Brest, que não cortava a cabeça da Rússia, mas apenas uma parte do corpo. Desse modo, como estabelece o auto de acusação, são evidentes «todos os sinais de alta-traição».
E ainda a quinta acusação, e a sétima, e a décima — reuniu-se uma medida cheia e a transbordar — e já o Tribunal podia retirar-se para deliberar, e aplicar a cada um o merecido castigo — mas há uma dificuldade:
— tudo aquilo de que aqui é acusado o partido dos S-R refere-se aos anos de 1917 e 1918;
— em fevereiro de 1919, o conselho do partido dos S-R decidiu parar a luta contra o poder dos bolcheviques.
Como sair da situação?
Além de não lutarem, eles reconheceram o poder dos Sovietes! Apenas pediram que se realizassem novas eleições para esses sovietes, com liberdade de propaganda do partido. (E mesmo aqui, no processo: «Deem-nos a possibilidade de utilizar toda a gama das chamadas liberdades cívicas — e nós não infringiremos as leis». Deem-lhes isso e «toda a gama»!)
Ouviram? Aqui está onde penetrou o hostil focinho selvagem burguês! Mas isto é lá possível? Este é um momento muito sério! Pois nós estamos rodeados de inimigos! E vocês querem liberdade de propaganda, seus filhos da puta?!
Que o partido em geral não praticou o terror, torna-se evidente até pelo discurso de acusação de Krilenko.
Tudo o que Krilenko conseguiu arrancar dessa salsada foi que os S-R não tomaram as medidas necessárias para acabar com os atos terroristas individuais dos seus ativistas desempregados e desesperados. E simplesmente, Krilenko dispara direito aos corações: «eternos Inimigos encarniçados» é o que são os acusados! Mesmo sem processo é evidente o que se deve fazer com eles. E o que é especialmente novo e importante: para nós, a intenção ou a ação, é a mesma coisa! Foi tomada uma resolução, e é por ela que julgamos. Que essa resolução «tenha sido aplicada ou não», isso não tem no fundo «qualquer importância» (p. 185). Se disse à mulher, na cama, que seria bom derrubar o poder soviético, ou fez propaganda durante as eleições ou lançou bombas — é tudo a mesma coisa! O castigo é igual!
Esta é a primeira experiência de processo público mesmo aos olhos da Europa, e a primeira experiência de «indignação das massas». E a indignação das massas foi bem conseguida.
O julgamento começou em 8 de junho. Eram acusadas 32 pessoas.
Formaram-se colunas de manifestantes das fábricas, com bandeiras e cartazes — «morte aos acusados», e também, claro, colunas de soldados. Começou um comício na praça Vermelha. Depois os manifestantes dirigiram-se ao edifício do tribunal, e os acusados foram conduzidos para as janelas abertas, debaixo das quais a multidão bramia. A tensão era tão grande que os réus e os seus familiares esperavam ser linchados ali mesmo.
Reconhecem-se aqui muitos traços que no futuro se tornarão familiares, mas o porte dos acusados ainda está longe de quebrado. Depois dos anos perdidos de resignação e rendição, recuperaram uma firmeza tardia. O acusado Liberov declara: «Confesso-me culpado de em 1918 não ter trabalhado o bastante para derrubar o poder dos bolcheviques» (p. 103). O acusado Berg: «Considero-me culpado perante a Rússia trabalhadora por não ter podido combater com todas as minha forças contra o chamado poder operário-camponês, mas espero que o meu tempo ainda não tenha acabado». (Acabou, meu caro, acabou.)
Evidentemente, «a sentença só pode ser uma — fuzilamento de todos, até ao último»!
Mas o Tribunal revelou ousadia na sua sentença: não condenou à morte «todos até ao último», mas apenas doze pessoas. Os restantes foram condenados à prisão ou ao campo de trabalhos.
Mas talvez todo este processo mereça a cassação pela presidência do Comité Executivo Central da União: a sentença de fuzilamento foi confirmada, mas a sua execução suspensa. E o destino futuro dos condenados dependerá do comportamento dos S-R que ficaram em liberdade. Se continuar nem que seja a atividade conspirativa clandestina, esses doze serão fuzilados.
Assim os submeteram à tortura de esperar pela morte: qualquer dia podia ser o dia do fuzilamento. Nos campos da Rússia ceifava-se já a segunda colheita do tempo de paz. Já não se disparava em lado nenhum, salvo nos pátios da Tcheka. Sob o céu anil, pelas águas azuis, os nossos primeiros diplomatas e jornalistas navegavam para o estrangeiro. O Comité Executivo Central dos deputados operários e camponeses mantinha no seu regaço os reféns perpétuos.
Os membros do partido no poder tinham lido então sessenta números do Pravda sobre o processo (todos eles liam o jornal) — e todos diziam — sim, sim, sim. Ninguém proferia: não.
E porque se admirariam eles depois em 1937? De que haviam de se queixar? Não haviam já sido lançados todos os fundamentos da arbitrariedade — primeiro a repressão extrajudicial da Tcheka, a repressão judiciária dos tribunais militares revolucionários, depois aqueles primeiros processos? Não foi o ano de 1937 igualmente racional?
O que custa é o primeiro golpe da gadanha.
Mas todos os processos principais e mais célebres estão de qualquer modo ainda para vir…
Em 19 de maio de 1922, quando ainda se redigia o Código, Vladimir Ilitch escreveu:
«Camarada Dzerjinski! Sobre a questão da deportação para o estrangeiro dos escritores e professores que ajudam a contrarrevolução. É preciso preparar isso minuciosamente. Sem preparação, faremos disparate… É preciso organizar as coisas de modo a apanhar esses “espiões militares” de maneira constante e sistemática e expulsá-los para o estrangeiro. Peço-lhe que mostre isto em segredo, sem o reproduzir, aos membros do Politburo.»[20]
O camarada Lenine estava já doente e acamado, mas os membros do Politburo, ao que parece, aprovaram, e o camarada Dzerjinski tratou da captura e em setembro de 1922 cerca de trezentos dos mais destacados humanistas russos foram embarcados num navio[21] e despejados no monturo da Europa. (Entre os nomes que ali se impuseram e celebrizaram estavam os filósofos S. N. Bulgákov, N. A. Berdiáiev, I. A. Ilin.)
Contudo, não os capturaram de maneira constante e sistemática. Talvez devido ao clamor dos emigrados de que aquilo era para eles um «presente», tornou-se claro que essa não era a melhor medida, que se estava a perder em vão bom material para fuzilamento e que esse monturo podia fazer crescer flores venenosas. E abandonaram a medida. E toda a limpeza posterior foi quer para se juntar a Dukhónin, quer para o Arquipélago.
O Código Penal melhorado, aprovado em 1926, teceu todos os fios dos artigos políticos anteriores na única rede sólida n.° 58 — que foi lançada para essa pesca. A pesca alargou-se rapidamente à intelectualidade dos engenheiros e técnicos — tanto mais perigosa quanto ocupava uma forte posição na economia nacional e era difícil controlá-la, recorrendo apenas à Doutrina de Vanguarda.
Finalmente a nossa Lei tinha amadurecido e podia mostrar ao mundo qualquer coisa verdadeiramente perfeita!
— um processo único, grande, bem ordenado, e desta vez contra os engenheiros.
[Neste capítulo são descritos em pormenor dois processos públicos sensacionais contra os «sabotadores» (o leitor já os viu referidos no capítulo «História da nossa canalização») — o Caso das Minas (1928), sobre a pretensa sabotagem e a «contrarrevolução económica» nas minas do Donbass, e no processo do nunca existente «Partido Industrial» (1930), que se acusava de sabotagem em vários sectores da economia soviética e nos transportes, e de espionagem a favor de potências ocidentais que preparavam uma intervenção. As acusações era fabricadas, as falsas confissões arrancadas aos acusados pela tortura (todos os condenados no processo das Minas e a maioria dos condenados no processo do «Partido Industrial» foram posteriormente reabilitados «por ausência de delito»). Aqueles que resistiram, mesmo com as torturas, foram julgados à porta fechada e a maioria deles fuzilados. O espetáculo seguinte foi o processo do «Bureau Unificado dos Mencheviques», fabricado pela GPU (1931). Foram detidos antigos mencheviques que trabalhavam no aparelho do Estado — Plano Estatal, Banco Central, Conselho Superior da Economia, Ministério do Comércio. Neste capítulo transcreve-se o relato de M. P. Iakubovitch, único participante no processo que viveu até aos anos 60, registado pelo autor do Arquipélago Gulag a partir das palavras dele: «O seu relato explica-nos substancialmente toda a rede dos processos de Moscovo dos anos trinta».
O objetivo traçado por Estaline — atribuir aos sabotadores a culpa do crescente descontentamento no país pela fome, o frio, a falta de roupas, e assustar o povo com a iminente intervenção — foi atingido.
Chegava agora a vez da repressão contra a «guarda leninista», os camaradas do partido dos bolcheviques.
Em agosto de 1936 — o processo do «Centro unido anti-soviético trotskista-zinovievista». Julgaram Zinoviev, Kámenev e mais catorze pessoas. Fuzilaram-nos a todos.
Em janeiro de 1937 — o processo do «Centro paralelo trotskista anti-soviético». Julgaram Piátakov, Sokólnikov, Rádek, dezassete pessoas ao todo. Pela sentença do tribunal, treze foram fuzilados, quatro mortos mais tarde.
Em março de 1938 — o processo do «Bloco anti-soviético trotskista de direita». Julgaram Bukhárin, Ríkov e mais dezanove pessoas, a maioria fuzilados. ]
Pela notoriedade dos nomes dos acusados, esses julgamentos atraíram as atenções do mundo inteiro. Não os deixaram escapar da atenção, escreveram sobre eles, comentaram-nos. E ainda os comentarão. Resta-nos apenas dizer algumas palavras sobre eles — sobre o seu enigma.
O mundo olhou com assombro três peças seguidas, três grandes espetáculos sumptuosos em que altos dirigentes do denodado partido comunista, que revirava e alarmava o mundo inteiro, surgiam agora desalentados, submissos, baliam tudo o que lhes havia sido ordenado, humilhavam-se servilmente a si próprios e às suas convicções e confessavam crimes que de modo nenhum podiam ter cometido.
Não havia memória de uma coisa assim. Camaradas de partido da inflexível coorte, e os maiores deles, a quem chamavam a «guarda leninista» — apareciam agora diante do tribunal molhados da sua própria urina.
Estão perplexos principalmente porque todos eles são velhos revolucionários, que não tremeram nas câmaras de tortura czaristas, são combatentes temperados, tostados, curtidos. Mas há aqui um simples erro. Estes não eram os tais velhos revolucionários, essa glória tinham-na recebido por herança, pela proximidade com os populistas, os socialistas-revolucionários e os anarquistas. Esses, lançadores de bombas e conspiradores, conheceram os trabalhos forçados, cumpriram anos de prisão — mas nem eles conheceram nunca a verdadeira instrução implacável (porque isso não existia na Rússia). Mas estes não conheceram nem a instrução, nem os anos de prisão. Nenhuma «câmara de tortura» especial, nem Sakhalina, nem quaisquer especiais trabalhos forçados na Iakútia, nada disso atingiu os bolcheviques.
Sabe-se que Dzerjinski teve a carga mais pesada, que toda a vida andou de prisão em prisão. Mas segundo as nossas normas atuais, ele cumpriu os normais dez anos, a simples nota de dez, como no nosso tempo qualquer kolkhoziano; na verdade, entre essa dezena, teve três anos de central de trabalhos forçados, o que também não é nada por aí além.
Bukhárin teve muitas pequenas detenções, mas coisas quase de brincadeira. Kámenev passou dois anos nas prisões e ano e meio no desterro. Connosco, qualquer rapazinho de dezasseis anos apanhava logo cinco anos. Zinóviev, até é ridículo dizer, nem chegou a estar três meses na prisão! Não teve uma única condenação! Em comparação com os normais indígenas do nosso Arquipélago, eram umas crianças, não tinham conhecido a prisão.
Mas toda a nossa perplexidade tem origem apenas no facto de acreditarmos estar perante homens fora do comum. Porque, enfim, perante o normal auto das declarações de um cidadão comum não vemos qualquer enigma: porque é que ele disse tantas coisas de si próprio e dos outros? — achamos isso compreensível: o homem é fraco, o homem cede. Mas Bukhárin, Zinóviev, Kámenev, Piátakov consideramo-los logo como super-homens — e no fundo, é só essa a razão da nossa perplexidade.
Mas houve em todo o caso uma seleção! Os mais perspicazes e mais resolutos dos que estavam condenados não se deixaram apanhar, puseram termo à vida antes da detenção. Deixaram-se prender aqueles que queriam viver. E daquele que quer viver, pode-se fazer gato-sapato!… Mas mesmo de entre eles alguns portaram-se de outro modo na instrução, dominaram-se, obstinaram-se, morreram na sombra, mas ao menos sem ignomínia.
Os mais maleáveis é que foram exibidos! Houve em todo o caso uma seleção.
A seleção era de segunda linha, mas em contrapartida, o Encenador do bigode conhecia bem cada um deles. De um modo geral, sabia que eram todos fracos, e conhecia as fraquezas de cada um deles. Nisso estava a tenebrosa superioridade dele, a principal orientação psicológica e o sucesso de toda a sua vida: ver a fraqueza das pessoas no mais baixo nível da existência.
E aquele que à distância do tempo parece a mais elevada e clara inteligência entre os dirigentes humilhados e fuzilados, N. I. Bukhárin, também a ele Estaline o conhecia ao baixo nível em que o homem se une à terra, via-o à transparência e manteve-o longamente num aperto mortal, e até brincava com ele como com um ratinho, fingindo soltá-lo. Bukhárin escreveu do princípio ao fim a nossa constituição atualmente em vigor (sem vigor), uma constituição que soa muito bem ao ouvido, e pensava ter enganado Koba: impusera-lhe uma constituição que o obrigava a suavizar a ditadura. Mas ele próprio já lhe estava no papo.
Durante o processo Kámenev — Zinóviev, no Verão de 1936, Bukhárin andava nos montes Tian-Chan, à caça, não sabia de nada. Desceu dos montes à cidade de Frunze e soube da condenação dos dois ao fuzilamento pelos artigos dos jornais, em que eram visíveis as acusações demolidoras que eles tinham feito contra ele, Bukhárin. Correu ele a deter toda aquela repressão? Apelou ao partido dizendo que estava a cometer-se uma monstruosidade? Não, apenas enviou um telegrama a Koba: adiar a execução de Kámenev e Zinóviev, para que… Bukhárin pudesse chegar a uma acareação e justificar-se.
Demasiado tarde! A Koba bastavam-lhe precisamente os autos, para que precisava ele de uma acareação?
No entanto, ainda durante muito tempo não detiveram Bukhárin. Foi afastado do jornal Izvéstia, de todos os cargos no partido — e durante seis meses viveu no seu apartamento do Kremlin como numa prisão. Já ninguém o visitava nem lhe telefonava. E durante todos esses meses não parava de escrever cartas: «Querido Koba!…» Querido Koba!… Querido Koba!… — a que não recebeu uma única resposta.
Ainda procurava um contacto cordial com Estaline!
Mas o querido Koba, franzindo o cenho, já estava a encenar… Havia já muitos anos que Koba fazia ensaios para o papel, e sabia que o seu Bukhartchik representaria muito bem. Ele já tinha renegado os seus discípulos e partidários presos e desterrados, suportou o esmagamento deles. Tinha deixado arrasar e denegrir a sua linha de pensamento. E agora, ainda membro suplente do Politburo, tolerara como legítimo o fuzilamento de Kámenev e Zinóviev. Não se indignou nem em voz alta, nem sequer num murmúrio. Tudo isso eram boas provas para o papel!
Se eles se conduzem assim ainda em liberdade, ainda no auge das honras e do poder — quando o seu corpo, a sua comida e o seu sono estiverem nas mãos dos pontos da Lubianka, obedecerão de modo irrepreensível ao texto do drama.
Bukhárin não tinha (nem os outros tinham!) um ponto de vista próprio, não tinham uma verdadeira ideologia de oposição em que pudessem basear-se para constituir um grupo separado e afirmar-se. Estaline declarou-os como oposição antes de eles o serem, e privou-os assim de qualquer poder.
A Bukhárin estava, no fundo, destinado o papel principal — e nada devia ser estragado nem descuidado no trabalho do Encenador com ele, nem no trabalho do tempo, nem na sua própria adaptação ao papel. E agora, sob as nuvens de negras acusações, a longa, interminável não-detenção, a extenuante aflição em casa, demolia mais eficazmente a vontade da vítima do que a pressão direta da Lubianka. (À qual não escapará, também por lá passará um ano.)
Os jornais continuavam a publicar a indignação das massas. Bukhárin telefonava ao CC. Bukhárin escrevia cartas: «Querido Koba!…» — pedindo que lhe retirassem publicamente as acusações. Então foi publicada uma vaga declaração da procuradoria: «não foram encontradas provas objetivas para as acusações contra Bukhárin».
E Bukhárin acreditou que escaparia, que não o expulsariam do partido — isso seria monstruoso!
Na manifestação de novembro (a sua despedida da praça Vermelha) ele e a mulher foram sentar-se na tribuna dos convidados, com o seu cartão de jornalista. De súbito, aproxima-se dele um soldado do exército vermelho, armado. Ficou gelado! Aqui? Num momento destes?… Não, o soldado faz continência. «O camarada Estaline surpreendeu-se por vê-lo aqui. Pede-lhe que vá ocupar o seu lugar na tribuna do mausoléu.»
E durante seis meses, lançavam-no do calor para o gelo. Em 5 de dezembro aprovaram com júbilo a Constituição bukharinista, para todo o sempre batizada de estalinista. Na reunião plenária do CC de dezembro, trouxeram Piátakov com os dentes quebrados, completamente irreconhecível. Atrás dele mantinham-se uns tchekistas silenciosos. Piátakov fez declarações ignóbeis sobre Bukhárin e Ríkov, sentados ali mesmo entre os dirigentes. Ordjonikidze colocou a mão atrás da orelha (ouvia mal): «Diga, faz todas essas declarações voluntariamente? (Observação! Também Ordjonikidze levará a sua bala.) «De inteira livre vontade» —, vacilou Piátakov. E no intervalo da reunião, Ríkov disse a Bukhárin: «O Tomski teve coragem, compreendeu logo em agosto e pôs ponto final. Mas tu e eu, como idiotas, continuámos a viver.»
Então intervieram, com fúrias e maldições, Kaganovitch (ele queria tanto acreditar na inocência de Bukhárin! Mas infelizmente…) e Molotov. Mas Estaline! — que grande coração! Que memória para o bem: «Apesar de tudo acho que a culpa de Bukhárin não está provada. Ríkov talvez seja culpado, mas Bukhárin não». Do gelo para o calor. Assim vai amolecendo a vontade. Assim o fazem entrar no papel do herói caído.
Passaram então a levar-lhe sistematicamente a casa os autos dos interrogatórios: de antigos jovens do Instituto dos Professores Vermelhos, e de Radek, e de todos os outros — e todos davam provas esmagadoras da negra traição de Bukhárin. As mais das vezes, ao receber novos materiais, Bukhárin dizia à mulher de 22 anos, que na Primavera acabava de lhe dar um filho: «Lê tu, eu não posso!» — e desfazia-se em soluços com a cabeça debaixo da almofada. Tinha em casa dois revólveres (e Estaline dava-lhe tempo!) — mas não se suicidou.
Pois não tinha ele assumido o papel que lhe estava atribuído?…
E decorreu mais um processo público e mais um magote foi fuzilado… E Bukhárin era poupado, e Bukhárin não era detido…
No princípio de fevereiro de 1937, decidiu declarar greve da fome em casa: para que o CC lhe retirasse as acusações. Foi então convocada uma reunião plenária do Comité Central com a ordem de trabalhos: 1. Os crimes do Centro de Direita. 2. O comportamento antipartido do camarada Bukhárin, expresso na greve da fome.
Com a barba por fazer, emagrecido, já com aspeto de preso, arrastou-se até ao plenário. — «O que é que te passou pela cabeça?» — perguntou cordialmente o Querido Koba.[22] «Que fazer, se me lançam tais acusações? Querem expulsar-me do partido…» Estaline franziu o cenho perante o absurdo. «Mas ninguém te expulsará do partido!»
E Bukhárin acreditou, animou-se, retratou-se de boa vontade diante do plenário, e ali mesmo pôs fim à greve da fome. Mas no decurso do plenário, Kaganóvitch e Molotov (oram vejam lá os atrevidos! Para eles Estaline não conta!) chamaram a Bukhárin mercenário fascista e exigiram o seu fuzilamento.
Ele estava finalmente maduro para ser entregue nas mãos dos pontos e dos encenadores assistentes — aquele homem musculoso, caçador e lutador! (Quantas vezes, nas lutas por brincadeira na presença dos membros do CC ele tinha levado Koba ao tapete! — Por certo, também isso Koba não podia perdoar.)
Talvez afinal não exista esse enigma assim tão denso?
Sempre aquela mesma melodia invencível, ao fim de tantos processos, apenas com variações: porque nós e vocês somos todos comunistas! E como é que vocês puderam agir contra nós? Arrependam-se! Porque vocês e nós juntos — somos nós!
A compreensão histórica numa sociedade amadurece lentamente. Mas quando amadurece, tudo é tão simples. Nem em 1922, nem em 1924, nem em 1937, os acusados não podiam ainda ter um ponto de vista para gritar de cabeça erguida contra essa melodia encantatória:
— Não, nós não somos revolucionários como vocês!… Não, nós não somos russos como vocês!… Não, nós não somos comunistas como vocês!
E parece que bastaria só gritar — e o cenário cairia aos bocados, as maquilhagens derreteriam. O encenador fugiria pela porta do fundo, e os pontos fugiriam para as tocas como ratazanas.
* * *
Mas até os espetáculos bem-sucedidos eram caros, trabalhosos. E Estaline decidiu não voltar a usar os processos públicos.
Qualquer pessoa de bom senso concordará que, se o NKVD fosse continuar com os julgamentos públicos, nunca conseguiria cumprir a sua grande tarefa.
Por isso os processos políticos públicos no nosso país não pegaram.
A história da pena de morte na Rússia é feita de altos e baixos. No Código de Aleksei Mikháilovitch, o castigo máximo ia até à pena de morte em cinquenta casos; o Regulamento militar de Pedro, o Grande, já previa duzentos casos. Mas Isabel, sem banir a pena de morte, não a aplicou uma única vez: diz-se que ao subir ao trono jurara não executar ninguém — e durante os vinte anos em que reinou não executou ninguém. E não o fez nem mesmo durante a Guerra dos Sete Anos! Em meados do século XVIII, meio século antes da matança dos jacobinos, é um exemplo surpreendente. Na verdade, nós temos sido muito expeditos a ridicularizar todo o nosso passado; nunca reconhecemos nele nada de bom, nem em atos, nem em intenções. Assim até se pode denegrir por completo Isabel: substituiu a pena de morte pelos açoites de chicote, pelo corte das narinas, pelo ferrete « ladrão» e pela deportação perpétua para a Sibéria. Mas talvez o condenado à morte de hoje, só para que o sol não se apagasse definitivamente para ele, escolhesse de boa vontade todo esse complexo, que nós, por razões humanitárias, não lhe propomos? E também pode acontecer que, no decurso da leitura deste livro, o leitor se incline a pensar que vinte, ou mesmo dez anos nos nossos campos de trabalho correcional são mais pesados do que o castigo de Isabel.
Pela nossa terminologia atual, Isabel tinha uma visão humanista universal, e Catarina II uma visão de classe. Não executar ninguém dava-lhe uma sensação incómoda, fazia-a crer-se indefesa. E para se defender a si própria, ao trono e ao regime, ou seja nos casos políticos, considerava a pena de morte inteiramente apropriada.
Com o czar Paulo I, foi confirmada a abolição da pena de morte. (E houve muitas guerras, mas os regimentos ignoravam os tribunais.) E em todo o longo reinado de Alexandre I a pena de morte foi reintroduzida apenas para os crimes militares cometidos em campanha (1812). (Aqui, podem objetar-nos: e os açoitamentos até à morte? Nada a dizer, havia por certo homicídios secretos, pode-se levar uma pessoa à morte até numa reunião sindical! Mas em todo o caso, durante os cinquenta anos que separam Pugatchov dos dezembristas, ninguém no nosso país entregou a vida a Deus por meio de uma votação de juízes, nem mesmo nos crimes de Estado.)
Depois dos cinco dezembristas enforcados, a pena de morte por crimes de Estado não foi abolida no nosso país, e foi confirmada pelos Códigos de 1845 e de 1904, completada ainda pelas leis do exército e da marinha — mas foi abolida para todos os crimes julgados pelos tribunais comuns.
E quantas pessoas foram executadas na Rússia durante esse tempo? Vejamos os números rigorosos do especialista em direito penal russo N. S. Tagantsev. Até 1905, a pena de morte na Rússia era uma medida excecional. Nos trinta anos entre 1876 e 1905 (o tempo dos terroristas da organização Vontade do Povo; o tempo das greves de massas e das agitações camponesas; o tempo em que se fundaram e fortaleceram todos os partidos da futura revolução) foram executadas 486 pessoas, ou seja cerca de dezassete pessoas por ano em todo o país. Nos anos da primeira revolução e do seu esmagamento o número de execuções aumentou bruscamente, fulminando a imaginação dos russos, provocando as lágrimas de Tolstoi, a indignação de Korolenko e de muitos outros: de 1905 a 1908 foram executadas cerca de 2200 pessoas (quarenta e cinco por mês!). Executavam-nas principalmente por atos de terrorismo, assassínios, banditismo. Era uma epidemia de execuções, como escreve Tagantsev.
(É estranho ler que, em 1906, quando foram criados os tribunais marciais, um dos problemas mais complexos foi decidir: quem fará as execuções? Exigia-se que fossem efetuadas dentro de vinte e quatro horas após a sentença. Se fossem as tropas a fuzilar, isso produziria uma impressão desagradável para os militares. E era raro encontrar um carrasco voluntário. As cabeças pré-comunistas não tinham ainda compreendido que um carrasco que disparasse uma bala na nuca podia fuzilar muita gente.)
O governo provisório, ao entrar em funções, aboliu por completo a pena de morte. Em junho de 1917, restabeleceu-a para o exército combatente e as regiões da frente da guerra — para crimes de guerra, assassínios, violações, banditismo e roubo (então muito abundantes naquelas regiões). Esta foi uma das medidas mais impopulares do governo provisório, que levaram à sua perda. A palavra de ordem dos bolcheviques para a revolução era: «Abaixo a pena de morte restabelecida por Kerenski!»
Conta-se que na própria noite de 25 para 26 de outubro, no instituto Smolni*, surgiu uma discussão: um dos primeiros decretos não devia ser a abolição para sempre da pena de morte? — e Lenine riu-se então da utopia dos seus camaradas, porque ele sabia que sem a pena de morte não se avançaria nada para a nova sociedade. No entanto, ao constituir o governo de coligação com os socialistas-revolucionários de esquerda, cederam às conceções erróneas deles, e a partir de 28 de outubro de 1917 a execução foi em todo o caso abolida. É claro que nada de bom poderia sair dessa «bondosa» posição.
A pena de morte foi plenamente restabelecida a partir de junho de 1918 — não «restabelecida», mas instaurada como nova era de execuções. Em vinte províncias da Rússia Central, num período de dezasseis meses (junho de 1918 — outubro de 1919) foram fuziladas mais de dezasseis mil pessoas, ou seja, mais de mil por mês.
Mais horrível ainda me parece a moda (por ambas as partes beligerantes?) de afundar barcaças com centenas de homens, em especial oficiais e outros reféns, sem serem contados, nem recenseados, sem terem sido feitas chamadas, no golfo da Finlândia, nos mares Branco, Negro e Cáspio, e também no lago Baikal. Isto é da história dos costumes, que originou tudo o que veio depois. Em todos os nossos séculos desde o primeiro Rurik, houve alguma época de tais crueldades e tantos assassínios como aqueles com que os bolcheviques acompanharam e terminaram a Guerra Civil?
A revolução apressa-se a rebatizar tudo para ver cada coisa como nova. Também a «pena de morte» foi rebatizada como medida suprema. Os fundamentos da legislação criminal de 1924 explicam-nos que essa medida suprema é instituída temporariamente, até à sua completa abolição pelo Comité Executivo Central.
E em 1927 começaram de facto a revogá-la: deixaram-na apenas para os crimes contra o Estado e o exército. Nos artigos relativos à proteção dos particulares contra os assassínios, as violações e os roubos, o fuzilamento foi abolido no décimo aniversário de Outubro.
Pelo décimo quinto aniversário de Outubro foi acrescentada à pena de morte a chamada lei do «sétimo oitavo» — essa importantíssima lei do socialismo em marcha, que prometia a cada súbdito uma bala por cada migalha roubada ao Estado.
Como sempre, lançaram mão dessa lei, sobretudo nos primeiros tempos — e só na prisão das Cruzes de Leninegrado, em dezembro de 1932, estavam à espera da sua sorte ao mesmo tempo DUZENTOS E SESSENTA E CINCO CONDENADOS À MORTE — número que num ano inteiro, só para aquela prisão, seria de mais de mil. E que criminosos eram esses? De onde tinham vindo tantos conspiradores e agitadores? Por exemplo, estavam ali presos seis kolkhozianos dos arredores de Tsárkoe Seló, cuja culpa era a seguinte: depois de ceifarem (por suas próprias mãos) o feno do kolkhoze, foram ceifar nos cômoros para as suas próprias vacas. TODOS AQUELES SEIS MUJIQUES NÃO FORAM INDULTADOS PELO COMITÉ EXECUTIVO CENTRAL, E A SENTENÇA FOI EXECUTADA!
Qual Saltitchikha?[23] Qual seria o mais torpe e repugnante senhor feudal que matasse seis mujiques por uma ceifa desgraçada?… Tivesse-os ele castigado com uma única vergastada — e nós já saberíamos e nas escolas amaldiçoaríamos o seu nome. Mas agora isso passa como se não tivesse existido. Se Estaline nunca tivesse morto mais ninguém, só por esses seis mujiques de Tsárkoe Seló eu considerava-o merecedor de ser esquartejado! E ainda se atrevem a latir-nos: «Como se atreveu a perturbar a grande sombra?» «Estaline pertence ao movimento comunista mundial!» — Sim. E ao código penal.
De resto, em que é que Lenine e Trotski eram melhores? Foram eles que começaram.
Que jurista, ou que historiador do direito criminal nos dará uma estatística devidamente confirmada sobre esses fuzilamentos? Onde está o arquivo especial onde se possa ir verificar esses números? Ousemos por isso repetir os números mais ou menos divulgados, em 1939-1940, sob as abóbadas de Butirski, e provenientes de altos e médios funcionários de Ejov caídos em desgraça e que passaram por aquelas celas pouco antes (eles sabiam bem!). Diziam os homens de Ejov que durante esses dois anos foram fuzilados em toda a União meio milhão de «políticos» e quatrocentos e oitenta mil comuns (art° 59-3, fuzilados como «apoio de Iagoda»; assim foi cortado o «velho e nobre mundo dos ladrões»).
Durante os anos da guerra soviético-alemã, por motivos vários, a aplicação da pena de morte ora se alargava (por exemplo, na militarização dos caminhos de ferro), ora diversificava-se nas suas formas (a partir de abril de 1943 a lei sobre o enforcamento).
Todos estes acontecimentos retardaram um pouco a prometida abolição completa e definitiva da pena de morte. No entanto, pela sua paciência e devotamento, o nosso povo acabou por merecê-la: em maio de 1947 Iossif Vissariónovitch ditou à Presidência do Soviete Supremo a abolição da pena de morte em tempo de paz (com a substituição por 25 anos, um quarto de século).
Mas o nosso povo é ingrato e incapaz de avaliar a magnanimidade. Por isso os governantes gemeram, gemeram dois anos e meio sem a pena de morte, e em 12 de janeiro de 1950 foi publicado um decreto em sentido contrário: restabeleceram a pena de morte para os «traidores à pátria, espiões e sabotadores» que já se acumulavam.
Mas tudo isto era provisório, até à completa abolição.
E temos que foi no reinado de Isabel que conseguimos o mais longo período sem pena de morte.
* * *
Na nossa existência confortável e cega, os condenados à morte afiguram-se-nos como casos pouco numerosos, isolados, vítimas da fatalidade. Estamos instintivamente convencidos de que nunca poderíamos ir parar à cela da morte. Ainda necessitamos de rebuscar muito na cabeça para imaginar: pelas celas da morte passou uma multidão das pessoas mais modestas pelos atos mais comuns, e — a cada um conforme calha — na maior parte dos casos não obtiveram clemência, mas a suprema.
Um agrónomo de uma secção agrária distrital é condenado à morte por se ter enganado na análise dos cereais do kolkhoze — em 1937.
Melnikov, presidente de uma oficina de artesanato (que fazia carrinhos de linhas!) foi condenado à morte porque houve um incêndio na oficina devido a uma faúlha de locomotiva! Em 1937. (É verdade que a pena foi comutada para dez anos de prisão).
Naquela mesma prisão das Cruzes estavam à espera da morte: Feldman, por lhe terem encontrado divisas estrangeiras; Faitelévitch, aluno do conservatório, por vender uma fita de aço para fazer aparos.
Não é pois de espantar que a pena de morte tenha atingido um rapaz a quem chamavam Gueraska, da aldeia de Ivánovo: pelo S. Nicolau foi festejar para a aldeia vizinha, bebeu forte e assestou com uma estaca no traseiro — não de um miliciano, não! — mas de um cavalo da milícia! (É verdade que por desaforo à milícia arrancou uma tábua de revestimento do soviete rural, depois o fio do telefone do soviete rural e gritou: «morte aos diabos!»…)
O nosso destino, se vamos ou não parar à cela da morte, não se decide pelo que fizemos ou não fizemos — decide-se pelo movimento da grande roda, pelo curso de poderosas circunstâncias exteriores. Por exemplo, o cerco de Leninegrado. Deve haver grandes conspirações clandestinas dirigidas do exterior pelos alemães? Porque é que no tempo de Estaline, em 1919, se descobriam essas conspirações, e com Jdánov, em 1942, não as há? Feita a encomenda, é logo aviada: descobrem-se várias conspirações ramificadas! Você está a dormir no seu quarto de Leninegrado sem aquecimento, e uma mão negra já desce para si. E aqui nada depende de si. Indica-se um qualquer, por exemplo, o membro-correspondente Ignatovski — ele tem uma janela voltada para rio Neva, e puxou um lenço branco para se assoar — é um sinal! E além disso Ignatovski, como engenheiro, gosta de conversar com os marinheiros sobre coisas técnicas. Pronto! Ignatovski é detido. Ora bem, indique-nos os nomes de quarenta membros da sua organização. Ele indica-os. Se você é arrumador no Teatro Aleksandriski, tem poucas possibilidades de ser citado; mas se é professor no Instituto Tecnológico estará na lista — e o que é que dependeu de si? E a partir dessa lista, todos serão fuzilados.
E são todos fuzilados. E eis como Konstantin Ivánovitch Strakhovitch, grande especialista em hidrodinâmica, continua vivo. Strakhovitch é designado como centro conveniente para a revelação de uma nova organização. É convocado pelo capitão Altschuller: «O que é isto? Você apressou-se a confessar tudo e decidiu ir para o outro mundo para ocultar o governo clandestino? Qual era o seu lugar nesse governo?» Continuando assim encerrado na cela dos condenados à morte, Strakhovitch entra num novo ciclo de interrogatórios! A instrução continua, o grupo de Ignatovski era entretanto fuzilado. Num dos interrogatórios, Strakhovitch é tomado de fúria: não é que queira viver, mas cansou-se de estar à espera da morte, e principalmente a mentira já lhe repugna. E durante uma acareação na presença de um alto graduado dá um murro na mesa: «Vocês é que vão ser todos fuzilados! Não mentirei mais! Retiro todas as declarações que fiz!» E esta explosão ajuda-o! — não só deixam de interrogá-lo, como durante muito tempo se esquecem dele na cela dos condenados à morte.
Provavelmente, no meio da submissão geral uma explosão de desespero ajuda sempre.
* * *
Tantos e tantos fuzilados — primeiro milhares, depois centenas de milhares. Nós dividimos, multiplicamos, suspiramos, amaldiçoamos. E, não obstante, são apenas números. Afligem o espírito, depois esquecem-se. Mas se algum dia os familiares dos fuzilados levassem a um editor as fotografias dos seus fuzilados, e fosse editado um álbum dessas fotografias, em vários volumes — ao folhear esses volumes e ao lançar um último olhar pelos seus olhos apagados, aprenderíamos muita coisa para o que nos resta de vida. Essa leitura, quase sem letras, depositaria nos nossos corações um sedimento eterno.
Numa casa que eu conheço, onde vivem antigos presidiários, há este rito: em 5 de março, dia da morte do Assassino Principal, expõem nas mesas as fotografias dos fuzilados e dos mortos nos campos de trabalho — várias dezenas, aquelas que conseguiram reunir. E durante todo o dia há no apartamento um ambiente solene — meio de igreja, meio de museu. Música fúnebre. Vêm os amigos, olham as fotografias em silêncio, ouvem, falam em voz baixa; e vão-se embora depois das despedidas.
Assim se devia fazer em toda a parte… Sentiríamos ao menos uma pequena picada no coração por essas mortes.
Para que ao menos não tivessem morrido em vão!…
* * *
Como acontece tudo isto? Como é que as pessoas esperam? O que sentem elas? Em que pensam? A que conclusões chegam? Como é que os levam? E o que sentem eles nos últimos momentos? E como é que… precisamente… os…?
É natural a ânsia doentia de levantar um pouco a cortina (embora nenhum de nós o consiga nunca, é claro). É também natural que os relatos dos sobreviventes não vão até ao fim — porque foram indultados.
Depois disso, são os carrascos que sabem. Mas os carrascos não dirão.
No entanto, também o carrasco não sabe tudo até ao fim. Até ao fim, nem mesmo ele sabe! Até ao fim, só os mortos sabem — quer dizer, ninguém sabe.
Através dos que foram indultados, estabelecemos um quadro aproximado da cela da morte. Sabemos, por exemplo, que de noite não dormem, esperam. Que só de manhã se tranquilizam.
Mas que fantasista poderia imaginar as celas da morte do ano de 1937? Ele teceria sem falta o seu cordão psicológico: como esperariam, de ouvido à escuta? … Mas quem poderia prever e descrever-nos tais sensações inesperadas dos condenados à morte?
1. Os condenados à morte sofrem de frio. Têm que dormir no chão de cimento, com uma temperatura de três graus negativos debaixo da janela (Strakhovitch).
2. Os condenados à morte sofrem de falta de espaço e de um calor sufocante. Numa cela individual metem sete (nunca menos), dez, quinze ou vinte e oito condenados (Leninegrado, 1942). E ficam assim, apertados, durante semanas e meses! As pessoas já nem pensam na execução, não é do fuzilamento que têm medo, mas em como estender agora as pernas. Como virar-se? Como respirar um pouco de ar?
3. Os condenados sofrem de fome. Depois da sentença esperam tanto tempo, que a sua principal sensação passa a ser não o medo do fuzilamento, mas o tormento da fome: como conseguir comida? — Mas qual é o recorde de permanência na cela da morte? Quem sabe?… O académico N. I. Vavílov, glória da nossa ciência, esperou o fuzilamento durante vários meses, se não foi um ano; na condição de condenado, foi evacuado para a prisão de Saratov, onde permaneceu numa cela subterrânea sem janela, e quando, no Verão de 1942, foi indultado, transferiram-no para uma cela comum; mas não conseguia andar, e durante o passeio tinham de transportá-lo em braços.
4. Os condenados sofrem de falta de assistência médica. Quando enfim o médico intervém, deve curar o condenado, ou seja prolongar-lhe a espera da morte? Ou por uma questão humanitária, deve insistir em que abreviem o fuzilamento?
* * *
Um homem deixa-se matar quase sempre submissamente. Porque é que a sentença de morte tem um efeito tão hipnótico? Na maior parte dos casos os indultados não se lembram de que na sua cela da morte alguém tivesse resistido. Mas também isso acontece. Em 1932, na prisão das Cruzes, em Leninegrado, os condenados tiraram os revólveres aos guardas e dispararam. Depois disso adotaram outra técnica: tendo localizado pela vigia aquele que deviam apanhar, entravam na cela ao mesmo tempo cinco guardas sem armas e agarravam um.
Esperança! O que fazes tu mais — fortaleces, ou enfraqueces? Já à beira da sepultura, por que não oferecer resistência?
Mas no momento da detenção não estava já tudo perdido? Contudo, todos os detidos, de joelhos como se lhes tivessem cortado as pernas, rastejavam pela via da esperança.
* * *
Vassíli Grigórievitch Vlassov recorda que na noite seguinte à sua condenação à morte, quando o levavam pelas ruas escuras de Kadi com quatro pistolas apontadas dos quatro lados, o seu pensamento era: com tanto que não disparem agora, por provocação, pretextando uma tentativa de fuga. Portanto, ele ainda não acreditava na sua sentença! Ainda tinha esperança de viver…
Naquela prisão de Ivanovo havia quatro celas para os condenados à morte — no mesmo corredor que as destinadas às mulheres com crianças e aos doentes! Vlassov foi parar à cela 61. Era uma cela individual: com cinco metros de comprimento e pouco mais de um metro de largura. Duas camas de ferro firmemente presas ao chão, em cada cama havia dois condenados deitados. E mais outros catorze estavam deitados, atravessados, no chão de cimento.
À espera da morte, deixavam a cada um menos de um metro quadrado de espaço! Ainda que desde há muito se soubesse que até um morto tem direito a dois metros de terra — e mesmo isso, Tchékhov achava pouco…
Vlassov perguntou se o fuzilariam depressa. «Nós estamos aqui há muito tempo, e continuamos todos vivos…»
E começou a espera — como já é conhecida: toda a noite sem dormir, na mais completa prostração, esperam que os levem para a morte.
Por vezes as fechaduras rangem a meio da noite, os corações param: será para mim? Não é para mim!! Foi o guarda que abriu a porta de madeira por um qualquer disparate: «Tirem as coisas do parapeito da janela!» Por esta abertura da porta, todos os catorze ficaram talvez um ano mais próximos da futura morte; que a porta se abra assim umas cinquenta vezes, e já não será necessário gastar uma bala! Mas como todos estão gratos por tudo ter passado: «Tiramos já, cidadão chefe!»
Iakov Petrovitch Kolpakov, presidente do comité executivo do distrito de Sudogda, que se tornara bolchevique na Primavera de 1917, na frente da guerra, ficava sentado dezenas de dias, sem mudar de posição, com a cabeça entre as mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos, sempre a olhar para um mesmo ponto na parede. A loquacidade de Vlassov irritava-o: «Como podes tu?» — E tu, estás a preparar-te para o paraíso? — rosnava Vlassov, que mesmo a falar muito depressa mantinha a pronúncia redonda do «o». [24]— Eu decidi só uma coisa, dizer ao carrasco: só tu, e não os juízes nem os procuradores, és o culpado da minha morte, e agora vive com isso! Se vocês não existissem, carrascos voluntários, não haveria pena de morte! E que me mate, o canalha!»
Kolpakov foi fuzilado.
Alguns ficavam grisalhos diante dos olhos dos companheiros de cela, em três ou quatro dias.
Alguns perdiam o discurso coerente e a compreensão — mas continuavam ainda assim à espera da sua sorte, mesmo ali. Quem perdia o juízo na cela dos condenados à morte, era fuzilado mesmo louco.
Chegavam muitos indultos. Precisamente naquele
Outono de 1937, pela primeira vez desde a revolução, introduziram as penas de quinze e de vinte e cinco anos, que vieram evitar muitos fuzilamentos.
Mas chega um limite em que já não se quer, em que repugna ser um coelhinho sensato. Em que apetece gritar: «Fuzilem-me depressa, malditos sejam!»
Depois de quarenta e um dias à espera do fuzilamento era precisamente esse sentimento de exasperação que dominava cada vez mais Vlassov. Na prisão de Ivanovo, por duas vezes lhe propuseram que escrevesse um pedido de indulto — mas ele recusou-se.
No quadragésimo segundo dia chamaram-no à box e anunciaram-lhe que o Comité Executivo Central da URSS lhe comutava a pena máxima para vinte anos nos campos de trabalho e mais cinco anos de privação dos direitos.
O pálido Vlassov, com um sorriso torcido, mesmo então foi capaz de dizer:
— Que estranho. Condenaram-me por não acreditar na vitória do socialismo num só país. Mas parece que Kalinin também não acredita, já que pensa que dentro de vinte anos ainda serão necessários campos de trabalho no nosso país…
Vinte anos parecia então uma coisa inalcançável.
É estranho, mas ao fim de quarenta anos eles ainda são precisos.
Ah, a bela palavra russa ostrog, tão sólida que ela é! E que bem constituída! Parece haver nela a própria solidez daquelas paredes de onde não há possibilidade de escapar. E tudo parece concentrado nestes seis fonemas — a severidade ( strogost), o arpão ( ostrogá), os picos ( ostrotá) (os picos do ouriço quando atingem o focinho como agulhas, a tormenta que nos atinge a cara gelada e nos pica os olhos; as pontas aguçadas das estacas no limite da zona, e ainda as puas do arame farpado), e vem juntar-se-lhes a cautela ( ostorojnost) dos presos; e o corno ( rog)? Sim, o corno sobressai, apontado diretamente para nós!
E se lançarmos um olhar pelos costumes russos da reclusão, digamos, dos últimos noventa anos, veremos não já um corno, mas dois cornos: os membros da organização «vontade do povo» começaram pela ponta, onde ele marra mais, onde é mais difícil apará-lo mesmo com o osso esterno — e pouco a pouco tudo isso se torna mais arredondado, mais liso, descendo até aqui, ao sabugo, até já nem ser um corno (no início do século XX) — mas depois (a partir de 1917) rapidamente surgiram as primeiras protuberâncias da segunda rebentação — e por essas protuberâncias tudo começou de novo a levantar-se, a estreitar-se, a endurecer — e em 1938 de novo enterraram as suas pontas na carótida do homem: o corno tiurzak!
* * *
Embora o enorme Arquipélago já se tivesse disseminado, as condições das prisões ainda não tinham decaído. A velha tradição prisional continuava zelosamente.
Nem todos os que tinham sido tragados pela Grande Máquina deviam misturar-se com os indígenas do Arquipélago. Os estrangeiros notáveis, ou as personalidades demasiado conhecidas e os prisioneiros secretos, ou os tchekistas caídos em desgraça, não podiam de modo nenhum ser abertamente mostrados nos campos de trabalho: todas as padiolas que eles pudessem carregar não justificariam a sua divulgação e o dano político-moral. Também os socialistas que lutavam constantemente pelos seus direitos não podiam ser misturados com a massa — mas mantidos e abafados à parte. Muito mais tarde, nos anos cinquenta, as Prisões de Prescrição Especial (TON) serão necessárias também para o isolamento dos amotinados dos campos de detenção. Nos últimos anos da sua vida, Estaline, dececionado com a «correção» dos ladrões, decidiu aplicar a alguns cabecilhas penas de reclusão em vez do campo de trabalho correcional. E finalmente foi necessário passar a alimentar gratuitamente, à custa do Estado, aqueles que não podiam de maneira nenhuma ser utilizados nos trabalhos do Arquipélago — como o cego Kopeikin, um velho de 70 anos, que passava o tempo sentado no mercado, na cidade de Iuriévets (no Volga). As suas cantigas e gracejos valeram-lhe dez anos por atividade contrarrevolucionária, mas foi preciso substituir o campo pela reclusão.
Nos anos vinte, nas celas de isolamento para os políticos (a que os presos ainda chamam isolamento para políticos), a comida era bastante decente: os almoços eram sempre de carne, davam legumes frescos, podia-se comprar leite na cantina. Em 1931-1933, a comida piorou brutalmente, mas no país ela não era melhor. Nessa época, o escorbuto e as vertigens causadas pela fome não eram raros nas prisões. Mais tarde a comida voltou, mas já não era a mesma coisa. Em 1947, na TON de Vladímir, I. Kornéiev nunca deixara de sentir fome: 450 gramas de pão, dois torrões de açúcar, duas refeições quentes mas nada nutritivas — nesse ano em que todo o país sofria de fome, em contrapartida, permitiram magnanimamente que os que estavam em liberdade alimentassem a prisão: não havia restrições às encomendas). — A luz nas celas era sempre racionada — nos anos trinta e quarenta: as pálas e os vidros foscos criavam nas celas um crepúsculo constante (o escuro é um importante fator para deprimir as almas). Na TON de Vladímir, essa insuficiência de luz era compensada à noite: uma luz elétrica intensa que não deixava dormir. — O ar também era racionado, os postigos estavam fechados a cadeado e só se abriam durante a ida à latrina, recordam os ex-presos das prisões de Dmitrovsk e de Iaroslavsk. — O passeio nas diferentes prisões e em diversos anos variava entre os quinze e os quarenta e cinco minutos. Já não havia qualquer contacto com a terra, como em Chlisselbug ou em Solovki. Tudo o que crescia na terra, tinha sido arrancado, espezinhado, coberto de betão ou de asfalto. Durante o passeio proibiam até erguer a cabeça para o céu — «Olhar só para o chão!» — recordam Koziriev e Adamova (prisão de Kazan). As visitas dos familiares foram proibidas em 1937 e não voltaram a ser restabelecidas. — Podiam enviar-se cartas duas vezes por mês aos parentes mais próximos e estes puderam escrever durante quase todos os anos (mas em Kazan, depois de lidas as cartas, tinham de entregá-las aos guardas dentro de vinte e quatro horas), e no quiosque podia-se fazer compras até ao limite do dinheiro autorizado. Um aspeto importante do regime prisional era o mobiliário. Adamova escreve de uma maneira muito expressiva a sua alegria depois de retirarem os beliches e as cadeiras pregadas ao chão, ao ver e apalpar na cela (na prisão de Suzdal) uma simples cama de madeira com um saco de feno, e uma simples mesa também de madeira. — Na TON de Vladímir, I. Kornéiev passou por dois regimes diferentes: um (1947-1948) em que não retiravam da cela os objetos pessoais, em que se podia estar deitado durante o dia e o guarda pouco espreitava pela vigia. E outro (1949-1953), em que a cela era fechada com dois cadeados (um pelo guarda, outro pelo oficial de serviço), era proibido deitar-se, era proibido falar em voz alta (em Kazan só se podia sussurrar!), os objetos pessoais eram retirados, usava-se um uniforme às riscas feito do pano dos colchões; eram frequentes as buscas furiosas e inesperadas, com evacuação completa e obrigando os presos a despirem-se. As comunicações entre celas eram de tal modo reprimidas que depois de cada ida às latrinas os guardas iam inspecioná-las com uma lanterna portátil e espreitavam todos os buracos. Por uma inscrição na parede, toda a cela ia parar ao calabouço. Os calabouços eram o flagelo das TON (prisões especiais). Podia-se ir para o calabouço por tossir («tape a cabeça com o cobertor, e depois tussa!»); por caminhar pela cela (Koziriev: isso era considerado «perturbação»). O que aconteceu a Koziriev permite ter uma ideia (a descrição do calabouço e de muitas outras coisas coincide de tal modo em todos, que se sente a marca de um único regime). Por caminhar na cela deram-lhe cinco dias de calabouço. É Outono, o calabouço não é aquecido, está muito frio. Deixam-no em roupa interior, descalço. O chão é de terra, poeirento (acontece ser de lama, em Kazan é de água). Koziriev tem um tamborete. Convence-se de imediato que vai morrer, gelar. Mas pouco a pouco começou a sentir um misterioso calor interior que o salvou. Aprendeu a dormir sentado no tamborete. Três vezes por dia davam-lhe uma caneca de água quente que o punha embriagado. Na ração de trezentos gramas de pão, um dos guardas conseguiu introduzir ilegalmente um torrão de açúcar. Pelas rações e distinguindo a luz de uma qualquer janelinha labiríntica, Koziriev ia contando o tempo. — Depois do calabouço, a cela parecia um palácio. Koziriev ficou surdo durante seis meses e começou a ter abcessos na garganta. Um companheiro de cela enlouqueceu devido às frequentes permanências no calabouço e Koziriev esteve mais de um ano na cela com um louco.
Mas as opiniões divergem. Os veteranos dos campos são unânimes em reconhecer a TON de Vladímir dos anos cinquenta como uma casa de repouso. Assim achavam Vladímir Boríssovitch Zeldóvitch, para lá transferido da estação de Abez, e Anna Petrovna Skripnikova, que lá foi parar (em 1956), vinda dos campos de Kemerovo. Skripnikova ficou particularmente impressionada com o regular envio de pedidos de dez em dez dias (ela começou a escrever… à ONU) e com a excelente biblioteca, incluindo línguas estrangeiras: traziam à cela um catálogo completo, e fazia-se uma encomenda para um ano.
E não esqueçamos a flexibilidade da nossa Lei: condenaram mil mulheres (como «esposas») à reclusão. De repente assobiaram — mudá-las todas para o campo (correcional) de trabalho (em Kolimá havia o ouro por lavar)! E mudaram-nas. Sem qualquer julgamento.
Assim, pode-se ainda falar de tiurzak? Ou isso é apenas a antecâmara do campo de trabalho?
* * *
A nossa fé ingénua na eficácia da greve da fome devemo-la à experiência do passado e à literatura do passado. Mas a greve da fome é uma arma puramente moral, pressupõe que o carcereiro ainda não perdeu completamente a vergonha. Ou que o carcereiro receia a opinião pública. E só então a greve da fome é forte.
Os carcereiros czaristas estavam ainda verdes: se o presidiário fazia greve da fome, eles inquietavam-se, soltavam exclamações, cuidavam dele, punham-no no hospital. Nesse tempo, além do tormento da fome, não havia na greve da fome quaisquer outros perigos ou dificuldades para o preso. Não podiam espancá-lo pela greve da fome, nem julgá-lo segunda vez, nem aumentar a pena, nem fuzilá-lo ou deportá-lo.
Nos anos vinte, o animado quadro das greves da fome ensombreceu. Na verdade, ainda se aceitam declarações escritas de greve da fome e não se vê nelas nada de subversivo. Mas surgem novas regras: o grevista deve ser isolado numa cela solitária especial (em Butirski, era na torre de Pugatchov[26]): a greve não pode ser conhecida nem dos eventuais contestatários do exterior, nem das celas vizinhas, mas nem mesmo da cela em que o grevista estava até esse dia — era um grupo social, e era preciso separá-lo dele.
No entanto, durante esses anos era possível conseguir pela greve da fome ao menos algumas exigências individuais.
A partir dos anos trinta dá-se uma nova viragem na doutrina do Estado em relação às greves da fome. Mesmo enfraquecidas, isoladas, meio abafadas, para que precisa o Estado delas? E a partir dos anos trinta deixaram de aceitar as declarações de greve da fome, até então legais. «A greve da fome como meio de luta já não existe! » — declararam em 1932 a Ekaterina Olítskaia e a muitos outros. O poder aboliu as vossas greves da fome — e basta.
Em meados de 1937 chegou outra diretiva: de futuro, a administração da prisão não mais responderá pelos mortos por greve da fome! Desapareceu a última responsabilidade pessoal dos carcereiros! Mais do que isso: para que o comissário-instrutor não se preocupasse, propunha-se: eliminar os dias de greve da fome do inculpado do período de prisão preventiva, ou seja, não só considerar que não houve greve da fome, mas até que o detido passou esses dias em liberdade! Que a única consequência sensível da greve da fome seja o esgotamento do detido!
Isto significava: querem morrer? Pois morram!
Assim a Prisão de Novo Tipo derrotou as greves da fome burguesas.
Mesmo uma pessoa forte não tinha nenhum meio de lutar contra a máquina prisional a não ser o suicídio. Mas o suicídio é alguma forma de luta? Não é antes uma submissão?
* * *
Pois era precisamente aqui — só aqui! — que este nosso capítulo devia começar. Ele devia examinar aquela luz cintilante que com o tempo, como a auréola de um santo, a alma de um preso na solitária começa a irradiar. Arrancado à agitação da vida de maneira tão absoluta que até a contagem dos minutos que passam lhe dá uma comunicação íntima com o Universo, o preso na solitária deve libertar-se de todas as imperfeições que perturbavam a sua vida anterior, que o impediam de se decantar até à transparência. Como os seus dedos se estendem nobremente para tocar e desfazer os torrões de terra da horta (que de resto, é asfalto!…). Como a sua cabeça se ergue espontaneamente para o Céu Eterno (mas isso é proibido!…). Quanta carinhosa atenção lhe suscita o passarinho que saltita no peitoril da janela (mas há a pála, há a rede e o postigo está fechado a cadeado…) Que ideias claras, que conclusões por vezes impressionantes ele regista no papel que lhe entregaram (mas só se o comprar no quiosque, e depois de preenchido o entregar para sempre à administração da prisão…).
As nossas objeções impertinentes confundem-nos. O plano do capítulo desarticula-se e quebra-se e já não sabemos: na Prisão de Novo Tipo, na Prisão de Fim Especial (qual?) — a alma do homem purifica-se? Ou perece definitivamente?
Se em cada manhã a primeira coisa que vês são os olhos do teu companheiro de cela enlouquecido, como te salvarás a ti mesmo no dia que começa? Nikolai Aleksándrovitch Koziriev, cuja brilhante carreira de astrónomo foi interrompida pela detenção, salvou-se apenas pela meditação acerca do eterno e ilimitado: a ordem do mundo e o seu Espírito Supremo; sobre as estrelas; sobre a composição interior delas; e sobre o que é o Tempo e a marcha do Tempo.
E assim começou a descobrir um novo domínio da física. Só com isso ele sobreviveu na prisão de Dmitrov. Mas nas suas reflexões ele tropeçou em números esquecidos. Não podia prosseguir a sua construção porque necessitava de muitos números. Onde poderia ir buscá-los naquela solitária, com aquela lamparina noturna, onde nem um passarinho poderia voar? E o cientista proferia: Senhor! Eu fiz tudo o que podia. Mas ajuda-me! Ajuda-me a continuar.
Nesse tempo tinha direito a apenas um livro em cada dez dias (já estava sozinho na cela). Na pobre biblioteca da prisão, havia algumas edições do Concerto Vermelho, de Demian Bedni, que repetidamente lhe vinham parar à cela. Passou meia hora depois da sua prece — vieram substituir-lhe o livro, como sempre sem perguntarem, e atiraram-lhe o Curso de Astrofísica! De onde veio ele? Era impossível imaginar que houvesse um livro daqueles na biblioteca! Pressentindo que o encontro seria breve, Nikolai Aleksándrovitch atirou-se ao livro e começou a memorizar, a memorizar tudo aquilo de que precisava hoje e de que poderia necessitar de futuro. Passaram dois dias, restavam-lhe ainda oito — mas de repente houve uma ronda do diretor da prisão. Reparou logo, perspicaz. — A sua especialidade é a astronomia, não é? — «É.» — «Tirem-lhe o livro!» — Mas o misterioso aparecimento do livro abriu o caminho para o trabalho, que continuaria no campo de Norilsk.
Pois agora devemos iniciar o nosso capítulo sobre a oposição entre a alma e as grades.
Mas o que é isto?… A chave do guarda range insolentemente na fechadura. O sombrio chefe de pavilhão, com uma longa lista: «Apelido? Nome e patronímico? Data de nascimento? Artigo? Fim da pena? — Reúna as suas coisas! Depressa!»
Bem, meus irmãos, é a partida!… Vamos para alguma parte! Senhor, abençoa-me! Salvaremos os ossos?…
É assim: se vivermos, contaremos o resto para a outra vez. Na Quarta Parte. Se vivermos…
As rodas também não param,
As rodas…
Giram, dançam as mós,
Giram…
Wilhelm Müller
Do estreito de Bering e quase até ao Bósforo estão espalhados milhares de ilhas do enfeitiçado Arquipélago. Elas são invisíveis, mas existem, e de uma ilha à outra, do mesmo modo invisível mas constante, são transportados escravos invisíveis, que têm carne, volume e peso.
Por onde transportá-los? E como? Existem para isso grandes portos — as prisões de trânsito, e portos mais pequenos — os campos de trânsito. Para isso existem naus de aço fechadas — os vagões de presos. E nos ancoradouros, em vez das chalupas e escaleres, usam-se carrinhas também fechadas, de aço, as ramonas. Os vagões de presos circulam segundo horários predefinidos. E se necessário enviam-se de um porto para outro, pelas diagonais do Arquipélago, caravanas inteiras — composições de comboios de mercadorias vermelhos.
Tudo isto se passa ao vosso lado, muito perto de vós, mas invisível para vós (e também se pode fechar os olhos).
Nas grandes estações, a carga e a descarga dos porcos decorre longe da plataforma dos passageiros, só os agulheiros e os guardas da via os veem. Nas estações mais pequenas, também se escolhe uma passagem escondida entre dois depósitos de mercadorias, aonde as ramonas entram de marcha atrás, com o degrau diante do degrau do vagão de presos. O preso nunca consegue olhar para a estação, nem para nós, nem ao longo do comboio, só consegue ver os degraus (por vezes o mais baixo deles dá-lhe pela cintura, e não tem forças para trepar), e os membros da escolta, que guardam a estreita passagem da carrinha celular para o vagão, rosnam, uivam: «Depressa! Depressa!… Vamos! Vamos!…»
E você, apressado pela gare com as crianças, as maletas e os sacos, não tem vagar para olhar: porque é que atrelaram ao comboio um segundo vagão de bagagens? Não tem nada escrito e é muito parecido com um furgão — com as mesmas barras oblíquas entrecruzadas e a mesma escuridão atrás delas. Mas por qualquer razão nele viajam soldados, defensores da pátria, e nas paragens dois deles, assobiando, caminham de ambos os lados espreitando para debaixo do vagão.
O comboio põe-se em movimento e uma centena de presos — com destinos comprimidos uns contra os outros, com corações atormentados — vão percorrer os mesmos carris sinuosos, atrás daquele mesmo fumo, ao lado dos mesmos campos, dos postes telegráficos e das mesmas medas, apenas uns segundos antes de você — mas você, atrás das suas vidraças, não verá nada, a desgraça terá passado, deixando no ar ainda menos vestígios do que os dedos na superfície da água. E no ambiente bem conhecido e sempre igual do comboio, com a roupa para fazer a cama, o chá servido em copos, como é que pode compenetrar-se desse horror obscuro e abafado que cruzou apenas três segundos antes de você esse mesmo espaço euclidiano?
«Vagão-zak» — que abjeta abreviatura! Como de resto todas as abreviaturas feitas pelos carrascos. Querem dizer que se trata de um vagão para zakliutchónie.
O vagão-zak é uma carruagem normal de nove compartimentos, mas cinco dos nove são destinados aos presidiários (também aqui, como por toda a parte no Arquipélago, metade é para os serviços!), separados do corredor não por uma divisória contínua, mas por uma grade que deixa tudo a descoberto, para vigilância. As janelas do lado do corredor são as normais, mas com as mesmas grades oblíquas no exterior. No compartimento dos presos não há janelas, apenas uma pequena abertura ao nível do segundo beliche (e assim, sem janelas, parece um furgão de bagagens).
Visto do corredor, tudo isto faz lembrar uma exposição de feras: atrás de uma grade compacta, no chão e nos beliches, torciam-se uns seres com aspeto de homem que olhavam para nós com ar lastimoso. Mas na jaula das feras nunca amontoam assim os animais.
Segundo cálculos de engenheiros em liberdade, num compartimento estalinista podem sentar-se seis pessoas em baixo, três podem deitar-se no beliche do meio (este está unido numa tarimba única, deixando apenas uma abertura junto à porta para subir e descer) e dois deitados nas prateleiras das bagagens, em cima. Se para além desses onze enfiarem no compartimento mais outros onze (os últimos empurrados com os pés pelos guardas para poderem fechar a porta) — teremos a carga normal de um compartimento estalinista. Dois enrolam-se, meio sentados, em cada uma das prateleiras das bagagens, cinco deitam-se na tarimba do meio (e estes são os mais felizes, os lugares são disputados com lutas e se houver presos comuns serão eles a deitarem-se ali), e em baixo ficam treze homens: cinco em cada prateleira, e três na passagem entre os pés deles. Algures de mistura com as pessoas, em cima ou debaixo delas, ficam as suas coisas. E assim, com as pernas encolhidas, apertadas, viajam durante dias e dias. Não, isto não se faz de propósito para torturar as pessoas! O condenado é um soldado do trabalho do socialismo, não há motivo para torturá-lo, é necessário usá-lo na construção. Mas, há-de concordar, ele não vai propriamente visitar a sogra, não se pode instalá-lo de tal maneira que faça inveja aos que estão em liberdade. E temos dificuldades com os transportes: há-de lá chegar, não morre.
Não é por certo de propósito, para infligir aos presos a tortura da sede, que durante todos estes dias passados no vagão, comprimidos, à beira do desmaio, lhes dão apenas arenque e peixe seco em vez de alimentos cozinhados (assim foi durante todos os anos, trinta e cinquenta, de Inverno e de Verão, na Sibéria e na Ucrânia, e nem é preciso citar exemplos). Não é para os atormentar pela sede, mas digam-nos — como alimentar estes farrapos durante a viagem? Não podemos alimentá-los com comida quente no vagão, cereais crus não se lhes pode dar, conservas de carne — vamos agora enfartá-los? Arenque, não há melhor, e um bocado de pão — que mais querem?
Aceita, aceita o teu meio arenque enquanto to dão, e alegra-te! Se és esperto, não comas esse arenque, aguenta, esconde-o no bolso, come-lo na prisão de trânsito, onde houver água. O pior é quando dão anchovas húmidas do mar de Azov, polvilhadas com sal grosso, não se conservam no bolso, põe-nas logo na aba do casaco, ou no lenço, ou na palma da mão e come-as. As anchovas, distribuem-nas pelo casaco de um ou de outro, mas o peixe seco, os da escolta atiram-no para o compartimento, diretamente para o chão, e a partilha faz-se em cima dos beliches ou dos joelhos.
E, claro, não é para que o preso sofra que depois do arenque não lhe dão nem água quente (isso nunca), nem sequer água fria. Há que compreender: o pessoal das escoltas é limitado, uns estão nos seus postos no corredor, outros guardam as entradas no vagão, nas estações descem para espreitar debaixo das carruagens, sobem ao tejadilho a ver se não foi aberto algum buraco. Outros limpam as armas, e é necessário ocuparem-se da instrução política, e do estatuto do combatente. E o terceiro turno dorme, tem direito por lei a oito horas, porque a guerra acabou. E depois: transportar água em baldes, de longe, é em todo ocaso vexatório; porque é que um soldado soviético há de carregar água, como um burro, para os inimigos do povo?
Mas tudo isso os homens da escolta ainda o suportariam, carregar água e dá-la a beber, se esses porcos depois de se regalarem com a água não pedissem para ir à retrete. É assim: se não lhes derem água um dia inteiro, não pedem para ir à latrina; se lhes dão água uma vez, vão uma vez para a retrete; se temos pena e lhes damos água duas vezes, vão duas vezes à retrete. Feitas as contas, o melhor ainda é não lhes dar água.
E não é para poupar a latrina, não é com pena das retretes, mas porque isso é uma operação de responsabilidade, e até uma operação de combate: é preciso ocupar durante muito tempo um cabo e dois soldados. Montam-se dois postos — um perto da porta da latrina, o outro no corredor do lado oposto, e o cabo tem de abrir e fechar a todo o instante a porta do compartimento, primeiro para deixar entrar aquele que voltou, depois para deixar sair o seguinte. O regulamento permite deixar sair só um de cada vez, para que não se precipitem e não armem alguma revolta. E temos que esse homem autorizado a ir à retrete imobiliza os trinta presos do seu compartimento, e cento e vinte em toda a carruagem, e o pessoal da escolta! E então o cabo e os soldados apressam-no: «Vá lá! Vá lá! Depressa!», e ele apressa-se e tropeça, como se estivesse a roubar ao Estado o olho da retrete.
E mesmo a um ritmo tão acelerado, a ida de cento e vinte homens à latrina ocupa mais de duas horas — mais de um quarto das horas de serviço de um turno de três membros da escolta!
Portanto: menos idas à latrina! Portanto, menos água. E menos comida.
Menos água! E distribuir o arenque regulamentar! Cortar na água é uma medida sensata, não dar arenque é uma falta de serviço.
Ninguém, ninguém tinha como objetivo atormentar-nos! As ações da escolta eram inteiramente sensatas! Mas, como os antigos cristãos, estamos sentados na jaula e deitam-nos sal nas nossas feridas.
De igual forma, os da escolta também não pretendiam misturar no compartimento dos artigo 58 os bandidos e vulgares criminosos, simplesmente os presos eram muitos, os vagões e os compartimentos poucos, o tempo apertado — quando é que poderiam distingui-los? Um dos quatro compartimentos é reservado para as mulheres, e se classificamos os outros três, é pelas estações de destino, para facilitar a descarga.
E se crucificaram Cristo entre bandidos, terá sido porque Pilatos o queria humilhar? Apenas calhou assim naquele dia — dia de crucificação, só havia um Gólgota, o tempo era pouco. E foi posto entre os malfeitores.
* * *
Esta mistura, este primeiro encontro fulminante acontece ou na carrinha celular, ou no vagão-zak. Até agora, por mais que te oprimissem, torturassem e atormentassem com a instrução, tudo isso provinha dos bonés azuis, tu não os confundias com a humanidade. Em contrapartida, os teus companheiros de cela, mesmo sendo completamente diferentes de ti pelo seu desenvolvimento e pela sua experiência, embora discutisses com eles, mesmo que entre eles houvesse bufos — todos eles eram parte da mesma humanidade comum, pecadora e quotidiana, entre a qual tinhas passado toda a vida.
Ao ser empurrado para um compartimento estalinista, mesmo aqui esperas encontrar apenas camaradas de infortúnio. Todos os teus inimigos e opressores ficaram do outro lado da grade, do lado de cá não esperas encontrá-los. E de repente levantas os olhos para a abertura quadrada do beliche do meio, e vês três ou quatro — não, não são rostos! — não são focinhos de macaco, no focinho dos macacos há muito mais bondade e inteligência! — nem são carantonhas, a carantonha deve em todo o caso ter alguma coisa de uma imagem! — tu vês umas máscaras cruéis e abjetas, com uma expressão de avidez e de troça. Cada um deles olha para ti como uma aranha pendurada por cima de uma mosca. A teia deles é aquela grade, e tu caíste nela!
Estes estranhos gorilóides andam principalmente de camisola desportiva — no compartimento o ar é sufocante — os seus pescoços vermelhuscos e fibrosos, os seus ombros salientes como bolas, os seus peitos morenos e tatuados nunca conheceram a extenuação das prisões. Quem são eles? De onde vêm? De súbito, de um desses pescoços pende uma cruzinha! Sim, uma cruzinha de alumínio num cordel. Ficas surpreendido e um pouco aliviado: há crentes entre eles, portanto nada de assustador acontecerá. Mas precisamente esse «crente» lança de súbito uma torrente de blasfémias contra a cruz e contra a fé, enfia-te nos olhos dois dedos como chifres — não a ameaçar, mas começando logo a apertar. Neste gesto «arranco-te os olhos, animal!» — está toda a sua filosofia e a sua fé! E se eles são capazes de te esmagar um olho como uma lesma — o que pouparão eles do que tens em ti ou contigo? A cruzinha agita-se, tu olhas com os teus olhos ainda não esmagados para aquela mascarada selvagem e perdes o sistema de referências: qual de vós já enlouqueceu? Quem vai ainda enlouquecer?
Olhas para os vizinhos, para os teus camaradas — vamos lá resistir, ou protestar! — mas todos os teus camaradas, os teus Cinquenta e Oito, já foram roubados um a um, antes da tua chegada, e ficam sentados, submissos, curvados.
Para lutar com coragem, o homem precisa de sentir uma defesa atrás de si, um apoio dos lados, o chão debaixo dos pés. Nenhuma dessas condições existe para o Cinquenta e Oito. Ao passar pela trituradora de um processo político, o homem tem o corpo quebrado: passou fome, não dormiu, gelou nos calabouços, foi espancado. Mas se estivesse abatido apenas de corpo! — ele está também espiritualmente quebrado. Nessa bola lançada da máquina do tribunal para a leva, restou apenas a sede de viver. Quebrar e desunir definitivamente — tal é tarefa da instrução segundo o artigo 58.
Mas se não resistem pelos punhos, porque é que as vítimas não se queixam? Todos os sons se ouvem no corredor e ali passa devagar, do outro lado da grade, o soldado da escolta.
Sim, é uma boa pergunta. Todos os sons e todas as queixas são ouvidas, e o homem da escolta continua a passar — porque é que ele não intervém? A um metro dele, na penumbra da caverna do compartimento, roubam um homem — porque é que o soldado da defesa do Estado não intervém?
Pois pelas mesmas razões: ao fim de muitos anos de favorecer os ladrões, o homem da escolta pendeu para o lado dos ladrões. O soldado da escolta é ele próprio um ladrão.
Desde meados dos anos 30 e até meados dos anos 40, durante essa década de desmandos do banditismo e da maior opressão dos políticos, ninguém se lembra de um caso em que um soldado da escolta pusesse fim ao roubo de um político na cela, no vagão ou na carrinha celular. Mas contam-se muitos casos em que a escolta recebeu dos ladrões os objetos roubados em troca de vodka, de comida (melhor que a da ração) e tabaco. Esses exemplos tornaram-se de antologia.
* * *
Os passageiros do vagão-zak distinguem-se ainda dos outros passageiros do comboio por não saberem para onde vai o comboio, nem em que estação têm de sair: porque não têm bilhetes e nos vagões não está afixado o itinerário. Se os soldados da escolta respeitarem o regulamento, nem deles se conseguirá ouvir uma palavra acerca do itinerário. E assim partimos, adormecemos no entrelaçamento dos corpos, no martelar das rodas, sem saber se amanhã veremos através da janela florestas ou estepes. Daquela janela do corredor. Do segundo beliche veem-se mesmo assim, através da grade, do corredor, dos dois vidros e de mais uma grade, as vias das estações e pedaços do espaço que corre ao lado do comboio. Se os vidros não gelaram, por vezes pode-se até ler os nomes das estações — de uma Avsiutino ou Undol. Onde ficam estas estações?… Ninguém no compartimento sabe. Por vezes pode-se perceber pelo sol: se nos levam para norte ou para oriente.
Mas mesmo depois de saber a direção, é como se não soubéssemos nada: as muitas prisões de trânsito são outros tantos nós na nossa linha, de qualquer um deles podem-nos desviar para o lado. Não queres de modo nenhum ir para Ukhta, nem para Vokruta — mas pensas acaso que a construção 501 — a via férrea pela tundra, pelo norte da Sibéria — é mais suave? Ela vale todas as outras.
Cinco anos depois da guerra, quando as torrentes de presos entraram em todo o caso no curso normal (ou o MVD alargou os quadros de pessoal?), passaram a acompanhar cada condenado por um envelope selado com o seu processo prisional, em cuja janela se escrevia, para a escolta, o itinerário. Nesse caso, se você está deitado no beliche do meio, se o sargento para ao seu lado e você consegue ler de pernas para o ar — talvez consiga dar um jeito e ler que fulano vai para Kniaj-Pogost, e você para Kargopolslag.
Bem, agora a inquietação é ainda maior! O que é esse Kargopolslag? Quem é que já ouviu falar dele?… Como são lá os trabalhos gerais?… (Há trabalhos gerais mortíferos, e há outros mais leves.) É de morrer, ou não?
* * *
Mas o melhor seria deixar rapidamente de ser esse otário, novato ridículo, presa e vítima.
E tenha o menos possível, para não tremer pelas suas coisas! Não tenha botas novas, nem sapatos à moda, nem roupas de lã: no vagão-zak, ou na carrinha celular, na receção de uma prisão de trânsito, de qualquer maneira serão roubados, confiscados, escamoteados, trocados. Se os dá sem luta, a humilhação envenena-lhe o coração. Se lhos tiram com luta, ficará a sangrar da boca por causa das suas coisas.
Não possuam! Não possuam nada! — ensinavam Buda e Cristo, os estoicos e os cínicos. Porque é que nós, ávidos, não ouvimos esta prédica simples? Não compreendemos que, com a posse de bens, perdemos a nossa alma?
Deixa que o arenque aqueça no teu bolso até chegares à prisão de trânsito para não teres de mendigar aqui que te deem de beber. E se deram de uma vez pão e açúcar para dois dias, come-o todo de uma vez. Nesse caso já ninguém tos roubará. E não terás preocupações. E sê como os pássaros do céu!
Possui só aquilo que possas trazer sempre contigo. Conhece as línguas, conhece os países, conhece os homens. Que o teu saco de viagem seja a tua memória. Memoriza! Memoriza! Só essas sementes amargas terão talvez a possibilidade de crescer.
Olha à tua volta — estás rodeado de homens. Talvez vás recordar um deles por toda a vida e lamentar não o ter interrogado. E quanto menos falares, mais ouvirás.
Há delicados fios de vidas humanas que se estendem de uma a outra ilha do Arquipélago. Eles entrelaçam-se, tocam-se por uma noite no trepidar do vagão escuro, depois separam-se para sempre — mas tu presta ouvido ao sussurro e à trepidação regular por baixo do vagão. Porque essa trepidação é o fuso da vida a girar.
* * *
Como todos os vagões, também o dos presos à noite sossega. À noite não há peixe, nem água, nem latrinas.
E então, como em qualquer outro vagão, só se ouve o barulho das rodas, que em nada perturba o silêncio. E então, se o soldado da escolta se ausentou do corredor, do terceiro compartimento — masculino — pode-se conversar em voz baixa com o quarto compartimento — feminino.
A conversa com uma mulher na prisão é uma coisa muito especial. Tem qualquer coisa nobre, mesmo que se fale apenas de artigos e de sentenças.
Uma dessas conversas decorreu toda uma noite, nas seguintes circunstâncias. Foi em julho de 1950. O compartimento das mulheres não ia lotado, havia nele apenas uma rapariga, filha de um médico moscovita, condenada pelo artigo 58-10. Nos compartimentos masculinos levantou-se muito barulho: a escolta estava a meter os presos de três compartimentos em dois (é melhor nem perguntar como ficaram apertados.) E conduziram para esse compartimento livre um qualquer criminoso, em nada parecido com um presidiário. Antes de mais, não tinha o cabelo rapado — e os seus cabelos louros ondulados, autênticos caracóis, tinham um ar de desafio na sua grande cabeça de boa casta. Era jovem, de boa presença, e vestia um fato militar inglês. Conduziram-no pelo corredor com certo ar de respeito (o próprio soldado da escolta se intimidou perante as instruções escritas no envelope do processo) —, e a rapariga conseguiu ver tudo isto. Mas ele não a viu (o que muito lastimaria mais tarde!).
Pelo barulho e pela azáfama, ela compreendia que o compartimento que tinha ficado livre especialmente para ele era ao lado do seu. Era evidente que ele não devia comunicar com ninguém. O que a fez desejar ainda mais falar com ele. No vagão-zak é impossível as pessoas verem-se de um compartimento para outro, mas no silêncio podem ouvir-se. Altas horas da noite, quando tudo começou a sossegar, a jovem sentou-se no extremo do seu banco mesmo junto à grade e chamou-o em voz baixa (é possível que a princípio tenha cantarolado baixinho. A escolta devia puni-la por tudo isto, mas a escolta aquietou-se e não havia ninguém, no corredor). O desconhecido ouviu e, instruído por ela, sentou-se da mesma maneira. Estavam agora sentados de costas um para o outro, separados por uma tábua de três centímetros, e falavam através da grade, baixinho, como se estivessem a beijar-se, mas não só não podiam tocar-se como nem sequer ver-se.
Eric Arvid Andersen já compreendia o russo de maneira aceitável, falava com muitos erros mas no fim de contas conseguia transmitir o pensamento. Contou à jovem a sua história surpreendente, ela contou-lhe a ele a simples história de estudante moscovita, que apanhara um 58-10. Mas Arvid estava cativado, fez-lhe perguntas sobre a juventude soviética, sobre a vida soviética — e ficou a saber coisas muito diferentes do que antes sabia pela leitura dos jornais de esquerda ocidentais e da sua visita oficial a este país.
Conversaram toda a noite — e tudo nessa noite se combinou para Arvid: o extraordinário vagão de presos num país estranho; o som noturno ritmado do comboio, que sempre encontra eco no nosso coração; e a voz melodiosa, o murmúrio, a respiração da rapariga junto ao seu ouvido —mesmo junto ao ouvido, mas ele nem podia sequer vê-la! (E ele que já havia ano e meio que não escutava uma voz feminina.)
E junto àquela jovem invisível (e por certo, naturalmente, obrigatoriamente, bela) começou pela primeira vez a ver atentamente a Rússia, e a voz da Rússia contou-lhe toda a noite a verdade. E até se pode assim conhecer o país pela primeira vez… (De manhã havia de avistar ainda pela janela os escuros telhados de palha — a ouvir o triste murmúrio da sua cicerone oculta.)
* * *
Numa pequena estação intermédia, um passageiro normal tem dificuldade em subir, mas em descer — qual a dificuldade? — é atirar as coisas e saltar. Não é assim com o preso.
Primeiro, a escolta forma em torno dos degraus dos vagões, e, mal tu acabas de descer, saltar, cair, toda a escolta te grita em uníssono numa voz ensurdecedora: «Sentar! Sentar! Sentar!» Isto é muito eficaz quando gritado a várias vozes e não te dão tempo nem para levantar os olhos. Como sob uma explosão de obuses, involuntariamente encolhes-te, apressas-te (apressares-te para onde?) e sentas-te no chão, juntando-te àqueles que desceram antes.
«Sentado!» — um comando muito claro, mas se és um presidiário principiante, ainda não o compreendes. Em Ivanovo, nas linhas de resguardo, ao ouvir essa voz de comando corri com a mala num braçado (se a mala foi feita não num campo, mas em liberdade, a asa quebra-se sempre, e sempre no momento mais crítico), coloquei-a no chão e, sem ver como estavam sentados os da frente sentei-me nela — com o capote de oficial, que ainda nem estava muito sujo nem tinha as abas rotas, eu não podia sentar-me diretamente nas travessas, na areia suja de mazute! O chefe da escolta — cabeçorra vermelhusca, sólida cara russa — acorreu; (eu não percebi o que ele queria, para quê?); aparentemente preparava-se para assentar a sua sagrada bota nas minhas malditas costas, mas qualquer coisa o fez conter-se e sem poupar a biqueira da sua bota bem engraxada deu um pontapé na minha mala e arrancou-lhe a tampa. «Sentado!» — esclareceu. E só então notei que me erguia como uma torre acima dos outros presos, sem ter tido tempo de perguntar: «Sentar-me como?» — já tinha percebido como e sacrificando o meu capote sentei-me como todos os outros, como os cães se sentam aos portões, e os gatos às portas.
(Conservei essa maleta, e ainda hoje, quando acontece vê-la, passo os dedos pelo rasgão aberto. Ela não pode cicatrizar, como cicatrizam as feridas do corpo e do coração. As coisas têm mais memória do que nós.)
E esta postura também foi calculada. Se estás sentado com o traseiro no chão, de modo que os joelhos se erguem à tua frente, o centro da gravidade é o traseiro, é difícil levantares-te e impossível saltar. E ainda nos sentam apertados uns contra os outros, para que nos estorvemos. Se quiséssemos lançar-nos todos contra a escolta, até que conseguíssemos mover-nos éramos todos abatidos.
Procuram sentar-nos em lugares discretos, para que as pessoas livres nos vejam menos, mas por vezes sentam-nos, por descuido, na plataforma da estação ou num espaço aberto (assim foi em Kuibichev). O que é uma prova para as pessoas livres: nós olhamo-las com olhares honestos, francos, cientes do nosso direito, mas como devem elas olhar para nós? Com ódio? A consciência não lho permite. (Só os escritores e os jornalistas soviéticos acreditam que as pessoas estão presas «por alguma coisa»). Com simpatia? Com pena? — e se lhes tomam nota do nome? E é fácil arranjar-lhes uma condenação. E os nossos cidadãos orgulhosos e livres desviam as cabeças culpadas e tentam não nos ver, como se o lugar estivesse vazio. As velhas são mais corajosas do que os outros: já não se podem corromper, acreditam em Deus — e, partindo um bocado do seu magro pão, atiram-no para nós. Também os antigos presidiários não têm medo, os de direito comum, naturalmente. Eles sabem: «Quem ainda lá não esteve, um dia estará, e quem esteve não esquece» — e atiram um maço de cigarros, para que lho atirem também a eles na próxima vez. O pão das velhotas, dada a fraqueza dos braços, não chega até nós, cai no chão, o maço de cigarros gira no ar por cima das nossas cabeças e logo a escolta faz soar as culatras das espingardas contra as velhas, contra a bondade, contra o pão: «Eh, toca a andar, velhota!»
E o pão sagrado, partido, ali fica no pó, até que nos levam.
Desdobre em cima de uma mesa ampla um grande mapa da nossa Pátria. Desenhe uns grossos pontos negros em toda as cidades capitais de região, em todos os nós ferroviários, em todos pontos de transbordo, onde terminam as vias férreas e começa um rio ou onde o rio inflete o curso e começa o carreiro a pé. O que é isto? Todo o mapa está coberto de moscas varejeiras? Pois isto é simplesmente o mapa imenso dos portos do Arquipélago.
Não são, é verdade, aqueles portos feéricos aonde nos atraía Aleksandr Grin, onde se bebe rum nas tabernas e se faz a corte às beldades. E também não há aqui o tépido mar azul (aqui, a água para o banho é um litro por pessoa, e para que se lavem mais confortavelmente, quatro litros para quatro numa bacia, e lavem-se todos ao mesmo tempo!). Mas tudo o resto que faz o romantismo dos portos — a sujidade, os insetos, as injúrias, as muitas línguas e as brigas — há aqui em abundância.
Raro é o preso que não passou por três ou cinco prisões de trânsito; muitos lembram-se de até uma dezena delas, e os filhos do Gulag contam facilmente meia centena. E aquele que tiver boa memória não precisa agora de viajar pelo país, conhece muito bem de cor toda a geografia pelos campos de trânsito. Não ofendam esse conhecedor, não lhe digam que conhecem tal ou tal cidade sem prisão de trânsito. Ele indicar-lhes-á com precisão que essas cidades não existem, e estará certo. Salsk? Aí mantêm os presos nas celas de prisão preventiva, junto com aqueles que estão a ser investigados. E em cada capital de distrito é assim — por que não haveria prisão de trânsito? Em Sol-Iletsk? Há uma prisão de trânsito! Em Ribinsk? E a prisão n.° 2, antigo mosteiro? Oh, tranquila, pátios pavimentados desertos, velhas lajes musgosas, nas casas de banho selhas de madeira limpinhas. Em Tchitá? A prisão n.° 1. Em Nauchkakh? Aí não é uma prisão, mas um campo, o que é o mesmo. Em Torjok? É numa colina, também num mosteiro.
Vê se compreendes, meu caro, não pode haver cidade sem prisão de trânsito! Os tribunais funcionam em toda a parte! E como levar os condenados até ao campo de trabalho correcional? Pelo ar?
Claro que as prisões de trânsito não são todas iguais. Mas qual é melhor, qual é pior — não é possível decidir. Reúnem-se três ou quatro presos e cada qual elogiará sem falta a «sua».
— Tomemos por exemplo Ivanovo, que não é uma prisão de trânsito muito conhecida, mas pergunte-se a quem lá esteve no Inverno de 1937 para 1938. A prisão não era aquecida — e não só não gelaram como se deitavam despidos nas tarimbas superiores. Quebravam as vidraças das janelas para não sufocarem. Na cela 21, em vez dos previstos vinte homens estavam trezentos e vinte e três! A comida não era distribuída por indivíduos, mas por grupos de dez. Se algum dos dez morria, metiam-no na tarimba e ali o mantinham até que cheirasse mal. E recebiam a ração dele. Mas por que havia ali tamanha sobrecarga — durante três meses não os levaram ao banho, criaram piolhos e os piolhos causaram-lhes úlceras nas pernas e tifo. E por causa do tifo puseram-nos de quarentena, e durante quatro meses não saíram levas de presos.
— Mas aqui, rapazes, o problema não é de Ivanovo, o problema é do ano. Em 1937-1938, é claro, não apenas os presos, mas até as pedras das prisões gemiam. Irkutsk também não era uma prisão de trânsito especial, mas em 1938 os médicos nem se atreviam a espreitar para as celas, passavam apenas pelo corredor e o guarda gritava à porta: «Os que estão desmaiados, que saiam!»
— Mas porquê esse vosso Trinta e Sete, sempre o trinta e sete? E o Quarenta e Nove na baía de Vanino, 5.a zona? Não querem? Trinta e cinco mil! E ficámos ali vários meses! Uma vez mais não conseguiam enviá-los todos para Kolimá. E todas as noites mudavam de uma barraca para outra, de uma zona para outra por qualquer motivo. Como os fascistas: apitos! gritos! — «todos para fora menos o último!» A água era trazida em cisternas, mas não havia onde vertê-la, punham um fiozinho a correr, quem pusesse a boca debaixo, bebia. Começaram a brigar junto às cisternas — das torres abriam fogo! Exatamente como os fascistas. Chegou o major-general Derevianko, chefe dos campos de Noroeste, diante da multidão um piloto aviador caminhou para ele, rasgou a túnica militar: «Tenho sete condecorações de combate! Quem lhes deu o direito de disparar sobre a zona?» Derevianko responde: «Disparámos e voltaremos a disparar até que vocês aprendam a comportar-se».
Uma das prisões de trânsito mais ativas e menos dissimuladas era a de Kotlas. Mais ativa porque abria o caminho para todo o noroeste da Rússia europeia, menos dissimulada porque era já o Arquipélago profundo e não tinha que se esconder de ninguém. Aquilo era simplesmente um pedaço de terra, dividido por taipais em gaiolas fechadas. Embora já ali tivessem acumulado numerosos mujiques, quando os desterraram em 1930 (é de crer que não tivessem teto, mas agora já não há ninguém que possa contar), também em 1938 nem todos cabiam nas frágeis barracas de um só piso feitas de tábuas e cobertas de… lona. Sob a neve húmida do Outono e com os primeiros gelos, as pessoas viviam aqui simplesmente entre o céu e a terra. Na verdade, não as deixavam entorpecer com a imobilidade, andavam sempre a contá-las, animavam-nas com verificações (chegava a haver ali vinte mil ao mesmo tempo) ou com rusgas noturnas súbitas. — No Inverno de 1944-1945, quando já todos tinham teto, havia ali apenas sete mil e quinhentas pessoas. Das quais morriam cinquenta por dia — cinquenta pessoas, e as macas que as transportavam para a morgue nunca descansavam. (Pode-se objetar que isto é inteiramente suportável, uma mortalidade de menos de um por cento ao dia, e que a este ritmo uma pessoa pode durar até cinco meses. Sim, mas a ceifa principal, o trabalho no campo correcional, ainda não tinha começado.)
* * *
E nós que sonhávamos descansar e desentorpecer no porto! Ao fim de alguns dias apertados e torcidos nos compartimentos do vagão-zak — o que sonhávamos com a prisão de trânsito! Que aqui nos esticaríamos, nos ergueríamos. Que iríamos à latrina sem pressas. Que beberíamos água fresca e teríamos mesmo água quente. Que não nos obrigariam a comprar as nossas rações à escolta a troco das nossas coisas. Que nos dariam comida quente. E finalmente, que nos levariam ao banho, tomaríamos um duche de água morna e pararíamos de nos coçar.
Mas aqui, se algum dos nossos sonhos se realiza, de qualquer modo sempre virá alguma coisa estragá-lo.
O que é que nos espera no banho? Isso nunca se sabe. De repente, põem-se a rapar os cabelos às mulheres (Krássnaia Préssnia, novembro de 1950). Ou a nós, uma fila de homens nus, mandam-nos rapar os cabelos só por cabeleireiras. Na sauna de Vologdá, uma corpulenta tia Mótia grita: «Rapazes, ponham-se em fila!» e cobre toda a fila com o vapor de um tubo. Mas já estamos fartos de repetir que há banhos sem água; que na desinfeção com vapor nos queimam as coisas; que depois do banho nos obrigam a correr descalços e nus pela neve para ir buscar as nossas coisas.
Desde os primeiros passos numa prisão de trânsito, notas que aqui serás dominado não pelos guardas, não pelas dragonas e os uniformes, que em todo o caso, sem o parecer, seguem uma espécie de lei escrita. Aqui serás dominado pelos alapados da prisão de trânsito. Aquele rapaz dos banhos carrancudo que nos vem esperar à saída do comboio: «Bem, vamos lá tomar banho, senhores fascistas!»; e aquele distribuidor de tarefas com a sua prancheta de contraplacado, que perscruta a nossa fila e nos apressa o passo; e aquele educador com um topete na cabeça rapada, que vai batendo na perna com um jornal enrolado, e espreita os nossos sacos — como eles se parecem todos uns com os outros! E onde é que nós já os vimos na nossa curta viagem?
Ba-a-ah! São outra vez os ladrões! Os mesmos bandidos cantados por Utióssov! São uma vez mais os Jenka-Jojol, Serioga-Fera e Dimka-Tripas-ao-sol, com a diferença de que já não estão atrás das grades, lavaram-se, vestiram-se como pessoas de confiança do Estado e que zelam pela disciplina — a nossa disciplina.
Qualquer chefe de uma prisão de trânsito percebe isto: pode pagar aos seus familiares, sem que eles saiam de casa, os salários destinados aos serviços do estabelecimento, ou reparti-los entre os chefes da prisão. E entre os socialmente próximos, basta assobiar e encontra quantos quiser, desejosos de fazer esse trabalho, com a única condição de ficarem amarrados à prisão de trânsito, não vão para as minas nem para a taiga. Todos aqueles capatazes, escriturários, contabilistas, educadores, banheiros, cabeleireiros, fiéis de armazém, cozinheiros, lavadores de pratos, lavadores de roupa, costureiros — são os que ficam perpetuamente na prisão de trânsito, acham com razão que em nenhum campo de trabalho estariam melhor. Nós chegamos até eles ainda não completamente depenados e eles abusam de nós à vontade. Aqui são eles que nos revistam em vez dos guardas, e durante a revista propõem que lhes entreguemos o dinheiro para guardar, que inscrevem seriamente numa lista qualquer — e só nós vimos essa lista e o dinheiro! «Nós entregámos o dinheiro!» — «A quem?» — pergunta surpreendido o oficial. — «A um que estava aqui!» — «Quem, precisamente?» Os alapados não viram nada… — «Porque é que lhe entregaram o dinheiro?» — «Nós pensávamos…» — «O peru também pensava! É preciso pensar menos!» E pronto.
«Mas não são os gatunos! — explicam-nos os conhecedores que estão entre nós. — São as cadelas, que entraram ao serviço. São os inimigos dos ladrões honestos. E os ladrões honestos estão nas celas.» Mas isto dificilmente chega à nossa compreensão de laparotos. Têm os mesmos modos, as mesmas tatuagens. Pode ser que sejam inimigos desses, mas não são nossos amigos, essa é que é…
* * *
Mas até para o novato, a quem a prisão de trânsito descasca e debulha, ela é necessária, muito necessária! Ela dá-lhe a transição gradual para o campo. O coração do homem não poderia suportar semelhante passagem num único passo. A sua consciência não poderia orientar-se de repente nessa escuridão. É preciso fazê-lo pouco a pouco.
E depois, a prisão de trânsito dá-lhe uma aparência de ligação com a sua casa. Daqui escreve a sua primeira carta legal: por vezes para informar que não o fuzilaram, outras vezes para indicar a direção em que vai a sua leva, sempre estas primeiras palavras enviadas à família por um homem lavrado pela instrução do processo. Lá em casa, ainda se lembram dele como era antes, mas ele nunca mais voltará a ser esse — e de repente isso vai surgir como um relâmpago numa qualquer linha irregular. Irregular, porque embora a carta seja autorizada e haja uma caixa do correio no pátio, não há nem papel, nem lápis, e ainda menos com que afiá-los. De resto, acaba por se encontrar o papel amarrotado de um pacote de tabaco, ou o papel de um cartuxo de açúcar, e na cela há sempre alguém que tem um lápis — e com essas garatujas indecifráveis escrevem-se as linhas de que depois depende o entendimento ou o desentendimento das famílias.
Algumas mulheres tornadas insensatas por causa de uma carta dessas vão por vezes irrefletidamente tentar encontrar o marido na prisão de trânsito — embora nunca lhes seja permitido um encontro e apenas consigam sobrecarregar o marido com mais coisas. Uma dessas mulheres deu, em minha opinião, motivo para um monumento a todas as esposas — e até indicou a localização.
Foi na prisão de trânsito de Kuibichev, em 1950. A prisão situava-se numa depressão (de onde, apesar de tudo, se avistavam as Portas de Jiguli, do Volga), e logo acima dela, fechando o horizonte a leste, estendia-se uma longa colina verdejante. Essa colina ficava fora e acima da zona, e de baixo não compreendíamos como se podia lá chegar do exterior. Era raro aparecer por ali alguém, às vezes algumas cabras pastavam, algumas crianças corriam. E eis que num dia nublado de Verão surgiu na escarpa uma mulher da cidade. E, colocando a mão em pala e movendo-se um pouco, pôs-se a observar de lá de cima a nossa zona. A essa hora, nos vários pátios, passeavam três celas de muitos homens — e entre essas densas três centenas de formigas sem rosto ela queria ver o seu marido! Esperaria que o coração lho dissesse? Sem dúvida não lhe permitiram a visita e ela trepou àquela escarpa. Do pátio todos a notaram e todos olharam para ela. Em baixo, na nossa depressão, não havia vento, mas lá em cima soprava uma ventania considerável. O vento agitava, sacudia o longo vestido dela, o casaquinho e os cabelos, revelando todo aquele amor e a inquietação que havia nela.
Eu penso que a estátua dessa mulher, precisamente ali, naquela colina acima da prisão de trânsito e voltada para as Portas de Jiguli, como ela estava, poderia explicar ao menos algumas coisas aos nossos netos.
Por qualquer razão, durante muito tempo não a expulsaram. Depois um soldado subiu para lá, começou a gritar, a agitar os braços — e expulsou-a.
* * *
Outra coisa que a prisão de trânsito dá ao preso: o horizonte, a visão ampla. Como se costuma dizer, não há nada que comer, mas viver é bom. No movimento constante que ali reina, na sucessão de dezenas e centenas de pessoas, na sinceridade dos relatos e das conversas (no campo não se fala assim, ali por toda a parte receia-se cair nos tentáculos do operacional) — refrescas-te, arejas e clarificas as ideias, começas a compreender melhor aquilo que acontece contigo, com o povo e até com o mundo. Um excêntrico qualquer na cela pode revelar-te coisas sobre as quais nada poderias ter lido.
Essas pessoas que vêm e que vão, esses destinos e esses relatos embelezam muito as prisões de trânsito. E os veteranos dos campos recomendam: deita-te e deixa-te estar quieto! Aqui dão-te só a ração garantida, mas não estafas o lombo a trabalhar. E quando não estás muito apertado, pode-se dormir à vontade. Estende-te e deixa-te estar deitado entre uma sopa aguada e outra. Mal comido, mas bem dormido. Só aquele que passou pelos trabalhos de um campo compreende que a prisão de trânsito é uma casa de repouso, é a felicidade no nosso percurso. E mais uma vantagem: quando dormes de dia, o tempo da condenação passa mais depressa. Matar o dia, porque a noite não a vemos passar.
* * *
Houve tempo em que a Krássnaia Préssnia era por assim dizer a capital do Gulag — no sentido de que, para onde quer que se fosse, não se podia evitá-la, como não se evitava Moscovo. Tal como em toda a União, de Tachkent para Sotchi e de Tchernigov para Minsk, o mais cómodo era passar por Moscovo. Também os presos de todos os lados para todos os lados passavam pela Préssnia. Foi nessa época que eu estive lá. A Préssnia estava superlotada até mais não poder. Estavam a construir um pavilhão suplementar.
Por duas noites meteram na nossa cela um técnico especial, que ficou deitado ao meu lado. Ele viajava como técnico especial, ou seja na Direção Central fora escrita para ele uma guia que o acompanhava de campo em campo, onde se indicava que era um técnico de construção e só como tal devia ser utilizado em cada novo lugar. O técnico especial viaja na carruagem-zak normal, fica nas celas comuns da prisão de trânsito, mas a sua alma não estremece: ele está protegido pela sua guia e não o mandarão abater árvores na floresta.
Uma expressão cruel e resoluta era dominante no rosto deste veterano dos campos, que já cumprira a maior parte da sua pena. Olhava o nosso primeiro embaraço de novatos com o sorriso de quem observa os cachorrinhos de duas semanas.
O que é que nos espera no campo? Compadecendo-se de nós, ensinou-nos:
— Desde o primeiro passo no campo, cada um tentará enganar-vos e roubar-vos. Não confiem em ninguém, além de si próprios! Estejam atentos: não vá alguém preparar-se para vos morder. Depois habituem-se: no campo ninguém faz nada gratuitamente, ninguém faz nada por bondade. É preciso pagar tudo. O mais importante: evitem os trabalhos gerais! Recusem-nos desde o primeiro dia! Se forem parar aos trabalhos gerais no primeiro dia, estão perdidos, será para sempre.
— Trabalhos gerais?…
— Os trabalhos gerais são os trabalhos essenciais num campo. Neles se ocupam oitenta por cento dos presidiários. E todos eles morrem. Todos. Depois trazem outros novos para os substituir também nos trabalhos gerais. Aí deixarão vocês as últimas forças. E andarão sempre húmidos. E sem sapatos. E serão roubados nos pesos e nas medidas. Alojados nas piores barracas. E não vos tratarão. Só viverão aqueles que não participarem nos trabalhos gerais. Procurem a qualquer preço não ir parar aos trabalhos gerais! Desde o primeiro dia.
A qualquer preço!
A qualquer preço?…
Na Krássnaia Préssnia assimilei e assumi — sem nenhum exagero — os conselhos de um técnico especial cruel, e só me esqueci de lhe perguntar: qual é a medida do preço?
Qual o limite?
É esgotante viajar num vagão-zak, insuportável andar nas carrinhas celulares, e também a prisão de trânsito depressa nos atormenta — o melhor seria evitar tudo isso e seguir imediatamente para o campo nos vagões vermelhos.
Os interesses do Estado e os interesses do indivíduo, como sempre, também aqui coincidem. Para o Estado também seria mais vantajoso enviar os condenados para o campo por um itinerário direto, sem sobrecarregar as vias das cidades, os transportes rodoviários e o pessoal das prisões de trânsito. Caravanas de escarlatinos (vagões vermelhos para gado) — assim expediram milhões de camponeses nos anos 1929-1931. Assim deportaram Leninegrado para fora de Leninegrado. Assim povoaram Kolimá nos anos trinta: todos os dias Moscovo, capital da nossa pátria, vomitava assim um comboio para Soviétskaia Gavan, até ao porto de Vanino. E cada capital de região também enviava comboios vermelhos, embora não diariamente. Em 1941 deportaram assim a República dos Alemães do Volga para o Cazaquistão, e desde então as restantes nacionalidades seguiram da mesma maneira. Em 1945 foram esses comboios que transportaram as filhas e filhos pródigos da Rússia — da Alemanha, da Checoslováquia, da Áustria e simplesmente das fronteiras ocidentais. Em 1949 foi assim que reuniram todos os do artigo Cinquenta e Oito num campo especial.
Os vagões-zak circulam segundo uma vulgar tabela de circulação ferroviária, os comboios vermelhos segundo uma ordem assinada por um importante general do Gulag. O vagão-zak não pode ir ter a um lugar deserto, no termo deve haver sempre uma estação, uma localidade mesmo insignificante, e uma cela de prisão preventiva, coberta por um teto. Mas um comboio vermelho pode ir para um lugar deserto: aonde ele chega, logo se ergue do mar, da estepe ou da taiga uma nova ilha do Arquipélago.
Não é qualquer vagão vermelho que pode transportar presos — é preciso prepará-lo primeiro: verificar o bom estado e a solidez do chão, das paredes e dos tetos dos vagões; é preciso gradear com segurança as suas pequenas janelas; deve-se abrir um buraco no pavimento para os despejos e reforçar especialmente esse lugar com revestimento metálico bem pregado; devem ser distribuídas por toda a composição com a necessária frequência plataformas (onde se situarão os postos da escolta com metralhadoras); devem ser preparadas subidas para o tejadilho; deve-se pensar na localização dos projetores e garantir o abastecimento constante de energia elétrica; devem preparar-se pequenos martelos de madeira de cabo comprido; devem instalar-se cozinhas — para a escolta e para os presos. Só depois disso se pode percorrer os vagões e escrever a giz, obliquamente: «equipamento especial» ou «facilmente deteriorável».
Terminada a preparação da composição, vem agora a complexa operação de combate que é o embarque dos presos nos vagões. Isto tem dois objetivos importantes e obrigatórios: ocultar o embarque aos olhos do povo e aterrorizar os presos.
É preciso ocultar o embarque aos olhos da população, porque numa composição embarcam-se de uma vez cerca de mil pessoas (pelo menos vinte e cinco vagões), não é como o pequeno grupo de um vagão-zak, que se pode embarcar à vista das pessoas. É claro que toda a gente sabe que há detenções todos os dias e a todas as horas, mas ninguém deve horrorizar-se ao vê-los todos juntos. Em Oriol, em 1938, era impossível ocultar que não havia uma casa em que não tivessem sido feitas detenções, e as carroças camponesas com as mulheres chorosas enchiam a praça diante da prisão de Oriol, como na execução dos atiradores, de Súrikov.[27] (Ah, se alguém nos pintasse isto algum dia! Nem esperemos por isso: não está na moda, não está na moda…) Mas não se deve mostrar à nossa população soviética que se enche um comboio por dia (em Oriol nesses anos enchia-se). E a juventude também não deve ver isso: a juventude é o nosso futuro. E por isso é só à noite — todas as noites, e assim durante vários meses — que se conduz a pé, da prisão para a estação, a negra coluna da leva. É verdade que as mulheres pressentem, as mulheres acabam por saber — e de toda a cidade vêm à noite à estação e espreitam os vagões nas vias de resguardo, correm ao longo dos vagões, tropeçando nas travessas e nos carris, e em cada vagão gritam: fulano está aqui?… fulano e fulano não estão aqui?
Estas cenas indignas do nosso tempo testemunham apenas a inábil organização do embarque nos comboios. Os erros são tidos em conta, e a partir de uma certa noite a composição é amplamente cercada por um cordão de cães pastores que rosnam e ladram.
E também em Moscovo, a partir da velha prisão de trânsito de Sretenka (os presos já não se lembram dela), ou de Krássnaia Préssnia, o embarque nos comboios vermelhos só se faz de noite, e isto é uma lei.
* * *
Bom, mas agora ao menos tiveram o alívio de ter entrado e de poderem instalar-se nas tábuas não aparadas das tarimbas. Mas que alívio, que vagão «aquecido»?! De novo colocam o preso entalado entre o frio e a fome, entre a sede e o medo, entre os ladrões e a escolta.
Se no vagão há gatunos, eles ocupam tradicionalmente os melhores lugares nas tarimbas de cima, ao pé da janela. Isto no Verão. Mas vamos lá adivinhar — quais são os lugares deles no Inverno? É claro, formando um círculo apertado em volta do fogareiro. Morre tu hoje, que eu fico para amanhã!
Os presos consideram como vantagem dos comboios vermelhos a comida quente: nas estações remotas (sempre para que o povo não veja) os comboios param e distribuem pelos vagões sopa e papas. Mas até a comida quente eles conseguem servi-la de maneira a ficar estragada. Ou deitam a sopa nos mesmos baldes em que distribuem o carvão. E não há com que lavá-los! Porque a água potável no comboio é racionada, é ainda mais rara do que a sopa. De modo que estás a comer a sopa com resíduos de carvão. Não há aquecimento, não há proteção contra os bandidos, não dão de beber, nem de comer — e não nos deixam dormir. Com os martelos de madeira com cabo comprido (modelo padrão para todo o Gulag) à noite, em cada paragem, batem em cada tábua do vagão: não terão conseguido serrá-la?
O que distingue o comboio vermelho dos outros comboios de longo curso sem transbordo, é que quem embarca nele ainda não sabe se vai desembarcar. Nos invernos de 1944-1945 e 1945-1946, na aldeia de Jeleznodorojni (Kniaj-Pogost), como em todos os principais nós ferroviários do Norte, desde Ijmá até Vorkuta, os comboios de presos vindos dos territórios libertados circulavam sem fogões e chegavam com um ou dois vagões de cadáveres.
É terrível e mortal nas viagens de Inverno. Mas no tempo do calor também não é nada bom: das quatro pequenas janelas, duas estão hermeticamente fechadas, o tejadilho do vagão está sobreaquecido; e levar água para mil pessoas, a escolta não vai agora estafar-se, se não conseguia dar de beber nem a um vagão-zak.
Não, maldito seja ele com o seu percurso direto e sem transbordo, este comboio vermelho para gado! Quem o conheceu, não o esquecerá. Depressa o campo! Chegar lá depressa.
* * *
O Dvina setentrional, o Ob e o Ienissei sabem quando se começou a transportar os presos em barcaças — na deskulakização. Estes rios correm diretamente para o norte, e as barcaças eram bojudas, com muita capacidade — e só assim era possível lançar toda aquela massa cinzenta viva da Rússia para o Norte sem vida. Lançavam as pessoas de qualquer maneira no bojo da barcaça e ali ficavam estendidas, em monte, movendo-se como caranguejos no fundo de um cesto. E em cima, a bordo, como sobre rochedos, estavam as sentinelas. Por vezes levavam assim essa massa a descoberto, outras vezes cobriam-na com uma grande lona. O transporte numa barcaça como aquelas não é já bem uma transferência, era a morte a breve prazo. Além disso quase não lhes davam de comer, e ao desembarcá-los na tundra deixavam por completo de alimentá-los. Deixavam-nos a morrer, a sós com a natureza.
O transporte das levas em barcaças pelo Dvina setentrional (e pelo Vitchegda) ainda não tinha acabado em 1940, e até se intensificara: por elas passaram os ucranianos ocidentais e os bielorrussos ocidentais libertos. Os presos iam em pé, muito apertados, vários dias e noites.
Os transportes de presos em barcaças pelo Ienissei foram solidamente organizados e tornaram-se constantes durante décadas. As barcaças de transferência pelo Ienissei têm um porão constantemente equipado — de três pisos, escuro. Só através do poço da escotilha entra uma luz difusa. A escolta vive numa pequena construção na coberta. As sentinelas guardam as saídas da coberta e vigiam a superfície da água, não vá alguém ter saltado. A guarda não desce ao porão, sejam quais forem os gemidos e os gritos por socorro que de lá venham. E nunca fazem os presos subir para um passeio.
O leitor arguto já não necessita da ajuda do autor para acrescentar: os gatunos ocupam o piso superior, mais perto da abertura — do ar e da luz. Têm acesso à distribuição de pão de que precisam e, se a vida é difícil durante a viagem, não se acanham para usar a santa muleta (abarbatar a ração do rebanho cinzento).
E há resistência? Acontece, mas é muito raro. Eis um caso que ficou na memória. Em 1950, numa barcaça assim organizada, mas maior, marítima, no transporte de Vladivostok para a Sacalina, sete rapazes desarmados, condenados pelo artigo Cinquenta e Oito, resistiram às cadelas, que eram cerca de oitenta (e, como sempre, com algumas facas). Essas cadelas já tinham revistado toda a leva ainda na prisão de trânsito «Três-dez» de Vladivostok. Conhecendo todos os esconderijos, fazem-no tão bem como os guardas da prisão, mas nunca conseguiram apanhar tudo. Sabendo disso, já no porão declararam por astúcia: «Quem tiver dinheiro, pode comprar tabaco». O Micha Gratchov puxou três rublos, escondidos no casaco acolchoado. O cadela Volodka-Tatárin gritou-lhe: «Que é isso, miserável, tu não pagas tributos?» E saltou para lhos tirar. Mas o sargento do exército Pável (esqueci o apelido) empurrou-o. Volodka-Tatárin, fez-lhe um garfo aos olhos, Pável derrubou-o. Saltaram para aí uns 20 ou 30 cadelas, e em volta de Gratchov e de Pável colocaram-se Volódia Chpákov, antigo capitão do exército; Serioja Potápov; Volódia Reunov, Volódia Tretiukhin, também antigos sargentos do exército; e Vássia Kravtsov. E daí? O caso limitou-se à troca de alguns murros. Ou se revelou a verdadeira cobardia dos gatunos (sempre oculta sob uma aparência de energia e desenvoltura), ou a proximidade da sentinela os impediu — a verdade é que eles recuaram, limitando-se a ameaçar: «Quando chegarmos a terra vocês serão feitos em lixo!» (Mas não houve combate e os rapazes não foram feitos em «lixo»).
Mas observo que o leitor já sabe o que vem a seguir: agora vão transportá-los em camiões por centenas de quilómetros e depois ainda terão de fazer mais algumas dezenas a pé. E ali abrirão novos campos de trabalho e logo no primeiro minuto da chegada vão trabalhar, e comerão peixe e farinha, acompanhados de neve. E dormirão em tendas.
Sim, é assim. Mas por enquanto, nos primeiros dias, instalam-nos aqui, em Magadan, também em tendas de campanha polares. E aqui serão examinados por uma comissão, ou seja observados nus, e pelo estado do seu traseiro será determinado se estão em condições para trabalhar (e todos eles estarão em condições).
* * *
Feche os olhos, leitor. Está ouvir o ruído das rodas? São os vagões-zak a passar. São os escarlatinos a passar. A qualquer minuto do dia. Em qualquer dia do ano. E há um chapinhar de água — são as barcaças de presos a navegar. E roncam os motores das carrinhas celulares. Constantemente alguém é desembarcado, embarcado, transferido. E este rumor? São as celas sobrelotadas das prisões de trânsito. E estes brados? São os lamentos dos espoliados, violentados, espancados.
Passámos em revista todos os meios de transporte, e descobrimos que cada um deles é pior que o anterior. Observámos as prisões de trânsito, mas não vimos nenhuma boa. E até a última esperança humana de que de futuro será melhor, de que o campo será melhor, é uma esperança falsa.
No campo será pior.
Também transportavam presos em canoas individuais entre as ilhas do Arquipélago. A isto chama-se escolta especial. É a forma menos constrangedora de transporte, quase não se distingue de uma viagem em liberdade. Não se deve confundir com o mandado especial, que é assinado no aparelho do Gulag. O mandatado especial segue a maior parte das vezes no transporte comum, embora aconteça darem-lhe belos trechos de caminho.
A escolta especial é uma maravilha do princípio ao fim. Desta vez conhecerás as transferências comuns, não tens de pôr as mãos atrás das costas, não terás de te despir completamente, nem sentar-te no chão e nem sequer haverá qualquer revista. Em geral, a escolta avisa-te de que, em caso de tentativa de fuga, disparamos como habitualmente. As nossas pistolas estão carregadas, temo-las nos bolsos. No entanto viajemos normalmente, comporte-se com naturalidade, não dê a entender que é um presidiário.
A minha vida no campo deu uma reviravolta no dia em que, com os dedos curvados (de tanto agarrar a ferramenta não conseguem endireitar-se), estava encolhido para a revista na brigada de carpinteiros e o capataz me separou da revista dizendo-me com um súbito respeito: «Sabes, por decisão do ministro do interior…»
Fiquei estupefacto. As equipas saíram, e os alapados da zona rodearam-me. Uns diziam: «vão-te prolongar a pena», outros diziam: «é para te libertarem». Mas todos coincidiam em que ia ser chamado ao ministro Kruglov. Eu também comecei a oscilar entre o agravamento da pena e a libertação. Tinha-me esquecido completamente de que seis meses antes tinha vindo ao nosso campo um tipo qualquer e nos dera a preencher umas fichas do Gulag. A rubrica mais importante era a «especialidade». E para se valorizarem, alguns presos escreviam as qualificações mais valiosas nos campos do Gulag: «cabeleireiro», «alfaiate», «fiel de armazém», «padeiro». Mas eu franzi os olhos e escrevi: «físico nuclear». Nunca fui físico nuclear, mas antes da guerra ouvi qualquer coisa na universidade, sabia os nomes das partículas do átomo e decidi escrever assim. Era em 1946, a bomba atómica era necessária a todo o custo. Mas eu próprio não tinha atribuído importância a essa ficha, tinha-me esquecido dela.
Há uma lenda obscura, totalmente duvidosa, que ninguém confirmou e que se ouve por vezes nos campos: algures neste Arquipélago existem umas pequenas ilhas paradisíacas. Ninguém as viu, ninguém lá esteve, ou se esteve está calado. Nessas ilhas, dizem, correm rios de leite com margens de creme, e o pior que lá dão a comer são natas de leite e ovos; dizem que são de uma grande limpeza, que faz sempre calor, o trabalho é intelectual e cem por cento secreto.
E foi a essas ilhas paradisíacas (charachki, na linguagem simples dos presos) que eu fui parar a meio da pena. É a elas que devo o ter ficado vivo, porque nos campos não teria sobrevivido à pena toda. A elas devo a possibilidade de escrever este estudo, embora não lhes tenha dado lugar neste livro (sobre elas existe já um romance[28]).
Se é verdade que as almas dos mortos voam por vezes entre nós, nos veem, leem facilmente os nossos pequenos impulsos e nós não as vemos nem pressentimos, incorpóreas, assim é também esta viagem da escolta especial.
Mergulhas no meio da vida livre, nos encontrões da sala da estação. Lanças olhares aos vivos que por certo não te podem interessar sob nenhum aspeto. Sentas-te num velho «divã» de passageiros e ouves conversas estranhas e fúteis: sobre um qualquer marido que bate na mulher ou que a abandonou; uma sogra que não se entende com a nora; os vizinhos de um apartamento comunitário que deixam a luz acesa no corredor e não limpam os pés. Ouves tudo isto e sentes um formigueiro de renúncia na coluna e na cabeça: surge-te tão clara a verdadeira dimensão das coisas no Universo! A medida de todas as fraquezas e paixões! — e esses pecadores não o conseguem ver. Só tu, incorpóreo, estás verdadeiramente vivo, autenticamente vivo, e aqueles só por erro se consideram vivos.
E que imenso abismo vos separa! Não é possível gritar-lhes, nem chorar por eles, nem sacudi-los pelos ombros: porque tu és um espírito, um fantasma, e eles são corpos materiais.
Como fazê-los compreender — por uma iluminação? Uma visão? Em sonho? — Irmãos! Homens! Porque vos foi dada a vida?! No pesado silêncio da meia-noite abrem-se as portas das celas da morte — e homens de alma grande são levados para o fuzilamento. Em todas as vias férreas do país, agora, neste minuto, pessoas lambem com a língua amarga os lábios secos depois de terem comido o arenque, sonham com a felicidade de esticar as pernas, com o alívio depois de irem à latrina fazer as necessidades. Em Kolimá, só no Verão a terra degela até um metro de profundidade — e só então enterram nela os ossos daqueles que morreram durante o Inverno. E vocês, sob o céu azul, sob um sol quente têm o direito de dispor do vosso destino, de ir beber água, estender os membros, ir aonde querem sem escolta — que é isso da eletricidade no corredor? Que história é essa da sogra? Querem que lhes descreva agora mesmo o essencial da vida, todos os mistérios dela? Não corram atrás de fantasmas, atrás dos bens, atrás de títulos: isso acumula-se ao longo de décadas, com muitos nervos, e é tudo confiscado numa noite. Vivam num constante predomínio sobre a vida, não tenham medo da desgraça e não anseiem pela felicidade, porque de qualquer maneira nem o amargo dura sempre, nem o doce é sempre pleno. Já vos basta se não gelarem e se a sede e a fome não lhes dilacerarem as entranhas. Se não têm a espinha quebrada, se as duas pernas andam, os dois braços se dobram, os dois olhos veem e os dois ouvidos ouvem — de quem podem ter inveja? Para quê? Ter inveja dos outros é o que mais nos corrói a nós. Abram os olhos, lavem o coração, e deem valor acima de tudo àqueles que vos amam e estão do vosso lado. Não os ofendam, não os injuriem, não se separem de nenhum deles zangados: bem sabem que essa pode ser a vossa última atitude para com eles antes da detenção, e ficará assim na memória deles!…
Mas os da escolta afagam nos bolsos as culatres negras das pistolas. E nós estamos os três sentados, rapazes sóbrios, amigos tranquilos.
É a primeira vez que vejo a prisão das Butirki do lado de fora, ainda que seja a quarta vez que ali me conduzem, e posso sem dificuldade traçar-lhe o plano interior. Que muro tão alto e severo ao longo de dois quarteirões!
… Como quem entra em casa, atravesso a pequena torre da guarda, e não me espantava se agora me colocassem — pois já me colocaram — de cara para a parede e perguntassem: «apelido? Nome e patronímico!… ano de nascimento?…»
Apelido!… Eu sou o Viajante Interstelar! Enfaixaram o meu corpo, mas eles não têm poder sobre a minha alma.
Eu sei: dentro de algumas horas farão sobre o meu corpo os inevitáveis procedimentos — box, revista, entrega de recibos, preenchimento da ficha de entrada, desinfeção e banho — e serei levado para uma cela e encontrarei pessoas desconhecidas para mim, mas necessariamente inteligentes, interessantes, amistosas, que começarão a contar e eu começarei a contar, e à noite não terei logo vontade de dormir.
* * *
Uma das verdades de que a prisão nos convence é que o mundo é pequeno, simplesmente muito pequeno. Na verdade, o Arquipélago Gulag está espalhado pelo mesmo espaço que a União dos Sovietes, mas o número de habitantes é muito inferior. Quantos são eles exatamente no Arquipélago é impossível saber. Pode-se supor que nos campos se tenham encontrado ao mesmo tempo mais de doze milhões (uns iam para debaixo da terra, a Máquina trazia outros). E os políticos não eram mais de metade desse número. Seis milhões? — Ora bem, num pequeno país, a Suécia ou a Grécia, muitos são os que se conhecem uns aos outros. Não é difícil que em qualquer cela de qualquer prisão de trânsito, ao escutar, ao falar, encontremos companheiros de cela de conhecidos comuns.
Gosto desse momento, quando trazem para a cela um novo (não um novato — esse entra abatido, acanhado —, mas um zek já experiente). Eu próprio gosto de entrar numa nova cela (aliás, permita Deus que nunca mais entre) com um sorriso despreocupado e um gesto amplo: «Saúde, irmãos! — atiro o saco para a tarimba. — Então, que novidades do último ano nas Butirki?»
… Ah, que cela aquela! — não terá sido a mais brilhante da minha vida prisional?… Isto foi em julho. Do campo levaram-me para Butirki depois do almoço, mas havia uma tão grande enchente, na prisão, que os procedimentos de admissão demoraram onze horas e só às três horas da noite me levaram para a cela 75. Vivamente iluminada por baixo das duas cúpulas por duas lâmpadas elétricas fortes, a cela dormia em monte, agitando-se devido ao ar sufocante: o ar quente de julho não entrava pelas janelas obstruídas por palas. As moscas zumbiam e poisavam nos homens adormecidos, que se contraíam. A cela, prevista para 25 pessoas, não estava excessivamente cheia, com 80 homens.
À voz de comando «de pé!», gritada pelo postigo, tudo se agitou: começaram a arrumar as tábuas transversais, a empurrar a mesa para a janela. Aproximaram-se de mim para me interrogar: se era novo ou se vinha de um campo. Verificou-se que na cela havia duas torrentes: a torrente habitual dos condenados recentes, dirigidos para os campos, e a torrente inversa dos que vinham dos campos, todos especialistas — físicos, químicos, matemáticos, engenheiros da construção, enviados não se sabe para onde, mas para quaisquer bons institutos de investigação científica. (Aqui sosseguei, o ministro não me ia acrescentar um suplemento à pena.) Aproximou-se de mim um homem ainda não idoso, espadaúdo (mas muito magro), de nariz um pouco adunco, aquilino:
— Professor Timoféiev-Ressovski, presidente da sociedade científico-técnica da célula 75. A nossa sociedade reúne-se diariamente depois da ração da manhã ao pé da janela da esquerda. Não poderia fazer-nos uma qualquer comunicação científica? E qual, precisamente?
Apanhado de surpresa, eu estava diante dele com o meu longo capote coçado e o gorro de Inverno (os que foram detidos no Inverno estão condenados a vestir de Inverno também durante o Verão). Os meus dedos ainda não se tinham endireitado desde manhã e estavam esfolados. Que comunicação científica podia eu fazer? E então lembrei-me que há pouco no campo tivera durante duas noites um livro trazido da liberdade — um relatório oficial do ministério da defesa dos EUA sobre a primeira bomba atómica. O livro tinha saído naquela primavera. Ninguém na cela o tinha visto ainda? Pergunta ociosa, claro que não. O destino troçava assim de mim, obrigando-me a embrenhar-me naquela mesma física atómica em que me tinha inscrito no Gulag.
Depois da ração, reuniram-se ao pé da janela umas dez pessoas da sociedade científico-técnica, eu fiz a minha comunicação e fui admitido na sociedade. Tinha-me esquecido de algumas coisas, outras não conseguira compreendê-las — Nikolai Vladímirovtich, embora já estivesse há um ano na prisão e não pudesse saber nada acerca da bomba atómica, completava a todo o instante as lacunas da minha exposição.
Ele tinha de facto trabalhado com um dos primeiros ciclotrões europeus, mas para a radiação da mosca drosófila. Era um dos maiores geneticistas da atualidade. Já estava na prisão quando Jebrak, sem saber (ou talvez sabendo), teve a audácia de escrever para uma revista canadiana: «A biologia russa não responde por Lissenko, a biologia russa é Timoféiev-Ressovski» (durante a destruição da biologia em 1948 recordaram isto a Jebrak).
E ele estava ali à nossa frente a brilhar de conhecimentos em todas as ciências possíveis. Possuía aquela amplitude que os cientistas da geração seguinte nem sequer querem ter (ou as possibilidades de apreensão mudaram?) Apesar de estar tão extenuado pela fome, devido à instrução do processo, que estes exercícios se lhe tornavam difíceis. Pela linha materna, descendia de nobres empobrecidos das margens do rio Ressa, e pelo lado do pai era descendente, em linha colateral, de Stepan Rázin, e sentia-se muito nele esse vigor cossaco — na larga ossatura, no carácter, na firme defesa contra o comissário instrutor, e na fome, que o atormentava mais do que a nós.
Mantiveram-me durante dois meses nessa cela, onde dormi por um ano atrasado e por um ano adiantado. De manhã, a sociedade científico-técnica, depois xadrez, livros (para estes, itinerantes, três ou quatro para oitenta pessoas, havia uma fila de espera), vinte minutos de passeio — acorde maior! Nunca recusamos o passeio, mesmo que tenhamos de caminhar sob uma chuva torrencial. E principalmente — pessoas, pessoas, pessoas! Nikolai Andréievitch Semiónov, um dos criadores da Dnieproguess. O seu amigo de cativeiro Fiódor Fiódorovitch Karpov. O sarcástico e inventivo Viktor Kagan, físico. O estudante do conservatório Volódia Klempner, compositor. Um lenhador e caçador das florestas de Viatka, profundo como um lago da floresta. Evguéni Ivánovitch Divnitch, membro da NTS[29], vindo da Europa. Era também pregador ortodoxo, mas estava fora da teologia; invetivava o marxismo, afirmando que na Europa já há muito que ninguém levava essa doutrina a sério.
E outra vez prisioneiros e mais prisioneiros de guerra — a torrente vinda da Europa não para há dois anos. E outra vez emigrantes russos — da Europa e da Manchúria.
E, claro, há na cela um bem-pensante (do género do procurador Kretov): «Foi bem feito prenderem-nos a todos, seus canalhas, contrarrevolucionários! A história reduzirá os vossos ossos a pó, para adubo!» — «E tu, cão, também vais para adubo!» — gritaram-lhe. «Não, o meu processo vai ser revisto, eu fui condenado sem culpa! A cela uiva, agita-se. Um professor de língua russa de cabelos brancos levanta-se na tarimba, descalço, e estende os braços como um Cristo reaparecido: «Meus filhos, reconciliem-se!… Meus filhos!» Berram-lhe: «Os teus filhos estão na floresta de Briansk! Nós não somos filhos de ninguém!» Só filhos do Gulag…
Depois do jantar e da última ida à latrina, chegou a noite às palas das janelas, acenderam-se as extenuantes lâmpadas interiores do teto. O dia divide os presos, a noite aproxima-os. À noite não havia discussões, organizavam-se aulas ou concertos. E também aqui Timoféiev-Ressovski brilhava: dedicava serões inteiros à Itália, à Dinamarca, à Noruega, à Suécia. Os emigrantes falavam dos Balcãs, da França. Alguém fez uma conferência sobre Corbusier, outro sobre os hábitos das abelhas, outro sobre Gógol.
Desaparecia a tábua do guiché e o guarda berrava-nos: «Recolher!» Não, nem antes da guerra, quando estudava em duas faculdades ao mesmo tempo, e ainda ganhava dinheiro como explicador e me esforçava por escrever — parece-me que mesmo então não vivi dias tão cheios, tão lancinantes, tão carregados como naquele Verão, na cela 75…
* * *
Dizia-se que de 1944 para 1945 passou pela Pequena (regional) Lubianka o «partido democrático». Ele era composto, segundo se dizia, por meia centena de rapazes, tinhaestatuto, cartão de membro. O mais velho era aluno da 10.a classe de uma escola de Moscovo, era o «secretário-geral». — Também apareciam estudantes nas prisões de Moscovo no último ano da guerra, eu encontrei-os aqui e ali. Acho que eu não era velho, mas eles eram mais novos…
Como isto aconteceu sem que nos apercebêssemos! Enquanto nós — eu, o meu colega de processo, os rapazes da minha idade — combatíamos na frente durante quatro anos — aqui crescia mais uma geração! Havia assim tanto tempo que nós pisávamos o parquete dos corredores da universidade, considerando-nos os mais jovens e mais inteligentes do país e do mundo?! — e de repente chegam até nós, sobre as lajes das celas da prisão, uns jovens pálidos e arrogantes, e nós ficamos a saber, estupefactos, que os mais jovens e mais inteligentes já não somos nós, mas eles! Mas eu não fiquei ofendido com isso, já então me encolhia alegremente para lhes dar espaço. Conhecia a paixão deles por discutir com todos, por saber tudo. Compreendia o seu orgulho por terem escolhido o melhor destino e não se arrependerem. A auréola tremulante da prisão em torno dessas caritas enfatuadas e inteligentes causava arrepios.
Em junho de 1945, numa cela das Butirki — eu acabava de pôr os pés na passagem, ainda nem tinha visto um lugar para mim — quando avançou ao meu encontro, com predisposição para uma conversa-discussão, implorando-a mesmo, um jovem pálido e amarelento, com um doce rosto judaico, enrolado, apesar do Verão, num capote militar com buracos de bala: tinha calafrios. Chamava-se Bóris Gammerov. Começou a fazer-me perguntas, a conversa iniciou-se em parte sobre as nossas biografias, em parte sobre política. Eu, não sei porquê, lembrei-me de uma oração do então falecido presidente Roosevelt, publicada nos nossos jornais, e avaliei-a como coisa clara por si mesma:
— Bem, isso é hipocrisia, claro.
E de repente as sobrancelhas amareladas do jovem estremeceram, os lábios pálidos franziram-se, ele pareceu erguer-se e perguntou:
— Porquê? Porque é que não admite que um estadista possa acreditar sinceramente em Deus?
Estava tudo dito! O que importava não era Roosevelt, mas de onde vinha o ataque! Ouvir estas palavras de alguém que nasceu em 1923?… Não consegui objetar-lhe e apenas lhe perguntei:
— E você crê em Deus?
— Naturalmente — respondeu ele calmamente.
Naturalmente? Naturalmente… Sim, a juventude komsomolizada começa a desintegrar-se, por toda a parte. E o NKGB foi dos primeiros a aperceber-se disso.
Apesar da sua pouca idade, Bórias Gammerov já tinha não só combatido como sargento antitanque no «Adeus, Pátria!» de 1945, como sofreu um ferimento nos pulmões que ainda não sarou e desencadeou um processo tuberculoso. Gammerov foi desmobilizado do exército por invalidez, entrou para a faculdade de biologia da Universidade de Moscovo, e assim se entrelaçaram nele dois fios: um da vida de soldado, outro da vida de estudante, não tola nem completamente morta, do final da guerra. Reuniu-se o seu círculo de reflexão e discussão sobre o futuro (embora ninguém os tivesse incumbido disso) e eis que o olho experimentado dos Órgãos distinguiu três deles e lhes deitou a mão. O pai de Gammerov tinha sido espancado na prisão ou fuzilado em 1937, e o filho tomava pelo mesmo caminho.
Em alguns meses o meu caminho cruzou-se com todos os três em separado. E enquanto esperava a transferência para a Krássnaia Préssnia, tive de enfrentar o ponto de vista que os unia. Não me lembro de que tenham atacado Marx na minha presença, mas lembro-me de como atacaram Lev Tolstoi — e de que lado! Tolstoi rejeitava a Igreja? Mas ele não tinha em conta o papel místico e organizador dela! Ele rejeitava os ensinamentos da Bíblia? Mas para a ciência mais moderna não há na Bíblia contradições, nem mesmo nas primeiras linhas sobre a criação do mundo. Ele rejeitava o Estado? Mas sem Estado será o caos! Ele pregava a fusão do trabalho intelectual e do trabalho físico num mesmo homem? Mas isso é um insensato nivelamento das capacidades! E finalmente, como vemos pela arbitrariedade estalinista, a personalidade histórica pode ser omnipotente, e Tolstoi zombava disso!
Não será aqui, nas celas da prisão, que se encontra a grande verdade? A cela é estreita, mas a liberdade não será mais estreita ainda? Não será o nosso povo, martirizado e enganado, que está aqui deitado ao nosso lado, debaixo das tarimbas e na passagem?
Na igreja de Butirki, já condenados, já cortados e eliminados, os estudantes moscovitas compuseram uma canção e cantaram-na antes do anoitecer com as suas vozes débeis:
… Três vezes por dia à sopa aguada,
Com canções a noite encurtamos
E com uma agulha contrabandeada
A nossa trouxa remendamos.
De nós agora não cuidamos:
Assinámos — para abreviar!
E quando? Quando é que aqui voltamos?…
Dos campos da Sibéria vamos voltar?…
Meu Deus, será possível que assim tenhamos perdido tudo? Enquanto patinhávamos na lama das testas de ponte, nos enrolávamos nos buracos dos obuses, apontávamos os binóculos por entre os arbustos — crescia aqui e avançava outra juventude?… Não irá ela para onde nós não podíamos sequer atrever-nos?
Só nos podem compreender aqueles que alguma vez comeram conosco na mesma gamela.
Da carta de uma ex-presidiária gutsul ucraniana[30]
Aquilo que devia ter lugar nesta parte, é inabarcável. Para penetrar nesse sentido selvagem e abarcá-lo, é preciso ter arrastado muitas vidas nos campos — naqueles mesmos campos em que seria impossível, sem privilégio, chegar ao fim de um período de pena, porque os campos foram pensados para o extermínio.
A consequência disso é que todos aqueles que colheram mais profundamente, que experimentaram mais plenamente estão já na sepultura e não contarão. O essencial sobre esses campos já ninguém o contará, nunca mais.
E abarcar todo o volume desta história e desta verdade ultrapassa as forças de uma única pena. Eu consegui ver o Arquipélago apenas através de uma fresta, e não a via do alto de uma torre. Felizmente emergiram e emergirão mais alguns livros. Pode ser que nos Contos de Kolimá, de Chalamov, o leitor sinta mais fielmente a desumanidade do espírito do Arquipélago e o limite do desespero humano.
Mas o sabor do mar pode conhecer-se com um único gole de água.
Eos, de dedos róseos, tantas vezes recordada por Homero, e a quem os romanos chamaram Aurora, acariciou a primeira madrugada do Arquipélago.
Quando os nossos compatriotas ouviram dizer pela BBC que os campos de concentração já existiriam no nosso país em 1921, muitos de nós (e também no Ocidente) ficaram pasmados: tão cedo? Em 1921? Será possível?
É claro que não! Em 1921 eles funcionavam já em pleno (até já estavam em vias de acabar). Será mais exato dizer que o Arquipélago nasceu ao som dos disparos do «Aurora».*
Mas como podia ser de outro modo? Ora vejamos.
Era completamente impossível evitar a prisão, velha ou nova. Logo a seguir à Revolução em Outubro, Lenine sondava novos caminhos. Em dezembro de 1917, apresenta este conjunto de medidas punitivas: «confiscação de todos os bens… prisão, envio para a frente da guerra e trabalhos forçados para todos os infratores da presente lei»[31]. Podemos pois notar que a ideia diretriz do Arquipélago — os trabalhos forçados, foi apresentada logo no primeiro mês a seguir à revolução. Mas a legislação foi promulgada em 1918, na «Instrução provisória sobre a privação da liberdade»: « Os privados da liberdade e aptos para o trabalho são recrutados para o trabalho físico.»
Pode-se dizer que desta Instrução de 23 de julho de 1918 (nove meses depois da Revolução de Outubro) se criaram os campos e nasceu o Arquipélago. (Quem iria dizer que o parto era prematuro?)
Em agosto de 1918, alguns dias antes do atentado de Fanny Kaplan contra ele, Vladímir Ilitch, num telegrama ao Comité executivo provincial de Penza, escreveu: «os suspeitos (não os «culpados», mas suspeitos. — A. S.), encerrá-los em campos de concentração fora da cidade». Além disso: «… aplicar um implacável terror de massas…» (isto não era ainda o decreto sobre o terror)[32]
E em 5 de setembro de 1918, dez dias depois daquele telegrama, foi publicado o Decreto do SNK* sobre o Terror Vermelho, em que se dizia, entre outras coisas: «salvaguardar a República Soviética contra os inimigos de classe através do seu isolamento em campos de concentração»[33]
Foi portanto aqui — numa carta de Lenine, e depois no decreto do Sovnarkom* — que se achou e imediatamente se adotou e confirmou este termo — «campo de concentração» —, um dos mais importantes termos do século XX, que teria um amplo futuro internacional! E eis quando — em agosto de 1918. O próprio termo já tinha sido usado na Primeira Guerra Mundial, mas em relação aos prisioneiros de guerra, aos estrangeiros indesejáveis. Aqui, ele foi usado pela primeira vez em relação aos cidadãos do próprio país. A transferência de sentido era compreensível: o campo de concentração para os prisioneiros de guerra não é uma prisão, mas um necessário lugar de reagrupamento temporário. Também para os concidadãos suspeitos se propunha agora uma concentração preventiva extrajudiciária. Os campos de concentração eram organizados, sob a responsabilidade direta da Tcheka, para os elementos especialmente perigosos e para os reféns. Pela fuga do campo de concentração, o tempo de condenação era aumentado (também sem julgamento) dez vezes! (Isto, na época, soava: «dez para um!», «cem para um!» Pela segunda fuga do campo de concentração estava previsto o fuzilamento (que era, claro, regularmente aplicado).
O poder preferia então organizar campos de concentração nos antigos mosteiros: paredes sólidas bem fechadas, edifícios de boa qualidade e vazios (porque os monges não são homens, de qualquer maneira vão ser expulsos). Deste modo, em Moscovo, houve campos de concentração no mosteiro de Andrónico, no novo mosteiro do Salvador e no de Ivanovo (S. João). No Jornal Vermelho de Petrogrado, de 6 de outubro de 1918, lemos que o primeiro campo de concentração «será organizado em Nijni Nóvgorod, num convento feminino desocupado… Nos primeiros tempos, prevê-se enviar para Nijni Nóvgorod cinco mil pessoas» (o itálico é meu. — A. S.). Em Riazan também organizaram o campo de concentração num antigo convento feminino (o de Kazan).
Aliás, Vladímir Ilitch não podia deixar de pensar no futuro sistema punitivo, quando ainda repousava tranquilamente em Razliv com o seu amigo Zinóviev, entre os odores balsâmicos do corte do feno e o zumbido dos zângãos. Já então ele calculava e nos tranquilizava, afirmando que «o esmagamento de uma minoria de exploradores pela maioria dos antigos escravos assalariados é uma tarefa comparativamente mais leve, mais fácil e mais natural, que custará muito menos sangue… sairá muito mais barata à humanidade», do que o anterior esmagamento da maioria pela minoria.[34]
(E quanto nos custou esse «relativamente fácil» esmagamento interno desde o início da Revolução de Outubro? Já surgiram um certo número de estudos com utilização das estatísticas soviéticas dissimuladas e torcidas — mas de onde escorrem mesmo assim trevas ruinosas.)[35] Toda esta aurora dos campos merece que se observe com mais pormenor as suas cambiantes.
No mar Branco, onde as noites são brancas durante seis meses, a grande ilha de Solovki ergue das águas as suas igrejas brancas, no interior das muralhas de pedra do kremlin, a que os líquenes dão um tom avermelhado de ferrugem — e as gaivotas cinzentas e brancas de Solovki voam constantemente, gritando, por cima do kremlin.
«Nesta luminosidade é como se não existisse pecado… Esta natureza parece não se ter ainda desenvolvido o bastante para conhecer o pecado» — assim sentiu Príchvin[36] as ilhas Solovki.
Estas ilhas surgiram quando nós ainda não existíamos, antes que existíssemos cobriram-se de duzentos lagos cheios de peixes e povoaram-se de tetrazes, de lebres, de renas, mas raposas, lobos e outros animais carnívoros nunca aqui existiram.
Surgiam e desapareciam os glaciares, os penedos de granito aglomeravam-se à volta dos lagos; os lagos gelavam na noite invernosa das Solovki, o vento fazia rugir o mar que se cobria de uma massa de gelo friável, aqui e ali ficava inteiramente preso; as auroras boreais incendiavam metade do céu; e de novo voltava a luz, e de novo aquecia, cresciam e engrossavam os abetos, as aves cacarejavam e gritavam, as jovens renas berravam — girava o planeta com toda a história mundial, os reinos caíam e surgiam — mas aqui não havia animais carnívoros nem homens.
Por vezes desembarcavam aqui homens de Nóvgorod, que inscreveram as ilhas na província de Onega. Também aqui vieram carelianos. Cinquenta anos depois da batalha da Kulikovo e quinhentos anos antes do GPU, os monges Savvati e Zóssima atravessaram o mar de madrepérola numa pequena barca e consideraram santa esta ilha sem animais carnívoros. Foram eles que estiveram na origem do mosteiro das Solovki. Desde então ergueram-se aqui as catedrais da Assunção e da Transfiguração, a igreja da Ascensão do Senhor ao monte do Machado, e mais duas dezenas de igrejas, e mais duas dezenas de oradas, a ermida do Gólgota, a ermida da Trindade, a ermida de Savvati, a ermida de Muksalma, e mais alguns retiros isolados de eremitas e anacoretas em lugares distantes. Aqui se empregou o trabalho de muita gente, primeiro dos próprios monges, depois também dos camponeses das terras do mosteiro. Ligaram-se os lagos por dezenas de canais. Tubos de madeira levavam a água para o mosteiro. E o mais surpreendente, foi erguido um dique (no século XIX) até Muksalma, feito de blocos assentes nos baixios. Na Grande e na Pequena Muksalma começaram a pastar grandes rebanhos, os monges gostavam de se ocupar dos animais, domésticos e selvagens. A terra das Solovki revelou-se não apenas santa, mas também rica, capaz de alimentar muitos milhares de pessoas[37]. As hortas produziam uma couve densa, branca e doce (ao talo chamavam «maçã das Solovki»). Todos os legumes eram produzidos ali, de todas as espécies, e também estufas de flores, incluindo rosas. Até chegaram a produzir melões e melancias. Desenvolveram-se as pescas — a pesca marítima e a criação de peixe nos «viveiros do metropolita». Com os séculos e os decénios surgiriam os seus moinhos para moer os cereais, as suas próprias serrações, as suas loiças e os seus mestres oleiros, a sua fundição, a sua forja, a sua oficina de encadernação, a fábrica de curtumes, a abegoaria e até a central elétrica. E os tijolos de formas complexas, e até a construção naval — faziam tudo sozinhos.
Contudo, nenhum desenvolvimento popular aconteceu nunca, não acontece — e acontecerá alguma vez? — sem ser acompanhado do pensamento militar e prisional.
Pensamento militar. Não se pode deixar uns quaisquer monges desmiolados viver simplesmente numa simples ilha. A ilha fica na fronteira do Grande Império, e portanto é necessário defendê-la dos suecos, dos dinamarqueses, dos ingleses, e por conseguinte, há que construir uma fortaleza com paredes de oito metros de grossura, e elevar oito torres, e seteiras estreitas, e da torre sineira da catedral assegurar uma observação panorâmica. (O mosteiro teve se defender dos ingleses em 1808 e em 1854, e resistiu.)
Pensamento prisional. Que coisa maravilhosa — uma ilha isolada e com boas muralhas de pedra. Há para onde enviar os grandes criminosos, e há quem encarregar da guarda. Não os impedimos de salvarem a alma, mas vigiem os nossos reclusos. (Quantas fés religiosas terá quebrado na humanidade esta acumulação penitenciária de alguns mosteiros cristãos!)
E terá o próprio Savvati pensado nisto ao instalar-se na ilha santa?…
* * *
Que o leitor imagine um homem da Rússia tchekhoviana e pós-tchekhoviana, um homem da Idade de Prata da nossa cultura, como chamaram aos anos da década de 1910, educado nessa Rússia, mas abalado pela Guerra Civil — mas em todo o caso habituado a uma certa comida, a um certo vestuário, a uma certa forma de tratamento mútuo — e ei-lo a passar os portões das Solovki — no ponto de trânsito para Kem. É a ilha do Pope, triste, sem uma árvore, um arbusto, ligada ao continente por um dique. A primeira coisa que vê ao entrar naquele cercado nu e lamacento é a companhia de quarentena (nesse tempo os presos eram formados em «companhias», ainda não tinha sido descoberta a «brigada»), vestida… com sacos! — sacos vulgares: as pernas saem como de saias, e para a cabeça e os braços fazem-se buracos (coisa inimaginável, mas onde não chega o desenrascanço russo!). O novato evitará esse saco enquanto tiver roupas suas, mas ainda antes de ter examinado os sacos devidamente, verá o lendário capitão Kurilko.
Kurilko vai ao encontro da coluna de transferidos também com um longo capote de tchekista com as medonhas mangas pretas, que têm um ar sinistro sobre o velho tecido do soldado russo — como a antevisão da morte. Salta para cima de uma dorna ou de qualquer outro estrado e dirige-se aos recém-chegados com um furor inesperado e penetrante: «Eh! Atenção! Esta república aqui não é sovié-é-tica, mas solovié-é-tica! Habituem-se! Nunca um procurador pôs o pé na terra soloviética! E não porá! A ordem aqui é a seguinte: se eu digo «levantar» — levantas-te, se digo «deitar» — deitas-te! As cartas para casa escrevem-se assim: vivo, de saúde, satisfeito com tudo! Ponto final!…»
Mudos de espanto, escutam-no nobres eminentes, intelectuais das capitais, sacerdotes, mullahs, rostos morenos da Ásia Central — coisas nunca vistas, nem ouvidas, nem lidas. E Kurilko, que não andou na Guerra Civil, mas que agora, nesta receção histórica inscreve o seu nome nos anais de toda a Rússia, excita-se e excita-se ainda mais e, admirando-se a si mesmo, inicia a instrução:
— Bom dia, primeira companhia de quarentena!… — (Devem gritar secamente: «Dia!») — Mau, outra vez! Bom dia, primeira companhia de quarentena!… Mau!… Devem gritar «dia!» — de maneira que se oiça nas Solovki, do outro lado do estreito! Duzentos homens a gritar — devem cair paredes! Outra vez! Bom dia, primeira companhia de quarentena!…
Prosseguindo até que todos gritassem e já caíssem de esgotamento, Kurilko começa o exercício seguinte — corrida da quarentena em volta de um poste:
— Pés mais altos!…Pés mais altos!…
Isto para ele próprio é difícil, ele próprio já está como um ator trágico antes do último homicídio. E àqueles que caem e que já caíram, estendidos no chão, no último estertor do exercício de meia hora, numa confissão da essência das Solovki, promete:
— Hei-de fazer-vos sorver o ranho dos mortos!
E isto é apenas o primeiro treino, para quebrar a vontade dos recém-chegados.
Mas nós não nos esquecemos de que o nosso novato foi educado na Idade da Prata. Ele ainda não sabe nada nem da Segunda Guerra Mundial, nem de Buchenwald. Vê os chefes de companhia a pôr fora os seus trabalhadores com longos bastões (e até existe já o verbo cacetar). Vê o trenó e a telega puxadas não por cavalos, mas por homens (vários por cada veículo) — e há também a palavra vridlo (cavalo temporário).
Por outros residentes das Solovki fica a saber de coisas mais horríveis do que aquilo que os seus olhos veem. Proferem à sua frente a sinistra palavra Machado. Que significa monte do Machado. Na catedral de dois pisos estão instalados os calabouços. O preso é mantido no calabouço do seguinte modo: há umas varas da grossura de um braço que vão de parede a parede, e obrigam o preso castigado a ficar sentado todo o dia numa dessas varas. Estas estão a uma altura que não permite chegar com os pés ao chão. Não é fácil manter o equilíbrio, o preso passa o dia a esforçar-se por não cair. Se cair, os guardas correm para ele e espancam-no. Ou então levam-no para o exterior, para a escada de 365 degraus íngremes (desde a catedral até ao lago, construídos pelos monges); amarram o homem a um madeiro para fazer peso, no sentido do comprimento, e empurram-no (os degraus são tão íngremes que o madeiro com o homem não para, nem mesmo nos dois pequenos patamares).
Mas não é necessário ir ao monte Machado buscar as varas, elas existem também no calabouço do kremlin, sempre cheio. Ou então colocam-no sobre um penedo irregular, onde também é difícil manter-se. E no Verão, «no cepo», o que significa nu, exposto aos mosquitos. Ou então, companhias inteiras deitadas na neve por motivo de uma qualquer falta. Ou enfiam o homem até ao pescoço no pântano da margem do lago e ali o deixam ficar. Outro meio: atrelam um cavalo a uns varais vazios, amarram os pés do culpado aos varais, um guarda monta no cavalo e fá-lo correr por um corte da floresta até que atrás se calem os gemidos e os gritos.
«Arreda! Arreda!» — gritam em pleno dia no pátio do kremlin, que fervilha de gente como a avenida Nevski, três jovens bonifrates, com caras de drogados (o primeiro afasta a multidão dos detidos não com uma vara, mas com um bastão), arrastam a toda a pressa, segurando-o por baixo dos braços, um homem desmaiado, de pernas e braços moles, apenas em roupa interior — é horrível ver o rosto dele que escorre como um líquido! — arrastam-no para o campanário, além debaixo do arco, aquela porta baixa, que dá para a base do campanário. Enfiam-no por essa pequena porta e disparam-lhe na nuca — do lado de lá uns degraus inclinados e ele cai; ali pode-se abater até sete ou oito pessoas, e depois mandam algumas pessoas retirar os cadáveres e um grupo de mulheres (mães e esposas de homens que partiram para Constantinopla; crentes que não renunciaram à sua fé e recusaram deixar separar dela os seus filhos) para lavar os degraus.
Pois quê, não se podia fazer isto de noite, sem barulho? Mas porquê sem barulho? — nesse caso seria uma bala perdida. De dia, entre a multidão, a bala tem valor educativo. Ela como que derruba dez de uma vez.
Também fuzilavam de outra maneira — diretamente no cemitério Santo Onofre, atrás da barraca das mulheres (antiga casa de acolhimento para os peregrinos) — e ao caminho que passava ao lado da barraca das mulheres chamavam estrada dos fuzilados. Ali era possível ver como no Inverno conduziam um homem descalço, em roupa interior (não para o torturar, mas para que não se perdessem em vão o calçado e o fardamento), com as mãos amarradas atrás das costas com arames — e o condenado mantém-se orgulhosamente direito, e fuma só com os lábios, sem ajuda das mãos, o último cigarro da sua vida. (Por esta atitude se reconhece o oficial. Porque aqui estão homens que passaram sete anos nas frentes da guerra.)
Um mundo fantástico! Por vezes acontecem estas combinações. Muitas coisas na história se repetem, mas há combinações absolutamente irrepetíveis, curtas no tempo e no espaço. Assim foi a nossa NEP. Assim foram as Solovki no início.
Além do clero, ninguém era autorizado a ir à última igreja do mosteiro — Ossorguin, aproveitando o facto de trabalhar na secção sanitária, foi às escondidas às matinas da Páscoa. E foi levar ao bispo Piotr de Voronej, atacado de tifo e isolado na ilha de Anzer, o seu manto e a Sagrada Eucaristia. Denunciado, foi encerrado no calabouço e condenado ao fuzilamento. Mas eis que nesse mesmo dia desembarcou no cais das Solovki a sua jovem esposa (ele próprio ainda não tinha quarenta anos)! E Ossorguin pede aos carcereiros que não perturbem a visita da mulher. Promete que não a deixará demorar-se mais de três dias, e assim que ela partir — que o fuzilem. E eis o significado deste autodomínio que, devido ao anátema contra a aristocracia, nós esquecemos, nós que nos lamuriamos à mais pequena adversidade e à mais pequena dor: três dias ininterruptos com a mulher, e não deixa que ela perceba! Nem faz qualquer alusão com a mais pequena frase! Não baixar o tom! Não deixar os seus olhos velarem-se! Só uma vez (a mulher ainda é viva e recorda), quando passeavam à beira do lago Sagrado, ela se virou e viu que o marido agarrava a cabeça, atormentado. — «O que tens?» — «Nada» — esclareceu logo. Ela podia ter ficado mais tempo — ele pediu-lhe que partisse. Sinal dos tempos: convenceu-a a levar as roupas quentes, que ele receberia outras no departamento sanitário para o próximo Inverno — dava assim à família aqueles bens preciosos. Quando o vapor se afastou do cais, Ossorguin baixou a cabeça. Dez minutos depois já se despia para o fuzilamento.
Mas alguém o presenteou com aqueles três dias. Esses três dias de Ossorguin, e também outros casos mostram em que medida o regime das Solovki ainda não estava armado com a couraça do sistema. Dá a impressão de que o ar das Solovki combinava já em si, de um modo estranho, uma extrema crueldade com uma incompreensão ainda quase bonacheirona: aonde leva tudo isto? Quais os traços das Solovki que se tornam embriões do grande Arquipélago, e quais os que estão destinados a secar no primeiro rebento? De qualquer modo os solovkianos não tinham ainda essa geral e firme convicção de que os fornos acesos de Auschwitz e as suas fornalhas estavam abertas para todos os que ali chegavam. (Mas era assim!…)
* * *
Mas onde estão (que é feito de) esses Savvati, Zóssima e Guerman? E quem inventou uma coisa destas — viver junto ao Círculo Polar, onde não há gado, não se pesca peixe, os cereais e os legumes não crescem?
Oh, mestres na arte de devastar a terra florescente! Conseguir tão depressa — num ano, ou em dois — conduzir a economia modelar do mosteiro ao declínio total e irreversível! Como se conseguiu isso? Roubaram e levaram? Ou destruíram no local? E, com milhares de braços desocupados, não conseguir fazer a terra produzir alguma coisa.
Só para os livres — leite, natas e carne fresca, e as extraordinárias couves do padre Metódio. Mas para os presidiários, o bacalhau podre, salgado ou seco; a péssima sopa de cevada ou sementes de painço, sem batatas, nunca uma sopa de couves nem de beterraba. E daí o escorbuto… Das missões distantes regressam os «transferidos de quatro patas» (assim se deslocam desde o cais, de gatas).
Mas como fugir das Solovki? Durante seis meses o mar está debaixo do gelo — mas nem todo, há espaços de água, e desencadeiam-se tempestades de neve, os gelos mordem, há nevoeiro e escuridão. Mas na Primavera e na maior parte do Verão, são as noites brancas, as lanchas de patrulha avistam ao longe. Só com o aumento das noites, no fim do Verão e no Outono, começa um tempo favorável. Não no kremlin, é claro, mas nos trabalhos no exterior, quem tinha a possibilidade de se deslocar, e tempo, algures na floresta, perto da margem, construía um barquinho ou uma jangada e partia de noite (ou mesmo em cima de um tronco) — à aventura, principalmente na esperança de encontrar algum vapor estrangeiro. Pela agitação dos guardas, pela saída das lanchas ficava-se a saber da fuga — e uma alegre inquietação apoderava-se dos solovkianos, como se eles próprios estivessem em fuga. Perguntavam num murmúrio: ainda não o apanharam? Ainda não o encontraram?… Certamente, muitos afogavam-se sem conseguir chegar a lugar nenhum. É possível que alguns tenham chegado à costa da Carélia — e escondiam-se, mais calados que os mortos.
Uma fuga célebre para a Inglaterra aconteceu a partir de Kem. Esse valente (não sabemos o nome dele, é este o nosso horizonte!) conhecia a língua inglesa e escondia esse facto. Conseguiu participar num carregamento de madeira em Kem — e explicou-se com os ingleses. A escolta deu pela falta, retiveram o navio quase uma semana, revistaram-no várias vezes e não acharam o foragido. (Em cada revista vinda da margem, desciam-no do outro lado pela corrente da âncora com um tubo respiratório entre os dentes.) Como pela retenção do navio se pagava uma avultada multa, decidiram ao acaso que o preso se tinha afogado e deixaram partir o navio.
Também pelo mar fugiu o grupo de Bessónov, de cinco homens (Malságov, Malbrodski, Sazónov, Priblúdin).
Começaram a aparecer livros em Inglaterra, e até, segundo parece, com várias edições. I. D. Bessónov. As minhas 26 prisões e a minha fuga das Solovki.
Este livro assombrou a Europa. É claro, o autor-foragido foi acusado de exagero, e os amigos da Nova Sociedade não podiam simplesmente acreditar neste livro caluniador, porque ele contradizia aquilo que já se conhecia: como o jornal comunista alemão Die Rote Fahne e os álbuns sobre as Solovki, difundidos pelos representantes soviéticos na Europa: em excelente papel, fotografias incontestáveis das confortáveis celas.
Calúnia, está claro, mas abriu-se uma brecha lamentável! E achou-se por bem enviar — não, pedir que lá fosse! — o grande escritor proletário Maksim Gorki, que precisamente regressara há pouco do estrangeiro. O testemunho dele seria a melhor refutação da ignóbil falsificação estrangeira!
Chegou às Solovki um rumor sobre esse acontecimento — os corações dos presos palpitaram, os carcereiros agitaram-se, numa roda-viva. É preciso conhecer os presidiários para imaginar a sua expectativa! No covil da arbitrariedade, da iniquidade e do silêncio vai surgir o falcão, o albatroz! O primeiro dos escritores russos! Ele é que vai escrever. Ele é que vai mostrar! Vai-nos defender, como um pai! Esperavam Gorki quase como uma amnistia geral.
Também a chefia se agitava: foi escondendo como podia a monstruosidade e dando lustro à fachada. Do kremlin enviavam grupos para trabalhos distantes, para que ali permanecessem o menos possível; da secção sanitária deram alta a muitos doentes e fizeram uma limpeza. Plantaram uma «alameda» de abetos sem raízes (deviam aguentar vários dias sem secar) — para a colónia infantil, aberta três meses antes, orgulho do USLON[38], onde todos estão vestidos e não há crianças socialmente alheias, e onde, claro, será interessante para Gorki ver como as crianças são educadas e salvas para a vida futura no socialismo.
Só se descuidaram em Kem: na Ilha do Pope os reclusos estavam a carregar o navio «Gleb Boki», em roupa interior e enfiados em sacos — e de repente apareceu a comitiva de Gorki para embarcar naquele vapor. Inventores e pensadores! Aqui têm uma tarefa digna: uma ilha nua, sem um arbusto, sem um esconderijo — e a trezentos passos surge a comitiva de Gorki — qual a solução?! Que fazer daquela vergonha, daqueles homens enfiados em sacos? Toda a viagem do Humanista perde o sentido, se ele os vê agora. Bem, é claro, ele tentará não dar por eles — mas ajudem-nos! Afogá-los no mar? — vão debater-se… Enterrá-los? — não há tempo… Não, só um digno filho do Arquipélago pode achar uma saída! O capataz comanda: «Larguem o trabalho! Juntem-se! Mais! Sentem-se no chão! Fiquem sentados!» — e lançaram-lhes uma lona por cima, — «Aquele que se mexer, mato-o!» E o antigo estivador subiu pela prancha, e ainda no vapor olhou a paisagem, faltava ainda uma hora da partida — não notou nada…
Isto foi em 20 de junho de 1929. O célebre escritor desembarcou para o cais na Baía da Prosperidade. Ao lado dele ia a sua nora, toda vestida de cabedal (boné negro de cabedal, blusão de cabedal, calças de montar e botas altas) —, símbolo vivo do OGPU, ombro a ombro com a literatura russa.
Rodeado pelos quadros de comando do GPU, Gorki percorreu em grandes passos rápidos os corredores de algumas habitações. Todas as portas dos quartos estavam abertas, mas ele quase não entrou em nenhum deles. No serviço de saúde formaram os médicos e as enfermeiras em duas filas com batas novas, ele nem ficou a olhar, saiu. Mais adiante os tchekistas do USLON conduziram-no sem receio ao Machado. E o que acham? Nos calabouços não havia qualquer sobrelotação, e, principalmente, não havia nenhumas varas! Nos bancos estavam sentados os ladrões (já havia muitos deles nas Solovki) e todos… estavam a ler jornais! Nenhum deles se atreveu a levantar-se e queixar-se, mas tiveram uma ideia: segurar o jornal de pernas para o ar. Gorki aproximou-se de um deles e em silêncio virou o jornal como devia ser. Notou! Adivinhou! Não nos abandona! Vai defender-nos!
Foram à colónia infantil. Que bem instalados! — cada um na sua cama, com colchão. Todos calados, todos contentes. Mas de repente um rapazinho de catorze anos disse: «Escuta, Gorki! Tudo o que tu vês, é mentira. Queres saber a verdade? Queres que te conte?» Sim, aquiesceu o escritor. (Ah, rapazinho, para que é que foste estragar a recente prosperidade do patriarca das letras. Um palacete em Moscovo, uma propriedade nos arredores…) E mandaram sair toda a gente — as crianças e até a escolta de tchekistas — e durante hora e meia o rapaz contou tudo ao velho esgrouviado. Gorki saiu da barraca lavado em lágrimas. Trouxeram-lhe uma caleça para ir almoçar à datcha do chefe do campo. E os rapazes precipitaram-se para a barraca: «Falaste dos mosquitos?» — «Falei!» — «E contaste das varas?» — «Contei!» — «E dos vridles?» — «Disse!» — «E como os atiram pela escada?… E dos sacos?… E das noites na neve?…» O rapazinho, amigo da verdade, disse tudo-tudo-tudo!
Mas nós nem sabemos o nome dele.
Em 22 de junho, já depois da conversa com o rapaz, Gorki deixou esta inscrição no «Livro de ouro» encadernado especialmente para aquela ocasião:
«Não estou em condições de exprimir as minhas impressões em poucas palavras. Não quero e seria vergonha usar clichés para elogiar a espantosa energia dos homens que, sendo guardiães vigilantes e incansáveis da revolução, sabem ao mesmo tempo ser notavelmente corajososcriadores de cultura[39]
Em 23 de Junho, Gorki partiu. Mal o vapor se afastou, o rapazinho foi fuzilado. (Conhecedor do coração humano! Conhecedor dos homens! — como pôde ele não levar o rapaz consigo?!)
Assim se afirma na nova geração a fé na justiça.
Conta-se que lá nas altas esferas, o chefe da literatura se recusava, não queria publicar o elogio do USLON. Mas como é isso, Aleksei Maksímovitch?… Perante a Europa burguesa! Precisamente agora, precisamente neste momento, tão perigoso e complexo!… E o regime prisional? — vamos mudar, vamos mudar o regime.
E foi impresso, e reimpresso na grande imprensa livre, nossa e ocidental, em nome do Falcão-Albatroz, que em vão faziam das Solovki um espantalho, que os presidiários vivem ali e corrigem-se de maneira notável.
E, ao descer para o túmulo, abençoou o Arquipélago…
* * *
Quanto ao regime prisional — foi como prometido. Corrigiram o regime — na 11.a companhia do regime de cárcere, ficavam agora semanas inteiras de pé apertados uns contra os outros. Às Solovki chegou uma comissão de investigação e repressão. A isto veio juntar-se a fuga frustrada de Kojevnikov (antigo ministro da República do Extremo Oriente) que enlouqueceu, na companhia de Chiptchinski — fuga empolada como uma fantástica conspiração dos guardas brancos, que se preparariam para se apoderar do vapor e fugir nele — e começaram a fazer prisões, e embora ninguém confessasse participar em semelhante conspiração, o caso ia aumentando o número das detenções.
E na noite de 28 para 29 de outubro de 1929, depois de todos dispersos e fechados nos locais, o portão Sagrado, habitualmente fechado, foi aberto para o mais curto caminho do cemitério. Conduziram grupos durante toda a noite. (E cada grupo era acompanhado pelos uivos desesperados do cão Black, suspeitando de que o seu dono Grabovski também era levado. Nas companhias contavam-se os grupos pelo uivo do cão, os disparos ouviam-se mal por causa do forte vento. Esse uivo afetava tanto os carrascos, que no dia seguinte o próprio Black foi fuzilado, e todos os cães depois — por causa do Black.)
Os fuziladores eram aqueles três bonifrates morfinómanos. Bêbedos, disparavam sem precisão e de manhã uma grande parte da vala coberta ainda se agitava.
Mas o Arquipélago não se desenvolvia sozinho, por si mesmo, desenvolvia-se a par de todo o país. Enquanto houve desemprego no país, não houve corrida à mão de obra dos presidiários e as detenções não eram como mobilização para o trabalho, mas como limpeza do caminho. Mas quando se decidiu remexer com uma espátula gigantesca os cento e cinquenta milhões de habitantes de então, quando foi abandonado o plano de superindustrialização e em lugar dele desencadearam a super-super-superindustrialização, quando já estavam concebidas a deskulakização e as grandes obras públicas do primeiro plano quinquenal — modificou-se também o ponto de vista sobre o Arquipélago.
Enquanto em 1923 não havia nas Solovki mais de três mil presos, em 1930 eles eram cerca de cinquenta mil, e mais trinta mil em Kem. A partir de 1928 o cancro das Solovki começou a alastrar — primeiro pela Carélia — na construção de estradas, no abate de floresta para exportação. Em todas as paragens da via férrea de Murmansk, desde Lodeinoie Pólie até Taibola, já tinham aparecido em 1929 campos dependentes do SLON. Em 1930 já tinha sido solidamente criado em Lodeinoie Pólie o Svirlag[40], e em Kotlas formava-se o Kotlag. A partir de 1931 nasceu, com o centro em Medvejegorsk, o BelBaltlag[41], que nos dois anos seguintes iria celebrizar o Arquipélago para os séculos dos séculos e nos cinco continentes.
E as células malignas continuavam a espalhar-se. De um lado, eram bloqueadas pelo mar, e do outro pela fronteira finlandesa, mas não havia obstáculos no caminho para o Norte da Rússia. Tendo chegado ao Dvina setentrional, as células formaram o SevDvinlag. Depois de passar o Dvina, em breve produziram os sistemas autónomos Solkamplag e SevUrallag. O campo de Berezniki iniciou a construção de um grande complexo químico, muito celebrado no seu tempo. E à beira do Ukhta formou-se outro campo, o Ukhtlag. Mas também este não ficou parado no lugar, depressa ganhou metástases para nordeste, anexou o Petchora e transformou-se em UkhtPetchlag. E em breve teve subdivisões em Ukhta, Petchora, Inta e Vorkuta — tudo bases de futuros grandes campos autónomos.
E aqui há ainda muitas omissões.
Assim, nos pântanos da tundra e da taiga surgiram centenas de novas ilhas, pequenas e médias. Toda a parte norte do Arquipélago nasceu das Solovki. Mas não apenas delas! Em resposta ao grande apelo do poder soviético, os campos e colónias de trabalho correcional cresciam por todo o nosso vasto país. Cada região estabelecia os seus ITL e ITK. Milhões de quilómetros de arame farpado estendiam-se cruzando-se, entrelaçando-se, fazendo cintilar alegremente as puas ao longo das vias férreas, ao longo das estradas, nos arredores das cidades.
E nós, entretanto, marchávamos ao som dos tambores!…
* * *
Toda a longa história do Arquipélago quase não encontrou durante cinquenta anos qualquer reflexo nos textos publicados na União Soviética. Aqui desempenhou o seu papel o mesmo acaso maléfico que impediu as vigias dos campos de aparecerem em cenas de filmes ou nas paisagens dos pintores.
Mas não é assim para o Bielomorkanal. Temos ao nosso dispor um livro, e pelo menos este capítulo podemos escrevê-lo orientando-nos por um testemunho documental soviético.
A história do livro é a seguinte: em 17 de agosto de 1933, teve lugar um passeio de vapor de cento e vinte escritores pelo canal recentemente acabado de construir. O presidiário D. P. Vitkovski, mestre de obras, testemunhou como durante a passagem do barco pelas eclusas essas pessoas vestidas de branco, agrupadas na coberta, acenavam aos presidiários do território da eclusa, os interrogavam, faziam muitas perguntas e todas feitas por cima de borda, na presença das autoridades, e só durante o enchimento da eclusa. Depois dessa viagem, 84 escritores conseguiram de um ou de outro modo esquivar-se a participar na obra coletiva de Gorki, e os restantes 36 constituíram o coletivo de autores. Com um trabalho intenso no Outono de 1933 e no Inverno que se seguiu criaram essa obra única[42]
O livro foi editado como que para sempre, para que a posteridade lesse e admirasse. Mas por uma fatal confluência de circunstâncias, a maior parte dos dirigentes nele glorificados e fotografados foi, dois ou três anos depois, desmascarada como inimiga do povo. Naturalmente, a edição do livro foi retirada das bibliotecas e destruída. Destruíram-na em 1937 também alguns particulares que a possuíam, não querendo ter de cumprir alguma pena por causa do livro. Muito poucos exemplares se salvaram, e não há esperança de uma reedição[43].Tanto mais sentimos por isso o peso, a responsabilidade de não deixar que se percam para os nossos compatriotas as ideias diretrizes e os factos descritos nesse livro.
Como aconteceu que, para a primeira grande construção do Arquipélago, tenha sido escolhido precisamente o Bielomorkanal? Estaline sentia-se forçado por alguma premente necessidade económica ou militar? Ao chegar ao fim da construção, podemos afirmar à confiança que não. Estaline precisava de ter algures uma grande construção feita com o trabalho dos reclusos, que pudesse absorver muitos braços de trabalho e muitas vidas (o excesso de pessoas deslocadas devido à deskulakização), com a segurança de uma câmara de gás e a menor custo — deixando ao mesmo tempo um grande monumento ao seu reinado, do tipo das pirâmides.
«O canal deve ser construído num curto prazo e ficar barato! — tal era a indicação do camarada Estaline!» (E quem viveu nesse tempo lembra-se do que significa uma Indicação do Camarada Estaline!) Vinte meses! — era o tempo concedido pelo Grande Guia aos seus criminosos para construírem o canal e para se corrigirem: de setembro de 1931 a abril de 1933. Nem sequer podia conceder dois anos completos — tal era a sua pressa. O canal do Panamá, com 80 quilómetros de comprimento foi construído em 28 anos; o de Suez, com 160 quilómetros, em 10 anos; o do mar Branco ao mar Báltico, com 227 quilómetros, em menos de 2 anos — ou não vos parece bem? Remover dois milhões e meio de metros cúbicos de solo rochoso, num total de 21 milhões de metros cúbicos de terraplanagens. E com os montes de blocos erráticos que cobrem aquelas regiões. E os pântanos. As sete eclusas da «Escada de Povenets»[44], doze eclusas na descida para o mar Branco. 15 barragens, 12 escoadouros, 49 diques, 33 canais. Trabalhos de betão — 390 mil metros cúbicos, de alvenaria — 921 mil. E «isto não é o Dnieprostroi, ao qual concederam um prazo maior e divisas. A construção do canal foi atribuída ao OGPU, e nem um cêntimo em divisas!»
Agora torna-se-nos cada vez mais claro o desígnio: este canal é tão necessário a Estaline e ao país, que não lhe concede nem um cêntimo em divisas. Que trabalhem aí ao mesmo tempo cem mil presos — que outro capital é necessário? E em vinte meses, deem-nos o canal — nem um dia de atraso.
Temos tanta pressa, que os comboios carregados de presos não param de chegar ao futuro traçado, onde não há nem barracas, nem abastecimento, nem instrumentos, nem um plano concreto — o que é preciso fazer?
Temos tanta pressa, que os engenheiros que finalmente chegaram ao traçado não têm cartolina, nem réguas, nem punaises (!) nem luz na barraca de trabalho. Trabalham à luz de lamparinas, parece a guerra civil! — escrevem os nossos autores, deleitados.
E surge então a fúria contra os engenheiros sabotadores. Os engenheiros dizem: fazemos obras de betão. Respondem os tchekistas: não há tempo. Os engenheiros dizem: precisamos de muito ferro. Os tchekistas: substituam-no por madeira! Os engenheiros dizem: precisamos de tratores, guindastes, máquinas de construção! Os tchekistas: não haverá nada disso, nem um cêntimo de divisas, façam tudo à mão!
Num tom alegre de zelosos folgazões, contam-nos: chegavam umas mulheres com vestidos de seda, e aqui recebiam carrinhos de mão! E «quem é que não se encontra aqui em Tunguda: antigos estudantes, esperantistas, companheiros de armas nos destacamentos dos brancos!» Quase a sufocar de riso, contam-nos: trazem-nos dos campos de Krassnovodsk, de Estalinabad, de Samarcanda, turcomanos e tajiques, de albornoz e de turbante — mas aqui estamos nos gelos da Carélia! Que surpresa para os basmatchis!
Aqui a norma é: dois metros cúbicos de rocha granítica a quebrar e transportar no carro de mão para uma distância de cem metros! Mas cai a neve, enterra tudo, os carros de mão derrapam nas pranchas para a neve. «Um homem com um carro de mão era como um cavalo entre os varais»; nem sequer de rocha, mas até de solo gelado «leva uma hora a carregar um carro de mão».
Ou um quadro mais geral: «Numa depressão disforme, coberta de neve, cheia de homens e de pedras. Os homens deambulavam, tropeçando nas pedras. Aos dois, aos três, curvavam-se e, envolvendo um bloco com os braços, tentavam soerguê-lo. O bloco nem se movia…» Mas aqui vem a ajuda da técnica do nosso glorioso século: «o bloco é retirado da escavação por meio de uma rede» — e a rede é puxada por um cabo, e o cabo é puxado «por um tambor que um cavalo faz girar»! E outra técnica ainda — gruas de madeira para levantar as pedras. Um dos primeiros mecanismos da construção do canal — um recuo de cinco séculos, de quinze séculos?
E são estes os sabotadores? Mas estes são engenheiros geniais! — atiraram-nos do século XX para as cavernas — e vejam, eles conseguiram!
E como derrubar as árvores, se não há nem serras, nem machados? Também isso o nosso desenrascanço é capaz de resolver: amarram-se cordas às árvores e várias brigadas, revezando-se, puxam as cordas para vários lados — abalam as árvores. A nossa perspicácia consegue tudo. — E porquê? Porque O CANAL SE CONSTRÓI POR INICIATIVA E SEGUNDO AS INSTRUÇÕES DO CAMARADA ESTALINE! — escreve-se nos jornais e repete-se na rádio todos os dias.
Imaginar semelhante campo de batalha e acima dele, nos «longos capotes cor de cinza ou casacos de cabedal» — os tchekistas. São apenas 37 homens para cem mil detidos, mas toda a gente gosta deles e esse amor faz mover os rochedos da Carélia.
A grandeza desta construção está precisamente em que ela é realizada sem a técnica moderna e sem quaisquer abastecimentos do país. Todo o livro glorifica precisamente o atraso da técnica e o artesanato. Não há guindastes? Teremos os nossos! E fazemos «derricks» — guindastes de madeira, e as peças giratórias, as únicas metálicas, fundimo-las nós mesmos. «O canal e a sua indústria!» — rejubilam os nossos autores. E as rodas dos carros de mão também as fundem no nosso forno artesanal.
O canal era necessário com tanta urgência que nem encontraram rodas para os carros de mão destinados à construção! Para as fábricas de Leninegrado isso seria uma encomenda excessiva!
Não, não é justo — esta construção extravagante do século XX, um canal continental construído a «picareta e carro de mão» — seria injusto compará-la com as pirâmides do Egipto: porque as pirâmides foram construídas com a técnica da época. E nós tínhamos a técnica de há quarenta séculos!
Nisso consistia a máquina de matar. Para câmaras de gás, não havia gás.
* * *
E entretanto, constantemente, soava-nos aos ouvidos: «O CANAL É CONSTRUÍDO POR INICIATIVA E SEGUNDO AS INSTRUÇÕES DO CAMARADA ESTALINE!»
«Rádio na barraca, na construção, à beira de um riacho, numa isba careliana, no camião, uma rádio que não dorme nem de dia nem de noite (imaginem!), essas inumeráveis bocas negras, máscaras negras sem olhos, gritam incansavelmente: o que pensam sobre a construção os tchekistas de todo o país, o que disse o partido». Pensa tu também a mesma coisa! Viva a emulação socialista e o trabalho de choque! Competição entre as brigadas! Competição entre as falanges (250-300 homens)! Competição entre eclusas!
Parece que tudo ia pelo melhor. No Verão de 1932, Iágoda percorreu a construção e ficou satisfeito, o bom homem. Mas em dezembro manda um telegrama: as normas não estão a ser cumpridas, acabar com essa deambulação de milhares sem fazer nada! Descobre-se: segundo os comunicados já foram removidos várias vezes os 100% do volume de terras! — mas o canal ainda não está concluído!
No início de 1933, nova ordem de Iágoda: mudar os nomes de todas as direções para estado-maior de setor de combate! Trabalhar em três turnos (as noites são quase polares)! Comida diretamente na construção (tudo frio)! Em caso de rezinga, tribunal!
Em janeiro — ASSALTO de separação das águas! Todas as falanges, com as suas cozinhas e haveres atiradas para um mesmo lugar! As tendas não chegavam para todos, dormem na neve — não faz mal, escapamos! O canal constrói-se por iniciativa…
De Moscovo — ordem n.° 1: «até ao fim da construção declarar assalto constante»!
Em fevereiro — proibição de visitas em toda a extensão do canal — ou há ameaça de tifo, ou é pressão sobre os zeks.
Em abril, assalto contínuo de quarenta e oito horas — hurra! — TRINTA MIL HOMENS NÃO DORMEM!
E para o 1.° de Maio de 1933, o comissário do povo Iágoda anuncia ao amado Mestre que o canal estará pronto dentro do prazo marcado.
Em junho de 1933 Estaline, Vorochilov e Kírov empreendem um passeio de vapor para observar o canal. Há fotografias — estão sentados em cadeirões no convés, «gracejam, riem-se, fumam». (Entretanto, Kírov já está condenado, mas não sabe.)
Em agosto foram os cento e vinte escritores.
Não havia no local ninguém para prestar serviço no Bielomorkanal, enviaram os deskulakizados («migrantes especiais»).
A maior parte dos «soldados do canal» foram construir o canal seguinte: Moskva-Volga.
* * *
Por mais sombrias que parecessem as Solovki, os solovkianos enviados para terminar a pena no Bielomor só aqui perceberam que se tinham acabado as brincadeiras, só aqui sentiram o que era um verdadeiro campo, que todos nós havíamos de conhecer gradualmente. Em vez do sossego das Solovki — os incessantes palavrões e o barulho selvagem das conversas à mistura com a propaganda educativa, mesmo nas barracas da direção do BielBaltlag dormia-se nas vagonetas (já inventadas), não a quatro, mas a oito homens: dois em cada beliche com a cabeça para os pés. Em vez dos edifícios de pedra do mosteiro, as barracas temporárias abertas aos ventos, ou as tendas, ou mesmo em cima da neve. Até os transferidos de Beresniki, onde também se trabalhava doze horas seguidas, achavam que aqui era mais duro. Dias de recordes. Noites de assalto. Muita confusão durante as explosões dos rochedos, com muitos feridos e até mortes. Uma sopa fria, comida no meio dos blocos. Já lemos qual era o trabalho. Como era a comida — e como podia ser a comida nos anos 1931-1933? O vestuário, o de cada um, gasto. E uma só forma de tratamento, de atormentar, um ritornelo: «Vamos!… Vamos!… Vamos!…»
Diz-se que no primeiro Inverno, de 1931 para 1932, morreram 100 mil — tantos como o efetivo constante do canal. Por que não acreditar? O mais certo é esse número estar subestimado: em condições semelhantes, nos campos dos anos da guerra a mortalidade de um por cento por dia era comum e conhecida de toda a gente. De modo que no Bielomor podiam morrer 100 mil em pouco mais de três meses.
É preciso ter em conta esta renovação dos efetivos à custa da substituição dos presos mortos por outros vivos, para não nos surpreendermos com o facto de no início de 1933 o número global dos reclusos nos campos ainda ultrapassar o milhão. Uma «Instrução» secreta de 8 de maio de 1933, assinada por Estaline e Molotov, indica o número de oitocentos mil.[45]
D. P. Viktovski, antigo presidiário das Solovki que trabalhou como capataz no Bielomorkanal, e que com aquele mesmo ardil, ou seja a atribuição de um volume de trabalho não executado, salvou muitas vidas, traça este quadro noturno:
«Depois de terminado o dia de trabalho, ficavam cadáveres na obra. A neve cobria-lhes os rostos. Um ficou preso debaixo do carro de mão que se virou, escondeu as mãos nas mangas e assim gelou. Ali dois gelaram apoiados com as costas um ao outro. Eram rapazes camponeses, os melhores trabalhadores que se possa imaginar. Enviam-nos para o canal às dezenas de milhares, e procuram que nenhum deles se vá encontrar num campo com o pai, separam-nos. E dão-lhes de imediato uma norma de trabalho de calhaus e blocos que mesmo de Verão é impossível cumprir. Ninguém os pode ensinar, prevenir, eles como camponeses dão todas as forças, enfraquecem depressa — e gelam, abraçados uns aos outros, aos pares. À noite passam os trenós e recolhem os cadáveres. Os cocheiros atiram os corpos para o trenó com um som de madeira.
De Verão os cadáveres, não reconhecidos a tempo — já só ossos, vão parar à betoneiras juntamente com o cascalho. Assim foram para o betão da última eclusa junto à cidade de Bielomorsk e ali se conservarão para sempre.»
* * *
Em 1966, quando terminava este livro, quis percorrer o grande Bielomor, ver com os meus olhos. Bem, rivalizar com os outros cento e vinte. Impossível: não há em que viajar. É preciso pedir autorização para embarcar num cargueiro. Mas aí verificam os documentos. Com o meu nome, levantaria logo suspeitas: para quê ir lá? Assim, para poupar o livro, era melhor não ir.
Mas em todo o caso ainda consegui espreitar um pouco. Primeiro, Medvejegorsk. Ainda hoje há muitos barracões daquele tempo. E um majestoso hotel com uma torre de vidro de cinco andares. É a porta do canal! Vão fervilhar aqui os hóspedes nacionais e estrangeiros… Ao fim de muito tempo vazio, transformaram-no em internato.
A estrada para Povenets. Uma floresta enfezada, pedras a cada passo, blocos.
Depois de Povenets, chego imediatamente ao canal e sigo muito tempo ao longo dele, perto das eclusas, para as ver. Zonas proibidas, guarda sonolenta. Mas sempre se vê alguma coisa. Mas porquê tanto silêncio? Sem ninguém, nenhum movimento no canal nem nas eclusas. Não há funcionários, pessoal a mexer. Onde trinta mil homens não dormiam de noite, agora mesmo de dia está tudo a dormir. Nem um apito de um barco. As comportas não se movem. Um belo dia de junho — porquê?…
Percorri assim cinco eclusas da «Escada de Povenets» e depois da quinta sentei-me na margem. Representado nos pacotes de cigarros, tão necessário ao país, porque estás tão calado, Grande Canal?
Um sujeito vestido à civil aproximou-se, de olhar averiguador. Pergunto candidamente: a quem se pode comprar peixe? E como se pode viajar pelo canal? O sujeito era afinal o chefe da guarda da eclusa. Porque é que não há transporte de passageiros? — pergunto-lhe. — Ora essa, surpreende-se ele, como é possível? Apareciam logo muitos americanos. Antes da guerra ainda havia, mas depois da guerra já não. — Pois deixá-los vir. — Mas como é que se lhes pode mostrar?! — Mas por que é que em geral não passa ninguém? — Passam. Mas pouco. Estás a ver, é pouco profundo, só cinco metros. Queriam reconstruí-lo, mas por certo vão fazer outro ao lado, logo como deve ser.
Ah, chefezinho, isso já o sabemos há muito tempo: em 1934, mal tinham acabado de distribuir as medalhas, já havia um projeto de reconstrução. Mas para transportar o quê, para onde? Abateram a floresta que havia aqui em volta — agora onde ir buscá-la? De Arkhanguelsk para Leninegrado? Eles compram-na em Arkhanguelsk, há muito que os estrangeiros a compram lá. E durante seis meses, se não mais, o canal está debaixo do gelo. Qual era a necessidade dele? Ah, sim, militar. Para transferir a esquadra.
— É tão pouco fundo — queixa-se o chefe da guarda — que nem os submarinos podem passar: carregam-nos em barcaças, e depois passam-nos.
E os cruzadores?… Ó, tirano solitário! Louco noturno! Em que delírio concebeste tudo isto?
E qual era a tua pressa, maldito? O que é que te queimava, que aguilhão te impelia a impor os vinte meses? Aquele quarto de milhão de homens podiam continuar a viver. Bem, os esperantistas estavam-te atravessados na garganta — mas os camponeses, quanto poderiam eles trabalhar para ti! Quantas vezes ainda poderias erguê-los para o ataque — pela pátria, por Estaline!
— Ficou caro — disse eu ao guarda.
— Em contrapartida, construíram-no depressa! — responde ele, convicto.
Tivesse sido sobre os teus ossos!…
Recordo a fotografia orgulhosa do volume sobre o Bielomor: uma velha cruz russa transformada em poste elétrico.
Tivesse sido sobre os vossos ossos…
Nesse dia passei cerca de oito horas perto do canal.
Durante esse tempo passou uma barcaça a motor de Povenets para Soroka, e outra, do mesmo tipo, de Soroka para Povenets. Os números delas eram diferentes, e só pelos números as distingui, vi que não era a mesma que voltava. Porque a carga era absolutamente igual: troncos de pinheiro já demasiado velhos, que já só podiam servir para lenha.
Subtraindo, obtemos zero.
E um quarto de milhão na mente.
Em 1933, no plenário de janeiro do CC e do CEC[46], o Grande Guia declarou que o «desaparecimento do Estado», prometido por Lenine e desejado pelos humanistas, «virá não do enfraquecimento do poder do Estado, mas do seu máximo fortalecimento, necessário para acabar com os restos das classes moribundas…» (itálico meu. — A. S.). Vichinski, que estava no seu lugar, sempre disponível, pegou imediatamente na palavra: «e por conseguinte, pelo reforço máximo… dos estabelecimentos de trabalho correcional”[47] — Entrada no socialismo pelo reforço máximo da prisão! — isto não é piada de uma revista humorística, mas uma afirmação do procurador-geral da União Soviética!
«Na época da entrada no socialismo, o papel dos estabelecimentos de trabalho correcional, como instrumento da ditadura do proletariado, como órgãos de repressão, como meio de coerção e educação deve aumentar e reforçar-se ainda mais».[48]
Quem é que acusa a nossa Teoria de Vanguarda de estar atrasada em relação à prática? Tudo isto estava já impresso, preto no branco, nós é que ainda não sabíamos ler. O ano de 1937 foi publicamente previsto e fundamentado.
Mas o que aconteceu verdadeiramente com o Arquipélago em 1937? De acordo com Vichinski, o Arquipélago «consolidou-se» fortemente: a sua população multiplicou-se. Mas ao contrário da ideia difundida, isso nem de longe aconteceu só à custa dos detidos em 1937: os «migrantes especiais» foram transformados em zeks. Eram os últimos resíduos da coletivização e da deskulakização, aqueles que conseguiram sobreviver na taiga e na tundra, arruinados, sem teto, sem objetos de uso, sem ferramentas. Graças à solidez da raça camponesa, mesmo esses que não morreram eram ainda milhões. E agora as «aldeias especiais» eram completamente integradas no Gulag. Essas aldeias foram cercadas de arame farpado, se ainda não estavam, e tornaram-se campos (assim surgiu todo o complexo de Norilsk). E esse aumento — uma vez mais de camponeses! — foi o principal afluxo ao Arquipélago em 1937.
O Arquipélago cresceu de uma maneira gigantesca — mas o seu regime podia endurecer ainda mais? Pois podia. Todos os lacinhos e enfeites foram varridos por uma mão peluda.
O Arquipélago foi sacudido — e convenceram-se de que, logo ao começar nas Solovki e mais ainda no tempo dos canais, toda a máquina dos campos afrouxara de uma maneira inadmissível. Agora eliminava-se essa fraqueza.
Antes de mais, a guarda não prestava, aquilo nem eram campos correcionais: nas torres de vigia, só à noite havia sentinelas; na casa da guarda, só um funcionário e desarmado, a quem era fácil convencer a deixar sair por um momento; toleravam-se na zona os candeeiros a petróleo; algumas dezenas de reclusos eram acompanhados ao trabalho por um único atirador. Agora instalaram iluminação elétrica em toda a zona. Os atiradores da guarda receberam um regulamento de combate militar e instrução militar. No quadro obrigatório de serviço incluíam-se os cães de guarda com os seus perreiros, treinadores e um regulamento próprio. Os campos assumiram finalmente um aspeto moderno, aquele que lhes conhecemos.
* * *
E uma cortina de ferro desceu em volta do Arquipélago. De futuro, ninguém além dos oficiais e sargentos do NKVD podia já entrar nem sair pela casa da guarda do campo.
E então, sim, os lobos mostraram os dentes! E então abriram-se os abismos do Arquipélago!
— Nem que te calce com latas de conserva, vais para o trabalho!
— Se faltarem as travessas, ponho-vos em lugar delas!
E o Gulag só não abandonou uma das suas aquisições dos anos anteriores: os encorajamentos à ralé, aos criminosos. Passaram a dar ainda com mais frequência aos de delito comum «posições de comando» no campo. Os de direito comum eram ainda mais assiduamente lançados contra os do artigo Cinquenta e Oito, permitiam sem obstáculo que os roubassem, espancassem, estrangulassem. Os criminosos tornaram-se uma espécie de polícia interna, as tropas de assalto dos campos.
Diz-se que em fevereiro-março de 1938 foi difundida no NKVD uma instrução secreta: reduzir o número de detidos! (não pela sua libertação, naturalmente). Não vejo aqui qualquer impossibilidade: era uma instrução lógica, porque não havia nem alojamento bastante, nem vestuário, nem alimentação. O GULAG estava sem recursos.
Então os pelagrosos[49]* deitavam-se em monte a apodrecer. Então os chefes das escoltas começaram a ensaiar a precisão dos disparos de metralhadora nos zeks moribundos. E então, todas as manhãs, os faxinas arrastavam os mortos para o monte, junto ao posto da guarda.
Em Kolimá, esse Pólo do frio e da crueldade no Arquipélago, essa viragem decorreu com uma aspereza digna do Pólo.
Imaginem as carretas da morte junto à fonte Maris (quilómetro 66 da estrada de Srednekan). Durante nove dias, o chefe tolerava o não cumprimento da norma de trabalho. Só ao décimo metiam o faltoso no isolamento com a ração disciplinar e continuavam a levá-lo para o trabalho.
Mas para quem mesmo assim não cumpria a norma, havia a carreta: colocada numa caixa de trator feita de troncos verdes, de 5x3x1,8 metros, ligados por grampos de carpinteiro. Uma pequena porta, nenhuma janela e nada lá dentro, nem uma tarimba. Ao anoitecer, os mais culpados, embrutecidos, já indiferentes, eram retirados do isolamento de castigo, metiam-nos na carreta, fechavam-nos com um grande cadeado e levavam-nos com o trator até três ou quatro quilómetros do campo, a um desfiladeiro. Alguns gritavam lá dentro, mas o trator desengatava-se e desaparecia durante vinte e quatro horas. Um dia depois abria-se o cadeado e os cadáveres eram retirados. As tempestades de neve encarregavam-se de os enterrar.
A exacerbação do regime em Kolimá foi marcada pela nomeação de Garánin para chefe do USVITlag (Direção dos campos do Nordeste).
Foram então suprimidos (para os do artigo Cinquenta e Oito) os últimos dias de descanso, o dia de trabalho foi prolongado para catorze horas, os gelos de 45 e 50 graus abaixo de zero foram considerados bons para trabalhar e permitiam «ativar» o dia a partir dos 55 graus negativos.
E havia ainda o escorbuto, que abatia os homens mesmo sem ajuda da direção.
Mas até isso parecia sempre pouco, não era regime bastante. E começaram os «fuzilamentos garaninianos», puros assassínios. Por vezes sob o ronco dos tratores, outras vezes mesmo sem isso. Muitos campos do Gulag são conhecidos pelos fuzilamentos e pelos imensos cemitérios: Orotukan, e a fonte Polar, Svistoplias, Annuchka, e até a cooperativa agrícola de Duktcha; mas os mais célebres deles são a mina Dourada e a Serpentina. Na Dourada retiravam de dia brigadas da galeria da mina e ali mesmo as fuzilavam imediatamente. (Isto não substituía os fuzilamentos noturnos, que continuavam.) Na Serpentina fuzilavam todos os dias 30 a 50 homens debaixo de um toldo perto do isolador. Depois os corpos eram carregados num atrelado de trator, para trás de um monte.
Excluo quase por completo Kolimá do âmbito deste livro. Kolimá é, dentro do Arquipélago, um continente à parte, merece as suas narrativas independentes. Mas Kolimá teve «sorte»: ali sobreviveu Varlam Chalamov; ali sobreviveram Evguénia Ginzburg, Olga Sliuzberg e outros — e todos eles escreveram memórias. Permito-me apenas apresentar aqui algumas linhas de Chalamov sobre os fuzilamentos de Garánin:
«Durante muitos meses de dia e de noite nas chamadas da manhã e da noite leram-se inúmeras ordens de fuzilamento. Com um frio de 50 graus, um conjunto de presos comuns tocava uma fanfarra antes e depois da leitura de cada ordem. Archotes fumegantes a gasolina quebravam a escuridão… O papel fino das ordens cobria-se de geada, e um qualquer chefe, que lia a ordem, sacudia os flocos com a luva, para conseguir decifrar e gritar mais um nome de fuzilado».
Foi assim que o Arquipélago concluiu o segundo plano quinquenal, e, portanto, entrou no socialismo.
* * *
Desde o início da guerra (provavelmente segundo prescrições sobre a mobilização) reduziram-se nos campos as normas de alimentação. Pioravam de ano para ano os próprios produtos: os legumes era substituídos por plantas forrageiras, os cereais por ervilhaca e farelos.
Se perguntassem a um detido dos campos qual era o seu mais alto objetivo, último e completamente inacessível, ele responderia: «Comer uma vez pão preto à vontade — depois posso morrer.» Durante a guerra, aqui enterravam-se não menos pessoas do que na frente. L. A. Komogor, todo o Inverno de 1941-1942, executou este trabalho leve: empacotar em caixas gradeadas de quatro tábuas, a dois e dois, cadáveres nus com a cabeça para os pés, à razão de 30 caixas por dia. (Pelos vistos o campo era perto, e por isso era necessário empacotar.)
Se as sete épocas dos campos disputarem à vossa frente qual delas foi a pior para o homem — deem a preferência à época da guerra. Diz-se: quem não esteve preso durante a guerra, não sabe o que é um campo.
Eis o que era um campo nos anos da guerra: mais trabalho, menos comida, menos combustível, roupas piores, uma lei feroz, castigos mais severos e isto ainda não é tudo. O direito ao protesto exterior sempre esteve negado aos presos — a guerra retirou-lhes também o protesto interior. Qualquer patife de galões, que se escondia da frente, estendia um dedo e dava lições: «E como se morre na frente?… E em liberdade como se trabalha? E em Leninegrado quanto pão receberam as pessoas?… E mesmo interiormente eles nada tinham a objetar. Sim, na frente as pessoas morriam, deitadas na neve. Sim, em liberdade as pessoas matavam-se a trabalhar e passavam fome. (E a frente do trabalho, para a qual arrastavam das aldeias as raparigas solteiras, com os abates de árvores, a ração de setecentos gramas de pão, e como prato quente uma água de lavar louça, valia bem qualquer campo.) E no bloqueio de Leninegrado davam uma ração ainda menor do que nos calabouços do campo. Durante a guerra, todo o tumor canceroso do Arquipélago se mostrou (ou foi apresentado como) um importante, necessário órgão do corpo russo — ele como que trabalhava para a guerra! Também dele dependia a vitória! — tudo isto lançava uma falsa luz justificadora sobre as barreiras de arame farpado, o cidadão chefe, o dedo esticado — e, ao morrer como uma das células podres, até eras privado, na hora suprema, do prazer de amaldiçoá-la.
Para o do artigo Cinquenta e Oito, os campos do tempo da guerra eram especialmente duros, sobrecarregados com segundas penas, uma ameaça suspensa pior do que qualquer machado. Os representantes operacionais, para se salvarem eles próprios da frente da guerra, descobriam nos recantos mais afastados e pacíficos, em subcomandos no fundo das florestas, conspirações com a participação da burguesia mundial, planos de insurreição armada e fugas em massa. Em UkhtPetchlag caíam como de um saco as condenações à morte e a vinte anos: «por instigação à fuga», e «por sabotagem».
Muitos presos — isto é verdade, não é invenção minha —, logo nos primeiros dias da guerra, entregaram requerimentos a pedir para serem enviados para a frente! Tinham provado o mais intenso do fedor dos campos e agora pediam que os mandassem para a frente! («E se ficar vivo, volto para cumprir o resto da pena»…) E isto era o carácter russo: antes morrer em campo aberto do que neste canto escuro e putrefacto! Escapar a esta irremediável estagnação, às segundas penas, a uma morte apagada. E para alguns era ainda mais simples, mas nada desonroso: ali ainda haverá tempo até morrer, mas por enquanto dão farda, comida, bebida, transporte, pode-se olhar pela janela do vagão. E havia também nisto um perdão cheio de bonomia: vocês tratam-nos a nós mal, e nós fazemos isto!
Mas para o Estado não fazia sentido, nem do ponto de vista económico, nem do ponto de vista organizativo, fazer essas transferências, transportar alguém do campo para a frente, e alguém para o campo em substituição. Cada qual tinha já definido o seu círculo de vida e de morte; aquele que, na primeira triagem, calhou ficar entre os bodes, como bode deve morrer.
Mas as autoridades dos campos não menosprezavam este acesso de patriotismo. No abate de floresta isto não servia de muito, mas por exemplo: «Forneçamos carvão acima do plano — isso será luz para Leningrado!», «Apoiemos os soldados da guarda com minas!» — isto mobilizava, contam as testemunhas. Arséni Formakov, homem decente e de temperamento equilibrado, conta que o seu campo era dedicado ao trabalho para a frente; os presos ofendiam-se quando não lhes permitiam que reunissem dinheiro para uma coluna de tanques («Djidinets»).
E as recompensas são geralmente conhecidas, foram proclamadas logo a seguir à guerra: para os desertores, os vigaristas, os ladrões, a amnistia; para os Cinquenta e Oito, os Campos Especiais.
* * *
Tais eram as formas em que as ilhas do Arquipélago se petrificavam, mas não se pense que, ao petrificar-se, elas paravam de produzir metástases.
Foi nos anos anteriores à guerra que o Arquipélago conquistou os desertos inabitados do Cazaquistão. Desenvolve-se como um polvo o ninho dos campos de Karagandá, estendem-se as fecundas metástases em Djezkazgan, com as suas águas envenenadas pelo cobre, até Mointá, até Balkhach.
Engrossam novas formações na província de Novossibirsk (os campos de Mariinsk), na região de Krassnoiarsk (Kanski, Krasslag), na Khakassia, na Bulat-Mongólia, no Uzbequistão, até em Gornoi Choria.
Não para de crescer o favorito do Arquipélago, o Norte da Rússia (UstVimlag, Niroblag, Ussollag) e o Ural (Ivdellag).
Não havia simplesmente uma região, Tcheliábinsk ou Kuibichev, que não produzisse os seus campos.
Em 1939, antes da guerra com a Finlândia, a alma mater do Gulag, as ilhas Solovki, que começaram a ficar demasiado próximas do Ocidente, foram transferidas pelo mar do Norte, umas para Nóvaia Zemlia, outras para a embocadura do Ienissei, onde se fundiram com o Notillag, que atingiu rapidamente os setenta e cinco mil homens. As Solovki eram de tão má qualidade que, mesmo ao morrer, elas produziram ainda uma última metástase — e que metástase!
Havia no Extremo Oriente uma cidade fiel chamada Alekséievsk (em honra do Czarevitch). A revolução mudou o nome da cidade para Svobodni.[50] Os cossacos do Amur, que nela habitavam foram dispersos e a cidade ficou deserta. Era preciso repovoá-la com alguém. E repovoaram-na: com presidiários e tchekistas que os guardavam. Toda a cidade de Svobodni transformou-se num campo (o BAMlag).
Os símbolos nascem assim engendrados pela vida.
Os campos não são apenas o «lado escuro» da nossa vida pós-revolucionária.
A sua envergadura fez deles não um lado, não um flanco, mas como que o fígado dos acontecimentos.
A necessidade económica manifestou-se como sempre abertamente e com avidez: o Estado, que pretendia fortalecer-se num curto prazo (três quartas partes do problema consistiam no prazo, como no caso do canal Bielomor!) e não consumir nada vindo do exterior, necessitava de força de mão de obra:
a) o mais barata possível, e de preferência gratuita;
b) pouco exigente, pronta a ser transferida de um lugar para outro em qualquer dia, livre de família, que não exigisse nem construção de habitações, nem escolas, nem hospitais, e durante algum tempo nem cozinhas, nem banhos.
Conseguir semelhante força de trabalho só era possível devorando os próprios filhos.
Havia no entanto no código penal de 1926 o artigo 9.°, que eu por acaso conhecia de cor:
«As medidas de defesa social não podem ter como objetivo infligir sofrimento físico ou humilhar a dignidade humana e não propõem como tarefa a vingança nem a punição.»
Isto vem mesmo a calhar! Gostando de embaraçar os chefes com base nas leis, eu metralhava-os muitas vezes com esse artigo — e todos os guardas limitavam-se a arregalar os olhos de espanto e de indignação. Alguns deles tinham já vinte anos de serviço, preparavam-se para a reforma, nunca tinham ouvido falar de nenhum artigo nono, e de resto não tinham sequer pegado no código.
«A dignidade da pessoa»! Daqueles que foram condenados sem julgamento? Daqueles que nas estações são obrigados a sentar-se com o traseiro na lama? Daqueles que, ao silvo do azorrague do cidadão carcereiro, raspam com os dedos a terra molhada de urina e levam tudo, para não irem parar ao calabouço? Daquelas mulheres cultas, a quem davam a honra de lavar a roupa e tratar dos porcos do cidadão diretor do campo?
* * *
… O fogo, o fogo! Os ramos crepitam, e o vento noturno do final de Outono enovela as chamas da fogueira. A zona está escura, eu estou sozinho perto da fogueira, posso ainda acrescentar aparas de carpintaria. É uma zona privilegiada, tão privilegiada que até parece que estou em liberdade — é o Paraíso das ilhas, é a «charachka» de Marfino, a mais liberal da época. Ninguém me vigia, nem me manda para a cela, nem me expulsa para longe do fogo. Vesti o casaco acolchoado, mas mesmo assim está bastante frio, por causa do vento cortante.
Mas ela, que está há horas em pé ao vento, em sentido, de cabeça baixa, ora chora, ora fica imóvel, gelada. Por vezes volta a pedir em voz queixosa:
— Cidadão chefe!… Desculpe!… Desculpe, eu não volto a fazer…
O vento traz até mim os seus soluços, como se ela chorasse mesmo por cima do meu ouvido. O cidadão chefe, no posto da guarda, alimenta o fogão e não reage.
É a casa da guarda do campo ao lado do nosso, de onde vêm os operários à nossa zona instalar as canalizações de água, fazer as reparações no velho edifício do seminário. Separada de mim por um entrelaçado de muitos arames farpados, e a dois passos da casa da guarda, debaixo da luz forte de um candeeiro, abatida, está a rapariga castigada; o vento agita-lhe a sainha de trabalho cinzenta, arrefece-lhe as pernas e a cabeça, coberta por um lencinho ligeiro. Durante o dia, enquanto escavavam uma trincheira no nosso campo, estava calor. E outra rapariga, descendo para uma ravina, afastou-se a rastejar para a estrada de Vladikino, e fugiu — a guarda estava distraída. E pela estrada passa um autocarro urbano de Moscovo; aperceberam-se, mas já não a apanharam. Deram o alarme, chegou um major moreno, furioso, gritou que por essa fuga, se não apanharem a fugitiva, todo o campo será privado de visitas e de encomendas durante um mês. E todas as da brigada se enfureceram, todas gritaram, uma delas em especial, revirando os olhos raivosamente: «Que apanhem, essa maldita! Que lhe cortem o cabelo com uma tesoura — tchic! tchic! — diante de toda a gente em formatura!» (Isto não era invenção dela, assim castigam as mulheres no Gulag.) Mas esta rapariga suspirou e disse: «Ao menos uma vai passear por nós em liberdade!» O guarda ouviu, e ela foi castigada: levaram-nas a todas para o campo, e a ela colocaram-na «em sentido» diante da casa da guarda. Ela tentou marcar passo, assim se aquecendo, o guarda assomou-se e gritou-lhe: «Fica em sentido, p…, ou será pior!» Agora não se mexe e apenas chora:
— Desculpe-me, cidadão chefe!…deixe-me ir para o campo, eu não volto a fazer!…
Mas mesmo no campo ninguém lhe dirá: santinha! entra!…
Não a deixam entrar durante tanto tempo, porque amanhã é domingo, não será necessária para o trabalho.
De cabelo louro muito claro, uma rapariga simples, sem instrução. Está presa por causa de uma qualquer bobine de linhas. Que pensamento perigoso foste tu exprimir, irmãzinha! Querem que isso te sirva de lição para toda a vida.
O fogo, o fogo!… Quando andávamos em combate olhávamos para as fogueiras, a tentar adivinhar como seria a Vitória… O vento trazia da fogueira cascas apenas lambidas pelas chamas.
Prometo a este fogo e prometo-te a ti, menina: todo o mundo irá saber disto.
Isto passa-se em 1947, perto do trigésimo aniversário de Outubro, na nossa cidade capital de Moscovo que há pouco festejou o oitavo centenário das suas crueldades. A dois quilómetros da exposição da agricultura soviética. E a menos de um quilómetro de Ostankino e da Casa da atividade criadora dos servos.
* * *
Os servos!… Não era por acaso que esta comparação se impunha a muitos, quando tinham tempo para refletir. Não apenas por alguns traços isolados, mas todo o sentido essencial da existência da servidão e do Arquipélago é o mesmo: um regime social para a utilização forçada e implacável do trabalho gratuito de milhões de escravos. Seis dias por semana, e por vezes sete, os indígenas do Arquipélago saíam para uma corveia esgotante que não lhes trazia qualquer benefício pessoal. Só eram reconhecidos como doentes aqueles que já não conseguiam descer da tarimba. Havia também castigos para os faltosos, só que o latifundiário, que agia em seu interesse pessoal, castigava com menos perda de dias de trabalho, por meio de uns açoites de azorrague na cavalariça, porque não tinha cárcere, enquanto o chefe do campo encerrava o culpado no isolamento disciplinar ou na barraca de regime reforçado (BUR). Tal como o latifundiário, o chefe do campo podia tomar qualquer escravo como seu criado, como cozinheiro, barbeiro, ou bobo (podia formar até um teatro de escravos, se lhe apetecesse), designar qualquer escrava como sua governanta, concubina ou criada. Tal como o latifundiário, ele podia desatinar, dar largas ao seu temperamento.
Tal como o servo não escolhia o seu destino de escravidão, não era culpado do seu nascimento, também o presidiário não o escolhia, também ele ia parar ao Arquipélago como vítima de uma pura fatalidade.
Essa analogia foi há muito assinalada pela língua russa: «deram de comer ao pessoal?», «mandaram o pessoal para o trabalho?», «quanta gente tens?», «manda-me cá um homem do teu pessoal!». Gente, pessoal — de quem se trata? Assim falavam dos servos. Assim falam dos presidiários. No entanto, não se pode falar assim dos oficiais, dos dirigentes — «quanta gente tens?» — nem ninguém compreenderá.
Mas, podem objetar-nos, em todo o caso não há assim tantas semelhanças. As diferenças são mais.
Concordamos: as diferenças são mais. Mas, coisa surpreendente: todas as diferenças são a favor da servidão! Em desfavor do Arquipélago Gulag!
Os servos só trabalhavam do nascer ao pôr do sol. Os presidiários começam com escuro, e terminam com o escuro. O domingo era sagrado para os servos, mais os doze dias santos, mais o dia do patrono e alguns dias pelas festas de Natal (havia os desfiles de máscaras!). O presidiário aflige-se antes de cada domingo: dão descanso ou não dão? E as festas, nem tem conhecimento delas: esses 1.° de Maio e 7 de Novembro são mais um tormento de buscas e de regime do que de festa. Os servos viviam em isbas permanentes, consideravam-nas como suas, e ao deitarem-se à noite em cima do forno, das tábuas ou de um banco, sabiam: este lugar é meu, ainda há pouco dormi aqui e vou continuar a dormir. O presidiário não sabe em que barraca dormirá amanhã. Não tem tarimba «sua», nem vagoneta «sua». Vai para onde o mandarem.
O servo podia ter o seu cavalo, o seu arado, um machado, uma rasoira, um fuso, cestos, loiça, vestuário. Até os criados domésticos, como escreve Herzen, tinham sempre alguns trapos, que deixavam de herança aos seus familiares — e que quase nunca lhes eram retirados pelo latifundiário. O presidiário é obrigado a entregar na Primavera as roupas de Inverno, e as de Verão no Outono, no inventário sacodem-lhe o saco e cada trapo a mais é-lhe confiscado para o Estado. Não lhe é permitido ter nem um pequeno canivete, nem uma escudela, e de seres vivos, só piolhos. O servo de vez em quando punha uma armadilha e apanhava peixe. O presidiário só apanha peixe na sopa, com a colher.
Durante a maior parte da sua história anterior, a Rússia não tinha conhecido a fome. «Na Rússia ninguém morreu de fome» — diz o provérbio. E um provérbio não nasce por brincadeira. Os servos eram escravos, mas andavam saciados[51]. Quanto ao Arquipélago, viveu dezenas de anos sob o peso de uma fome atroz, entre os presidiários havia brigas pelos rabos de arenque apanhados no caixote do lixo.
Os servos viviam em famílias. A venda ou a troca de um servo separado da família eram consideradas por toda a gente uma gritante barbárie, motivo de indignação para a literatura russa. Algumas centenas, talvez milhares (o que é duvidoso) de servos foram separados das suas famílias. Mas não milhões. O presidiário era separado da família desde o primeiro dia de detenção e em muitos casos para sempre. Do mesmo modo, se algum presidiário e alguma presidiária se ligavam no campo por um amor passageiro ou autêntico, eram rapidamente punidos com o calabouço, separados e afastados.
E de uma maneira geral toda a situação dos servos era aliviada pelo facto de o latifundiário ser forçado a poupá-los: eles custavam dinheiro, o trabalho deles trazia-lhe riqueza. O chefe do campo não poupava os presidiários: não tinha de comprá-los, não os transmitia por herança aos seus filhos, e se uns morriam, vinham outros.
É inútil estar a tentar comparar os presidiários aos servos dos latifundiários. Temos de reconhecer a situação destes como mais tranquila e humana. Se a situação dos indígenas do Arquipélago pode ser aproximadamente comparada com a de alguém, é com a dos servos fabris[52] do Ural, do Altai e de Nertchinsk. Ou a dos colonos de Araktchéiev[53]. Há quem me ponha objeções: nas aldeias de Araktchéiev ainda havia a natureza, a família, as festas. A justa comparação seria com a dos escravos do Oriente antigo.
E só me ocorre uma, apenas uma vantagem dos presidiários sobre os servos: o presidiário pode ir parar ao Arquipélago ainda jovem, aos 12-15 anos, mas em todo o caso nunca desde o nascimento! De qualquer modo passa alguns anos em liberdade. Quanto às vantagens de uma determinada condenação relativamente à situação perpétua do servo, há que lhe pôr muitas reservas: se não foi condenado ao «quarteirão»; se não é do artigo 58.°; se não for de «deliberação especial»; se não lhe derem no campo um segundo período; se depois da pena não for automaticamente desterrado; se depois de libertado não o fizerem voltar para o Arquipélago como reincidente. É uma tão grande lista de reservas que nos faz recordar que até o senhor feudal libertava por vezes os seus servos por capricho…
Por esse motivo, quando um novato na cela da Lubianka nos informou de que os trabalhadores de Moscovo decifravam a sigla VKP(b) como Vtoroie Krepostnoie Pravo[54] (bolchevique), isto não nos pareceu cómico, mas profético.
* * *
Os comunistas procuravam um novo estímulo para o trabalho social. Pensavam que isso seria consciência e entusiasmo com pleno desinteresse. Por isso apoiaram tanto a «grande iniciativa» dos sábados de trabalho. Mas essa iniciativa não foi o início de uma nova era, foi apenas um impulso convulsivo de abnegação de uma das últimas gerações da revolução. Ainda durante dez anos esse acesso bastou para o Komsomol e para nós, os pioneiros de então. Mas depois, também em nós se extinguiu.
Que fazer então? Aonde ir buscar o estímulo? O dinheiro, o trabalho à peça, os prémios? Mas isso cheirava ao capitalismo ainda recente, e era necessário um longo período, mais uma geração, para que o cheiro deixasse de exasperar e se pudesse aceitá-lo tranquilamente como «princípio socialista do interesse material». Era bem conhecida a fórmula tantas vezes repetida: «No novo regime social não pode haver lugar para a disciplina do bastão, em que se apoiava a servidão, nem para a disciplina da fome, em que se apoia o capitalismo».
Pois o Arquipélago podia substituir muito bem uma e outra.
E para isso eram necessários apenas três meios: 1. A marmita; 2. A brigada; 3. Duas chefias.
E é sobre estas três baleias que o Arquipélago se apoia.
Mas se as considerarmos «correias de transmissão», são essas que o fazem girar.
A marmita é uma redistribuição do pão e da sêmola, de tal maneira que, para uma ração média de presidiário que nas sociedades parasitárias se atribui a um preso inativo, o nosso presidiário ainda tem de lutar e afadigar-se. Para conseguir a sua ração legítima acrescentava pequenos suplementos de cem gramas e era considerado trabalhador de choque. As percentagens de produção acima dos cem por cento davam direito a algumas colheres de papas (que tinham sido previamente retiradas). Nem esses bocados de pão, nem essas porções de sêmola tinham comparação com o desgaste de forças despendidas para as conseguir. Mas por uma sua conhecida característica infeliz o homem não sabe relacionar as coisas com o custo que elas têm. Tal como o soldado numa guerra alheia, por um copo de vodka, avança ao ataque e nele entrega a sua vida, assim o presidiário por esses míseros bocados de pão, deslizando do madeiro, banha-se na enchente de um rio do norte ou amassa na água gelada a argila para os adobes com os pés nus, que já não precisarão da terra da liberdade.
No entanto, mesmo a satânica marmita não pode tudo. Nem todos debicam nela. Como os servos em tempos assimilaram: «mais vale engolir agulhas de pinheiro do que roer no cepo», assim também o compreenderam os presidiários: no campo não é a ração pequena que nos perde, mas a grande.
Preguiçosos! Estúpidos! Meio animais insensíveis! Não querem esse suplemento! Não querem uma migalha desse pão nutritivo, misturado com batata, ervilhaca e água! Já nem querem redução da pena! Não querem figurar no quadro de honra! Espalham-se pelas cantos das minas, pelos andares das construções, ficam contentes por achar um buraco para se esconderem da chuva, só para não terem de trabalhar.
Pensaram no caso. E descobriram — a brigada. E como não havíamos de chegar a esta conclusão? No nosso país também os populistas queriam chegar ao socialismo, através da comunidade rural, e os marxistas através do «coletivo».
Em conformidade com os objetivos da brigada, escolhem-se os seus chefes (os «bugres» na linguagem do Gulag). Submetendo os presidiários ao regime do bastão e da ração, o chefe da brigada tinha de lidar com esta na ausência dos diretores, dos vigilantes e da escolta. Chalámov apresenta exemplos de como, ao longo de uma época de lavagem do ouro em Kolimá, morreu várias vezes todo o efetivo da brigada, enquanto o chefe continuou a ser o mesmo. No Kemerlag havia um chefe de brigada desse género, Perelómov — não usava a língua, apenas a chibata.
Mas a que é que os homens não se habituam? Seria grosseiro da nossa parte não observar que a brigada se tornava por vezes uma célula natural da sociedade indígena — como é a família em liberdade. Eu próprio conheci essas brigadas — e várias. Na verdade, eram habitualmente brigadas especializadas: eletricistas, serralheiros-torneiros, carpinteiros, pintores. Quanto menos numerosas eram essas brigadas (10-12 homens), mais claramente transparecia nelas o princípio da defesa recíproca e do mútuo apoio.
Para uma brigada dessas e para esse papel era necessário um chefe de brigada adequado: moderadamente cruel; perspicaz e justo na brigada; com o seu jeito bem elaborado em relação às chefias — ladrido rouco para uns, pela calada com outros; terrível para todos os dissimulados, sem perder uma oportunidade de conseguir para a brigada mais um suplemento de cem gramas, umas calças acolchoadas, um par de botas. Bom conhecedor do trabalho e dos setores vantajosos e desvantajosos. Com o olhar apurado para o embuste — onde será mais fácil consegui-lo esta semana: nas normas ou nos volumes. E defendendo tenazmente o embuste perante o mestre-de-obras. Capaz de untar a pata ao encarregado de estabelecer as normas. Capaz de perceber quem na sua brigada é o bufo (e se este não for muito esperto nem muito nocivo, deixá-lo ficar, para que as coisas não piorem). Na brigada, ele sabe sempre a quem animar com um olhar, quem cobrir de impropérios e a quem dar hoje um trabalho menos pesado. Uma brigada assim identifica-se severamente com este chefe e vive uma vida austera. Não há molezas, mas também não se deixa cair ninguém. Trabalhei com chefes de brigada assim — com Sinebriukhov, com Pável Baraniuk. E muitos relatos coincidem em que a maior parte das vezes essas brigadas diligentes e parcimoniosas são compostas por filhos de «kulaks».
Quando às duas chefias, tão cómodas para os campos como para as tenazes os dois braços, esquerdo e direito. As duas chefias são o martelo e a bigorna e forjam no presidiário aquilo de que o Estado necessita, e quando se estraga, atira-se para o lixo.
Nas mãos de uma chefia está a produção, os materiais, os instrumentos, os transportes, e só lhe falta uma coisa — a força de trabalho. Esta força de trabalho é trazida todas as manhãs pela escolta do campo e ao fim do dia levada de volta para o campo. Para a chefia da produção é importante constranger os presidiários a fazerem o máximo possível num dia e inscrever o menos possível nos seus registos, porque é necessário cobrir de uma maneira ou de outra os gastos e a insuficiência da produção: porque toda a gente rouba — os trustes, a direção de construção e de montagem, os mestres-de-obras, os capatazes, os intendentes, os motoristas, e menos que todos os próprios presidiários, e mesmo estes não roubam para si (não têm para onde levar) mas para a chefia do seu campo e para a escolta.
Nas mãos da chefia do campo está apenas a força de trabalho ( rabsila:[55] a língua sabe como abreviar!). Mas isso é decisivo. Os chefes dos campos assim o dizem: nós podemos apertá-los (os da produção), eles não têm onde ir buscar trabalhadores. (Na taiga e no deserto, onde encontrá-los?) E por isso procuram arrancar mais dinheiro pela sua força de trabalho.
E outra coisa importante: que essas duas chefias não são hostis uma à outra, como se poderia pensar pelas suas constantes desavenças e mútuos enganos. Quando é necessário estreitarem-se mais, unem-se estreitamente um ao outro. Embora o chefe do campo seja um pai para os seus presidiários, está sempre pronto a afirmar e a confirmar em documento que o culpado de qualquer trauma é sempre o presidiário e nunca a produção; não insistirá muito em que um presidiário necessita de vestuário especial ou que numa qualquer secção não há ventilação (se não há, não há, que se pode fazer, são dificuldades passageiras).
E se apesar de tudo não param de encher os registos com logros; se registam abertura e enchimento de trincheiras que nunca existiram na terra; o conserto do sistema de aquecimento ou de um torno que nunca estiveram avariados; a substituição de postes que estão em perfeito estado ainda para dez anos — isso é feito pelos próprios presos (os chefes de brigada, os responsáveis pelas normas, os capatazes), porque todas as normas estatais não são calculadas para a vida real na terra. Nem um homem dedicado, saudável, bem alimentado consegue cumprir essas normas! O que pedir a um preso extenuado, fraco, faminto e oprimido?
A Direção colocou três baleias como suporte do Arquipélago: a marmita, a brigada e as duas chefias. Mas a quarta e principal baleia é o logro e foi introduzida pelos presidiários e pela própria vida.
O logro é a tentativa de sobreviver e não de se governar, não de roubar o Estado.
O Estado não pode ser tão excessivamente cruel a ponto de impelir os súbditos ao logro.
E entre os presidiários é costume dizer: sem logro e sem amonal, não haveria canal.
É em tudo isto que assenta o Arquipélago.
— Trouxeram os fascistas! Trouxeram os fascistas! — gritavam, excitados, correndo pelo campo, alguns jovens presidiários — rapazes e raparigas —, quando os nossos dois camiões, cada um deles carregado com trinta fascistas, entravam no recinto quadrado do pequeno campo de Nova Jerusalém.
Nós acabávamos de viver uma das horas mais altas das nossas vidas — uma hora de viagem da Krássnaia Préssnia para aqui —, aquilo a que se chama uma etapa curta. Embora nos transportassem nas carroçarias com as pernas encolhidas, eram nossos todo o ar, toda a velocidade, todas as cores. Oh, esquecido esplendor do mundo! — elétricos vermelhos, tróleis azuis, a multidão branca e variegada, mas eles próprios, apressados para embarcar, verão essas cores? E ainda, por qualquer razão, todos os prédios e postes de iluminação estão decorados com bandeiras e bandeirolas, alguma festa inesperada — 14 de agosto, coincidente com a nossa saída da prisão. (Nesse dia foi proclamada a capitulação do Japão, o fim da guerra dos sete dias.) Na estrada de Volokalamsk, o turbilhão dos cheiros do feno acabado de cortar e a frescura dos prados ao entardecer bafejaram as nossas cabeças rapadas. Aquele vento dos prados, quem o pode aspirar com mais avidez do que os presidiários? Eu e Gammerov, que seguimos no mesmo transporte, íamos sentados lado a lado e achávamos que o fim daquele percurso não poderia ser nada sombrio.
E eis que saltamos das carroçarias, desentorpecemos as pernas e as costas dormentes, e olhamos em volta. A zona de Nova Jerusalém agrada-nos: está rodeada não de uma vedação contínua, mas apenas de uma barreira de arame farpado entrançado, e por todos os lados se avista a terra de Zvenigorod, acidentada, viva, zona de aldeias e de datchas.
— Então vocês são fascistas? São todos fascistas? — perguntam-nos com esperança os presidiários que se aproximam. E, depois de confirmarem que sim, que somos fascistas, imediatamente fogem, afastam-se. Nada mais em nós lhes interessa.
(Nós já sabemos que «fascistas» é a alcunha para os do artigo Cinquenta e Oito, introduzida pelos de direito comum e aprovada pelas chefias: em tempos chamavam-lhes «CRs», contrarrevolucionários, depois isso passou de moda e era preciso um ferrete adequado.)
— E então? Aqui parece… que não é mau… — dizemos entre nós, tentando convencer-nos a nós mesmos e aos outros.
Um dos jovens demorou-se mais tempo ao pé de nós, observando os fascistas com interesse. Com o boné preto descaído de esguelha para a testa, as mãos nos bolsos, escutava a nossa tagarelice.
— N-não é mau! — disse, agitando o peito. Torcendo os lábios, olhou-nos uma vez mais com desprezo e martelou: — Fo-me-ca!…Vão apo-dre-cer!
Caíram-nos os corações aos pés.
A zona. Duzentos passos de um arame farpado ao outro, e não nos podemos aproximar dele. Sim, em redor verdejarão e brilharão os outeiros de Zvenigorod, mas aqui é o refeitório da fome, a cave de pedra do isolamento disciplinar, o pobre telheiro que cobre o fogão da «cozinha individual», o barracão dos banhos, a guarita cinzenta das sentinas, com as tábuas podres — e é tudo, nenhum sítio onde te possas meter. Talvez este ilhéu seja o último bocado de terra que os teus pés ainda possam pisar em vida.
Nos dormitórios, há as vagonetas nuas. A vagoneta é uma invenção do Arquipélago, uma adaptação para os indígenas dormirem, que não se encontra em mais parte nenhuma do mundo: quatro pranchas de madeira em dois pisos sobre dois apoios cruzados em X — à cabeceira e aos pés. Quando um dos quatro presos se mexe, os outros três oscilam…
Neste campo não há colchões, nem sacos para encher. A expressão «roupa de cama» é desconhecida da ilha de Nova Jerusalém: aqui não há roupa de cama, não dão nem lavam roupa interior. E a palavra «almofada» é desconhecida do ecónomo deste campo, só há almofadas pessoais e apenas para as mulheres e os de direito comum. À noite, ao deitares-te na tábua nua, podes descalçar-te, mas lembra-te de que te roubarão os sapatos. É melhor dormires calçado. O mesmo para as roupas, não as ponhas em qualquer lado: roubam-tas. Ao sair de manhã para o trabalho, não deves deixar nada na barraca: aquilo que os ladrões desprezarem, tiram-to os guardas: não autorizado! De manhã, ao sair para o trabalho, fica tudo como os nómadas ao levantarem o acampamento, ou mais limpo ainda: nem cinzas das fogueiras, nem ossos roídos, o quarto está deserto, não há nada de nada, outros poderão alojar-se durante o dia. E nada distingue a tua prancha das dos teus vizinhos. Estão nuas, com nódoas de gordura, polidas pelos flancos.
Mas também não levas nada contigo para o trabalho. Reúne de manhã os teus trastes, vai para a bicha do depósito e mete-os na tua maleta ou no teu saco. Ao voltares do trabalho, vai outra vez para a bicha e tira aquilo que prevês que te vai fazer falta para a noite. Não te enganes, porque não poderás ir segunda vez ao depósito.
E assim durante dez anos. Não percas o ânimo!
* * *
«Trouxeram os fascistas! Trouxeram os fascistas!» — não era só em Nova Jerusalém que gritavam assim. No final do Verão e no Outono de 1945 era assim em todas as ilhas do Arquipélago. A nossa chegada — dos «fascistas» — abria caminho à libertação dos presos comuns. Tiveram conhecimento da sua amnistia em 7 de julho; desde então foram fotografados, prepararam-lhes os certificados de libertação, a conta na contabilidade — mas, primeiro um mês, em alguns lugares segundo mês, noutros um terceiro, os presos amnistiados penaram ainda atrás do arame farpado — não havia quem os substituísse.
Não havia quem os substituísse! — e nós, os pobres cegos de nascença, ainda ousámos, toda a Primavera e todo o Verão, nas nossas celas calafetadas, esperar uma amnistia! Que Estaline se apiedaria de nós!… Que ele «teria em conta a Vitória!»… Que, tendo-nos omitido na primeira amnistia de julho, daria depois uma segunda amnistia especial para os políticos… Mas se nos agraciasse a nós, quem desceria às minas? Quem iria para a floresta de serras nas mãos?
Quem cozeria os tijolos e os assentaria nas paredes?
«Trouxeram os fascistas!» Os de direito comum, que sempre nos odiaram ou desprezaram, olhavam agora para nós quase com amor, porque os vínhamos substituir. Aqui está o que foi a grande amnistia estalinista, como «nunca se viu no mundo». Na verdade, onde é que se viu uma amnistia que não abrangesse os presos políticos?!
Foram pura e simplesmente libertados todos aqueles que assaltaram apartamentos, despiram os transeuntes, violaram raparigas, corromperam menores, enganaram clientes, vigarizaram, estropiaram pessoas indefesas, praticaram caça e pesca furtivas, praticaram a poligamia, a extorsão, a chantagem, a corrupção, a fraude, a calúnia, a denúncia falsa (esses nem sequer foram presos), traficaram narcóticos, os alcoviteiros, os proxenetas, os que causaram vítimas humanas por ignorância ou negligência (isto não é nenhuma figura de retórica, estou simplesmente a enumerar os artigos do Código que figuravam na amnistia).
Foi retirada metade da pena: aos delapidadores, falsificadores de documentos e de senhas de racionamento, especuladores e ladrões do Estado (em todo o caso, Estaline não gostava que fossem ao bolso do Estado).
Mas nada exacerbou tanto os antigos militares da frente e prisioneiros de guerra, como o perdão geral aos desertores do tempo da guerra! Todos os que foram cobardes, fugiram das unidades, abandonaram a frente, não compareceram nos centros de recrutamento, se esconderam durante muitos anos numa cova na horta da mãe, nas caves, atrás dos fornos, transformando-se em animais curvados e hirsutos, todos eles, desde que fossem capturados ou se apresentassem no dia da amnistia — eram agora declarados cidadãos soviéticos de pleno direito, sem cadastro, imaculados. (Aqui está uma ocasião de confirmar a prudência do velho provérbio: a fuga não é bonita, mas é salutar.)
Enquanto aqueles que não tremeram, que não se acobardaram, que apararam o golpe pela pátria e pagaram com o cativeiro, para esses não podia haver perdão, no entender do Comandante Supremo.
* * *
Toda a fábrica de tijolos são na verdade duas fábricas — a prensagem húmida e a prensagem seca. A nossa barreira servia apenas a prensagem húmida. Devido à amnistia, havia falta de mão de obra por toda a parte e havia mudanças. Durante algum tempo «atiraram-me» da barreira para uma oficina. Aqui toda a gente tinha o seu quinhão, mas havia uma rapariga que trabalhava de uma maneira mais espantosa que todos, uma verdadeira heroína do trabalho, mas de quem não convinha que os jornais se ocupassem. O lugar dela, a sua função, não tinha qualquer designação, mas poder-se-ia chamar-lhe «distribuidora superior». Junto ao tapete rolante, que vai da prensa com os tijolos húmidos cortados (acabados de moldar da argila e muito pesados), estavam duas raparigas — a distribuidora em baixo, e a passadora. Estas não precisavam de se dobrar, apenas de se voltar num pequeno ângulo. Mas a superior — que estava em cima, a rainha da oficina, em cima de um pedestal — precisa por força de se curvar; agarrar aos seus pés o tijolo húmido entregue pela passadora; sem o desfazer, erguê-lo até ao nível da sua cintura ou até dos ombros; sem mudar a posição dos pés, virar o corpo em ângulo reto, (umas vezes à direita, outras à esquerda, em função da vagoneta que estava a ser carregada); e alinhar os tijolos em prateleiras de madeira à razão de doze por cada prateleira. Os seus movimentos não tinham intervalo, interrupção, mudança, eram executados num ritmo veloz de ginasta — e assim durante o turno de oito horas, se a prensa não se avariasse. Passavam-lhos sem parar, metade de todos os tijolos produzidos pela fábrica durante o turno. Em baixo as raparigas trocavam de função, mas a ela ninguém a substituía durante as oito horas. Ao fim de cinco minutos de um trabalho como aquele, daqueles movimentos da cabeça e torções do busto, tudo devia começar a andar à roda. Mas aquela rapariga durante a primeira metade do turno ainda sorria (devido ao barulho da prensa era impossível conversar), talvez gostasse de estar erguida num pedestal como uma rainha de beleza e que todos vissem as pernas nuas e fortes por baixo da saia arregaçada e a agilidade balética da cintura.
Por aquele trabalho davam-lhe a mais alta ração do campo: trezentos gramas de pão a mais (850 gramas para todo o dia) e ao jantar, além da sopa de couves escura, «três stakanovistas»: três míseras doses de papas de semolina aguadas — davam-lhe tão pouco, que mal lhe cobriam o fundo da escudela de barro.
«Nós trabalhamos por dinheiro, e vocês pelo pão, isso não é segredo» — disse-me o mecânico livre e escuro que reparava a prensa.
Havia falta de extratores de argila — também eles estavam em vias de ser libertados, e mandaram-me outra vez para a barreira. Mandaram também para abarreira o Bória Gammerov, de modo que passámos a trabalhar juntos. A norma era conhecida: durante o turno cada um tinha de escavar, carregar e rolar até à grua seis vagonetas (seis metros cúbicos) de argila. Para os dois, eram doze metros cúbicos. Com tempo seco, nós os dois conseguíamos cinco. Mas começou a cair uma chuva outonal miudinha. Um dia, dois dias, três, sem vento, caía sem se intensificar e sem parar. Não era torrencial e por isso ninguém tomaria a responsabilidade de mandar parar os trabalhos no exterior. «Na construção não chove!» — célebre palavra de ordem do Gulag. Mas em Nova Jerusalém não nos dão casacos acolchoados, e sob aquela chuvinha maçadora, na barreira ruiva, patinhamos e ficamos enlameados nos nossos velhos capotes da frente, que nestes três dias absorveram já um balde de água cada. E o campo também não nos dá sapatos, patinhamos na argila líquida com as últimas botas da frente.
Bóris é mais fraco do que eu, mal consegue levantar a pá, cheia de barro colado, até à borda da vagoneta. Em todo o caso é já o segundo dia que ele tenta aguentar-se e manter-nos ao nível de Vladímir Soloviov. Também aqui me ultrapassou, o que ele já leu de Soloviov, e eu nem uma linha devido às minhas funções de Bessel.
Fala-me daquilo que se recorda e eu tento fixar, mas é pouco provável — não tenho agora cabeça para isso.
— Vladímir Soloviov ensinava a alegrarmo-nos com a morte. Pior do que isto não deve ser.
Isso é certo…
Carregamos aquilo que podemos. Dão-nos a ração disciplinar, pois seja a ração disciplinar, o diabo que os leve! Chegamos ao fim do dia e arrastamo-nos até ao campo. Mas nada de alegre nos espera ali: três vezes por dia aquela aguadilha negra de folhas de urtiga, uma vez por dia uma porção de papas aguadas, um terço de litro. E já nos cortaram no pão, 450 gramas de manhã, ao meio-dia e à noite nem uma migalha. E ainda nos põem na formatura debaixo de chuva para verificação. Uma vez mais dormimos nas tarimbas nuas todos molhados, sujos de lama, e trememos, porque as barracas não são aquecidas.
E no dia seguinte continua a cair aquela chuva miudinha. A barreira está encharcada e ficamos completamente atolados. Por mais que carreguemos a pá, que batamos com ela contra a borda da vagoneta, a argila não se despega. De cada vez é necessário limpar com as mãos para fazer a argila cair da pá para a vagoneta. E então compreendemos que estamos a fazer um trabalho duplicado. Largamos as pás e começamos a apanhar com as mãos a argila lamacenta debaixo dos nossos pés e a atirá-la para a vagoneta.
O Bória tosse, ficou-lhe nos pulmões um estilhaço de obus de um tanque alemão. É magro e amarelento, o nariz, as orelhas e os ossos do rostro afilaram-se-lhe como os de um morto. Observo-o e já não sei: ele sobreviverá ao Inverno no campo?[56]
E assim, calamo-nos e carregamos a argila à mão. A chuva continua… Mas não só não nos retiram da barreira, como nos chega esta ordem: hoje não substituem a equipa no final do turno, às duas horas da tarde, que continuará na barreira até que se cumpra a norma. Só então haverá almoço e jantar.
A chuva intensifica-se. Juntam-se poças de um ruivo claro na argila e na nossa vagoneta. Também os canos das nossas botas estão ruivos, e os capotes cobertos de manchas ruivas. Com as mãos geladas devido à argila fria, já não conseguimos deitar nada para a vagoneta. E então abandonamos essa ocupação inútil, subimos para a relva, sentamo-nos, inclinamos as cabeças e puxamos as golas dos capotes para a nuca.
Para quem olhasse de fora — éramos duas pedras barrentas no chão.
Algures, homens da nossa idade estudam na Sorbonne e em Oxford, jogam ténis nos seus longos lazeres, discutem sobre problemas mundiais nos cafés de estudantes. Já publicam os seus trabalhos, fazem as suas exposições. Dão voltas à cabeça sobre como desfigurar de nova maneira o mundo que os rodeia, insuficientemente original. Irritam-se com os clássicos porque esgotaram os assuntos e os temas. Irritam-se contra os seus governos e os seus reacionários, que não querem compreender e imitar a experiência de vanguarda soviética. Dão entrevistas aos microfones dos repórteres radiofónicos, escutando a sua própria voz, explicam com coquetismo aquilo que queriam dizer no seu último ou primeiro livro. A chuva tamborila na nuca, um arrepio percorre-nos as costas molhadas.
Olhamos em volta. Vagonetas por carregar, abandonadas. Todos se foram embora. Não há ninguém em toda a barreira, e em todo o campo fora da zona não há ninguém. Para lá da cortina cinzenta está a aldeola proibida, e até os galos se esconderam todos em lugar seco.
Agarramos nas pás, para que não no-las tirem — estão registadas nos nossos nomes — e, arrastando-as atrás de nós como pesados carrinhos de mão, contornamos a fábrica, por baixo do telheiro.
Perto de nós despejaram um grande monte de carvão. Dois presidiários escavam nesse monte, procuram vivamente alguma coisa. Quando acham, provam com os dentes e metem no saco. Depois sentam-se e comem cada qual o seu bocado quase negro.
— O que é que estão a comer, rapazes?
— Isto é argila marítima. O médico não proíbe. Não faz bem nem faz mal. Mas se mastigares um quilo por dia além da ração, parece que ficas enfartado. Procurem, há aqui muita no meio do carvão…
… E chega a noite sem que a barreira tenha cumprido a norma. Ordenam que nos deixem lá durante a noite. Mas a eletricidade é desligada em toda a parte. A zona fica sem iluminação e chamam toda a gente à casa da guarda. Ordenam que demos os braços e, com escolta reforçada, entre ladridos e injúrias conduzem-nos à zona habitacional. Está tudo negro. Caminhamos sem ver onde está molhado, onde está seco, sempre a patinhar, a tropeçar e apoiando-nos uns nos outros.
Na zona habitacional também está escuro — apenas um lume infernal, avermelhado, arde debaixo do fogão da «cozinha individual». E no refeitório há dois candeeiros de querosene ao lado do guiché de distribuição.
E amanhã será igual, e todos os dias: seis vagonetas de argila ruiva — três conchas de sopa aguada escura. Parece que nós na prisão também enfraquecíamos, mas aqui isso acontece muito mais depressa. Parece que já tenho campainhas na cabeça. Aproxima-se aquela agradável fraqueza em que é mais fácil ceder do que lutar.
E as barracas estão completamente às escuras. Deitamo-nos com as roupas todas encharcadas em cima das tábuas molhadas e parece que não despindo nada será mais quente, como uma compressa.
De olhos abertos para o teto negro, para o céu negro.
Senhor, Senhor! Debaixo dos obuses e debaixo das bombas eu pedia-Te que me mantivesses vivo. Mas agora peço-Te — manda-me a morte…
Contar a vida quotidiana do indígena do Arquipélago parece a coisa mais fácil e acessível. Mas ao mesmo tempo a mais difícil. Como em qualquer descrição da vida quotidiana, é preciso contar tudo desde manhã até à manhã seguinte, de um Inverno a outro Inverno, do nascimento (da chegada ao primeiro campo) até à morte (a morte). E falar de todas — de todas as ilhas e ilhotas.
E a vida do indígena consiste em trabalho, trabalho, trabalho; em fome, frio e astúcia. Esse trabalho, para os que não souberam empurrar os outros e conseguir um lugar suave, é o trabalho geral, aquele mesmo que faz crescer da terra o socialismo, e que a nós nos põe debaixo da terra.
Os tipos desses trabalhos gerais são impossíveis de enumerar, de classificar, a língua não chega para inventariá-los. Empurrar um carrinho de mão («máquina OCO, duas pegas, uma roda»). Transportar uma padiola. Carregar tijolos com as mãos nuas (a epiderme começa rapidamente a soltar-se dos dedos). Quebrar nas barreiras as pedras e o carvão, arrancar a argila e a areia. Arrancar seis metros cúbicos de minério aurífero e transportá-los para a tremonha. Ou simplesmente escavar a terra (solo xistoso, e no Inverno; na estrada Taichet-Abakan com 40° abaixo de zero, arrancar quatro metros cúbicos com a picareta e a pá). Também se pode moer o minério de cobre (um gosto adocicado na boca e o nariz a escorrer água). Pode-se impregnar com creosote as travessa do caminho de ferro (e todo o nosso corpo). Pode-se escavar túneis para estradas. Assentar vias. Fundir minérios. Pode-se ceifar erva nos prados inundados (com água pelo meio da perna).
Mas mãe de todos os trabalhos é a nossa floresta russa com os seus troncos verdadeiramente dourados (porque com eles se consegue ouro). O mais antigo de todos os trabalhos do Arquipélago é o abate das árvores. Ele apela a toda a gente, tem lugar para todos e nem sequer está vedado aos inválidos (os manetas são mandados, em grupos de três, calcar a neve de cinquenta centímetros de altura). A neve dá pelo peito. Tu és um lenhador. Primeiro vais com o teu corpo calcar a neve junto ao tronco. Derrubas o tronco e depois, abrindo caminho a custo por entre a neve, vais cortar todos os ramos. E sempre no meio da neve friável, vais empilhar todos os ramos e queimá-los (mas eles deitam fumo e não querem arder). Agora vais serrar a madeira nas dimensões requeridas e empilhá-la. E a tua norma e de cada um é de cinco metros cúbicos por dia, e para dois, dez metros cúbicos. (Em Burepolom era de sete esteres, mas os troncos grossos tinham ainda de ser cortados ao meio.) Já os teus braços não conseguem levantar o machado, já as tuas pernas não conseguem andar.
Nos anos da guerra (com alimentação militar) os prisioneiros diziam que três semanas de abate de floresta era um fuzilamento.
Essa floresta, esse ornamento da Terra cantado em versos e em prosa, tu odeia-la! É com um estremecimento de repulsa que entras sob a copa de um pinheiro ou de uma bétula! E ainda dezenas de anos depois, mal fechas os olhos, verás esses troncos de abeto e de álamo que carregaste às costas até ao vagão, enterrando-te na neve, e caías, e agarravas-te, receando ficar para trás, sem esperança de conseguir depois levantá-lo do lamaçal de neve.
Os trabalhos forçados, na Rússia anterior à revolução, eram regulados por uma lei de 1869, concebida para trabalhadores livres. Na designação para um trabalho, tinha-se em conta: a força física do trabalhador e o grau de experiência (é lá possível agora acreditar nisto?!). O dia de trabalho era de sete horas (!) no Inverno, e no Verão doze e meia. No terrível campo de trabalhos forçados de Akatui, o dia de trabalho era de oito horas no Verão (incluindo o trajeto), sete horas a partir de outubro, e apenas seis horas no Inverno. Nós, nos trabalhos de terraplanagem em Karlag, e no derrube de floresta do Norte, tínhamos até treze horas completas, sem contar os trajetos de cinco quilómetros a pé para a floresta e outros cinco de volta. Não há ninguém para contar isto — morreram todos.
* * *
E como os alimentavam por tudo isto? Despejava-se água no caldeirão, deitava-se-lhe batatas miúdas, embora não descascadas, ou então couve escura, rama de beterraba, toda a espécie de porcarias. E também ervilhaca, farelos, nisso não eram avaros. Tudo aquilo que vale alguma coisa desaparece sempre sem falta, roubado para as chefias, pelos criminosos — os cozinheiros eram silenciados, só a submissão os conservava nos seus lugares. Do armazém vinha sempre uma certa quantidade de gorduras e de «subprodutos» de carne, peixe, ervilhas, cereais — mas só uma pequena parte disso ia parar ao caldeirão. E até nos lugares recônditos, os chefes apoderavam-se do sal para as suas salgadeiras. (Em 1940, no caminho de ferro Kotlas-Vorkuta, o pão e a sopa eram servidos sem sal.)
Pelas normas do Gulag, não é possível alimentar um homem que trabalha treze ou mesmo dez horas com temperaturas negativas. E é completamente impossível depois de o abastecimento ter sido roubado. E é então que se lança no caldeirão a ferver a mistura diabólica que permite alimentar uns trabalhadores à custa dos outros. As «marmitas» são diferenciadas: para os que cumprem (a contagem que varia de uns campos para outros), digamos, menos de trinta por cento da norma, a marmita do cárcere: 300 gramas de pão e uma escudela de sopa aguada por dia; entre 30% e 80%, a marmita de castigo: 400 gramas de pão e duas escudelas de lavadura; de 81% a 100%, a marmita produtiva: 500-600 gramas de pão e três escudelas de lavadura; seguem-se depois as marmitas de choque, variáveis: 700-900 gramas de pão e uma porção de papas, ou duas porções de papas, um «prato-prémio», um qualquer pastel amarugento de centeio, recheado de ervilhas.
E por toda esta comida aquosa, incapaz de cobrir os desgastes do corpo, queimam os músculos num trabalho esgotante e os trabalhadores de choque e stakhanovistas vão para debaixo da terra antes dos refratários. Isto já o compreendem os veteranos dos campos, que dizem: antes tacho reduzido e trabalho comedido!
Claro que nem em toda a parte e nem sempre alimentavam assim tão mal, mas estes são números típicos: são os de Kraslag, no tempo da guerra. Em Vorkuta, nessa mesma época, a ração do mineiro, por certo a mais elevada do Gulag (porque era com esse carvão que se aquecia a heróica Moscovo), era: 80% debaixo do chão e 100% à superfície — um quilo e trezentos.
E antes da revolução? No pavoroso e mortífero Akatui, para um dia sem trabalho («na tarimba») davam duas libras e meia (um quilo!) de pão e 133 gramas de carne! Num dia de trabalho — três libras de pão e 200 gramas de carne — não era isto mais do que a nossa ração do exército na frente? Entre eles, os prisioneiros levavam baldes de sopa e de papas aos porcos dos guardas. — O perigo de morrer de inanição também nunca pairou sobre os forçados de Dostoievski[57]. — Na Sacalina, os prisioneiros das minas e das estradas, nos meses de mais trabalho, recebiam por dia: 4 libras de pão (um quilo e seiscentos!), 400 gramas de carne, 250 gramas de cereais! E o consciencioso Tchékhov investiga:[58] essas normas serão mesmo bastantes ou, dada a má qualidade da cozedura, são insuficientes? Se ele visse o conteúdo da escudela do nosso trabalhador, morria imediatamente.
Qual a fantasia que, no início do século, podia imaginar que «dentro de trinta e quatro anos», não só na Sacalina, mas em todo o Arquipélago ficariam contentes por receber um pão ainda mais húmido, misturado sabe-se lá com o quê, mais mal cozido, e que 700 gramas seriam a invejada ração dos «trabalhadores de choque»?!
Não, mais do que isso! — que em toda a Rússia os kolkhozianos ainda invejariam essa ração! — «nós nem isso temos!…»
* * *
Como andam vestidos e calçados os nossos indígenas?
Todos os arquipélagos são como sabemos: marulha em volta o oceano azul, crescem coqueiros e a administração das ilhas não gasta dinheiro em roupas para os indígenas — andam descalços e quase nus. Mas o nosso maldito Arquipélago não se pode nem imaginar sob um sol escaldante: está eternamente coberto de neve, eternamente varrido por tempestades.
Felizmente, tendo nascido fora dos limites do Arquipélago, os prisioneiros chegam cá já não completamente nus. Pode-se deixá-los com o que trazem vestido — mais precisamente, com aquilo que lhes deixaram os seus socialmente próximos — como sinal do Arquipélago apenas se lhe corta um bocado, como quem faz um corte na orelha de um carneiro: no capote corta-se-lhe de viés as abas, nos barretes corta-se-lhes uma ponta, fazendo uma abertura no alto.
Ainda chegará o dia em que isto se verá nos palcos russos, nos ecrãs de cinema russos! — os casacos de uma cor, as mangas de outra. Ou tantos remendos no casaco que já não se vê o pano original. Ou os remendos nas calças feitos do envoltório de uma qualquer encomenda, e durante muito tempo ainda se consegue ler o canto do endereço, escrito com lápis de tinta.
E nos pés, as alpercatas russas, mas falta um tecido forte para lhes juntar. Ou um bocado de pneu, amarrado diretamente ao pé nu com um arame, ou com um fio elétrico. (A desgraça aguça o engenho… Se esse bocado de pneu for amarrado com arames no feito de um barquinho, temos o célebre «TTZ»[59]
Uma manhã, na casa da guarda, ao ouvir queixas por causa do frio, o chefe do OLP responde-lhes com uma réplica no espírito do Gulag:
— Pois eu tenho lá um ganso que anda descalço todo o Inverno e não se queixa, é certo que tem os pés vermelhos. E vocês andam todos de alpercatas.
Depois de tudo isso surgirão no ecrã os rostos cinzentos bronzeados do campo. Olhos lacrimejantes, pálpebras vermelhas. Lábios brancos gretados e cheios de pústulas. Cerdas cinzentas das caras não barbeadas. No Inverno, um barrete de Verão a que foram cosidas umas orelheiras.
Eu reconheço-vos! São vocês, os habitantes do meu Arquipélago!
* * *
Mas por mais horas que durasse o dia de trabalho, os esforçados trabalhadores acabavam em todo o caso por voltar à barraca.
Barraca? Em alguns lugares, um abrigo escavado de qualquer maneira na terra. E no Norte é muitas vezes uma tenda, é certo que coberta de terra, mais ou menos revestida de tábuas. É frequente que em vez de eletricidade tenham candeeiros de querosene, mas também as tochas de madeira, e as mechas de algodão embebidas em óleo de peixe. E é a essa triste luz que olhamos o nosso mundo em ruinas.
Tarimbas de dois andares, tarimbas de três andares, as vagonetas como sinal de luxo. Na maior parte dos casos são tábuas nuas, sem nada em cima delas: em alguns sectores roubam de tal maneira tudo (para depois traficar através dos trabalhadores livres), que os serviços já não distribuem mais nada, e os presos não deixam na barraca nada que seja seu: levam para o trabalho até as marmitas e os púcaros (até em sacolas às costas — e assim cavam a terra), ou dão-nos a guardar aos de direito comum numa barraca protegida. Durante o dia a barraca fica deserta, como que desabitada. À noite seria necessário levar as roupas ao enxugadouro (e existe um enxugadouro) — mas despir-se é ficar gelado. E assim secam-se as roupas no corpo.
A tudo isto há que acrescentar como da mesa de partir o pão da brigada o transportam para o refeitório num tabuleiro sob a guarda dos membros mais espadaúdos da brigada, armados de sarrafos — sem isso o pão seria arrebatado, derrubado, roubado. Ponha-se em cima de tudo isto a eterna inconstância da vida no campo, as convulsões do tempo: ora boatos acerca de uma transferência, ora a própria transferência. E ainda a tua constante, persistente impossibilidade de estar só (torturante para um intelectual), a condição de membro da brigada e não de indivíduo, e a necessidade de agir todo o dia, todo o ano e todo o período da tua pena não como decidiste, mas como é necessário para a brigada.
É esta a vida diária no meu Arquipélago.
* * *
Descobriu-se ao longo dos séculos que a Fome governa o mundo. (E a propósito, toda a Teoria de Vanguarda é edificada sobre a fome, em que os famintos se revoltarão inevitavelmente contra os saciados. Mas não é nada assim: só se revoltarão os que sentem um pouco de fome, mas os verdadeiramente famintos não pensam em revoltas.) A Fome, que obriga uma pessoa honesta a roubar («Se a barriga fala, a consciência cala»). A Fome, que obscurece o cérebro e não permite qualquer distração, não permite pensar, nem falar de outra coisa que não seja comida, comida, comida. A Fome a que nem no sono é possível escapar: os sonhos são sobre comida, a insónia é sobre comida. E em breve não há mais que insónia.
Do mesmo modo que tudo aquilo que vive não pode existir sem expelir o que já processou, também o Arquipélago não podia funcionar sem segregar o seu principal detrito — os acabados.
O ecrã russo deve ver ainda mais isto: como os acabados, olhando ciosamente de lado os seus concorrentes, ficam de plantão à porta da cozinha, à espera de que os resíduos sejam levados para o monturo. Como eles correm, brigam, em busca de uma cabeça de peixe, de um osso, de uns restos de hortaliça. O ecrã mostrará como debaixo dos cobertores do hospital, eles jazem com os ossos ainda articulados, morrem quase sem se moverem — e são levados. Como (nos campos de Unja e de Nukcha) um capataz socialmente próximo, mal encarado, puxava pelas pernas da tarimba para a revista, mas o outro já estava morto, bateu com a cabeça no chão. «Morreu, o estafermo!»
Aquilo que o ecrã não captar, ser-nos-á descrito pela prosa atenta e vagarosa, que distinguirá os matizes desses caminhos da morte chamados ora escorbuto, ora pelagra, ora edema de carência, ora distrofia alimentar. Depois de uma dentada ficou sangue no pão, é o escorbuto. Depois começam a cair os dentes, as gengivas a apodrecer, aparecem úlceras nas pernas e os tecidos começam a cair aos bocados, a pessoa começa a cheirar a cadáver — a esses não os mandam para o hospital e andam a rastejar pela zona. — A cara escurece, como queimada do sol, a pele cai, a diarreia esvazia o corpo — é a pelagra. A pessoa enfraquece, enfraquece, e tanto mais depressa quanto maior é a estatura. Fica surdo, idiota, perde a capacidade de chorar, mesmo quando o levam de rastos pelo chão atrás de um trenó. Já não tem medo da morte, passou todas as fronteiras, esqueceu-se dos nomes da mulher e dos filhos, esqueceu-se do seu próprio nome. Por vezes todo o corpo de quem está a morrer de fome cobre-se de sinais do tamanho de ervilhas, com cabeças purulentas mais pequenas que a cabeça de um alfinete. Não se lhe pode tocar, de tão doloroso. A pessoa apodrece em vida.
Fu, que naturalismo. Porquê contar ainda isto?
E de um modo geral, para quê recordar tudo isto? Para quê remexer em velhas feridas?
A resposta a isto foi dada já por Lev Tolstoi: «Como, para quê recordar? Se eu tive uma doença má e me livrei completamente dela, recordarei isso sempre com alegria. Não recordarei apenas quando continuar assim doente e até pior, e quero enganar-me… Se recordarmos o passado e o olharmos de frente, também a nossa nova violência de agora se nos revelará.»[60]
* * *
Há no entanto uma libertação antecipada que nenhum boné azul pode tirar ao presidiário. Essa libertação é a morte.
E essa é a mais constante produção do Arquipélago, a que ninguém pode impor normas.
Morriam integralmente algumas brigadas, incluindo os chefes de brigada. No Outono de 1941, o Petchorelag (ferroviário) tinha uma lista de efetivos de cinquenta mil presidiários, e na Primavera de 1942, dez mil. Durante esse tempo não houve uma única transferência para lado nenhum — para onde foram os quarenta mil? E em todos os campos, em todos os anos? — É impossível saber, impossível achar a soma. No núcleo central do campo de Burepolom, em fevereiro de 1943, nas barracas dos acabados, chegavam a morrer numa noite doze de cada cinquenta, e nunca menos de quatro. De manhã, os seus lugares eram ocupados por outros acabados, que sonhavam restabelecer-se ali um pouco com a papa rala de painço e quatrocentos gramas de pão.
Os cadáveres, ressequidos da pelagra, apodrecidos do escorbuto, eram verificados num cercado que fazia de morgue, ou mesmo a céu aberto. Raramente isso acontecia sob a forma de uma autópsia médica, as mais das vezes não era um anatomista, mas um soldado da escolta que verificava se o presidiário estava morto ou se fingia. Para isso perfuravam-lhe o dorso com uma baioneta ou quebravam-lhe o crânio com um grande maço. A seguir prendiam ao dedo grande do pé direito do morto uma chapinha com o número do processo prisional, sob o qual figurava nos registos do campo.
Em tempos enterravam-nos com as roupas interiores, mais tarde passaram o usar para isso as piores roupas, muito usadas e sujas. Depois houve uma ordem geral: não gastar roupas (que ainda podiam ser usadas pelos vivos), enterrá-los nus.
Em tempos, na Rússia, considerava-se que nenhum morto podia ser enterrado sem caixão. Até os últimos dos servos, dos indigentes e vagabundos eram enterrados em caixões. Até os condenados a trabalhos forçados na Sacalina e em Akatui, também eram enterrados em caixões.
Mas no Arquipélago isso representava despesas não produtivas de milhões em madeira e mão de obra. Quando em Inta, depois da guerra, um trabalhador emérito da indústria madeireira foi enterrado num caixão, veio uma diretriz através do departamento de cultura e educação para que se fizesse propaganda: se trabalharem bem, serão também enterrados num caixão de madeira!
Transportavam-nos num trenó ou numa carroça, conforme a estação do ano. Às vezes, por comodidade, colocavam um caixote para seis cadáveres. Mas quando não havia caixotes atavam-lhes os braços e as pernas com cordéis, para evitar que baloiçassem. Depois amontoavam-nos como madeiros e tapavam-nos com uma esteira. Se havia amonal, uma brigada especial de coveiros usava-o para abrir covas. Caso contrário, era preciso cavar, sempre valas comuns, conforme o solo grandes valas para muitos ou pouco profundas para quatro (na Primavera, as valas pouco profundas começam a exalar fedor por todo o campo, e então mandam os exaustos aprofundá-las).
Em contrapartida, ninguém nos acusará de termos câmaras de gás.
Onde havia mais tempo, por exemplo em Kenguir, erguiam sobre os montículos pequenas colunas e um representante da secção de contabilidade, não um qualquer, inscrevia com ar grave os números de ordem dos que ali estavam enterrados. De resto, nesse mesmo campo de Kenguir, alguém se dedicou à sabotagem: indicavam às mães e esposas que apareciam o lugar onde era o cemitério. Elas caminhavam para lá e choravam. E então o chefe do Steplag, o camarada tenente Tchetchev, mandou uma buldózer arrasar as colunas, aplanar os montículos, visto que não apreciavam o que tinha sido feito por eles.
E aqui tens, leitora, como foi enterrado o teu pai, o teu marido, o teu irmão.
Como é possível não ter pensado nelas logo na instrução? — elas estavam algures ali nas celas vizinhas! Na mesma prisão, com o mesmo regime, essa instrução intolerável — como podiam elas, fracas, suportar?!
Mas parece que para elas não era mais difícil, era talvez até mais fácil. O que impressiona nas memórias das mulheres acerca da instrução dos processos é precisamente: em que «bagatelas», do ponto de vista da presidiária (mas não da mulher), elas podiam pensar. Nádia Surovtseva, bela e ainda jovem, com a pressa calçou meias diferentes para ir ao interrogatório, e no gabinete do comissário-instrutor fica acanhada porque o homem que a interroga lhe olha para as pernas. Poder-se-ia pensar, diabos o levem, que vá para o c., não veio ali para ir com ele ao teatro, além de que ela é quase doutorada (à maneira ocidental) em filosofia e uma política fogosa — mas não há nada a fazer! Aleksandra Ostretsova, presa na Grande Lubianka em 1943, contou-me depois no campo que muitas vezes armavam partidas: ou se escondiam debaixo da mesa, e o vigilante assustado entrava à procura daquela que faltava; ou pintavam-se com beterraba e iam assim para o passeio.
Depois, no pátio da Krassnaia Pressnia, encontrei-me com uma leva de mulheres que, como nós, acabavam de ser condenadas e vi com espanto que todas elas não estavam tão magras, nem tão esgotadas e pálidas como nós. A ração igual para todos os presidiários e as provações da prisão eram em média menos duras para as mulheres. Elas não decaem tão depressa com a fome.
Mas para todos nós, e em especial para a mulher, a prisão são apenas flores. Os frutos estão no campo. É precisamente aqui que ela vai ser quebrada ou, curvando-se, transformando-se, adaptar-se.
No campo, ao contrário, para a mulher é tudo mais difícil do que para nós. A começar pela sujidade do campo. Tendo sofrido já a imundície das prisões de trânsito e das transferências, também no campo não vai encontrar asseio. Num campo médio, numa brigada feminina de trabalho — portanto num barracão comum — ela quase nunca tem a possibilidade de se sentir verdadeiramente limpa, conseguir água quente (e por vezes água nenhuma: no 1.° campo de Krivoschiokovo é completamente impossível lavar-se no Inverno, só há água gelada sem possibilidade de aquecê-la). Sem falar já de lavar as roupas!…
Banhos? Ora! É com o banho que começa a primeira chegada a um campo — se não considerarmos o desembarque do vagão de transporte de gado para a neve e a passagem com as coisas às costas por entre a escolta e os cães. É nos banhos do campo que as mulheres, nuas, são observadas como mercadoria. (Segundo a estatística dos anos 1920, havia no nosso país uma mulher presa por cada seis ou sete homens. Depois dos decretos dos anos trinta e quarenta, essa desproporção reduziu-se um pouco, mas não tanto que as mulheres não fossem apreciadas, em especial as atraentes.) As mulheres são conduzidas ao seu barracão, e é então que entram os alapados, bem comidos, com casacos acolchoados novos, confiantes e descarados. Sem pressa, passeiam-se por entre as vagonetas, escolhem. Sentam-se, conversam. Convidam-nas a irem visitá-los. E não vivem no barracão comum, mas em «cabines» em que cabem apenas alguns homens. Ali dispõem de um aquecedor elétrico e de uma frigideira. E têm batatas fritas! — sonho da humanidade! Da primeira vez é apenas para se regalarem, comparar e compreender a escala da vida do campo. Os impacientes começam logo depois das batatas a exigir o pagamento, os mais comedidos vão acompanhá-las e explicam o futuro. Arruma-te, arruma-te na zona, minha cara, enquanto to propõem com cavalheirismo. Terás limpeza, a possibilidade de lavar a roupa, vestuário decente, e um trabalho não esgotante — tudo isso será teu.
E também neste sentido considera-se que a vida no campo é «mais fácil» para a mulher. Mais fácil para ela conservar a vida. Mas para algumas, do princípio ao fim, esse passo é mais insuportável do que a morte. Outras encolhem-se, hesitam, embaraçadas, e quando se decidem, quando se resignam, já é tarde, já não têm procura no mercado do campo.
Porque nem a todas se fazem essas propostas.
E essa escolha fazem-na não só mulheres casadas, mães de família, mas também algumas rapariguinhas. E são precisamente as rapariguinhas, asfixiada pela crueza da vida dos campos, que depressa se tornam as mais ousadas.
O que importa se amavas alguém em liberdade a quem querias ser fiel! O que interessa a fidelidade de uma morta? « Se saíres em liberdade, quem é que quer saber de ti?» — tais são as palavras que ressoam constantemente no barracão das mulheres. Também facilita o facto de que aqui ninguém julga ninguém. «Aqui toda a gente vive assim.»
A perda de sentido e de objetivo da vida também contribui para afastar entraves.
Aquelas que não cederam de imediato, ou mudam de ideias, ou acabarão de qualquer modo por forçá-las a ceder. E aquela que espera mais tempo, acabará ela própria por ir ao barracão comum dos homens, não já o dos alapados, caminhar pelas passagens entre as vagonetas e repetir em tom monótono: «Meio quilo… meio quilo…» E se algum salvador for atrás dela com a sua ração, ela tapa a sua vagoneta de três lados com lençóis e nessa barraca, nessa tenda (e daí a palavra «tendeira») vai ganhar o seu pão. Se antes disso não for surpreendida pelo vigilante.
A vagoneta coberta de trapos é uma imagem clássica dos campos. Mas há coisas muito mais simples. Uma vez mais o 1.° campo de Krivoschiokovo, 1947-1949. (Conhecemos este, mas quantos são eles?) No campo estava tudo misturado — vadios, delinquentes, menores, inválidos, mãezinhas. Havia um único barracão feminino, mas para quinhentas pessoas. De uma sujidade indescritível, incomparável, descuidado, com um cheiro pesado, as vagonetas sem roupa de cama. Oficialmente era proibido aos homens entrarem ali, mas a proibição não era respeitada. E os homens não só entravam, como levavam para lá menores, rapazinhos de 12-13 anos, para se instruírem. A princípio limitavam-se a observar: ali não havia esse falso recato, por falta de trapos ou por falta de tempo — em qualquer caso as vagonetas não se cobriam e as luzes, é claro, nunca eram apagadas. Tudo se passava com a simplicidade da natureza, à vista de toda a gente e em diversos lugares ao mesmo tempo. Só a evidente velhice ou a evidente disformidade podiam proteger uma mulher — nada mais. Ser atraente era uma maldição, uma mulher assim tinha fatalmente visitantes no seu catre, rodeavam-na constantemente, solicitavam-na e ameaçavam-na, com pancadas e com facadas — e a sua esperança não estava já em resistir, mas em ceder habilmente, em escolher um que depois, com a ameaça do seu nome e da sua faca a defendesse dos restantes, dos seguintes, daquela fila sequiosa, daqueles rapazitos enlouquecidos, exasperados por tudo o que ali viam e cheiravam.
E o trabalho? Numa brigada mista a mulher ainda tem alguma vantagem, dão-lhe algum trabalho mais leve. Mas se toda a brigada é feminina, aqui não haverá piedade, trata de dar os cubos! Mas há também campos só de mulheres, e aqui elas são lenhadoras, e cavadoras, e adobeiras. As mulheres só não eram enviadas para as minas de cobre e de volfrâmio. Vejamos o «ponto 29» do Karlag — quantas mulheres havia nele? Nem muitas nem poucas, um número médio: seis mil! E em que haviam de trabalhar as mulheres ali? Elena Orlova trabalha como carregadora — carrega sacos de 80 e mesmo de 100 quilos! É certo que a ajudam a pô-los às costas e que na juventude ela era atleta. E, claro está, onde viver o primeiro amor se não no campo, visto que a prenderam (por motivos políticos!) aos quinze anos, na oitava classe, como Nina Peregud? Como não se apaixonar pelo belo músico de jazz Vassili Kozmin, que ainda há pouco, em liberdade, encantava toda a cidade e parecia inacessível com a sua auréola de glória? E Nina escreve versos: «Um ramo de lilases brancos», que ele põe em música e canta do outro extremo da zona (já os separaram, ele é de novo inacessível).
As jovens do barracão de Krivoschiokovo também usavam flores, presas nos cabelos — sinal de casamento no campo, ou talvez de amor?
As instruções do Gulag exigiam: aqueles que fossem surpreendidos em mancebia deviam ser imediatamente separados e o menos valioso dos dois ser transferido.
Despojadas de tudo o que preenche a vida de uma mulher e de um ser humano em geral — da família, da maternidade, de um círculo de amizades, de um trabalho habitual e talvez interessante, algumas da arte e dos livros, e aqui oprimidas pelo medo, pela fome, pelo abandono e pela bestialidade — para que mais se poderiam voltar as mulheres dos campos se não para o amor? Surgia como uma bênção divina um amor que já quase não era carnal, porque no meio dos arbustos era vergonhoso, e na barraca, à vista de toda a gente, era impossível, e os vigilantes de todo o campo os agarravam e os metiam no calabouço. Mas por não ser carnal, como recordam agora as mulheres, esse amor nos campos tornava-se ainda mais profundamente espiritual. Precisamente por não ser carnal, tornava-se ainda mais intenso do que em liberdade! Mulheres já de certa idade passavam noites sem dormir devido a um sorriso ocasional, a uma atenção passageira. E com que força se destacava a luz do amor na existência suja e sombria do campo!
N. Stoliárova viu a «conspiração da felicidade» no rosto de uma sua amiga, atriz de Moscovo, e do seu parceiro analfabeto no carrego do feno, Osman. A atriz revelou que nunca ninguém a amara daquela maneira — nem o marido cineasta, nem os seus antigos namorados. E só por causa disso não deixava os trabalhos gerais, no transporte do feno.
E havia ainda esse risco, quase de guerra, quase mortal: por qualquer encontro descoberto, perder um lugar habitual, ou seja, a vida. O amor que envolve grandes perigos, em que se aprofundam e se desenvolvem os caracteres, em que cada polegada é paga com sacrifícios — porque é um amor heróico! Algumas sujeitavam-se a ser manteúdas dos alapados para se salvarem, outras iam para os trabalhos gerais e para a morte, por amor.
* * *
Mas não são apenas os vigilantes e a direção que podem separar os esposos do campo. O Arquipélago é de tal modo um mundo às avessas, que o homem e a mulher são separados por aquilo que mais solidamente os deveria unir: o nascimento de um filho. Um mês antes do parto, a mulher grávida é transferida para outro campo, onde há um hospital com um sector de maternidade e onde as vozinhas impetuosas gritam que não querem ser presidiárias pelos pecados dos pais. Depois do parto, a mãe é enviada para um campo próximo, especial para mãezinhas, as mamki.
Aqui devemos interromper-nos. Aqui é impossível não nos interrompermos. Quanta auto-derisão há naquela palavra! A linguagem dos presidiários gosta muito de sufixos depreciativos e aplica-os com obstinação: não é mat (mãe), mas mamka; não bolnitsa (hospital), mas bolnitchka; não svidanie (encontro), mas svidanka; não pomilovánie (perdão), mas pomilovka; não jenítsa (casar-se), mas podjenítsa — a mesma zombaria, embora seja um sufixo.
E assim, no seu campo, as mãezinhas vivem e trabalham à espera de que as conduzam dali sob escolta para dar de mamar aos nativos recém-nascidos. Entretanto a criança já não está no hospital, mas na «cidade infantil» ou na «casa da criança», como lhe chamam em diferentes lugares. Depois de acabado o período de aleitamento, nunca mais permitem às mães encontrarem-se com eles — a não ser a título excecional «por trabalho e disciplina exemplares». Mas também no antigo campo, na maior parte dos casos, a mulher não volta ao seu «marido». E o pai nunca mais vê o seu filho, enquanto estiver no campo. As crianças, depois do desmame, ainda ficam na cidade infantil durante um ano, por vezes mais. Algumas não conseguem, sem a mãe, adaptar-se à alimentação artificial e morrem. As crianças que sobrevivem são enviadas ao fim de um ano para um orfanato normal. Assim, o filho de uma indígena e de um indígena sai do Arquipélago, não sem a esperança de lá voltar como menor.
As pessoas que estudaram este assunto dizem que não é frequente a mãe, depois da libertação, ir buscar o filho ao orfanato (as criminosas comuns nunca o fazem) — tal é a maldição que pesa sobre muitas dessas crianças, que pela primeira vez encheram os seus pequenos pulmões com o ar infecto do Arquipélago. Outras recuperam-nos e até antes de saírem em liberdade mandam buscá-los por algumas avós (sem dúvida religiosas).
As mães originárias da Ucrânia ocidental, e por vezes também as russas dos meios não intelectuais, arranjavam maneira de batizar os seus filhos (isto nos anos do pós-guerra). A cruz para o batismo era enviada do exterior habilmente dissimulada nas encomendas (os vigilantes não deixariam entrar coisas tão contrarrevolucionárias), ou era encomendada, a troco de pão, a algum presidiário habilidoso. Obtinham também a fita para a cruz, costuravam a camisinha de cerimónia e a touquinha. Poupavam o açúcar das rações, faziam com ele um bolo minúsculo — e convidavam as amigas mais próximas. Havia sempre uma mulher que recitava a oração, mergulhavam a criança em água morna, benziam-na e a mãe radiante convidava para a mesa.
* * *
Tudo o que foi dito até agora refere-se aos campos mistos, com presos dos dois sexos, como existiram desde os primeiros anos da revolução até ao fim da Segunda Guerra mundial.
Mas em 1946 começou no Arquipélago a completa separação de homens e mulheres, concluída em 1948. Dispersavam-nos por ilhas diferentes, e numa mesma ilha estendiam entre as zonas masculina e feminina um amigo com provas dadas — o arame farpado.
Se antes da separação havia concubinato, casamento do campo ou mesmo amor, Eros ficava agora desatinado. Na falta de outras esferas, ele refugiava-se ou muito alto, na correspondência platónica, ou demasiado baixo, no amor homossexual.
Os bilhetes atiravam-se de zona para zona, eram deixados na fábrica em lugares combinados. Escreviam-se neles endereços codificados: de modo que, se um vigilante os intercetasse, não pudesse compreender de quem vinham e a quem se dirigiam. (A troca de correspondência dava encarceramento na prisão do campo.)
Por vezes conheciam-se mesmo só por correspondência, sem nunca se verem um ao outro; e separavam-se sem nunca se terem visto. (Quem travou essa correspondência conhece-lhe a desesperada doçura, a desesperança e a cegueira.) Naquele mesmo campo de Kenguir as lituanas casavam-se por cima do muro com compatriotas seus que nunca conheceram: o padre (um presidiário como os outros, vestido com a mesma farpela) certificava por escrito que fulana e fulano estavam para sempre unidos perante o céu. Nessa união com o preso desconhecido para lá do muro — e para as católicas essa união era irreversível e sagrada — eu ouço um coro de anjos. É como a contemplação desinteressada dos astros do céu. É uma coisa demasiado elevada para o século do cálculo mesquinho e do jazz saltitante.
Um dos primeiros conceitos indígenas que o recém-chegado ao campo fica a conhecer é o de alapado. Era assim rudemente que os indígenas designavam aqueles que conseguiam não partilhar a sorte comum dos condenados: ou se afastaram dos gerais, ou nunca fizeram parte deles.
Havia muitos alapados no Arquipélago. Segundo a estatística do Comissariado do Povo da Justiça de 1933, o pessoal de serviço nos locais de privação da liberdade, é certo que incluindo a autovigilância, constituía 22% do número total dos indígenas. Se baixarmos esse número para 17-18% do número total (sem a autovigilância), será mesmo assim um sexto do total. Mas os alapados eram muito mais do que um sexto: porque aqui contam-se apenas os alapados das zonas, mas há ainda os da produção. E mais importante: entre os sobreviventes, entre os que foram libertados, os alapados constituem uma parte considerável; e entre os sobreviventes das longas condenações do artigo Cinquenta e Oito, penso que serão uns nove décimos.
Porque, é preciso não esquecer, trata-se de campos de extermínio.
Qualquer classificação das coisas da vida não tem fronteiras nítidas, mas apenas passagens graduais. Também aqui é assim: as extremidades são imprecisas. De um modo geral, qualquer um que não saísse da zona habitacional para o dia de trabalho podia considerar-se um alapado da zona. Um trabalhador dos serviços de intendência vive já bastante melhor do que um trabalhador comum: não vai para a formatura, e portanto pode levantar-se mais tarde e tomar o pequeno-almoço; não tem de fazer o trajeto de ida e volta sob escolta até ao local de trabalho, sofre menos severidade, menos frio, menos desgaste de forças; a sua jornada de trabalho termina mais cedo, trabalha no quente ou tem sempre acesso ao aquecimento. Além disso o seu trabalho, que habitualmente não é de equipa, é um trabalho de mestre especializado e portanto não ouve incitamentos dos colegas, mas apenas do chefe. E como muitas vezes faz qualquer coisa a pedido pessoal desse chefe, em vez de ser importunado ainda consegue algumas migalhas, algumas indulgências, autorização para ser dos primeiros a receber calçado e roupa. Tem também a possibilidade de ganhar alguma coisa por encomenda de outros presidiários. Para sermos mais claros: o serviço de intendência é como que o sector de artesãos entre a criadagem senhorial. Se entre eles houver um serralheiro, um carpinteiro, um construtor de fornos, que ainda não estejam inteiramente alapados, um sapateiro e mais ainda um alfaiate — esses são já alapados de primeira categoria.
Enfermeira, ajudante de enfermeira, lavadora de loiça, fogueiro e trabalhador dos banhos, simples padeiros, plantões nas barracas — são também alapados, mas de categoria mais baixa. Têm de trabalhar com as suas mãos, e por vezes muito. De resto, todos eles comem até matar a fome.
Os verdadeiros alapados da zona são: cozinheiros, cortadores de pão, encarregados de armazém, médicos, enfermeiros, cabeleireiros, «educadores» da secção cultural e educativa, chefe dos banhos, chefe da padaria, chefes de depósitos, chefe da secção de encomendas, responsáveis dos barracões, administradores, membros do serviço de ordem, contabilistas, escriturários do barracão do comando, engenheiros da zona e da intendência. Todos estes não só andam bem alimentados, não só andam limpos, não só estão livres de carregar pesos e dobrar a espinha, como têm também um grande poder sobre aquilo de que as pessoas precisam e portanto poder sobre as pessoas. Todos os destinos dos que chegam e dos transferidos, todos os destinos dos simples trabalhadores são decididos por esses alapados.
É difícil, muito difícil para o acomodado de zona ter a consciência limpa.
Os alapados da produção são os engenheiros, técnicos, mestres de obras, capatazes, chefes de oficina, planificadores, apontadores, e também os contabilistas, as secretárias e dactilógrafas. Distinguem-se dos alapados da zona por terem de participar na formatura e na revista, e porque se deslocam em coluna sob escolta (por vezes sem escolta). Mas têm na produção uma posição privilegiada, que não lhes exige provas físicas extenuantes. Pelo contrário, de muitos deles dependem o trabalho, a alimentação e a vida dos simples trabalhadores. Embora menos ligados à zona de habitação, procuram defender à força, também aqui, a sua posição e obter uma parte significativa das mesmas vantagens dos alapados da zona, ainda que nunca consigam igualar estes últimos.
No campo vivem habitualmente quase como os outros trabalhadores, estão muitas vezes integrados nas brigadas de trabalho, só a zona de produção é para eles um lugar quente e tranquilo, e é aí que, nos gabinetes e cabines que ficaram sem trabalhadores livres, eles se afastam do trabalho para o Estado e conversam sobre a vida, os tempos de pena, o passado e o futuro, e principalmente sobre os boatos segundo os quais os do Cinquenta e Oito (eles próprios, na sua maioria são escolhidos de entre os do Cinquenta e Oito) em breve serão enviados para os gerais.
Mas não seria justo, de modo nenhum, acusar os alapados da produção de «engordarem à nossa custa», de «serem um peso»: o trabalho dos simples trabalhadores não era remunerado, é certo, mas isso não era para pagar aos alapados, porque o trabalho destes também não era remunerado — ia tudo para o mesmo buraco.
Porque houve, sim, houve homens de clara inteligência que contornaram a arbitrariedade do campo, que ajudaram a organizar a vida comum de tal maneira que não morressem todos, heróis do Arquipélago que compreendiam a sua função, não como meio de alimentar as suas pessoas, mas como um encargo e um dever para com a massa dos presidiários — homens a quem a língua se recusa a chamar «alapados». E esses homens encontravam-se principalmente entre os engenheiros. Glória lhes seja!
Sem glória para os restantes. Não há motivo para os erguer num pedestal.
Para recusar qualquer «arranjo» no campo e deixar que as forças da gravidade nos arrastassem para o fundo — era preciso ter uma alma muito serena, uma consciência muito lúcida, ter cumprido já a maior parte da pena e também, por certo, receber encomendas de casa — porque de outro modo era o completo suicídio.
Como diz, entre grato e culpado, o velho veterano dos campos Dmitri Serguéievtch Likhatchov: se estou vivo hoje, isso quer dizer que numa noite qualquer fuzilaram outro qualquer da lista em meu lugar; se hoje estou vivo, quer dizer que outro qualquer sufocou em meu lugar no fundo da prisão; se estou vivo hoje, significa que consegui aqueles duzentos gramas a mais de pão que faltaram ao que morreu.
Tudo isto foi escrito não como uma censura. Neste livro já foi assumido e sê-lo-á até ao fim: todos os que sofreram, todos os oprimidos, todos os que foram colocados diante de uma opção cruel, é melhor justificá-los do que acusá-los. O mais justo será justificá-los.
Mas neste mundo sinistro, em que cada qual atormenta quem pode; em que a vida e a consciência de um homem se compram por uma ração de pão mal cozido — neste mundo, o que eram e onde estavam os políticos, portadores da honra e da luz de todas as populações prisionais da história?
Já vimos como os «políticos» foram segregados, sufocados, exterminados.
Mas para os substituir?
Substituir como? Desde então já não temos políticos. Nem os podemos ter. Quais «políticos», se temos instituída a justiça universal? Suprimiram-se simplesmente os políticos. Não os há nem haverá!
E aqueles que são presos, bem, esses são KR (contrarrevolucionários), inimigos da revolução. Com o passar dos anos, a palavra «revolução» ficou um pouco estiolada, está bem, pois que sejam inimigos do povo, soa ainda melhor. (Se contarmos, pela análise que fizemos das nossas Torrentes, todos os presos ao abrigo desse artigo, e acrescentarmos ainda multiplicado por três o número de membros das famílias desterrados, suspeitos, humilhados e perseguidos, teremos de reconhecer com espanto que pela primeira vez na história o povo se tornou inimigo de si próprio.)
É conhecida uma anedota dos campos segundo a qual uma mulher condenada durante muito tempo não compreendera por que razão no tribunal o procurador e o juiz lhe chamavam «miliciana a cavalo» (konni militsioner) em vez de « contrevolucioner», (contrarrevolucionária!). Depois de estar preso e observar os campos, pode-se reconhecer esta anedota como história verdadeira.
Um alfaiate, ao pôr de lado uma agulha para não a perder, espetou-a num jornal colado na parede e acertou num olho de Kaganovitch. Um cliente viu. Artigo 58, 10 anos (terrorismo).
Uma vendedora, ao receber material de um fornecedor, ia-o registando numa folha de jornal, porque não tinha outro papel. O número de barras de sabão calhou na testa do camarada Estaline. Artigo 58, 10 anos.
Um tratorista a conduzir um trator da estação de máquinas e tratores de Znamensk forrou as suas fracas botas com panfletos sobre um candidato ao Soviete Supremo, e uma mulher da limpeza deu pela falta (era a responsável pelos panfletos e descobriu quem os tinha). Propaganda contrarrevolucionária, 10 anos.
Um pastor irritado pragueja contra uma vaca desobediente chamando-lhe «puta do kolkhoze» — artigo 58. Pena de prisão.
Um carpinteiro surdo-mudo apanha também uma pena de prisão por propaganda contrarrevolucionária! De que maneira? Estava a colocar o soalho no clube. Tinham retirado tudo da grande sala, e não havia um prego, nem um gancho. Enquanto trabalhava, colocou o casaco e o boné sobre o busto de Lenine. Alguém entrou, viu. Artigo 58, 10 anos.
Em vésperas da guerra, no campo do Volga, havia muitos velhos analfabetos das aldeias das regiões de Tula, Kaluga e Smolensk. Todos eles apanharam o artigo 58-10, ou seja propaganda antissoviética. E quando tinham de assinar, faziam uma cruz. (Relato de Loschilkin.)
E já depois da guerra, estive num campo com um tal Maksimov, de Vetluga. Desde o início da guerra tinha servido numa unidade de artilharia antiaérea. No Inverno, o responsável político reunia-os para discutirem o editorial do Pravda (16 de janeiro de 1942: «Rebentemos com o alemão durante o Inverno, de tal maneira que na Primavera ele não possa levantar-se!». Também Maksimov foi convidado a manifestar-se. E disse: «Isso é correto! É preciso expulsá-lo, esse canalha, enquanto há nevasca, enquanto ele está sem botas de feltro, embora nós também andemos por vezes de sapatos. Porque na Primavera será pior, com o material que ele tem…» Até o responsável político aplaudiu, como se tudo estivesse bem. Mas no Smerch convocaram-no e pregaram-lhe oito anos — por «elogiar o material alemão», artigo 58-10.
A garotada divertia-se no clube e com as costas arrancaram um qualquer cartaz colado na parede. Os dois mais velhos apanharam pena de prisão pelo artigo 58. (Por um decreto de 1935 eram responsáveis pelos seus crimes a partir da idade de doze anos!)
Absurdo? Cruel? Insensato? Nada disso. É o «terror como meio de persuasão». Há um ditado que diz: mata a pega e o corvo — acabarás por matar o cisne branco!
No Arquipélago, as pessoas gostam de dizer por gracejo que nem todos os artigos do Código Penal são acessíveis. Um ou outro gostaria de infringir a lei sobre a proteção da propriedade socialista, mas não o deixam chegar a ela. Outro, sem um estremecimento, praticaria um desfalque — mas não consegue um emprego como caixa. Até o próprio artigo 58 não é assim tão acessível: como podes ligar-te à burguesia mundial segundo o parágrafo «4», se vives em Kanthi-Mansiisk? Como podes minar a indústria do Estado e os transportes, segundo o parágrafo «7», se trabalhas como cabeleireiro? Mas o parágrafo 10 do artigo 58 está ao alcance de todos. Está ao alcance dos velhos decrépitos e dos alunos de doze anos. Está ao alcance dos casados e dos solteiros, das grávidas e das virgens, dos desportistas e dos aleijados, dos bêbedos e dos sóbrios, dos visuais e dos cegos. Pode-se ganhar o parágrafo 10 com o mesmo sucesso num dia de trabalho, num domingo, no emprego e em casa, numa estação do metro, numa densa floresta, num intervalo do teatro ou durante um eclipse solar.
Reúnov e Tretiukhin, comunistas, começaram a agitar-se, como se uma vespa lhes picasse no pescoço, com o grande atraso na convocação do congresso, em violação do estatuto (como se isso fosse da conta deles!…). Apanharam dez cada um.
Faina Efímovna Epstein, espantada com os crimes de Trotski, perguntou numa reunião do partido: «Porque é que o deixaram sair da URSS?» (Como se o partido tivesse de lhe prestar contas a ela. Mas talvez Iossif Vissariónovitch se mordesse de raiva!) Por essa pergunta inadequada apanhou merecidamente e (cumpriu) três períodos de pena. Embora nenhum dos investigadores e procuradores fosse capaz de lhe explicar qual era a culpa dela.
Mas a proletária Grucha deixa-nos simplesmente pasmados com a gravidade dos seus crimes. Durante vinte e três anos trabalhou numa fábrica de vidros e nunca os vizinhos viram ícones em casa dela. Mas antes da chegada dos alemães àquela localidade, ela pendurou ícones (deixou simplesmente de ter medo, porque as pessoas eram perseguidas por terem ícones) e, o que foi especialmente assinalado pela investigação, por denúncia das vizinhas — lavou o chão! (E os alemães não chegaram.) Além disso, apanhou perto da sua casa um prospeto alemão com uma bonita imagem e meteu-o numa jarra da sua cómoda. E no entanto, o nosso tribunal humano, tendo em consideração a origem proletária de Grucha, deu-lhe apenas oito anos de campo e três anos de privação de direitos. E entretanto o marido dela morreu na frente de batalha. A filha estudava numa escola técnica, mas o serviço de pessoal não parava de lhe perguntar: «Onde está a tua mãe?» — e a rapariga envenenou-se. (Quando chegava à morte da filha, Grucha não conseguia contar mais nada — começava a chorar e ia-se embora.)
Exclamarão que todo este rol é monstruoso? Despropositado? Que nem é possível acreditar? Que a Europa não acreditará?
A Europa certamente não acreditará.
Nem nós acreditaríamos, de maneira nenhuma, há cinquenta anos.
* * *
Na Rússia de antes, os políticos e as pessoas comuns eram dois polos opostos da população. Era impossível encontrar maneiras de viver e de pensar mais diferentes uma da outra.
Na URSS começaram a reunir os homens comuns como «políticos».
E por isso os políticos igualaram-se às pessoas comuns.
Metade do Arquipélago eram condenados pelo artigo Cinquenta e Oito. Mas não havia políticos… Neste Cinquenta e Oito caía qualquer um contra o qual não se achava de imediato um artigo de direito comum. Era uma misturada e uma confusão inimaginável.
O artigo Cinquenta e Oito tornava-se cada vez mais cinzento e acanhado, perdia qualquer significado político e transformava-se num rebanho perdido de pessoas perdidas.
«Pessoa inocente!» — é a principal sensação desses sucedâneos de políticos que foram deportados para os campos. Este é provavelmente um acontecimento inaudito na história mundial das prisões: quando milhões de presidiários têm consciência de que estão inocentes, todos inocentes e que ninguém é culpado. No entanto, essas multidões de pessoas casualmente expedidas para trás do arame farpado, não pela lógica das suas convicções, mas por um golpe do destino, não se fortaleceram de modo nenhum pela consciência da sua inocência, não mostraram uma disposição para o sacrifício, nem unidade, nem espírito combativo.
Ao encontrar-se num campo comum em 1938, E. Olitskaia observou com espanto, com os seus olhos de socialista que já conhecera as Solovki e os calabouços de isolamento, o espetáculo daqueles Cinquenta e Oito. Tanto quanto se recordava, em tempos, os presos políticos partilhavam tudo, mas agora cada qual vivia e comia por si, e até os «políticos» traficavam com as roupas e as rações de comida!…
Escória política — foi como Anna Skripnikova lhes (nos) chamou.
Constantemente misturados com os bandidos e delinquentes, os nossos Cinquenta e Oito nunca eram deixados sozinhos — para que não se olhassem uns aos outos nos olhos e não tomassem de repente consciência — quem somos nós?
* * *
No entanto, devido a uma importante particularidade da vida, já assinalada pela doutrina de Tao, devemos esperar, no momento em que os políticos desaparecerem, que eles voltem a aparecer.
Arrisco-me agora a dizer que nos tempos soviéticos os políticos não só existiam, como:
1) Eram mais do que no tempo dos czares, e
2) eles mostraram uma firmeza e uma coragem maiores do que os anteriores revolucionários.
Isto parece contraditório com o que foi dito antes, mas não é. No tempo da Rússia czarista, os políticos estavam numa posição muito vantajosa, eram muito conhecidos, com repercussões momentâneas na sociedade e na imprensa. Na Rússia Soviética os socialistas tiveram dificuldades incomparavelmente maiores.
E agora nem só os socialistas eram políticos. Mas, despejados aos baldes num oceano de presos comuns, não os víamos nem os ouvíamos. Eram mudos. Mais mudos do que todos os outros. Peixes — era a imagem deles.
Peixes, o símbolo dos cristãos primitivos. E os cristãos eram o seu principal destacamento. Toscos, pouco instruídos, incapazes de proferir um discurso numa tribuna, ou de redigir um apelo clandestino (coisa de que, segundo a sua fé, não necessitavam), iam para os campos para o tormento e a morte — só para não renegarem a sua fé! Sabiam muito bem por que estavam presos, e eram inabaláveis nas suas convicções! Eram talvez os únicos a quem não se impunham nem a filosofia, nem sequer a linguagem dos campos. Pois não serão eles políticos? Escória é que não se lhes pode chamar.
E as mulheres eram particularmente numerosas entre eles. Segundo Tao, quando a fé se desmorona é que surgem os verdadeiros crentes. Por trás das zombarias esclarecidas aos sacerdotes ortodoxos, por trás dos miados dos membros do Komsomol na noite da Páscoa e dos assobios dos ladrões nas prisões de trânsito — nós não víamos que na pecadora igreja ortodoxa cresciam apesar de tudo as filhas dignas dos primeiros séculos do cristianismo — irmãs daquelas que eram atiradas aos leões nas arenas.
Os cristãos foram uma multidão, levas e ossários, levas e ossários, quem contará esses milhões? Morreram incógnitos, alumiando apenas, como vela, aqueles que lhes eram mais próximos. Eram os melhores cristãos da Rússia. Todos os piores tremeram, renegaram ou esconderam-se.
Isto não faz com que sejam mais? Pois alguma vez a Rússia czarista conheceu tantos políticos? Ela que não sabia contar nem dezenas de milhares.
E os engenheiros? Quantos deles, por se recusarem a assinar estúpidas e infames confissões de sabotagem, foram dispersos e fuzilados?
Um dia os historiadores hão de estudar esta questão: a partir de que momento começou a surgir no país um fiozinho de juventude política? Eu acho que foi a partir de 1944-1945. Praticamente uns colegiais (lembremos o «partido democrático» de 1944), de repente lembraram-se de procurar uma plataforma diferente daquela que lhes propunham à força, que lhes metiam debaixo dos pés. Que outra designação lhes dar, se não «políticos»?
Em 1950, estudantes do instituto mecânico de Leninegrado fundaram um partido com programa e estatutos. Muitos deles foram fuzilados. Isto foi contado por Aron Lévin, que apanhou vinte e cinco anos. E é tudo o que se sabe, um pequeno marco à beira da estrada.
E que os políticos nossos contemporâneos precisam de uma firmeza e de uma coragem incomparavelmente maiores do que antes da revolução, nem é preciso demonstrar. O que custava a colagem de um panfleto antes da revolução? Um divertimento, como perseguir pombos, não te davam nem três meses de prisão. Mas quando cinco rapazes do grupo de Vladimir Guerchuni preparam um panfleto: «o nosso governo desconsiderou-se» —, isso exigia deles a mesma determinação que aos cinco rapazes do grupo de Aleksandr Uliánov para o atentado contra o czar.
E como isso se inflama espontaneamente, como desperta por si mesmo! Na cidade de Leninsk-Kusnetsk, há uma única escola masculina. Depois de entrarem na nona classe, cinco rapazes (Micha Bakst, responsável do Komsomol; Tólia Tarantin, também ele ativista do Komsomol; Velvet Raikhtnal, Nikolai Kóniev e Iuri Anikonov) perdem a sua indiferença. Não se inquietam por causa das raparigas, nem das danças modernas; observam a selvajaria e a embriaguez na sua cidade e repisam, folheiam o seu manual de história, tentando de algum modo estabelecer ligações, fazer comparações. Ao passarem para a décima classe, antes das eleições para os sovietes locais (em 1950), escreveram em letra de imprensa o seu primeiro (e último) panfleto rudimentar:
«Escuta, operário! A vida que nós vivemos agora será aquela por que lutaram e morreram os nossos avós, os nossos pais e irmãos? Trabalhamos e recebemos salários de miséria, e mesmo esses com dificuldade… Lê e medita na tua vida…»
Eles próprios não fazem mais do que meditar, e por isso não apelam a coisa nenhuma. (Planeavam um ciclo de panfletos do mesmo género e elaboraram eles próprios um copiógrafo.)
Colavam-nos do seguinte modo: iam em grupo pela cidade, de noite, um deles colava quatro bolinhas de miolo de pão, o outro fixava nelas o panfleto.
No início da Primavera apareceu na aula um novo pedagogo que propôs… o preenchimento de um inquérito em letra de imprensa. O diretor da escola implorou que não os prendessem antes do final do ano escolar. Detidos e já sob instrução do processo, o que esses rapazinhos mais lastimavam era não estarem presentes na sessão de fim do curso. «Quem é que vos dirigia, confessem!» (Os tchekistas não acreditavam que aos rapazes se lhes tivesse aberto a simples consciência — tratava-se afinal de um caso extraordinário, pois se só temos uma vida, para quê levantar questões?) Calabouços, interrogatórios noturnos, estátua. Julgamento fechado (pois claro) no tribunal regional. (O juiz, Púchkin, condenado pouco mais tarde por concussão.) Uns advogados de defesa lastimáveis, os juízes assessores desnorteados, um procurador Trutner ameaçador. Apanharam todos dez e oito anos, aos dezassete anos de idade — em campos especiais.
O ditado renovado não mente: procura o corajoso na prisão, e o estúpido entre os instrutores políticos!
Sim, houve verdadeiros políticos. E muitos. E sacrifícios.
Mas por que foram tão insignificantes os resultados da sua oposição? Porque é que não deixaram sequer pequenas bolhas à superfície?
Também examinaremos isso. Mais tarde.
Mas ouço um rumor de vozes indignadas. Esgotou-se a paciência dos camaradas! Fecham o meu livro, cospem-lhe em cima, deitam-no fora:
— Afinal de contas isto é uma desfaçatez! Uma calúnia! Onde vai ele buscar esses verdadeiros políticos? Sobre quem escreve ele? Sobre alguns popes, alguns tecnocratas, alguns escolares ranhosos… Mas os verdadeiros políticos somos nós! Nós, os inabaláveis! Nós os ortodoxos, os cristalinos (Orwell chamava-lhes bem-pensantes[61]). Nós, que nos campos permanecemos, até ao fim, fiéis ao único justo…
A julgar pela nossa imprensa, foram vocês os únicos que estiveram presos. Só vocês sofreram. Só acerca de vocês é permitido escrever. Pois bem, vamos lá.
Concordará o leitor com o seguinte critério: os presos políticos são aqueles que sabem por que estão presos e se mantêm firmes nas suas convicções?
Se concorda, aqui está a resposta: os nossos inabaláveis, aqueles que apesar da sua prisão pessoal se mantiveram fiéis à única via justa, etc., são firmes nas suas convicções, mas não sabem por que motivo estão presos! E por isso não podem considerar-se presos políticos.
Se o meu critério não é bom, tomemos o critério de Anna Skripnikova, que nos seus cinco períodos de pena teve tempo para pensar nele. Ei-lo: «O preso político é aquele que tem convicções cuja rejeição lhe permitiria obter a liberdade. Quem não tem essas convicções é escória política.»
Em minha opinião, não é mau critério. Ele abrange todos os perseguidos pela sua ideologia, de todos os tempos. Abrange todos os revolucionários, e também todas as «monjas», mas não abrange os ortodoxos. Porque: onde estão essas convicções a que os obrigam a renunciar?
Não existem. E portanto, por mais vexatório que seja dizê-lo, eles pertencem, tal como o alfaiate, o surdo-mudo e o pastor, à categoria das vítimas impotentes que não compreendem. Mas com arrogância.
* * *
Sejamos precisos e definamos o objeto. De que tratará este capítulo?
Talvez de todos aqueles que, a despeito da sua prisão, dos vexames da instrução, da injusta condenação e da corrosiva existência nos campos, a despeito de tudo isso mantiveram a consciência de comunistas?
Não, não de todos esses. Entre eles havia pessoas para quem essa fé comunista era interior, por vezes o único sentido para o que lhes restava de vida, mas:
— não se orientavam por ela para uma atitude «de partido» para com os seus camaradas de reclusão, não lhes gritavam, nas discussões das celas e dos barracões, que os outros estavam presos «justamente» (mas eu estou injustamente);
— não se apressavam a ir declarar ao cidadão-chefe (e ao delegado operacional) «eu sou comunista», não usavam essa fórmula para sobreviver no campo;
— e agora, ao falar do passado, não veem como principal e única arbitrariedade o facto de haver comunistas presos, e os outros que se lixem.
Em suma, aqueles para quem as suas convicções de comunistas eram íntimas e não para andar constantemente a apregoá-las.
Vejamos, por exemplo, Avenir Boríssov, um professor de aldeia: «Lembram-se da nossa juventude (eu nasci em 1912), em que o cúmulo da felicidade para nós era o fato verde de pano grosseiro de “Jungsturm” com cinturão e boldrié, não ligávamos ao dinheiro nem a nada do que era (fosse) pessoal, e estávamos prontos a fazer tudo, desde que nos chamassem. Eu estive no Komsomol desde os treze anos. E quando tinha apenas vinte e quatro, os órgãos do NKVD acusaram-me de quase todos os parágrafos do artigo 58.»
Ou Bóris Mikhailovitch Vinográdov, com quem estive preso. Na sua juventude foi maquinista, depois da faculdade operária e do instituto tornou-se engenheiro ferroviário, um bom engenheiro (na charachka executava complexos cálculos da dinâmica dos gases na turbina de um motor de reação). Na verdade, em 1941 achou-se secretário da organização comunista no Instituto de Engenharia Ferroviária de Moscovo. Nos dias do pânico (16 e 17) de outubro de 1941, em busca de orientações, pôs-se a fazer telefonemas — os telefones estavam mudos, ele deslocou-se e descobriu que não havia ninguém no comité do distrito, nem no da cidade, nem do da região. Voltou para junto dos seus e disse: «Camaradas! Todos os dirigentes fugiram. Mas nós somos comunistas, vamos defender-nos com os nossos meios!» E defenderam-se. Mas por aquele «fugiram todos», aqueles que fugiram meteram-no a ele, que não fugiu, na prisão durante oito anos (por «propaganda antissoviética»). Era um trabalhador sossegado, um amigo abnegado e só numa conversa íntima dizia que acreditava e sempre acreditaria. Nunca fazia ostentação disso.
Ou tomemos o caso do geólogo Nikolai Kallistratovitch Govorko, que, quase morto de inanição em Vorkuta, compôs uma Ode a Estaline (que ainda hoje se conserva), não para publicação, não para com ela obter alguma vantagem, mas porque lhe fluía da alma. E escondeu essa ode na mina (embora, escondê-la para quê?).
Por vezes essas pessoas conservam as suas convicções até ao fim.
Por vezes (como Kovacs, um húngaro de Filadélfia que num grupo de 39 famílias veio fundar uma comuna perto de Kakhovka, preso em 1937), depois da reabilitação recusam-se a receber o cartão do partido.
Neste capítulo não analisaremos nem os primeiros, nem os segundos.
Analisaremos aqui precisamente aqueles ortodoxos que exibiam a sua convicção ideológica primeiro ao instrutor do processo, depois nas celas da prisão, depois no campo a todos e a cada um, sendo com essas cores que agora recordam o seu passado nos campos.
Por uma estranha seleção, esses não serão já trabalhadores de base. Antes da prisão ocupavam habitualmente postos elevados, uma posição invejável, e para eles o mais penoso no campo era aceitar serem aniquilados, procuravam com o maior afinco elevar-se o mais possível acima do zero geral. Aqui cabem todos os instrutores de processos, todos os procuradores e chefes de campos que foram parar atrás das grades.
Compreendamo-los, não escarneçamos deles. Para eles era doloroso cair. «Ao cortar o bosque, saltam taliscas» — era o seu ditado justificativo. E de repente eles próprios eram cortados e saltavam em taliscas.
Dizer que isso era doloroso para eles é não dizer quase nada. Para eles era insuportável sofrer semelhante golpe, semelhante esmagamento da parte dos seus, do seu querido partido, e com toda a evidência, por coisa nenhuma. Pois não eram culpados de nada perante o partido.
Vejamos que tipo de pessoas eram. Já tinham detido o marido de Olga Sliozberg e vieram fazer uma rusga em casa e detê-la a ela. A rusga durou quatro horas — e durante essas quatro horas ela esteve a pôr ordem nos protocolos dos stakhanovistas da indústria das escovas, onde um dia antes ainda era secretária. A falta de ordem nos protocolos preocupava-a mais do que os filhos que ia deixar para sempre! Até o instrutor do processo que dirigia a busca não suportou e aconselhou-a: «Mas despeça-se dos seus filhos!»
Eis que tipo de pessoas eram. Elizaveta Tsvetkova, que cumpria a pena na prisão de Kazan em 1938, recebeu uma carta da filha de quinze anos: «Mamã! Diz-me, escreve-me — és culpada ou não?… Eu prefiro que tu não sejas culpada e nesse caso não entro para o Komsomol e não perdoo o que te fizeram. Mas se és culpada, nunca mais te escrevo e hei de odiar-te». E a mãe, cheia de remorsos na cela húmida com uma lâmpada mortiça: como vai a filha viver sem o Komsomol? Como há de ela odiar o poder soviético? Mais vale que me odeie a mim. E escreve: «Sou culpada… Entra para o Komsomol».
Como não havia de ser penoso! É insuportável para o coração humano: cair sob um machado que lhe é caro e achar razões para o justificar.
Mas isso é o que o homem paga por confiar a alma, que lhe foi confiada por Deus, a um dogma criado pelo homem.
Mesmo agora, qualquer ortodoxo confirmará que Tsvetkova procedeu bem. Ainda hoje não é possível convencê-los de que isso é «escandalizar esses pequeninos» (Marcos, 9-42) e que a mãe escandalizou a filha e a feriu na alma.
* * *
Antes de 1937, essas pessoas nunca eram presas. E depois de 1938 poucas foram presas. Por isso lhes chamam a «colheita de 37» e bem pode ser assim, desde que isso não obscureça o quadro geral, em que mesmo nos meses mais movimentados não os prendiam apenas a eles, mas continuava o mesmo desfile de mujiques, de operários, de jovens, de engenheiros e técnicos, de agrónomos, de economistas e de simples crentes.
A «colheita de 37», muito loquaz, com acesso à imprensa e à rádio, criou a «lenda de 1937».
No início do nosso livro já indicámos o volume das torrentes que afluíam ao Arquipélago nas duas décadas anteriores a 1937. E o tempo que isso durou! E quantos milhões de pessoas! Mas os da futura colheita de 1937 não mexeram uma palha, ficaram sossegados enquanto encarceravam a sociedade. Mas quando começaram a prender a sua comunidade, «ferveu revoltada a sua razão»[62].
Claro que era de ficar aturdido! Claro que era um absurdo difícil de assimilar! Nas celas, interrogavam-se febrilmente:
— Camaradas! Não sabem quem foi que deu um golpe de Estado? Quem tomou o poder na cidade?
E muito tempo depois, convencidos da irreversibilidade, suspiravam e gemiam: «Se Ilitch fosse vivo, isto nunca aconteceria!»
(E isto era o quê? Pois não tinha isto acontecido antes a outros?)
E qual a saída que eles acharam para si próprios? Que decisão eficaz lhes sugeriu a sua teoria revolucionária? A sua decisão vale bem as suas explicações! Ei-la.
Quantos mais prenderem, mais depressa as altas esferas compreenderão o erro! E por isso é procurar indicar o maior número possível de nomes! Fazer o maior número possível de acusações fantásticas contra os inocentes! Não vão prender todo o partido!
(Mas Estaline não precisava do partido todo, bastava-lhe a cabeça e os veteranos.)
É claro que eles não conservavam na memória a ajuda que pouco antes ainda tinham dado a Estaline para esmagar a oposição, e para os esmagar a eles próprios. Porque Estaline dava às suas vítimas pusilânimes a possibilidade de arriscar, a possibilidade de se insurgirem, e não deixava de sentir algum prazer nesse jogo. Cada detenção de um membro do comité central tinha de ser sancionada por todos os outros! — assim o decidiu o tigre brincalhão. E enquanto decorriam os plenários, as conferências inócuas, circulava pelas fileiras um papel impessoal em que se dizia: chegou-nos material comprometedor para Fulano; e pedia-se que apusessem o seu acordo (ou a discordância!…) para excluir esse Fulano do CC. (E havia ainda alguém a observar se aquele que lia o documento o retinha durante muito tempo). E todos colocavam o visto. Assim, o Comité Central do Partido Comunista (bolchevique) da Rússia fuzilava-se a si próprio.
Lembravam-se ainda menos (e nem sequer a leram nunca) de uma coisa tão velha como a carta do patriarca Tíkhon ao Soviete dos Comissários do Povo, em 26 de outubro de 1918. Apelando à clemência e à libertação dos inocentes, o firme patriarca avisava-os: «Haveis de prestar contas do sangue inocente por vós derramado (Lucas. 11-51), e pois que tomastes a espada, morrereis pela espada (Mateus, 26-52)». Mas então isto parecia ridículo, impossível! Como iam eles nessa altura imaginar que a História apesar de tudo conhece por vezes a represália, uma espécie de voluptuosa justiça tardia, mas escolhe para ela formas estranhas e executores inesperados.
As memórias de E. Guinzburg, na sua parte prisional, fornecem testemunhos íntimos sobre a colheita de 1937. Vejam a cabeçuda Iulia Annenkova a exigir à cela: «Não se atrevam a fazer troça do guarda! Ele representa aqui o poder soviético!» (Hem? Tudo às avessas! Mostrem esta cena por um olho mágico às revolucionárias arrebatadas de uma prisão czarista!)
E em que consiste a alta verdade dos bem-pensantes? Em que a prisão não deve refletir-se na sua conceção do mundo! Nem o campo de trabalhos se deve refletir! Somos marxistas! Somos materialistas! Como é que podemos mudar por termos ocasionalmente vindo parar à prisão?
É esta a sua moral inevitável: estou na prisão sem motivo, portanto sou bom, e todos os outros são inimigos e estão presos justamente.
Vejamos agora V. P. Golitsin, filho de um médico distrital, engenheiro ferroviário. Esteve 140 (cento e quarenta!) dias na cela da morte (teve tempo para pensar!). Depois quinze anos, e depois perpétuo desterro. «No meu cérebro nada mudou. Continuo o mesmo bolchevique sem partido. Ajudou-me a confiança no partido, em que o mal é feito não pelo partido nem pelo governo, mas pela vontade maldosa de algumas pessoas (que análise!), que vêm e vão (parece que não há maneira de se irem…), e tudo o resto permanece…»
Sobre estas pessoas costuma-se dizer: foi a todos os ferradores e voltou por ferrar.
Na nossa era da técnica, uma parte do trabalho dos olhos é feita pelas máquinas fotográficas e pelas células fotoelétricas, o dos ouvidos pelos microfones, pelos gravadores, pelos aparelhos de laser. Mas durante toda a época abrangida por este livro, os bufos eram praticamente os únicos ouvidos da Tcheka.
Nos primeiros anos da Tcheka, tinham como designação funcional colaboradores secretos (para os distinguir dos colaboradores oficiais, pertencentes aos quadros). Como era de uso naquele tempo, a designação foi encurtada para seksot ( sekretnie sotrudniki, informadores), que passou a ser de uso geral. Quem inventou esta palavra não tinha a qualidade de lhe apreender o som torpe. Com o passar dos anos, a palavra ganhou ainda o tom pardo e amarelento do sangue da traição — e tornou-se a palavra mais abjeta da língua russa.
Mas essa palavra era usada apenas em liberdade. O Arquipélago tinha as suas próprias palavras: na prisão «choca», no campo «bufo». Porém, como muitas outras palavras do Arquipélago saíram para a vastidão da língua russa e conquistaram todo o país, também «bufo» se tornou com o tempo uma noção generalizada. Nisso se refletia a unidade e universalidade do próprio fenómeno da bufaria.
Sem ter experiência pessoal e sem refletir bastante sobre isto, é difícil avaliar em que medida a bufaria nos impregna e nos cerca. Do mesmo modo que, sem ter um transístor nas mãos, não sentimos, no campo, numa floresta ou num lago, que passam constantemente através de nós numerosas ondas radiofónicas.
É difícil habituarmo-nos a esta questão constante: quem é aqui o bufo? No nosso apartamento, no nosso pátio, na oficina de relojoeiro, na escola, na redação, na fábrica, no gabinete de construção e até na esquadra de polícia em que trabalhamos. Mas entretanto o seksot é aquela mesma amável Anna Fiódorovna que, como vizinha, veio pedir um pouco de fermento e correu a comunicar, no ponto combinado (pode ser no quiosque, pode ser na farmácia) que em nossa casa vive um forasteiro sem autorização de residência. Pode ser aquele bom rapaz chamado Ivan Nikifórovitch com quem você bebeu duzentas gramas de vodka, e que depois foi informar como você, praguejando, disse que não consegue comprar nada nas lojas, mas que os chefes conseguem tudo por cunhas. Você não conhece o bufo de cara e depois fica espantado com a forma como os Órgãos omnipresentes souberam que enquanto uma multidão cantava a canção à glória de Estaline, você apenas abria a boca e não gastava a voz? Ou que não estava alegre na manifestação do 7 de Novembro? Mas onde estão eles, esses olhos ardentes e penetrantes do bufo? Os olhos do bufo podem ser azuis e langorosos, ou com uma lágrima de velho. Não era forçoso que tivessem um brilho carrancudo e mau? Não espere que seja obrigatoriamente um patife com aspeto repulsivo. Se o alistamento dos bufos fosse completamente voluntário, por entusiasmo, eles nunca seriam muitos (só talvez nos anos 1920).
O recrutamento está no próprio ar do nosso país. No facto de que as coisas do Estado estão sempre acima das do indivíduo. Em que o Pavlik Morózov é um herói*. Em que a denúncia não é uma denúncia, mas uma ajuda àquele que é denunciado.
O lado técnico do recrutamento está acima dos elogios. Infelizmente, as nossas bandas desenhadas policiais não descrevem esses procedimentos. Está um mestre sapateiro no seu cubículo a fazer reparações em objetos de couro. Entra um sujeito simpático que lhe diz: «Não me pode consertar esta fivela?» E em voz baixa: «Agora feche a sua oficina, saia para a rua onde está parado um carro 37-48, abra a porta e entre, que ele o levará aonde é preciso.» (Já se sabe a continuação: «Você é um cidadão soviético? Então deve ajudar-nos. Uma oficina como esta é um excelente ponto de recolha das denúncias de cidadãos. E para um encontro pessoal com um delegado operacional é o apartamento dos Sídorov, 2.° andar, três toques, entre as seis e as oito da tarde.»
O conjunto de instrumentos para o recrutamento é como um conjunto de chaves falsas: n.° 1, n.° 2, n.° 3. N.° 1: «você é cidadão soviético?»: n.° 2: prometer aquilo que a pessoa que se quer recrutar procura, em vão, obter legalmente; n.° 3: apertar num ponto fraco, ameaçar com aquilo que ele mais receia; n.°. 4…
Mas basta apertar apenas um pouco. Convoca-se um certo A. G., de quem já se sabe que é mole de caráter. E de imediato: «Escreva uma lista das pessoas das suas relações com espírito antissoviético.» Ele fica desorientado, hesita: «Não tenho a certeza…» (Não saltou da cadeira, não deu um murro na mesa: «Como é que se atreve?!») — «Ah, não tem a certeza? Nesse caso escreva uma lista das pessoas que garante serem inteiramente soviéticas. Mas atenção, tem de garantir! Se alguma delas tiver sido falsamente atestada, será você também imediatamente preso! Porque é que não escreve?» — «Eu… não posso garantir». — «Ah, não pode? Portanto, sabe que eles são antissoviéticos. Pois então escreva sobre aqueles que conhece!» E o honesto e bom laparoto A. G. sua, e agita-se, e atormenta-se.
A pedra é mais dura que o homem, e até ela se quebra.
Em liberdade há muito mais chaves falsas, porque a vida é mais diversificada. No campo há as mais simples, a vida está simplificada, nua, e as fendas dos parafusos e o diâmetro das cabeças são conhecidos. A n.° 1, é claro, mantém-se: «você é cidadão soviético?» É de muito bom uso contra os bem-pensantes, o desandador nunca resvala, a cabeça cede imediatamente e roda. A n.° 2 também funciona muito bem: a promessa de o dispensar dos trabalhos gerais, arranjar-lhe um lugar na zona, dar mais uma ração de papas, algum dinheiro, uma redução da pena. Tudo isto é a vida, cada um destes degraus é a conservação da vida. (Durante os anos da guerra a bufaria sofreu uma sensível desvalorização: o preço das coisas aumentava, o dos homens baixava. Denunciava-se até por uma onça de mau tabaco.) E o n.° 3 funcionava ainda melhor: vamos tirar-te dos alapados! Vais para os trabalhos gerais! Transferimos-te para um campo disciplinar! Cada degrau destes era um passo para a morte. E aquele que não era atraído para cima por um naco de pão, podia ceder e implorar, se estavam a empurrá-lo para o abismo.
Alguns, não sabendo carpinteirar, gostavam de denunciar. Esses eram fáceis de apanhar. A outros, era preciso lançar-lhes o anzol várias vezes: engoliam o isco. Quem se desculpava que tinha dificuldade em reunir informação, explicavam-lhe: «Dê-nos o que tem, e nós verificamos». — «Mas se não tenho nada a certeza?» — «Nesse caso, será você um verdadeiro inimigo?»
Num dos campos siberianos, U., um homem esclarecido e sem qualquer religião, achou que se defendia deles protegendo-se com Cristo. Era uma coisa sem princípios, mas infalível. E mentiu: «Devo dizer-vos francamente. Tive educação cristã, e por isso é-me impossível trabalhar convosco!»
E pronto! Acabou-se o longo palavreado do tenente! Compreendeu que aquele número estava vazio. «Pois nós precisamos tanto dos seus serviços como o cão de uma quinta pata! — exclamou o tenente, enfadado. — Ponha a sua recusa por escrito! (De novo por escrito.) Escreva assim mesmo, explique isso de Deus!»
A referência a Cristo convinha também ao tenente: nenhum dos tchekistas operacionais o iria censurar por não ter feito mais esforços.
E o leitor imparcial não achará que aquela gente foge do Cristo como os demónios da cruz e do toque de matinas?
Será possível cortar uma cabeça, se já uma vez foi cortada? É possível. É possível arrancar a pele a um homem se já uma vez lha tiraram? É possível!
Tudo isso foi inventado nos nossos campos. Tudo isso foi imaginado no Arquipélago. E não se diga que a brigada foi o único contributo do comunismo para a ciência mundial das punições. E o segundo período de campo, não é um contributo? As torrentes que desaguam no Arquipélago, vindas de fora, não se aquietam ali, não se espraiam amplamente, mas voltam a ser absorvidas pelos canos de novas instruções.
Oh, benditas essas tiranias implacáveis, esses despotismos, esses países bárbaros onde um homem preso já não pode ser preso outra vez! Em que um homem encarcerado já não há mais onde encarcerá-lo. Onde um homem julgado já não é chamado a tribunal. Onde não se pode voltar a condenar um condenado!
Mas no nosso país tudo isso é possível.
A instrução de processos e o tribunal do campo também nasceram nas Solovki, mas ali limitavam-se a fazê-los passar por baixo do campanário e açoitá-los. Foi no tempo dos planos quinquenais e das metástases que em vez da bala na nuca passaram a aplicar o segundo período de pena no campo.
A regeneração das condenações, como a formação dos anéis de uma serpente, é uma das formas de vida do Arquipélago. Enquanto houver gente a mourejar no campo e a ganhar mofo no desterro, continuará sobre as cabeças dos condenados esta negra ameaça: apanhar uma nova pena, antes de terminar a primeira. As segundas penas no campo eram aplicadas todos os anos, mas mais intensamente em 1937-1938 e durante os anos da guerra. (Em 1948-1949 o peso das segundas penas foi transferido para o exterior: deixavam sair alguns que deviam ser julgados de novo ainda no campo, e agora tinham de recuperá-los. A esses chamavam-lhes reincidentes, mas os que não chegavam a sair do campo nem sequer tinham designação.)
E isso ainda era clemência — a clemência da máquina, quando em 1938 davam uma segunda pena no campo sem nova detenção, sem investigação nem tribunal do campo, mas convocavam simplesmente as brigadas à secção de registo e distribuição e mandavam assinar uma nova condenação. Pela recusa de assinar, era o calabouço simples, como ser apanhado a fumar onde não era permitido. E ainda explicavam amavelmente: «Não estamos a dizer que você é culpado de alguma coisa, mas assina em como foi informado.») Em Kolimá davam assim penas de dez anos e em Vorkuta era mesmo mais suave: oito e cinco anos por uma comissão deliberativa especial (OSO). E era inútil debater-se: como se na eterna obscuridade do Arquipélago houvesse alguma diferença entre oito ou dezoito anos, entre dez anos no início e dez anos no fim. A única coisa importante era que o teu corpo não fosse dilacerado e rasgado hoje.
Agora pode-se compreender as coisas deste modo: a epidemia das condenações nos campos, em 1938, era uma diretriz de cima. Foi lá nas altas esferas que acharam que tinham dado até então penas muito curtas, que era necessário aumentar a carga (e fuzilar um ou outro) — e assim assustar os restantes.
Mas à epidemia dos processos nos campos do tempo da guerra acresceu na base uma chamazinha alegre. Que um historiador imagine a respiração desses anos: a frente recua, os alemães cercam Leninegrado, estão perto de Moscovo, em Voronej, no Volga, nos contrafortes do Cáucaso. Na retaguarda há cada vez menos homens, cada figura masculina saudável atrai olhares reprovadores. Tudo para a frente! E só os oficiais dos campos (e os seus irmãos da segurança do Estado) continuam nos seus postos da retaguarda, e quanto mais profundamente na Sibéria e no Norte, mais tranquilamente. Mas é preciso ver as coisas com espírito prático: este é um bem-estar precário. Este lugarzinho é a vida! É a felicidade! Como conservar o seu lugar? Pensamento natural e simples — é preciso mostrar que se é necessário! É preciso provar que sem a vigilância tchekista os campos explodem, são uma caldeira de pez em ebulição! É precisamente aqui, nos campos da tundra e da taiga, que os delegados operacionais refreiam a quinta coluna, retêm Hitler! Este é o contributo deles para a Vitória! Sem se pouparem, mantêm uma investigação permanente e descobrem sempre novas conspirações.
Temos o exemplo em Uct-Vim: forma-se um «grupo insurrecional»: dezoitos pessoas! Queriam, é claro, desarmar a Guarda, tomar-lhe as armas (meia dúzia de espingardas velhas)! — E depois? É difícil imaginar a amplitude dos desígnios: queriam sublevar todo o Norte! Avançar contra Vorkuta, contra Moscovo! Juntar-se a Mannerheim! E voam os telegramas e os relatórios: neutralizada uma grande conspiração! Há agitação no campo!
E o que é isto? Em cada campo descobrem-se conspirações, conspirações e mais conspirações! E cada vez maiores! E cada vez mais ambiciosas! Estes pérfidos famélicos! A fingirem que já mal se aguentam de pé, mas com as suas mãos descarnadas e pelagrosas queriam chegar às metralhadoras! Oh, obrigado, unidade operacional!
* * *
E tu?… Pensavas que no campo se podia finalmente desabafar? Que aqui uma pessoa pode ao menos queixar-se em voz alta: deram-me uma pena mesmo muito pesada! Alimentam-nos muito mal! Trabalho demasiado! Ou pensavas que aqui podias repetir a razão por que foste condenado? Se disseste em voz alta alguma destas coisas, estás perdido! Estás condenado a mais dez anos. (É verdade que com o início de uma segunda pena termina a que está em curso, de modo que terás de cumprir não vinte anos, mas treze, quinze… Mais em todo o caso do que aquilo que poderás suportar.)
Mas tens a certeza de que te mantiveste calado como um peixe? E mesmo assim apanharam-te? Também é verdade! Não podiam deixar de te apanhar, qualquer que fosse o teu comportamento. Agarram-te não por causa de, mas porque sim.
Poderia parecer — que diferença faz ser detido quando já se está num campo? O presidiário que em tempos foi tirado da sua casa, arrancado da sua cama quente, que diferença lhe faz ser retirado de um barracão desconfortável, de uma tarimba nua? Muita diferença! No barracão há um fogão que aquece, no barracão dão a ração completa — mas chegou um guarda a meio da noite, agarrou-te por um pé: «Prepara-te!» Ah, que vontade de não sair daqui!… Homens, homens, eu amava-vos…
A prisão de instrução no campo. Que prisão será essa e em que pode ela propiciar a confissão, se não é pior do que o próprio campo?
Eis a escolha: campo de Orotukan, em Kolimá, a 506 quilómetros de Mogadan. No Inverno de 1937 para 1938. Pequena aldeia de tela e de madeira, ou seja, tendas esburacadas mas em todo o caso revestidas de tábuas. Uma nova leva de presos que chega, um magote a ser submetido a novo processo, vê ainda antes de entrar pela porta: cada tenda da aldeia está cercada de três lados, menos o lado da porta, de pilhas de cadáveres congelados! (E não é para assustar. É que não há outra solução. As pessoas morrem, a neve tem dois metros de altura, e debaixo dela a terra está eternamente gelada.) Depois começa a espera corrosiva. É preciso esperar nas tendas, até que os transfiram para a prisão de troncos, para a instrução. Mas a redada era muito grande — trouxeram de toda a Kolimá um número demasiado grande de laparotos, os instrutores de processos não dão vazão, e a maioria dos presidiários morrerão antes do primeiro interrogatório.
Antes do almoço, o vigilante de serviço grita à porta: «Há mortos?» — «Há». — «Quem quiser ganhar uma ração, arraste-os!» Arrastam-nos e colocam-nos em cima da pilha de corpos. E ninguém pergunta os nomes dos mortos: as rações são distribuídas segundo o número dos restantes.
* * *
A instrução? Decorre segundo aquilo que o instrutor decidiu. Aqueles para quem decorre de maneira diferente, já não poderão contar. Como dizia o operacional Komarov: «Só preciso da tua mão direita — para assinar a ata…»
É impossível defender-se neste mundo inumano. Resistir, é suicidar-se. Fazer greve de fome é inútil.
Mas morrer, consegue-se sempre.
Que mais resta ao presidiário? Evadir-se! Ir mudar o destino! (Os presidiários chamam à fuga «procurador verde». É o único procurador popular entre eles. Tal como outros procuradores, ele deixa muitos processos na situação anterior, ou ainda mais difícil, mas por vezes liberta-os completamente. Esse procurador é o bosque verde, a erva tenra.)
Tchékhov diz que se o presidiário não é um filósofo, que está bem em todas as circunstâncias (ou, digamos: capaz de se refugiar em si mesmo), não pode e não deve deixar de querer evadir-se!
Não deve deixar de querer! — tal é o imperativo do espírito livre. Na verdade, os indígenas do Arquipélago estão longe de ser assim, são muito mais cordatos. Mas mesmo entre eles há sempre alguns que planeiam a evasão ou estão a ponto de fugir.
A zona está bem guardada: a vedação, a antezona é segura, as torres de vigia estão corretamente distribuídas — todos os lugares são visíveis e estão ao alcance de fogo. Mas de repente sentes um acesso de náusea tão desesperado à ideia de que é precisamente aqui, neste pedaço de terra cercada, que estás destinado a morrer. Por que não tentar a sorte? Não arrancar e mudar o destino? Em especial no início da pena, no primeiro ano, esse impulso é forte e até irrefletido. Nesse primeiro ano, quando em geral se decide todo o futuro e a personalidade do prisioneiro.
Houve, ao que parece, muitas evasões, durante todos os anos dos campos. Eis alguns dados encontrados casualmente: só no mês de março de 1930, dos locais de reclusão da RSFSR fugiram 1328 pessoas. (E como tudo isto era desconhecido da nossa sociedade!)
Com o grande desenvolvimento do Arquipélago, depois de 1937, e em especial nos anos da guerra, quando os atiradores aptos para o combate foram mobilizados para a frente — tornou-se mais difícil organizar escoltas. Por certo no Gulag terão alguma vez feito as contas, convencendo-se de que a fuga de alguma percentagem de presidiários seria muito mais barata do que estabelecer uma guarda verdadeiramente rigorosa de todas as numerosas ilhas. Além disso contavam ainda com algumas cadeias invisíveis que seguravam bem os indígenas nos seus lugares.
A mais sólida dessas cadeias era o abatimento geral, a completa entrega à sua situação de escravos. E tanto os do artigo Cinquenta e Oito como os comuns eram quase todos homens de família, gente de trabalho. Mesmo os que estavam presos por cinco e por dez anos não imaginavam como poderiam agora revoltar-se sozinhos (e coletivamente, Deus nos livre!…) pela sua liberdade, vendo contra si o Estado (o seu Estado), o NKVD, a polícia, a guarda, os cães; como seria possível, mesmo em caso de fuga bem sucedida, viver depois com um passaporte falso, um nome falso, se em cada cruzamento controlam os documentos, se em cada entrada há olhos desconfiados a observar quem passa?
Outra cadeia era o regime de fome do campo. Embora fosse precisamente essa fome que por vezes impelia os homens desesperados a arrastarem-se pela taiga, na esperança de ali conseguirem comer melhor do que no campo, era também ela que os enfraquecia, não lhes dava a força suficiente e por isso não era possível reunir uma reserva de comida para a fuga.
Havia também outra cadeia: a ameaça de uma nova pena de prisão. Aos políticos davam-lhes, por fuga, um novo período de dez anos pelo artigo 58.
Um grande obstáculo às fugas era a geografia do Arquipélago: aqueles espaços imensos de deserto nevado ou arenoso, de tundra, de taiga. Embora Kolimá não seja uma ilha, é mais temível do que uma ilha: um pedaço de terra isolado, para onde se pode fugir de Kolimá? Os que fogem dali é só por desespero. É verdade que em tempos os iacutos tinham uma atitude de simpatia pelos presidiários e os ajudavam: «Em nove sóis, levo-te a Khabarovsk». E transportavam-nos com as renas. Mas depois os presos comuns em fuga começaram a roubar os iacutos, e estes mudaram a sua atitude para com os fugitivos e passaram a denunciá-los.
A hostilidade da população circundante, atiçada pelas autoridades, tornou-se o principal obstáculo às fugas. As autoridades eram pródigas em recompensar as capturas (isto era também, além do mais, uma forma de educação política). E as populações que habitavam em volta do Gulag habituaram-se gradualmente a que capturar um evadido fosse uma festa, como fazer uma boa caçada ou achar uma pepita. Os tunguzes, os komi, os cazaques eram pagos em farinha, chá, e mais perto das zonas mais populosas, aos habitantes de além Volga, perto dos campos de Burepolom e de Unja, pagavam cada capturado a duas arrobas de farinha, oito metros de pano, e vários quilos de arenques. Nos anos da guerra era impossível obter arenques de outra maneira, e os habitantes locais chamavam arenques aos foragidos. Na aldeia de Cherstka, por exemplo, sempre que aparecia uma qualquer pessoa estranha, as crianças corriam e gritavam em coro: «Mamã! Vem ali um arenque!» Se o evadido fosse apanhado morto, podiam deixá-lo vários dias a apodrecer junto do refeitório do campo — para que os presidiários avaliassem melhor a sua sopa aguada. Um capturado vivo podia ser colocado junto à casa da guarda e, quando passa a coluna de presos, atiçar-lhe os cães. E na secção cultural e educativa podem escrever um cartaz: «Fugi, mas os cães apanharam-me», pendurá-la ao pescoço do capturado e fazê-lo caminhar pelo campo.
Se lhe baterem, devem espancá-lo nos rins. Se lhe puserem as algemas, deve ser de tal maneira que perca para toda a vida a sensibilidade nas articulações do pulso (G. Sorokin, Ivdelag). Se o metem no calabouço, que já não saia de lá sem tuberculose. (Niroblag, Baránov, evasão de 1944. Depois de espancado pela escolta, cuspia sangue, três anos depois retiraram-lhe o pulmão esquerdo.)
De facto, espancar e matar o fugitivo era no Arquipélago a principal forma de luta contra as evasões.
E quem encontrará em si mesmo desespero bastante para não tremer perante tudo isto? E fugir, e ir até ao fim, e para chegar aonde? Lá, no termo da evasão, quando o fugitivo alcança o lugar desejado que tem como objetivo, quem é que, sem temer, o acolheria, o esconderia, o protegeria? Só os presos comuns tinham na liberdade um couto à sua espera; para nós, os do Cinquenta e Oito, um apartamento chama-se valhacouto e é uma organização quase clandestina.
Aí está a quantidade de barreiras e fossos contra a fuga.
Mas por vezes um coração desesperado não pondera. Vê um rio que corre, um madeiro que flutua à deriva, e ala! Vamos a flutuar! Viatcheslav Bezrodni, do campo de Oltchan, que acabava de ter alta do hospital, ainda muito fraco, fugiu em dois troncos presos um ao outro, pelo rio Indiguirka, para oceano Glacial! Para onde? O que esperava ele? Nem foi propriamente apanhado — foi recolhido no mar aberto e reconduzido de trenó para Oltchan, para o mesmo hospital.
Nem de todos aqueles que não voltaram por si mesmos ao campo ou não foram trazidos meio mortos, ou mesmo já mortos, se pode dizer que fugiram. Pode ser que tenham simplesmente substituído a morte lenta de presidiários no campo por uma morte livre, de animais selvagens, na taiga.
Mas um homem que decide a fuga a sério depressa se torna temível. Alguns, para escaparem aos cães, incendiavam atrás de si a taiga, que ficava depois a arder durante semanas numa extensão de dezenas de quilómetros.
No Krasslag, um antigo combatente, herói de Khalkhin-Gol*, atacou um homem da escolta com um machado, aturdiu-o com o olho do machado, tirou-lhe a espingarda e trinta cartuxos. Perseguiram-no com cães, ele matou dois e feriu o perreiro. Ao capturá-lo não se limitaram a fuzilá-lo, mas, furiosos, para se vingarem a si próprios e aos cães, trespassaram o cadáver com as baionetas e nesse estado deixaram-no durante uma semana estendido junto à casa da guarda.
Em 1951, nesse mesmo Krasslag, uma dezena de presidiários com longas condenações era conduzida por uma escolta de quatro atiradores. De repente os presos atacaram a escolta, tiraram-lhes as metralhadoras, vestiram os uniformes (mas pouparam os atiradores! — os oprimidos são muitas vezes mais magnânimos do que os opressores); e quatro deles, no papel de escolta, conduziram os seus camaradas até uma via férrea de bitola estreita. Ali havia um comboio de mercadorias de transporte de madeiras. A falsa escolta chegou até à locomotiva, desalojou a equipa de condução (um dos fugitivos era maquinista) — e o comboio lá foi a todo o vapor até à estação de Rechiot, na linha principal do Transiberiano. Mas não percorreriam mais de uns setenta quilómetros. Entretanto já tinha sido dado o alerta (a começar pelos atiradores poupados), diversas vezes tiveram que trocar tiros com grupos de guardas, e a alguns quilómetros de Rechiot tinham conseguido minar a linha à frente deles e colocar um batalhão da guarda. No combate desigual, todos os fugitivos morreram.
As fugas mais discretas decorriam habitualmente melhor. Algumas delas foram surpreendentemente bem sucedidas, mas é raro ouvirmos esses relatos felizes: os que descolaram não dão entrevistas, mudaram de nome, escondem-se. Kuzikov-Skatchinski, que em 1942 se evadiu com sucesso, só o conta agora porque foi desmascarado em 1959 — dezassete anos depois!
E ficámos a saber da fuga bem sucedida de Zinaida Iakovlena Povaliáeva apenas porque no fim de contas ela fracassou. Foi condenada porque continuou como professora na sua escola sob a ocupação alemã. Não a detiveram imediatamente após a chegada das tropas soviéticas, e antes de ser presa ela ainda conseguiu casar-se com um piloto aviador. Foi então que a prenderam e a enviaram para a mina n.° 8 de Vorkuta. Através dos cozinheiros chineses, ela estabeleceu contacto com a liberdade e com o marido, que servia na aviação civil e arranjou colocação num voo para Vorkuta. No dia combinado, Zina saiu para ir aos banhos da zona de trabalho, livrou-se das roupas da prisão, soltou do lenço os cabelos enrolados durante a noite. O marido esperava-a na zona de trabalho. Na travessia do rio havia operacionais de serviço, mas não prestaram atenção àquela rapariga de cabelos frisados de braço dado com um piloto aviador. Partiram no avião. Zina viveu durante um ano com documentos falsos. Mas não se conteve, quis encontrar-se com a mãe, que estava sob vigilância. No novo interrogatório conseguiu inventar que tinha fugido num vagão de carvão. Não se descobriu a participação do marido.
* * *
Quase não dissemos nada acerca das fugas em grupo, mas elas foram numerosas. De Ust-Sissolsk houve uma evasão em massa (através de uma insurreição) em 1943. Fugiram pela tundra, comiam amoras e mirtilos. Perseguiram-nos com aviões e a partir deles metralhavam-nos. Diz-se que em 1956, perto de Montchegorsk, um pequeno campo fugiu em peso.
A história de todas as fugas do Arquipélago seria uma lista interminável de ler e de folhear. E até aquele que escrevesse um livro só sobre as fugas teria pena do leitor e de si próprio e deixaria escapar centenas delas.
Entre as muitas e felizes abolições que nos trouxe o mundo novo — a abolição da exploração, das colónias, do serviço militar obrigatório, da polícia secreta, do catecismo e muitas outras abolições feéricas — não esteve, na verdade, a abolição das prisões, mas esteve sem dúvida a abolição dos calabouços, essa tortura impiedosa que só podia nascer nas mentes dos carcereiros burgueses pervertidas pelo ódio. O ITK (Código do Trabalho Correcional, de 1924) permitia é certo o isolamento dos presos em cela separada, mas prevenia: essa cela separada não deve parecer-se em nada com o calabouço — deve ser seca, iluminada e equipada com o necessário para dormir.
O ITK de 1933, que «vigorou» (sem vigorar) até ao início dos anos 1960, mostrava-se ainda mais humano: proibia mesmo o isolamento numa cela separada!
Isso não se devia porém a que os tempos fossem mais complacentes, mas a que nesse tempo já tinham sido assimilados através da experimentação outros graus de castigos internos, em que a causa de agonia não era a solidão mas o «coletivo», e os castigados deviam ainda alancar:
RUR — Rot Ucilennovo Regima (companhia de regime agravado, depois substituída por
BUR — Baraki Ucilennovo Regima (barracas de regime agravado, brigadas disciplinares, e
ZUR — Zon Ucilennovo Regima (Zona de regime agravado), comandos disciplinares.
Só mais tarde, quase sem se dar por isso, lhes acrescentaram, não os calabouços, não!, mas os
CHIZO — Chtrafnie Izoliáteri (isolamentos disciplinares).
Porque se não é possível assustar o detido, se já não houver nenhum castigo que possa pesar sobre ele, como obrigá-lo a submeter-se ao regime?
E os fugitivos recapturados, onde prendê-los?
O que dava condenação ao CHIZO? Quase tudo: desagradou ao chefe, não saudou devidamente, não se levantou a horas, não se deitou a horas, atrasou-se para a revista, passou por onde não devia, não estava devidamente vestido, não fumou onde devia, tinha coisas a mais no barracão — toma lá um dia, três dias, cinco dias. Não cumpriu a norma de trabalho, foi apanhado com uma mulher, toma lá cinco, sete e dez dias. E para os refratários havia mesmo quinze dias.
O que se exige de um CHIZO? Ele deve ser: a) frio; b) húmido; c) escuro; d) esfomeante. Dão a ração estaliniana — 300 gramas por dia, e como comida «quente», ou seja a lavadura, servem-na só no terceiro, no sexto e no nono dia de clausura. Mas em Vorkuta-Vom davam apenas 200 gramas de pão, e em vez de quente, no terceiro dia, davam um bocado de peixe cru. Entre estes dois parâmetros podem-se imaginar todos os calabouços.
Há a ingénua conceção segundo a qual um calabouço deve ter um teto, uma porta e uma fechadura. Nada disso. No campo de Kuranakh-Sala, com um frio de 50 graus negativos, o calabouço era uma armação de troncos. O médico livre Andréiev: «Eu, como médico, declaro que se pode ficar preso neste calabouço!» Saltemos todo o Arquipélago: naquele mesmo Vorkuta-Vom, em 1937, o calabouço para os refratários era um retângulo de troncos sem teto, e havia também uma simples fossa.
No campo de Mariinsk (como em muitos outros, é claro) havia neve nas paredes do calabouço e não permitiam a roupinha do campo, mas deixavam-nos em roupa interior.
* * *
O BUR — é onde os presos ficam mais tempo. Enclausuram-nos ali um mês, três meses, seis meses, um ano e em muitos casos sem limite, apenas porque o preso é considerado perigoso. Uma vez incluído na lista negra, vais parar ao BUR em qualquer ocasião: em todas as festas do 1.° de Maio e do 7 de Novembro, em cada caso de fuga ou acontecimento extraordinário no campo.
O BUR pode ser o mais comum barracão, rodeado de arame farpado, cujos ocupantes são enviados para o trabalho mais pesado do campo. E pode ser uma prisão de alvenaria no campo, com todas as condições de uma prisão: espancamentos na casa da guarda por convocações individuais (para não deixar marcas é bom espancar com uma bota de feltro com um tijolo dentro); com trancas, fechaduras e vigias em todas as portas; celas com piso de betão e um calabouço isolado para os presos do BUR.
Era exatamente assim o nosso BUR em Ekibastuz (onde de resto havia também um do primeiro tipo). Os presos eram mantidos em celas sem tarimbas (dormiam no chão com coletes e casacos). Nunca havia qualquer arejamento. Durante meio ano (em 1950) não houve um único passeio. De modo que o nosso BUR tinha tudo de uma prisão feroz, nem se percebia o que restava ali de um campo. Todas as necessidades se faziam na cela. Ir despejar a grande selha era uma felicidade para os faxineiros da cela: respirar um sorvo de ar.
Com aquele ar abafado e aquela imobilidade, os presos debilitavam-se e os de direito comum — nervosos, enérgicos — com mais frequência do que os outros. (Os de direito comum que iam para Ekibastuz eram também considerados do artigo Cinquenta e Oito, e não havia condescendência para com eles.) O acto mais frequente entre os presos do BUR era engolir as colheres de alumínio, quando as davam ao almoço. Aqueles que as engoliam eram levados ao Raio-X e, verificando que não mentiam, que de facto tinham uma colher no interior, levavam-nos para o hospital e abriam-lhes o estômago. Liochka Karnoukhin engoliu a colher três vezes e não lhe restou nada do estômago. Kolka Salopaiev fingiu-se doido: uma noite enforcou-se, mas a malta combinada «viu», cortou o nó e ele foi levado para o hospital.
* * *
Mas a comodidade de conseguir também um trabalho dos castigados forçava os chefes a colocá-los em zonas disciplinares separadas (ZUR). O ZUR significa em primeiro lugar comida pior, ração de pão mais reduzida. Pode não haver refeitório, mas também não distribuem a sopa nos barracões; depois de a receber na cozinha, é preciso levá-la, ao ar gelado, para o barracão e comê-la fria. Morrem em massa, o hospital está sempre cheio de moribundos.
Às zonas disciplinares eram atribuídos trabalhos como o corte de feno, a 35 quilómetros da zona, onde vivem em cabanas de feno permeáveis à chuva, e ceifam nos pântanos, sempre com os pés na água. Recolha do feno para ensilar naqueles mesmos lugares pantanosos, entre nuvens de mosquitos, sem quaisquer meios de proteção. (A cara e o pescoço devorados, cobertos de crostas, as pálpebras inchadas, uma pessoa fica quase cega.) — A recolha de turfa na aluvião do rio Vitchegda: de Inverno, malhando com um pesado martelo, abrir as camadas de lodo congelado, retirá-las, recolher a turfa não gelada, depois arrastar o trenó carregado ao longo de um quilómetro para o monte (o campo poupava os cavalos). — E depois o trabalho punitivo preferido — a pedreira de cal e a calcificação das pedras. As pedreiras. Não se pode enumerar tudo. Tudo o que há de trabalhos pesados ainda mais duros, insuportáveis, ainda mais insuportáveis é esse o trabalho disciplinar. E cada campo tem o seu.
Para as zonas disciplinares eram enviados de preferência: os crentes, os teimosos e os criminosos. Havia barracões inteiros cheios de «monjas» que se recusavam a trabalhar para o diabo. (Na zona disciplinar, «sob escolta» do sovkhoze de Petchora, mantinham-nas num calabouço com água até aos joelhos. No Outono de 1941, aplicaram-lhes o 58-14, «sabotagem contrarrevolucionária» e fuzilaram-nas todas.) Mandavam também para lá os fugitivos recapturados. E, de coração compungido, mandavam também para lá os socialmente próximos que não queriam de maneira nenhuma unir-se à ideologia proletária. (Dado o complexo trabalho mental de classificação, não censuramos as autoridades por algumas confusões por vezes involuntárias: por exemplo, enviaram de Karabass duas telegas — uma de religiosas para a cidade infantil, a fim de cuidar das crianças do campo, outra de criminosas e sifilíticas, para Konspai, sector disciplinar de Dolinka. Mas confundiram-se com as telegas, não sabiam onde devia cada qual colocar as suas coisas, e lá foram as criminosas e sifilíticas cuidar das crianças, e as «monjas» para o disciplinar. Depois aperceberam-se, mas deixaram ficar assim.)
Aconteciam também histórias femininas. É impossível julgá-las com suficiente pormenor e rigor, porque há sempre um elemento íntimo que desconhecemos. Mas vejamos a história de Irina Naguel, contada por ela. Trabalhava no sovkhoze Ukhta como dactilógrafa na administração, ou seja, uma acomodada bastante confortável. Bem-apessoada, cheia de carnes, enrolava as suas grandes tranças à volta da cabeça e, em parte por comodidade, usava umas calças largas e um blusão de esquiador. Quem conhece o campo compreende que atrativa ela era. O alferes Sidorenko, do corpo operacional, expressou o desejo de a conhecer melhor. Naguel respondeu-lhe: «Antes quero ser beijada pelo último dos criminosos! Como não tem vergonha, com um filho pequenino a chorar do outro lado da parede!» Repelido por ela, o operacional mudou de expressão e disse: «Você acha mesmo que me agrada? Eu só queria experimentá-la. Assim vai colaborar connosco». Como ela recusou, foi enviada para um campo disciplinar.
Vejamos as impressões que Naguel retirou da primeira noite: no barracão das mulheres há criminosas comuns e «monjas». Cinco raparigas andam enroladas em lençóis: a jogar às cartas na véspera, as comuns perderam tudo o que tinham, ordenaram-lhes que se despissem e entregassem o vestuário. De repente entram outras comuns irritadas. Agarram uma das suas raparigas, deitam-na ao chão, espancam-na com um banco e espezinham-na. Ela grita, depois já nem consegue gritar. Ficam todas sentadas, não só não se intrometem como fazem de conta que não notam. Mais tarde vem um enfermeiro: «Quem foi que te bateu?» — «Caí da tarimba» — responde a espancada. Nessa mesma noite perderam às cartas a própria Naguel, mas esta foi salva pela «cadela» Vaska Krivoi: informou o chefe, e este levou Naguel para passar a noite na casa da guarda.
Se nos campos não há lei nem justiça, nos disciplinares é ainda pior. Os bandidos fazem tudo o que querem, andam com facas às claras (OLP, campo «de terraplanagem» de Vorkuta, 1946), os guardas escondem-se deles fora da zona, mesmo quando na sua maioria são do Cinquenta e Oito.
Para o simples trabalhador do Cinquenta e Oito é quase impossível sobreviver num campo disciplinar como esse.
A simples enumeração das zonas disciplinares constituiria um estudo histórico.
Junte-se também a minha fraca pena à celebração desta tribo! Eles têm sido celebrados como piratas, como flibusteiros, como vagabundos, como evadidos dos trabalhos forçados. Têm-nos celebrado como bandidos nobres, desde Robin Hood até aos bandidos de opereta, atribuindo-lhes um coração sensível, que roubam aos ricos e partilham com os pobres. Não tem toda a literatura mundial celebrado os bandidos? O próprio Púchkin elogiava nos ciganos o seu lado bandido. Mas nunca os celebraram tão amplamente, tão unanimemente, tão consequentemente como na literatura soviética.
Tudo isso se constituiu não de repente, mas historicamente, como no nosso país gostam de dizer. Na antiga Rússia existia (e no Ocidente ainda existe) uma conceção errada acerca dos ladrões como incorrigíveis, como criminosos permanentes (o «esteio da criminalidade»). Por isso, durante as transferências e nas prisões, os presos políticos eram protegidos deles. Por isso a administração quebrava-lhes os privilégios e a preponderância no mundo prisional, colocava-se resolutamente ao lado dos outros condenados. Na antiga Rússia havia uma fórmula aplicada aos criminosos reincidentes: «Abaixem-lhes a cabeça sob o jugo da lei!» Por isso em 1917 os ladrões não dominavam nem no país nem nas prisões russas.
Mas as grilhetas caíram, a liberdade resplandeceu. Logo a seguir à revolução de Fevereiro, os criminosos precipitaram-se para fora das prisões e misturaram-se com os cidadãos livres. Achava-se muito útil e divertido que eles fossem inimigos da propriedade privada e portanto uma força revolucionária. Raciocinando socialmente: toda a culpa é do meio, não é? Portanto reeduquemos esses sãos lúmpen e incluamo-los na vida consciente!
Hoje podemos olhar para trás e ficar perplexos: quem é que reeducou quem?: os tchekistas reeducaram os criminosos, ou os criminosos reeducaram os tchekistas? O criminoso que adotou a fé do tchekista é já uma cadela, os criminosos matam-no. E o tchekista que assimilou a psicologia do criminoso é o enérgico agente instrutor dos anos 1930-1940 ou o voluntário chefe de campo, são considerados, promovidos no serviço.
Quantas vezes nos sussurraram aos ouvidos sobre o «código peculiar» dos bandidos, sobre a sua palavra de «honra». Vais ler — são uns Dom Quixote e uns patriotas! Mas se encontras essa fronha numa cela ou numa carrinha celular…
Eh, basta de mentir, penas vendidas! Os criminosos não são Robin Hood! Quando é preciso roubar aos famintos, eles roubam aos famintos. Quando é preciso roubar as últimas meias a um homem que está a gelar, eles também não as desprezam. A sua grande palavra de ordem é — «morre tu hoje, e eu amanhã!»
Mas talvez na verdade eles sejam patriotas? Porque é que eles não roubam ao Estado? Porque é que não assaltam as datchas especiais? Porque é que não fazem parar os longos carros pretos? Porque o realista Estaline já percebeu há muito que tudo isso é apenas zumbido — a reeducação dos criminosos. E mudou-lhes a direção da energia, lançou-os contra os cidadãos do seu próprio país.
Eram assim as leis dos anos trinta (até 1947): roubo no exercício de funções, roubo ao Estado, ao tesouro público? De uma caixa num armazém? De três batatas no kolkhoze? 10 anos! (E a partir de 1947, até 20 anos!) Roubo livre? Esvaziaram um apartamento, levaram num camião tudo aquilo que uma família adquiriu numa vida? Se não houve homicídio, até um ano, e por vezes seis meses…
Com as suas leis, o poder estalinista dizia claramente aos gatunos: rouba, mas não a mim! Rouba aos particulares! Pois a propriedade privada é uma sobrevivência do passado. E os gatunos compreenderam.
Anos vinte, trinta, quarenta, cinquenta! Quem é que não se lembra dessa ameaça eternamente suspensa por cima dos cidadãos: não andes no escuro! Não voltes tarde! Não tragas relógio! Não andes com dinheiro! Não deixes o apartamento sem ninguém! Fechaduras! Postigos! Cães!
Enfim, haverá por força reduções de pena e por certo para os de direito comum. Eh, tem cuidado, testemunha no tribunal! — todos eles vão voltar em breve, e haverá facadas nos flancos daqueles que testemunharam!
Por isso, se vires que alguém entra por uma janela, que cortam uma algibeira, abrem uma maleta do teu vizinho, desvia os olhos! Passa ao lado! Não viste nada!
Era assim que nos educavam os ladrões e… as leis!
* * *
E há sempre para tudo uma teoria elevada e santificante. Tudo decorre da única Doutrina Verdadeira, que explica toda a rutilante vida da humanidade — pela luta de classes e só ela.
É assim que tudo se fundamenta. Os criminosos profissionais não podem de maneira nenhuma ser equiparados aos elementos capitalistas (ou seja, engenheiros, estudantes, agrónomos e monges): estes são invariavelmente inimigos da ditadura do proletariado, aqueles primeiros são apenas politicamente instáveis. (O assassino profissional é apenas politicamente instável!) O lúmpen não é proprietário, e por isso não pode aliar-se aos elementos inimigos de classe, mais facilmente se aliará ao proletariado (esperem por isso!). Portanto, segundo a terminologia oficial do Gulag, chamavam-lhes «socialmente-próximos». (Diz-me com quem andas…)
Quando essa teoria descia ao território dos campos, o resultado era este: os mais encarniçados e mais fortes dos bandidos ficavam com um poder sem controlo nas ilhas do Arquipélago, nos terrenos e pontos do campo — poder sobre a população do seu país, sobre os camponeses, citadinos, intelectuais, um poder que eles nunca tiveram na história, nunca em nenhum Estado, com o qual em liberdade nem podiam sonhar — e agora entregavam-lhes todos os outros como escravos. Qual o bandido que recusa semelhante poder? Os ladrões centrais, gatunos de alto voo, dominavam inteiramente nos terrenos do campo, viviam em «cabines» separadas ou em tendas com as suas esposas temporárias. Tinham servidores — criados tomados de entre os simples trabalhadores, que lhes despejavam os vasos de noite. Preparavam-lhes a comida à parte, com o pouco de carne e de boas gorduras destinadas ao caldeiro geral. Os gatunos de categoria mais baixa eram capatazes, ajudantes da intendência, membros do serviço de ordem, de manhã postavam-se a dois e dois, munidos de varas, à saída das tendas de duzentos lugares e comandavam: «Toca a sair e que não haja último!» A ralé era usada para espancar os refratários, ou seja, aqueles que não tinham forças para se arrastarem para o trabalho. Mas mesmo onde os ladrões não tinham poder, devido a essa mesma teoria das classes havia muita condescendência para com eles. Se os gatunos saíam da zona, era esse o maior sacrifício que lhes podiam pedir. Nos locais de trabalho, podiam ficar deitados quanto quisessem, fumar, contar as suas histórias de gatunos (sobre vitórias, sobre fugas, sobre heroísmo), de Verão aquecerem-se ao sol, e no Inverno junto a uma fogueira. A escolta nunca tocava nas fogueiras deles, as fogueiras dos Cinquenta e Oito eram desfeitas e apagadas. E os metros cúbicos (de madeira, de terra, de carvão) eram-lhes atribuídos sobre o trabalho dos Cinquenta e Oito.
Era assim fácil o caminho dos gatunos no campo.
Podem objetar-me que só as cadelas iam ocupar funções, e que os «ladrões honestos» observavam a lei dos ladrões. Pois eu, por mais que observasse uns e outros, não notava que uma ralé fosse mais decente do que a outra. Os ladrões (no Krasslag, em 1941) afogavam os lituanos na retrete por se recusarem a dar-lhes uma encomenda recebida do exterior. Os ladrões roubavam os condenados à morte. Os ladrões matam na brincadeira o primeiro colega de cela que apareça, só para iniciar uma nova investigação e julgamento, passar o Inverno no quente ou sair do campo difícil onde tinham ido parar. E que dizer de uma bagatela como despir e descalçar alguém no gelo? E do roubo das rações?
Pois nem a pedra dá fruto, nem o ladrão dá nada de bom.
* * *
Mas basta! Digamos também uma palavra em favor dos gatunos.
Eles têm o seu «código peculiar» e o seu próprio conceito de honra. Mas não é porque sejam patriotas como pretenderiam os nossos administradores e literatos, mas porque são uns materialistas consequentes e piratas consequentes. E embora a ditadura do proletariado os tenha cortejado, eles nunca a respeitaram nem por um momento. É uma tribo que veio ao mundo para viver! E como têm de passar na prisão quase tanto tempo como em liberdade, também na prisão querem colher a flor da vida e não lhes importa o fim para que foi concebida essa prisão, nem o que sofrem os outros ao seu lado. São insubmissos e gozam os frutos dessa insubmissão — e por que haviam de se preocupar com aqueles que sofrem o jugo e morrem como escravos? Precisam de comer e roubam tudo o que veem comestível e saboroso. Precisam de beber, e por vodka vendem aos da escolta as coisas que roubam aos vizinhos. Precisam de dormir em cama macia, e com o seu aspeto viril acham perfeitamente honroso trazer consigo uma almofada e um cobertor acolchoado ou um colchão de penas (tanto mais que é um fácil esconderijo para uma faca). Têm músculos muito bem alimentados, que se contraem em bolas. Têm tatuagens na pele bronzeada, e assim satisfazem permanentemente as suas necessidades artísticas, eróticas e até morais: no peito, no ventre, nas costas uns dos outros contemplam águias poderosas pousadas nos rochedos ou a voar no céu; um luzente (sol) com raios para todos os lados; e de repente, junto ao coração, Lenine, ou Estaline, ou até os dois (mas isso vale tanto como a cruz ao pescoço de um bandido). E até uma moral modesta e rasteira num braço que já por dez vezes espetou uma faca entre as costelas de alguém: «Lembra-te das palavras da tua mãe!» Ou: «Lembro-me das carícias, lembro-me da minha mãe». (Os gatunos têm o culto da mãe, mas apenas formal, sem cumprir os ensinamentos dela. Entre eles é muito popular a «Carta à mãe» de Essénin, e até as coisas mais simples do poeta. Até cantam alguns versos dele, essa «Carta» e «A noite franziu as sobrancelhas negras»).
Mas — e nisto são mais intransigentes do que os Cinquenta e Oito — nenhum desses Jenka-Jogol ou Vaska-Fura-Tripas, com os canos das botas enrolados, um esgar a deformar a face, profere com ar respeitoso a sagrada palavra «ladrão», ajudará nunca a reforçar a prisão: erguer os pilares, estender o arame farpado, cavar a terra em redor da zona, reparar a casa da guarda, consertar a iluminação da zona. Isso é ponto de honra do bandido. A prisão foi criada contra a sua liberdade e ele não pode trabalhar para a prisão! (De resto, com essa recusa ele não se arrisca a apanhar com o artigo 58, enquanto o pobre inimigo do povo seria logo acusado de sabotagem contrarrevolucionária. Os gatunos são temerários devido à impunidade, mas aquele que foi arranhado pelo urso até de um cepo tem medo.)
É completamente impossível ver um gatuno com um jornal na mão, a gatunagem decidiu firmemente que a política é um chilreio, não tem qualquer relação com a vida verdadeira. Também não leem livros, ou muito raramente. Mas gostam da literatura oral e o contador que depois do recolher lhes desfia romances interminavelmente andará sempre bem alimentado com as rapinas que eles fazem e será muito considerado, como todos os contadores e cantores entre os povos primitivos. Esses romances são uma mistura fantástica e bastante monótona de historietas de bulevar tiradas dos círculos da alta roda (da alta roda, sem falta), em que surgem os títulos de viscondes, condes, marqueses — com as lendas da própria gatunagem, de autoexaltação, com o jargão dos ladrões e os seus conceitos sobre a vida de luxo que o herói sempre alcança no final: a condessa vem deitar-se no seu «leito», ele só fuma «Kasbek», tem uma «cebola» (relógio), e os seus «chanatos» (sapatos) estão engraxados a brilhar.
A sua comuna, ou mais precisamente o seu mundo, é um mundo à parte dentro do nosso mundo, e as leis severas que os regem há séculos para a solidez desse mundo não dependem de modo nenhum da nossa «fraca» legislação e nem sequer dos congressos do Partido. Têm as suas próprias leis da hierarquia, pelas quais os seus chefes não são eleitos, mas, ao entrarem numa cela ou na zona, trazem já a coroa do poder e são imediatamente reconhecidos como principais. Alguns desses chefes possuem uma forte inteligência e têm sempre uma clara compreensão da visão criminosa do mundo e um número bastante grande de assassínios e de roubos no seu ativo. Os gatunos têm os seus tribunais («corrigendas»), assentes no código de «honra» dos ladrões e na tradição. As sentenças dos tribunais são implacáveis e obrigatoriamente executadas, mesmo que o condenado esteja inacessível e numa outra zona. (Os modos de execução são insólitos: podem saltar à vez da tarimba mais alta sobre um homem estendido no chão e quebrar-lhe assim a caixa torácica.)
E o que significa a própria palavra fraerski? Significa aquilo que é próprio do comum dos humanos, como todas as pessoas normais. Precisamente esse mundo dos humanos em geral, o nosso mundo, com a sua moral, os seus hábitos de vida e relações mútuas, que é mais odiado pelos ladrões, mais ridicularizado por eles, a que mais opõem o seu clube antissocial.
* * *
Não, não foi a «reeducação» que começou a quebrar a espinha ao mundo da gatunagem (a «reeducação» apenas os ajudava a voltarem mais depressa a novos roubos), mas quando nos anos 1950, deixando a teoria das classes e da proximidade de classe, Estaline mandou meter os ladrões no isolamento, em celas solitárias e até construir novas prisões para eles (os ladrões chamavam-lhes jaulas).
Nessas gaiolas, os ladrões rapidamente decaíram, definharam e estiolaram. Porque o parasita não pode viver isolado. Tem de viver à custa de alguém, enrolando-se nele.
Há no Arquipélago muitos rictos, muitas carantonhas. De onde quer que o abordemos, não há nada que admirar. Mas talvez a coisa mais abominável seja a goela com a qual engole os miúdos.
Os miúdos não têm nada que ver com aquelas crianças abandonadas, de andrajos cinzentos, que formigavam, roubavam e se aqueciam junto às caldeiras, sem as quais não se consegue imaginar a vida das cidades nos anos 1920. Nas colónias para criminosos menores de idade, nas casas de trabalho, recebiam os menores abandonados nas ruas, que não eram acolhidos por famílias. Tinham ficado órfãos devido à Guerra Civil, à fome por ela provocada, à desorganização, ao fuzilamento dos pais, às morte destes na frente da guerra, e então a justiça procurava de facto trazer essas crianças de volta à vida comum, arrancava-as à escola de ladrões que era a rua. Nas comunas de trabalho iniciava-se uma formação fabril, o que era nas condições da altura um mecanismo vantajoso, e muitos rapazes aprendiam de boa vontade. É possível que por esse caminho as coisas se tivessem composto.
Mas de onde vinham esses jovens criminosos? Do artigo 12 do Código penal de 1926, que permitia julgar as crianças a partir dos doze anos em caso de roubo, violência, mutilação ou homicídio, mas julgá-las com moderação, não com «toda a taxa» como os adultos. Isto era já uma primeira abertura rumo ao Arquipélago para os futuros miúdos — mas não era ainda o portão.
Mas em 1935 a argila maleável da História era uma vez mais amassada pelo Grande Celerado que nela punha a marca do seu dedo. Entre os seus outros altos feitos, como o esmagamento de Leninegrado e do seu próprio partido, ele não deixou de se lembrar das crianças, dessas crianças que tanto amava, de quem era o melhor Amigo e por isso se fotografava com elas. Não vendo outra maneira de formar esses traquinas mal intencionados, que infringiam de maneira cada vez mais descarada a legalidade socialista, achou por bem que todas as crianças a partir dos doze anos (já a sua filha querida se aproximava dessa idade, e ele podia ver de maneira tangível o que era essa idade) fossem julgadas pela taxa completa do Código! Ou seja, «com a aplicação de todas as medidas de castigo». (Ou seja, incluindo o fuzilamento.)
Mas então surgiu um pequeno empecilho: começou a Guerra Patriótica. Mas a Lei é a Lei! E em 7 de julho de 1941 — quatro dias depois do discurso de pânico de Estaline, nos dias em que os tanques alemães avançavam para Leninegrado, Smolensk e Kiev — foi promulgado mais um decreto do Soviete Supremo — porque o decreto de 1935 estava a ser aplicado de maneira incorreta pelos tribunais: os miúdos só são julgados quando praticaram um crime intencionalmente. Mas isso é uma brandura inadmissível! E no meio do fogo da guerra, a presidência do Soviete Supremo manda julgar os miúdos com aplicação de todas as medidas de castigo (ou seja «com a taxa completa») mesmo nos casos em que o crime for cometido não intencionalmente, mas por imprudência!
Assim mesmo! É possível que em toda a história mundial ninguém tivesse ainda encarado uma solução tão radical do problema da infância! A partir dos doze anos, por imprudência — até mesmo ao fuzilamento!
Só então estavam tapados todos os buracos para os ratinhos vorazes! Só nessa altura estavam protegidas as espigas dos kolkhozes! Agora deviam encher-se os celeiros, desabrochar a vida, e as crianças viciosas por nascença iam tomar pelo longo caminho da reeducação.
E ninguém estremeceu entre os procuradores do partido, que também tinham filhos parecidos com aqueles! — apunham sem dificuldade o seu aval para a detenção. E nenhum dos juízes membros do partido estremeceu! — de olhos calmos, condenavam as crianças a três, cinco, oito e dez anos nos campos comuns!
E por colher espigas, davam àqueles miúdos não menos de oito anos!
E por uma algibeira de batatas — uma algibeira de batatas nos calções de uma criança! — também oito anos!
Os pepinos tinham outra avaliação. Por uma dezena de pepinos colhidos na horta do kolkhoze, Sacha Blokhin apanhou cinco anos.
E a Lida, uma garota de catorze anos, esfomeada, do distrito de Tchinguirlaus, na região de Kustanai, foi ao longo da rua recolher, juntamente com o pó, o reduzido fio de cereais caído de um camião (e que de qualquer modo estavam perdidos). Condenaram-na apenas a três anos, dada a circunstância atenuante de que depredava a propriedade socialista não diretamente do campo nem de um celeiro.
E quando esses miúdos de doze anos transpunham a entrada das celas prisionais dos adultos, equiparados aos adultos como cidadãos de pleno direito, equiparados nos bárbaros tempos de condenação, quase equivalentes a toda a sua vida inconsciente, equiparados na ração de pão, na escudela de sopa aguada, juntos nas tarimbas, o próprio Gulag engendrou a sonora e descarada palavra: maloletka[63]! E eles próprios começaram a repeti-la com expressão orgulhosa e amarga ao falar de si mesmos, esses amargos cidadãos — ainda não cidadãos do país, mas já cidadãos do Arquipélago.
Precoce e estranha maneira de começarem a sua maioridade — transpondo o limiar da prisão.
Sobre as cabecinhas de doze, catorze anos abateu-se uma maneira de viver que alguns homens firmes e corajosos não suportavam. Mas pela lei da vida jovem, estes jovens não deviam deixar-se abater por esse regime de vida, mas integrar-se e adaptar-se. Do mesmo modo que na idade jovem se assimilam sem dificuldade novas línguas, novos costumes, também os miúdos copiavam de passagem a língua do Arquipélago — e essa é a língua dos gatunos — e a filosofia do Arquipélago — e de quem é essa filosofia?
Eles tomaram dessa vida, para seu uso, tudo aquilo que ela tem de mais desumano, todo o suco venenoso e podre, e com tanta naturalidade como se tivesse sido esse suco e não o leite que eles mamaram em pequeninos.
Em liberdade também não cresceram entre algodões e veludos: não eram os filhos dos poderosos nem dos bem providos que iam arrancar espigas, que enchiam os bolsos de batatas, se atrasavam para o posto de controlo da fábrica e fugiam para o FZO. Os menores são filhos de trabalhadores. Mesmo em liberdade eles compreendiam bem que a vida assenta sobre a injustiça. Mas nem tudo ali era revelado até ao último extremo, algumas coisas vestiam roupas decentes, outras eram adoçadas pelas boas palavras de uma mãe. Mas no Arquipélago, os menores viram o mundo tal como ele se apresenta aos olhos dos quadrúpedes: só a força vale como direito! Só o carnívoro tem o direito de viver! E em alguns poucos dias as crianças tornam-se feras! — as piores feras, que não têm noções éticas (olhando para os olhos tranquilos e enormes de um cavalo ou acariciando as orelhas baixas de um cão, como se pode negar-lhes uma ética?). O menor assimila: se alguém tem os dentes mais fracos do que os teus, arranca-lhe o bocado, e ele é teu!
Há duas maneiras básicas de manter os menores no Arquipélago: em colónias infantis autónomas, (principalmente os mais novos deles, que ainda não cumpriram quinze anos) e (para os mais velhos) em campos mistos, as mais das vezes na companhia de inválidos e de mulheres.
Ambas as formas obtêm de igual modo o desenvolvimento de uma maldade animal. E nenhuma delas liberta o menor da educação no espírito das regras dos ladrões.
Vejamos Iura Ermolov. Ele conta que desde os doze anos (em 1942) via à sua volta muita vigarice, roubo, especulação, e para consigo concebeu a vida do seguinte modo: só não rouba e não engana aquele que tem medo. Mas eu não quero ter medo de nada! E portanto, hei de roubar e enganar e viver bem. De resto, por algum tempo, a sua vida decorreu em todo o caso de outra maneira. Foi atraído pela educação escolar no espírito dos exemplos luminosos. No entanto, tendo compreendido o Amado Pai (os laureados e os ministros dizem que isso era impossível) aos catorze anos escreveu um panfleto: «Abaixo Estaline! Viva Lenine!» Foi então que o prenderam, o espancaram, aplicaram-lhe o 58-10 e meteram-no com os menores criminosos. E Iura Ermolov depressa assimilou a lei dos ladrões.
E o que viu ele na colónia infantil? «Mais injustiça ainda do que em liberdade. Uma parte da ração dos menores vai da cozinha para a pança dos educadores. Os menores são espancados a pontapé, mantidos sob ameaças, para que sejam silenciosos e obedientes.» (Aqui é necessário esclarecer que a ração dos menores mais novos não é a ração habitual dos campos. Tendo condenado os menores a longos anos, o governo não deixou de ser humanista, não se esqueceu de que estas mesmas crianças eram os futuros patrões do comunismo. Por isso acrescentavam-lhes à ração leite, manteiga e autêntica carne. Mas como poderiam os educadores resistir à tentação de meter a sua concha no caldeirão dos menores? Talvez algum desses menores, depois de crescer, nos conte uma história ainda mais sombria que a de Oliver Twist?).
A resposta mais simples às injustiças dominantes, é: comete tu mesmo injustiças! Esta é a dedução mais fácil, e ela torna-se agora por muito tempo (ou até para sempre) a regra de vida dos menores.
Mas — coisa interessante! — quando entram na luta deste mundo cruel, os menores não lutam uns contra os outros. Não se olham uns aos outros como inimigos! Entram nessa luta como um coletivo, uma equipa! Germes de socialismo? Influência dos educadores? Ah, parem de balbuciar, tartamudos! Isso é a lei do mundo dos ladrões que desce sobre eles. Porque os ladrões são unidos, os ladrões têm disciplina e chefes. E os menores são pioneiros ladrões, assimilam os ensinamentos dos mais velhos.
Nas colónias infantis, quem é o inimigo dos menores? São os guardas e os educadores. E a luta é contra eles!
Aí vai uma coluna de menores sob forte escolta pela rua da cidade, pode parecer que até é uma vergonha guardar as crianças de maneira tão séria. Nada disso! Eles estavam combinados — um assobio! — e os que quiserem fogem para todos os lados! O que há de a escolta fazer? Disparar? Contra quem precisamente? E pode-se disparar contra crianças?… E assim terminaram os seus tempos de prisão! Cento e cinquenta anos fugiram de uma vez ao Estado. Não gostam do ridículo? Não prendam as crianças!
Um futuro romancista (aquele que passou a infância entre esses menores) descreve-nos uma quantidade de divertimentos dos miúdos, como eles faziam algazarras nas colónias, se vingavam dos educadores pregando-lhes partidas. Apesar da aparente severidade das suas penas e do regime interno, a impunidade desenvolve nos menores uma grande ousadia.
O interesse pelo corpo feminino desenvolve-se em geral de um modo precoce entre os rapazes, e nas celas dos menores ele é ainda mais excitado pelos seus relatos fantasistas e pelas suas gabarolices. E eles não perdem uma oportunidade para se aliviarem. Estes são menores dos seus dezasseis anos, é uma zona de adultos, mista. (É a mesma zona onde há aquele barracão de quinhentas mulheres, onde todas as relações decorrem às claras e aonde os menores vão com ar importante, como homens.)
Nas colónias infantis, os menores trabalham quatro horas, e outras quatro devem estudar (de resto, todo esse estudo é um absurdo). Ao serem transferidos para um campo de adultos, têm um dia de trabalho de dez horas, só as normas de produção são reduzidas.
Depois da colónia infantil, a situação altera-se fortemente. Já não há ração infantil, cobiçada pelos vigilantes, e por isso o vigilante deixa de ser o inimigo principal. Apareceram uns velhos, sobre os quais podem medir as suas forças. Apareceram mulheres, nas quais podem verificar a sua qualidade de adultos. Apareceram também os autênticos ladrões de carne e osso, dominadores do campo, mal-encarados, que de boa vontade dirigem a ideologia dos menores e os treinam no roubo. Aprender com eles é tentador, não aprender é impossível.
Para o leitor livre, a palavra «ladrões» pode talvez soar como uma censura? Nesse caso o leitor não percebeu nada. Esta palavra é proferida no mundo do crime como nos círculos da nobreza a palavra «cavaleiro», e até com mais respeito, não a plena voz, como uma palavra sagrada. Ser alguma vez um digno ladrão é o sonho do menor.
Mesmo nos campos dos adultos, os menores conservam o traço principal da sua conduta — união no ataque e união na defesa. Isto torna-os fortes e livra-os de limitações. Na sua consciência não há qualquer bandeirola de controlo entre o que é e o que não é permitido, e nenhuma noção do bem e do mal. Para eles é bom tudo aquilo que querem, e é mau tudo o que os incomoda. Assimilam a maneira atrevida e insolente de se comportarem porque essa é no campo a forma de comportamento mais vantajosa.
Do posto onde se corta o pão, transportam uma caixa com as rações, escoltada por membros da brigada a que se destinam. Mesmo à frente da caixa, os menores iniciam uma falsa briga, empurram-se uns aos outros e derrubam a caixa. Os da escolta precipitam-se para apanhar as rações do chão. Das vinte conseguem recuperar apenas catorze. Os menores «brigões» já desapareceram.
Quanto mais fraca é a vítima, mais impiedosos são os menores. A um velho muito fraco roubam-lhe a ração abertamente, arrancam-lha dos dedos. O velho chora, implora que lha devolvam. «Eu vou morrer de fome!» — «De qualquer maneira vais esticar não tarda! Que diferença faz?»
Basta um qualquer livre entrar na zona com um cão e descuidar-se um pouco, e ao fim do dia pode comprar a pele do seu cão fora da zona: num instante o cão foi levado, morto, esfolado e cozido.
Não há nada mais bonito do que o roubo e o banditismo! — dão de comer e são divertidos. Mas também o simples exercício, o divertimento desinteressado e a corrida são necessários a um corpo jovem. Pouco lhes importa correr por cima das pernas, por cima das coisas, derrubar, sujar, acordar alguém, magoar — estão a brincar!
As coisas com que os menores se divertem! — arrancar a camisa a um inválido e obrigá-lo a correr para apanhá-la, como se fosse da idade deles. Ele ofendeu-se, foi-se embora? — nunca mais voltará a vê-la! Vendem-na fora da zona e compram tabaco. (Agora aproximam-se dele com ar inocente: «Paizinho, dá-me lume! Anda lá, não te zangues. Porque é que te foste embora e não a apanhaste?»)
Os miúdos não são mal-intencionados, não querem ofender, não fingem: de facto não reconhecem ninguém como pessoas, além de si próprios e dos ladrões mais velhos! Foi assim que apreenderam o mundo! — Durante as longas sessões de controlo na zona, os menores perseguem-se uns aos outros, perturbando a multidão, empurrando os homens uns de encontro aos outros («Porque é que te puseste no meu caminho?»), ou correm um atrás do outro em volta de um homem, como em volta de uma árvore, com a vantagem de que podem esconder-se atrás dele, empurrá-lo, sacudi-lo, puxá-lo em todos os sentidos.
Isto já seria ultrajante num momento de descontração, mas quando a vida está quebrada, quando um homem foi lançado para a distante fossa do campo para morrer, já nele se espalha a morte pela fome e as trevas se erguem diante dos seus olhos… — os homens de idade, extenuados, são invadidos pelo ódio e gritam-lhes: «Que a peste vos leve, suas víboras!», «Estafermos! Cães raivosos!», «Piores que as bestas fascistas!», «Meteram-nos aqui para acabarem connosco!» (E há um tal peso nesses gritos dos inválidos que se as palavras matassem, eles matavam-nos.) Sim! Até parece que os puseram ali de propósito, porque mesmo pensando por muito tempo, os senhores dos campos não inventariam flagelo pior.
Assim se preparavam pequenas feras obstinadas, pela ação conjunta da legislação estalinista, da educação do Gulag e do fermento da ladroagem. Era impossível inventar melhor meio para a bestialização de uma criança! Era impossível fazer entrar de maneira mais sólida e mais rápida todos os vícios do campo num peito ainda frágil e não desenvolvido!
Vítia Koptiáiev está preso sem interrupção desde os doze anos. Condenado catorze vezes, nove delas por fuga. «Nunca estive legalmente em liberdade.» Iura Ermolov, depois de sair da prisão, arranjou trabalho, mas foi despedido: era mais importante admitir um soldado desmobilizado. Teve de «partir em digressão». E para novo tempo de prisão.
As imortais leis estalinistas sobre os menores mantiveram-se durante vinte anos (até ao decreto de 24 de abril de 1954, um pouco mais indulgente: libertou os menores que já tinham cumprido mais de um terço da pena — mas isto era da primeira condenação! E se fosse da décima quarta?). Apanharam vinte colheitas. Desviaram vinte gerações para o crime e o deboche.
Quem se atreve a lançar uma sombra sobre a memória do nosso Grande Corifeu?
* * *
Há crianças tão lestas que conseguem apanhar o artigo 58 desde muito cedo. Por exemplo, Guéli Pavlov apanhou-o logo aos doze anos (de 1943 até 1949, esteve numa colónia em Zakovsk.). Para o artigo 58 não existia nenhuma idade mínima! Isto dizia-se até nas conferências de divulgação jurídica — Talin, 1945. O doutor Usma conhecia um rapazinho de seis (6) anos que esteve numa colónia pelo artigo 58 — o que é certamente um recorde!
Onde, se não neste capítulo, recordar aquelas crianças que ficaram órfãs devido à detenção dos pais?
Felizes foram ainda assim os filhos das mulheres de uma comunidade religiosa perto de Khosta. Quando em 1929 as mães foram enviadas para as Solovki, deixaram ficar as crianças, por delicadeza, nas suas casas e explorações agrícolas. As próprias crianças cuidavam dos pomares e das hortas, ordenhavam as vacas, estudavam com aplicação na escola, e enviavam as notas aos pais para as Solovki, assegurando-lhes que estavam dispostas a sofrer por Deus. Como as suas mães. (É claro que o Partido lhes deu em breve essa possibilidade.)
Tendo em conta as instruções para «separar» os pais e os filhos deportados — quantos desses menores terá havido desde os anos 1920? E quem nos contará o destino deles?…
Vejamos o caso de Gália Venedíktova. O pai era um tipógrafo de Petrogrado, anarquista, a mãe era uma costureira da Polónia. Gália lembra-se bem do seu sexto aniversário (1933), alegremente festejado. Na manhã seguinte, ao acordar, nem o pai nem a mãe estavam e um militar desconhecido remexia nos livros. Na verdade, um mês depois devolveram-lhe a mãe: as mães e os filhos vão para Tobolsk livremente, só os homens iam sob escolta. Ali viveram em família, mas nem chegaram a um período de três anos: voltaram a deter a mãe, fuzilaram o pai e a mãe morreu na prisão um mês depois. Gália foi levada para um orfanato. Os hábitos no orfanato eram tais que as meninas viviam num constante medo de ser violadas. O diretor admoestava-as: «Vocês são rebentos de inimigos do povo, mas ainda vos dão de comer e de vestir!» (Como a ditadura do proletariado pode ser caridosa!) Gália tornou-se uma espécie de lobinha. Aos onze anos teve já o seu primeiro interrogatório político. — A partir daí ganhou um bilhete de dez, que de resto não cumpriu inteiramente. Quase com quarenta anos, vive sozinha para lá do Círculo Polar e escreve: «A minha vida acabou com a prisão do meu pai. Amo-o tanto ainda hoje que até tenho medo de pensar nisso. Aquele era outro mundo, e a minha alma está doente de amor por ele…»
Também Svetlana Sedova recorda: «Nunca esquecerei o dia em que puseram as nossas coisas na rua e me sentaram em cima delas, com uma forte chuva. Desde os seis anos fui a “filha de um traidor à pátria” — e não havia no mundo coisa mais horrível.»
Foram levados para centros de acolhimento do NKVD, em casas especiais. A maioria tiveram os seus apelidos mudados, em especial os que tinham apelido sonoro. (Iura Bukhárin só em 1956 soube o seu verdadeiro apelido.)
Temos o caso de Nina Peregud, aluna da oitava classe. Em novembro de 1941 foram deter o pai. Uma busca. De repente Nina lembrou-se de que tinha no forno uma cantiga sua, amarrotada mais ainda não queimada. Bem a podia ter deixado lá, mas Nina, inquieta, decidiu rasgá-la imediatamente. Foi tirá-la da fornalha, um miliciano que ali dormitava apanhou-a. Nina foi detida. Os seus diários desde a sexta classe foram confiscados para instrução e também uma fotografia contrarrevolucionária: da igreja de Santa Bárbara, que havia sido destruída. «De que é que o teu pai falava?» — queriam saber os cavaleiros de coração ardente e mãos limpas. Nina limitava-se a chorar. Condenaram-na a cinco anos, mais três de privação de direitos (embora não pudesse ser privada deles: porque ainda não tinha direitos).
No campo, é claro, separaram-na do pai. Ver um ramo de lilases brancos atormentava-a: e as suas amigas estavam a fazer exames! Nina sofria como se entende que deve sofrer uma criminosa a emendar-se: vede o que fez Zoia Kosmodemiánskaia, que era da minha idade, e eu que má sou! Os operacionais carregavam nesse pedal: «Mas tu ainda podes ser como ela! Ajuda- nos!»
Oh, corruptores de almas jovens! Que próspero fim terá a vossa vida! Em parte nenhuma tereis que vos levantar e, corando e titubeando, confessar as águas sujas que haveis despejado nas almas!
Mas Zoia Lescheva conseguiu superar toda a sua família. Eis como isso aconteceu. O pai, a mãe, o avô e a avó, os irmãos mais velhos adolescentes, foram todos espalhados por campos distantes por terem fé em Deus. E Zoia tinha apenas dez anos. Levaram-na para um orfanato (na região de Ivanovo). Ali declarou que não tiraria a cruz que a mãe lhe pusera ao pescoço quando foram separadas. E apertou com mais força o fio para que não lha tirassem durante o sono. A luta foi longa, Zoia exasperou-se: podem estrangular-me e tirar-ma depois de morta! E então, como rebelde à educação, enviaram-na para um orfanato de deficientes. Aqui era já a escória, um estilo de menores pior do que o descrito neste capítulo. A luta pela cruz continuou. Zoia resistia: também não aprendeu nem a roubar nem a dizer obscenidades. «Uma mulher santa como a minha mãe não pode ter uma filha criminosa. Antes quero ser política, como toda a minha família.» Quanto mais os educadores e a rádio glorificavam Estaline, mais seguramente descobria nele o culpado de todas as desgraças. E, não cedendo aos de direito comum, acabou por arrastá-los atrás de si! No pátio havia uma estátua padrão de Estaline, em gesso, na qual começaram a aparecer inscrições trocistas e indecentes. (Os miúdos gostam do desporto! — o importante é dirigi-los devidamente.) A administração pintou a estátua, colocou vigilância, informou o MGB. Mas as inscrições continuaram a aparecer, e a miudagem ria-se. Finalmente, uma manhã encontraram a cabeça da estátua arrancada, virada e com excrementos no interior.
Acto de terrorismo! Chegaram os tchekistas. Começaram os interrogatórios e as ameaças segundo todas as regras: «Entreguem-nos o bando dos terroristas, ou serão todos fuzilados por terrorismo!» (Coisa surpreendente, imagine-se, fuzilar cento e cinquenta crianças. Se Ele soubesse, tomaria ele mesmo as medidas necessárias.)
Não se sabe se os menores se aguentariam ou teriam fraquejado, mas Zoia Lescheva declarou:
— Fui que fiz tudo sozinha! Para que outra coisa serve a cabeça do paizinho?
E foi a julgamento. E condenaram-na à pena máxima, com toda a seriedade. Mas, devido ao inadmissível humanismo da lei sobre o regresso da pena de morte (1950), o fuzilamento de uma rapariga de catorze anos parecia não estar previsto. E por isso deram-lhe dez anos (é surpreendente que não tenham dado vinte e cinco). Até aos dezoito anos esteve nos campos normais, a partir dos dezoito nos Especiais. Pela franqueza e a língua pronta, deram-lhe uma segunda pena e ao que parece uma terceira.
Já os pais e os irmãos de Zoia estavam em liberdade, e Zoia continuava presa.
E viva a nossa tolerância religiosa!
Vivam as crianças, senhores do comunismo!
Que se apresente o país que tenha amado tanto as suas crianças como nós as nossas!
É costume dizer que no Gulag tudo é possível. A mais negra baixeza, qualquer variante de traição, um encontro absurdo e inesperado, e um amor no declive do abismo — tudo é possível. Mas se vos vierem contar, com os olhos brilhantes, que alguém foi reeducado pelos meios públicos através do DCE (Departamento Cultural e Educativo) — respondam com segurança: mentira!
Todos se reeducam no Gulag, reeducam-se sob a influência uns dos outros e das circunstâncias. Reeducam-se em várias direções — mas nenhum menor, e adulto ainda menos, foi reeducado pelos meios do DCE.
Organizavam-se deste modo. O chefe do DCE era um cidadão livre com a categoria de assistente do chefe do campo. Escolhia os seus educadores (segundo a norma de um educador por 250 educandos) — obrigatoriamente entre os das «camadas próximas do proletariado», por conseguinte os intelectuais (pequena burguesia) não convinham (era portanto mais próprio que fossem manusear a picareta). De manhã, o educador deve assistir à partida dos presidiários para o trabalho, e depois disso vai inspecionar a cozinha (ou seja, vai encher a pança), e por enquanto pode ir para a sua cabine pôr o sono em dia. O próprio DCE «não tem o direito de efetuar prisões», «mas pode pedir à administração» (que não recusa). Além disso, o educador «apresenta sistematicamente relatórios sobre o estado de espírito dos reclusos». (Tem ouvidos e ouve! Aqui, o departamento de cultura e educação transforma-se delicadamente numa secção tchekista operacional, mas isso não está escrito nas instruções.)
Devemos contudo desgostar o leitor, informando que se trata aqui do final dos anos 1920 e princípios dos anos 1930, os melhores anos de desenvolvimento do DCE, quando no país se construía a sociedade sem classes e ainda não eclodira a tão horrível explosão da luta de classes, como a partir do momento em que ela já estava construída.
E como eram variegadas, tão diversificadas as formas de trabalho! Como a própria vida. Organização da emulação. Luta pela disciplina no trabalho. Excursões culturais. Conversas com os refratários ao trabalho. Cursos técnico-profissionais para os reclusos originários dos meios trabalhadores, muito procurados pelos criminosos para aprenderem a profissão de condutores: liberdade!). E os círculos vermelhos em cada barracão! Os números das tarefas! Os diagramas preenchidos. E que cartazes! Que palavras de ordem!
Nesses tempos felizes, sobre os espaços e abismos tenebrosos do Arquipélago pairavam as Musas, e em primeiro lugar a mais alta das musas — Polimnia, musa dos hinos (e das palavras de ordem).
«À brigada excelente, — honra e louvor!
Trabalhador de choque — recebes o valor»
Ou:
«Entremos na campanha de choque
Pelo 17.° aniversário de Outubro!»
Quem é que resiste?
E a arte dramática sobre temas de acuidade política (um pouco da musa Tália)? Por exemplo: o serviço do Calendário Vermelho! O jornal vivo! O skech musical «Marcha dos artigos do Código Penal» (o 58.° é a Bruxa Má coxa)! Basta que semelhante brigada de agitação chegue ao sector de trabalho disciplinar e dê um concerto:
Escuta, rio Volga!
Se ao lado do preso
Dia e noite há na obra tchekistas,
Isso quer dizer que a mão
Dos operários é forte,
Quer dizer que no OGPU estão comunistas!
E logo todos os disciplinares, e em especial os reincidentes, largam as cartas de jogar e simplesmente correm para o trabalho!
E depois há a imprensa, é claro, a imprensa! — a arma mais afiada do nosso partido. Aqui está a verdadeira prova de que no nosso país há liberdade de imprensa: a existência de imprensa nas prisões! Sim! E em que outro país é isso possível? Os jornais até publicam fotografias dos trabalhadores de choque. Os jornais mostram. Os jornais revelam. Os jornais até fazem luz sobre os ataques do inimigo de classe. E em geral os jornais refletem a vida do campo, como ela decorre, e são um testemunho inestimável para a posteridade. Vejamos, por exemplo, o jornal da casa de detenção de Arkhanguelsk que, em 1931, nos traça a abundância e o florescimento em que vivem os detidos: «escarradeiras, cinzeiros, oleado nas mesas, altifalantes radiofónicos, retratos dos dirigentes e nas paredes palavras de ordem eloquentes sobre a linha geral do partido — são os merecidos frutos de que gozam os privados da liberdade!»
Sim, frutos caros!
* * *
E para onde, para onde desapareceu tudo isso?… Oh, como é efémero na Terra tudo aquilo que é belo e perfeito! Um sistema de educação tão intenso, tão animado e otimista — e para chegar aonde?
Já não se valorizava a forma artístico-poética das palavras de ordem, que passaram a reduzir-se à expressão mais simples: cumpramos! ultrapassemos!
Ou no que se transformaram as palestras políticas? Vejamos o 5.° OLP do campo Unjlag, aonde chega um conferencista de Sukhobezvodnoie (estamos já em 1952). Depois do trabalho, os presos são levados para a conferência. É certo que o camarada não concluiu os estudos secundários, mas do ponto de vista político conduz de modo irrepreensível uma conferência necessária e oportuna: «A luta dos patriotas gregos». Os presos estão sentados, sonolentos, escondem-se atrás das costas uns dos outros, sem qualquer interesse. O conferencista fala das horríveis perseguições dos patriotas e de que as mulheres gregas em lágrimas escreveram uma carta ao camarada Estaline. Terminada a conferência, levanta-se Cheremeta, uma mulher de Lvov, simplória mas astuta, e pergunta: «Cidadão chefe! Diga-nos, e nós a quem podemos escrever?…» E pronto, a influência positiva da conferência fica reduzida a zero.
Que formas de trabalho de reeducação e formação ficaram no DCE? Estes: aos requerimentos enviados pelos presos ao chefe do campo, juntar uma anotação acerca do cumprimento da norma de trabalho e sobre o comportamento, distribuir pelos quartos as cartas, depois de passarem pela censura; juntar os jornais e escondê-los dos detidos, para que não os usem como papel para cigarros; três vezes por ano dar concertos de amadores. Bom, e ajudar um pouco o delegado operacional, mas não oficialmente.
Sim! Há mais um trabalho importante: tratar das caixas! Abri-las de vez em quando, limpá-las e voltar a fechá-las — as pequenas caixas pintadas de cor pardacenta penduradas em lugar visível da zona. E por cima das caixas, inscrições: «Ao Soviete Supremo da URSS», «Ao Conselho de Ministros da URSS», «Ao Ministro dos Assuntos Internos da URSS», «Ao Procurador Geral».
Escreve, por favor! — entre nós há liberdade de palavra. Nós depois veremos aqui o que enviar para onde e a quem. Temos camaradas especiais para ler essas coisas.
* * *
Na atmosfera do campo, fétida e sem oxigénio, a chama fumarenta do DCE ora respinga e se inflama, ora mal brilha. Mas mesmo essa luzinha atrai homens de vários barracões e de diferentes brigadas. Uns com o objetivo bem definido de arrancar folhas de um livro ou de um jornal para fumar, conseguir papel para um pedido de indulto, ou escrever com a tinta do local (no barracão não é permitido ter tinta, e mesmo aqui ela está fechada à chave: com a tinta pode-se colocar um carimbo falso!). Há quem venha simplesmente para se pavonear: eu sou instruído! Outros para contactar e dar dois dedos de conversa com novas pessoas, fartos dos seus colegas de brigada. E há quem venha escutar para ir bufar ao chefe. Mas há também os que não sabem por que são inexplicavelmente atraídos para aqui, cansados, para uma curta meia hora da noite, em vez de estarem deitados nas tarimbas, dar descanso ao corpo dorido.
Estas visitas ao DCE insuflam na alma, de maneira invisível, impercetível, um pouco de fresquidão. Embora os que aqui vêm sejam os mesmos homens famintos que ficam nas vagonetas da brigada, aqui não falam de rações, nem de papas, nem de normas de trabalho. Aqui não se fala daquilo que constitui a vida do campo, e isso é já um protesto da alma e um repouso da mente. Aqui fala-se de um passado fabuloso, que estes homens cinzentos, famintos e esfarrapados não puderam ter. Fala-se de uma indescritível vida de felicidade, livre e movimentada, daqueles felizardos que conseguiram de algum modo não vir parar à prisão. E aqui discute-se também sobre arte, e por vezes de maneira cativante!
Como se no meio dos desmandos das forças do mal alguém traçasse no chão um ténue círculo de luz — que não tardará a apagar-se, mas por enquanto não se apagou — e tens a ilusão de que no interior do círculo não estás sob o poder da força do mal durante essa meia hora.
E aqui também alguém dedilha uma guitarra. Alguém canta a meia voz — nada daquilo que é permitido num palco. E sentimos um estremecimento: a vida existe! Existe! E, lançando em redor um olhar feliz, também tu queres dizer alguma coisa a alguém.
E se houver no campo tipos excêntricos (há sempre), também eles não faltarão no DCE, virão aqui sem falta dar uma olhadela.
Vejamos o professor Aristid Ivánovitch Dovatur — não é ele um excêntrico? Petersburguense de origem franco-romena, filólogo clássico, celibatário e solitário de sempre e para sempre. Arrancaram-no a Heródoto e a César e atiraram-no para um campo. Na sua alma tudo é ainda textos por decifrar, e está no campo como num sonho. Aqui estaria perdido logo na primeira semana, mas os médicos protegem-no, arranjaram-lhe um invejável lugar de estatístico médico, e duas vezes por mês, com proveito para os enfermeiros acabados de chegar ao campo, encarregam Dovadur de lhes dar lições! Lições de latim, num campo! Aristid Ivánovitch coloca-se junto ao pequeno quadro e irradia como nos seus melhores anos de universidade. Escreve estranhas colunas de conjugação que nunca haviam surgido diante dos olhos dos indígenas, e os sons do minúsculo giz aceleram as batidas do seu coração.
Temos este excêntrico, que depois do trabalho está sempre no DCE, onde mais poderia ele estar? Tem uma grande cabeça, feições largas, boas para a maquilhagem, bem visíveis de longe. As suas sobrancelhas hirsutas são especialmente expressivas. E tem sempre um ar trágico. De um canto da sala observa com ar deprimido os nossos pobres ensaios. Trata-se de Kamill Leopoldovich Gontuar. Nos primeiros anos da revolução veio da Bélgica para Petrogrado para fundar o Novo Teatro, teatro do futuro. Quem poderia prever então como sairia esse futuro e que iriam prender os encenadores? Nas duas guerras mundiais, Gontuar combateu contra os alemães: a primeira no Ocidente, a segunda no Leste. E agora pregaram-lhe dez anos por traição à pátria… Qual?… Quando?…
Mas é claro que os homens mais notáveis junto do DCE são os pintores. Aqui são eles os senhores. Se há uma sala separada, é para eles. Se libertam alguém dos trabalhos gerais, são unicamente eles. De todos os servidores das musas só eles criam verdadeiros valores, que se podem apalpar com as mãos, pendurar numa sala, vender por dinheiro. É claro que não pintam um quadro de cabeça, nem isso lhes é pedido. Pintam simplesmente cópias em grande formato de postais ilustrados — uns por meio de quadrículas, outros conseguem fazê-lo sem quadrículas. E nos confins da taiga e da tundra é impossível encontrar melhor artigo estético. Os pintores também pintam tapetes com beldades navegando em gôndolas, com cisnes, pôr do sol e castelos — tudo isto é muito procurado pelos camaradas oficiais. Não sendo tolos, os pintores pintam também pequenos tapetes para si próprios, e os guardas vendem-nos a meias no mercado exterior. A procura é muita. De um modo geral, os pintores podem viver no campo.
Para os escultores é mais difícil. Uma escultura para os quadros dos MVD não é coisa assim tão bonita, não é habitual para ter em casa, ocupa o lugar de um móvel, e, com um encontrão, quebra-se. Os escultores raramente têm trabalho no campo, e por isso habitualmente acumulam com a pintura.
Se no campo surge um poeta, permitem-lhe que escreva legendas para caricaturas e que componha cantigas — também sobre os infratores da disciplina. Os prosadores, de um modo geral, não existem nos campos.
Quando a prosa russa se retirou para o campo, escreveu perspicazmente um poeta soviético. Retirou-se e não voltou para trás. Retirou-se e não voltou a aparecer...
Milhões de intelectuais russos foram enviados para aqui e não numa excursão: para ficarem traumatizados, para morrerem, sem esperança de regresso. Pela primeira vez na história um tão grande número de pessoas instruídas, adultas, culturalmente ricas acharam-se sem imaginação, e para sempre na pele do escravo, do cativo, do lenhador e do mineiro.
Sobre a amplitude do acontecimento, sobre o número de mortos e o nível que eles poderiam ter alcançado — nunca mais poderemos formar um juízo. Ninguém nos contará os cadernos queimados à pressa antes de uma transferência, os fragmentos acabados e os grandes projetos contidos nas cabeças e lançados juntamente com as cabeças na vala comum gelada. Os versos ainda se recitam da boca ao ouvido, ainda se recordam e se transmitem, eles ou a recordação deles — mas a prosa não se conta antes de tempo, é mais difícil sobreviver, é demasiado volumosa, rígida, demasiado ligada ao papel, para poder atravessar as vicissitudes do Arquipélago.
E no entanto, o Arquipélago oferecia uma possibilidade única, excecional, para a nossa literatura e talvez para a literatura mundial. Uma inaudita servidão em pleno século XX oferecia aos escritores, nesse sentido e só nesse, que não redime nada, uma via fecunda, ainda que funesta.
Assim foram para debaixo da terra os prosadores filósofos. Os prosadores historiadores. Os prosadores impressionistas. Os prosadores humoristas.
Deste modo, uma filosofia e uma literatura nunca vistas foram enterradas, ainda em processo de nascimento, debaixo da crosta férrea do Arquipélago.
* * *
Os mais assíduos frequentadores do DCE são os participantes nas atividades artísticas amadoras. Essa direção das atividades amadoras continuou a pertencer ao DCE decrépito, como o tinha sido em jovem.
Nos campos remotos isso faz-se do seguinte modo. O chefe do DCE chama um acordeonista e diz-lhe:
— Ora bem. Arranja-me um coro! E que possa atuar dentro de um mês.
— Mas eu não sei música, cidadão chefe!
— E para que diabo queres saber música? Tocas uma canção que toda a gente saiba, e os outros que te acompanhem.
E começa o recrutamento, por vezes também para o círculo dramático. E como atrair os presos para a atividade de amadores? Bem, entre os quinhentos homens da zona, encontram-se talvez três ou quatro verdadeiros amadores do canto — mas quem constituirá o coro? O principal atrativo do coro, nas zonas mistas, está na possibilidade de encontros. Aparecem sempre novos participantes que nunca cantaram, sem vozes que prestem, mas todos se candidatam! Mas nos próprios ensaios os coristas eram muito menos. (A questão estava em que os participantes nessas atividades amadoras podiam deslocar-se na zona durante duas horas depois do recolher — para ir ao ensaio e voltar — e durante essas duas horas tratavam de assuntos seus.)
Mas para alguns, o coro e o círculo dramático não eram apenas lugares de encontro: era, uma vez mais, a imitação da vida, uma lembrança de que em todo o caso a vida existe, de um modo geral existe… Por exemplo, traz-se do armazém o papel grosseiro de um saco de cereais que é distribuído para que se copiem as falas das personagens. Almejado procedimento teatral! E a própria distribuição dos papéis! E a ideia de quem vai beijar quem no espetáculo! Quem vai vestir o quê! Como vai ser a maquilhagem! Na noite do espetáculo será possível segurar na mão um verdadeiro espelho e ver-se a si mesmo vestido como um cidadão livre, com as faces rosadas.
Mas por vezes já está tudo ensaiado, vem o chefe do DCE, o major Potapov (SevJelDorlag), um komi, pega no programa e vê: «Dúvida» de Glinka.
— O quê, o quê? Dúvida? Não há dúvidas nenhumas! Não-não, e escusam de pedir! — e risca com a sua própria mão.
Os teatros de presos existiam em cada UITLK regional, e em Moscovo até existiam vários. O mais célebre deles era o teatro do coronel do MVD, Mamulov, em Khovrino. Mamulov zelava ciosamente para que nenhum dos artistas de nomeada, detidos em Moscovo, escapasse à prisão de Krassnaia Pressnia. Os seus agentes buscavam também noutras prisões de trânsito. Reuniu assim uma grande companhia dramática e o esboço de uma companhia de ópera. Era o orgulho de um latifundiário: tenho um teatro melhor que o do meu vizinho! No campo de Beskudnikovo também havia um teatro, mas muito inferior. Os latifundiários visitavam-se uns aos outros com os seus atores, para fazer alarde.
Esses teatros existiam em Vorkuta, em Norilsk, em Solimansk, em Magadan, em todas as grandes ilhas do Gulag, onde se tornavam quase teatros municipais, quase académicos, davam espetáculos nos teatros municipais para o público livre.
O grupo de Moscovo, que fazia digressões pelos campos, dando espetáculos, e vivia na prisão de Matrosskaia Tichina, foi de repente transferido por algum tempo para a barreira de Kaluga, onde eu estava. Que sorte! — Oh, que estranha sensação! Ver no refeitório do campo uma encenação de atores profissionais presidiários! Risos, sorrisos, cantares, vestidos brancos, sobrecasacas pretas…
A heroína do grupo, Nina V., tinha apanhado cinco anos ao abrigo do artigo 58-10. Eu e ela depressa descobrimos um conhecido comum — o professor dela e meu na secção de história de arte do MIFLI.[64] Ela era ainda muito jovem, não tinha terminado o curso. Como qualquer prima-dona, Nina tinha no grupo o seu amado (bailarino do Bolchoi), mas também um pai espiritual na arte teatral — Osvald Glazunov (Glaznek), um dos mais antigos membros do teatro Vakhtangov. Ele e a mulher tinham sido capturados pelos alemães na datcha, perto de Istra. Durante três anos da guerra estiveram na sua pequena pátria em Riga, a representar no teatro letão. Com a chegada dos nossos, ambos apanharam dez anos cada, por traição à Pátria grande. Agora estavam naquele grupo.
Izolda Vikentievna Glaznek tinha já uma certa idade, era-lhe difícil dançar. Vimo-la apenas uma vez num bailado insólito para o nosso tempo. Dançava num palco mergulhado na penumbra, com um fato prateado escuro, fechado. Essa dança ficou-me bem gravada na memória. A maioria das danças modernas são a exibição do corpo feminino, e a isso se resume quase tudo. Mas a dança dela era uma espécie de advertência espiritual e mística.
E alguns dias depois, de repente, furtivamente, como sempre se preparam as transferências no Arquipélago, Izolda Vikentievna foi transferida, separada do marido, levada para o desconhecido.
Isto, já entre os senhores feudais, era uma barbaridade: separar as famílias de servos, vender o marido e a mulher separadamente. Mas, em contrapartida, o que não ouviram eles de Nekrássov, Turguéniev, Leskov, de todos. Mas entre nós não era uma barbárie, era apenas uma medida racional: a velha já não justificava a sua ração, ocupava um lugar no orçamento.
No dia da transferência da mulher, Osvald arrastava-se com o olhar vago, apoiando-se no ombro da sua frágil filha adotiva, como se só ela pudesse ainda ampará-lo. Estava num estado meio louco, era de recear que atentasse contra a sua vida.
Fixei a imagem escultural de ambos: como o velho puxava para si a rapariga pela nuca, e ela o olhava compassivamente e esforçava-se por não chorar.
Mas — que dizer? — a velha não justificava já a ração que comia…
Neste ensaio, se nada nos impedir, tencionamos fazer uma importante descoberta científica.
O autor destas linhas, atraído pela natureza enigmática da tribo indígena que povoa o Arquipélago, decidiu deslocar-se ao local numa longa missão científica e reuniu abundante material.
Como resultado, tentaremos agora provar que os zeks constituíam uma nação especial à parte.
Qual de nós não estudou na escola secundária a tão conhecida e única definição científica de nação, dada pelo camarada Estaline: nação — é uma comunidade de pessoas historicamente constituída, com um território comum; uma língua comum; uma comunidade de vida económica; estrutura psíquica comum, que se manifesta na comunidade de cultura. Pois os indígenas do Arquipélago satisfazem inteiramente todas essas exigências! — até bastante mais! (A genial observação do camarada Estaline segundo a qual a comunidade tribo-racial de sangue não é de modo nenhum obrigatória, dá-nos aqui especial liberdade).
Os nossos indígenas ocupam um território comum perfeitamente definido (embora fragmentado em ilhas, mas quando é no oceano Pacífico não nos surpreendemos), onde não vivem outros povos. O sistema económico é espantosamente uniforme: a sua descrição exaustiva cabe em duas páginas datilografadas (o sistema das marmitas e as orientações à contabilidade sobre a maneira de canalizar o falso salário dos zeks para a manutenção da zona, a guarda, a direção da ilha e o Estado). Se incluirmos na economia o tipo de vida corrente, verificamos que ele é tão uniforme nas ilhas (mas em mais parte nenhuma!) que os zeks transferidos de ilha para ilha não se surpreendem, não fazem perguntas tolas e começam logo a agir sem se enganarem no novo lugar. Comem uma comida que mais ninguém no mundo come, usam roupas que mais ninguém usa, e até o emprego do tempo durante o dia é igual em todas as ilhas e obrigatório para cada preso. (Qual o etnógrafo que nos indicará outra nação em que todos os membros têm os mesmos horários, a mesma comida e das mesmas roupas?)
Aquilo que na definição científica de nação se entende por comunidade de cultura não é ali suficientemente explicitado. Não se pode exigir dos zeks uma unidade de ciência e de literatura pela simples razão de que não têm escrita. (Mas isso acontece com quase todos os povos indígenas das ilhas, na maioria deles por falta precisamente de cultura; nos zeks é por excesso de censura.) Em contrapartida, esperamos demonstrar abundantemente no nosso ensaio a comunidade de psicologia dos zeks, a uniformidade do seu comportamento e até a unidade das opiniões filosóficas, coisas com que os outros povos só podem sonhar. O carácter de povo claramente expresso é precisamente aquilo que o investigador nota de imediato nos zeks. Têm o seu próprio folclore e as suas figuras de heróis. Por último, há ainda a uni-los estreitamente um recanto da cultura, ligado de modo indissolúvel à língua e que só aproximadamente podemos descrever com o termo inexpressivo de materschina (do latim mater). Trata-se de uma forma especial de expressão das emoções, que é mesmo mais importante do que a restante linguagem, porque permite aos zeks comunicarem uns com os outros de uma forma mais enérgica e breve do que os habituais meios linguísticos. Por isso toda a restante língua como que passa para segundo plano.
Tudo o que acabamos de dizer permite-nos afirmar sem hesitação que a condição dos indígenas no Arquipélago é uma condição nacional especial, em que se desvanece a anterior pertença nacional da pessoa.
Já prevemos a seguinte objeção. Vão dizer-nos: mas será isso um povo, se não compensa as suas perdas pelo meio habitual da procriação? Respondemos: sim, ele compensa pelo meio técnico do encarceramento (e os seus próprios filhos entrega-os, por um estranho capricho, aos povos vizinhos). Afinal, criam-se os pintos na incubadora e nem por isso deixamos de considerá-los galinhas quando utilizamos a sua carne.
Mas mesmo que surja alguma dúvida quanto à maneira como os zeks começam a sua existência, a maneira como a acabam não pode oferecer nenhuma dúvida. Morrem como toda a gente, mas com muito maior densidade e mais precocemente. E o rito fúnebre é sombrio, avaro e cruel.
Duas palavras acerca do próprio termo zeks. Até 1934, o termo oficial era «privados de liberdade» ( lichiónie svobodi). Abreviava-se para «l/s», mas não restam testemunhos de que os indígenas se identificassem a si mesmos por essas letrinhas como «elesse». A partir de 1934 o termo foi mudado para «detidos» ( zakliutchiónnie). (Recordemos que o Arquipélago já começava a petrificar-se, e até a linguagem oficial se adaptava, não podia tolerar que na designação dos indígenas houvesse mais liberdade do que prisão). Passaram a escrever abreviadamente: para o singular «z/k» (ze-ká), para o plural «z/k z/k» (ze-ka ze-ka). No entanto, esta palavra oficialmente formada não se conseguia declinar nem pelos casos gramaticais, nem pelos números, era um digno rebento de uma época morta e iletrada. O ouvido sensível dos sagazes indígenas não podia conformar-se com isso e, por troça, começaram nas várias ilhas a designar-se de diferentes maneiras: em alguns lugares diziam «Zakhar Kuzmitch», ou (em Norilsk) «zapoliarnikh komsomoltsev» (komsomóis do círculo polar) noutros (Carélia) principalmente «zak» (o mais fiel à etimologia), em alguns (Inta) «zik». Eu, pessoalmente, ouvi dizer «zek». Em todos estes casos a palavra reanimada começava a ser declinada e a formar um plural (a conformar-se com os casos e os números gramaticais). E se escrevemos aqui essa palavra com «э» e não com «e» é porque de outro modo não se consegue garantir a pronúncia dura do «z».
* * *
O clima do Arquipélago é sempre polar, mesmo quando uma ilhota se enfiou nos mares do sul. O clima do Arquipélago são doze meses de Inverno e o resto do tempo é Verão. O próprio ar queima e pica, e não apenas por causa do frio, não apenas devido à natureza.
Mesmo no Verão, os zeks andam vestidos com a couraça dos casacos acolchoados. Este simples facto, mais as cabeças dos homens todas rapadas conferem-lhes unidade de aspeto exterior: severidade, impessoalidade. No entanto, depois de observá-los um pouco, ficaremos impressionados também pela comunidade das expressões dos seus rostos — sempre tensos, frios, sem qualquer benevolência, passando com facilidade à dureza e mesmo à crueldade. Em conversa connosco será lacónico, falará sem expressão, em tom monótono e obtuso, ou com servilismo, se precisa de nos pedir alguma coisa. Mas se conseguirmos de algum modo ouvir despercebidamente os indígenas quando falam entre si, recordaremos talvez para sempre esse modo de falar especial — como se nos empurrasse com as palavras, maliciosamente zombeteiro, exigente e nunca cordial. Mas também não se pode deixar de reconhecer uma grande energia ao discurso dos zeks. Isso deve-se em parte ao facto de ele ser livre de quaisquer expressões redundantes, de palavras incisas do género: «desculpe», «por favor», «se não vê inconveniente», e também de pronomes pessoais e interjeições.
Já dissemos que os zeks não têm literatura escrita. Mas no exemplo pessoal dos velhos ilhéus, na tradição oral e no folclore elabora-se e transmite-se aos novatos todo um código do correto comportamento do zek, os preceitos fundamentais em relação ao trabalho, aos patrões, àqueles que os rodeiam e a si próprios. É todo este código no seu conjunto que dá aquilo a que chamamos o tipo nacional do zek. O selo dessa pertença grava-se profundamente e para sempre no homem. Passados muitos anos, se ele se encontra fora do Arquipélago, é o zek que ele reconhece em si antes de mais nada, e só depois o russo, ou o tártaro, ou o polaco.
Continuando a nossa exposição, procuraremos observar de modo complexo, traço a traço, aquilo que é o carácter particular, a psicologia da vida e a ética normativa na nação dos zeks.
* * *
Atitude perante o trabalho do Estado. Os zeks sabem que é impossível fazer o trabalho todo (nunca vás atrás da ideia de que se acabares um trabalho mais depressa te sentarás a descansar: mal te sentas, dão-te logo outro trabalho). O trabalho gosta dos imbeci s.
Mas como fazer? Negar-se abertamente ao trabalho? Pior que isso não há — metem-nos nos calabouços, matam-nos à fome. Ir para o trabalho é inevitável, mas uma vez chegado lá, ao local de trabalho, é necessário não dar no duro, mas «engonhar», não afadigar-se, mas mandriar, preguiçar (ou seja, de qualquer maneira não trabalhar). O indígena não se recusa nunca abertamente, categoricamente, a cumprir nenhuma ordem — isso seria a sua perda. Mas faz render o peixe. «Fazer render o peixe» é um dos principais conceitos e expressões do Arquipélago, é a principal conquista salvadora dos zeks (mais tarde foi profusamente copiada pelos trabalhadores em liberdade). O zek escuta tudo o que lhe ordenam e acena a cabeça afirmativamente. E vai cumprir. Mas não cumpre! A maior parte das vezes nem sequer começa. Isso leva por vezes ao desespero os comandantes da produção, racionais e infatigáveis. Surge naturalmente a vontade de lhe dar um murro nas ventas ou um cachação, àquele insensato animal andrajoso — pois tinha-lhe sido dito em língua russa!…
Incompreensão? Pelo contrário, compreensão superior, adaptada às circunstâncias. Mas o que pode ele esperar? O trabalho não se faz por si mesmo, os zeks assimilaram solidamente: não faças hoje aquilo que podes fazer amanhã. Com o zek, onde montas é onde desmontas. Evita gastar uma caloria a mais onde ela talvez possa ser poupada. (O indígena tem o conceito de caloria muito desenvolvido e muito popular.) Os zeks entre si dizem abertamente: aquele que aceita é que é fustigado (e aquele que não se esforça, acabam por deixá-lo). Em suma, para o zek, trabalhar é chegar ao fim do dia.
Mas aqui a honestidade científica obriga-nos a reconhecer alguma fraqueza na nossa linha de pensamento. Antes de mais porque a regra do campo « aquele que aceita é que é fustigado» é afinal, ao mesmo tempo, um velho provérbio russo. Encontramos em Dal uma outra expressão que é também puramente zek: « vive como o dia para a noite». Continuando estas perigosas comparações, descobrimos entre os ditados russos formados no tempo da servidão e já sedimentados no século XIX, os seguintes:
— Não faças o trabalho, não fujas do trabalho (Impressionante! Isto é o princípio de fazer render o peixe, como nos campos!)
— Ser capaz de tudo, mas não fazer tudo.
— Não se pode refazer o trabalho do Senhor.
— Cavalo brioso não morre de velho.
— Dão-te um pouco de pão, e obrigam-te a uma semana de esforço. (Faz lembrar a teoria dos zeks de que mesmo uma ração reforçada não compensa os gastos de energia no trabalho.)
O que resulta daqui? Que por cima das fronteiras luminosas das nossas reformas libertadoras, das luzes, da revolução e do socialismo, o mujique servo de Catarina e o zek de Estaline, apesar da diferença da sua situação social, apertam as mãos escuras e calejadas um do outro?… Isso não pode ser!
Aqui interrompe-se a nossa erudição, e voltamos à nossa exposição.
Da atitude para com o trabalho decorre a atitude do zek para com as autoridades. Aparentemente ele é muito obediente, tem muito medo delas, curva a espinha quando um chefe o repreende. Na verdade, o zek despreza completamente a sua chefia — tanto a do campo como a da produção. Ao afastar-se em bando depois de escutar explicações práticas, sermões e reprimendas, os zeks começam de imediato a escarnecer a meia voz: só têm que dizer, e nós que esquecer! No seu íntimo, os zeks consideram-se superiores aos seus chefes — pela instrução, pelo domínio de especialidades técnicas e pela compreensão geral das circunstâncias da vida.
De um modo geral, a escala de valores dos zeks está de pernas para o ar, mas isso não nos deve surpreender, se nos lembrarmos de que entre os selvagens sempre foi assim: dão um porco gordo em troca de uns espelhos pequenos, por um colar de contas barato dão um cesto de cocos. Aquilo que é caro para nós e para si, leitor — valores das ideias, espírito de sacrifício e desejo de trabalhar desinteressadamente pelo futuro, para os zeks não só não existe, como não lhes interessa e não vale nada. Basta dizer que os zeks são totalmente desprovidos do sentimento patriótico, não gostam nada das suas ilhas. Recordemos simplesmente as palavras de uma das suas canções populares:
Maldita sejas, Kolimá!
Planeta inventado por canalhas!…
Por isso é frequente empreenderem longas e arriscadas aventuras em busca da felicidade, a que em linguagem popular se chama fugas.
Aquilo a que os zeks dão mais valor e colocam em primeiro lugar é a sua ração, a que chamam paika — um pedaço de pão preto com misturas várias, mal cozido, que eu e o leitor nem pensaríamos em comer. E essa ração é tanto melhor avaliada quanto maior e mais pesada for. Em segundo lugar vem o tabaco, que além do mais lhes serve de moeda padrão (nas ilhas não há sistema monetário). Em terceiro lugar está a lavadura (a sopa das ilhas, sem gordura, sem carne, sem cereais nem legumes, ao costume indígena).
O valor que vem a seguir é, para os zeks, o sono. Um homem normal não pode deixar de se surpreender com o tempo que um zek é capaz de dormir e em que variadas condições. Escusado é dizer que os zeks ignoram o que seja a insónia, não usam soníferos, dormem a noite toda de um sono e, se calha terem um dia sem trabalho, passam-no todo a dormir. Está firmemente estabelecido que eles conseguem adormecer sentados junto às padiolas vazias, à espera de que as carreguem; conseguem adormecer na formatura da revista, afastando os pés; e até a caminhar em fila para o trabalho, sob escolta, conseguem adormecer, mas nem todos: alguns deles caem e acordam. A sua explicação para tudo isto é a seguinte: no sono, o tempo de prisão passa mais depressa. E também: a noite é para dormir, e o dia para descansar.
Assinalamos que, ao discorrer sobre o povo dos zeks, é quase impossível imaginar indivíduos, rostos e nomes isolados. Isso não se deve a nenhum vício do nosso método, mas é um reflexo do estranho regime de vida seguido por este estranho povo, que renunciou ao estilo de vida familiar tão comum entre os outros povos e a deixar uma prole (estão certos de que o seu povo compensará as perdas por outra via).
Aí está uma brigada de zeks a entrar no refeitório ao fim da tarde, a buscar a lavadura: cabeças rapadas, gorros às três pancadas, andrajos zeks com cordéis, rostos maus, torcidos (de onde lhes vêm, com esta sopa aguada, estes nervos e estas forças?) — e vinte e cinco pares de sapatos, de alpercatas de corda e de entrecasca, — toc-toc, toc-toc, dá-me a minha ração, chefezinho! Afastem-se, vocês que não são da nossa igualha! Vemos aqui a expressão de um dos principais traços nacionais do povo zek — a energia vital (e isto não entra em contradição com a sua tendência para adormecer a todo o instante. Pois eles adormecem precisamente para que nos intervalos tenham forças para essa pressão). Nas ásperas condições das ilhas, do êxito ou do fracasso na luta por um lugar depende a própria vida — e, ao abrirem assim caminho para si próprios à custa dos outros indígenas, não conhecem princípios éticos que os retenham. Assim o dizem abertamente: a consciência? Ficou no meu processo pessoal. Nas importantes decisões vitais, orientam-se pela conhecida regra de Arquimedes: mais vale torcer que sofrer.
Mas a pressão pode ser bem-sucedida se for acompanhada de agilidade prática, de desembaraço em condições difíceis. O zek tem de revelar essa capacidade todos os dias, pelos motivos mais simples e insignificantes: para salvar da ruína os seus miseráveis bens: um tacho amolgado, um trapo mal cheiroso, uma colher de pau, uma agulha de costura.
Conforme a situação e avaliando psicologicamente o adversário, o zek tem de revelar flexibilidade de comportamento — desde a ação rude a socos ou aos gritos, até ao mais subtil fingimento, da completa desvergonha até à religiosa fidelidade à palavra dada de olhos nos olhos e que aparentemente não teria nada de obrigatório. Esta mesma flexibilidade de comportamento exprime-se também na conhecida regra dos zeks: se te dão, aceita, se te batem, foge.
Para os ilhéus do Gulag, a mais importante condição do êxito na luta pela vida é a sua dissimulação. O seu carácter e os seus objetivos estão tão profundamente ocultos, que qualquer patrão inexperiente acha a princípio que os zeks se vergam como as ervas — sob a ação do vento e das botas. (Só mais tarde se convencerá com amargura da astúcia e da insinceridade dos ilhéus.) A dissimulação é talvez o traço mais característico da tribo dos zeks. O zek tem de ocultar as suas intenções, os seus actos, do patrão, e do guarda, e do chefe da brigada, e dos chamados «bufos». Tem de esconder os planos, os cálculos, as esperanças — quer se prepare para uma grande «fuga», ou tenha descoberto onde ir buscar aparas para meter no colchão.
A dissimulação do zek resulta da sua desconfiança geral: desconfia de toda a gente à sua volta. Um ato aparentemente desinteressado suscita nele uma desconfiança especialmente forte. A lei da taiga é como ele formula o imperativo superior das relações humanas. O indígena que mais plenamente reuniu em si essas qualidades da tribo — o impulso vital, falta de piedade, engenho, dissimulação e desconfiança, chama-se a si próprio e chamam-lhe «filho do Gulag». Isso para eles é como que um título de cidadão honorário, e adquire-se, é claro, por longos anos de vida nas ilhas.
Os filhos do Gulag são também os principais depositários das tradições e dos chamados mandamentos dos zeks. Como afirmam os filhos do Gulag, vivendo segundo esses mandamentos, no Arquipélago não te perdes.
Há mandamentos como: não marteles (como entender isto? certamente para que não haja barulho supérfluo); não lambas as escudelas, ou seja, depois dos outros, o que entre eles se considera uma morte rápida e súbita. Não sejas chacal.
Finalmente, há um mandamento misto: não acredites, não receies, não peças! Neste mandamento funde-se com grande clareza, como numa escultura, o carácter nacional comum do zek.
Como se pode governar (em liberdade) um povo, se todo ele estiver impregnado de um tão orgulhoso mandamento?… Só pensar nisso é assustador.
Este mandamento leva-nos ao exame não já da conduta dos zeks na vida, mas da sua essência psicológica.
A primeira coisa que notamos num filho do Gulag e que depois observamos cada vez mais: o equilíbrio espiritual, a estabilidade psicológica. É interessante aqui a conceção filosófica geral que o zek tem do seu lugar no universo. Ao contrário do inglês e do francês, que toda a vida se orgulham de ter nascido inglês e francês, o zek não se orgulha nada da sua pertença nacional, antes pelo contrário: entende-a como uma provação cruel, mas quer suportar essa provação com dignidade. Os zeks têm mesmo este mito notável: existiriam algures as «portas do Arquipélago» (a exemplo das colunas de Hércules da antiguidade), e na fachada dessas portas a inscrição destinada a quem entrava: « Não percas o ânimo!», e do outro lado, para quem saía: « Não te alegres demasiado!» E principalmente, acrescentam os zeks, só os inteligentes veem essas inscrições, os parvos não reparam nelas. É esta filosofia que está na origem da estabilidade psicológica do zek. Por mais sombrias que sejam contra ele as circunstâncias, ele franze as sobrancelhas no seu rosto rude tostado pelo vento e diz: não me farão descer mais baixo que o poço da mina.
O zek está sempre preparado para o pior, vive sempre à espera dos golpes do destino e das mordidelas do mal. Inversamente, qualquer alívio temporário considera-o como uma inadvertência, como um engano. Nesta espera constante da desgraça amadurece a alma agreste do zek, sem temor do seu destino e sem piedade pelo destino alheio. A conceção do mundo mais difundida entre eles é o fatalismo. Este é um traço geral profundo, que se explica pela sua condição de dependentes, de completo desconhecimento daquilo que lhes acontecerá no futuro próximo, e de absoluta incapacidade para influir nos acontecimentos. Perante um destino tão obscuro, fortaleceram-se neles inúmeras superstições. Uma delas anda muito perto do fanatismo: se te preocupares muito com a tua instalação ou com o teu conforto, vais-te queimar numa transferência.
Mas a viragem psicológica mais interessante é talvez aqui aquela em que os zeks sentem o seu persistente estado de indiferença, nas condições de indigência e de frustração que são as suas — como a vitória do amor à vida. Basta que a série de desgraças se torne um pouco mais espaçada, que os golpes do destino se tornem um pouco mais fracos, e já o zek manifesta satisfação com a vida e se orgulha do seu comportamento nela. Talvez o leitor acredite mais neste traço paradoxal, se citarmos Tchékhov. No seu conto No Exílio, o barqueiro Semion Tolkovi exprime esse sentimento do seguinte modo:
«Cheguei a um ponto tal que posso dormir nu no chão e comer erva. E Deus permita a toda a gente uma vida assim. — (Itálico meu. — A. S.) Não preciso de nada, não tenho medo de ninguém, e acho que não há homem mais rico e mais livre do que eu.»
Estas palavas surpreendentes ficam-nos gravadas nos ouvidos: ouvimo-las muitas vezes na boca dos zeks do Arquipélago (e a única coisa que nos surpreende é: onde terá Anton Tchékhov ido buscá-las? O que acham disto?
* * *
Até agora falámos dos lados positivos do caráter deste povo. Mas não se pode fechar os olhos para os seus aspetos negativos, para algumas tocantes fraquezas nacionais.
Quanto mais severa e inflexível é a ausência de fé deste povo aparentemente ateu (que ridiculariza completamente, por exemplo, a tese evangélica «não julgueis para não serdes julgados», achando que a condenação não depende disso) — mais febrilmente ele é atingido por acessos de credulidade inconsiderada. Pode-se fazer a seguinte distinção: dentro do curto horizonte até onde o zek pode ver bem, ele não crê em nada. Mas privado de visão abstrata, privado de apreciação histórica, entrega-se com uma ingenuidade selvagem à fé num qualquer boato distante, em milagres indígenas.
Um exemplo da credulidade indígena — as esperanças relacionadas com a visita de Gorki às ilhas Solovki. Mas não há necessidade de recuar tanto no tempo. Existe no Arquipélago uma religião quase constante e quase geral: a fé na chamada Amnistia. É difícil explicar o que isso é. Não é o nome de uma divindade feminina, como o leitor poderia crer. É qualquer coisa parecida com o Segundo Advento para os povos cristãos, é o início de um tão vivo resplendor que fundirá instantaneamente os gelos do Arquipélago, e até as próprias ilhas se dissolverão, e todos os indígenas partirão para regiões ensolaradas onde logo encontrarão pessoas próximas deles e agradáveis. É talvez a fé, um pouco transformada, no Reino de Deus na terra. Essa fé, que nunca foi confirmada por um único milagre real, é no entanto muito viva e persistente.
Há entre os zeks uma outra fraqueza nacional, que de um modo incompreensível se mantém a despeito de todo o regime da vida deles — uma secreta sede de justiça.
Desde o momento em que os zeks chegam ao Arquipélago, cada dia e cada hora da sua vida é uma sucessão de injustiças, e eles próprios nessa situação cometem injustiças e mais injustiças — e poderia parecer que era já tempo de se habituarem a isso e aceitarem a injustiça como norma universal da existência. Mas não! Cada injustiça dos mais velhos da tribo e dos tutores da tribo continua a feri-los, e fere-os como no primeiro dia. (Mas uma injustiça cometida de baixo para cima suscita neles um riso aprovador.)
Não se veja uma contradição com o caráter de dissimulação já indicado — outro traço indígena é o gosto de falar do passado. Para todos os outros povos, esse é um hábito dos velhos, e as pessoas de meia-idade não gostam e até receiam falar do seu passado (em especial as mulheres, em especial os que preenchem inquéritos, e todos de um modo geral). Mas os zeks, neste aspeto, comportam-se como uma nação só de velhos. Não se consegue arrancar-lhes uma palavra sobre os pequenos segredos do dia a dia (onde aquecer a marmita, de quem conseguir tabaco), mas do passado contam tudo francamente, revelam tudo: como vivia antes do Arquipélago, e com quem vivia, e como veio aqui parar. (Escutam durante horas qualquer um contar como veio aqui «cair», sem que as histórias monótonas os aborreçam nem um pouco.)
Neste ponto é interessante fazer a comparação com uma observação de Dostoievski, quando assinala que cada um trazia em si e acalentava a história de como tinha ido parar à «Casa Morta» — e entre eles não era costume falar dessas coisas. Compreendemos isso: porque à «Casa Morta» iam parar por crimes, e para os condenados era doloroso falar disso.
Mas ao Arquipélago, o zek vai parar por um inexplicável desvio do destino ou por um pérfido conjunto de circunstâncias vingativas — mas em noventa por cento dos casos ele não sente que tenha cometido qualquer «crime» — e por isso não há no Arquipélago relatos mais interessantes e que suscitem mais viva simpatia do auditório do que «como vim aqui parar».
Os abundantes relatos dos zeks acerca do passado, que preenchem todos os serões nas suas barracas, têm ainda um outro objetivo e outro sentido. O que tem o presente e o futuro do zek de instável, tem o seu passado de estável. O passado do zek já ninguém lho pode mudar, e cada um deles foi na vida passada algo mais do que é agora (porque não é possível ser mais baixo do que um zek). Por isso nas recordações do zek, o seu amor-próprio readquire as alturas de que a vida o derrubou (porque o amor-próprio de um velho funileiro surdo, ou de um aprendiz de pintor da construção não é em nada inferior ao amor-próprio de um célebre encenador da capital, é preciso não esquecer isto).
Os zeks apreciam e gostam do humor — e isso é o que mais testemunha da saudável base psíquica dos indígenas, que lhes permite não morrerem no primeiro ano. Eles partem da ideia de que as lágrimas não justificam ninguém e o riso não cria dívidas. O humor é o seu aliado constante, sem o qual a vida no Arquipélago talvez fosse completamente impossível.
* * *
Passando ao tema da língua dos zeks, achamo-nos num grande embaraço. Sem falar de que qualquer estudo de uma nova língua descoberta é sempre um livro à parte e um tratamento científico especial, no nosso caso há ainda dificuldades específicas.
Uma delas é a fusão operada entre a linguagem e os palavrões, a que já nos referimos. Ninguém conseguiria separar isso (porque não se pode separar aquilo que é vivo!), mas a preocupação com a nossa juventude também nos impede de incluir tudo tal como é em páginas científicas.
Outra dificuldade consiste na necessidade de separar o que é propriamente linguagem do povo zek da língua da tribo de canibais (também chamados «gatunos» ou «comuns»), dispersa no meio deles. A língua da tribo dos canibais é um ramo completamente distinto da árvore filológica, que não tem outros semelhantes nem aparentados. Este tema merece um estudo especial, mas para nós aqui só viria complicar o incompreensível léxico dos canibais (por exemplo: calcante — bota; canto — maleta; cebola — relógio). Mas a dificuldade está em que outros elementos lexicais da língua canibal, pelo contrário, são assimilados pela língua dos zeks, enriquecendo-a de imagens.
Não se pode negar que muitas das palavras do vocabulário prisional são percucientes, pitorescas e mesmo de generalizada compreensão. O seu coroamento é a ordem na tsirlakh! Só se pode traduzi-la em russo por meio de uma descrição complexa. Correr ou dar qualquer coisa «na tsirlakh» significa: em bicos de pés, precipitadamente, com sincero zelo — tudo ao mesmo tempo.
Parece-nos que essa expressão faz muita falta também no russo moderno! Em especial porque na vida encontramos com muita frequência essa maneira de agir.
Mas essa solicitude é já supérflua. O autor destas linhas, tendo concluído a sua longa digressão científica pelo Arquipélago, estava muito inquieto por saber se poderia voltar a ensinar no instituto etnográfico, quero eu dizer, não apenas no sentido de se reintegrar no quadro de pessoal, mas de saber se não estaria atrasado em relação à língua russa contemporânea e se os estudantes o compreenderiam bem. E de repente, com perplexidade e alegria, ouviu dos estudantes do primeiro ano as mesmas expressões a que os seus ouvidos se tinham habituado no Arquipélago e que até então tanto faltavam na língua russa: «s khodu» (no rasto) «po nóvoi» (consertar), «raskurotchit» (fanar), «zanatchit» (esconder), «durak, i uchi kholodnie» (parvo e de orelhas frias), «oná s parniami chiótsia» (ela vai à retrete dos rapazes), e muitas outras mais!
Isto significa uma grande energia da língua dos zeks, que lhe permite infiltrar-se inexplicavelmente no nosso país e antes de mais na linguagem da juventude. Isso dá a esperança de que no futuro o processo seguirá de maneira ainda mais decidida e todas as palavras acima enumeradas também se fundirão na língua russa, e talvez até constituam um ornamento.
Mas isso torna ainda mais difícil a tarefa do investigador: separar a língua russa da língua zek.
* * *
A concluir, algumas linhas de caráter pessoal. No decurso deste inquérito, os zeks evitavam a princípio o autor deste artigo: supunham que as perguntas eram feitas por conta do «compadre» (curador sinceramente tão próximo deles, para com o qual, no entanto, como em relação a todos os seus protetores, eram ingratos e injustos). Depois de se convencerem de que não era assim, e recebendo além disso de cada vez um pouco de tabaco ordinário (não fumam tabaco caro), passaram a tratar o investigador de maneira muito cordial, abrindo-lhe a candura das suas almas. Passaram até a chamar-lhe amavelmente nuns lugares Funcho Tomatovitch, e noutros Fan Fanitch. É preciso dizer que no Arquipélago os patronímicos não se usam, e por isso um tratamento tão respeitoso tem um tom humorístico. Isso exprimia ao mesmo tempo o que este trabalho tinha de inacessível para o intelecto deles. O autor acha que o presente estudo foi conseguido, que a hipótese foi inteiramente demonstrada; descobriu em meados do século XX uma nova nação que ninguém conhecia, com um volume étnico de vários milhões de pessoas.
Não é por um propositado desejo de fazer disso uma ofensa mordaz que este capítulo se chama assim, mas somos obrigados a manter a tradição do campo. Pensando bem, foram eles que escolheram esse destino: o trabalho deles é o mesmo que o dos cães de guarda, e está ligado aos cães. Há mesmo um regulamento especial sobre o trabalho com os cães, e uma comissão de oficiais vigia o trabalho de um cão em separado, desenvolvem nele uma boa raiva.
Ao longo de todo este livro, temos sentido já alguma dificuldade: como chamar-lhes, de um modo geral? «Chefia, chefes» — é demasiado geral, refere-se também ao exterior, a toda a vida livre do país, e além disso é muito apagado. «Patrões», também. Chamar-lhes abertamente «cães», como se diz no campo? É um bocado grosseiro, injurioso. Inteiramente no espírito da língua seria a palavra «laguerschiki» (guardas do campo): distingue-se também de «laguernik» (detido do campo), como «tiuremschik» (guarda da prisão) se distingue de «tiuremnik» (presidiário), e exprime com rigor um sentido único: aqueles que administram e dirigem os campos.
Aqui temos pois o tema deste capítulo: os chefes dos campos (e também das prisões). Poderíamos começar pelos generais, e isso seria excelente, mas faltam-nos materiais. Nós, vermes e escravos, não tínhamos a possibilidade de os conhecer nem de os ver de perto.
Neste capítulo estão sujeitos a exame os coronéis e daí para baixo.
Não perdemos de vista as eminentes palavras de Dzerjinski: «Aqueles de vós que endureceram, cujo coração não pode encarar com sensibilidade e atenção os que sofrem uma pena de prisão, abandonem esta instituição!» Contudo, não conseguimos de modo nenhum estabelecer a relação delas com a realidade. A quem se dizia isto? E em que medida era sério? E quem atendeu a isso? Nem o «terror como meio de persuasão», nem as detenções por «suspeita», nem os fuzilamentos de reféns, nem os campos de concentração precoces, quinze anos antes de Hitler — nada disso nos dá a sensação desses corações sensíveis, desses cavaleiros. E se em todos esses anos alguém abandonou os Órgãos por si mesmo foram precisamente aqueles a quem Dzerjinsaki propunha que permanecessem — os que não conseguiam endurecer. E os que endureciam ou já eram insensíveis ficavam.
Como colam bem as frases correntes que nós tendemos a assimilar, sem pensar nem verificar. Velho tchekista! — quem é que não ouviu estas palavras proferidas longamente, como sinal de especial respeito. Se querem distinguir um funcionário do campo do comum dos inexperientes, dos agitados que gritam por nada, mas a quem falta a mão de ferro, dizem: «O chefe lá é um velho tchekista!» Um «velho tchekista» significa, pelo menos: que serviu no tempo de Iágoda, no tempo de Ejov e no tempo de Béria, e agradou a todos.
* * *
A semelhança dos percursos da vida e a semelhança das situações engendra a semelhança de carateres? De um modo geral, não. Para os homens de espírito e inteligência significativos, não, porque têm as suas decisões, as suas particularidades, que são muitas vezes inesperadas. Mas os funcionários dos campos, que passaram por rigorosa seleção negativa — moral e intelectual —, têm uma impressionante semelhança de carateres e provavelmente podemos sem dificuldade identificar os seus traços fundamentais comuns.
Arrogância. Ele vive numa ilha isolada, com fracas ligações ao distante poder externo, e nessa ilha é ele indubitavelmente o primeiro: todos os zeks lhe estão submetidos numa situação humilhante, mas também os cidadãos livres. É ele quem usa aqui a maior estrela nas dragonas. O seu poder não tem limites nem erros: qualquer queixoso nunca terá razão (é esmagado). Ele tem a melhor casa da ilha. O melhor meio de transporte. Todos os dias e todas as situações da vida corrente lhe permitem ver claramente a sua superioridade: diante dele todos se levantam, se perfilam, se inclinam, quando ele chama vêm a correr, quando dá uma ordem saem a correr.
A jactância conduz sempre inevitavelmente à estupidez. O endeusado em vida sabe tudo, não precisa de ler, nem de estudar, e ninguém lhe pode comunicar nada que mereça reflexão. Tchékhov encontrou entre os funcionários de Sacalina alguns inteligentes, ativos, com inclinações científicas, que estudavam muito a região e os costumes, escreviam ensaios geográficos e etnográficos — mas nem por graça é possível imaginar em todo o Arquipélago um funcionário como esses!
Despotismo. Arbitrariedade. Neste aspeto, os chefes dos campos eram inteiramente comparáveis aos piores senhores feudais dos séculos XVIII e XIX. São inumeráveis os exemplos de decisões absurdas, com o único objetivos de mostrar poder. Quanto mais longe na Sibéria e no Norte, pior; mas vejamos também em Khimki, mesmo nos arredores de Moscovo (que agora já é Moscovo); no 1.° de Maio, o major Volkov nota que os zeks não estão alegres. E ordena: «Que todos se alegrem imediatamente! Se vejo algum aborrecido, vai para o calabouço!»
Todos os chefes dos campos têm como peculiaridade o sentimento de domínio. Entendem o seu campo não como parte de um sistema estatal, mas como um património que lhes foi confiado sem reservas enquanto exercerem as funções. Daí resulta todo o despotismo que exercem sobre as vidas, sobre as pessoas, daí a jactância de uns diante dos outros. O chefe de um campo de Kenguir: «Eu tenho um professor universitário a trabalhar nos banhos!» Mas o chefe de outro campo, capitão Sadnikov, atalha: «Pois eu tenho um académico como faxineiro, que faz os despejos!»
A avidez, a cobiça. Este é o traço mais comum entre os chefes dos campos. Nem todos são obtusos, nem todos são déspotas — mas todos procuram enriquecer à custa do trabalho gratuito dos zeks e à custa dos bens do Estado. Não só eu próprio nunca vi, como nenhum dos meus amigos conseguiu recordar um único chefe de campo desinteressado, e dos antigos zeks que me escreveram ninguém conheceu nenhum.
Na sua ânsia de arrebatar o máximo possível, nenhuma das inúmeras vantagens e benefícios legais os podem saciar. Nem o elevado salário (com duplos e triplos acréscimos — suplementos — «por zona polar», «por afastamento», «por perigo»). Nem os prémios. Nem o cálculo de antiguidade excecionalmente vantajoso. Não! Já nas Solovki os chefes começaram a apropriar-se de pessoal escolhido entre os presidiários — cozinheiras, lavadeiras, cocheiros, lenhadores. Desde então nunca se interrompeu (nem nunca foi proibido de cima) esse vantajoso hábito, e os chefes dos campos escolhiam também para si vaqueiras, jardineiros e professores para os seus filhos. Não aos copos, mas aos baldes e aos sacos, quem tinha a possibilidade de comer e beber à custa das rações dos presidiários, não deixava de o fazer!
Os chefes dos campos distinguiam-se dos antigos senhores feudais pelo facto de o seu poder não ser vitalício nem hereditário. E por isso os feudais não precisavam de se roubarem a si mesmos, e os chefes dos campos só pensavam em roubar alguma coisa à sua economia.
Sou parco na apresentação de exemplos apenas para não sobrecarregar a exposição. No nosso campo da Barreira de Kaluga, todas as semanas aparecia um capitão barrigudo, chefe do OLP n.° 15, num carro ligeiro, do cais de Kotelnitcheskaia, que ali ia buscar óleo de linhaça e betume (o que era como ouro na Moscovo do pós-guerra). E tudo isto era previamente roubado para ele na zona de trabalho e trazido para o campo — pelos mesmos zeks que apanhavam aos dez anos de pena por um fardo de palha ou por um pacote de pregos!
Luxúria. Isto, é claro, não se passa com todos, está ligado à fisiologia, mas a posição do chefe do campo e o conjunto dos seus direitos abriam pleno campo às suas inclinações para ter um harém. O chefe do campo de Burepolom, Grinberg, sempre que chegava uma mulher jovem ao campo, exigia-a para si. (E o que mais podia ela escolher, além da morte?) Em Kotchemas, o chefe do campo, Podlessni, gostava das rusgas noturnas às barracas das mulheres (como vimos em Khovrino). Puxava pessoalmente os cobertores das mulheres, a pretexto de procurar homens escondidos. Ao mesmo que tempo que a sua mulher, que era uma beldade, mantinha três amantes zeks.
Maldade, crueldade. Não havia freio real, nem moral que refreasse estas características. O poder ilimitado nas mãos de homens limitados leva sempre à crueldade. Como a mulher selvagem de um plantador, Tatiana Merkulova, corria no cavalo à desfilada entre os seus escravos, como uma mulher-fera (13.° OLP feminino de abate de floresta, no campo de Unjlag). O major Gromov, como recorda Pronman, ficava doente no dia em que não encarcerava alguns homens no BUR. O capitão Medvedev (3.° campo de UstVimalag) todos os dias passava algumas horas na atalaia e anotava os nomes dos homens que entravam nas barracas das mulheres, para depois os encarcerar. Gostava de ter sempre o isolador cheio.
Todos sabiam (e os indígenas também sabiam): aqui acabaram-se os fios do telégrafo!
Levantam-me objeções! Levantam-me objeções! Sim, houve casos isolados… Principalmente no tempo de Béria…
Mas porque é que não nos dá exemplos luminosos? Descreva também os bons exemplos! Mas não, quem os viu que os mostre. Eu não vi. Por um raciocínio geral, já concluí que um chefe de campo não pode ser bom — em tal caso, é demitido ou acaba mal. Mas admitamos por um momento: um chefe de campo quis fazer o bem e mudar o regime animalesco do seu campo para um regime humano — permitiam-lho? Davam-lhe autorização? Admitiam?
Bem, digo com franqueza que conheci um funcionário do MVD muito bom, que na verdade não era um chefe de campo mas um diretor de prisão — o tenente-coronel Tsukanov. Durante algum tempo foi diretor da Prisão Especial de Marfino. Não só eu, mas todos os zeks que por ali passaram reconhecem: ninguém viu nenhum mal da parte dele, todos viram o bem. Sempre que podia virar a instrução a favor dos zeks, fazia-o sem falta. Em tudo o que pudesse mostrar indulgência, mostrava-a. E então? Mudaram a nossa Prisão Especial para a categoria das mais severas e tiraram-no do cargo. Já não era novo, serviu no MVD durante muitos anos. Não sei como foi possível. Mistério.
Temos ainda Arnold Rappoport que me assegura que o coronel-engenheiro Mikhail Mitrofánovitch Maltsev, sapador do exército, que de 1943 a 1947 foi chefe do campo de Vorkuta (da construção e do próprio campo), era, segundo ele, bondoso. Na presença dos tchekistas estendia a mão aos presidiários engenheiros e tratava-os pelo nome e patronímico. Quando lhe atribuíram a categoria de tchekista — comissário-geral de terceira classe —, não aceitou (isso será possível?): eu sou engenheiro, disse. E conseguiu o que queria: tornou-se general, mas não do KGB. Rappoport afirma que durante os anos em que ele dirigiu o campo não foi aberto em Vorkuta nem um processo do campo (e esses foram os anos da guerra, o principal tempo para os tais «processos»); a mulher dele era procuradora na cidade de Vorkuta e paralisava a atividade criativa dos operacionais do campo. Este é um testemunho muito importante.
No entanto, aqueles que mais gritam acerca dos «bons tchekistas» nos campos, e que são ortodoxos bem-intencionados, têm visto os «bons» não no sentido em que nós os entendemos: não aqueles que procuravam criar uma situação geral humana para todos à custa de um desvio às ferozes instruções do Gulag. Não, eles acham que os «bons» são os chefes de campo que cumpriam honestamente todas as instruções caninas, atormentavam e perseguiam toda a multidão dos presidiários, mas eram indulgentes para com os ex-comunistas. É claro que havia desses «bons», e muitos. (Que largueza de visão a dos bem-pensantes! São sempre os herdeiros da cultura comum da humanidade.)
* * *
Os guardas são considerados quadros de comando subalternos do MVD. São os sargentos dos campos. E a função deles é a mesma: forçar e proibir. E é esse o seu lugar na escala do Gulag, mas mais abaixo. Por isso têm menos direitos, e têm de meter mais vezes as mãos na massa. Diante deles, os presidiários estão tão privados de direitos e indefesos como diante dos grandes chefes. E podem descarregar a sua maldade e exercer a crueldade sem quaisquer limitações. Os guardas imitam de boa vontade os seus chefes, tanto no comportamento, como nos traços de caráter — mas não têm os mesmos dourados, os capotes são bastante sujos, e andam sempre a pé por toda a parte, não podem ter presidiários como criados, têm eles mesmos de cavar na horta e cuidar dos animais. É claro, fisgar um zek e levá-lo para casa por meio dia — para cortar lenha, para lavar o chão —, isso é possível, mas é coisa de pouca monta! Nos locais de trabalho pode-se obrigar um zek a fazer qualquer pequena coisa: soldar, consertar, tornear, afinar. Mas nem sempre se consegue levar alguma coisa maior que um tamborete. Essa limitação imposta ao roubo ofende muito os guardas, e em especial as mulheres deles, e por isso há muita amargura contra os chefes, e por isso também a vida parece ainda mais injusta, e surgem nos peitos dos guardas cordas que não são propriamente cordas, mas umas insuficiências, uns vazios em que ecoa o queixume humano. E por vezes acontece os vigilantes de mais baixo estatuto falarem aos zeks com simpatia. Não é muito frequente, mas também não é propriamente raro. Em todo o caso é no guarda, do campo ou da prisão, que é possível por vezes encontrar o ser humano, e cada presidiário encontrou mais do que um no seu caminho. Mas num oficial é quase impossível.
Esta é propriamente uma lei geral da dependência recíproca entre a posição social e a humanidade.
* * *
«A escolta abre fogo sem aviso!» Nesta fórmula está contido todo o estatuto especial da escolta, o seu poder sobre nós, para além da lei.
Ao dizer «escolta» usamos a palavra habitual do Arquipélago: dizia-se também (e até com mais frequência nos ITL) — Vokhra ou simplesmente «Okhra». Mas o nome oficial era Voieniziróvannaia Strelkóvaia Okhrana (Guarda Militarizada de Infantaria) do MVD, e «escolta» era apenas um dos serviços possíveis da Vokhra, a par dos serviços «de guarda», «de zona», «de cordão» e «de divisão».
O serviço de escolta, mesmo quando não há guerra, é comparável ao da frente. A escolta não teme quaisquer julgamentos e não tem que dar explicações. Qualquer um que dispare tem razão. Qualquer morto é culpado, porque queria fugir ou saiu da linha.
Aqui temos duas mortes no campo de Ortau (multiplique-se pelo número de campos). Um fuzileiro conduz um grupo sob escolta, um preso sem escolta aproxima-se da sua namorada que vai no grupo, e caminhou ao lado dela. «Afasta-te!» — «Isto incomoda-te?» Um disparo. Morto. Um julgamento de comédia, o fuzileiro foi ilibado: ofendido no desempenho das suas funções.
Um zek aproxima-se, com um papel na mão, de outro fuzileiro que estava de guarda. (No dia seguinte ia sair em liberdade.) Pediu: «Deixa-me passar, vou à lavandaria (fora da zona), é só um instante!» — «Não se pode». — «Mas eu amanhã saio em liberdade, parvo!» Disparou. E nem sequer foi a julgamento.
Em 1938, perto do Ural, junto ao rio Vichera, um incêndio florestal avançava como um furacão — da floresta em direção a dois campos. O que fazer dos zeks? Era preciso decidir em minutos, não havia tempo para consultas. A guarda não os deixou sair e morreram todos queimados. Assim mesmo, tranquilamente. Mas se os soltassem e eles fugissem, a guarda seria julgada.
Não há dúvida de que a seleção da guarda armada do MVD tinha uma grande importância no ministério. Mas o verdadeiro recrutamento e treino científico dessas tropas só começou com o aparecimento dos Campos Especiais — no final dos anos 40 e princípio dos 50. Passaram a incorporar nelas apenas rapazes de dezanove anos e a submetê-los de imediato a uma intensa radiação ideológica.
Antes disso, a composição da Vokhra era por vezes variegada. Suavizou-se em especial durante os anos da guerra germano-soviética: os jovens mais bem treinados (com «boa raiva») tinham de ir para a frente, e a Vokhra ficava com os fracos reservistas, inaptos por motivos de saúde para o exército ativo e, no capítulo da raiva, totalmente impreparados para o Gulag (não tinham sido educados sob o regime soviético).
Nina Samchel recorda o seu pai, que em 1942, homem já de certa idade, foi chamado ao exército e mandado servir como guarda num campo da região de Arkhanguelsk. A família também se mudou para junto dele. «Em casa, o pai falava amargamente sobre a vida no campo e os bons homens que lá se encontravam. Quando o papá tinha de ir sozinho guardar uma brigada de trabalho agrícola, eu ia muitas vezes vê-lo e ele deixava-me falar com os presidiários. Os presos respeitavam muito o papá: nunca era grosseiro e eles diziam-me: “Se todos os soldados da escolta fossem como o teu papá”. Ele sabia que muitas pessoas inocentes estavam presas, e indignava-se sempre, mas só em casa — era impossível falar assim na secção, isso dava julgamento». No final da guerra desmobilizou-se imediatamente.
Mas também por Samchel não se pode avaliar a Vokhra do tempo da guerra, como o prova o seu destino ulterior: logo em 1947 foi ele próprio detido, segundo o artigo 58! Em 1950, em estado quase moribundo, foi solto e morreu em casa cinco meses depois.
Depois da guerra essa guarda difusa ainda se manteve durante uns dois anos, e chegou a um ponto que muitos dos guardas começaram a falar do seu serviço como um «período de pena»: «Quando acabar o meu tempo». Compreendiam a vergonha do seu serviço, do qual nem aos vizinhos podiam falar. Naquele mesmo campo de Artau, um soldado roubou de propósito um objeto do serviço cultural e educativo, foi destituído, julgado e logo amnistiado — e os outros fuzileiros ficaram com inveja: safou-se! valente!
Natália Stoliárova lembra-se de um fuzileiro que a deteve no início de uma fuga e encobriu essa tentativa, de modo que ela não foi punida. Um outro suicidou-se por amor de uma presidiária que tinha sido transferida. Antes da introdução de medidas verdadeiramente severas nos campos das mulheres, estabeleciam-se entre estas e os membros da escolta boas relações de amizade e por vezes até relações amorosas. Nem mesmo o nosso grande Estado conseguia esmagar em toda a parte o bem e o amor.
Do mesmo modo que um naco de carne podre cheira mal não apenas na sua superfície, mas é também rodeado por uma nuvem fétida de moléculas, também assim cada ilha do Arquipélago produz e mantém à sua volta uma zona fedorenta. Essa zona, mais abrangente do que o próprio Arquipélago, é uma zona intermédia, de transmissão entre a pequena zona de cada ilha e a Grande Zona de todo o país.
Tudo o que nasce de mais infecioso no Arquipélago — nas relações entre as pessoas, nos costumes, nos olhares e na linguagem, pela lei universal da permeabilidade das divisórias vegetais e animais, infiltra-se em primeiro lugar para essa zona de transmissão, para depois se dispersar por todo o país. É precisamente aqui, nesta zona de transmissão, que se testam e selecionam por si mesmos os elementos da ideologia e da cultura do campo — que merecem entrar na cultura comum do Estado. E quando as expressões do campo se fazem ouvir nos corredores do novo edifício da Universidade de Moscovo (MGU), ou quando uma mulher livre da capital emite um juízo inteiramente próprio dos campos sobre a essência da vida, não se espantem: isso chegou aqui através da zona de transmissão, através do mundo que rodeia os campos.
Enquanto o poder tentava (ou se calhar não tentava) reeducar os presidiários por meio de palavras de ordem, da secção cultural e educativa, da censura do correio e dos delegados operacionais, os presidiários reeducavam mais depressa todo o país através do mundo circundante dos campos. A visão do mundo dos criminosos, submetendo primeiro o Arquipélago, chegava facilmente mais longe e sem dificuldade submetia o mundo circundantes dos campos, e refletia-se depois profundamente em todo o país livre.
O Arquipélago vinga-se assim da União por tê-lo criado.
E assim nenhuma crueldade passa sem deixar rasto.
E assim pagamos sempre muito caro ao perseguir aquilo que é barato.
* * *
Enumerar estes lugares, lugarejos e aldeias é quase como repetir a geografia do Arquipélago. Nenhuma zona de campo pode existir isolada, tem de haver nas proximidades uma povoação de cidadãos livres. Por vezes essa povoação, próxima de um qualquer campo de abate de floresta, dura alguns anos — e desaparece juntamente com o campo. Outras vezes enraíza-se, recebe um nome, um soviete de aldeia, uma estrada transitável e fica ali para sempre. Mas por vezes essas aldeias transformam-se em cidades ilustres como Magadan, Norilsk, Duninka, Igarka, Temir-Tau, Balkhach, Djezkazgan, Taichet, Bratsk, Sovgavan.
Das capitais de província do Arquipélago, a maior é Karagandá. Ela foi criada e povoada por eLivross e por antigos presos, de tal modo que um velho zek não pode caminhar pela rua sem encontrar a cada passo pessoas conhecidas. Existem nela várias direções de campos. E em volta há campos espalhados, como a areia do mar.
Mas quem é que vive no mundo que rodeia os campos? 1) Habitantes autóctones (pode não os haver). 2) A Vokhra, guarda militarizada. 3) Oficiais dos campos e as suas famílias. 4) Os vigilantes e as suas famílias; 5) Antigos zeks (libertos desse campo ou de outro próximo). 6) Várias espécies de reprimidos, com passaportes «manchados». 7) Os chefes da produção: pessoas altamente colocadas, apenas alguns poucos numa grande povoação. 8) Pessoas propriamente civis — forasteiros diversos, extraviados que aparecem em busca de bons salários ocasionais. Pois nestes fins de mundo é possível trabalhar três vezes pior do que na metrópole, e receber um salário quatro vezes maior: pelo clima polar, pelo afastamento, pela incomodidade, e ainda por fazer o trabalho dos presidiários. Para aqueles que sabem extrair ouro dos registos de produção, o mundo em torno dos campos é como Klondike. Para aqui são atraídos os falsos diplomados, os aventureiros, os oportunistas.
Os paisanos são contratados como mestres de obras, capatazes, fiéis de armazém, reguladores. Aceitam-nos também nas funções em que a utilização de presidiários dificultaria muito a escolta: condutores, carroceiros, expedidores, tratoristas, operadores de escavadora, eletricistas, fogueiros noturnos.
Esses paisanos de segunda ordem, simples trabalhadores tal como os zeks, depressa faziam amizade connosco, com toda a simplicidade, e faziam tudo aquilo que era proibido pelo regime do campo e pela lei penal: de boa vontade deitavam cartas dos zeks nas caixas de correio «livres» da aldeia; vendiam na feira da ladra objetos de uso que os zeks faziam no campo, ficavam com o dinheiro assim obtido e traziam para os zeks qualquer coisa para trincar, roubavam como os zeks nos locais de trabalho.
Eram mais complicadas as relações dos zeks com os capatazes e com os contramestres das secções. Como «comandantes da produção», estes deviam pressionar e fustigar os presidiários. Mas eles tinham de responder também pelo próprio decurso do processo de produção, e este nem sempre podia ser conduzido em aberta hostilidade com os zeks: nem tudo se pode conseguir por meio do bastão e da fome, há coisas que é preciso fazer por bom entendimento, por inclinação, por intuição. Só tinham êxito os capatazes que se entendiam bem com os chefes de brigada e com os melhores mestres entre os presidiários. Os próprios capatazes eram, além de bêbedos, enfraquecidos e intoxicados pelo uso constante de trabalho escravo, mas também uns ignorantes, não conheciam a produção ou conheciam-na mal e por isso eram ainda mais dependentes dos chefes de brigada.
E como por vezes se entrelaçavam aqui de maneira curiosa os destinos russos! Na véspera de um dia de festa, chega o capataz de carpinteiros Fiódor Ivánovitch Muravliov, bêbedo, junto do pintor da construção Sinebriukhov, um excelente mestre, homem sério, firme, já com nove anos cumpridos, e fala-lhe francamente:
— Então? Estás dentro, filho de kulak? O teu pai andou sempre a lavrar a terra e a juntar vacas. Pensava que as havia de levar para o reino dos céus. E onde está ele agora? Morreu no exílio? E a ti prenderam-te? Nã-ão, o meu pai foi mais esperto: gastou em bebida tudo o que tinha, a sua isba estava completamente vazia, nem uma galinha entregou ao kolkhoze, porque não tinha nada — e tornou-se imediatamente chefe de brigada. E eu bebo vodka por ele, não conheço desgraças.
E tinha razão: Sinebriukhov, ao terminar de cumprir a sua pena, ia para o desterro, e Muravliov era presidente do sindicato local da construção.
E temos o caso do capataz Fiódor Vassilievitch Gorchkov, um velhote franzino de bigode grisalho amplamente espalhado. Fino conhecedor da construção, sabia do seu ofício e dos ofícios correlacionados, e sobretudo tinha a qualidade invulgar de se interessar seriamente pelo resultado da construção: como se construísse um enorme edifício para si próprio e quisesse o melhor. Também bebia com moderação, sem perder de vista a obra. Mas tinha um grande defeito: não estava afeito ao Arquipélago, não costumava manter os presidiários aterrorizados. Gostava de caminhar pela construção e observar tudo com os seus próprios olhos, gostava de se sentar com os carpinteiros nas vigas, com os pedreiros nos muros da construção, com os estucadores junto à caixa da argamassa e conversar. Por vezes oferecia rebuçados aos presos, o que era para nós uma coisa prodigiosa. Havia um trabalho de que ele não conseguia separar-se mesmo na velhice — o corte do vidro. Trazia sempre no bolso o seu diamante e se alguém cortava vidro na sua presença, ele começava de imediato a bramir que não estavam a cortar como devia ser, empurrava os vidraceiros e ele mesmo cortava. O seu pai, Vassili Gorchkov, tinha sido um capataz do Estado. E compreendia-se assim por que razão Fiódor Vassílievtich gostava tanto das pedras, dos vidros e das tintas: desde a infância tinha crescido nas construções. Mas embora nesse tempo os capatazes se chamassem do Estado, e agora não se chamem assim, agora é que eles eram do Estado, e dantes eram artistas.
Fiódor Vassílievitch ainda agora continuava a elogiar a ordem antiga:
— O que é agora um mestre de obras? Ele nem sequer tem o direito de transferir um copeque de um artigo para outro. Dantes chegava no sábado um empreiteiro junto aos operários: «Bem, rapazes, antes ou depois do banho?» «Depois, depois, tio»!» «Tomem lá então dinheiro para o banho, e de lá para tal ou tal taberna». Depois do banho a rapaziada ia em bando e ele já estava à espera deles na taberna com a vodka, os acepipes e o samovar… E alguém que experimentasse trabalhar mal na segunda-feira.
Para nós, tudo isso é hoje conhecido e tem os seus nomes: era um sistema de exploração, uma exploração desavergonhada, utilização dos mais baixos instintos do homem. E a bebida e os acepipes não valia aquilo que na segunda-feira seguinte extraíam do trabalhador.
E a ração de pão húmido, atirada por mãos indiferentes através do guiché, valia mais?…
Depois de tudo o que aqui se disse acerca dos campos, surge a questão: ora basta! O trabalho dos presidiários foi útil para o Estado? E se não foi útil, valia a pena erguer todo o Arquipélago? Nos próprios campos havia entre os zeks esses dois pontos de vista, e gostávamos de discutir sobre isso.
É claro que, a acreditar nos dirigentes, a questão nem se levanta. O camarada Molotov, que em tempos foi a segunda figura do Estado, declarou no VI Congresso dos Sovietes da URSS, acerca da utilização do trabalho dos presidiários: «Fizemo-lo antes, fazemo-lo no presente e continuaremos a fazê-lo no futuro. Isso é útil para a sociedade. E é útil para os criminosos.»
Note-se que não é para o Estado que é útil! É útil para a própria sociedade. E é útil para os criminosos. E continuaremos a fazê-lo! E discutir o quê?
De resto, toda a ordem das décadas estalinistas, em que primeiro se planificavam as construções e só depois o número de presidiários necessário para a sua edificação, confirma que o governo parecia não duvidar do benefício económico dos campos. A economia andava à frente da justiça.
Mas é evidente que a questão precisa de ser concretizada e decomposta:
— os campos justificam-se no aspeto político e social?
— justificam-se economicamente?
— valem aquilo que custam (mau-grado a aparente semelhança entre a segunda e a terceira perguntas, há uma diferença entre elas)?
À primeira pergunta, é fácil responder: para os objetivos de Estaline, os campos eram excelentes lugares para onde enviar milhões de pessoas — para aterrorizar. Portanto, do ponto de vista político, justificavam-se. Os campos eram também interesseiramente vantajosos para uma imensa camada social — os inumeráveis oficiais dos campos, aos quais davam «serviço militar» na segurança da retaguarda, rações especiais, salários, uniformes, apartamentos, posição social. Também se aconchegavam aqui uma multidão de vigilantes e de guardas que dormitavam no alto das atalaias (enquanto rapazinhos de treze anos eram enviados para escolas profissionais). Todos esses parasitas apoiavam com todas as suas forças o Arquipélago, receavam a amnistia-geral como a peste.
Mas nós já compreendemos que os campos estavam longe de concentrar apenas os dissidentes, aqueles que escapavam à via gregária traçada por Estaline. A mobilização para os campos ultrapassava claramente as necessidades políticas, e as necessidades do terror. Não era o número dos reais «criminosos» (ou mesmo das «pessoas duvidosas») que determinava a atividade dos tribunais, mas as exigências das administrações económicas. No início do Bielomorcanal fez-se imediatamente sentir a insuficiência dos zeks das Solovki, e pareceu que uma pena de três anos para o artigo 58 era demasiado curta, não era rentável, e era preciso condená-los logo a dois planos quinquenais de uma vez.
Aquilo em que os campos se revelaram economicamente vantajosos tinha sido vaticinado já por Thomas More, bisavô do socialismo, na sua Utopia. Para os trabalhos humilhantes e especialmente pesados, que ninguém quer fazer no socialismo — para isso era necessário o trabalho dos zeks. Para trabalhar em zonas distantes e selvagens, onde poderiam passar-se muitos anos sem construir habitações, escolas, hospitais e lojas de comércio. Para trabalhar a pá e picareta, no início do século XX. Para a edificação das grandes construções do socialismo, quando ainda não havia meios económicos para isso.
No grande Bielomorcanal até os veículos motorizados eram raridade. Fazia-se tudo, como se diz no campo, a «vapor de peidos». Na canal do Volga, ainda maior (com um volume de trabalhos sete vezes maior do que o Bielomorcanal, e comparável ao do Panamá e ao de Suez) foram escavados 128 quilómetros de comprimento com uma profundidade de mais de cinco metros e uma largura de 85 metros à superfície, quase tudo a poder de picaretas, pás e carros de mão.[65] O que seria o futuro fundo do lago Ribinsk estava coberto de maciços de floresta. Tudo isso foi derrubado à mão, nunca ali se viu uma serra elétrica e os ramos eram queimados pelos inválidos completos.
Quem, se não os presidiários, iria trabalhar até dez horas no derrube de floresta, ainda caminhar no escuro da manhã sete quilómetros até ao bosque, e à tarde outros tanto de volta, com um gelo de trinta graus e sem outros dias de descanso no ano além do 1.° de Maio e do 7 de Novembro (Volgogrado, 1937)?
Quem, se não os prisioneiros, iria arrancar os cepos no Inverno? Quem, nas minas a céu aberto de Kolimá, iria arrastar por meio de correias as caixas de rocha extraída?
E quem enviar para as minas de Djezkazgan a fim de fazer perfuração seca com uma jornada de trabalho de doze horas? — com um nevoeiro de pó de silicato liberto pela rocha, sem máscaras, e ao fim de quatro meses ir morrer de silicose crónica. Quem é que se poderia fazer descer aos poços das minas sem proteção contra aluimentos nem defesa contra inundações, em elevadores sem calços de travão? Para quem, no século XX, não era necessário gastar dinheiro em ruinosas técnicas de segurança?
Como dizer, depois disto, que os campos não eram economicamente vantajosos?…
Os campos eram excecionalmente vantajosos pela submissão do trabalho escravo e pelo seu baixo custo — não, nem sequer por ser barato, mas por ser gratuito, porque para comprar um escravo na antiguidade era preciso em todo o caso gastar dinheiro, mas ninguém pagava nada para adquirir um presidiário do campo.
Ou a construção, antes da guerra, de outra via férrea, Kotlas-Vorkuta, onde debaixo de cada travessa ficaram bem umas duas cabeças. Mas qual via férrea! Ainda antes dessa via férrea abriram ao lado uma simples estrada de madeiros através de uma floresta impenetrável — braços descarnados, machados rombos e soldados ociosos.
E quem faria isto sem os presidiários? E quem pode dizer que os campos não eram vantajosos?
Mesmo nas reuniões de campos depois da guerra os empresários industriais reconheciam: «os zeks desempenharam um grande papel para a vitória, no trabalho da retaguarda».
Mas no mármore que se ergue sobre os ossos nunca ninguém escreverá os seus nomes esquecidos.
Que os campos eram insubstituíveis, revelou-se durante os anos de Khruschov, aquando dos apelos azafamados e ruidosos do Komsomol para que os jovens partissem para as terras virgens e para as construções da Sibéria.
Outra coisa é a solvibilidade. Há muito já que o Estado salivava a esse respeito. Já o «Regulamento dos locais de reclusão» de 1921 se preocupava: «a manutenção dos locais de reclusão deve, na medida do possível, ser coberta pelo trabalho dos reclusos». Havia uma grande vontade de manter os campos, e gratuitamente! A partir de 1929, todos os estabelecimentos correcionais do país foram incluídos no plano da economia nacional. E a partir de 1 de Janeiro de 1931 foi decretado que todos os campos e colónias da RSFSR e da Ucrânia deviam tornar-se autosuficientes.
Mas por mais que se desunhassem, por mais que quebrassem as unhas nos rochedos, por mais que corrigissem vinte vezes os registos de execução do plano, apagando-os até fazer buracos, não havia autossuficiência do Arquipélago — e nunca haverá.
E aqui temos as causas. A primeira e mais importante é a inconsciência dos reclusos, a incúria desses escravos obtusos. Não só não se consegue deles a abnegação socialista, como nem sequer manifestam o simples zelo capitalista. Só pensam na maneira de estragar o calçado e não irem trabalhar; em como avariar uma grua, empanar uma roda, quebrar uma pá, afundar um balde, apenas como pretexto para ficarem parados a fumar um cigarro. Negligências e erros por todo o lado. Os tijolos feitos por eles podem quebrar-se à mão, a tinta escorre dos painéis, o estuque desfaz-se, os pilares caem, as mesas abanam, os pés saltam, os puxadores ficam nas mãos. — Nos anos 1950 trouxeram para o Steplag uma nova turbina sueca, embalada numa armação de troncos que parecia uma pequena isba. Era Inverno, fazia frio, de modo que os malditos zeks se introduziram entre os madeiros e a turbina e acenderam uma fogueira para se aquecerem. A soldadura de prata das palhetas derreteu e a turbina foi para o lixo. Tinha custado três milhões e setecentos mil. Não está mal, a autogestão financeira.
Influenciadas pelo contacto com os zeks — e esta é a segunda causa — parece que as pessoas livres também não precisam de nada, como se não estivessem a construir uma coisa sua, mas qualquer coisa alheia, e roubam, roubam fortemente. (Estavam a construir um prédio de apartamentos, e os trabalhadores livres tinham roubado várias banheiras — estas haviam sido fornecidas segundo o número de apartamentos. Como entregar o prédio? É claro que o mestre de obras não podia reconhecer: mostra solenemente à comissão a primeira caixa de escada, e não deixa de entrar em cada casa de banho e mostrar a banheira. Depois leva a comissão à segunda caixa, à terceira, e sem pressa, entra em todas as casas de banho — mas uns zeks bem treinados, dirigidos por um capataz conhecedor de equipamentos sanitários, vão entretanto arrancando as banheiras dos apartamentos da primeira caixa, transportam-nas em bicos de pés pelo sótão para a quarta caixa e ali instalam-nas à pressa e fixam-nas antes da chegada da comissão. Isto era coisa para uma comédia de cinema, mas não a deixariam passar.)
A terceira causa é dependência dos presidiários, a sua incapacidade para viver sem vigilantes, sem a administração do campo, sem guarda, sem a zona e sem as atalaias, sem os departamentos de Planificação e produção, de Controlo e distribuição, Tchekista operacional, Cultural e educativo, sem as direções superiores dos campos até ao próprio Gulag; sem censura, sem o CHIZO, sem o BUR, sem os alapados, sem os depósitos e armazéns; incapacidade para se movimentarem sem a escolta e sem os cães. De modo que o Estado tem de manter, para cada indígena trabalhador, ao menos um vigilante (e o vigilante tem uma família).
Mas para além destas causas, há inadvertências naturais e perfeitamente desculpáveis da própria Direção. Como dizia o camarada Lenine, só não erra aquele que nada faz.
Por exemplo, por mais que se planifiquem os trabalhos de terraplanagem, raramente calham no Verão, e por qualquer motivo caem sempre no Outono e no Inverno, na lama e no gelo.
Ou então, no rio Sukhona, perto da aldeia de Opoki, os presidiários carregaram e amontoaram terra para uma represa. Mas veio uma enchente e levou-a. Pronto, perdeu-se.
Para o centro de abate de floresta de Talaga, dependente de Arkhanguelsk, estava planificado o abastecimento de mobiliário, mas esqueceram-se de planificar a madeira com a qual esse mobiliário seria fabricado. O plano é o plano, é preciso cumpri-lo! Talaga teve de manter brigadas especiais de presos de direito comum sem escolta para repescarem do rio a madeira perdida, ou seja aquela que se atrasou relativamente ao grosso da flutuação. Mas não era bastante. Então puseram-se inconsideradamente a expropriar aos lenhadores jangadas inteiras. Mas essas madeiras faziam parte dos planos de mais alguém, a quem agora faltavam. Aí está a autonomia financeira…
Ou como, no Ust-Vimlag (em 1943), quiseram ultrapassar o plano de transporte de madeira a granel, intensificaram o abate de floresta, enviaram toda a gente, capazes e incapazes, gerou-se um excesso de madeira a flutuar no rio — 200 000 metros cúbicos. Não conseguiram retirá-la até ao Inverno e ficou presa no gelo. E a jusante há uma ponte ferroviária. Se na Primavera os madeiros não se soltarem do gelo e descerem em bloco, derrubam a ponte e, é claro, o chefe vai a tribunal. Houve que encomendar vagões carregados de dinamite; metê-la no fundo; fazer explodir todo o bloco e depois retirar à pressa os madeiros para a margem — e queimá-los (na Primavera já não estariam em condições para a serração). Todo o campo, duzentos homens, esteve ocupado neste trabalho, e para trabalharem na água gelada forneciam-lhes toucinho — mas nenhuma destas operações podia ser justificada, porque era tudo supérfluo. E toda a madeira queimada também se perdeu. Aí tens como ganhar para as despesas.
Estes pequenos erros são inevitáveis em qualquer trabalho. Nenhum Dirigente está seguro contra eles.
E toda aquela via Salekhard-Igarka? Ergueram centenas de quilómetros de aterros através dos pântanos, na morte de Estaline faltavam trezentos quilómetros para ligar os dois extremos. E também abandonaram. Pois este erro, é horrível dizer quem o cometeu. Porque — foi Ele…
Essa autonomia financeira é por vezes levada a tais extremos que o chefe do campo não sabe o que fazer para ligar as pontas. O campo de inválidos de Katcha, perto de Krasnoiarsk (mil e quinhentos inválidos), depois da guerra foi também incluído na economia: fabricar móveis. Esses inválidos foram pois abater floresta com serras de carpinteiro (não era um campo de abate de floresta e portanto não tinha direito a meios mecânicos); usavam vacas para arrastar a madeira até ao campo (também não estavam previstos transportes, mas havia uma vacaria nas proximidades). O custo de produção de um divã chegava aos 800 rublos, mas o preço de venda era de 600… De modo que os próprios dirigentes do campo tinham interesse em transferir o máximo de inválidos para o primeiro grupo ou dá-los como doentes e não os mandar trabalhar fora da zona: desse modo passavam logo da autonomia financeira para a segurança do orçamento do Estado.
Devido a todas estas causas, não só o Arquipélago não se autossustenta, como o país tem de pagar muito caro pelo prazer de o possuir.
Quando na rua Ogariov, em Moscovo, para construir prédios novos demoliram as casas antigas com mais de um século, não só não deitaram fora as vigas nem as usaram como lenha, mas utilizaram-nas como madeira para artigos de marcenaria! Era madeira pura e sonora. Assim a secavam os nossos bisavós.
Mas nós estamos sempre cheios de pressa, nunca temos tempo. Íamos agora esperar que as pranchas estivessem secas? Na barreira de Kaluga untávamos as pranchas com antissépticos modernos — e mesmo assim elas apodreciam, criavam fungos, tão depressa que ainda antes de entregar a obra era necessário levantar os soalhos para substituir as vigas.
Por isso dentro de cem anos tudo o que nós, zeks, construímos, e por certo todo o país não terão o mesmo som que as velhas vigas da rua Ogariov.
* * *
Seria oportuno concluir este capítulo com uma longa lista de obras realizadas pelos presidiários, ao menos a partir do primeiro plano quinquenal estalinista até ao tempo de Khruschov. Mas eu, é claro, não estou em condições de escrever essa lista. Só posso iniciá-la, para que quem o deseje acrescente e continue.
— Canal do mar Branco (1932), Canal do Volga (1936), Canal Volga-Don (1952);
— via férrea Kotlas-Vorkuta, ramal de Salekhard;
— via férrea Salekhard-Igarka (abandonada);
— via férrea Karagandá-Mointi-Balkhach (1936);
— segunda via férrea do Transiberiano (1933-1935, cerca de 4000 kms);
— via férrea Taichet-Lena (início do BAM);
— auto-estrada Moscovo-Minsk (1937-1938);
— construção da hidroelétrica de Kuibichev;
— construção de hidroelétrica Ust-Kamenogorsk;
— construção do complexo de fundição de cobre de Balkach (1934-1935);
— construção do complexo papeleiro de Solikamsk;
— construção do complexo químico de Bereznikovo;
— construção do complexo de Magnitogorsk (parcial);
— construção do complexo de Kuznetsk (parcial);
— construção da Universidade Estatal Lomonóssov de Moscovo (1950-1953, parcial);
— construção da cidade Komsomolsk no Amur;
— construção da cidade de Sovgavan;
— construção da cidade de Magadan;
— construção da cidade de Norilsk;
— construção da cidade de Dudinka;
— construção da cidade de Vorkuta;
— construção da cidade de Molotovsk (Severodvinsk, desde 1935);
— construção do porto de Nakhodka;
— oleoduto de Sacalina para o continente;
— extração de minérios em Djezkazgan, na Sibéria do Sul, na Buriátia-Mongólia, em Choria, na Khakassia, na península de Kola;
— extração de ouro em Kolimá, na Tchukotka, na Iakútia, na ilha de Vaigatch;
— extração de apatites na península de Kola (a partir de 1930);
— abate de floresta para exportação e para as necessidades do país.
Em todo o norte da Rússia europeia e na Sibéria. Impossível enumerar todos os campos de abate de floresta, que representam metade do Arquipélago.
É mais fácil mencionar aquilo de que os presidiários nunca se ocuparam: fabrico de enchidos e de produtos de confeitaria.
Digo-vos um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos mudados.
Primeira Epístola aos Coríntios, 15:51
E os anos passam…
Não com a celeridade que por graça se diz no campo — «Inverno-Verão, Inverno-Verão», mas um Outono demorado, um Inverno interminável, uma Primavera indecisa, e só o Verão é curto. No Arquipélago o Verão é curto.
Até um único ano, oh-oh! — que longo é! Só um ano, quanto tempo te deixa para pensar. Pelo menos trezentas e trinta vezes por ano marcarás passo na forma, à partida para o trabalho, sob uma chuvinha lamacenta, ou sob uma forte nevasca, ou com o ar imóvel e um frio de rachar. Durante trezentos e trinta dias vais-te arrastar num trabalho odioso que te é estranho, com a cabeça desocupada. E no percurso para lá. E no percurso de volta. E na tua vagoneta, ao adormecer e ao acordar.
E isto apenas num ano. Mas eles são dez. Ou são vinte e cinco…
E ainda quando vais parar ao hospital com distrofia — é também um tempo muito bom para pensar.
Pensa. Conclui alguma coisa da tua desgraça.
Durante séculos considerou-se que a pena era aplicada ao criminoso para que durante esse tempo pensasse no seu crime, se atormentasse, se arrependesse e pouco a pouco se corrigisse.
Mas o Arquipélago Gulag não conhece o remorso! Em cada cem indígenas, cinco são criminosos de direito comum, para eles os seus crimes não são motivo de censura, mas prova de valentia, sonham voltar a cometê-los no futuro com mais habilidade e mais atrevimento. Outros cinco arrecadaram em grande, mas não a particulares: no nosso tempo só se pode roubar em grande ao Estado, que esbanja ele próprio o dinheiro do povo, sem dó nem discernimento — portanto de que pode um tipo desses arrepender-se? Talvez de não ter roubado mais e partilhado, e continuar em liberdade? Mas oitenta a oitenta e cinco por cento não cometeram qualquer crime. Arrepender-se de quê? De ter pensado o que pensou? Ou de, numa situação sem saída, se ter rendido ao inimigo? De, durante a ocupação alemã, ter trabalhado em vez de se deixar morrer de fome? (De resto, confundem de tal modo o que é permitido e o que é proibido que alguns se atormentam: mais me valia ter morrido do que ter ganho aquele pão.) Por, a trabalhar sem salário no kolkhoze, ter colhido no campo com que alimentar os filhos? Ou ter trazido da fábrica qualquer coisa para o mesmo fim?
Não, tu não só não te arrependes, como nos teus olhos brilha a consciência limpa como a água pura de um lago de montanha.
O nosso quase geral sentimento de inocência acrescentava a principal diferença dos forçados de Dostoievski. Esses tinham a consciência de serem renegados, nós tínhamos a convicta noção de que qualquer um podia ser apanhado como nós; de que a barreira de arame farpado nos separava artificialmente. A maioria deles tinha perfeita consciência da sua culpa pessoal, nós tínhamos a consciência de uma calamidade que atingira milhões de pessoas.
Mas a calamidade não é a ruína. É preciso sobreviver-lhe.
Não será essa a razão da surpreendente raridade dos suicídios nos campos? Sim, eram casos raros, ainda que qualquer antigo presidiário se lembre provavelmente de um caso de suicídio. Mas lembram-se mais de fugas. As fugas foram seguramente mais numerosas do que os suicídios.
Os detidos morriam às centenas de milhares e aos milhões, levados até ao último extremo, mas por qualquer razão não havia suicídios. Condenados a uma existência monstruosa, à exaustão pela fome, a um trabalho desmedido, não se suicidavam!
O suicida é sempre um derrotado, é sempre um homem encurralado, um homem que perdeu a vida e não tem vontade de continuá-la. E se esses milhões de criaturas indefesas, lastimáveis, em todo o caso não se suicidavam, quer dizer que vivia nelas um qualquer sentimento invencível. Um qualquer pensamento forte.
Era o sentimento de uma razão universal. Era o sentimento de uma provação do povo semelhante ao jugo tártaro.
* * *
Mas se não tem nada de que se arrepender, em quê, em que é que pensa o presidiário? «A bolsa e a prisão levam à reflexão.» Levam. Mas para onde a orientam?
Muitos o sentiam assim, não era só eu. O nosso primeiro céu da prisão era carregado de nuvens negras turbilhonantes, era o céu de Pompeia, o céu do Dia do Juízo, porque não era um qualquer que tinha sido preso — era Eu, o centro deste mundo.
O nosso último céu da prisão era insondável e alto, insondável e claro, de um azul a puxar para o branco.
Começamos todos (excepto os crentes religiosos) da mesma maneira: a arrancar os cabelos da cabeça — mas a cabeça está rapada!… Como pôde isto acontecer-nos? Como é que não vimos os nossos denunciantes? E que imprudência! Que cegueira! Tantos erros! Como corrigi-los? Corrigir depressa! É preciso escrever… é preciso dizer… é preciso transmitir…
Mas — não é preciso fazer nada. E nada nos salvará. No prazo determinado ouviremos a sentença do tribunal presencialmente ou, na ausência, através do OSO.
Começa então a fase das transferências. Enquanto pensamos no campo que nos espera, gostamos de recordar agora o nosso passado: que bem que vivíamos! (Mesmo que vivêssemos mal.) E quantas possibilidades desperdiçadas! Quantas flores não pisadas!… Quando poderei agora recuperar tudo isso? Se eu conseguir chegar ao fim da pena, oh, começarei a viver de uma maneira nova, inteligente! O dia da libertação futura? — irradia como o sol nascente!
E a conclusão: viver até esse dia! Sobreviver! A qualquer custo!
Tornou-se mesmo uma expressão verbal, um hábito, «a qualquer custo».
As palavras assumem o seu pleno sentido e forma-se um juramento terrível. Sobreviver a qualquer custo!
E aquele que faz esse juramento, que não pestaneja diante da sua rubra fulguração, para ele a sua desgraça sobrepõe-se a tudo o que é o bem comum, e ao mundo inteiro.
Essa é a grande bifurcação na vida do campo. Daí partem os caminhos para a direita e para a esquerda, um deles ganhará altitude, o outro baixará. Se vais para a direita talvez percas a vida, se vais para a esquerda perdes a consciência.
A ordem dada a si próprio: «sobreviver!» — é o impulso natural de todo o ser vivo. Quem é que não quer sobreviver? Quem é que não tem o direito de sobreviver? É uma tensão de todas as forças do nosso corpo! Uma ordem a todas as células: sobreviver! Para lá do círculo polar, trinta zeks extenuados mas rijos são conduzidos até aos banhos, numa distância de cinco quilómetros, sob a tempestade de neve. Os banhos não valem uma boa palavra, ali tomam banho por cinco turnos de seis homens, a porta abre-se diretamente para o gelo, quatro turnos ficam ali de pé à espera porque não os deixam ir-se embora sem escolta. E não há uma pneumonia, e nem sequer um resfriado. (E um velho lavou-se deste modo durante dez anos, enquanto cumpria a pena dos cinquenta aos sessenta anos. E agora está livre, está em casa. No calor e no aconchego do lar, consome-se num mês. Faltou-lhe a ordem: sobreviver…)
Mas simplesmente «sobreviver» ainda não significa a qualquer custo. «Qualquer custo» significa: à custa de outrem.
Reconheçamos a verdade: nesta grande bifurcação do campo, nesta divisão das almas, uma pequena parte vira para a direita. Infelizmente uma pequena parte. Mas felizmente também não se trata de casos isolados. São muitos os que fizeram essa escolha. Mas não se propagandeiam, é preciso observá-los bem. Dezenas de vezes se colocou à sua frente a opção, e eles souberam sempre o que deviam fazer.
Já se sabe há séculos que a prisão transforma profundamente o homem. Os exemplos são inúmeros. Ibsen escreveu: «Com a falta de oxigénio até a consciência definha”[66]. Mas não! Não é assim tão simples! É mesmo o contrário! Vejamos o caso do general Gorbatov — combateu na guerra desde jovem, no exército foi promovido, nunca tinha tempo para refletir. Mas foi parar à prisão, e em tão boa hora que começaram a acorrer-lhe à memória diversos episódios: como tinha suspeitado de espionagem um inocente; ou como por engano tinha mandado fuzilar um polaco completamente inocente.[67] (Ora, quando se lembraria ele disso?)
Diz o provérbio: «A liberdade corrompe, o cativeiro edifica».
O cativeiro edifica, mas qual cativeiro?
O do campo?…
Aqui começas a refletir.
Mas em todo o caso: será mesmo impossível uma pessoa elevar-se espiritualmente no campo?
Onde não houver luta contra a sorte,
A tua alma sairá mais forte…?
Vocês não perceberam nada. É aí que ficarás amolecido.
O caminho por nós escolhido está cheio de curvas e contracurvas. Para a montanha? Ou para o céu? Vamos lá, aos tropeções.
O dia da libertação? O que nos pode ele oferecer ao fim de tantos anos? Modificamo-nos até ficar irreconhecíveis, e também os nossos familiares — e os lugares que em tempos nos foram caros parecem-nos agora totalmente estranhos.
O dia da «libertação»! Como se fosse possível libertar aquele que não se tenha ainda libertado espiritualmente.
Rolam as pedras debaixo dos nossos pés. Para baixo, para o passado. É a poeira do passado.
Nós subimos.
* * *
A prisão é boa para pensar, mas o campo também não é mau. O pretexto mais insignificante desencadeia uma longa e importante meditação. Por vezes (acontece de três em três anos), trazem cinema ao campo. O filme é uma comédia «desportiva» insignificante, A Primeira Luva. Enfadonho. Mas no ecrã pregam insistentemente uma moral:
«O que importa é o resultado, mas o resultado não é a vosso favor.»
No filme as pessoas riem. Na sala também. Ao sair para o pátio do campo inundado de sol, franzindo os olhos, vens a meditar naquela frase. E à noite na tua vagoneta continuas a meditar nela. E na segunda-feira de manhã, na formatura. E meditarás ainda o tempo que quiseres — quando poderias ocupar-te assim dela? E pouco a pouco faz-se luz na tua cabeça.
Esta frase não é nenhum gracejo. É um pensamento contagioso. Há muito que ele se arraigou na nossa terra, mas continuam a inoculá-lo. A noção de que só o resultado é importante foi-nos inculcada de tal maneira que, por exemplo, quando um qualquer Tukhatchevski é declarado traidor, aliado ao inimigo, o povo limita-se a exclamar em coro: «O que é que lhe faltava?!» Se tinha de comer para encher a pança, vinte fatos, duas datchas, um carro, um avião, e celebridade, o que é que lhe faltava?! Para milhões dos nossos compatriotas esfalfados, é impossível imaginar que um homem (não falo daquele precisamente) possa ser movido por outra coisa que não o interesse material.
De tal maneira todos absorveram e assimilaram: «o que importa é o resultado».
De onde nos veio isto? Recuando uns trezentos anos — poderia isto acontecer na Rússia dos velhos crentes?
Isto chegou-nos com Pedro, foi a partir daí que se afirmou na nossa pátria: o que importa é o resultado.
Depois veio dos nossos Demídov, Kabanikha e Tsibukin.[68] Esses trepavam sem olhar a quem esmagavam as orelhas com as suas botas, e assim se afirmava cada vez mais solidamente num povo em tempos piedoso e franco: o que importa é o resultado.
E depois, dos socialistas de todos os géneros, e principalmente da Doutrina moderna, infalível e impaciente, que consiste apenas nisso: o que importa é o resultado! O que importa é organizar um partido combativo! Tomar o poder! Conservar o poder! Afastar os inimigos! Vencer no ferro fundido e no aço! Lançar mísseis!
E ainda que para essa indústria e para esses mísseis tenha sido necessário sacrificar o modo de viver, a unidade da família, a integridade do espírito do povo, e o próprio espírito dos nossos campos, florestas e rios, não importa! O que importa é o resultado!
Mas isso é falso. Nós passámos anos e anos nos trabalhos forçados de toda a União. Em lentos círculos anuais, erguemo-nos até à compreensão da vida, e dessa altitude claramente se vê: não é o resultado que importa! Não é o resultado, mas o espírito! Não aquilo que foi feito, mas como foi feito. Não o que se conseguiu, mas o preço que custou.
E para nós, presidiários, se o que conta é o resultado, então também é justo o axioma: sobreviver a qualquer custo.
Ninguém nega que é agradável dominar o resultado. Mas não à custa de perder a figura humana.
Se o que importa é o resultado, há que gastar todas as forças e todos os pensamentos para escapar aos trabalhos gerais. É necessário curvar-se, agradar, envilecer, mas continuar adaptado. E desse modo sobreviver.
Se o que importa é a essência, há que submeter-se aos trabalhos gerais. Aos andrajos. Aos que têm a pele das mãos rasgada. Com uma ração mais pequena e pior. E, talvez, morrer. Mas enquanto viver, erguer com orgulho a espinha quebrada. E quando deixares de ter medo das ameaças e de buscar as recompensas, tornas-te o tipo mais perigoso aos olhos rapaces dos chefes. Pois o que podem eles tirar de ti?
Gália Venediktova, filha de um anarquista, trabalhava como enfermeira na secção sanitária. Mas ao ver que aquilo não era nenhum tratamento mas apenas um conforto pessoal, obstinou-se em juntar-se aos trabalhos gerais, e foi deitar as mãos ao malho e à pá, o que a salvou moralmente.
Ao bondoso, até o pão duro lhe dá saúde, mas ao mau nem a carne lhe faz proveito.
(Por certo assim é, mas e se não há nem pão duro?…)
* * *
E se recusaste uma vez esse objetivo: «sobreviver a qualquer custo» e seguiste por onde seguem os pacíficos e os simples, o cativeiro começa a transformar de maneira surpreendente o teu anterior caráter.
Dantes eras brusco na tua impaciência, estavas constantemente apressado, nunca tinhas tempo. Agora tens tempo de sobra, estás saturado de tempo, tens meses e anos atrás de ti e à tua frente — e a paciência flui pelas tuas veias como um líquido benfazejo.
Estás a elevar-te…
Dantes não perdoavas nada a ninguém, condenavas sem piedade e glorificavas com a mesma imoderação — agora os teus juízos já não são categóricos, porque assentam numa suavidade compreensiva. Reconheceste a tua fraqueza, podes compreender a fraqueza alheia. E surpreenderes-te com a força de outrem. E querer imitá-lo.
As pedras rumorejam debaixo dos nossos pés. Estamos a elevar-nos…
Com os anos, uma firmeza couraçada recobre o teu coração e toda a tua pele.
Os teus olhos não cintilarão de alegria perante uma boa notícia nem se ensombrarão perante uma desgraça.
Porque ainda falta verificar se será assim. E ainda é preciso discernir o que é a alegria e o que é a mágoa.
A regra da tua vida é agora esta: não te alegres com os ganhos, não chores o que perdeste.
A tua alma, antes seca, é irrigada pelo sofrimento. Agora aprendes a amar, se não o próximo à maneira cristã, ao menos aqueles que te são próximos.
Aqueles que te rodeiam no cativeiro e que te são próximos pelo espírito. Tantos de nós que reconhecem: foi precisamente no cativeiro que pela primeira vez conhecemos a verdadeira amizade!
E também os que te são próximos pelo sangue, que te rodeavam na vida anterior, que te amavam enquanto tu os tiranizavas…
Sim, foste preso por nada, não tens de que te arrepender perante o Estado e as suas leis.
Mas, e perante a tua consciência? Mas perante determinadas pessoas em particular?…
…Depois da operação, estou deitado na sala de cirurgia do hospital do campo. Não me posso mover, tenho calor e arrepios, mas o pensamento não se perde em delírio — e estou grato ao doutor Boris Kornfeld, que está sentado perto da minha cama e me fala durante uma boa parte da noite. A luz está apagada para não ferir os olhos. Ele e eu, e mais ninguém na sala.
Longamente, com paixão, contou-me a sua conversão do judaísmo ao cristianismo. Ele, um homem culto, foi levado a essa conversão por um qualquer colega de cela, um velho sem malícia do género de Platon Karatáiev.[69] Fico impressionado com a sua convicção de neófito, com o ardor das suas palavras.
Mal nos conhecemos um ao outro, não é ele o meu cirurgião, nem é ele que me trata, simplesmente não tem aqui mais ninguém com quem partilhar. É um homem suave e afável, não vejo nem sei dele nada de mau. No entanto, é inquietante que Kornfeld viva há já dois meses na barraca do hospital, enclausurou-se aqui, onde trabalha, e evita andar pelo campo.
Isto significa que tem medo de que o matem. No nosso campo surgiu há pouco essa moda — matar os bufos. Tem uma séria repercussão. Mas quem pode garantir que matam apenas os bufos? Um deles foi claramente morto por baixos motivos pessoais. E por isso a reclusão de Kornfeld no hospital não prova de modo nenhum que ele seja um bufo.
Já é tarde. Todo o hospital dorme. Kornfeld termina o seu relato assim:
— E de um modo geral, sabe, convenci-me de que neste mundo nenhum castigo nos calha sem ser merecido. Pelos vistos, ele pode não ocorrer por aquilo de que somos realmente culpados. Mas se examinarmos a vida e refletirmos profundamente, encontraremos sempre o nosso crime, em paga do qual o golpe nos vem agora atingir.
Não lhe vejo o rosto. Pela janela entram apenas uns reflexos difusos da zona, e a luz elétrica faz da porta do corredor uma mancha amarelada. Mas há um tal conhecimento místico nas suas palavras que me faz estremecer.
Estas foram as últimas palavras de Boris Kornfeld. Ele sai em silêncio pelo corredor noturno para uma das salas vizinhas e deita-se a dormir. Toda a gente dorme, ele já não tem a quem dizer uma palavra. Também eu adormeço.
Acordo de manhã devido à correria e aos passos pesados no corredor: são os enfermeiros que trazem o corpo de Kornfeld para a mesa de operações. Enquanto dormia, foram-lhe desferidos oito golpes no crânio com um martelo de estucador (aqui é costume matar logo a seguir à alvorada, quando já as barracas estão abertas mas ainda ninguém se levantou nem se mexe). Ele morre na mesa de operações, sem recuperar os sentidos.
Aconteceu que as palavras proféticas de Kornfeld foram as suas últimas palavras neste mundo. E, tendo-me sido dirigidas, recebi-as como um legado. Não é possível livrar-se com um encolher de ombros de um legado como este.
Mas nessa época eu próprio já tinha chegado a um pensamento semelhante.
Eu estaria inclinado a dar às palavras dele o valor de uma lei universal da vida. Aqui, no entanto, fico enredado. Seria necessário reconhecer que aqueles que foram castigados de maneira ainda mais cruel do que a prisão, os fuzilados, os queimados, eram uns grandes celerados. (E entretanto os inocentes são os mais zelosamente executados.) E o que dizer então dos nossos manifestos torcionários: porque é que o destino os não castiga a eles? Porque é que eles prosperam?
(Isto só se resolveria se o sentido da existência terrena não fosse a prosperidade, como todos nós estamos habituados a considerar, mas o desenvolvimento da alma. Desse ponto de vista, os nossos torcionários sofrem o castigo mais terrível: aviltam-se, descem a um nível sub-humano. Deste ponto de vista, o castigo atinge aqueles cujo desenvolvimento promete.)
Mas há nas últimas palavras de Kornfeld qualquer coisa que prende, que eu assumo inteiramente para mim. E muitos assumirão para si.
* * *
Nessa mesma sala de recobro pós-operatório, de onde Kornfeld saiu para a morte, fiquei muito tempo acamado, a rever a minha vida nas longas noites de insónia e a surpreender-me com ela e com as suas viragens.
Olhando para trás, apercebi-me de que em toda a minha vida consciente não me tinha compreendido nem a mim mesmo, nem às minhas aspirações. Durante muito tempo considerei como um bem aquilo que para mim era ruinoso, e insistia em seguir para o lado contrário àquele que me era realmente útil. Mas tal como as ondas do mar derrubam o banhista inexperiente e o atiram para a costa, também a mim os golpes do infortúnio me devolviam dolorosamente à terra firme. E só assim consegui percorrer o caminho que verdadeiramente sempre quis.
De espinha curvada, quase quebrada, pude extrair dos meus anos de prisão esta experiência: como um homem se torna mau e como se torna bom. No enlevo dos êxitos de juventude, sentia-me infalível e por isso fui cruel. Nos piores momentos, estava convencido de que agia bem, armado de sólidos argumentos. Sobre a palha apodrecida da prisão senti pela primeira vez em mim a agitação do bem.
Pouco a pouco revelou-se-me que a linha que separa o bem e o mal passa não entre os Estados, não entre as classes, não entre os partidos, mas passa através do coração de cada pessoa e do coração de toda a humanidade. Essa linha é móvel, oscila em nós com o passar dos anos. Mesmo num coração dominado pelo mal, ela preserva um pequeno bastião do bem. Mesmo no mais bondoso coração, está arraigado um pequeno canto do mal.
Desde então compreendi a verdade de todas as religiões do mundo: elas lutam contra o mal no homem (em cada homem). É impossível expulsar completamente o mal do mundo, mas pode-se reduzi-lo em cada homem.
Desde então compreendi a mentira de todas as revoluções da história: elas suprimem apenas os portadores do mal do seu tempo (e na pressa, sem fazer distinção, também os portadores do bem), mas o próprio mal, ainda aumentado, recebem-no de herança.
Em honra do século XX devemos assinalar o processo de Nuremberga: ele matou a própria ideia do mal, e um pequeníssimo grupo dos homens contaminados por ela. (É claro, isto não foi mérito de Estaline, que teria preferido menos explicações e mais fuzilamentos.) Se no século XXI a humanidade não se fizer explodir a si mesma e não se asfixiar, talvez esta orientação triunfe?…
E se não triunfar, toda a história da humanidade terá sido um marcar passo no vazio, sem qualquer sentido! Para onde e para quê caminhamos nós, nesse caso? Já o homem das cavernas sabia golpear o inimigo com um varapau.
«Conhece-te a ti mesmos[70]. Nada favorece tanto o despertar em nós do espírito de compreensão como as incómodas reflexões sobre os nossos próprios crimes, falhas e erros.
É por isso que eu me volto para os anos da minha prisão e digo, surpreendendo por vezes aqueles que me rodeiam:
— Abençoada sejas, prisão!
Todos os escritores que escrevem sobre a prisão, mas que nunca a conheceram, consideraram seu dever exprimir a sua simpatia pelos prisioneiros e amaldiçoar a prisão. Eu, que lá estive bastante tempo, e lá forjei a minha alma, digo inflexivelmente:
— Abençoada sejas, prisão, por teres feito parte da minha vida!
(Mas das sepulturas respondem-me: — Para ti é fácil falar, que ficaste vivo!)
Muitos antigos prisioneiros dos campos vão objetar-me e dizer que não notaram nenhuma «elevação», que disparate, mas só depravação a cada passo.
Com mais insistência e mais eloquência do que os outros (porque ele já escreveu tudo isso) objetará Chalámov:
«Nas condições do campo as pessoas nunca permanecem pessoas, os campos não foram criados para isso.»
«Todos os sentimentos humanos — amor, amizade, inveja, humanitarismo, misericórdia, ambição — nos abandonaram juntamente com a carne dos músculos… Ficou apenas o ódio, o sentimento humano mais duradouro.»
«Compreendemos que a verdade e a mentira são irmãs.»
«A amizade não nasce nem na miséria, nem na desgraça. Se amizade entre as pessoas surge, quer dizer que as condições não são muito difíceis. Se a desgraça e a miséria uniram, é porque não eram extremas. A mágoa não é bastante intensa e profunda, se é possível partilhá-la com os amigos.»
Só com uma distinção Chalámov está de acordo: a elevação, o aprofundamento, o desenvolvimento dos homens é possível na prisão. Mas…
«… o campo é uma escola de vida total e inteiramente negativa. Nunca ninguém tirará dali nada de necessário nem de útil. O presidiário aprende a adular, a mentir, a cometer pequenas e grandes vilezas… Ao regressar a casa, verá que não só não cresceu no tempo que passou no campo, mas que as suas preocupações se tornaram pobres, grosseiras.»
Também Evguénia Guinzburg está de acordo com essa distinção: «A prisão elevava as pessoas, o campo depravava-as».
O que replicar a isto?
Não se deve pois objetar, defender uma qualquer pretensa «elevação» nos campos, mas descrever as centenas e milhares de casos de verdadeira depravação. Mostrar exemplos de como ninguém pode resistir à filosofia do campo, expressa pelo capataz Iachka, de Djezkazgan: «Quanto mais patifarias fizeres às pessoas, mais te respeitarão».
A que «lodo espiritual» se pode conduzir os prisioneiros dos campos, atiçando-os conscientemente uns contra os outros! Em 1950, no Ujlag, a Moisseievaite, que já perdera o juízo (mas continuava a ser levada sob escolta para o trabalho), ignorando o cordão de soldados, foi «ter com a mãe». Agarraram-na, amarraram-na a um poste junto à casa da guarda e declararam que «devido à fuga» todo o campo era privado do próximo domingo (procedimento habitual). E assim as brigadas que regressavam do trabalho cuspiam-lhe em cima e alguns até lhe batiam: «Por tua causa, porca, não vemos ter o nosso dia de descanso!» A Moisseievaite sorria beatificamente.
Sim. Sim. Mas eu não vou examinar aqui esses inúmeros casos de depravação. Toda a gente os conhece. Já foram descritos e voltarão a ser descritos. A mim basta-me reconhecê-los. Essa é a orientação geral, a regra.
É inútil repetir em cada casa que o frio a arrefece. É mais surpreendente notar que algumas casas, apesar do gelo, conservam o calor.
Chalámov diz: todos os que estiveram no campo ficaram espiritualmente empobrecidos. Mas eu sempre que me lembro, ou me encontro com um antigo zek, acho-o uma personalidade.
O próprio Chalámov escreve num outro lugar: não me vou pôr a denunciar os outros! Nem me vou tornar chefe de brigada para obrigar os outros a trabalharem.
Porquê isto, Varlam Tikhónovitch? Porque é que se recusa de repente a ser bufo ou chefe de brigada, se ninguém no campo pode evitar essa inclinação para a amarga depravação? Se a verdade e a mentira são irmãs? Quer dizer que se agarrou a um galho qualquer? Que se apoiou numa qualquer pedra para não descer mais? Talvez o ódio não seja em todo o caso o sentimento mais duradouro? A sua personalidade e os seus versos não desmentem a sua concessão?
E como é que se conservam no campo (nós evocámo-las mais de uma vez) as pessoas verdadeiramente religiosas? Ao longo deste livro já assinalámos a sua confiante marcha através do Arquipélago — como que uma procissão silenciosa com velas invisíveis. Como entre eles alguns caíam ceifados pelas metralhadoras, outros tomavam os seus lugares e de novo marchavam. Uma firmeza inaudita no século XX! E sem qualquer ostentação, sem declamações. Uma qualquer tia Dúcia Tchmil, uma velhinha calma, de cara redonda e totalmente analfabeta. Um soldado da escolta interpela-a:
— Tchmil! Artigos!
Ela responde suavemente, sem maldade:
— Porque é que me perguntas, meu caro?! Está tudo aí escrito, eu não me lembro de todos. — (Tem um ramalhete de parágrafos do artigo 58.)
— Anos!
A tia Dúcia suspira. Não é para aborrecer o militar que ela dá respostas tão embrulhadas. Medita com simplicidade nesta pergunta: anos? Uma pessoa sabe lá quantos anos?…
— Quantos anos!… Até que Deus me livre dos pecados, terei que ficar aqui.
— Parva, que parva! — ri-se o soldado. — Apanhaste quinze anos, e vais cumpri-los todos, e até talvez mais.
Mas passados dois anos e meio, sem que ela tivesse escrito para lado nenhum, chega de repente um papel: libertá-la!
Como não invejar estas pessoas? Teriam elas condições mais favoráveis? É improvável! Sabe-se que nas OLP disciplinares misturavam as «freiras» com as prostitutas e as vadias. E no entanto quem é que, entre os crentes, se depravava? Morriam, sim, mas não se depravavam.
E como explicar que algumas pessoas instáveis se tenham voltado para a fé precisamente nos campos, se tenham fortalecido nela e tenham sobrevivido sem se depravarem?
E muitos outros ainda, isolados e imperceptíveis, passam por uma viragem decisiva e não se enganam na escolha. Aqueles que conseguem compreender que não são os únicos a sofrer, mas que à sua volta as coisas são ainda piores, ainda mais difíceis.
Não seria então mais justo dizer que nenhum campo pode corromper aqueles que possuem um núcleo firme, e não a lastimável ideologia segundo a qual «o homem foi feito para a felicidade», que se esboroa ao primeiro golpe desferido pelo capataz?
Corrompem-se no campo aqueles que antes do campo não foram enriquecidos com nenhuma educação moral, espiritual. (Caso nada teórico, porque em cinquenta anos soviéticos cresceram milhões deles.)
Corrompem-se no campo aqueles que já em liberdade se corrompiam ou estavam dispostos a isso. Porque também em liberdade as pessoas se corrompem e por vezes mais do que no campo.
Aquele oficial da escolta que mandou amarrar a Moisseievaite ao poste para escárnio, não estará mais depravado do que os presidiários que cuspiam sobre ela?
E a propósito: todos os das brigadas cuspiram sobre ela? Talvez apenas dois de cada brigada? Provavelmente foi assim.
Se um homem no campo depressa se torna um canalha, talvez não se torne, mas apenas se revele nele a sua natureza canalha, coisa de que antes não tinha necessidade?
E talvez, Varlam Tikhónovitch, a amizade na miséria e na desgraça surja de um modo geral entre as pessoas, até na desgraça extrema — mas não entre homens secos e maus como nós, com a educação das nossas décadas?
E se a depravação é assim tão inevitável, por que razão Olga Lvovna Sliozberg não abandonou a sua amiga que estava a gelar no caminho da floresta, mas ficou com ela quase na certeza de morrer ela própria — e a salvou? Não será isto uma desgraça extrema?
Se a depravação é assim tão inevitável, de onde veio Vassili Mefodievitch Iakovenko? Cumpriu dois períodos de pena, tinha acabado de ser posto em liberdade e vivia em Vorkuta, onde apenas começava a aprender a andar sem escolta e a instalar-se na sua primeira casa. Em 1949. Em Vorkuta começam a aparecer antigos zeks, que apanharam novas condenações. Psicose das detenções! É o pânico entre os que são postos em liberdade. Como manter-se? Como passar despercebido? Mas detiveram I. D. Grozdenski, amigo de Iakovenko no campo de Vorkuta, chega à instrução do processo, sem ninguém que lhe leve encomendas. E Iakovenko leva-lhas, corajosamente! Se quiserem, prendam-me, seus cães!
Porque é que este não se depravou?
E não se lembram todos os sobreviventes de um ou outro que lhes estendeu a mão e os salvou num momento crucial?
Sim, os campos foram concebidos e estavam orientados para a depravação. Mas isso não significa que conseguissem esmagar todos.
Tal como na natureza nunca e em parte nenhuma se dá o processo de oxidação sem reconstituição (um oxida-se, mas ao mesmo tempo outro restabelece-se), também no campo (e também na vida) não há depravação sem ascensão. Elas vão lado a lado.
Mas quando tudo aquilo que é essencial acerca do Arquipélago Gulag já tiver sido escrito, lido e compreendido — compreender-se-á ainda o que era a nossa liberdade? O que era este país que durante dezenas de anos teve de arrastar consigo o Arquipélago?
Eu tive de viver com um tumor do tamanho do punho de um homem. Esse tumor impedia-me de comer, de dormir, eu sentia-o constantemente (embora não constituísse nem meio por cento do meu corpo, enquanto o Arquipélago constituía oito por cento do país). Mas o tumor era horrível, não porque comprimia e deslocava os órgãos próximos; o mais assustador era que o tumor segregava venenos e me intoxicava todo o corpo.
Também todo o nosso país estava a ser gradualmente intoxicado pelos venenos do Arquipélago. E só Deus sabe se alguma vez conseguirá livrar-se deles.
Não é essa a função do nosso livro, mas experimentemos enumerar os indícios da vida livre que eram determinados pela vizinhança do Arquipélago ou constituíam com ele um estilo único.
O MEDO CONSTANTE. Como o leitor já viu, os anos de 1935, 1937 e 1949 não esgotam a lista dos recrutamentos para o Arquipélago. Os recrutamentos eram contínuos. Tal como não se passa um momento sem que nasçam e morram pessoas, também não havia um momento em que não houvesse detenções. Tal como no Arquipélago havia por baixo (dos pés) de cada acomodado o abismo (mortal) dos trabalhos gerais, também no país havia sob os pés de cada habitante o abismo (mortal) do Arquipélago. Aparentemente, o país é muito maior do que o Arquipélago — mas todo ele, e todos os seus habitantes, estavam como que suspensos sobre a sua bocarra escancarada.
O medo nem sempre era medo da detenção. Havia degraus intermédios: a purga, a identificação, o preenchimento de inquéritos, o despedimento do trabalho, a privação do direito de permanência, o desterro ou o exílio. [71]Os inquéritos (questionários) eram elaborados com tanto pormenor e de maneira tão insidiosa que mais de metade dos habitantes se sentiam culpados e se atormentavam constantemente com o prazo do seu preenchimento.
O medo acumulado conduzia a um sentimento de insignificância e de ausência de qualquer direito.
Como foi justamente observado: a nossa vida estava tão impregnada da prisão que palavras polissémicas como «apanharam», «foi dentro», «está dentro», «soltaram», toda a gente no país, mesmo fora de qualquer contexto, lhes dá apenas um sentido!
Os nossos concidadãos nunca conheceram um sentimento como a despreocupação.
DISSIMULAÇÃO, DESCONFIANÇA. Estes sentimentos substituíram a cordialidade e a hospitalidade de antes (ainda presentes nos anos vinte). Esses sentimentos são uma defesa natural de cada família e de cada indivíduo, em especial porque ninguém pode demitir-se e partir para qualquer lado, e cada bagatela é espiada e escutada durante anos.
Essa geral desconfiança mútua aprofundava a fossa comum da escravidão. Se alguém começava a falar de maneira franca e corajosa, todos se afastavam: «Provocação!» Qualquer protesto sincero que surgisse estava assim condenado à solidão e ao isolamento.
O GERAL DESCONHECIMENTO. Ocultando-nos e desconfiando uns dos outros, ajudávamos a que se instalasse entre nós a absoluta falta de transparência, a completa desinformação que é a causa principal de tudo o que aconteceu — os milhões de prisões e a sua aprovação pelas massas. Sem comunicar nada uns aos outros, sem gritar nem gemer, nem saber nada uns dos outros, rendemo-nos aos jornais e aos oradores oficiais. Todos os dias nos apresentavam qualquer coisa emocionante, como um acidente ferroviário (sabotagem) algures a cinco mil quilómetros de distância. Mas aquilo que precisávamos absolutamente de saber, o que tinha acontecido no nosso vão de escada nesse dia, não tínhamos como sabê-lo.
Como tornar-se um cidadão quando não se sabe nada da vida à nossa volta? Só quando és apanhado na armadilha ficas a saber, tarde de mais.
A BUFARIA, desenvolvida até ao inconcebível. Centenas de milhares de operacionais, às claras nos seus gabinetes ou em salas de aparência inocente em edifícios públicos, e em apartamentos de apoio, sem pouparem nem o papel nem os seus tempos de ócio, recrutavam incansavelmente e convocavam para informações um tão grande número de informadores que excedia largamente as suas necessidades, para a recolha de informações. Um dos objetivos de tão abundante recrutamento era evidente: fazer com que cada cidadão sentisse a respiração dos informadores. Que em cada coletivo, em cada sala de trabalho, em cada apartamento houvesse um informador ou todos receassem que houvesse.
A TRAIÇÃO COMO FORMA DE EXISTÊNCIA. Em muitos anos de constante receio por si próprio e pela família, um homem torna-se súbdito do medo, vassalo dele. E a traição constante surge como a forma menos perigosa de existência.
A forma de traição mais suave, mas em contrapartida a mais difundida, era não fazer diretamente nada de mal, mas ignorar aquele que caía ao lado, não o ajudar, virar a cara, encolher-se. Prenderam um vizinho, um colega de trabalho ou mesmo um amigo chegado. Tu ficas calado, finges que não deste por nada (não podes de maneira nenhuma perder o teu atual emprego!) Na reunião geral anunciam que aquele que desapareceu ontem era um jurado inimigo do povo. E tu, que passaste vinte anos curvado sobre a mesma mesa, deves agora mostrar com o teu nobre silêncio (ou até com um discurso condenatório) que és alheio ao crime dele (pela tua querida família, pelos teus próximos, deves fazer esse sacrifício! Que direito tens tu de não pensar neles?) Mas o detido deixou mulher, mãe, filhos, talvez ajudá-los ao menos a eles? Não-não, é perigoso: porque é a mulher do inimigo, e a mãe do inimigo, e os filhos do inimigo (e os teus precisam ainda de receber uma longa instrução)!
O encobridor é também um inimigo! O cúmplice é também um inimigo. Aquele que mantém a amizade também é inimigo. E o telefone da família maldita emudece. O correio interrompe-se. Na rua não os conhecem, não lhes estendem a mão nem os cumprimentam. Menos ainda os convidam para as suas casas. E não lhes emprestam dinheiro. No fervilhar de uma grande cidade, as pessoas estão como no deserto.
Toda a gente conhecia a situação das famílias dos detidos. V. I. Kavechan, de Kaluga, recorda: «Depois da detenção do meu pai, todos fugiam de nós como de leprosos; eu tive que deixar a escola porque os miúdos perseguiam-me — (rebento de traidor! rebento de carrasco!) — e a minha mãe foi despedida do trabalho. Tivemos que mendigar.»
A família de um moscovita detido em 1937 — uma mãe com os filhos — foi levada à estação ferroviária pela polícia, para ser desterrada. De repente, quando atravessavam a estação, um dos filhos (um rapazinho de oito anos) desapareceu. Os polícias fartaram-se de procurar mas não o encontraram. Enviaram a família sem aquele rapazinho. Afinal, ele tinha-se escondido debaixo do pano vermelho que envolvia o pedestal do busto de Estaline, e ali ficou até o perigo passar. Depois voltou para casa — o apartamento estava selado. Dirigiu-se aos vizinhos, aos conhecidos, aos amigos do pai e da mãe, e não só ninguém acolheu aquele rapazinho na sua família, como não o deixaram pernoitar nem uma noite! E ele foi-se entregar a um orfanato… Contemporâneos! Compatriotas! Reconheceis a vossa fisionomia?
E isto, manter-se à parte, era apenas o mais leve degrau da traição. E quantos mais havia, atraentes, e quantas pessoas os desceram?
E quantas renegações aconteceram nesse tempo — ora em público, ora na imprensa: «Eu, fulano tal, a partir desta data renego o meu pai e a minha mãe como inimigos do povo soviético.» Era este o preço da vida.
Para quem não viveu nesse tempo (ou não vive agora na China) é quase impossível compreender e perdoar. Nas sociedades humanas normais, um homem vive os seus sessenta anos sem nunca se sentir apanhado na tenaz de semelhante escolha, e ele próprio está convencido da sua decência, tal como aqueles que fazem o discurso sobre a sua sepultura. Um homem deixa a vida sem chegar a saber em que poço de mal é possível cair.
A sarna generalizada das almas não se expande instantaneamente na sociedade. Nos anos 20 e princípio dos anos 30, muitas pessoas no nosso país conservavam ainda a sua alma e as noções da sociedade anterior: ajudar na desgraça, defender os infelizes. Há um período mínimo necessário para a corrupção, antes do qual o grande Aparelho não consegue dominar o povo. Para a Rússia foram vinte anos.
Ao avaliar a importância do ano de 1937 para o Arquipélago, recusámos-lhe a coroa suprema. Mas, no que se refere ao país livre, devemos conceder-lhe essa coroa corrosiva: pode-se reconhecer que foi precisamente esse ano que quebrou a alma da nossa liberdade e lançou nela uma corrupção maciça.
Mas nem mesmo isso foi ainda o fim da nossa sociedade! (Como hoje percebemos, o fim nunca chegou. A linha viva da Rússia manteve-se, estendeu-se até melhores tempos, até 1956, e agora, com mais forte razão, não morrerá.) A resistência não se mostrava às claras, não tingiu a época da decadência geral, mas nas pequenas veias invisíveis pulsava, pulsava, pulsava.
Nesses tempos horríveis, em que numa ansiosa solidão se queimavam fotografias, cartas e diários queridos, em que cada papel amarelecido no armário da família desabrochava de repente num feto ardente e mortal e só pedia para ser lançado no fogão, quanta coragem era necessária para passar milhares de noites a proteger, sem os queimar, os arquivos dos condenados (como Florenski) ou de um dissidente notório (como o filósofo Fiódorov)! E que subversão antissoviética clandestina deveria parecer a novela de Lidia Tchukóvskaia Sofia Petrovna. A novela foi conservada por Issidor Glikin. Na Leninegrado sitiada, sentindo a aproximação da morte, ele atravessou a custo toda a cidade até casa da sua irmã, para assim salvar a novela.
Cada ato de oposição ao poder exigia uma coragem desproporcional à dimensão do ato. Era menos perigoso ter em casa dinamite, no tempo de Alexandre II, do que acolher o órfão de um inimigo do povo no tempo de Estaline — e no entanto, quantas crianças nessa situação foram acolhidas e salvas (que sejam essas crianças a contar). E havia também ajuda clandestina às famílias. E alguém substituía a mulher de um detido numa bicha de três dias e três noites, sem esperança, para que ela pudesse aquecer-se um pouco e dormir. E para ir avisar, de coração em ânsias, que havia uma armadilha no apartamento e que não voltasse para casa. E na censura militar (Riazan, 1941) uma funcionária rasgou uma carta comprometedora de um soldado que não conhecia — mas alguém notou que ela rasgava e deitava no caixote, reconstituíram a carta com os fragmentos e ela é que foi engaiolada. Sacrificou-se por uma pessoa distante que nem conhecia!
Agora acharam cómodo dizer que as detenções eram uma lotaria. Lotaria, lotaria, mas alguns números estavam marcados. Havia redadas de arrasto, sim, faziam detenções segundo normas previamente estabelecidas, mas cada objetor público era imediatamente detido! Era portanto uma seleção e não uma lotaria! Os ousados caíam debaixo do machado, eram enviados para o Arquipélago — e não se turvava o quadro monótono da submissão dos que ficavam em liberdade. Essas saídas silenciosas passavam quase despercebidas. Mas elas eram a agonia da alma do povo.
A MENTIRA COMO FORMA DE EXISTÊNCIA. Cedendo ao medo ou movidas pela cupidez, pela inveja, as pessoas não podem no entanto estupidificar-se assim tão depressa. Têm a alma turva, mas a mente ainda bastante clara. E se lermos a mensagem dirigida pelos funcionários do ensino superior ao camarada Estaline:
«Elevando a nossa vigilância revolucionária, ajudamos os nossos gloriosos serviços secretos, dirigidos pelo fiel leninista Nikolai Ivánovitch Ejov, Comissário estalinista, a limpar os nossos estabelecimentos de ensino superior, e todo o país, dos restos da canalha trotskista-bukharinista e de toda a canalha contrarrevolucionária»[72]
não tomaremos por idiotas todas as mil pessoas que participaram na assembleia, mas apenas por vis mentirosos, resignados a serem detidos amanhã mesmo.
A mentira constante torna-se a única forma segura de existência, tal como a traição. Cada movimento da língua pode ser ouvido por alguém, cada expressão do rosto pode ser observada por alguém. Escusado será falar dos comícios barulhentos, das banais reuniões nas pausas do trabalho, em que a pessoa tem de votar contra a sua própria opinião, alegrar-se falsamente com aquilo que a desgosta (um novo empréstimo, uma redução do salário, uma contribuição para uma coluna de tanques, a obrigação de trabalhar ao domingo ou enviar os filhos para ajudar os kolkhozianos), e exprimir uma profunda ira por uma coisa que não lhe diz respeito (umas invisíveis e impalpáveis repressões violentas nas Índias Ocidentais ou no Paraguai).
E se as coisas parassem por aqui! Mas há mais: qualquer conversa com os chefes, qualquer conversa na secção de pessoal, e em geral qualquer conversa com outro cidadão soviético exige a mentira — umas vezes direta, outras vezes circunspecta, outras vezes como aprovação condescendente. E se o teu interlocutor te disse de olhos nos olhos que nós recuamos até ao Volga para atrair Hitler mais profundamente, ou que os americanos lançam sobrenós os escaravelhos do Colorado, deves concordar! Deves concordar sem falta! E abanar a cabeça em vez de anuir, pode custar o envio para o Arquipélago.
Mas isto ainda não é tudo: os teus filhos crescem. Se eles já forem bastante crescidos, tu e a tua mulher não devem dizer francamente diante deles aquilo que pensam: porque eles são educados para serem como Pavlik Morózov*, não hesitarão em cometer essa proeza. E se os vossos filhos ainda são pequenos, é preciso decidir a maneira mais segura de os educar: apresentar-lhes desde logo a mentira como verdade (para que lhes seja mais fácil viver) e nesse caso mentir sempre mesmo na presença deles; ou dizer-lhes a verdade, com o perigo de que eles tropecem e falem de mais, e portanto explicar-lhes logo que a verdade mata, que fora de casa é necessário mentir, mentir sempre, como fazem o pai e a mãe.
Com esta escolha, talvez percas até a vontade de ter filhos.
A CRUELDADE. E em face de todas as qualidades acima descritas, onde poderia manter-se a cordialidade? Como podes conservar a bondade rejeitando as mãos que os náufragos te estendem? Uma minha correspondente anónima (rua Arbat, n.° 15) pergunta «sobre as raízes da crueldade» própria de «alguns soviéticos». Porque é que, quanto mais indefesa é uma pessoa que está sob o seu poder, maior crueldade mostram? E indica um exemplo, que nem parece muito importante, mas que nós reproduzimos.
No Inverno de 1943-1944, na estação ferroviária de Tcheliábinsk, alpendre junto ao depósito de bagagens. Vinte e cinco graus abaixo de zero. Debaixo do alpendre, um chão de cimento coberto de neve pisada, arrastada de fora. Ao guiché do depósito, uma mulher de casaco acolchoado, fora do guiché um polícia bem alimentado com uma peliça curta. Mantêm uma conversa galante e brincalhona. Mas no chão há dois homens estendidos, com umas roupinhas de algodão ou uns andrajos cor de terra, que até descrevê-los como velhos seria embelezá-los demasiado. São uns rapazes novos, macilentos, inchados, com feridas nos lábios. Um deles está visivelmente com febre, deitou-se com o peito nu em cima da neve, e geme. Aquela que me conta o caso aproximou-se deles para se informar: um deles acabava de cumprir a pena num campo, o outro tinha sido liberto por doença, mas ao libertá-los preencheram incorretamente os documentos e agora não lhes dão os bilhetes do comboio para que possam regressar a casa. Já não têm forças para regressar ao campo, exaustos pela diarreia. Então a minha correspondente começou a dar-lhes pedacinhos de pão. O polícia abandonou a sua animada conversa e disse-lhe em tom ameaçador: «O que é, tiazinha, reconheceste uns parentes? É melhor que te vás daqui, eles morrem sem ti.» E ela pensou — ainda me prende a mim sem mais nem menos. (E de facto, por que não?) E foi-se embora.
Tudo isto é muito típico da nossa sociedade — o que ela pensou, e como se foi embora. E aquele polícia impiedoso, e a mulher do casaco acolchoado impiedosa, e a empregada da bilheteira que recusou os bilhetes, e a enfermeira que não os aceitará no hospital da cidade, e o estúpido funcionário que lhes preencheu os documentos no campo.
Começou uma vida atroz, e já ninguém chamará ao presidiário, como no tempo de Dostoievski e de Tchékhov, «infeliz», mas apenas «carcaça». Em 1938 os alunos de uma escola de Magadan atiraram pedras a uma coluna de prisioneiras (recorda Surovtseva).
E pode-se continuar a enumerar. Pode-se nomear ainda:
UMA PSICOLOGIA DE ESCRAVOS.
E outras coisas ainda.
Mas reconheçamos desde já: se tudo isto não aconteceu por si mesmo, e foi Estaline que elaborou isto para nós em todos os pontos, então ele era mesmo um génio!
[No livro O Arquipélago Gulag, o autor parcelou os destinos de dezenas de presidiários, submetendo-os ao plano do livro, aos contornos do Arquipélago, a uma viagem pelas suas ilhas. Afastou-se da estrutura biográfica: «Isso seria demasiado monótono, assim escreve, escreve, transferindo para o leitor o trabalho de investigação propriamente dito».
Mas precisamente por isso considerou possível apresentar na íntegra, no final da Quarta Parte, os destinos de alguns presidiários.]
Faremos da Sibéria dos trabalhos forçados, das grilhetas, uma Sibéria soviética, socialista!
Estaline
A revolução costuma ser precipitadamente magnânima. Apressa-se a rejeitar muitas coisas. Por exemplo, a palavra katorga (trabalhos forçados). Mas esta é uma boa palavra, pesada, nada como esse aborto do DOPR, nem o escorregadio ITL. «Trabalhos forçados» é uma expressão que desce do estrado do tribunal, como uma guilhotina de retardador, que ainda na sala do tribunal quebra a coluna vertebral do condenado, lhe tira toda a esperança.
Estaline gostava muito de palavras antigas, lembrava-se de que os Estados podem sustentar-se nelas durante séculos. Sem qualquer necessidade proletária, enxertou palavras que haviam sido cortadas apressadamente: «oficial», «general», «diretor», «supremo». E vinte e seis anos depois de a revolução de Fevereiro ter anulado os trabalhos forçados, Estaline voltou a instaurá-los. Isto aconteceu em abril de 1943. Os primeiros frutos civis da vitória do povo em Estalinegrado foram: o decreto sobre a militarização dos caminhos de ferro (os rapazes e as mulheres passaram a ser julgados em tribunal) e, dois dias depois (em 17 de abril), o decreto sobre a introdução dos trabalhos forçados e da forca. (A forca é também uma boa instituição antiga, não tem nada que ver com o estalido de um revólver, a forca prolonga a morte e permite exibi-la em pormenor a uma grande multidão.) Todas as vitórias que se seguiram arrastaram para os trabalhos forçados e para a forca novos contingentes de condenados — primeiro do Kuban e do Don, depois da Ucrânia e da margem esquerda do Dniepre, de Kursk, de Oriol, de Smolensk. Atrás do exército seguiam os tribunais, alguns eram enforcados imediatamente, logo ali, outros eram enviados para campos de trabalhos forçados acabados de criar.
O primeiro deles foi, evidentemente, na 17.a mina de Vorkuta (pouco depois também em Norilsk e em Djezkazgan).
Alojavam-nos em «tendas» de sete por vinte metros, habituais no norte. Revestidas de tábuas e cobertas de serradura, essas tendas eram como que barracas ligeiras. Uma tenda dessas era prevista para oitenta pessoas se houvesse vagonetas, cem, se fossem simples tarimbas. Os condenados eram alojados aos duzentos.
Mas isto não era uma sobrelotação! Era apenas a utilização racional do espaço habitável. Os condenados cumpriam um dia de trabalho de doze horas em dois turnos, sem dia de folga, e por isso estavam sempre cem no trabalho e os outros cem na barraca.
No trabalho, estavam rodeados por uma escolta com cães, eram espancados e animados à metralhadora. Uma coluna esgotada de condenados era facilmente distinguível, de longe, de uma simples coluna de presidiários, de tal modo se arrastavam com dificuldade, com ar perdido.
As suas doze horas de trabalho eram medidas em toda a extensão. (Para talhar manualmente a pedra dura sob os frios polares de Norilsk, tinham apenas, em doze horas de trabalho, um período de dez minutos de aquecimento.) E as dozes horas de descanso eram empregues da maneira mais absurda possível. À custa dessas doze horas conduziam-nos de uma zona para outra, formavam em filas, revistavam-nos; havia ainda as chamadas da manhã e da tarde — não apenas a contagem de cabeças, como para os zeks, mas circunstanciada, nominal, em que cada um dos cem condenados devia, duas vezes por dia, sem hesitação, proclamar o seu número, a lista odiosa do seu apelido, nome, patronímico, ano e lugar de nascimento, os artigos do código, o tempo de pena, quem o condenou e a data de saída. Na zona habitacional metiam-nos imediatamente na barraca nunca arejada, sem janelas, e fechavam-nos à chave. De Inverno, adensava-se o ar fétido, húmido, acre, de tal modo que uma pessoa não habituada não suportaria nem dois minutos. Não podiam ir às retretes, nem ao refeitório, nem à enfermaria. Havia apenas uma selha e um guiché: através do guiché eram distribuídas e recolhidas as escudelas. De modo que das doze horas de «lazer» mal restavam umas quatro horas para dormir.
Eram assim os trabalhos forçados estalinistas de 1943-1944: a conjugação daquilo que há de pior no campo, com o que há de pior na prisão.
E, claro está, não se pagava nem um centavo aos condenados a trabalhos forçados, não tinham direito a encomendas nem a correio.
Com tudo isto, os condenados cediam facilmente e morriam depressa.
O primeiro alfabeto de Vorkuta (28 letras, em cada uma delas a numeração até mil) — os primeiros vinte e oito mil condenados de Vorkuta foram todos para debaixo da terra num ano.
Surpreendente é que não tenha sido num mês. (No tempo de Tchékhov, nos trabalhos forçados em toda a Sacalina estavam recenseadas — o que lhes parece? — 5905 pessoas, seis letras seriam suficientes. Quase igual era o nosso Ekibastuz, e Spassk era muito maior. Só a palavra «Sacalina» era medonha, mas na realidade equivalia apenas a uma secção de um campo! Só no Steplag havia doze como esse. E os campos como o Steplag eram dez. Façam as contas, quantas Sacalinas.)
Na mina n.° 2 de Vorkuta havia um campo de mulheres condenadas a trabalhos forçados. As mulheres usavam o número nas costas e nos lenços da cabeça. Faziam todos os trabalhos subterrâneos e até… ultrapassavam o plano!… (Na Sacalina não havia trabalhos forçados para as mulheres. )
Mas já ouço como os meus compatriotas e contemporâneos me gritam, furiosos: pare! De quem se atreve a falar-nos? Sim! Mantinham-nos para extermínio, e com razão! Eram traidores, polizei, burgomestres! Bem feito para eles! Não estará com pena deles? E as mulheres que lá estavam, eram amásias dos alemães! — gritam-me algumas vozes femininas. (Não estarei a exagerar? Não, porque algumas das nossas mulheres chamaram a outras mulheres nossas amásias dos alemães!)
Comecemos pelas mulheres. Não é verdade que toda a literatura mundial (pré-estalinista) apregoava o amor livre de discriminações nacionais? Livre do capricho dos generais e dos diplomatas? E nós neste domínio adotámos a bitola de Estaline: não se liguem sem um decreto do Presidência do Soviete Supremo.
Em primeiro lugar, que idades tinham essas mulheres quando entraram em contacto com o inimigo não no combate, mas na cama? Provavelmente não mais de trinta anos, ou mesmo vinte e cinco. Portanto, desde as primeiras impressões da infância foram educadas depois de Outubro, nas escolas soviéticas e consoante a ideologia soviética! Irritámo-nos então contra a obra das nossas mãos? Algumas dessas raparigas fixaram aquilo que não parámos de gritar durante quinze anos, que a pátria não existe, que a pátria é uma invenção reacionária. Outras estavam fartas da insipidez puritana das nossas reuniões, dos nossos comícios, manifestações, do cinema sem beijos, da dança sem abraços. Outras foram conquistadas pela amabilidade, pela galanteria, pelos detalhes da aparência exterior do homem e pelos sinais exteriores da corte, que ninguém ensinou aos rapazes dos nossos planos quinquenais nem aos quadros de comando do exército saídos da Academia Frunze. Outras ainda tinham simplesmente fome — sim, uma fome primitiva, ou seja, não tinham nada que comer.
Todas essas mulheres deviam talvez ser votadas à reprovação moral (mas ouvi-las primeiro), talvez se devesse ridicularizá-las causticamente — mas enviá-las para os trabalhos forçados? Para as câmaras de gás polares?
— Está bem, mas os homens, foram ali parar merecidamente?! Eram traidores à pátria e traidores sociais.
Uma vez que começámos, continuemos.
Nos seus onze séculos de existência, a Rússia conheceu muitos inimigos e travou muitas guerras. Mas houve muitos traidores na Rússia? Fugiram dela multidões de traidores? Parece que não. Parece que os próprios inimigos nunca acusaram o caráter russo de traição, de inconstância, de infidelidade. E tudo isto num regime, como se diz, hostil ao povo trabalhador.
Mas começou a mais justa das guerras no mais justo dos regimes — e de repente o nosso povo revelou dezenas e centenas de milhares de traidores.
De onde vieram eles? Porquê?
Reacendeu-se talvez a mal extinta Guerra Civil? São os Brancos mal vencidos? Não! Já referimos mais acima que muitos dos emigrantes brancos (entre eles o maldito Deníkin) se puseram ao lado da Rússia Soviética contra Hitler. Tinham liberdade de escolha, e foi essa a escolha que fizeram.
Essas mesmas dezenas e centenas de milhares de traidores saíram todos das fileiras de cidadãos soviéticos. E entre eles eram muitos os jovens, que também cresceram depois de Outubro.
O que é que os fez agir assim?… Quem eram eles?
Eram antes de mais aqueles sobre cujas famílias, e sobre eles próprios, tinham passado as lagartas dos anos Vinte e dos anos Trinta. Aqueles que nas turvas Torrentes das nossas canalizações perderam os pais, os parentes, os entes queridos. Ou que desapareceram eles próprios e reapareceram nos campos e lugares de desterro, afundando-se e reaparecendo. Cujas pernas gelaram a marcar passo nas bichas diante dos guichés das encomendas. E aqueles a quem, durante essas décadas, quebraram, cortaram o acesso à coisa mais querida na terra — a própria terra, prometida, a propósito, no grande decreto[73] e pela qual, entre outras coisas, tinham vertido o seu sangue na Guerra Civil.
De todos eles se fala no nosso país com um trejeito de desprezo: «ofendidos com o poder soviético», «filhos de kulaks», «guardam um negro rancor pelo poder soviético».
Um diz, o outro aprova com a cabeça. Como se tudo isso fosse evidente. Como se o poder popular tivesse o direito de ofender os seus cidadãos.
E não há quem grite: ora com licença! Ora, o diabo vos leve a todos! Mas afinal, para vocês o ser determina a consciência, ou não? Ou só a determina quando vos convém? E quando não vos convém não a determina?
E os professores das escolas? Aqueles professores que o nosso exército, no seu recuo pânico, abandonou com as suas escolas e com os seus alunos — uns por um ano, outros por dois anos, outros por três. Porque os intendentes eram estúpidos, os generais eram maus — o que deviam os professores fazer? Ensinar ou não ensinar as crianças? E que haviam de fazer as crianças — não aqueles que já tinham quinze anos, que podiam ganhar a vida ou juntar-se aos guerrilheiros — mas as crianças pequenas? Deviam estudar, ou viver dois ou três anos como carneiros para espiar os erros do comandante supremo? Já que o meu pai não me deu um gorro de pele, deixem as minhas orelhas gelar, é isso?…
Sabe-se lá porquê, esta questão não surgiu nem na Dinamarca, nem na Noruega, nem na Bélgica, nem em França. Ali não se considerava que o povo, facilmente deixado em poder dos alemães pelos seus governos insensatos ou pela força das circunstâncias, devia simplesmente deixar de viver. Ali funcionavam as escolas, e os caminhos de ferro, e os órgãos da administração local.
No nosso país, os professores recebiam cartas anónimas dos guerrilheiros: «não se atrevam a dar aulas! Pagarão por isso!» Toda a gente sabe que uma criança afastada da escola pode nunca mais voltar depois. Portanto, se o mais Genial Estratego de todos os tempos e de todos os povos fez uma asneira — a erva deve continuar a crescer ou deve secar? Deve-se instruir as crianças ou não se deve?
É claro que era preciso pagar por isso. Seria preciso retirar da escola os retratos com o grande bigode e talvez substituí-los por um bigodinho pequeno. A árvore enfeitada não seria para o Ano Novo, mas para o Natal, e o diretor teria de proferir um discurso à glória da nossa nova vida excelente — mas a vida seria na verdade péssima. Mas já antes se proferiam discursos à glória da nossa vida excelente, e ela também era péssima.
Dantes, em cada aula, a propósito e a despropósito, a estudar a estrutura da minhoca ou as conjunções subordinadas, era obrigatório escoicinhar contra Deus (mesmo que tu acreditasses Nele); ao ler Turguéniev em voz alta, ou ao seguir o curso do Dniepre com o ponteiro, era obrigatório maldizer da anterior miséria e glorificar a atual abundância (quando diante dos teus olhos e dos olhos das crianças muito antes da guerra morriam aldeias inteiras, e nas cidades o cartão de racionamento de uma criança dava direito a trezentos gramas de pão).
E nada disto era considerado crime nem contra a verdade, nem contra a alma infantil, nem contra o Espírito Santo.
Agora proibiam a língua materna, a geografia, a aritmética e as ciências naturais. Vinte anos de trabalhos forçados por essa atividade!
Compatriotas, acenem que sim com a cabeça! Ali vão eles, escoltados por cães, para a barraca com a selha. Atirem-lhes pedras, eles ensinaram os vossos filhos.
E os crentes? Vinte anos a fio perseguiram a fé e fecharam as igrejas. Vieram os alemães, e começaram a abrir as igrejas. Em Rostov do Don, por exemplo, a abertura solene da igreja suscitou um regozijo de massas, uma grande afluência da multidão.
Tendo falado da cidade, não esqueçamos a aldeia. É frequente acusar-se a aldeia de obtusidade política e de conservadorismo. Mas a aldeia de antes de guerra era toda ela sensata na sua esmagadora maioria, incomparavelmente mais sensata do que a cidade. Não partilhava minimamente a divinização do papá Estaline (nem da revolução mundial). Era de uma sensatez normal e lembrava-se bem de como lhe prometeram a terra e como depois lha tiraram; como ela vivia, comia e se vestia antes dos kolkhozes e depois da instauração dos kolkhozes; de como lhe tiraram do pátio a vaca, a ovelha e até a galinha; como profanaram as igrejas.
Também costumam dizer entre nós: «sim, cometeram-se alguns erros». E sempre esta forma impessoal e matreira —cometeram-se, mas não se sabe quem. Ninguém tem a coragem de dizer: o partido comunista cometeu! Os inamovíveis e irresponsáveis dirigentes soviéticos cometeram! Por quem mais podiam eles ser «cometidos» se não pelos que detinham o poder? Pôr tudo na conta de Estaline? É preciso ter sentido de humor. Estaline cometeu, e onde estavam vocês, milhões de dirigentes?
De resto, esses erros só são reconhecidos porque os comunistas prenderam outros comunistas. Mas que entre quinze e dezassete milhões de camponeses tenham sido arruinados, enviados para o extermínio, espalhados pelo país sem o direito de recordarem sequer e nomearem os seus pais, parece não ter sido um erro. E todas as Torrentes das canalizações que analisámos no início deste livro parecem também não ter sido um erro. E que não tenhamos estado minimamente preparados para a guerra contra Hitler, que tenhamos bazofiado desonestamente e recuado vergonhosamente, mudando à medida as palavras de ordem, e só o Ivan e «pela Santa Rússia» tenham detido o alemão no Volga — tudo isso não é afinal um lapso, mas quase o principal mérito de Estaline.
* * *
Não se pense que alguém sentiu um aperto no coração por ver os condenados a trabalhos forçados morrerem; simplesmente, como a guerra estava a chegar ao fim, o papão já não era tão necessário, havia falta de força de trabalho e nos trabalhos forçados morria-se sem proveito. Ainda antes de 1945 as barracas dos forçados deixaram de ser celas prisionais, as portas abriam-se durante o dia, as selhas eram despejadas nas latrinas, os forçados podiam ir à enfermaria pelo seu pé e para o refeitório eram conduzidos a trote, para se animarem. Depois até foram autorizados a escrever cartas, duas vezes por ano.
Nos anos 1946-1947, a fronteira entre os trabalhos forçados e o campo começou a apagar-se de maneira sensível: os dirigentes, engenheiros pouco meticulosos em política, que procuravam cumprir o plano de produção, começaram a transferir os bons especialistas dos trabalhos forçados para os campos comuns.
E deste modo uns administradores insensatos teriam posto em risco a grande ideia de Estaline de ressuscitar os trabalhos forçados, se em 1948 Estaline não tivesse tido a nova ideia de dividir os indígenas do Gulag, de separar os bandidos e os de direito comum dos do artigo Cinquenta e Oito, socialmente irrecuperáveis.
Criaram-se os Campos especiais com um estatuto particular — um pouco mais suave que o dos trabalhos forçados no seu início, mas mais severo do que os campos comuns.
Para os distinguir tiveram a ideia de dar aos campos não os nomes geográficos, mas nomes poético-fantásticos dos lugares. Instalaram-se: o Gorlag (Campo das Minas) em Norilsk, o Berlag (Campo do Litoral) em Kolimá, o Minlag (dos Minérios) no Inta, Retchlag (dos Rios) em Petchora, o Dubravlag em Potma, o Ozerlag em Tachkent, Steplag, Petchenlag e Luglag no Cazaquistão, o Kamichlag na região de Kemerovo.
Nos campos do ITL começaram a correr rumores sombrios de que os do artigo Cinquenta e Oito seriam enviados para campos especiais de extermínio.
Intensificou-se o trabalho nas secções de contagem e distribuição, e nos departamentos operacionais. Elaboravam-se listas secretas que eram enviadas para qualquer parte, para coordenação. Depois formavam-se longos comboios vermelhos, chegavam companhias de escolta com dragonas vermelhas e espingardas automáticas — e os inimigos do povo, chamados pelos nomes das listas, eram enviados, indeclinavelmente, inelutavelmente, para uma longa transferência.
Deste modo, como a semente que morre para dar uma planta, a semente dos trabalhos forçados estalinistas germinou nos Campos Especiais.
Os comboios vermelhos transportavam um novo contingente pelas diagonais da Pátria e do Arquipélago.
Nunca eu teria acreditado, ao começar a cumprir a minha pena, esmagado como estava pela sua longa duração e abatido pelos primeiros contatos com o mundo do Arquipélago, que pouco a pouco a minha alma se distenderia; que, com o passar dos anos, elevando-me sem que eu próprio me apercebesse ao ponto culminante do Arquipélago, viria a contemplar serenamente dali as lonjuras do Arquipélago, cujo incerto mar me atrairia com o seu brilho.
Passei o meio tempo da minha pena numa ilhota dourada, onde os presidiários eram alimentados, lhes davam de beber e os mantinham no quente e no asseio. Em troca de tudo isto, exigiam pouca coisa: estar sentados durante doze horas a uma secretária e agradar às chefias.
Mas eu de repente perdi o gosto por esses bens. Já tateava um novo sentido na vida prisional. O preço que pagávamos pareceu-me uma compra desproporcionada.
A prisão desatou em mim a capacidade de escrever, e eu dedicava agora todo o tempo a essa paixão; deixei descaradamente de dar atenção ao trabalho oficial. Mais caro do que a manteiga e o açúcar que ali davam tornou-se a possibilidade de me endireitar.
E a alguns de nós «aprumaram-nos» — com a transferência para um campo especial.
A viagem para lá foi longa — durou três meses (a cavalo, no século XIX, teria sido mais depressa). O trajeto saiu-nos animado e significativo. Soprava-nos nos rostos uma aragem fresca cada vez mais forte — dos trabalhos forçados e da liberdade. De todos os lados nos chegavam homens e casos que nos convenciam de que a justiça estava do nosso lado! Do nosso lado! — e não do lado dos nossos juízes e carcereiros.
Na «estação» de Butirki misturaram-nos com uns novatos da redada de 1949. Todos eles tinham apanhado penas extravagantes: não as habituais dezenas, mas o quarteirão. Parecia impossível cumprir tantos anos. Era preciso arranjar alicates para cortar o arame farpado.
Essas mesmas penas de vinte e cinco anos introduziam uma nova qualidade no mundo prisional. O poder disparava contra nós tudo o que podia. Agora eram os presidiários que tinham a palavra.
* * *
Estávamos numa carruagem cárcere. A escolta era como todas as escoltas: metia-nos aos quinze em cada compartimento, alimentava-nos com arenques, mas é verdade que também nos dava água e nos deixava ir fazer as necessidades à noite e de manhã, não teríamos nada a questionar se não fosse aquele rapazito lançar-nos imprudentemente, mas também sem qualquer maldade, que nós éramos inimigos do povo.
E de repente levantou-se o burburinho! Do nosso compartimento e do vizinho, começaram a increpá-lo:
— Nós somos inimigos do povo, mas porque é que no kolkhoze não há nada que comer?
— Se nós somos inimigos do povo, porque é que vocês disfarçam as carruagens? Deviam conduzir-nos às claras!
— Eh, rapaz! Eu tinha dois filhos como tu que não voltaram da guerra, e eu sou inimigo, é?
Um sargento reincorporado aproximou-se do soldado desnorteado, não mandou ninguém para o calabouço, nem tomou nota dos nomes, mas tentou ajudar o seu soldado a rebater. E também nisso nós víamos sinais de novos tempos — embora que «novos» tempos poderia haver em 1950?
Os rapazes olhavam-nos e já nunca mais se atreveram a chamar inimigo do povo a ninguém do nosso compartimento nem do compartimento vizinho.
— Olhem, rapazes! Olhem pela janela! — disse alguém de entre nós. — Vejam ao que conduziram a Rússia!
E lá fora das janelas estendia-se um país de palhotas apodrecidas, torcido, esfarrapado, miserável (era a linha de Ruzaievo, onde não circulam estrangeiros), que, se Batu[74]se a tivesse visto assim tão emporcalhada, não a teria conquistado.
Na sossegada estação de Torbéievo, uma velha camponesa parou diante da nossa janela com o caixilho descido e através da grade da janela e da grade interna, ficou muito tempo imóvel, a olhar para nós, amontoados na prateleira superior. Olhava com aquele olhar eterno com que o nosso povo sempre olhou para os «infelizes». Pelas suas faces corriam algumas raras lágrimas. Estava assim parada com o seu corpo deformado e olhava de tal maneira como se o seu filho estivesse ali estendido entre nós. «Não se pode olhar, mãezinha» — disse-lhe sem grosseria um homem da escolta. Ela nem virou a cabeça. Ao seu lado estava uma menina dos seus dez anos com fitas brancas nas tranças. Esta olhava com muita severidade, até com uma mágoa imprópria da sua idade, de olhinhos muito abertos e sem pestanejar. Olhava de tal maneira que eu acho que nos fotografou para toda a vida. O comboio avançou lentamente, a velha levantou os dedos escuros e com ar devoto, traçou lentamente o sinal da cruz na nossa direção.
Noutra estação, uma rapariga com um vestido às bolinhas, nada acanhada nem assustada, aproximou-se da nossa janela e pôs-se a perguntar-nos com desenvoltura quais os nossos artigos e quantos anos de pena. «Afasta-te» — gritou-lhe um homem da escolta, que circulava pelo cais. «E o que é que tu me fazes? Eu também sou como eles! Aqui está um maço de cigarros, passa-o aos rapazes!» — e tirou um maço de cigarros da malinha. «Afasta-te! Meto-te lá dentro!» — ameaçou o subcomandante saindo da carruagem. Ela olhou-o com desprezo na testa de lateiro. «Vai mas é pró c…!» Encorajou-nos: «Cheguem-lhes, rapazes!» E afastou-se com dignidade.
Assim decorria a nossa viagem, e eu não penso que a escolta se sentisse uma escolta do povo. À medida que avançávamos, sentíamo-nos cada vez mais entusiasmados, que estávamos no nosso direito, que toda a Rússia estava connosco e que se aproximava o tempo de acabar, de acabar com este estabelecimento.
Na reexpedição de Kuibichev, onde ficámos mais de um mês a bronzear, também fomos surpreendidos por milagres. Das janelas da cela vizinha soaram de repente gritos histéricos, gritos possessos dos criminosos (as suas lamúrias tinham qualquer coisa de esganiçado e repugnante): «Acudam! Salvem-nos! Os fascistas batem-nos! Os fascistas!»
Coisa nunca vista! Os «fascistas» batem nos bandidos? Dantes era sempre ao contrário.
Mas depressa ficamos a saber: por enquanto não há milagre. É apenas uma primeira andorinha — Pável Baraniuk, com um peito como uma mó, uns braços como troncos nodosos, sempre prontos para um aperto de mãos e para um golpe, pele escura, nariz aquilino, parece mais um georgiano do que um ucraniano. Oficial da frente, com a sua metralhadora antiaérea enfrentou sozinho três «Messer»; proposto para Herói, afastado pela Secção Especial; enviado numa companhia disciplinar, voltou condecorado; agora apanhou dez anos, uma «pena infantil» segundo as novas normas.
Nesta altura já ele tinha percebido os bandidos, durante o trajeto desde a prisão de Novograd-Vlinsk, e já tinha brigado com eles. Aqui toda a cela era dos Cinquenta e Oito, mas a administração tinha infiltrado dois comuns. Fumando negligentemente os seus «Bielomor», os bandidos atiraram os seus pequenos sacos para os seus legítimos lugares nas tarimbas e continuaram ao longo da cela para espreitar os sacos alheios e chatear. Sessenta homens esperavam submissos que os fossem roubar. Mas Baraniuk já revirava os seus grandes olhos ameaçadores e calculava a maneira de lutar. Quando um dos comuns parou diante dele, lançou-lhe com toda a força em pleno focinho o pé calçado num coturno, saltou, agarrou a sólida tampa de madeira da selha e arrumou o segundo bandido com essa tampa na cabeça. E assim continuou a golpeá-los à vez com a tampa, até que ela se desfez — mas a tampa tinha uma armação feita de duas barras de ferro cruzadas. Os bandidos começaram a lastimar-se, mas não se podia negar-lhes o sentido de humor nas suas queixas, não perdiam o lado cómico: «Que estás tu a fazer? A bater-nos com a cruz!» «Tu és um homem forte, para que fazes mal às pessoas?» Mas Baraniuk, sabendo o que eles valiam, continuava a dar-lhes, e então um deles pôs-se a gritar pela janela: «Socorro! Os fascistas estão a agredir-nos!»
Vieram então alguns oficiais da prisão para averiguar quem tinha começado e assustar com novos períodos de pena por banditismo. Baraniuk pôs-se vermelho e acusou-se: «Fui eu que bati nesses patifes e hei de bater-lhes enquanto viver!» O compadre da prisão avisou que nós, os contrarrevolucionários, não tínhamos nada de que nos orgulhar e era mais seguro ficarmos calados. Então Volódia Guerchuni, quase um miúdo, preso na décima classe da escola, saltou: «Nós não somos contrarrevolucionários! Isso é coisa do passado. Agora voltamos a ser re-vo-lu-cio-ná-ri-os! Mas contra o poder soviético!»
Ai, que coisa divertida! Vivemos para ver isto! O compadre da prisão limita-se a franzir o cenho, e a engolir tudo. Ninguém foi levado para o calabouço e os oficiais afastam-se sem glória.
Pode-se então viver assim na prisão? Brigar? Refilar? Dizer em voz alta aquilo que pensamos? Quantos anos aguentámos estupidamente! É fácil bater naquele que chora. Nós chorávamos e por isso batiam-nos.
Agora nestes novos campos lendários para onde nos levam, onde se usam números como os nazis, mas onde finalmente haverá só presos políticos, limpos da baba dos de direito comum, talvez comece essa vida?
* * *
A prisão de Omsk, e depois a de Pavlodar, receberam-nos porque nestas cidades — falha importante! — até essa altura não havia ainda prisões de trânsito especializadas. Em Pavlodar — oh, vergonha! — nem sequer havia carro celular, e da estação ferroviária até à prisão fomos conduzidos em coluna, atravessando muitos quarteirões da cidade, sem se incomodarem com a população. Nos quarteirões que percorremos ainda não havia nem pavimentos nem água corrente, as casinhas de um só piso estavam inundadas de areia cinzenta. A cidade propriamente dita começava com o edifício de pedra branca, de dois pisos, da prisão.
Mas pelos padrões do século XX, esta prisão não inspirava horror, mas tranquilidade, não o medo, mas o riso. As janelas das celas do segundo piso eram fechadas por grades pouco densas, sem pala, podia-se subir ao parapeito e estudar o local. Mais adiante, do outro lado do muro, via-se a rua, onde havia um quiosque de venda de cerveja; todas as pessoas que ali passam ou estão paradas, ou trouxeram encomendas à prisão, ou esperam a devolução dos recipientes em que as trouxeram. E ainda mais longe, estendem-se bairros e bairros de casinhas de um só piso, e uma curva do rio Irtich, e mesmo as lonjuras para lá do rio.
Uma rapariga muito viva, a quem acabaram de devolver na casa da guarda um cesto vazio em que ela trouxera uma encomenda, ergueu a cabeça, viu-nos à janelinha a agitar as mãos a saudá-la, mas fingiu não ver. Em passo decente, ocultou-se atrás do quiosque-cervejaria para que não a vissem da casa da guarda, e ali toda se transformou de repente. Pousando o cesto, agita e volta a agitar os dois braços levantados, sorri! Depois, descrevendo rápidos círculos com o dedo, mostra: «escrevam, escrevam bilhetes!», e num arco de voo: «atirem-nos, atirem-nos para mim!», e em direção à cidade: «levo, transmito!» E estendeu os dois braços: «que mais posso fazer? Como ajudar? Amigos!»
Isto era tão sincero, tão natural, tão diferente da nossa liberdade amordaçada, dos nossos cidadãos enredados! — o que é que se passa? Chegaram esses tempos? Ou no Cazaquistão é assim? Afinal, metade dos habitantes aqui são desterrados…
Rapariga amável e corajosa! Como aprendeste depressa, como assimilaste bem a vida perto de uma prisão! Que felicidade (mas não são lágrimas o que sinto ao canto do olho?) que ainda existam pessoas como tu!… Aceita a nossa saudação (reverência), jovem anónima! Ah, se todo o nosso povo fosse assim! — ninguém o prenderia, emperraria as malditas rodas dentadas!
* * *
Levavam-nos para o deserto. Até a despretensiosa e rústica Pavlodar em breve seria por nós recordada como uma cintilante capital.
Agora fomos recebidos pela escolta do Campo da Estepe. Enviaram a buscar-nos uns camiões com os taipais elevados e grades na parte dianteira da carroçaria. Que protegiam os soldados de metralhadora de nós, como de animais selvagens. Fizeram-nos sentar muito juntos nas tábuas da carroçaria, com as pernas encolhidas, as caras voltadas para a traseira, e assim nos conduziram aos saltos e solavancos durante oito horas. Os soldados de metralhadora, sentados no tejadilho da cabine, com os canos das armas apontados às nossas costas durante todo o trajeto.
Nas cabines dos camiões iam tenentes, sargentos e, na nossa cabine, a mulher de um oficial com uma menina de seis anos. Nas paragens, a menina saltava para o chão, corria sobre as ervas dos prados, colhia flores, gritava alto para a mãe. Não a impressionavam nada nem as metralhadoras, nem os cães, nem as cabeças feias dos detidos que sobressaíam dos taipais das carroçarias, o nosso mundo horrível não ensombrecia em nada nem os prados nem as flores, nem sequer por curiosidade olhou para nós uma única vez.
Atravessámos o Irtich. Viajámos durante muito tempo através de prados inundáveis, depois por uma estepe plana. O hálito do Irtich, o vento fresco da estepe, o cheiro do absinto envolviam-nos por momentos durante as paragens, quando assentavam os turbilhões de poeira cinzento-clara levantada pelas rodas. Densamente cobertos daquele pó, nós olhávamos para trás, calados, e pensávamos no campo para onde íamos, com o complicado nome não russo de Ekibastuz. Ninguém conseguia imaginar em que ponto do mapa ele ficava, pensávamos até que fosse algures perto da fronteiro da China. O capitão Burkovski (um novato de 25 anos, ainda olhava para todos com um ar bravio, era comunista e foi preso por engano, e à sua volta era tudo inimigos do povo; a mim considerava-me apenas por ser um ex-oficial soviético e não ter sido prisioneiro de guerra) lembrava-me uma coisa esquecida desde a universidade: na véspera do equinócio do outono traçámos na terra a linha do meio-dia, e em 23 de setembro subtraímos noventa à altura da culminação do sol — o que nos dá a nossa latitude geográfica. É em todo o caso uma consolação, mesmo que não se conheça a longitude.
Continuamos a rolar, a rolar. Escureceu. Pelo céu escuro densamente estrelado era agora evidente que nos conduziam para su-sudoeste.
À luz dos faróis dos veículos de trás surgia uma estranha miragem: todo o mundo era negro, todo o mundo oscilava, e só os farrapos de nuvens de poeira eram iluminados, giravam e traçavam os sinistros quadros do futuro.
Para que fim de mundo? Para que buraco nos levavam, onde devíamos fazer a nossa revolução?
As nossas pernas dobradas ficaram tão entorpecidas que pareciam já não ser nossas. Só perto da meia-noite chegámos a um campo, rodeado de alto arame farpado, no meio da estepe negra e perto de uma aldeia negra adormecida, iluminado, pela viva luz elétrica da casa da guarda e do perímetro da zona.
Uma vez mais recorro ao processo — «… março de mil novecentos e setenta e cinco!» — para este restante quarto de século faziam-nos entrar por um portão duplo e muito alto.
O campo dormia, mas todas as janelas de todos os barracões estavam vivamente iluminadas, como se ali a vida fervilhasse. Luz à noite, significa regime de prisão. As portas dos barracões estavam fechadas por fora com pesados cadeados. Nos retângulos iluminados negrejavam as grades. O sujeito que saiu a receber-nos vinha coberto de retalhos com números?
Leste nos jornais que nos campos dos fascistas as pessoas andam com números?
Mas a nossa fogosidade, as nossas esperanças antecipadoras depressa foram esmagadas. A aragem das mudanças soprava apenas em correntes de ar, nas prisões de trânsito. Aqui, atrás das altas vedações dos campos especiais, ela não soprava.
Diz-se que no Minlag os ferreiros se recusaram a forjar as grades para as janelas das barracas. Glória lhes seja, a esses desconhecidos! Esses eram homens. Encerraram-nos no BUR. As grades para o Minlag foram forjadas em Kotlas. E ninguém apoiou os ferreiros.
Os campos especiais começaram com essa mesma submissão silenciosa e até subserviente causada por três décadas de estabelecimentos de trabalho correcional.
Os que eram trazidos do Norte polar não tinham tempo para usufruir do sol do Cazaquistão. Na estação de Novorúdnoie, saltaram dos seus vagões vermelhos para o chão avermelhado. Era o célebre cobre de Djezkazgan, a cuja extração não havia pulmões que resistissem mais de quatro meses. Ali mesmo os alegres guardas aplicaram nos primeiros detidos culpados de infração a sua nova arma: as algemas, que não se usavam nos ITL — umas algemas niqueladas, cintilantes, cuja produção em massa foi iniciada na União Soviética no trigésimo aniversário da Revolução de Outubro. Estas algemas tinham a notável particularidade de poderem fechar-se até ficarem muito apertadas. Desse modo, as algemas, com um dispositivo de segurança que tolhia os movimentos, transformavam-se em instrumentos de tortura: apertavam as mãos, causando uma intensa dor nos ossos e ficavam assim durante horas, ainda por cima com as mãos atrás das costas.
No Berlag eram utilizadas com afinco: por qualquer ninharia, por não tirar o gorro diante de um guarda, punham-nos as algemas (com as mãos atrás das costas) e colocavam-nos junto à casa da guarda. As mãos inchavam, entorpeciam, e homens adultos choravam: «cidadão chefe, não volto a fazer! — Tire-me as algemas!»
Naturalmente, reforçaram as medidas de vigilância. Em todos os Campos especiais foram acrescentados novos reforços aos muros da zona, estenderam-se novas linhas de arame farpado na ante-zona. Nos trajetos seguidos pelas colunas de trabalhadores, em todos os cruzamentos importantes e em todas as curvas instalavam-se previamente metralhadoras com soldados deitados atrás delas.
Em cada campo havia uma prisão de alvenaria — o BUR (continuarei a chamar-lhe BUR como nós dizíamos por hábito dos ITL, embora aqui isso não fosse inteiramente exato — tratava-se mais precisamente de uma prisão do campo).
Aos presos do BUR tiravam-lhes à força o casaco acolchoado: a tortura pelo frio era uma importante particularidade do BUR.
Depois adotaram abertamente a valiosa experiência dos hitlerianos: substituir o nome do presidiário por um número.
Davam ao presidiário quatro (em alguns campos, três) panos brancos de oito por quinze centímetros. O preso devia coser esses trapos em lugares que diferiam de uns campos para outros, mas em geral nas costas, no peito, no gorro por cima da testa, e ainda numa perna ou num braço.
Os trabalhos para os Campos especiais eram escolhidos entre os mais penosos da região circundante. As primeiras secções do Steplag, aquelas com que ele começou, estavam todas na extração do cobre (a 1.a e a 2.a secções para Rudnik, a 3.a para Kenguir, a 4.a para Djezkazgan). A perfuração era feita a seco, a poeira do terreno morto provocava rapidamente a silicose e a tuberculose. Os presidiários doentes eram enviados para morrer ao célebre Spassk (perto de Karagandá) — «asilo de inválidos de toda a União».
Poder-se-ia falar de Spassk com mais pormenor.
Para o Spassk mandavam-se os inválidos — os inválidos acabados, aqueles que não eram aceites no trabalho dos campos. Mas, coisa espantosa! — depois de entrarem na zona terapêutica do Spassk, os inválidos transformavam-se de repente em trabalhadores totalmente aptos. Para o coronel Tchetchev, chefe de todo o Steplag, o setor do Spassk era um dos preferidos. Vindo de avião de Karagandá para aqui, este homem atarracado e mau percorria toda a zona e procurava quem não estivesse ainda a trabalhar. Gostava de dizer: «Em todo o Spassk, só tenho um inválido, a quem faltam as duas pernas. Mas também ele trabalha, num trabalho fácil.» Os que tinham uma perna eram todos utilizados em trabalhos sentados: a britar pedra, a selecionar a brita. Foi Tchetchev que teve a ideia de colocar quatro manetas à padiola (dois com o braço direito e dois com o braço esquerdo). Foi também ele que se lembrou de fazer funcionar à mão os tornos das oficinas de mecânica quando faltava a energia elétrica. Tchetchev adorava ter o «seu professor», e autorizou o bioquímico Tchijevski a construir em Spassk um «laboratório» (com as mesas nuas). Mas quando Tchijevski, com os últimos materiais de refugo, elaborou uma máscara contra a silicose para os trabalhadores de Djezkazgan, Tchetchev não admitiu que a produzissem. Trabalhem sem máscaras e nada de finezas. Tinha de haver renovação do contingente.
No final de 1948 havia cerca de quinze mil presidiários de ambos os sexos. Seis mil pessoas iam trabalhar num dique a doze quilómetros de distância. Como em todo o caso eram inválidos, o trajeto demorava duas horas, e mais outras duas horas no regresso. A isto é preciso acrescentar uma jornada de trabalho de onze horas. (Eram raros os que aguentavam dois meses neste trabalho.)
Aos inválidos que não trabalhavam distribuíam-se 550 gramas de pão, e aos que trabalhavam 650 gramas.
Spassk não conhecia medicamentos (aonde ir buscá-los para uma tão grande chusma de gente?) nem roupa de cama.
Havia ainda outro trabalho: todos os dias saíam entre cento e dez e cento e vinte homens para ir abrir sepulturas. Dois Studebakers transportavam os cadáveres em grandes gaiolas, de onde saíam os braços e as pernas. Mesmo durante os meses favoráveis de 1949, morriam sessenta a setenta pessoas por dia, e no Inverno, até cem.
(Noutros Campos especiais a mortalidade não era tão grande e alimentavam melhor os presos, mas o trabalho também era mais pesado, porque não eram inválidos — o leitor deduzirá por si mesmo.)
Tudo isto aconteceu em 1949 — trinta e um anos depois da Revolução de Outubro, quatro anos depois de ter terminado a guerra e das suas cruéis exigências, três anos depois do fim do processo de Nuremberga e de toda a humanidade ter ficado a conhecer os horrores dos campos de concentração fascistas e ter respirado com alívio: «isto não se repetirá!»…
* * *
A todo este regime é preciso acrescentar que com a transferência para um Campo especial, acabava quase por completo a ligação com o exterior, com a tua mulher, que esperava por ti e pelas tuas cartas, com os filhos, para os quais te transformavas num mito. (Duas cartas por ano, onde colocavas o melhor e o mais importante acumulado durante meses — mas nem essas eram enviadas. Quem se atreve a controlar as censoras, colaboradoras do MGB? Muitas vezes elas aliviavam o seu trabalho, queimando as cartas para não terem de as censurar. E se a tua carta não chegava ao destino, era sempre possível culpar os correios. Em Spassk chamaram um dia alguns presidiários para reparar o fogão da censura e encontraram dentro dele centenas de cartas que ainda não tinham sido queimadas — as censoras do MGB esqueceram-se de as queimar. Essas censoras que, para sua comodidade, queimavam a alma dos presos, seriam mais humanas do que aqueles SS que colecionavam a pele e os cabelos dos que eram mortos?) E sobre visitas das famílias aos Campos especiais, nem uma palavra — o endereço do campo era codificado e ninguém estava autorizado a visitá-los.
Podemos acrescentar a isto que a questão de Hemingway, ter ou não ter, quase não existia nos Campos especiais, tendo sido resolvida desde o dia da criação deles a favor do não ter. Não ter dinheiro e não receber salário (nos ITL ainda se podia ganhar alguns trocos, aqui, nem um copeque.) Não ter calçado nem roupas para mudar, nada de roupa interior para se manter quente e seco. A roupa interior (e que roupa interior! — os pobres de Hemingway dificilmente aceitariam vesti-la) mudava-se duas vezes por mês, o vestuário e o calçado duas vezes por ano: uma clareza cristalina.
A escolta era uma força mais que esmagava o pobre pardalito da nossa vida. Aqueles soldados regulares de «dragonas vermelhas», aqueles rapazinhos de pistola-metralhadora eram uma força obscura, que não raciocinava, que não sabia nada de nós, que nunca aceitava explicações. Nada podia passar de nós para eles, deles para nós eram os gritos, os ladridos de cães, os estalidos das culatras e das balas. E eram sempre eles que tinham razão, e não nós.
Nos primeiros dois anos dos Campos especiais éramos uns pobres escravos esmagados — período bastante relatado em Ivan Deníssovitch. [75]
Como aconteceu isso? Porque é que esses milhares de cabeças de gado do artigo Cinquenta e Oito — porque afinal eram presos políticos, com os diabos! Agora separados, isolados, reunidos — presos políticos, afinal! — por que se comportavam de maneira tão dócil, como uns zeros?
Esses campos não poderiam ter começado de outro modo. Os oprimidos e os opressores dos campos ITL, tanto uns como os outros tinham atrás de si uma tradição de dezenas de anos de trabalho escravo. Para o novo lugar trouxeram consigo a generalizada convicção de que no mundo dos campos o homem é para o homem um rato e um canibal, e que não pode ser de outro modo.
E não se previa nenhuma aberta.
Nós, os vinte e cinco recém-chegados, juntámo-nos numa brigada e conseguimos chegar a acordo com os distribuidores de trabalho para que o chefe da brigada fosse um de nós — aquele mesmo Pável Baraniuk. Surgiram entre nós os mestres pedreiros, e os outros começaram a aprender o ofício, de modo que formámos uma brigada de pedreiros. O assentamento era bom.
Mostraram ao chefe de brigada um monte de pedras próximo do BUR e explicaram que aquele BUR que ali estava era apenas meio BUR, que agora era necessário construir um segundo BUR igual àquele e que seria a nossa brigada a fazê-lo.
Foi assim que, para nossa vergonha, começámos a construir a nossa prisão.
Estávamos num Outono longo e seco — em todo o mês de setembro e metade de outubro não caiu um pingo de chuva. De manhã o tempo estava calmo, depois levantava-se um vento que se intensificava por volta do meio-dia e ao entardecer voltava a acalmar. Por vezes esse vento era constante — soprava fino, penetrante e fazia-nos sentir de um modo especial aquela estepe contínua e opressiva que se nos abria logo desde as matas do BUR — nem o povoado com os primeiros edifícios de fábricas, nem a aldeia militar da escolta, e menos ainda a nossa zona apenas cercada de arame farpado ocultavam de nós a vastidão, a infinidade, a total uniformidade e desesperação daquela estepe.
Por vezes o vento tornava-se brusco, numa hora soprava o frio da Sibéria, obrigava-nos a vestir os casacos acolchoados e continuava a atingir-nos nas caras com a areia grossa e os pequenos calhaus que recolhia na estepe. O mais simples é reproduzir os versos que compus durante esses dias na construção do BUR.
O pedreiro
Eis-me pedreiro. Como diz o poeta
De pedra bruta ergo uma prisão
Mas em redor não há cidade: é a Zona cercada.
No céu límpido um milhafre plana e espreita.
Vento na estepe… E não passa ninguém,
Para perguntar: constróis, para quem?
Vigiam-nos com arame farpado, cães, metralhadoras —
É pouco! Precisam de outra prisão dentro da prisão…
De colher na mão, trabalho com moderação,
E o trabalho arrasta-se por si mesmo.
Veio o major: parede mal aparelhada!
Seremos os primeiros presos — prometeu.
Se fosse só isso! Digo uma palavra livre
E no processo prisional alguém por travessura
Disse alguma coisa em denúncia
Ligando-me a mais alguém.
À porfia os martelos quebram e moldam.
Atrás do muro cresce um muro,
Um outro muro para lá dos muros …
Gracejamos depois de fumar
Junto à caixa da argamassa.
Esperamos o pão para o jantar,
Um pouco mais da papa absurda.
E do andaime, por entre as pedras
Os buracos sombrios das celas.
Muda profundeza dos tormentos de alguém…
E todo o fio entre eles — um automóvel
E o zumbido dos fios dos postes recentes.
Meu Deus! Como somos impotentes!
Meu Deus! Que escravos somos!
Muitos de nós teriam de passar ainda algum tempo naquele BUR, naquelas mesmas celas, que estávamos a construir com tanto esmero e solidez. E durante as horas de trabalho, quando andávamos numa roda-viva com a argamassa e as pedras, soaram de repente dois tiros na estepe. E em breve chegou à casa da guarda, perto de nós, uma carrinha celular da qual saíram quatro homens, espancados, ensanguentados; dois deles iam aos tropeções, outro era arrastado; só o primeiro, Ivan Vorobiov, caminhava com orgulho e raiva.
E assim levaram os fugitivos por baixo dos nossos pés, debaixo dos nossos andaimes e conduziram-nos à ala já construída do BUR.
E nós acrescentávamos pedras…
Uma fuga! Que ousadia desesperada! Sem roupa civil, sem comida, de mãos vazias, atravessar a zona sob as balas e correr, pela estepe nua, infindável, sem água! Isto nem é sequer um projeto, é um desafio, um meio orgulhoso de suicídio. E este é o tipo de resistência de que só os mais fortes de nós são capazes.
E nós… assentamos pedras.
E discutimos. Esta é já a segunda evasão num mês. A primeira também fracassou.
As brigadas entram na zona e contam como fugiu o grupo de Vorobiov: derrubou a cerca com um camião.
Passou mais uma semana. Tempo bastante para que os quatro mil ekibastuzianos se convençam de que a fuga é uma loucura, que não dará em nada. E num outro dia igualmente ensolarado, de novo se ouvem disparos na estepe — uma fuga! Mas isto parece uma epidemia: de novo aparece a carrinha celular da escolta — e conduzem dois homens (um terceiro foi morto no local). Estes dois, Batánov e um jovem pequeno, ensanguentados, são conduzidos ao nosso lado, por baixo dos nossos andaimes, para a ala já terminada, onde os espancarão ainda mais, atirando-os nus ao chão de pedra, sem água nem comida. O que é que tu sentes, escravo, ao olhar para aqueles dois, retalhados e orgulhosos?
Nós assentamos pedras. Quem acarta a argamassa é o capitão Burkovski. Tudo o que se constrói é para bem da Pátria.
Ainda nem tinham passado cinco dias e ninguém ouviu nenhum disparo — mas parecia que o céu era todo metálico e que nele batiam com uma enorme barra — que novidade: uma fuga! Uma nova fuga! E agora bem-sucedida!
A fuga de 17 de setembro foi organizada com tanta limpeza que o controlo da noite e as contas dos vigilantes batem certo. Só na manhã do dia 18 qualquer coisa começa a falhar — é anulada a saída para o trabalho e organizam uma chamada geral. Várias contagens em formatura, depois verificações por barracas, depois verificações por brigadas, depois chamada nominal pelas fichas — porque os cães de guarda não sabem contar a não ser o dinheiro recebido na caixa. De cada vez era diferente! Ainda hoje não sabem quantos fugiram, nem quem precisamente, nem quando, nem para onde, ou em que meio de transporte.
É já ao fim da tarde de segunda-feira e não nos dão o almoço — mas nós não estamos aborrecidos, estamos até muito contentes! Cada fuga bem sucedida é uma grande alegria para os presidiários. Por mais que a escolta se enfurecesse, depois disso, por mais que o regime endurecesse, para nós é uma festa! Andamos orgulhosos. Somos mais inteligentes do que vocês, senhores cães! Nós evadimo-nos! (E, olhando os chefes nos olhos, todos pensamos em segredo: contanto que não os apanhem! contando que não os apanhem!)
Além disso não nos levaram para o trabalho, e para nós a segunda-feira foi mais um dia de folga. (Ainda bem que os rapazes não arrancaram a um sábado).
Mas quem são eles? Quem são eles?
Na segunda-feira à tarde espalha-se o rumor: são Gueórgui Tenno e Kolka Jdanok.
Nós continuamos a erguer a nossa prisão. Já assentámos os lintéis das portas, já fechámos os arcos das janelas pequenas, já estamos a preparar os nichos para as asnas.
Três dias depois da evasão. Sete dias. Dez. Quinze.
Sem notícias!
Escaparam!
Segundo uma interpretação geralmente aceite dos constitucionalistas democratas (já não digo dos socialistas), toda a história da Rússia é uma sucessão de tiranias. Tirania dos tártaros. Tirania dos príncipes moscovitas. Cinco séculos de despotismo nacional segundo o modelo do oriente, e de escravidão franca e enraizada. (Nem assembleias de zemstvos, nem comunidade rural, nem cossacos livres ou campesinato do norte.) Tanto Ivan, o Terrível, como Aleixo, o Clemente, ou Catarina de Veludo, ou mesmo Alexandre II, até à grande revolução de Fevereiro, todos os czares só souberam fazer uma coisa: esmagar. Esmagar os seus súbditos, como escaravelhos, como vermes. O regime vergava os súbditos, as revoltas e insurreições eram invariavelmente esmagadas.
Mas! Mas! Esmagavam, mas não por completo. Eram esmagados mas não no nosso sentido altamente técnico. Por exemplo, os soldados que se encontravam no quadrado dos dezembristas, foram todos agraciados quatro dias depois (compare-se: em Berlim, em 1953, em Budapeste em 1956, em Novotcherkassk em 1962, soldados nossos foram fuzilados, não por se sublevarem, mas por se recusarem a disparar contra uma multidão desarmada.) E dos oficiais dezembristas insurretos, só cinco foram executados. Entre nós teria algum deles ficado vivo?
E nem Púchkin, nem Lérmontov foram condenados à prisão pela sua literatura atrevida, Tolstoi nem foi incomodado por minar abertamente os fundamentos do Estado. «Onde estavas tu, em Petersburgo, no dia 14 de dezembro?» — perguntou Nicolau I a Púchkin. E Púchkin respondeu com sinceridade: «Na Praça do Senado.» Mas nós sabemos muito bem o que a resposta de Púchkin lhe custaria: artigo 58, parágrafo 2, rebelião armada, no caso mais suave pelo artigo 19 (intenção) — se não o fuzilamento, nunca menos de dez anos. (Mas Gumiliov nem teve de ir até ao campo de detenção, ajustaram-lhe as contas com uma bala tchekista.[76])
A guerra da Crimeia, para a Rússia a mais feliz de todas as guerras, trouxe não só a libertação dos camponeses e as reformas de Alexandre, mas juntamente com elas nasceu na Rússia uma poderosa opinião pública.
Exteriormente, os trabalhos forçados na Sibéria ainda supuravam e até aumentavam, aparentemente criavam-se as prisões de trânsito, as levas de presos marchavam, os tribunais reuniam, mas Vera Zassulitch, que feriu gravemente o chefe da polícia da capital, foi absolvida…[77] Mas nem foi a própria Vera Zassulitch quem comprou o revólver para disparar contra Trepov; compraram-no para ela, depois trocaram-no por um de maior calibre, contra os ursos, e o tribunal nem perguntou: quem foi que comprou? Onde está essa pessoa? Pelas leis russas, um cúmplice como esse não era considerado criminoso. (Pelas leis soviéticas, era pena capital direta.)
Houve sete atentados contra o próprio Alexandre II. E daí? Ele arruinou e desterrou metade de Petersburgo, como aconteceu depois do assassínio de Kírov? Que é isso, nem lhe podia passar pela cabeça. Mandou prender as pessoas duvidosas? Como podia isso ser?!… Executou milhares? Mandou executar cinco pessoas. Durante esse período nem chegaram a condenar trezentas pessoas. (Mas se tivesse havido um atentado desses contra Estaline, quantos milhões de almas nos teria isso custado?)
De ano para ano, a instrução e a literatura livre faziam crescer a opinião pública, invisível mas assustadora para os czares, que não seguravam nem as rédeas, nem as crinas, e Nicolau II teve de se agarrar à garupa e ao rabo. Faltava-lhe coragem para a ação. Nem ele nem os dirigentes por ele escolhidos tinham já firmeza para lutar pelo seu poder. Olhavam para os lados e escutavam: o que diria a opinião pública?
Vejamos ao menos a bem conhecida biografia de Lenine. Na Primavera de 1887, o irmão dele foi executado por ter atentado contra a vida de Alexandre III. E daí? No Outono desse mesmo ano Vladímir Uliánov entra para a universidade imperial de Kazan, e para mais, na faculdade de direito. Isto não é surpreendente?
É certo que logo nesse ano letivo Vladímir Uliánov foi expulso da universidade. Mas expulsaram-no por ter organizado assembleias de estudantes contra o governo. Portanto, o irmão mais novo de um regicida incita os estudantes à insubordinação? O que teria ele apanhado entre nós? Sem dúvida o fuzilamento (e os outros, vinte e cinco e dez anos)! A ele expulsaram-no da universidade. Que crueldade! E ainda o desterraram… para a Sacalina? Não, para a propriedade da família, para onde ele de qualquer maneira vai no Verão. Ele quer trabalhar, autorizam-no… a derrubar árvores na taiga? Não, dedica-se à prática jurídica em Samara, e ao mesmo tempo frequenta círculos ilegais. Depois disso, vai fazer exame como externo na universidade de Petersburgo. (E o que se passa com os questionários? O que faz a Secção Especial?)
E alguns anos mais tarde esse mesmo jovem revolucionário é detido por ter criado na capital a «União de luta pela libertação» — nada menos! E por ter repetidamente proferido para os operários discursos «sediciosos» e redigido panfletos. Torturaram-no, mataram-no à fome? Não, estabeleceram-lhe um regime favorável ao trabalho intelectual. Na prisão de Petersburgo, onde esteve durante um ano e onde lhe levaram dezenas de livros de que precisava, escreveu a maior parte de O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, e além disso enviava — legalmente, através da procuradoria — os «Estudos económicos» para a revista marxista Novoie Slovo (Palavra Nova).
Mas depois, fuzilaram-no por sentença da Troika? Não, nem lhe deram prisão, desterraram-no. Para a Iakútia, por toda a vida? Não, para a abençoada região de Minussinsk, e por três anos. Levaram-no para lá algemado, num vagão celular? Oh, não! Vai como cidadão livre — Lenine nunca experimentou nem escolta, nem prisão de trânsito na viagem até à Sibéria (nem, naturalmente, na viagem de volta). Mas de que meios vivia ele numa aldeia distante, visto que não encontraria trabalho? Pediu para ser sustentado pelo Estado, pagam-lhe até acima das suas necessidades (embora a mãe seja bastante provida e lhe envie tudo o que ele pede). Era impossível arranjar melhores condições do que as que foram dadas a Lenine no seu único desterro. Com comida saudável extraordinariamente barata, abundância de carne (um carneiro para uma semana), leite, legumes, o prazer da caça sem restrições, curou-se dos males do estômago e de outras doenças da sua juventude. Sem quaisquer obrigações, nem serviço, nem deveres, e até a mulher e a sogra não tinham de se esforçar: por dois rublos e meio por mês, uma jovem camponesa de quinze anos fazia todas as tarefas domésticas para a família.
Terminou o período de desterro. Prolongaram-lho automaticamente? Por que o fariam? Isso seria contrário à lei. Autorizaram-no a viver em Pskov. Depois deixam-no em completa liberdade, pode viajar pela Rússia e para o estrangeiro («a polícia não vê inconveniente» em conceder-lhe o passaporte)!
Pode-se assim seguir a fraqueza das perseguições czaristas contra qualquer social-democrata importante (e em especial contra Estaline).
Na verdade, os socialistas-revolucionários eram perseguidos com mais severidade. Mas com mais severidade, como? Pois não havia acusações bastantes de crime contra Guerchuni (detido em 1903) e Gavinkov (em 1906)? Eles dirigiram os assassínios de altas personalidades do império. Mas não foram executados. E mesmo Maria Spiridónova, que abateu à queima-roupa nada menos que um conselheiro de Estado, não se decidiram a executá-la, condenaram-na aos trabalhos forçados. Fosse aqui em 1921 que um liceal de dezassete anos abatesse o repressor da insurreição camponesa de Tambov, quantos milhares de liceais e de intelectuais teriam sido logo fuzilados sem julgamento na vaga «de resposta» do terror vermelho?
A principal particularidade das perseguições (das não perseguições) no tempo dos czares era talvez precisamente: que os parentes dos revolucionários não sofriam em nada. Natália Sedova (mulher de Trotski) regressou sem obstáculos à Rússia em 1907, quando Trotski era um criminoso condenado. A mãe de Lenine e a mãe de Krúpskaia receberam do Estado elevadas pensões vitalícias devido às posições dos maridos, equivalente civil de general e de oficial, e seria difícil imaginar que as maltratassem.
Quando Tukhatchevski foi, como se diz, «reprimido», não só toda a sua família foi dispersada e presa, como prenderam também os dois irmãos dele e respetivas esposas, as suas quatro irmãs e os maridos, e todos os sobrinhos foram dispersos pelos orfanatos e mudaram-lhes os apelidos de Tukhatchevski para Tumachevski, Rostov, etc. A mulher dele foi fuzilada num campo do Cazaquistão, a mãe pedia esmola nas ruas de Astracã e aí morreu[78]. E isto mesmo se pode repetir em relação aos familiares de centenas de outros fuzilados ilustres. É a isto que se chama perseguir.
* * *
E como foram castigados os estudantes, por causa da grande manifestação de 1901 em Petersburgo, recorda Ivanov-Razumnik: na prisão de Petersburgo parecia um piquenique de estudantes: gargalhadas, canções em coro, livre circulação de umas celas para outras. Ivanov-Razumnik teve até o atrevimento de pedir ao diretor da prisão para ir assistir a um espetáculo do Teatro de Arte — o bilhete extraviou-se! E depois condenaram-no ao «desterro» — por escolha dele, para Sinferopol, e, com uma mochila, andou a vaguear por toda a Crimeia.
Por essa época, no bastião Trubetskoi, Gorki escreve os Filhos do Sol.[79]
Foi nessas condições que Tolstoi chegou à convicção de que a liberdade política não seria necessária, e que a única coisa necessária é o aperfeiçoamento moral.
É claro que a liberdade não é necessária para aquele que já a tem. Nisso estamos de acordo: no fim de contas a questão não está na liberdade política, claro! E nem sequer no bem-sucedido regime político da sociedade! Isto é no fim, mas e no princípio? No primeiro passo? Nesse tempo Iássnaia Poliana era um clube de pensamento aberto. Mas se a bloqueassem, como bloquearam o apartamento de Akhmátova, quando pediam a identificação a cada visitante, se a apertassem como nos apertaram a todos nós no tempo de Estaline, quando três pessoas receavam reunir-se debaixo do mesmo teto, também Tolstoi nesse caso pediria a liberdade política.
Na época mais terrível do «terror de Stolipin» o jornal liberal Russ publicava na primeira página em letras grandes: «Cinco execuções!… Vinte execuções em Kherson!» Tolstoi soluçava, dizia que já não se conseguia viver, que não é possível imaginar nada mais horrível.
«Nada mais horrível» — exclamava Tolstoi? Como é fácil imaginar algo mais horrível. Mais horrível é quando as execuções não acontecem de tempos a tempos numa qualquer cidade que toda a gente conhece, mas por toda a parte e todos os dias, e não às vinte, mas às duzentas de cada vez, quando nos jornais não se escreve nada sobre isso nem em letras grandes, nem pequenas, mas se escreve que «se passou a viver melhor, que se vive com mais alegria».
Partiram-te a cara e dizem-te que já eras assim.
Não, não era assim! Não era nada assim, embora o Estado já então fosse considerado o mais opressor da Europa.
A opinião pública russa no início do século XX apresentava já um ar de liberdade. O czarismo foi derrotado não quando em Petersburgo se desencadeou a revolução de Fevereiro, mas muito antes. Ele foi derrotado de maneira irrevogável quando na literatura russa se estabeleceu que apresentar uma personagem de gendarme ou de polícia urbano nem que fosse com a mais ínfima parcela de simpatia, era como uma adulação das Centúrias Negras. Quando não só apertar a mão, não só conhecê-los, não só acenar-lhes com a cabeça na rua, mas até roçar-lhes na manga ao cruzar-se com eles no passeio já parecia uma vergonha.
A opinião pública. Não sei como a definem os sociólogos, mas para mim é evidente que ela só se pode formar pela recíproca influência das opiniões individuais, expressa de maneira livre e totalmente independente da opinião do governo, ou do partido, ou da voz da imprensa.
E enquanto no país não houver independência da opinião pública, não há qualquer garantia de que o extermínio sem motivo de muitos milhões de pessoas não voltará a repetir-se, de que ele não começará numa qualquer noite, todas as noites, nesta mesma noite, que se seguirá ao dia de hoje.
* * *
É a esta resposta que eu chego. Nós suportámos tudo nos campos prisionais porque não havia opinião pública no país.
Pois quais são de uma maneira geral para o presidiário os meios de resistência ao regime a que o submeteram? Estes, evidentemente:
1. O protesto.
2. A greve de fome.
3. A fuga.
4. A revolta.
De modo que, como o Defunto gostava de dizer, «é claro para toda a gente» que os dois primeiros meios só têm força (e os carcereiros receiam-nos) devido à opinião pública. Sem esta, eles riem-se na nossa cara em resposta aos nossos protestos e greves de fome.
Isto é muito eficaz: rasgar a camisa no corpo diante da direção da prisão, como Dzerjinski, e desse modo conseguir as suas reivindicações. Mas só no caso de haver uma opinião pública. Sem ela, levas uma mordaça na boca e ainda terás de pagar a camisa ao Estado.
Quanto à inutilidade das nossas greves de fome, foi suficientemente demonstrada na Primeira Parte.
E as fugas? Neste momento não me é possível reunir dados sobre a maneira como eram guardados os lugares importantes dos trabalhos forçados czaristas — mas nunca ouvi falar de fugas tão desesperadas, com uma hipótese contra cem mil, como as que aconteceram nos nossos campos. E quanto ao desterro czarista, parece que só os preguiçosos não fugiam dele. O fugitivo não corria o risco de ser morto na captura, nem espancado, nem de apanhar mais vinte anos de trabalhos forçados, como acontecia connosco. O recapturado era habitualmente reconduzido ao anterior lugar de detenção com a condenação anterior. E pronto. Era um jogo sem risco.
As nossas fugas, a começar nas ilhas Solovki numa frágil lancha pelo mar ou num porão entre madeiros, e a terminar nos arrancos suicidas, insensatos, desesperados dos campos estalinistas dos últimos tempos (mais adiante são-lhes dedicados alguns capítulos), as nossas fugas eram empreendimentos sem esperança. Nunca nas fugas de antes da revolução se empenhou tanta audácia, tanta imaginação, tanta força de vontade — mas essas fugas eram fáceis de conseguir e as nossas quase nunca resultavam.
Não se conseguiam porque o sucesso de uma fuga nas últimas etapas depende do estado de espírito da população. E a nossa população tinha medo de ajudar ou até vendia os fugitivos — por interesse ou por ideologia. Pela boca de Estaline, o país foi incitado a renunciar à benignidade de uma vez para sempre! Mas o dicionário de Dal define «benignidade» como a «bondade de alma, capacidade de amar, misericórdia, inclinação para o bem de todos». Foi a isso que os bolcheviques nos chamaram a renunciar, e nós renunciámos a toda a pressa — à inclinação para o bem de todos! Cada um de nós passou a cuidar apenas da sua própria gamela.
Quanto às revoltas dos presidiários, revoltas de três mil, de cinco mil, de oito mil homens, a história das nossas revoluções não as conheceu.
Mas nós conhecemo-las.
Contudo, devido à mesma maldição, os maiores esforços e os maiores sacrifícios levaram-nos aos resultados mais insignificantes.
Porque a sociedade não estava preparada. Porque sem opinião pública, uma revolta, mesmo num campo imenso, não tem qualquer via de desenvolvimento.
Portanto, à pergunta: «Porque é que suportávamos»?» — é tempo de responder: nós não suportávamos! Vocês lerão que não suportávamos nada.
Nos Campos especiais erguemos a bandeira de presos políticos e tornámo-nos políticos.
No início do meu trajeto pelos campos, queria muito escapar aos trabalhos gerais, mas não sabia como. Ao chegar a Ekibastuz, depois de cinco anos de prisão, pelo contrário, propus-me desde logo limpar o espírito de várias conjeturas, ligações e combinações do campo, que o impediam de se ocupar de algo mais profundo. E aqui, nos trabalhos forçados, decidi arranjar uma especialidade manual. Na brigada de Baraniuk surgiu-me a especialidade de pedreiro. E numa viragem do destino, fui também fundidor durante algum tempo.
A princípio houve um certo acanhamento e algumas hesitações: estarei certo? Aguentarei? Mas precisamente a partir do dia em que desci conscientemente ao fundo e o senti debaixo dos pés, sólido — o fundo comum, firme, duro como sílex — começaram os anos mais importantes da minha vida, que me deram os traços do meu caráter. Sejam quais forem os altos e os baixos da minha vida, sou fiel às concepções e aos hábitos que ali adquiri.
Necessitava da cabeça limpa de todos os sedimentos porque havia já dois anos que andava a escrever um poema. Um poema que muito me recompensava, ajudando-me a não reparar naquilo que faziam do meu corpo. Por vezes, na coluna cabisbaixa, sob os gritos dos rapazes de pistola-metralhadora, experimentava um afluxo tão grande de versos e de imagens, que era como se fosse transportado pelo ar, acima da coluna — mais depressa para lá, para a obra, para escrever num qualquer canto. Nesses momentos sentia-me livre e feliz.
Mas como escrever acerca de um Campo especial? A memória é o único painel em que se pode conservar o que se escreveu, onde se pode carregá-lo através das buscas e das transferências. A princípio não tinha muita confiança nas possibilidades da minha memória e por isso decidi escrever em versos. Isso era, é claro, uma violência sobre o género. Mais tarde descobri que também a prosa se acomoda nas profundezas daquilo que nós trazemos na mente. Liberta do peso de conhecimentos agitados e inúteis, a memória do presidiário tem uma capacidade impressionante e pode sempre dilatar-se. Nós confiamos pouco na nossa memória!
Eu memorizava especialmente cada quinquagésima e cada centésima linha — como controlo. Uma vez por mês repetia tudo aquilo que tinha escrito. Se ao fazê-lo, no quinquagésimo ou no centésimo lugar não era essa linha que saía, repetia uma e outra vez, até apanhar as fugitivas que me haviam escapado.
Mas antes de memorizar alguma coisa, queremos escrever num papel e retocar. Decidi escrever em pequenos fragmentos de doze a vinte linhas e, depois de os retocar, memorizá-los e queimá-los. Decidi com firmeza não confiar num simples pedaço de papel. E não podia demorar com os fragmentos por queimar. Por três vezes fui seriamente apanhado com eles, e o que me salvou foi que eu nunca escrevia no papel as palavras mais perigosas, substituindo-as por traços.
Uma dessas vezes faltei ao meu hábito, escrevi no trabalho sessenta linhas de uma peça (O Banquete dos vencedores), e ao entrar no campo não consegui dissimular a folha. É verdade que também ali havia traços a substituir muitas palavras. O vigilante, um rapaz simplório com um grande nariz, contemplou surpreendido a sua presa:
— Uma carta? — perguntou.
(Uma carta levada para a obra só podia significar calabouço. Mas aquela «carta» seria estranha, se fosse levada ao operacional!)
— Isto é para um espetáculo de amadores — disse eu com descaro. — Estou a tentar recordar uma peça de teatro. Quando for representada, pode ir ver.
O rapaz ficou a olhar, ora para o papel, ora para mim, e disse:
— Um tipo saudável, mas que parvo!
E rasgou a minha folha em duas, em quatro, em oito. Receei que a atirasse para o chão — porque os fragmentos ainda eram grandes, e ali diante da casa da guarda podiam cair nas mãos de algum chefe mais atento; e ali estava, a alguns passos de nós, o próprio chefe do regime penitenciário, a vigiar o decorrer da revista. Mas o vigilante colocou os papéis rasgados na minha mão, como se fosse no caixote do lixo. Entrei e apressei-me a atirá-los para o fogão.
De outra vez, quando trabalhava na construção do BUR, escrevi O Pedreiro. Durante esse período não saíamos da zona, e portanto não nos faziam as revistas pessoais diárias. O Pedreiro estava já no terceiro dia e eu, pouco antes da formatura, saí para o repetir uma última vez e queimá-lo a seguir. Procurava o sossego e a solidão, portanto mais perto do limite da zona, sem pensar que estava próximo do local onde pouco tempo antes Tenno tinha passado por baixo do arame farpado. E pelos vistos um vigilante estava ali emboscado, agarrou-me logo pelo colarinho e levou-me para o BUR. Aproveitando a escuridão, amachuquei cuidadosamente o meu Pedreiro e atirei-o ao acaso para trás das costas. Levantou-se um vento ligeiro e o vigilante não ouviu amarrotar o papel. No BUR revistaram-me e retiraram-me uma arma — metade de uma lâmina de barbear, e eu ainda teria ido logo a correr à procura do Pedreiro. Mas entretanto já tinha decorrido a revista e não se podia andar pela zona — o vigilante levou-me para a barraca, onde me fechou.
Nessa noite dormi mal. Lá fora desencadeou-se um vento de tempestade. Para onde podia ter sido levada agora a bola de papel do meu Pedreiro? Apesar de todas as palavras substituídas por traços, o sentido das palavras era claro. E pelo texto era evidente que o autor trabalhava na brigada que construía o BUR.
E assim toda a minha escrita de muitos anos — o que já estava escrito e mais ainda o que estava imaginado — agitava-se algures pela zona ou pela estepe, numa impotente bola de papel. E eu rezava. Quando estamos mal, não temos vergonha de Deus. Temos vergonha dele quando estamos bem.
Ao levantar-me, às cinco horas da manhã, sufocando por causa do vento, dirigi-me àquele lugar. Até as pedrinhas pequeninas eram arremessadas à cara pelo vento. Era inútil procurar! Daquele lugar o vento soprava para o lado da barraca do comando, depois para a barraca disciplinar (onde passam muitas vezes os vigilantes e há muito arame farpado entrelaçado), depois para fora da zona — para a rua da povoação. Durante uma hora, até amanhecer, vagueei, dobrado ao meio, tudo em vão. E já perdia a esperança. Mas quando clareou, a bolinha branquejou a três passos do local para onde eu a tinha atirado! — O vento arrastou-a para o lado e ficou entalada entre duas tábuas caídas no chão.
Ainda hoje considero isso um milagre.
Era assim que eu escrevia. No Inverno na casa da caldeira, na Primavera e no Verão nos andaimes, em cima da própria alvenaria: nos intervalos entre duas padiolas de argamassa, pousava o papel em cima de um tijolo e com um coto de lápis (às escondidas dos vizinhos) escrevia as linhas que me ocorriam enquanto gastava o conteúdo das padiolas anteriores. Vivia como que num sonho, no refeitório estava sentado diante da papa aguada e nem sempre sentia o sabor dela, não ouvia os que estavam à minha volta — sempre a remexer nos meus versos e a ajustá-los, como os tijolos na parede. Revistavam-me, controlavam-me, faziam-me marchar em coluna pela estepe, mas eu via uma cena da minha peça, a cor dos cortinados, a disposição dos móveis, as manchas luminosas dos projetores, cada deslocação de um ator.
Os rapazes rompiam o arame farpado com um carro, deslizavam por baixo do arame farpado, durante uma nevasca atravessavam-no sobre os montes de neve — mas para mim o arame farpado era como se não existisse, passava o tempo na minha longa e distante evasão, que os vigilantes não podiam descobrir pela contagem das cabeças.
Compreendia que não era eu o único desse génerto, que abordava um grande Segredo, um segredo que amadurecia oculto em outras caixas torácicas igualmente solitárias nas ilhas dispersas do Arquipélago, para quaisquer anos futuros, talvez depois da nossa morte, ser revelado e fundir-se na literatura russa futura.
Em 1956 li, em samizdat, que já então existia, a primeira coletânea de versos de Varlam Chalamov e estremeci, como quem encontra um irmão.
Isto não é um jogo, bem sei,
É a morte. Mas por amor à vida,
Como Arquimedes, a pena não largarei,
Nem amachucarei a folha preenchida.
Ele também escrevia no campo! — escondendo-se de todos, com o mesmo grito solitário, sem resposta, para a escuridão:
Só as sepulturas alinhadas —
São a minha recordação —
Onde também eu me deitaria
Não fora a promessa
De cantar, de chorar até ao fim
Seja qual for o preço,
Como se na vida de um defunto
Houvesse também um começo…
Quantos como nós havia no Arquipélago? Creio que eram muitos mais do que aqueles que conseguiram emergir nestes anos intermédios. Nem todos conseguiram sobreviver, pelo que tudo se perdeu na sua memória. Houve quem escrevesse e escondesse no chão uma garrafa com o papel, mas não indicou o lugar a ninguém. Houve quem desse a guardar, mas em mãos negligentes ou, pelo contrário, demasiado prudentes.
* * *
No campo não é como em liberdade. Em liberdade cada qual procura expressar-se e realçar-se exteriormente. Mais facilmente se vê o que cada um pretende. Na prisão, pelo contrário, são todos despersonalizados — o mesmo corte de cabelo, as mesmas caras não barbeadas, os mesmos gorros, os mesmos gabões. A expressão espiritual é deformada pelos ventos, pelo sol, pela sujidade, pelo trabalho duro. Para distinguir a luz da alma através do aspeto exterior despersonalizado, humilhado, é necessário adquirir experiência.
Mas as luzinhas do espírito movimentam-se sem que nós queiramos, abrem caminho umas para as outras. Involuntariamente, os semelhantes conhecem-se e encontram-se.
A maneira mais rápida e melhor de conhecer um homem é descobrir ao menos um fragmento da sua biografia. Trabalham ali uns cabouqueiros lado a lado. Começou a cair uma neve grossa e macia. Talvez porque daqui a pouco é o intervalo, toda a brigada se recolheu no abrigo de terra. Mas um deles manteve-se ali em pé. Num extremo da trincheira, apoiou-se na pá e está completamente imóvel, como se lhe fosse cómodo estar assim, feito uma estátua. E, como uma estátua, a neve cobre-lhe a cabeça, os ombros, os braços. Através do fervilhar dos cristais de neve ele olha para a zona, para a estepe branca. É largo de ossos, largo de ombros, tem o rosto largo eriçado por uma barba clara e cerdosa. Ficou em pé, a olhar para o mundo e a pensar. Não está aqui.
Não o conheço pessoalmente, mas o seu amigo Redkin falou-me dele. Aquele homem é um tolstoiano. Cresceu na ideia atrasada de que não se deve matar e por isso não se deve pegar em armas. Em 1941 mobilizaram-no. Abandonou a arma, e nas proximidades de Kuchka, para onde tinha sido enviado, atravessou a fronteira afegã. Ali não havia alemães nenhuns nem se esperava que viesse a haver, e ele podia ter servido tranquilamente durante toda a guerra, sem nunca disparar contra um ser vivo — mas até carregar às costas aquele bocado de ferro era contra as suas convicções. Contava que os afegãos respeitariam o seu direito de não matar pessoas e o deixariam passar para a Índia. Mas o governo afegão mostrou-se cobarde, como todos os governos. Receou a cólera do poderoso vizinho e pôs grilhetas nas pernas do fugitivo. E assim mesmo, com grilhetas, manteve-o três anos numa prisão à espera de saber quem levaria a melhor. Os sovietes venceram e os afegãos devolveram-lhes o desertor. Só a partir daí começou a contar o seu atual tempo de prisão.
Nenhum de nós se opõe a ter Lev Tolstoi como compatriota — isso é uma imagem de marca. E pode-se até colocá-la num selo de correio. E pode-se levar os estrangeiros a visitar Iássnaia Poliana. De boa vontade esmiuçamos como ele era contra o czarismo e como foi alvo de um anátema (a voz do locutor até treme). Mas se alguém, caros compatriotas, levou Tolstoi a sério, se no nosso país surgiu um verdadeiro tolstoiano, cuidado! — não fiques debaixo das nossas lagartas!
… Por vezes, na construção, recorremos a um capataz prisioneiro para lhe pedir que nos empreste o metro articulado — é preciso medir a altura construída. Ele atribui um imenso valor a esse metro e não conhece a tua cara — há aqui muitas brigadas, mas por qualquer razão, desarmado, estende-te logo o seu tesouro (segundo as normas do campo isso é simplesmente uma estupidez). E quando tu ainda lhe vais devolver esse metro, ele ficará muito agradecido. Ah, afinal ele é polaco, chama-se Jerzy Wengierski. Ainda voltarás a ouvir falar dele.
… Por vezes vais a marchar na coluna e precisas de desfiar o teu rosário na manga ou de pensar nas próximas estrofes, mas há um vizinho que te parece extremamente interessante — uma nova cara, puseram uma nova brigada a trabalhar na nossa construção. Um judeu já de meia idade, simpático, instruído, com uma expressão inteligente e zombeteira. O apelido dele é Massamed, concluiu a universidade… mas qual? A universidade de Bucareste, na cátedra de biopsicologia. Tem de resto entre outras especialidades, a de fisionomista, grafólogo. Além disso é yogui e está disposto a iniciar contigo, amanhã mesmo, um curso de hata-yoga.
Mais tarde ainda volto a observá-lo na zona de trabalho e na zona de habitação. Os seus compatriotas propuseram-lhe um lugar no escritório, mas ele não quis: importa-lhe mostrar que um judeu também se pode sair muito bem nos trabalhos gerais. E aos cinquenta anos de idade manuseia bravamente a picareta. É certo que como verdadeiro yogui domina bem o seu corpo: com uma temperatura de dez graus célsios, despe-se e pede aos seus camaradas que o reguem com a agulheta. Não come como nós, metendo à pressa na boca aquelas papas, mas, voltando-se, de uma maneira concentrada, devagar, em pequenos goles, com uma colherzinha particularmente pequena. (De resto, morrerá em breve, como simples mortal, de um simples ataque do coração.)
O que há de poetas entre os homens! Tantos que nem se consegue acreditar. (Isso por vezes até me deixa desconcertado.) Aqueles dois jovens ali só estão à espera de acabar de cumprir a pena e de uma futura notoriedade literária. São poetas às claras, não se ocultam. Têm em comum o facto de serem como que luminosos, puros. São ambos estudantes que não concluíram os cursos. Kólia Borovikov é fã de Pissarev (portanto inimigo de Púchkin), trabalha como enfermeiro na secção sanitária. Iuri Kiréiev, natural de Tver, é admirador de Blok e escreve ele próprio ao estilo de Blok — sai da zona e trabalha no escritório das oficinas de mecânica. Os seus amigos (e que amigos — vinte anos mais velhos do que ele, pais de família) riem-se dele, porque no campo ITL no Norte uma qualquer romena acessível a todos se lhe ofereceu, mas ele não percebeu e escrevia-lhe sonetos. Ao olhar para a sua carinha acreditamos facilmente nessa história. Maldição da virgindade juvenil que agora tem de arrastar pelo campo.
Entre os presidiários do campo é como andar por um campo minado, fotografando cada um deles com os raios da intuição, para não explodir. E mesmo com esse geral cuidado, quantos homens se me revelaram, na caixa craniana rapada, sob o casaco negro de presos!
E quantos deles se coibiam para não serem descobertos?
E quantos estrangulaste tu durante estas dezenas de anos, maldito Leviatã?
Quando Gueórgui Pávlovitch Tenno conta agora as fugas anteriores, suas e dos seus camaradas, e as que conhece de ouvir falar, dos mais intransigentes e persistentes — Ivan Vorobiov, Mikhail Khaidarov, Grigori Kudle, Khafiz Khafizov — diz em tom elogioso: «Esse era um fugitivo convicto! »
Fugitivo convicto! — é aquele que não duvida nem por um instante de que o homem não pode viver atrás das grades! — nem mesmo o mais bem provido dos alapados, nem na contabilidade, nem na secção cultural e educativa, nem no corte do pão! Aquele que, tendo ido parar à prisão, pensa o dia inteiro na fuga e à noite sonha com a fuga. Aquele que afirmou ser intransigente e subordina todas as suas ações a uma única coisa — a fuga! Que não passa um único dia no campo sem fazer nada: todos os dias, ou se prepara para a fuga, ou está em fuga, ou foi apanhado, espancado e está de castigo na prisão do campo.
Um fugitivo convicto! É aquele que sabe no que se vai meter. Que viu os corpos dos fugitivos mortos, expostos junto à entrada para exemplo. Que viu também os recapturados vivos — com a pele azul, a cuspir sangue, conduzidos de barraca em barraca e obrigados a gritar: «Presos! Vejam o que me aconteceu. O mesmo acontecerá com vocês!» Que sabe que as mais das vezes o cadáver do fugitivo é demasiado pesado para o trazerem para o campo. E por isso trazem apenas numa sacola a cabeça ou (mais conforme com o regulamento) também o braço direito cortado pelo cotovelo, para que a Secção Especial possa verificar as impressões digitais e dar baixa do homem.
O fugitivo convicto! — é aquele contra o qual se colocam grades nas janelas; contra o qual rodeiam a zona com dezenas de linhas de arame farpado, se erguem atalaias, vedações, paliçadas, vigias, emboscadas, se alimentam cães cinzentos com carne rubra.
O fugitivo convicto é também aquele que rejeita as críticas amolecedoras dos pequenos burgueses dos campos: por causa dos fugitivos os outros ficarão pior! Vão reforçar a disciplina! Vai haver revistas dez vezes! A sopa será mais aguada! Aquele que repele os murmúrios dos outros presos não apenas sobre a resignação («até no campo se pode viver, em especial com as encomendas»), mas também sobre os protestos, as greves de fome, porque isso não é luta, mas ilusão. De entre todos os meios de luta ele vê apenas um, acredita só num, trabalha só para um — a fuga!
Simplesmente não pode agir de outra maneira! É assim feito. Tal como um pássaro não é livre de recusar as migrações sazonais, também o fugitivo convicto não pode deixar de fugir.
Nos intervalos das fugas falhadas os presos perguntavam a Gueórgui Tenno: «Mas porque é que tu não ficas quieto? Porque é que foges? O que podes tu encontrar em liberdade, sobretudo na situação presente?» — «O quê? — surpreendia-se Tenno. — A liberdade! Vinte e quatro horas na taiga sem grilhões, é a liberdade!»
Homens como ele, como Vorobiov, não os conheceram oGulag nem os Órgãos no seu período intermédio — o tempo dos laparotos. Prisioneiros como estes viam-se só nos primeiros tempos soviéticos, e mais tarde, depois da guerra.
Assim era Tenno. Em cada novo campo (e ele era transferido muitas vezes), a princípio andava abatido, triste — até que nele amadurecia um plano de fuga. Mas quando o plano surgia, Tenno todo se iluminava e o sorriso triunfava nos seus lábios.
* * *
A sua vida complexa não tem lugar neste livro. Mas a sua veia de fugitivo é de nascença. Ainda criança, fugiu do internato de Briansk «para a América», ou seja, num barco pelo rio Desna; do orfanato de Piatigorsk, no Inverno, em roupa interior, escalou os portões de ferro e foi para casa da avó. E, coisa singular, na sua vida entrelaçam-se duas linhas: a da marinha e a do circo. Concluiu a escola de marinhagem, foi marinheiro num quebra-gelo, mestre num draga-minas, navegador num navio da marinha mercante.
Concluiu o instituto militar de línguas estrangeiras, passou a guerra na esquadra do Norte, como oficial de ligação nos navios de escolta ingleses, andou pela Islândia e pela Inglaterra. Mas também se dedicou à acrobacia desde a infância, atuou em circos durante a NEP e mais tarde nos intervalos entre as viagens marítimas; foi treinador de barra fixa; atuava em números de «mnemotécnica», de «memorização» de múltiplos números e palavras, «adivinhação» dos pensamentos à distância. O circo e a vida portuária trouxeram-lhe algum contato com o mundo do crime: qualquer coisa da linguagem deles, do espírito de aventura, da tenacidade, da temeridade. Depois, detido com muitos criminosos em numerosas prisões disciplinares, continuou a absorver qualquer coisa deles. Tudo isto também serve para um fugitivo convicto.
Toda a experiência do homem acumula-se no homem — é assim que nos formamos.
Em 1948 desmobilizaram-no subitamente. Isto era já um sinal do outro mundo (sabe línguas estrangeiras, navegou num navio inglês, além disso é estoniano, na verdade nascido em Petersburgo) — mas nós alimentamo-nos de esperanças num futuro melhor. Na noite de Natal desse ano, em Riga, onde o Natal é sentido e muito festejado, detiveram-no e levaram-no para uma cave da rua Amatu, ao lado do conservatório.
Prisão? Porquê? Não é possível! Vamos esclarecer! Antes da transferência para Moscovo, até o tranquilizaram de propósito (isso faz-se por segurança no transporte), o chefe da contra-espionagem, coronel Morschinin, até foi acompanhá-lo à estação, e apertou-lhe a mão: «Faça boa viagem!» Com a escolta especial eram quatro e viajaram num compartimento especial da carruagem com beliches.
O luxo da escolta especial terminou em Moscovo, na estação. Esperaram que todos os passageiros saíssem da carruagem, na qual entrou depois um sargento com dragonas azuis, de uma carrinha celular. «Onde está ele?»
Registo na prisão, privação do sono, boxes, boxes.
E vem o comissário: «Ora bem, fala-me das tuas atividades criminosas.» — «Não fiz nada!» — «Só o papa Pio não é culpado.»
Na cela estava na companhia de um bufo, que começou logo a tirar nabos da púcara: o que é que realmente se passou? Depois de alguns interrogatórios, compreendeu tudo: não esclarecerão coisa nenhuma, não o porão em liberdade. Portanto — fugir!
A fama mundial da prisão de Lefortovo não desanima Tenno. O plano de fuga é-lhe sugerido pelo comissário instrutor do processo, Anatoli Levchin. Sugere-lho ao tornar-se mau, odioso.
Os homens e os povos têm bitolas diferentes. Quantos milhões suportaram os espancamentos dentro daqueles muros, sem sequer lhes chamarem torturas. Mas para Tenno, a consciência de que o podiam espancar impunemente era insuportável. Era um ultraje, e nesse caso mais valia não viver. E quando Levchin, depois das ameaças verbais e pela primeira vez vai passar a vias de facto, Tenno salta e responde-lhe, a tremer de fúria: «Vê lá, eu de qualquer maneira não viverei! Mas arranco-te agora mesmo um olho ou dois! Isso posso fazer!»
E o comissário recua. Trocar assim um olho pela vida perdida de um preso não lhe convém. Agora extenua Tenno mantendo-o no cárcere, para o debilitar. Depois monta uma encenação: a mulher que grita de dor no gabinete ao lado é a esposa de Tenno, e se ele não confessa, vão torturá-la mais ainda.
Uma vez mais, avaliou mal aquele que tinha pela frente. Tal como não tolerava um murro, Tenno também não podia suportar o interrogatório da sua mulher. Tornou-se cada vez mais claro para o preso que teria de matar aquele comissário. Isso conjugava-se com o plano de fuga! O major Levchin também usava um uniforme da marinha, era também de estatura alta, também louro. Para o porteiro do edifício dos interrogatórios Tenno podia muito bem passar por Levchin. É verdade que ele tinha a cara cheia, lustrosa, e Tenno estava muito emagrecido.
Entretanto tinham retirado da cela o inútil bufo. Tenno estuda a cama deixada por este. A barra metálica transversal está enferrujada no sítio da junção com a perna do leito — a ferrugem comeu uma parte da espessura, o rebite mal se aguenta. O comprimento é de uns setenta centímetros. Como quebrá-la?
Em primeiro lugar… treinar-se na contagem dos segundos. Depois, contar para cada vigilante o intervalo entre as suas espreitadelas pela vigia da porta. O intervalo é de quarenta e cinco a sessenta segundos.
Num desses intervalos, com um esforço, a barra estalou no extremo enferrujado. A segunda ponta ficou inteira e é mais difícil de quebrar. É preciso pôr-se em cima dela com os dois pés, mas vai fazer barulho ao cair no chão. Portanto é necessário, num intervalo, conseguir: colocar uma almofada no chão de cimento, saltar, quebrar a barra, voltar a pôr a almofada no sítio, e a barra ao menos por enquanto, na sua própria cama. E sempre a contar os segundos.
Quebrada. Está feito!
Mas isso não é saída: se entrarem, descobrem e ele vai parar ao calabouço. Vinte dias no calabouço não é só uma perda de forças para a fuga, impede também que te defendas do comissário instrutor. Façamos então assim: rasgar um pouco o colchão com as unhas. Retirar um pouco de algodão. Envolver as pontas da barra com algodão e voltar a colocá-la no lugar anterior. Contar os segundos. Já está!
Mas isto também não é por muito tempo. De dez em dez dias há o banho e durante o banho há revista da cela. Podem reparar na travessa partida. Portanto, há que agir mais depressa. Como levar a barra para o interrogatório?… À saída do edifício da prisão não há revista. Apalpam apenas no regresso do interrogatório, e só nos flancos e no peito, onde há bolsos. Procuram uma lâmina, receiam os suicídios.
Por baixo da túnica de marinheiro, Tenno vestia a tradicional camisola às riscas, que aquece o corpo e o espírito. «No mar, quanto mais ao largo, menos amargo!» Pediu ao vigilante uma agulha (em determinadas alturas fornecem-nas), pretensamente para coser botões, feitos de pão. Desabotoou a túnica, desabotoou as calças, puxou a fralda da camisola e nela coseu, em baixo e por dentro, uma bainha — espécie de pequeno bolso (para enfiar a ponta inferior da barra). Ainda antes tinha arrancado um pedaço da bainha das cuecas. Agora, fingindo pregar um botão na túnica, coseu essa fita no avesso da camisola à altura do peito — seria um laço para passar a barra.
Agora vira a camisola com as costas para o peito e dia após dia começam os treinos. Coloca a barra atrás das costas, por baixo da camisola. Enfia-a pelo laço superior e apoia-a no bolsinho. A ponta superior da barra fica ao nível do pescoço, por baixo da gola da túnica. O treino consiste em: entre duas espreitadelas do guarda, levar a mão à nuca, agarrar a barra por uma ponta, inclinar o dorso para trás, endireitar-se para a frente com uma flexão, como a corda de um arco, e ao mesmo tempo puxar a barra e num movimento brusco desferir um golpe na cabeça do comissário. E voltar a pôr tudo nos seus lugares. Espreitadela na vigia. O detido está a folhear um livro.
O movimento torna-se cada vez mais rápido, já a barra silva no ar. Mesmo que o golpe não seja mortal, o comissário cairia sem sentidos. Se prenderam a minha mulher, não há piedade por nenhum de vocês!
Prepara mais dois rolos de algodão, extraído do mesmo colchão. Pode colocá-los na boca, atrás dos dentes, e ficar com o rosto mais cheio.
É preciso ainda, claro, estar barbeado para esse dia — mas só barbeiam uma vez por semana, com uma navalha embotada. Portanto, o dia não é indiferente.
Não esquecer, não omitir nenhuma coisa importante, e fazer tudo em quatro-cinco minutos. Quando ele estiver estendido, derrubado:
1) despir a minha túnica, vestir a dele, mais nova, com dragonas;
2) tirar-lhe os atacadores dos sapatos e pô-los nos meus — isso demorará muito tempo;
3) esconder a lâmina de barbear dele no salto do meu sapato, no esconderijo preparado (se me apanharem e meterem numa cela, cortar as veias);
4) revistar os papéis dele, levar os que forem úteis.
……………………………………………………………………………
………………………………………………………………….
11) fazer pequenos rolos de algodão, metê-los por dentro das bochechas;
12) arrancar os fios do disjuntor. Se alguém entra de repente — está escuro, rodará o interruptor —, a lâmpada está certamente fundida, e por isso o comissário foi para outro gabinete.
Mas mesmo que ponham outra lâmpada, não perceberão logo o que se passa.
Assim se chega às doze acções, e a décima terceira será a própria fuga…
É claro que as probabilidades eram muito poucas, por enquanto de três a cinco por cento. Quase sem esperança, porque o posto da guarda exterior é completamente desconhecido. Mas não ia morrer aqui como escravo!
E num interrogatório noturno, logo depois de ter sido barbeado, Tenno compareceu com a barra metálica atrás das costas. O comissário fez o interrogatório, injuriou, ameaçou, e Tenno olhava e surpreendia-se: como é que ele não sente que chegou a sua hora?
O seu coração palpitava. Era a véspera de uma festa. A véspera da execução.
Mas tudo aconteceu de outra maneira. Por volta da meia-noite entrou à pressa um outro comissário que murmurou qualquer coisa ao ouvido de Levchin. Isto nunca tinha acontecido. Levchin apressou-se, carregou num botão, a chamar um guarda para que levasse o preso.
E acabou-se tudo… Tenno voltou para a cela, colocou o varão no lugar.
De outra vez o comissário chamou-o com a barba por fazer (nem fazia sentido levar a barra).
E depois foi um interrogatório diurno.
Pouco depois substituíram o comissário, e o próprio Tenno foi transferido para a Lubianka. Aqui, Tenno não preparou a fuga (o andamento do processo pareceu-lhe mais promissor, e não tinha a determinação para fugir), mas analisava sem parar e estabelecia planos de treino.
Só em Butirki o peso se desfaz: com um pedaço de papel do OSO, sentenciaram-no a vinte e cinco anos de campo. Ele assina — e sente-se aliviado, com um sorriso, e as pernas levam-no facilmente para a cela dos condenados a vinte e cinco anos. Esta sentença liberta-o da humilhação, da transigência, da submissão, da adulação, dos míseros cinco a sete anos prometidos: vinte e cinco anos, puta da vossa mãe! Não há portanto nada a esperar de vocês, portanto, é a fuga!
Ou a morte. Mas a morte será pior do que um quarto de século de escravidão? Só de ter a cabeça rapada depois do julgamento — simplesmente rapada, quem é que isso humilhou alguma vez? — Tenno sofre-o como uma humilhação, como uma cuspidela no rosto.
Agora, procurar aliados. E estudar a história de outras fugas. Tenno é um novato neste mundo. Será possível que nunca ninguém tenha fugido?
* * *
As fugas de reclusos, como qualquer outra atividade humana, têm a sua história e a sua teoria. Não será mau conhecê-las, antes de tentar empreendê-la.
A história são as fugas que já aconteceram. A secção operacional tchekista não edita brochuras de divulgação sobre a sua técnica, acumula a experiência para si própria. Pode-se conhecer a história através de outros fugitivos, recapturados. A experiência deles é muito valiosa — sangrenta, de sofrimento, quase paga com a vida. Mas interrogar em pormenor, passo a passo, um fugitivo, e outro, e mais outro, não é nenhuma brincadeira, é muito perigoso. Não é muito menos perigoso do que perguntar: quem sabe através de quem eu poderia entrar para uma organização clandestina?
Quanto à teoria da fuga, é muito simples: como puderes. Se fugiste, quer dizer que conheces a teoria. Se foste apanhado, quer dizer que ainda não a dominas. Mas os princípios são estes: pode-se fugir dos locais de trabalho e da zona de habitação. Dos locais de trabalho é mais fácil: são muitos, a guarda não está muito organizada e o fugitivo costuma ter um instrumento. Pode-se fugir sozinho, o que é mais difícil, mas ninguém nos trai. Pode-se fugir em grupo, é mais fácil, mas tudo depende de se escolherem bem uns aos outros ou não. Há um outro princípio na teoria: é preciso conhecer a geografia como se tivesses um mapa à frente dos olhos. Mas no campo não verás nenhum mapa. (A propósito, os ladrões desconhecem por completo a geografia, o norte para eles é a prisão de trânsito onde sentiram frio a última vez.) Há ainda um outro princípio: é preciso conhecer o povo no meio do qual se situa o caminho da fuga. E esta indicação do método: deves preparar constantemente a fuga segundo um plano, mas em qualquer momento estar pronto a fugir de um modo completamente diferente — como calhar.
O primeiro campo de Tenno foi Novorrudnoie, perto de Djezkazgan. Este é o principal lugar onde te condenam a perecer. É precisamente daqui que deves fugir! Em redor tudo é deserto, que aqui é de terras salgadas, além de dunas endurecidas por ervas como o alhagi. Nalguns lugares vagueiam cazaques com os seus rebanhos por aquela estepe, noutros lados não há ninguém. Não há rios e é quase impossível descobrir um poço. A melhor época para fugir é abril e maio, quando em alguns lugares ainda há pequenos lagos do degelo. Mas isso os guardas também o sabem muito bem. Nessa época intensifica-se a revista daqueles que saem para o trabalho, e não os deixam levar nem um bocado de comida a mais, nem mais um trapo para vestir.
Naquele Outono de 1949, três fugitivos — Slobodianiuk, Bazitchenko e Kójin — arriscaram-se a partir para sul: pensavam seguir ao longo do rio Sari-Su, em direção a Kzil-Orda. Mas o rio estava completamente seco. Capturaram-nos quase mortos de sede.
Baseado na experiência deles, Tenno decidiu que não fugiria no Outono. Frequenta assiduamente a secção cultural e educativa — não é nenhum fugitivo, nem um rebelde, é um daqueles reclusos razoáveis que esperam corrigir-se até ao fim da sua pena de vinte e cinco anos. Ajuda no que pode, promete atividades amadoras, acrobacias, técnica mnemónica, e entretanto, remexendo em tudo o que há na secção cultural e educativa, encontra um fraco mapa do Cazaquistão, mal guardado pelo compadre. Ora bem. Há uma antiga rota das caravanas para Djussali, de trezentos e cinquenta quilómetros, pela qual até se pode encontrar poços. E para norte, em direção ao Ichim, a quatrocentos quilómetros, pode-se encontrar prados. Em direção ao lago Balkhach, quinhentos quilómetros de puro deserto, o Bet-Pak-Dala. Mas nessa direção é pouco provável que vá.
Tais são as distâncias. Tal é a escolha. Durante esse Inverno, Tenno estabelece o plano e escolhe quatro camaradas. Mas enquanto, de acordo com a teoria, decorre a paciente preparação segundo o plano, um dia levam-no inesperadamente a um lugar de construção acabado de abrir — uma pedreira. Situada num local acidentado de outeiros, não se avista do campo. Ainda não há atalaias, nem zona: alguns postes, algumas filas de arame farpado. Em certo ponto do arame há um intervalo que é o «portão».
E para lá dele, a estepe primaveril e a erva verde, e flamejam tulipas e mais tulipas! O coração do fugitivo não pode suportar aquelas tulipas e aquele ar de abril! Talvez seja esta a Ocasião?… Enquanto não és suspeito, enquanto não estás na barraca disciplinar — agora é que é o momento de fugir!
Durante este período, Tenno já tinha conhecido muita gente no campo e agora junta rapidamente um grupo de quatro: Micha Khaidárov (fuzileiro da marinha soviética na Coreia do Norte, fugiu do tribunal militar e atravessou o paralelo 38; não querendo estragar as suas boas e sólidas relações na Coreia, os americanos entregaram-no: um quarteirão); Iadzik, um motorista polaco do exército de Anders (conta a sua biografia de uma maneira expressiva, mostrando as botas desirmanadas: «as minhas botas, uma é de Hitler, a outra é de Estaline»); e mais um ferroviário de Kuibichev, Serguei.
Chegou então um camião carregado de verdadeiros postes e de rolos de arame farpado para a futura zona — mesmo na hora da pausa para o almoço. O grupo de Tenno, que gosta de trabalho forçado e que gosta em especial de reforçar a zona, ofereceu-se voluntariamente para descarregar o camião mesmo durante o intervalo. Subiram para a carroçaria. Mas como em todo o caso era a hora do almoço, moviam-se com lentidão e refletiam. O motorista afastou-se para um lado. Todos os presos estavam deitados por aqui e por ali, aqueciam-se ao sol.
Fugimos ou não? Não tinham nada para levarem consigo: nem uma faca, nem equipamento, nem comida, nem plano. De resto, como vão num veículo, pelo pequeno mapa Tenno sabe o que fazer: seguir em direção a Djezdi e depois para Ulutau. Os rapazes entusiasmaram-se: é a ocasião! A ocasião!
Daqui até ao «portão», até à sentinela, é a descer. E logo a seguir a estrada vira para trás de um outeiro. Se forem depressa, já não dispararão contra eles. E as sentinelas não abandonam os seus postos!
Acabaram a descarga e o intervalo ainda não tinha terminado. Iadzik era quem devia conduzir. Salta para o chão, caminha em volta do veículo, os outros três entretanto deitaram-se preguiçosamente na carroçaria, esconderam-se, talvez nem todas as sentinelas tenham visto para onde eles foram. Iadzik chamou o motorista: não demorámos a descarga, dá-me um cigarro. Acenderam os cigarros. Bem, põe-no a trabalhar. O motorista sentou-se na cabine, mas o motor, como que de propósito, não pega. (Os três que estão em cima da carroçaria não sabem do plano de Iadzik e pensam que tudo falhou. Iadzik põe-se a dar à manivela, mas o motor continua sem pegar. Iadzik já se pôs em pé, propõe ao motorista que troquem de lugares. Agora Iadzik está na cabine. E o motor roncou de imediato! O camião avançou pelo declive direito à sentinela do portão! (Mais tarde Iadzik contou: tinha fechado, para o motorista, o tubo de alimentação de gasolina, e conseguiu abri-lo para si próprio.) O motorista não se apressou a subir para a cabine, pensou que Iadzik ia parar. Mas o veículo passou o «portão» com velocidade.
Duas vezes «pára!» O camião continua. Salva de tiros das sentinelas, primeiro para o ar, o que parecia um engano. Talvez disparassem também contra o camião, os fugitivos não sabem, vão deitados. Uma curva. Atrás do outeiro, escapam aos disparos! Os três que vão na carroçaria ainda não levantam a cabeça. Solavancos, devidos à velocidade. E de repente, paragem, e Iadzik grita com desespero: não acertou no caminho! — foram chocar com o portão da mina, onde é a sua zona e se erguem as torres de vigia.
Disparos. A escolta vem a correr. Os fugitivos atiram-se ao chão, de bruços, cobrem as cabeças com as mãos. A escolta agride-os a pontapé e procura precisamente atingir a cabeça, as orelhas, as têmporas e a espinha.
A regra geral de salvação da humanidade — não se bate num homem deitado — não vale nos trabalhos forçados estalinistas! Aqui é precisamente num homem deitado que se bate! Se está de pé, disparam contra ele. Mas no interrogatório apura-se que não houve fuga nenhuma! Sim! Os rapazes afirmam todos à uma que estavam a dormitar na carroçaria, que o camião começou a andar e de repente começaram os disparos, tarde de mais para saltarem, podiam ser atingidos. E Iadzik? É inexperiente, não conseguiu dominar o carro. E não se dirigiu para a estepe, mas para a mina próxima.
E assim, ficaram-se pelos espancamentos.
Mas a fuga planeada continua em preparação. Faz-se uma bússola: uma caixinha de plástico na qual se traçam rumos. Um bocado de agulha magnética assente num flutuador de madeira. Agora deita-se-lhe água. E aí temos uma bússola. A água potável pode-se facilmente meter numa câmara de ar de automóvel e na fuga levá-la a tiracolo, como se leva o capote enrolado. Todas essas coisas (comida e roupas) levam-nas aos poucos para o Complexo Madeireiro, de onde se preparam para fugir, e escondem-nas ali numa cova perto da serração. Um motorista livre vende-lhes uma câmara de ar. Cheia de água, também ela já lá está na cova. Por vezes, a meio da noite, chega um comboio, e por isso deixam os carregadores passar a noite na zona de trabalho. É então que se deve fugir. Alguém de entre os trabalhadores livres, a troco de um lençol da administração (os nossos preços!) já cortou as duas linhas inferiores do arame farpado em frente à serração, e em breve vai chegar a noite do carregamento dos madeiros! No entanto, houve um preso, um cazaque, que lhes descobriu o esconderijo e os denunciou.
Detenção, espancamento, interrogatórios. Para Tenno, eram demasiadas «coincidências», parecidas com uma fuga.
Em 9 de maio de 1950, quinto aniversário da Vitória, o marinheiro Tenno, que combateu na frente, entra numa cela da célebre prisão de Kenguir. Naquele Verão desencadeia-se um calor abrasador de 40-50 graus, e todos dormem nus. Debaixo das tarimbas está um pouco mais fresco, mas uma noite dois presos saltam de lá aos gritos — caíram-lhes tarântulas em cima.
Na prisão de Kenguir há uma sociedade escolhida, vinda de vários campos. Em todas as celas há fugitivos experientes, uma rara selecção de águias. Finalmente, Tenno foi parar ao meio dos fugitivos convictos!
Nesse mesmo Verão essa sociedade escolhida foi toda algemada e por qualquer razão levada para Spassk. Ali meteram-nos numa barraca separada, com segurança especial. Logo na quarta noite os fugitivos convictos retiraram a grade da janela, saíram para o pátio da intendência, ali mataram o cão, sem fazer barulho, e por cima do telhado preparavam-se para chegar à grande zona comum. O telhado metálico começou a amolgar-se debaixo dos pés e no silêncio da noite era como uma trovoada. Levantou-se o alerta entre os guardas. Mas quando estes chegaram à barraca, já todos os presos dormiam tranquilamente nos seus lugares. Fora simplesmente uma confusão dos vigilantes.
Mas eles não estavam destinados a ficar muito tempo num lugar! Os fugitivos convictos, como holandeses voadores, continuaram a ser empurrados pelo seu inquieto destino. Agora toda essa companhia industriosa foi transferida, algemada, para a prisão de Ekibastuz.
Como culpados, como disciplinares, mandam-nostrabalhar na fábrica de cal. Descarregam a cal viva dos camiões, ao vento, e a cal apaga-se-lhes nos olhos, na boca, na traqueia. Na descarga dos fornos, os seus corpos nus e suados cobrem-se do pó da cal extinta. Este envenenamento diário, concebido para a sua correção, só os força a apressar a fuga.
O plano impõe-se por si mesmo: a cal é trazida em camiões, portanto, evadir-se num camião. Romper a vedação, que aqui é ainda de arame farpado. Escolher um camião com o depósito mais cheio de gasolina. Há entre os fugitivos um condutor de categoria, Kólia Jdanok, parceiro de Tenno na fuga falhada da serração.
Jdanok é moreno, baixo, muito ágil. Tem vinte e seis anos, é bielorrusso, foi levado da Bielorrússia para a Alemanha, onde trabalhou para os alemães como condutor. A pena que está a cumprir é o quarteirão da ordem. Quando se inflama, é muito enérgico, todo se consome no trabalho, num arrebatamento, numa briga, na fuga. Falta-lhe, é claro, firmeza, mas Tenno tem firmeza para dois.
Tudo sugere: é da fábrica da cal que é preciso fugir. Mas o chefe da brigada dos disciplinares é o Liocha Cigano (Navruzov), uma cadela, franzino mas um terror para todos, que na sua vida nos campos já matou dezenas de pessoas (matava facilmente por causa de uma encomenda, ou de um maço de cigarros), chama Tenno de parte e avisa-o:
— Eu próprio sou um fugitivo e gosto dos fugitivos. Olha, tenho o corpo crivado de balas, isto foi de uma fuga na taiga. Mas não fujas da zona de trabalho: aqui a responsabilidade é minha, sou outra vez condenado.
Mas talvez as fugas de Ekibastuz comecem a tornar-se monótonas? Todos fogem das zonas de trabalho, ninguém foge da zona de habitação. Talvez tentar? Um dia, no forno da cal, estragaram os cabos elétricos da misturadora. Chamaram um montador eletricista livre. Tenno ajuda-o na reparação, Jdanok entretanto rouba-lhe um alicate da bolsa. Ali mesmo, no forno, os fugitivos fazem duas facas: com um escopro, cortam-nas de uma pá, afiam-nas na forja, dão-lhes a têmpera, fazem-lhes cabos de estanho, fundindo-os em moldes de argila. Tenno tem um «punhal turco», que não só cumprirá a sua função, como o seu aspeto curvo e brilhante assusta, e isso é ainda mais importante. Porque eles não pretendem matar, mas apenas assustar.
O alicate e as facas foram levados para a zona habitacional dentro das ceroulas, junto aos tornozelos, e enfiaram-nos sob a base da barraca.
A chave principal da fuga deve ser uma vez mais a secção cultural e educativa. Enquanto se preparam e se transferem as armas, Tenno declara por sua vez que, juntamente com Jdanok, quer participar no espetáculo amador. E é dada autorização a Tenno e a Jdanok para saírem da barraca disciplinar depois da hora em que esta é fechada, quando toda a zona ainda vive e se movimenta durante mais duas horas. Eles vagueiam pela zona de Ekibastuz que ainda não conhecem, observam como e a que horas é rendida a guarda nos mirantes; onde é mais cómodo rastejar até à vedação. Na própria secção cultural e educativa, Tenno lê atentamente o jornal regional de Pavlodar, procura memorizar os nomes dos distritos, dos sovkhozes, dos kolkhozes, os apelidos dos presidentes, dos secretários e de toda a espécie de trabalhadores de choque. Depois declara que vai representar uma pequena comédia e que para isso precisa de receber as suas roupas civis, guardadas no depósito do campo, e uma pasta de alguém. (A pasta para uma fuga é coisa invulgar! Dá um ar de chefia!) A autorização foi obtida. Tenno continuava com a sua túnica da marinha, e agora receberia o seu fato islandês, recordação de uma escolta marítima. Jdanok tira da maleta de um amigo um fato completo belga, cinzento, tão elegante que até é estranho olhar para ele no campo. Um letão tem uma pasta entre as suas coisas guardadas. Também a levam. E bonés verdadeiros em vez dos gorros do campo.
Mas a comédia exige tantos ensaios, que o tempo não chega, nem mesmo para além do recolher geral. Por isso Tenno e Jdanok passam uma noite, e depois mais outra, na barraca da secção cultural e educativa, habituam os guardas a isso. (Pois é necessário ganhar tempo para a fuga, ao menos uma noite.)
Qual é o momento mais favorável para a fuga? O controlo do fim do dia. Quando há uma fila diante das barracas, todos os vigilantes estão ocupados com a entrada e os presos olham para a porta, desejosos de ir dormir o mais depressa possível, e ninguém se preocupa com o resto da zona. Os dias estão a ficar mais pequenos, e é preciso escolher um dia em que o controlo aconteça já depois do pôr do sol, quando tudo fica cinzento, mas ainda não dispuseram os cães à volta da zona. Há que aproveitar esses únicos cinco ou dez minutos, porque com os cães presentes é impossível rastejar.
Escolheram o dia 17 de setembro, um domingo. É cômodo, domingo será um dia de descanso, acumulam-se forças para a noite, fazem-se sem pressa os últimos preparativos.
A última noite antes da fuga! Vais conseguir dormir muito? Pensamentos, pensamentos… Estarei vivo daqui por vinte e quatro horas?… É possível que não. Mas, e no campo? A morte lenta ao lado ao monturo?… Não, não te deixes habituar à ideia de que és um escravo.
A questão põe-se assim: estás pronto para morrer? Estou. Portanto, também estás pronto para a fuga.
Era um domingo ensolarado. Por causa do espetáculo, os dois são dispensados o dia inteiro da barraca disciplinar. No que respeita a comida, os fugitivos estão muito mal: no regime disciplinar andam curtos, e reunir pão levantaria suspeitas. Mas estão a contar com um avanço rápido e na povoação apoderar-se de um carro. Contudo, nesse mesmo dia chega uma encomenda da mãe — uma bênção materna para a fuga. Comprimidos de glucose, macarrão, flocos de aveia, que levarão na pasta. Cigarros — para trocar por tabaco ordinário. Menos um dos maços, que será para levar ao enfermeiro do posto médico. E Jdanok já está na lista dos dispensados por hoje. Pelo seguinte motivo. Tenno dirige-se à secção cultural e educativa: o meu Jdanok está doente, esta noite não há ensaio, não vimos. Mas ao vigilante disciplinar e ao Liocha Cigano, diz: esta noite vamos estar no ensaio, não voltamos para a barraca. E assim não estarão à espera deles nem num lado, nem no outro.
Ainda é preciso arranjar uma «katiucha» — numa fuga, um isqueiro com pavio num tubo é melhor do que fósforos.
Escurece. Ouve-se o sinal para o controlo. Os presos concentram-se junto das barracas. É ao crepúsculo, e da vigia a sentinela já não deve distinguir que aqueles dois continuam deitados na relva. Aproxima-se o fim do seu quarto, já não está tão atento. Com uma sentinela que termina o serviço é sempre mais fácil fugir.
Tencionam cortar o arame farpado não em qualquer parte do sector de guarda, mas mesmo junto à torre de vigia, mesmo encostado. É mais certo a sentinela vigiar o recinto olhando para longe do que para debaixo dos seus pés.
Mantêm ambos as cabeças junto às ervas, além disso é ao crepúsculo, não veem a abertura por onde daqui a pouco vão rastejar. Mas ela foi muito bem analisada com antecedência: logo a seguir à vedação há uma cova aberta para colocar um poste, onde se podem esconder por um minuto; mais adiante há uns pequenos montes de escória — e passa por ali a estrada para a vila operária, onde mora a escolta.
O plano é o seguinte: na vila, apoderarem-se de um camião. Mandá-lo parar, dizer ao condutor: queres ganhar algum? Precisamos de carregar da velha Ekibastuz para aqui duas caixas de vodka. Qual o motorista que não quer beber?! Negociar: queres meio litro? Um litro? Está bem, vamos lá, mas nem uma palavra a ninguém! Depois, a caminho, sentados com ele na cabine, agarrá-lo, levá-lo para a estepe e deixá-lo amarrado. E arrancar de noite até ao Irtich. Ali abandonar o camião, atravessar o Irtich numa lancha e avançar para Omsk.
Escureceu mais um pouco. Nas torres de vigia acenderam-se os projetores que iluminam ao longo da vedação, mas os fugitivos estão por enquanto deitados numa área de sombra. Chegou o momento! Daqui a pouco é o render da guarda e vão trazer os cães para a noite. Nas barracas já se acendem as lâmpadas, vê-se como os presos caminham para a revista. Está-se bem na barraca? Quentinho, é confortável… Mas agora vão-te crivar à metralhadora, e deitado, estendido no chão, o que é um vexame.
Não tossir, não pigarrear junto à torre de vigia.
Bem, espreitem, seus cães de guarda! A vossa função é deter-nos, a nossa função é fugir!
[Fascinante história de vinte dias de liberdade, dia a dia. No oitavo dia os fugitivos, meio mortos, chegaram ao Irtich, no vigésimo dia estavam já nos arredores de Omsk. No vigésimo primeiro foram capturados. Espancamento, nove meses de cárcere, processo. E mais vinte e cinco anos.]
As fugas do ITL, desde que não fosse para Viena, ou para atravessar o estreito de Bering, eram manifestamente olhadas pelos chefes do Gulag com uma certa complacência. Entendiam-nas como um fenómeno natural, como uma falha de administração numa empresa económica demasiado vasta — como a mortandade do gado, o afundamento da madeira, meio tijolo em vez de um tijolo inteiro.
Diferente era o caso dos Campos especiais. Cumprindo uma vontade especial do Pai dos Povos, estes campos tinham sido dotados de guarda reforçada e com armamento reforçado ao nível da infantaria motorizada de então. Aqui já não mantinham os socialmente próximos, cuja fuga não seria grande prejuízo. Aqui já não havia justificações de que a guarda era pequena ou o armamento antiquado. Desde a própria fundação dos Campos especiais e nas suas instruções ficou estabelecido o princípio de que desses campos não era possível haver fugas, pois qualquer fuga de um preso daqui seria como a travessia da fronteira do Estado por um grande espião, era uma mancha política na administração do campo e no comando das tropas da escolta.
Mas foi precisamente a partir dessa altura que os condenados pelo artigo Cinquenta e Oito começaram a apanhar já não os dez anos, mas o quarteirão, ou seja, o máximo do Código Penal. Assim, esse endurecimento insensato tinha em si mesmo a sua fraqueza: agora os presos políticos já não eram impedidos de se evadirem pelo Código Penal.
E embora as fugas dos Campos especiais fossem menos numerosas do que dos ITL (os Campos especiais duraram menos anos), essas fugas eram mais duras, mais penosas, mais irreversíveis e desesperadas, e por isso mais gloriosas.
Os relatos dessas fugas ajudam-nos a compreender se realmente o nosso povo foi assim tão paciente e tão submisso durante esses anos.
Uma dessas fugas aconteceu um ano antes da de Tenno e serviu-lhe de modelo. Em setembro de 1949, da 1.a secção do Steplag (Rudnik), fugiram dois condenados: Grigori Kudla, um velho ucraniano entroncado, sólido, ponderado, e Ivan Duchetchkin, um bielorrusso calmo, de trinta e cinco anos. Na mina onde trabalhavam descobriram um poço fechado que terminava com uma grade por cima. Nos seus turnos da noite, foram soltando a grade, ao mesmo tempo que iam guardando no poço biscoitos, facas, um saco para água quente roubado na enfermaria. Na noite da fuga, ao descerem para a mina, declararam separadamente ao chefe da brigada que estavam doentes e não podiam trabalhar. À noite não há vigilantes debaixo do solo, o chefe da brigada tem todo o poder, mas precisa de ter cuidado, porque também ele pode ficar com a cabeça rachada. Os fugitivos deitaram água no saco de borracha, pegaram nas suas reservas e lá foram para o poço. Quebraram a grade e rastejaram. A saída era perto de uma atalaia, mas fora da vedação. Saíram sem serem notados.
De Djezkazgan dirigiram-se para noroeste, pelo deserto. De dia ficavam deitados, de noite caminhavam. Não encontraram água em lado nenhum e ao fim de uma semana Duchetchkin não se queria levantar. Kudla fê-lo levantar-se com a esperança de que mais adiante havia uns outeiros e para lá deles talvez houvesse água. Arrastaram-se até lá, mas nas depressões havia apenas lama e nenhuma água. E Duchetchin disse: «De qualquer maneira eu não vou mais longe. Tu acaba comigo e bebe o meu sangue.»
Moralistas! Qual a decisão correta? Kudla também via círculos à frente dos olhos. Duchetchkin vai de certeza morrer — por que há-de morrer também Kudla?… Mas se ele em breve encontrar água, como irá depois recordar Duchetchkin toda a sua vida?… E Kudla decidiu: vou continuar em frente e se até de manhã eu voltar sem água, liberto-o do sofrimento, para não morrermos os dois. Kudla arrastou-se até um outeiro, avistou uma depressão e, como nos romances mais inacreditáveis, com água! Kudla rolou para a água e ao cair bebeu, bebeu! (Só de manhã notou que nela havia girinos e algas.) Com a borracha cheia, voltou para junto de Duchetchkin: «Água, trouxe água para ti!» Duchetchkin nem acreditava, bebia e não acreditava (durante todas aquelas horas já se via a si próprio a beber água…). Arrastaram-se até àquela depressão e lá ficaram a beber.
Depois de beberem, chegou a vez da fome. Mas na noite seguinte atravessaram um monte e desceram para uma terra prometida: um rio, erva, arbustos, cavalos, vida. Ao escurecer, Kudla deslizou até aos cavalos e matou um deles. Beberam-lhe o sangue diretamente das feridas. Assaram a carne de cavalo em fogueiras, comeram durante muito tempo e continuaram. Contornaram Amangueldi, no Turgai, mas na estrada real uns cazaques que seguiam num camião exigiram-lhes os documentos e ameaçaram entregá-los à polícia.
Mais adiante encontraram muitas vezes ribeiros e lagos. E Kudla ainda apanhou e matou um carneiro. Havia já um mês que estavam em fuga! Findou o mês de outubro, começava a fazer frio. No primeiro bosque encontraram um abrigo no chão e instalaram-se nele. Não se decidiam a abandonar uma região rica. Nessa paragem, e no facto de que as suas terras natais não os atraíam, não lhes prometiam uma vida mais tranquila, estava o falhanço, a falta de objetivo da sua fuga.
À noite faziam razias na aldeia próxima, ora roubavam uma panela, ora, quebrando a fechadura de uma despensa, roubavam farinha, sal, um machado, loiça. (Um fugitivo, tal como um guerrilheiro, no meio da vida pacífica depressa se torna inevitavelmente um ladrão…) De uma vez levaram da aldeia uma vaca, que mataram na floresta. Mas então nevou e, para não deixar rastos, tiveram de ficar retidos no abrigo. Mal Kudla tinha saído para apanhar uns gravetos, foi avistado por um guarda florestal, que começou logo a disparar. «São vocês os ladrões? Roubaram a vaca?» Perto do abrigo foram encontrados vestígios de sangue. Levaram-nos para a aldeia, fecharam-nos a cadeado. O povo gritava: é matá-los já sem piedade! Mas o comissário do distrito chegou com uma ficha de busca de toda a União e declarou aos aldeãos: «Muito bem! Vocês não capturaram ladrões, mas grandes bandidos políticos!»
E tudo mudou. Já ninguém gritava. O dono da vaca — que era afinal um checheno —, levou aos detidos pão, carne de carneiro e até dinheiro, reunido pelos chechenos. «Ah — dizia ele —, tu devias ter vindo ter comigo, dizer quem eras e eu mesmo te dava tudo!…» (Disto pode-se não duvidar, é próprio dos chechenos.) E Kudla começou a chorar. Depois de tantos anos de crueldade, o coração não resiste à compaixão.
Levaram os presos para Kustanai, onde, na cela de detenção preventiva KPZ da estação, não só lhes tiraram (para si próprios) tudo o que os chechenos lhes haviam dado, como não lhes deram nada para comer! Antes de os expedirem, fizeram-nos ajoelhar-se na gare da estação de Kustanai, algemaram-lhes as mãos atrás das costas, e assim os mantiveram, à vista de toda a gente.
Se isto fosse numa plataforma de Moscovo, Leninegrado, Kiev, ou em qualquer outra cidade confortável, toda a gente passaria ao lado deste velho de cabelos grisalhos, ajoelhado e algemado, como que saído de um quadro de Répin, sem reparar nele, sem se voltar para ele — colaboradores das editoras de literatura, realizadores de cinema de vanguarda, conferencistas sobre humanismo, oficiais do exército, para já não falar dos funcionários dos sindicatos e do partido. E todos os cidadãos comuns, que em nada se distinguem, que não ocupam cargos, também procurariam passar sem notar nada, para que a escolta não lhes perguntasse e anotasse os nomes — porque tu tens autorização de residência em Moscovo, não podes correr riscos…
Mas os habitantes de Kustanai tinham pouco a perder, ali todos eram malditos, ou marcados, ou deportados. Começaram a concentrar-se perto dos detidos, a atirar-lhes tabaco, cigarros, pão. Kudla tinha as mãos algemadas atrás das costas, e debruçou-se para apanhar o pão do chão com a boca, mas um homem da escolta tirou-lhe o pão da boca com um pé. Kudla rolou sobre si mesmo e de novo se arrastou para morder o pão — então o da escolta afastou o pão com um pontapé! (Vocês, cineastas de vanguarda, recordam talvez a cena com aquele velho?) O povo começou a aproximar-se mais e a fazer barulho: «Soltem-nos! Soltem-nos!» Veio uma patrulha da milícia, mais forte do que o povo, e fê-lo dispersar.
Chegou um comboio, os fugitivos foram embarcados com destino à prisão de Kenguir.
* * *
Há um grupo especial de fugas, constituído por aquelas que começam não por um arranco nem pelo desespero, mas por um cálculo técnico e por umas mãos douradas.
Em Kenguir foi concebida uma célebre fuga num vagão ferroviário. A um dos locais de construção chegavam constantemente, para descarga, comboios carregados de cimento ou de amianto. Na zona descarregavam-no e o comboio partia vazio. Quatro presos prepararam esta fuga: fizeram uma parede interna falsa para um vagão de mercadorias tipo Pullman, ainda por cima articulada, com dobradiças, como um biombo — de modo que quando a levaram para o vagão ela mais parecia uma prancha larga, cómoda para conduzir os carrinhos de mão. O plano era: enquanto se descarrega o vagão, os presos são os senhores dele; introduzir a armação no vagão e ali desdobrá-la; fixar as dobradiças com tranquetas para fazer uma parede firme; colocarem-se os cinco em pé., de costas apoiadas à parede e por meio de cordéis erguer e fixar a parede falsa. Todo o vagão está sujo de pó de amianto, e a parede também. A diferença de profundidade não é visível a olho nu. Mas há a dificuldade no cálculo do tempo: é necessário libertar todo o comboio para a partida enquanto os presos ainda estão na obra, e não é possível embarcar antes, é preciso ter a certeza de que vão partir logo. E então, no último minuto, correram levando as facas e os víveres — mas de repente um dos fugitivos prendeu um pé na agulha e fraturou a perna. Isto atrasou-os e não conseguiram terminar a sua montagem antes do controlo do comboio pela escolta. Assim foram descobertos. Foi instaurado um processo sobre esta fuga.[80]
No Verão de 1951, em Ekibastuz, os chefes da barraca disciplinar n.° 2, que ficava a trinta metros de distância da vedação, conceberam e começaram a executar uma obra de alta classe. A barraca disciplinar n.° 2 era uma pequena zona rodeada de arame farpado no interior da grande zona. A sua cancela estava sempre fechada a cadeado. Além do tempo que passavam na fábrica da cal, os disciplinares eram autorizados a caminhar no seu pequeno pátio ao lado da barraca apenas durante vinte minutos. Todo o restante tempo ficavam fechados na barraca, e só passavam pela zona comum a caminho da fábrica e no regresso. Nunca eram admitidos no refeitório comum, os cozinheiros levavam-lhes a comida em selhas.
Havia entre eles muitos «fugitivos convictos», e no Verão começou a constituir-se um grupo seguro de doze candidatos à fuga. (Mahomet Gadjiev, chefe dos muçulmanos de Ekibastuz; Vassili Kustarnikov; Vassili Briukhin; Valentin Rijkov; Mutiánov; um oficial polaco, amador de trabalhos de sapa; e mais alguns). Todos ali eram iguais, mas Stepan Konoválov, um cossaco do Kuban, era em todo o caso o principal. Ligaram-se por um juramento: aquele que dissesse, nem que fosse a uma pessoa, era um homem morto, devia suicidar-se ou seria morto pelos outros.
Nesse tempo a zona de Ekibastuz estava já rodeada por uma vedação sólida e contínua de quatro metros de altura. Ao longo dela estendia-se uma ante-zona lavrada de quatro metros, e do outro lado da vedação estava demarcada uma faixa interdita de quinze metros, que terminava numa trincheira de um metro. Foi decidido atravessar todo este dispositivo de segurança por uma passagem subterrânea.
A primeira exploração mostrou logo que a fundação era baixa e que o espaço subterrâneo de toda a barraca era tão pequeno que não havia onde acumular a terra escavada. Aparentemente, o problema era insolúvel. Portanto, desistir da fuga?… E alguém propôs: em contrapartida o sótão é espaçoso, levemos a terra para o sótão! Isto parecia impensável. Transportar despercebidamente dezenas de metros cúbicos de terra para o sótão, através do espaço habitado da barraca, vigiado e controlado, todos os dias, a todas as horas, e não deixar cair uma pitada, não deixar um único rasto!
Mas quando imaginaram a maneira de o fazer, rejubilaram e a fuga foi definitivamente decidida. Aquela barraca finlandesa era concebida para trabalhadores livres, foi montada por engano na zona do campo, onde não havia mais nenhuma da sua espécie: tinha quartos pequenos, onde não se enfiavam sete «vagonetas» como por toda a parte, mas apenas três, ou seja, para doze pessoas. Por diversos meios, trocando voluntariamente ou desalojando os indesejáveis («tu ressonas, e tu peidas-te muito»), foram empurrando os que não pertenciam ao grupo para outras secções, e juntaram os seus.
Quanto mais isolavam os disciplinares do resto da zona e os oprimiam, maior se tornava a sua importância moral no campo. Um pedido dos disciplinares era para o campo a primeira lei e, agora, tudo aquilo de que eles precisavam em material técnico, pediam-no e era obtido algures numa das obras, era transportado com risco através do campo, e com um segundo risco transmitia-se à barraca disciplinar, com a sopa, o pão ou os medicamentos.
Antes de mais foram pedidas e recebidas facas e pedras de amolar. Depois foram pregos, parafusos, betume, cimento, leite de cal, fios elétricos, isolantes. Com as facas cortaram cuidadosamente os encaixes de três tábuas do soalho, retiraram um plinto que as sustentava, retiraram os pregos dos topos dessas tábuas junto à parede e os pregos que a fixavam à asna no meio do compartimento. As três tábuas assim libertas foram unidas num painel único por uma ripa transversal pregada por baixo, e o prego principal nessa ripa foi espetado de cima para baixo. A cabeça do prego foi untada com betume da cor do chão e polvilhada com pó. O painel ajustava-se muito bem ao chão, não havia por onde lhe pegar, e nem uma única vez o ergueram pela ranhura com o machado. O painel era erguido do seguinte modo: retiravam o plinto, passavam um arame pelo interstício deixado em volta da cabeça do prego e puxavam. A cada mudança de equipa de escavadores voltavam a retirar e a recolocar o plinto. Todos os dias «lavavam o chão», humedeciam as tábuas com água para que elas inchassem e não tivessem vãos nem frestas. Este problema da entrada era um dos mais importantes. A secção de escavação era em geral mantida especialmente asseada, numa ordem exemplar. Ninguém se deitava calçado nas vagonetas, ninguém fumava, não havia objetos espalhados, não havia migalhas na mesa de cabeceira. Os inspetores nunca se detinham ali. «Com muito asseio!» E seguiam em frente.
O segundo problema era o problema do elevador da terra para o sótão. Na divisão de escavação, como em todas as outras, havia um fogão. Entre o fogão e a parede ficava um espaço estreito, onde mal cabia uma pessoa. A descoberta consistiu em transformar esse espaço de zona habitável em zona de escavação. Numa das câmaras desocupadas desmontaram por completo, sem deixar nada, uma das vagonetas. Com essas tábuas fecharam aquele vão, em seguida revestiram-nas com ripas, com estuque e caiaram-nas para ficarem da cor do fogão. Os vigilantes da disciplinar seriam capazes de recordar em qual das vinte salas da barracão o fogão estava unido à parede e em qual ficava um pouco afastado? Mas até o desaparecimento de uma vagoneta passou despercebido.
Assim que o estuque e a cal secaram, abriram com as facas o soalho e o teto daquele espaço agora fechado, onde foi colocado um escadote feito também ele das tábuas da vagoneta — e assim o subterrâneo baixo ficou ligado ao sótão espaçoso. Era um poço de mina, oculto aos olhares dos vigilantes — e a primeira mina em muitos anos em que aqueles homens novos desejavam trabalhar com gana!
Será possível, num campo de detenção, um trabalho que se funde com o sonho, que mobiliza toda a tua alma e te tira o sono? Sim, mas só esse trabalho para a fuga!
A tarefa seguinte era cavar. Cavar com as facas e afiá-las, é claro, mas aqui havia muitos outros problemas. O cálculo das galerias (engenheiro Mutiánov) — escavar até uma profundidade de segurança, mas não mais do que o necessário; traçar uma linha no percurso mais curto; determinar a melhor secção do túnel, saber sempre onde se está e marcar com justeza o lugar da saída. E também a organização dos turnos: cavar o máximo possível de horas por dia, sem mudar demasiadas vezes as equipas, e sempre de maneira irrepreensível, sempre com o grupo completo nas revistas da manhã e do fim da tarde. Havia também a questão do vestuário de trabalho, e a da limpeza — ninguém podia subir à superfície sujo de terra! E a questão da iluminação — como escavar um túnel de sessenta metros às escuras? Estenderam um fio elétrico para o subterrâneo e para o túnel (vai lá agora ligá-lo sem que ninguém dê por isso!) E também a sinalização: como chamar os escavadores do distante fundo do túnel, no caso de alguém entrar de improviso na barraca? Ou como poderiam eles próprios informar que tinham de sair imediatamente?
Mas o próprio rigor do regime disciplinar era também a sua fraqueza. Os vigilantes não podiam aproximar-se sorrateiramente e entrar na barraca sem serem notados — tinham de vir sempre pelo mesmo caminho cercado de arames farpados, chegar à cancela, abrir o cadeado que a fechava, depois aproximar-se da barraca, abrir o cadeado desta, retirar a tranca com estrondo — tudo isto era fácil de observar pela janela, na verdade não do sector da escavação, mas da «cabine» vazia à entrada — e só era preciso manter ali um observador. Os sinais para a mina eram dados por luz: duas piscadelas, prepara-te para sair; piscadelas rápidas, perigo! Alerta! Sair depressa!
Ao descerem para o subterrâneo, despiam-se completamente, depois do alçapão entravam por uma fresta estreita, para lá da qual não se imaginava que houvesse uma câmara alargada, onde estava uma lâmpada sempre acesa e havia casacos e calças de trabalho. Os outros quatro, sujos e nus (a equipa que saía de turno), subiam e lavavam-se com cuidado (a argila endurecia em bolas agarradas aos pêlos do corpo, era preciso molhá-las, ou arrancá-las juntamente com os pêlos).
No início de setembro, depois de quase um ano na prisão, Tenno e Jdanok foram transferidos (voltaram) para a disciplinar. Mal descansou um pouco, Tenno começou a mostrar-se inquieto — era preciso preparar a fuga! Mas nenhum dos da disciplinar, os mais convictos e desesperados fugitivos, reagia às censuras dele, de que estava a passar o melhor tempo para a fuga e que não se podia continuar assim, sem fazer nada! (Os cavadores tinham três turnos de quatro homens e não precisavam para nada de um décimo terceiro.) Então Tenno propôs abertamente que escavassem um túnel! — mas eles responderam que já tinham pensado nisso, mas que as fundações eram demasiado baixas. Então Tenno e Jdanok estabeleceram uma vigilância tão ciosa e competente de que nem os vigilantes seriam capazes. Eles estão a escavar, é evidente que estão! Mas onde? Porque é que estão calados?… Tenno dirigia-se ora a um, ora a outro e tentava suborná-los: «Estão a escavar de maneira descuidada, rapazes, de maneira descuidada! Está bem, sou eu que reparo, mas se fosse um bufo?»
Finalmente organizaram uma conferência e decidiram aceitar Tenno com uma digna equipa de quatro. Propuseram-lhe que inspecionasse a sala e descobrisse vestígios. Tenno esquadrinhou e farejou cada tábua do soalho e não descobriu nada! Para seu espanto e de todos os rapazes. Tremendo de alegria, desceu para o subterrâneo para trabalhar por sua conta!
A equipa subterrânea era assim distribuída: um, deitado, escavava a terra na galeria; outro, agachado atrás dele, metia a terra escavada em pequenos sacos de serapilheira, feitos especialmente para isso; um terceiro, rastejando, carregava os sacos (a tiracolo, nos ombros) para trás, pelo túnel, depois para o poço da mina e prendia-os um a um num gancho que descia do sótão. O quarto estava no sótão, de onde fazia descer os sacos vazios e puxava os cheios, espalhava-os caminhando em silêncio, por todo o sótão, formando uma camada pouco espessa, e no fim do turno cobria essa camada com escória, que havia em abundância no sótão.
A princípio arrastavam dois, e depois quatro sacos de cada vez, e para isso tinham fanado aos cozinheiros um tabuleiro de madeira e arrastavam-no por uma correia, com os sacos em cima. A correia passava por trás do pescoço e depois descia por baixo dos braços. Esfolava o pescoço, magoava os ombros, os joelhos ficavam arranhados, depois de um trajeto um homem ficava coberto de espuma, ao fim de um turno completo ficava capaz de morrer.
O chão era umas vezes de pedra, outras vezes de argila elástica. As pedras maiores tinham de ser evitadas, contornadas, desviando o túnel. Em cada oito ou dez horas de turno não avançavam mais de dois metros, e por vezes menos de um metro.
O mais difícil era a falta de ar no túnel: tinham vertigens, perdiam os sentidos, tinham vómitos. Foi necessário resolver também o problema do arejamento.
A passagem ou túnel tinha meio metro de largura e noventa centímetros de altura, e uma abóbada semicircular. Segundo os cálculos, o teto corria a uma profundidade de entre um metro e trinta e um metro e quarenta da superfície. As paredes laterais eram reforçadas com tábuas, e à medida que iam avançando alongavam o fio elétrico e penduravam novas lâmpadas.
Olhado ao longe, era como um metropolitano, o metro do campo!…
Faltavam entre seis e oito metros até à trincheira que circunda o campo. (Os últimos metros tinham de ser escavados com especial precisão, para sair no fundo da trincheira — nem mais abaixo, nem mais acima.)
E o que acontecerá depois? Konoválov, Mutiánov, Gadjiev e Tenno tinham já elaborado um plano, aprovado pelos dezasseis. A fuga seria à noite, por volta das dez horas, quando já em todo o campo tivesse terminado o controlo da noite, os vigilantes tivessem recolhido a suas casas ou se tivessem dirigido à barraca do comando, a guarda tivesse sido rendida nas atalaias e a revista à guarda tivesse terminado.
Todos desceriam, um a um, para a passagem subterrânea. O último observa, da «cabina», a zona; depois, ele e o penúltimo fixam a parte amovível do plinto solidamente às tábuas do alçapão, para que o plinto volte ao seu lugar. O prego de cabeça grande puxa-se para baixo ao máximo e ainda se fixam uns ferrolhos por baixo do soalho, fixando assim o alçapão, mesmo que tentem puxá-lo para cima.
E ainda: antes da fuga, retirar a grade de uma das janelas do corredor. Ao descobrir, na revista da manhã, a falta de dezasseis homens, os guardas não concluirão logo que se trata de um túnel e de uma fuga, mas tratarão de procurar na zona, pensando: os disciplinares foram ajustar contas com os bufos. E vão procurar também noutra parte do campo, se não terão eles passado para lá pelo muro. Trabalho limpo! Não descobrirão o túnel, por baixo da janela não haverá rastos, dezasseis homens foram levados pelos anjos para o céu!
Saem para a trincheira, depois rastejam pelo fundo desta, um a um, para longe da torre de vigia (a saída do túnel é demasiado próxima da torre); também um a um, saem para a estrada, fazem um intervalo entre cada quatro, para não levantar suspeitas e terem tempo para se orientarem.
O ponto de reunião geral é a passagem de nível da via férrea, por onde passam muitos automóveis. A passagem de nível faz uma lomba acima da estrada, deitam-se todos no chão ali perto e ninguém os vê. Aquela passagem está em mau estado (passavam por ali para o trabalho, viram), as travessas estão assentes de qualquer maneira, os camiões carregados de carvão ou vazios passam devagar. Dois deles devem levantar as mãos, fazer parar o camião logo à passagem, aproximar-se da cabine dos dois lados, pedir boleia. À noite, o mais certo é o motorista vir sozinho. Nesse momento puxam das facas, reduzem o condutor, sentam-no ao meio dos dois, Vaska Rijkov senta-se ao volante e todos saltam para cima da carroçaria do camião e toca a seguir para Pavlodar! Cento e trinta ou cento e quarenta quilómetros podem-se percorrer por certo em algumas horas. Pouco antes de chegar à balsa, virar para montante do rio (quando os transportavam para cá, repararam em algumas coisas), ali amarrar o condutor entre as moitas, estendê-lo, abandonar o camião, atravessar o Irtich num bote, dividirem-se em grupos e cada qual para seu lado! É a época em que recolhem os cereais, há muitos camiões em todas as estradas.
Deviam terminar o trabalho em 6 de outubro. Dois dias antes, em 4 de outubro, dois dos participantes foram transferidos. Tenno e Volodka Krivochein, um ladrão. Deste modo, Tenno não beneficiou da sua insistência em participar na escavação. O décimo terceiro elemento não foi ele, mas o demasiado desajeitado e agitado Jdanok, introduzido e protegido por ele. Stepan Konoválov e os seus amigos nesse momento crucial para eles, cederam a Tenno e confiaram nele.
Acabaram de escavar, saíram no lugar certo, Mutiánov não se enganara. Mas começou a nevar e adiaram até que secasse.
Na noite de 9 de outubro fizeram tudo exatamente como tinha sido planeado. O primeiro grupo de quatro saiu sem problemas — Konoválov, Rijkov, Mutiánov e aquele polaco que foi sempre o seu constante colaborador na engenharia da fuga.
Depois foi a vez do pequeno e desajeitado Kólia Jdanok rastejar para a trincheira. Não foi culpa dele, é claro, se por cima e muito perto soaram passos. Mas ele devia controlar-se, esconder-se e quando os passos se afastassem continuar a rastejar. Mas, demasiado vivo, ele levantou a cabeça. Quis ver — quem estaria a passar por ali?
O piolho mais lesto é sempre o primeiro a cair no pente.
Mas este piolho estúpido deitou a perder um grupo de fugitivos raro pela sua coesão e pelo seu projeto — catorze vidas, longas, complexas, que se cruzaram para aquela fuga. Para cada uma daquelas vidas, aquela fuga tinha um significado particular, importante, que dava sentido ao passado e ao futuro, de cada um deles dependiam outras pessoas, mulheres, filhos, e outros filhos ainda por gerar — mas o piolho mostrou a cabeça e foi tudo para a casa do diabo.
E quem ia a passar era afinal o comandante-adjunto da guarda, viu o piolho, gritou, disparou.
E todos os fugitivos, que já tinham descido para a passagem, retirado a grade, que já tinham fixado o plinto no alçapão, rastejaram agora para trás, para trás, para trás!
Quem é que já experimentou e conhece o fundo desse desespero da frustração? Esse desprezo pelos seus próprios esforços?
Eles voltaram, desligaram a luz no túnel, recolocaram a grade no seu lugar.
Muito depressa, toda a barraca disciplinar ficou cheia de oficiais do campo, oficiais da divisão, da escolta, de vigilantes. Começou o controlo pelas fichas e a transferência de todos para a prisão de alvenaria.
Mas não descobriram o lugar de onde partia a passagem! (Quanto tempo procurariam se tudo tivesse corrido bem, como se esperava?!) Perto do local onde Jdanok tinha escorregado, encontraram um buraco meio entulhado. Mas mesmo percorrendo o túnel até debaixo da barraca, era impossível compreender de onde desceram os homens ou onde tinham colocado a terra escavada.
Mas naquela secção «muito bem mantida» faltavam quatro homens, e os oito restantes foram implacavelmente moídos, o meio mais simples que os broncos têm para descobrir a verdade.
E de que serviria agora esconder?…
Aquele túnel tornou-se depois um lugar de excursão para toda a guarnição e para todos os vigilantes. O major Maksimenko, o pançudo chefe do campo de Ekibastuz, gabava-se depois na direção, perante os outros chefes de subdivisão:
— Pois eu tive um túnel, sim! Um metropolitano! Mas nós, com a nossa vigilância…
Apenas um piolho, afinal…
O alerta lançado nem deu aos quatro que saíram tempo para chegarem à passagem de nível. O plano fracassou. Passaram por cima da vedação de uma zona de trabalho desocupada do outro lado da estrada, atravessaram a zona, saltaram mais uma vez a vedação e seguiram para a estepe. Não se atreveram a ficar na aldeia para capturar uma viatura, porque a aldeia já estava cheia de patrulhas.
Tal como Tenno um ano antes, perderam de repente a rapidez e a probabilidade de fugir.
Seguiram para sueste, em direção a Semipalatinsk. Não tinham nem mantimentos nem forças para uma viagem a pé — nos últimos dias ficaram esgotados a terminar a escavação do túnel.
No quinto dia da fuga entraram numa iurta e pediram comida a uns cazaques. Como se pode adivinhar, estes recusaram a comida e dispararam com uma espingarda de caça contra os que a pediam. (Isto será da tradição dos povos da estepe? E se não é da tradição, de onde veio isso?…)
Stepan Konoválov avançou com a faca contra a espingarda, feriu o cazaque, tirou-lhe a espingarda e os alimentos. E seguiram caminho. Mas os cazaques perseguiram-nos a cavalo, encontraram-nos já perto do Irtich e chamaram um grupo operacional.
Foram cercados, espancados até ficarem em sangue e em carne viva, e depois já tudo é conhecido, tudo…
Se agora me puderem indicar fugas dos revolucionários russos dos séculos XIX e XX com tais dificuldades, com esta ausência de apoio exterior, com uma atitude tão hostil do meio, com uma punição tão ilegal dos capturados — que a citem!
E depois disso, digam que nós não lutámos.
Havia guardas com longos capotes de canhões pretos. Guardas do exército vermelho. Guardas de autodefesa. Guardas veteranos reservistas. Por fim, chegaram os sólidos rapazinhos, nascidos no primeiro quinquénio, que não tinham conhecido a guerra, pegaram nas pistolas-metralhadoras e vieram guardar-nos.
Duas vezes por dia, uma hora de cada vez, caminhamos unidos por um elo mortal de silêncio: qualquer um deles é livre de matar qualquer um de nós.
Caminhamos e nem olhamos para as peliças deles, nem para as armas — que nos importam eles? Eles caminham e olham constantemente as nossas filas negras. Segundo o regulamento, devem olhar sempre para nós, é isso que lhes ordenam, é esse o seu serviço. Devem cortar com um disparo cada movimento e cada passo nosso.
O que acharão eles de nós, com os nossos casacos pretos, os gorros cinzentos de pele estalinista[81] , as botas de feltro horríveis, de terceira época, com as solas quatro vezes mudadas — e todos cheios de remendos com os nossos números, não vão em todo o caso tratar-nos como verdadeiros homens?
Será de surpreender que o nosso aspeto cause nojo? Mas o nosso aspeto está calculado para isso mesmo. Os habitantes livres da aldeia, em especial os alunos da escola e as professoras, olham com horror dos passeios as nossas colunas, conduzidas pela rua larga. Dizem-nos que eles têm muito medo de que nós, sequazes do fascismo, corramos de repente em debandada, dominemos a escolta e desatemos a roubar, a violar, a queimar, a matar. E quem defende os habitantes da aldeia dessas feras é a escolta. Nobre escolta.
Estes rapazinhos olham para nós sem cessar, do cordão que formam à nossa volta e das torres de vigia, mas não lhes é dado saber nada de nós, apenas lhes é dado um direito: disparar sem aviso.
Oh, se eles viessem ter conosco às nossas barracas depois do anoitecer, se sentassem nas nossas vagonetas e ouvissem: por que razão este velhote foi preso, ou aquele homem ali. Aquelas torres de vigia ficariam desertas e aquelas pistolas-metralhadoras não disparariam.
Mas toda a astúcia e a força do sistema estão em que a nossa ligação mortal se baseia na ignorância. A sua compaixão para conosco é punida como traição à pátria, o seu desejo de falar conosco é como a violação de um juramento sagrado. E para quê falar conosco, se à hora indicada pelo gráfico vai chegar o instrutor político que lhes falará da fisionomia política e moral dos inimigos do povo que eles estão a guardar? Vai explicar-lhes, em pormenor e com muitas repetições, como estes palhaços são prejudiciais e constituem um peso para o Estado.
O instrutor político não se atrapalhará, não cometerá lapsos. Ele nunca dirá aos rapazinhos que há ali pessoas presas apenas porque creem em Deus, ou apenas porque têm sede de verdade, ou apenas por amor à justiça. E também por motivo nenhum.
Toda a força do sistema está em que um homem não pode simplesmente falar com outro homem, mas apenas através de um oficial ou de um instrutor político.
Toda a força daqueles rapazinhos está na sua ignorância.
Toda a força dos campos está naqueles rapazinhos. De dragonas vermelhas. Assassinos das torres de vigia e caçadores de fugitivos.
Aqui está uma dessas palestras políticas, segundo recordações de um membro da escolta desse tempo: «Os inimigos do povo que vocês vigiam continuam a ser a mesma canalha fascista. Nós constituímos a força e a espada punidora da Pátria e devemos ser firmes. Sem quaisquer sentimentos, sem nenhuma piedade.»
E é assim que se formam os rapazinhos que, quando um fugitivo cai, procuram dar-lhe pontapés na cabeça. Aqueles que a pontapé fazem saltar o pão da boca de um velho de cabelos brancos, algemado. Aqueles que olham com indiferença um fugitivo amarrado a debater-se contra as tábuas cheias de farpas da carroçaria de um camião — tem o rosto a sangrar, a cabeça ferida, mas eles olham com indiferença. Porque eles são a espada punitiva da Pátria.
Já depois da morte de Estaline, já condenado ao desterro perpétuo, estive internado numa vulgar clínica «livre» de Tachkent. De repente oiço: um jovem uzbeque, doente, conta aos vizinhos acerca do seu serviço no exército. A sua unidade vigiava carrascos e animais ferozes.
Uma ocasião interessante! — observar um Campo especial através dos olhos de um membro da escolta. Perguntei-lhe que espécie de canalhas eram esses e se o meu uzbeque alguma vez tinha falado pessoalmente com eles. E então ele contou-me que tinha ficado a saber tudo através dos instrutores políticos.
Ó vós que desencaminhastes esses jovens!… Mais valia que não tivésseis nascido!…
Contou vários casos. Por exemplo, o caso de um seu camarada que acompanhava uma leva e pareceu-lhe que alguém da coluna queria fugir. Premiu o gatilho e com uma rajada matou cinco reclusos. Como depois todos os da escolta afirmaram que a coluna seguia tranquilamente, o soldado apanhou um castigo severo: por cinco mortes, deram-lhe quinze dias de prisão (num calabouço aquecido, é claro).
Mas os casos como este, quem é que de entre os nativos do Arquipélago não os conhece e não os pode contar?… Quantos conhecemos nós nos ITL: nos locais de trabalho, onde não há zona, mas há uma linha invisível de cerco — soa um disparo, e um preso cai morto: dizem que saiu da linha. Talvez não tenha saído, é uma linha invisível e ninguém mais irá agora confirmar, para não ficar caído ao lado do primeiro.
Um homem com uma arma! O poder sem controlo de um homem — matar ou não matar outro.
E além disso é vantajoso! Os chefes estarão sempre do teu lado. Por uma morte nunca castigam. Pelo contrário, elogiam, recompensam, e quanto mais cedo o tiveres deitado abaixo, logo a meio do primeiro passo, maior é a tua vigilância, maior será a recompensa! Um mês de salário. Um mês de licença.
Em maio de 1953, em Kenguir, esses rapazinhos das pistolas-metralhadoras dispararam sem qualquer motivo uma rajada contra uma coluna acabada de chegar ao campo e que estava à espera da revista para entrar. Houve dezasseis feridos — mas se fossem simplesmente feridos! Dispararam com balas explosivas, há muito proibidas por todas as convenções capitalistas e socialistas. As balas saíam dos corpos por crateras — devastavam as vísceras, os maxilares, perfuravam as extremidades.
Por que armavam precisamente com balas explosivas a escolta dos Campos especiais? Quem aprovou isso? Nunca o saberemos…
Mas um desses rapazinhos, na realidade um dos melhores, não ficou ofendido, mas quer defender a verdade — Vladilen Zadormi, nascido em 1933, que serviu na Guarda militarizada de atiradores do MVD, no Niroblag, dos dezoito aos vinte anos. Escreveu-me várias cartas:
«Os rapazes não iam para lá por sua própria vontade — eram mobilizados pelo serviço de recrutamento, que os passava para o MVD. Ensinavam-lhes a disparar e a montar guarda. À noite, gelavam e choravam — para que diabo queriam eles o Niroblag com todos os seus reclusos! Não devemos culpar os rapazes — eles eram soldados, serviam a Pátria, mesmo que nesse serviço absurdo e terrível nem tudo fosse compreensível (mas o que era compreensível?… Ou tudo ou nada — A. S.) — eles fizeram um juramento, o seu serviço não era fácil.»
É sincero, dá que refletir. Mas significa também que era muito fraca ou completamente inexistente a sua formação humanitária, uma vez que não resistiu à preleção política. Nem todas as gerações e nem todos os povos podem produzir rapazinhos como estes. Não será este o principal problema do século XX: é admissível cumprir ordens que transferem para outros o peso da nossa consciência? Será possível não ter as suas próprias ideias sobre o mal e o bem e ir buscá-las às instruções impressas ou orais dos chefes?
Claro que nem os contemporâneos, nem a história omitirão uma hierarquia da culpabilidade. Claro que é evidente para todos que os oficiais são mais culpados; os operacionais mais culpados ainda; aqueles que escreveram as instruções e as ordens, ainda mais; e mais culpados que todos são aqueles que deram as indicações para que as escrevessem.
Mas em todo o caso, quem disparava, quem guardava, quem apontava as pistolas-metralhadoras não eram esses, mas os rapazinhos! Quem agredia a pontapés na cabeça um homem caído, eram em todo o caso os rapazinhos!…
Vladilen escreve também:
«Metiam-nos na cabeça, obrigavam-nos a decorar o USO-43 ss — estatuto da guarda de fuzileiros de 1943, um estatuto inteiramente secreto, cruel e temível. Mais o juramento. Mais a vigilância dos operacionais e dos adjuntos políticos. A bufaria, as denúncias. Os processos movidos contra os próprios fuzileiros… Separados por uma paliçada e pelo arame farpado, os homens de gabão e os homens de capote eram igualmente prisioneiros — uns por vinte e cinco anos, os outros por três.»
Isto está fortemente expresso: os fuzileiros também estavam de certo modo detidos, não por um tribunal militar, mas por um centro de recrutamento. Mas igualmente, isso não! Porque os homens de capote disparavam muito bem rajadas de pistola-metralhadora contra os homens de gabão.
Vladilen explica também:
«Os rapazes eram diversos. Havia os tarimbeiros limitados, que odiavam cegamente os presos. A propósito, eram particularmente zelosos os recrutas das minorias nacionais — bachquires, buriates, iacutos. Havia depois os indiferentes, que eram a maioria. Cumpriam o serviço sem fazer barulho e sem se queixarem. Aquilo que de mais gostavam era do calendário destacável e da hora em que chegava o correio. Havia finalmente os bons rapazes, que se compadeciam dos presos como de pessoas caídas em desgraça. E a maioria de nós compreendia que o nosso serviço não era bem visto pelo povo. Quando íamos de licença, não usávamos o uniforme.»
Mas é com a sua própria história que Vladilen defende a sua ideia. Embora na verdade os tipos como ele fossem muito poucos.
Passaram-no para as tropas de escolta por inadvertência de uma secção especial preguiçosa.
O padrasto, antigo funcionário dos sindicatos, tinha sido preso em 1937, e por esse motivo a mãe foi expulsa do partido. Quanto ao pai, comandante de brigada na Tcheka, membro do partido desde 1917, apressou-se a renegar a ex-mulher, e ao mesmo tempo o filho (conservou assim o cartão do partido, mas de qualquer modo perdeu o losango do NKDV[82]. A mãe lavou a sua mácula como dadora de sangue durante a guerra. (Não importa, o sangue dela era aceite pelos membros do partido e pelos sem partido.) O rapazinho «odiava os bonés azuis desde a infância e acabaram por lhe pôr um na cabeça… Gravou-se-me com demasiada nitidez na memória infantil a noite horrível em que uns homens com o uniforme do meu pai vasculharam sem cerimónias na minha cama de criança.»
«Não fui um bom soldado de escolta: conversava com os presos, fazia recados para eles. Deixava a minha espingarda ao pé da fogueira e ia comprar coisas para eles à cantina ou pôr cartas no correio. Penso que nos OLP de Promejutotchnaia, de Missakort, de Parma ainda se lembravam do fuzileiro Volódia… Por causa disso, por insubordinação, pela minha relação com os presos abriram-me um processo disciplinar… O esgalgado Samutin… agredia-me nas faces, batia-me nos dedos com um pisa-papéis, porque eu me recusava a assinar uma confissão por causa das cartas dos presos. Esse lombriga bem podia cair morto no chão, eu sou pugilista de segunda categoria, fazia o sinal da cruz com um peso de duas arrobas na mão — mas dois vigilantes seguravam-me nos braços… Mas os investigadores não tinham tempo para mim: o ano de 1953 deu muito que fazer ao MVD. Não fui condenado, mas deram-me um bilhete de lobo — artigo 47-G. E do calabouço da divisão — espancado, enregelado, mandaram-me para casa… O chefe de brigada Andrei, posto em liberdade por essa altura, cuidou de mim na viagem.»
Mas imaginemos que um oficial da escolta queria manifestar indulgência pelos presos. Ele só o podia fazer na presença dos soldados e através deles. E portanto, dada a generalizada exacerbação de uns contra outros, isso seria impossível, e além disso «incómodo». E alguém o denunciaria de imediato. O sistema!
O que nos deve surpreender não é que não tenha havido sublevações e revoltas nos campos; o que é surpreendente é que as houve, apesar de tudo.
Como tudo aquilo que é indesejável na nossa história, ou seja três quartas partes do que realmente aconteceu, também essas revoltas foram tão cuidadosamente recortadas, as costuras recosidas e lambidas, os seus participantes eliminados, as testemunhas distantes intimidadas, os relatórios das repressões queimados ou escondidos em cofres, atrás de vinte paredes — que essas revoltas já hoje se tornaram um mito, passados quinze anos sobre algumas, e apenas dez sobre outras. (Não é pois de espantar que se diga: não existiu Cristo, nem Buda, nem Maomé. Aí contam-se milénios.)
Quando isso já não preocupar ninguém vivo, os historiadores serão autorizados a aceder aos restos dos papéis, os arqueólogos escavarão algures com uma pá, e aclarar-se-ão as datas, os lugares, os contornos dessas revoltas e os nomes dos seus chefes.
* * *
Ao juntar os do artigo Cinquenta e Oito num Campo especial, Estaline pensava que isso seria mais medonho. Mas deu-se o contrário. Todo o sistema de repressão elaborado no tempo dele assentava na separação dos descontentes; em que eles não se olhassem uns aos outros nos olhos, não se contassem, não soubessem quantos eram; em incutir a toda a gente, incluindo aos próprios descontentes, que não havia descontentes, que havia apenas alguns casos isolados de enraivecidos, com o vazio na alma e condenados ao isolamento.
Mas nos Campos especiais os descontentes encontraram-se em massas de milhares. E contaram-se. E compreenderam que não tinham nenhum vazio na alma, mas noções da vida mais elevadas do que os seus carcereiros; do que aqueles que os traíam; do que os teóricos que explicavam por que razão eles deviam apodrecer num campo.
A princípio quase ninguém reparou nessa inovação do Campo especial. Do exterior parecia ser a continuação dos ITL. Mas os de direito comum, pilares do regime e dos chefes do campo, perderam a sua proa.
Desanimados os gatunos, acabaram-se os roubos no campo. Tornou-se possível deixar uma encomenda na mesa de cabeceira. À noite não era necessário colocar os sapatos debaixo da cabeça, podiam-se deixar no chão e de manhã estariam no mesmo lugar. Podia-se deixar a bolsa do tabaco na mesa de cabeceira, sem a esmagar durante a noite num bolso lateral.
Isto parecem bagatelas? Mas não, são coisas imensas! Pararam os roubos e as pessoas começaram a olhar os seus vizinhos sem suspeição e com simpatia. Oiçam, rapazes, nós somos mesmo políticos?…
Na brigada começam as conversas em voz baixa, mas não já acerca da ração de pão, nem das papas, mas sobre coisas que nem em liberdade se ouvem — e cada vez mais livremente, cada vez mais livremente!
E a principal divisão entre os homens não é afinal tão grosseira como era nos ITL: alapados/trabalhadores, direito comum/artigo Cinquenta e Oito, mas muito mais complexa e interessante: conterrâneos, grupos religiosos, homens experientes, homens de ciência.
As autoridades demorarão tempo, bastante tempo a perceber e notar alguma coisa. Mas os capatazes já não usam chibatas, e nem sequer gritam como antes. Dirigem-se amigavelmente aos chefes de brigada: são horas de ir para a formatura, Komov. (Não é que a alma dos capatazes tenha sido tocada, mas há no ar alguma coisa nova e inquietante.)
Mas tudo isto é muito lento. Passam-se meses e meses nestas mudanças.
Surge uma ideia ousada, uma ideia temerária, uma ideia que é um degrau: como fazer para que não sejamos nós a fugir deles, mas eles a fugirem de nós?
Basta fazer esta pergunta, basta a alguns homens concebê-la e fazê-la, e a alguns outros ouvi-la — e acabou-se no campo a era das fugas. Começou a era das revoltas.
* * *
Mas como iniciá-la? Começá-la com o quê? Se nós estamos imobilizados, envolvidos por tentáculos, privados de liberdade de movimentos — como começar?
De repente, um suicídio. Na barraca disciplinar n.° 2 encontraram um enforcado. (Começo a expor todas as fases do processo pelo exemplo de Ekibasrtuz. Mas note-se: noutros Campos especiais todas as fases foram as mesmas!) Para as autoridades não é nenhum desgosto especial, tiraram-no da corda e enviaram-no para o monturo.
Mas pela brigada corre um rumor: afinal, era um bufo. Não foi ele que se enforcou. Enforcaram-no.
Uma lição.
«Matem os bufos!» — aí está o elo. Faca no peito do bufo! Fazer facas e cortar os bufos — aí está!
Agora, enquanto escrevo este capítulo, fiadas de livros humanistas erguem-se à minha volta nas prateleiras e as suas lombadas gastas cintilam reprovadoras, como estrelas através das nuvens: nada neste mundo se pode conseguir pela violência. Ao pegar na espada, na faca ou na espingarda, depressa nos tornamos iguais aos nossos carrascos e violentadores. E não terá fim…
Não terá fim… Aqui, sentado à mesa, quente e asseado, estou inteiramente de acordo com isso.
Mas é preciso apanhar vinte e cinco anos por nada, envergar quatro números, manter as mãos sempre atrás das costas, ser revistado de manhã e à noite, extenuar-se no trabalho, ser arrastado para o BUR por denúncia, patinhar na terra irremediavelmente — para dali, desse fosso, todos os discursos dos grandes humanistas parecerem uma tagarelice de paisanos bem alimentados.
Não terá fim!… — mas terá início? Haverá ou não uma aberta na nossa vida?
O povo subjugado concluiu: com a suavidade não erradicarás a violência.
Não sei como se passou noutros lugares (começaram a matá-los em todos os Campos especiais, até no campo de inválidos de Spassk), mas entre nós começou com a chegada de uma leva vinda de Dubovka — composta principalmente por ucranianos ocidentais. Fizeram muito em toda a parte por esse movimento, e foram eles que desencadearam a mecânica. (A leva de Dubovka introduziu entre nós o bacilo da revolta.)
Rapazes jovens, fortes, capturados diretamente nos atalhos da guerra de guerrilhas, em Dubovka olharam à sua volta, ficaram horrorizados com a letargia e a escravidão — e deitaram a mão à faca.
Em Dubovka isso acabou depressa numa revolta, num incêndio e na dissolução. Mas os patrões do campo nem sequer se preocuparam em manter separados de nós os revoltosos que acabavam de chegar. Repartiram-nos por todo o campo, por todas as brigadas. Era o procedimento do ITL: a dispersão abafava o protesto. Mas no nosso meio, que já se purificava, a dispersão só ajudou a incendiar mais depressa toda a massa.
Agora os assassínios sucediam mais depressa do que as fugas no seu melhor período. Cometiam-nos confiadamente e de maneira anónima: no momento favorito — às cinco horas da manhã, quando as barracas eram abertas por vigilantes solitários, que iam logo abrir outras mais adiante e os presos ainda estavam quase todos a dormir — vingadores mascarados entravam calmamente na secção indicada, aproximavam-se da vagoneta prevista e matavam sem hesitar o traidor já acordado que soltava um berro selvagem, ou mesmo ainda a dormir. Depois de verificar que ele estava morto, saíam com ar atarefado.
Estavam mascarados, os seus números eram invisíveis, descosidos ou tapados. Mas se os vizinhos do morto os reconheciam pelas silhuetas, não só não se apressavam a dizê-lo, como até nos interrogatórios, mesmo sob as ameaças, não cediam, afirmando: não, não, eu não sei, não vi. E isto não era já apenas a velha verdade, assimilada por todos os oprimidos: «o que não sabe, no fogão está sentado, o que muito sabe, pela corda é levado» — esta era a sua própria salvação! Porque aquele que dissesse seria morto logo no dia seguinte às cinco da manhã, e a benevolência do operacional em nada o ajudaria.
E os assassínios (embora por enquanto não tivessem sido mais de uma dezena) tornaram-se norma, um fenómeno habitual. Quando se iam lavar, ou receber a ração de pão da manhã, os presos perguntavam: mataram alguém hoje? Nesse desporto arrepiante, os ouvidos dos presos ouviam o gongo subterrâneo da justiça.
Isto era feito na mais absoluta clandestinidade. Alguém (de reconhecida autoridade) limitava-se a dizer algures a um outro: aquele ali! Não se preocupava em saber quem mataria, nem quando, nem onde iriam buscar a faca. E os combatentes, que teriam essa preocupação, não conheciam o juiz cuja sentença tinham de executar.
E há que reconhecer — apesar da ausência de documentos comprovativos da qualidade de bufo — que esse tribunal não constituído, ilegal e invisível, julgava com muito mais acerto, com menos erros do que todos os tribunais, troikas, colégios militares e OSO nossos conhecidos.
O abate, como nós lhe chamávamos, funcionava com tanta perfeição que já abarcava horas do dia e se tornou quase público.
Em cinco mil homens, tinha havido uma dúzia de mortes — mas a cada golpe da faca removia-se um dos tentáculos que se nos colavam e nos enredavam. Soprava um ar surpreendente! Exteriormente, continuávamos a ser presidiários, e continuávamos numa zona do campo, mas na realidade tornámo-nos livres — livres porque pela primeira vez em toda a nossa vida, tanto quanto nos lembrávamos, dizíamos em voz alta tudo o que pensávamos! Quem não passou por essa mudança não pode imaginar!
E os bufos já não bufavam…
Oscilava no ar uma balança invisível. Num dos pratos amontoavam-se todos os espectros conhecidos: os gabinetes dos comissários instrutores, os murros, as vergastas, as sessões de estátua, as boxes em pé, os cárceres frios e húmidos, as ratazanas, os percevejos, as segundas e terceiras condenações.
E no outro prato da balança estava apenas uma faca — para ti, que cedes! Ela destinava-se apenas ao teu peito, e não em qualquer momento incerto, mas amanhã ao amanhecer, e nem toda a força da Tcheka (do KGB) te poderia salvar. Ela nem era comprida, era apenas do tamanho necessário para te penetrar bem entre as costelas. Nem sequer tinha propriamente um cabo — apenas um bocado de fita isoladora enrolada na parte não aguçada do bocado de serra — mas isso dava-lhe precisamente o atrito necessário para que a faca não escorregasse da mão.
E era essa ameaça vivificante que pesava mais!
E agora, as autoridades ficaram surdas e cegas!
O aparelho mais informado deixou de funcionar, esse aparelho sobre o qual assentou durante décadas a glória dos todo-poderosos e omniscientes Órgãos.
Foi uma época nova, entre lúgubre e alegre, na vida dos Campos especiais! Em todo o caso, não éramos nós que fugíamos! — Eles fugiam, livrando-nos da sua presença!
Uma época inaudita, impossível neste mundo: um homem com a consciência pesada não pode dormir descansado! O castigo vem, não no outro mundo, não diante do tribunal da história, mas é um castigo vivo e palpável, que levanta por cima da tua cabeça uma faca ao amanhecer. Isto só nos contos se pode imaginar: a terra da zona é macia e morna debaixo dos pés das pessoas honestas, mas sob os pés dos traidores, ela pica e arde!
O soturno edifício de alvenaria do BUR, húmido, frio e escuro, rodeado por uma sólida vedação de tábuas de quatro centímetros — esse BUR preparado pelos patrões do campo para os que se recusam ao trabalho, para os fugitivos, para os obstinados, para os protestantes, para os ousados — começou de repente a receber em aposentadoria os bufos, sanguessugas e tiranetes!
Não se pode negar um certo humor àquele que primeiro teve a ideia de recorrer aos tchekistas e pedir-lhes, em troca dos seus bons serviços, proteção contra a ira do povo num calabouço de alvenaria. Que eles próprios tenham pedido uma prisão mais sólida, para fugirem não da prisão, mas para a prisão — acho que nem a história nos deu exemplo de uma coisa assim.
Os chefes e os operacionais colocaram à disposição deles a melhor cela do BUR (os espirituosos do campo chamavam-lhe depósito de bagagens), cederam-lhes colchões, mandaram aumentar o aquecimento, atribuíram-lhes uma hora de passeio.
Aquilo que os detentores dos nossos corpos e das nossas almas menos queriam era reconhecer que o nosso movimento era político. Nas ordens ameaçadoras (os vigilantes andavam pelas barracas e liam-nas) o que estava a começar era descrito como banditismo. Declarava-se com pouca convicção que os bandidos seriam descobertos (por enquanto nem um tinha ainda sido descoberto) e, com menos convicção ainda, fuzilados. Nessas ordens apelava-se também à massa dos presidiários para que condenasse os bandidos e lutasse contra eles!…
Os presos ouviam e dispersavam, a rir-se.
As ordens não ajudaram. A massa dos presos não se pôs ao lado dos seus amos a condenar e combater. E a medida seguinte foi: transferir todo o campo para o regime disciplinar! Isto significava: durante todo o tempo dos dias úteis livre do trabalho e todos os domingos de manhã à noite, devíamos ficar encerrados, como na prisão, usar a selha e até receber a comida nas barracas. A sopa e as papas passaram a ser distribuídas pelas barracas em grandes dornas, e o refeitório ficava deserto.
Era um regime penoso, mas não se manteve por muito tempo.
O objetivo das autoridades era que nós sentíssemos demasiado peso, que nos revoltássemos contra os assassinos e os denunciássemos. Mas nós estávamos todos dispostos a sofrer, a aguentar — valia a pena! Havia ainda outro objetivo: que nenhuma barraca ficasse aberta, para que os assassinos vindos de outra barraca não pudessem entrar, porque numa mesma barraca seria mais fácil identificá-los. Mas deu-se um novo assassínio — e uma vez mais não descobriram ninguém, uma vez mais todos «não viram» e «não sabiam». E nos locais de trabalho também racharam a cabeça a alguém, e disto não era possível precaver-se com as barracas fechadas.
Lembraram-se então de construir na zona uma «grande muralha da China». Era um muro de dois tijolos de espessura e quatro metros de altura, erguido transversalmente no meio da zona, prevendo dividi-la em duas partes, mas deixando por enquanto uma brecha. Esse muro era muito incómodo para nós, era evidente que as autoridades preparavam uma qualquer vileza, mas tivemos de construí-lo.
Mas o regime disciplinar foi revogado.
E de novo as facas cintilaram.
Então os patrões tomaram uma decisão: apanhar. Sem os bufos, não sabiam quem apanhar precisamente, mas em todo o caso tinham algumas suspeitas e suposições (ou talvez alguém tivesse discretamente reconstituído as denúncias).
Chegaram dois vigilantes a uma barraca, depois do trabalho, como uma rotina, e disseram: «Prepara-te, vamos».
Mas o preso olhou os rapazes e disse:
— Não vou.
E realmente! Neste habitual e simples apanhar, ou detenção, a que nós nunca resistimos, que estamos acostumados a aceitar como um golpe do destino, há afinal esta possibilidade: não vou! As nossas cabeças livres compreenderam agora isso!
— Como é que não vais? — atacaram os vigilantes.
— É assim, não vou! — respondeu o preso com firmeza. — Aqui também não estou mal.
— E aonde é que ele deve ir?… E porque é que deve ir? Nós não o deixamos levar!… Não deixamos! — gritaram de todos os lados.
Os vigilantes viraram-se e reviraram-se e foram-se embora.
Experimentaram noutra barraca, a mesma coisa.
E os lobos compreenderam que nós já não éramos as ovelhas de antes. Que agora, para nos apanharem, só pela astúcia, ou na casa da guarda, ou com um destacamento completo. Mas no meio da multidão, não nos apanhariam.
E nós, libertos da imundície, livres daqueles que nos espiavam e escutavam, olhámos à nossa volta e vimos com todos os olhos que éramos milhares! Que éramos presos políticos! Que já podíamos resistir!
A revolução crescia. A sua aragem, que parecia ter decaído, impelia-nos agora como um furacão.
Agora que entre nós e os nossos guardiões não havia já um simples rego, que se alargara e se tornara um fosso, erguíamo-nos sobre dois taludes e mediamo-nos — o que viria a seguir?
Dizer que nos «erguíamos» é naturalmente uma imagem. Nós íamos todos os dias para o trabalho, não nos atrasávamos para a revista, não pregávamos partidas uns aos outros, não havia refratários, tínhamos nos locais de produção registos nada maus, e ao que parece os patrões do campo podiam estar satisfeitos conosco. E nós também podíamos estar contentes com eles: perderam por completo o hábito de gritar, de ameaçar, já não nos metiam no calabouço por ninharias e não reparavam que nós já tínhamos deixado de tirar os gorros da cabeça na presença deles.
E, no entanto, nós e eles refletíamos intensamente: o que acontecerá a seguir? As coisas não podiam ficar assim: não bastava para eles e não bastava para nós. Alguém teria de desferir um golpe.
Mas o que poderíamos nós esperar obter? Agora falávamos em voz alta, sem cautelas, dizíamos tudo o que queríamos, tudo o que tínhamos acumulado (experimentar a liberdade de palavra ainda que apenas naquela zona, mesmo tão tarde na vida, era delicioso!).
Sobre aquilo em que todos concordávamos, não podia haver dúvidas — eliminar as coisas mais humilhantes: que à noite não nos fechassem nas barracas e retirassem as selhas; que nos tirassem os números; que o nosso trabalho não fosse completamente gratuito; que autorizassem a escrever doze cartas por ano. (Mas tudo isto, tudo isto, e até vinte e quatro cartas por ano já o tínhamos no ITL — mas como era possível viver lá?)
Mas quanto à obtenção da jornada de trabalho de oito horas, mesmo entre nós não havia unanimidade…
Ponderávamos também sobre as vias: como proceder? O que fazer? Era evidente que com as mãos nuas nada podíamos contra um exército moderno, e por isso o nosso caminho não seria a sublevação armada, mas a greve.
Mas corria ainda em nós o sangue de escravos. A palavra «greve» soava tão horrível aos nossos ouvidos, que procurávamos apoio na greve de fome: se iniciássemos as duas greves ao mesmo tempo, isso parecia aumentar o nosso direito moral de fazer greve. À greve de fome parece em todo o caso que temos algum direito — mas à greve do trabalho? Assim, avançando voluntariamente para uma greve de fome totalmente inútil, íamos para uma voluntária quebra das nossas forças físicas na luta. (Felizmente, parece que depois de nós nenhum campo repetiu esse erro de Ekibastuz.)
Refletimos também sobre os pormenores de uma possível dupla greve.
Falava-se aqui e ali, num grupo e noutro, de tudo isso que nos parecia inevitável e desejável — e ao mesmo tempo, por falta de hábito, como que impossível.
Mas os nossos guardiões desferiram os seus golpes antes de nós.
E tudo rolou depois por si mesmo.
Tranquilamente, festejámos nas nossas habituais vagonetas, nas habituais brigadas, barracas, secções e cantos, o ano novo de 1952. E no domingo, 6 de janeiro, véspera do Natal ortodoxo, quando os ucranianos ocidentais se preparavam para festejar, preparar a papa ritual, jejuar até à primeira estrela e depois cantar as canções festivas tradicionais — de manhã, depois da revista, fecharam-nos e não voltaram a abrir.
Ninguém estava à espera! Pelas janelas vimos que da barraca vizinha retiravam para aí uns cem presos com todos os seus pertences e os levavam para a casa da guarda.
Uma transferência?…
Em seguida vêm para a nossa barraca. Vigilantes. Oficiais com fichas. E a partir das fichas fazem a chamada… Sair com todas as coisas… e também os colchões, tal como estão, cheios!
Então é isso! Uma redistribuição! A guarda estava postada na brecha da «muralha da China». Amanhã a brecha será fechada. E a nós conduzem-nos para lá do posto da guarda, várias centenas, com os sacos e os colchões, como vítimas de um incêndio, em torno do campo e através de outro posto da guarda, para outra zona. E dessa zona trazem outros em sentido contrário.
E o objetivo dos patrões torna-se evidente com bastante rapidez: numa das metades (o campo n.° 2) ficaram apenas os ucranianos ingénuos, uns dois mil homens. Na metade para onde nos levaram, que será o campo n.° 1, — três mil de todas as restantes nacionalidades — russos, estonianos, lituanos, letões, tártaros, caucasianos, georgianos, arménios, judeus, polacos, moldavos, alemães e diversos casos de povos pouco numerosos capturados nos campos de batalha da Europa e da Ásia.
No campo dos ucranianos ficou o hospital, o refeitório e o clube. No nosso, em vez disso, ficou o BUR. Os ucranianos, banderistas, os rebeldes mais perigosos quiseram afastá-los o mais possível do BUR. Mas porquê?
Corre pelo campo um rumor digno de crédito (dos trabalhadores que levam a sopa ao BUR), segundo o qual os bufos no seu «depósito» se tornaram insolentes: prendem junto deles alguns suspeitos (dois ou três apanhados aqui e ali), e os bufos torturam-nos, estrangulam-nos, espancam-nos, obrigam-nos a falar, a dar nomes: quem são os assassinos? É então que se revela todo o objetivo: torturam! Não é a própria matilha que tortura, encarregou disso os bufos: procurem vocês mesmos os vossos assassinos! E assim ganham o pão, os parasitas. E foi para isso que afastaram os ucranianos do BUR, para que não penetrassem lá. Confiam mais em nós: nós somos gente submissa de diversas nacionalidades, não chegaremos a acordo. E os rebeldes estão do outro lado. Entre os dois campos está o muro de quatro metros de altura.
Com tantos historiadores profundos, tantos livros eruditos, e não aprenderam a prever esta misteriosa inflamação das almas humanas, este misterioso surgimento das explosões sociais, nem sequer a explicá-los depois de acontecerem.
Por vezes enfia-se uma estopa a arder por baixo de uma pilha de lenha, e o fogo não pega. Mas uma pequena centelha solitária voa da chaminé para o alto, e aí temos toda uma aldeia completamente reduzida a cinzas.
Os nossos três mil homens não se prepararam para nada, não estavam prontos para nada; ao fim do dia regressaram do trabalho, e de repente na barraca ao lado do BUR começaram a desmontar as suas vagonetas, a agarrar as barras longitudinais e as cruzetas, e, correndo na penumbra, puseram-se a golpear a sólida vedação à volta da prisão do campo. E ninguém tinha um machado ou uma barra de ferro, porque esses instrumentos não existem na zona.
Os golpes eram como os de uma boa brigada de carpinteiros no trabalho, as tábuas foram as primeiras a ceder e então começaram a arrancá-las; o rangido dos pregos de doze centímetros soou em toda a zona. Aparentemente não eram horas de os carpinteiros trabalharem, mas em todo o caso os sons eram os do trabalho, e não se lhe atribuiu logo qualquer significado nem nas atalaias nem entre os vigilantes, nem os trabalhadores das outras barracas. A vida vespertina seguia o seu curso: algumas brigadas iam jantar, outras saíam de jantar, uns iam à enfermaria, outros à loja, outros levantar alguma encomenda.
Mas de qualquer modo os vigilantes inquietaram-se, foram espreitar ao BUR, àquela parede no escuro onde as coisas estavam em ebulição, queimaram-se e voltaram para trás, para a barraca do comando. Alguém com um pau perseguiu mesmo um vigilante. Então, para completar a música, alguém começou a quebrar, com pedras ou com paus, as vidraças da barraca do comando. Os vidros do comando estoiravam, sonoros, alegres, ameaçadores!
O objetivo dos rapazes não era desencadear uma revolta, nem sequer apoderar-se do BUR (isso seria difícil), mas apenas despejar gasolina pela janelinha na cela dos bufos e deitar-lhe fogo — para saberem quem somos, mas não muito! Mas das atalaias soaram as metralhadoras, e eles não conseguiram deitar fogo.
Os vigilantes e o chefe do regime disciplinar, Matchekhovski, fugidos da zona, informaram a divisão. Esta ordenou por telefone que as atalaias dos cantos abrissem fogo das metralhadoras — contra três mil homens desarmados, que nada sabiam do que se passava. (A nossa brigada, por exemplo, estava no refeitório e foi lá que ouvimos todo aquele tiroteio, sem percebermos nada.)
Por uma ironia do destino, isto aconteceu em 22 de janeiro pelo calendário antigo, 9 de janeiro pelo novo calendário, dia que nesse ano ainda era assinalado como luto solene em memória do domingo sangrento. E para nós foi uma terça-feira sangrenta, muito mais vasta para os carrascos do que em Petersburgo: não numa praça, mas na estepe, e sem testemunhas, nem jornalistas, nem estrangeiros.
No escuro, começaram a disparar as metralhadoras ao acaso para a zona. As balas perfuravam as paredes finas das barracas e feriam, como sempre acontece, não aqueles que assaltavam a prisão, mas aqueles que nada tinham com o assunto. Na barraca 9 foi morto na sua cama um velho pacífico, que estava a acabar a sua pena de dez anos: devia sair em liberdade dentro de um mês.
Os assaltantes abandonaram o pequeno pátio da prisão e espalharam-se pelas suas barracas (ainda tinham de reconstituir as suas vagonetas, para não deixarem vestígios). Muitos outros também compreenderam pelo tiroteio que o melhor era ficarem nas barracas. Outros ainda, pelo contrário, precipitaram-se para o exterior e andaram pela zona, procurando compreender o quê e o porquê.
Nessa altura já não restava um único vigilante na zona. A barraca do comando, esvaziada de oficiais, tinha um ar um pouco sinistro com as janelas escancaradas e os vidros partidos. As atalaias estavam em silêncio. Curiosos e buscadores da verdade vagueavam pelo território.
Foi então que se abriram de par em par os portões do nosso campo e os soldados da escolta entraram em pelotão, com as pistolas-metralhadoras a disparar rajadas ao acaso. Espalharam-se assim em leque para todos os lados, e atrás deles vinham os vigilantes enfurecidos, armados de tubos de ferro, paus e o que calhava.
Avançavam em vagas por todas as barracas, passando a zona a pente fino. Depois calaram-se as pistolas-metralhadoras, os soldados pararam e os vigilantes avançaram, apanhavam os que se tinham escondido, feridos ou ainda ilesos, e espancavam-nos sem piedade.
Houve umas duas dezenas de feridos e espancados, uns esconderam-se e ocultaram as feridas, outros foram parar na enfermaria, e o seu destino era a prisão e um processo por participação numa revolta.
Agora as coisas eram claras: de manhã não sairíamos para o trabalho.
A dupla greve, de fome e do trabalho, não preparada, sem um projeto devidamente acabado, começava agora de improviso, sem um centro, sem nada combinado.
Noutros campos, depois, onde se apoderaram do depósito dos víveres e não foram para o trabalho, a coisa foi, é claro, mais inteligente. No nosso campo, embora de uma maneira não muito inteligente, foi imponente: três mil homens ao mesmo tempo recusaram o pão e o trabalho.
De manhã nem uma única brigada enviou um homem ao corte do pão. Nenhuma brigada foi ao refeitório para a sopa e as papas já preparadas. Os vigilantes não compreendiam nada: entravam com desenvoltura nas barracas uma segunda vez, uma terceira, quarta a chamar-nos; depois, ameaçadores, queriam forçar-nos; depois, com suavidade, convidavam-nos: por enquanto a só ir ao refeitório buscar o pão, mas da formatura nem palavra.
Mas ninguém foi. Estavam todos deitados, vestidos, calçados e calados. Só os chefes de brigada tinham que dizer alguma coisa, e murmuravam:
— Isso não dará em nada, chefe…
Por fim acabaram-se as tentativas de nos persuadir e as barracas foram fechadas.
Nos dias que se seguem, só os faxineiros saíram das barracas, para ir despejar as selhas e trazer água potável e carvão. Só aqueles que estavam de cama na enfermaria eram autorizados pela comunidade a não fazer greve de fome. E só os médicos e os enfermeiros eram autorizados a trabalhar.
E os patrões não tinham já a possibilidade de nos ver e de penetrar nas nossas almas. Abriu-se um fosso entre os capatazes e os escravos.
Quem participou daqueles três dias da nossa vida não os esquecerá nunca mais. Não víamos os nossos camaradas das outras barracas nem víamos os cadáveres não enterrados que lá jaziam. Mas estávamos todos unidos por um elo de aço através da zona deserta do campo.
A greve de fome foi declarada não por homens bem alimentados, com reservas de gordura debaixo da pele, mas por homens magros, esgotados, diariamente perseguidos pela fome ao longo de muitos anos, que dificilmente conseguiam algum equilíbrio no seu corpo, a quem bastavam cem gramas a menos para se sentirem transtornados. E os mais famintos faziam greve como todos os outros, embora três dias de fome os pudessem levar à morte de modo irreversível. A comida que nós recusávamos, que sempre considerámos miserável, transformava-se agora, na letargia da fome, em lagos de saciedade.
A greve de fome foi declarada por homens educados durante décadas na lei dos lobos: «morre tu hoje, e eu amanhã!» E ei-los que se regeneraram, saíram do seu pântano nauseabundo e concordaram que era melhor morrerem todos hoje do que continuar amanhã a viver assim.
Nos quartos das barracas estabeleceu-se uma espécie de solene relação de afeto uns pelos outros. Todos os restos de comida que alguém tinha, em especial os que recebiam encomendas, eram agora colocados num sítio comum, sobre um pano estendido, e depois por uma decisão coletiva da secção uma parte era dividida, e a outra guardava-se para o dia seguinte.
O que fariam os nossos patrões, ninguém podia prever. Esperavam que começasse uma vez mais o tiroteio a partir das atalaias sobre as barracas. O que menos se esperava era que houvesse cedências. Em toda a nossa vida nunca tínhamos conseguido nada deles e a nossa greve exalava a amargura do desespero.
Mas nessa desesperança havia qualquer coisa de satisfação. Nós demos um passo inútil, desesperado, que acabaria mal, e estava certo. As nossas barrigas estavam vazias, os corações apertados — mas satisfazíamos uma outra necessidade, superior.
E pela segunda noite, e a terceira manhã, e a terceira tarde a fome esfacelava-nos o estômago com as suas unhas.
Quando na terceira manhã os tchekistas convocaram os chefes de brigada a deslocarem-se à entrada, a decisão comum foi: não ceder!
Um graduado acabado de chegar disse o seguinte:
— A direção do Campo das Areias pede aos reclusos que aceitem a comida. A direção receberá todas as reclamações. Estudará e eliminará as causas do conflito entre a administração e os reclusos.
Não nos terão enganado os nossos ouvidos? Pedem-nos que aceitemos a comida? — e acerca do trabalho, nem uma palavra. Nós atacámos a prisão, quebrámos os vidros e os candeeiros, perseguimos os vigilantes com facas, e isso, afinal, não é uma revolta? — mas um conflito entre! — entre partes iguais — a administração e os reclusos!
Bastou que nos uníssemos por dois dias e duas noites, e os nossos donos mudaram o tom! Nunca em toda a nossa vida, não apenas de reclusos, mas mesmo de homens livres, membros do sindicato, ouvimos dos patrões discursos tão untuosos!
Mas os chefes de brigada retiraram-se sem olharem para trás.
Foi a nossa resposta.
E a barraca foi fechada.
De fora, ela parece aos patrões tão muda e intratável como antes. Mas lá dentro, pelas camaratas, começou uma discussão arrebatada. A tentação era demasiado grande! A suavidade do tom tocou mais os presos pouco exigentes do que todas as ameaças. Ergueram-se vozes — ceder. Que mais podíamos conseguir, na verdade?…
Estávamos cansados! Queríamos comer! A lei misteriosa que uniu os nossos sentimentos e os elevou começava agora a bater asas e a baixar.
Mas abriram-se algumas bocas que se tinham mantido cerradas durante décadas, que se calaram toda a vida, e continuariam caladas até à morte.
Ceder agora? Isso é capitular na base de uma palavra de honra. Palavra de honra de quem? — Dos carcereiros, dos cães do campo. Desde que há prisões e desde que há campos, quando é que eles mantiveram a sua palavra, ao menos uma vez?!
Levantou-se um sedimento há muito acumulado de sofrimentos, ofensas, escárnios. Pela primeira vez estávamos no bom caminho e já teríamos de ceder? Pela primeira vez sentíamo-nos homens e tão depressa havíamos de nos render? Um pequeno turbilhão alegre e maldoso ventila-nos e faz-nos estremecer: continuar! Continuar! Ainda nos vão falar de outra maneira! Hão de ceder!
E era como se as asas de águia batessem de novo, a nossa águia de duzentos sentimentos unidos! E a águia voou!
E nós estávamos deitados, a poupar as forças, a tentar mover-nos menos e não falar de bagatelas. Já tínhamos bastante ocupação: pensar.
E de repente, mesmo ao fim da tarde do terceiro dia, quando o sol poente se mostrou a oeste no céu que limpava, os nossos vigias gritaram com inflamado despeito:
— A barraca nove!… A nove cedeu!… A nove vai para o refeitório!
Todos saltámos. Os dos quartos do outro lado correram para junto de nós. Por entre as grades, das tarimbas superiores e inferiores das vagonetas, de gatas e por cima dos ombros uns dos outros, olhávamos, paralisados, aquele triste cortejo.
Duzentas e cinquenta figuras lastimáveis, já de si negras, mas mais negras ainda contra o sol poente, arrastavam-se em diagonal através da zona, numa longa fila dócil e humilhada. Caminhavam cintilando contra o sol, cadeia interminável, alongada e incerta, como se os de trás lamentassem que os da frente se tivessem posto em marcha e não quisessem ir com eles. Alguns, os mais enfraquecidos, eram conduzidos pelo braço ou pela mão, e ao ver o seu andamento inseguro dir-se-ia um grupo de guias a conduzirem um grupo de cegos. Muitos deles levavam também nas mãos marmitas ou canecas, e essa lastimável loiça do campo, levada na esperança de um jantar demasiado abundante para ser absorvido pelos estômagos encolhidos, essa loiça estendida à sua frente, como mendigos a pedir esmola, era especialmente vexante, especialmente servil e especialmente tocante.
Senti que estava a chorar. Limpando as lágrimas, olhei para o lado e vi que os meus camaradas também as tinham.
A palavra da barraca 9 foi decisiva. Era já o quarto dia, desde a tarde de quarta-feira, que jaziam alguns mortos entre eles.
Iam para o refeitório e isso significava que, pela ração de pão e pelas papas, decidiram perdoar aos assassinos.
Afastámo-nos das janelas em silêncio.
E compreendi nesse momento o que significa o orgulho polaco e em que consistiam as suas revoltas abnegadas. O engenheiro polaco Iuri Venguerski estava agora na nossa brigada. Estava a cumprir o último dos seus dez anos. Mesmo quando ele era mestre-de-obras, ninguém lhe ouvia elevar o tom de voz. Era sempre calmo, cortês, suave.
Mas agora o seu rosto desfigurou-se. Com fúria, com desprezo, com sofrimento, desviou a cabeça daquele cortejo de mendigos, endireitou-se e numa voz furiosa, sonora, gritou:
— Chefe da brigada! Não me acorde para o jantar! Eu não vou!
Trepou para a tarimba superior da vagoneta, voltou-se para a parede e não se levantou! Não recebia encomendas, não tinha ninguém, andava sempre faminto — e não se levantou. A visão das papas fumegantes não o podia fazer esquecer a imaterial Liberdade!
Se todos nós fôssemos assim tão orgulhosos e firmes, qual o tirano que se aguentaria?
* * *
O dia seguinte, 27 de janeiro, era domingo. Mas não nos conduziram para o trabalho, para recuperar o tempo perdido (embora os chefes, naturalmente, estivessem preocupados com o plano), apenas nos deram de comer, entregaram-nos o pão dos dias em que não tínhamos ido ao refeitório e deixaram-nos vaguear pela zona. Andávamos todos de barraca em barraca, a contar como tinham passado aqueles dias, e toda a gente tinha um espírito festivo, como se tivéssemos ganho e não perdido.
Crescia-me rapidamente um tumor mal cuidado, cuja operação eu adiava há muito para um momento que, como se diz no campo, fosse «adequado». Em janeiro, e em particular nos fatídicos dias da greve de fome, o tumor decidiu por mim que aquele momento era adequado, e crescia quase de hora a hora. Assim que abriram as barracas, fui ter com os médicos e marcaram-me a operação.
Uma escolta leva-me ao hospital, no campo dos ucranianos. Sou o primeiro a ser levado lá depois da greve de fome, sou o primeiro mensageiro. O cirurgião Iantchenko, que me devia operar, chama-me para observação, mas as perguntas dele e as minhas respostas não são acerca do tumor. Ele não presta atenção ao meu tumor, e eu fico contente por me calhar um médico tão seguro. Interroga-me e volta a interrogar-me. O nosso sofrimento comum obscurece-lhe o rosto.
Oh, como uma mesma coisa, mas em vidas diferentes, é apreendida em escalas diferentes! Vejam este tumor, canceroso, que golpe teria sido em liberdade, quantas aflições, quantas lágrimas dos familiares. Mas aqui estou no hospital no meio dos feridos, aleijados naquela noite sangrenta. Há espancados pelos vigilantes até ficarem numa massa de sangue, não têm sobre quê se deitar, está tudo em carne viva. Alguns já morreram devido aos ferimentos.
E as notícias atropelam-se umas às outras: no campo «russo» desencadeou-se a repressão. Começaram por prender quarenta pessoas. Mas as detenções continuaram, enviavam para qualquer parte pequenos grupos de homens, aos vinte e aos trinta. E de repente, em 19 de fevereiro, começaram a juntar uma enorme transferência de setecentos homens. Transferência de regime especial: à saída do campo, os transferidos eram algemados.
Eu estou na sala pós-operatória, sozinho. A seguir ao meu quarto, no extremo da barraca, fica a cabana da morgue, onde há já vários dias está o doutor Kornfeld, assassinado — sem ninguém que o enterre, nem tempo para o enterrarem. (De manhã e à noite, um vigilante que termina o controlo, para diante da minha sala e, para simplificar a contagem, com um gesto da mão que abarca a morgue e a minha sala, diz: «e aqui, dois». E escreve na prancheta.)
Eu também estava incluído nessa grande transferência. E a chefe do serviço sanitário, Dubinskaia, aceitou a minha transferência com as costuras não cicatrizadas. Eu sentia-o e esperava, e quando me viessem buscar, recusava: fuzilem-me aqui mesmo! E não me levaram.
Pável Baraniuk, também indicado para a transferência, rompe todos os cordões e vem abraçar-me na despedida. Não é só o nosso campo, é todo o universo que nos parece abalado, sacudido pela tempestade. Somos atirados para um lado e para outro, e não percebemos que fora da zona tudo está, como antes, estagnado e silencioso. Sentimo-nos levados por grandes vagas, que há qualquer coisa afogada debaixo dos nossos pés e que, se alguma vez nos voltarmos a ver, este será um país completamente diferente. Em qualquer caso, adeus, amigo! Adeus, amigos!
* * *
Mas entretanto, o vírus da liberdade espalhava-se — onde se havia ele de meter se não no Arquipélago? Naquela Primavera, em todas as casas de banho das prisões de trânsito do Cazaquistão, tinham escrito, riscado, escavado: «Saudação aos combatentes de Ekibastuz!»
E a primeira colheita dos «principais revoltosos», cerca de quarenta homens, e a grande transferência de fevereiro, de 250 dos mais «rematados», foram conduzidos até Kenguir (vila de Kenguir, estação de Djezkazgan) — 3.a secção do Campo da Estepe (Steplag), onde estava a administração do campo e o pançudo coronel Tchetchev. Os outros castigados foram repartidos entre a 1.a e a 2.a secção do Campo da Estepe (Rudnik).
Para intimidar os oito mil presos de Kenguir, foram avisados da chegada dos bandidos. Desde a estação até ao novo edifício da prisão de Kenguir foram levados algemados. Foi assim, envolto em lenda, que o nosso movimento entrou no Kenguir, ainda escravizado, para o despertar também. Tal como em Ekibastuz um ano antes, aqui reinava ainda a lei dos punhos e da delação.
* * *
Apesar de nos ensinarem que o indivíduo não forja a história, durante um quarto de século um indivíduo fez de nós o que quis e nós nem sequer ousámos guinchar.
Mas era evidente que no início dos anos cinquenta o sistema de campos correcionais estalinistas entrava em crise, em especial nos Campos especiais. Ainda em vida do Todo-Poderoso os indígenas começaram a quebrar as suas cadeias.
Impossível predizer como isso decorreria em vida dele. Mas de repente — à margem das leis da economia e da sociedade — o sangue velho e sujo começou a parar nas veias do indivíduo de pequena estatura e bexigoso.
E embora, segundo a Teoria de Vanguarda, isso não devesse mudar nada, e aqueles bonés azuis não devessem recear nada, embora tenham chorado em 5 de março atrás dos postos da guarda, e os dos gabões negros não ousassem esperar nada, embora dedilhassem as balalaicas ao saberem que a rádio transmitia marchas fúnebres e se estavam a içar bandeiras com faixas de luto — qualquer coisa misteriosa no subterrâneo começou a agitar-se, a mover-se.
A morte do tirano não foi em vão. Algures, qualquer coisa oculta começou a mover-se, a mover-se e de repente, com um estrépito metálico, como um balde vazio, caiu aos trambolhões mais um indivíduo — do mais alto degrau da escada para o pântano mais imundo.
E todos agora — a vanguarda e os mais retardatários, e até os indígenas moribundos do Arquipélago — compreenderam: começou uma nova era. Aqui, no Arquipélago a queda de Béria foi especialmente tonitruante: porque ele era o Patrão supremo e o governador-geral do Arquipélago! Os oficiais do MVD estavam desconcertados, confusos, desorientados. Quando já transmitiam pela rádio e era impossível fazer calar esse horror no retransmissor, e era preciso atentar contra os retratos desse amável Protetor e retirá-los das paredes da Direção do Steplag, o coronel Tchetchev disse com os lábios trémulos: «Acabou-se tudo». (Mas estava enganado.)
Mas a queda de Béria tinha também uma outra face para os Campos especiais: ela deu esperança aos forçados e desse modo confundiu-os, perturbou-os, enfraqueceu-os. Reverdeceram as esperanças em mudanças rápidas e decaiu a vontade de dar caça aos bufos, de ir para a prisão por causa deles, de fazer greve, de se revoltar. Passou-lhes a fúria. Parecia que, mesmo sem isso, tudo ia melhorar, só era preciso esperar.
E teve ainda outro aspeto: as dragonas debruadas a azul, que até então eram as mais honrosas, pareciam de repente marcadas com um selo de defeituosas, não apenas aos olhos dos presos ou dos familiares destes (isso era o menos), mas também aos olhos do governo.
Nesse ano fatídico de 1953 retiraram aos oficiais do MVD o segundo ordenado «pelas condecorações». Era um grande golpe nos bolsos, mas ainda maior quanto ao futuro: quer dizer que nos tornámos desnecessários?
Precisamente devido à queda de Béria, o ministério da segurança devia mostrar com urgência e de modo evidente a sua dedicação e a sua utilidade. Mas como?
As revoltas, que antes pareciam uma ameaça aos guardas, cintilavam agora como a salvação: que houvesse mais perturbações, mais desordens, para que fosse necessário tomar medidas. E não haverá redução nem de quadros, nem de salários.
Em menos de um ano a escolta de Kenguir disparou diversas vezes contra inocentes. Os casos sucedem-se uns aos outros; é impossível que isso não tenha sido premeditado.
Dispararam contra a jovem Lida, que trabalhava com a betoneira e tinha ido pôr as meias a secar na vedação.
Feriram a tiro um velho chinês — em Kenguir ninguém se lembrava do nome dele, o chinês quase não falava nada de russo, todos conheciam a sua figura bamboleante, de cachimbo entre os dentes e com uma cara de velho silvano. O soldado da escolta chamou-o para junto do torre de vigia, atirou um pacote de tabaco para junto da vedação e quando o chinês o ia apanhar, disparou e feriu-o.
Houve depois o conhecido caso dos disparos com balas explosivas contra uma coluna que voltava da fábrica de enriquecimento de minério, em que foram recolhidos dezasseis feridos. (E mais umas duas dezenas ocultaram os seus ferimentos ligeiros, para evitar o registo e a possível punição.)
Desta vez, os presos não ficaram calados — repetiu-se a história de Ekibastuz: o campo n.° 3 de Kenguir não saiu para o trabalho durante três dias (mas aceitava a comida), exigindo o julgamento dos culpados.
Chegou uma comissão e convenceu-os de que os culpados seriam julgados (como se fossem chamar os presos a tribunal e estes pudessem verificar!…). Voltaram para o trabalho.
Mas em fevereiro de 1954, na fábrica de serração, houve mais uma vítima de disparos — o evangelista, como todo o campo de Kenguir o recordava (Aleksandr Sissoiev, ao que parece). Este homem tinha cumprido nove anos e nove meses da sua pena de dez anos. O seu trabalho era lubrificar os elétrodos de soldagem, o que ele fazia numa guarita perto da vedação. Saiu para se aliviar perto da guarita, e foi atingido por disparos da atalaia. Soldados da escolta vieram a correr da casa da guarda e começaram a arrastar o morto para junto da vedação, como se ele estivesse a violar a ante-zona. Os presos não aguentaram mais, agarraram nas picaretas e nas pás e afastaram os assassinos para longe da vítima.
Toda a zona se agitou. Os reclusos disseram que levariam o morto aos ombros para o campo. Os oficiais do campo não permitiram. «Porque é que o mataram?» — gritaram-lhes. Os patrões já tinham a resposta pronta: o culpado foi ele, que começou a atirar pedras à atalaia. (Terão tido o cuidado de ler a ficha pessoal do morto? — onde se dizia que lhe faltavam três meses e que ele era evangelista?…)
Isto foi de novo no campo n.° 3, que já tinha conhecido dezasseis feridos de uma vez. E ainda que agora fosse apenas um morto, cresceu o sentimento de que estavam irremediavelmente condenados, de que não havia saída: já tinha passado quase um ano desde a morte de Estaline, mas os cães não tinham mudado. E de um modo geral nada tinha mudado.
À noite, depois do jantar, procedeu-se do seguinte modo. Numa divisão da barraca apagava-se de repente a luz, e da porta de entrada alguém invisível dizia: «Irmãos! Até quando vamos nós construir e em troca receber balas? Amanhã não sairemos para o trabalho!» E foi assim de divisão em divisão, de barraca em barraca.
De manhã, os campos dos homens, o 2 e o 3, não saíram para o trabalho.
Aguentaram-se assim durante dois dias.
Nessa mesma noite foi anunciado que se acabava a democracia alimentar e que quem não saísse para o trabalho receberia a ração disciplinar. Na manhã seguinte o 2.° campo saiu para o trabalho. O 3.° não saiu ainda na terceira manhã.
Mas a greve foi vencida. Em março e abril foram feitas algumas transferências para outros campos. (A infeção continuava a alastrar!)
Assim, pela segunda vez, aquilo que cresceu aqui, em Kenguir, foi reabsorvido sem chegar a amadurecer.
Mas então os patrões excederam-se. Lançaram mão do seu principal açoite contra os do artigo Cinquenta e Oito — os bandidos.
Nas vésperas das festas do 1.° de Maio, renunciando por si mesmos aos princípios dos Campos especiais, reconhecendo que era impossível manter os presos políticos homogéneos, os patrões introduziram 650 ladrões no campo n.° 3, parte deles simples delinquentes (incluindo muitos adolescentes). «Vai chegar um contingente são! — anunciaram com malevolência aos Cinquenta e Oito. — Agora vocês vão dançar.» E aos ladrões fizeram um apelo: «Vocês metam isto aqui na ordem!»
Mas eis o imprevisível curso dos sentimentos humanos e dos movimentos sociais. Ao injetar no 3.° campo de Kenguir uma dose cavalar desse experimentado veneno cadavérico, os patrões obtiveram não um campo mais sossegado, mas a maior revolta da história do Arquipélago Gulag.
* * *
Por mais cercados, por mais dispersos que estejam aparentemente os ilhéus do Arquipélago, através das prisões de trânsito eles respiram o mesmo ar e são irrigados pelas mesmas seivas. E por isso o massacre dos bufos, as greves de fome e do trabalho, as agitações nos Campos especiais não eram desconhecidas dos ladrões. E diz-se que por volta de 1954 começou a notar-se nas prisões de trânsito que os ladrões começaram a respeitar os forçados.
E assim, ao chegarem a Kenguir, os ladrões tinham já ouvido falar um pouco, já esperavam que nos trabalhos forçados havia um espírito combativo. E antes que eles tomassem o pulso à situação, antes que começassem a entender-se com as autoridades, uns rapazes de ombros largos foram ter com os chefes deles, sentaram-se a falar das coisas da vida e disseram-lhes: «Nós somos delegados. Vocês já ouviram falar da matança ocorrida nos Campos especiais, e se não ouviram nós podemos contar. Agora sabemos fabricar facas tão boas como as vossas. Vocês são seiscentos homens, nós somos dois mil e seiscentos. Pensem e escolham. Se vocês nos chatearem, nós cortamos-vos a todos.»
É claro que os das dragonas azuis só estavam à espera disso, de que essa briga começasse. Mas os ladrões acharam que ir contra os do artigo Cinquenta e Oito, encorajados, na proporção de quatro para um, não valia a pena.
E os ladrões responderam: «Não, nós estaremos ao lado da malta!»
Esta conferência não foi registada na história, e os nomes dos participantes não se conservaram nas atas. O que é pena. Os rapazes foram inteligentes.
* * *
Provavelmente, a novidade e o caráter invulgar do jogo divertia muito os bandidos, em especial os jovens: de repente, ser amável com os «fascistas», não entrar nas camaratas deles sem autorização, não se sentarem nas suas vagonetas sem serem convidados.
A Paris do século passado chamava aos seus bandidos (que pelos vistos eram muitos), formados numa guarda, mobiles. Muito bem achado. Essa tribo é de uma tal mobilidade que quebra o invólucro da vida rotineira de todos os dias, é por completo incapaz de nele ficar encerrada e quieta. Ficou estabelecido não roubar, que não era ético mourejar no trabalho para a administração, mas que era necessário fazer alguma coisa! A juventude ratoneira entretinha-se a furtar os bonés aos vigilantes, durante o controlo da tarde cavalgava sobre os telhados das barracas, desorganizava a contagem, assobiava, lançava gritos, à noite assustava as atalaias.
Era preciso começar, fosse o que fosse, mas começar! Mas como os iniciadores, se fossem do artigo Cinquenta e Oito acabavam pendurados no nó corredio de uma corda, e se fossem ladrões eram apenas admoestados nas reuniões políticas, os ladrões propuseram: nós começamos, e vocês apoiam!
Notemos que todo o conjunto do campo de Kenguir tem a configuração de um único retângulo com uma vedação externa comum, dentro do qual foram traçadas transversalmente as zonas interiores: em primeiro lugar o campo 1 (feminino), depois a intendência, depois o campo 2, depois o campo 3, e depois a zona prisional com as duas prisões, a velha e a nova, onde metiam não apenas os presidiários, mas também os habitantes livres da vila.
O primeiro objetivo natural era apoderar-se da intendência, onde se situavam também todos os depósitos de víveres do campo. A operação foi iniciada de dia, num domingo, dia de descanso, 16 de maio de 1954. Primeiro, todos os mobiles subiram para os telhados das suas barracas e cobriram a parede b entre os campos 3 e 2. Depois, a uma ordem dos seus cabecilhas, que ficaram nas alturas, saltaram armados de paus para o campo 2, organizaram-se numa coluna e assim formados avançaram pelo eixo do campo 2, que vai ter aos portões metálicos da intendência, onde termina.
Os portões da intendência abriram-se de par em par, e um pelotão de soldados desarmados avançou ao encontro dos atacantes. Os soldados começaram a repelir os mobiles, desorganizaram-lhes a coluna. Os ladrões começaram a recuar para o seu campo 3 e a subir de novo para o muro, e de cima do muro a sua reserva lançava pedras e tijolos contra os soldados, cobrindo a retirada.
É claro que não houve quaisquer detenções entre os ladrões. Continuando a ver em tudo isto apenas uma maldosa travessura, a chefia deixou que o domingo do campo decorresse tranquilamente até ao recolher. O almoço foi servido sem incidentes. E ao anoitecer, com o escuro, os candeeiros de iluminação da zona começaram a tilintar sob o choque das pedras: os mobiles atiravam-nas com fisgas, apagando a iluminação da zona. Já muitos deles circulavam às escuras no campo 2, e os seus assobios modulados de bandidos cortavam o ar. Com um madeiro forçaram os portões da intendência, precipitaram-se para lá e com um carril abriram uma brecha para a zona feminina. (Com eles estavam também alguns jovens do artigo Cinquenta e Oito.)
À luz dos foguetes de combate lançados das atalaias, o capitão operacional Beliáiev irrompeu no pátio da intendência vindo de fora, através da casa da guarda, com um pelotão armado de pistolas-metralhadoras e — pela primeira vez na história do Gulag! — abriu fogo contra os socialmente próximos! Houve mortos e várias dezenas de feridos. E de trás ainda acorreram os das dragonas vermelhas que à baioneta acabavam com os feridos. (Nessa noite, no hospital do campo 2 acenderam-se as luzes da sala de operações para que o presidiário Fuster, cirurgião espanhol, trabalhasse.)
A intendência estava agora solidamente ocupada pelo destacamento punitivo com as metralhadoras instaladas. E o 2.° campo (os mobiles tinham cumprido o seu papel, agora era a vez dos políticos) tinha erguido uma barricada diante da intendência. O 2.° e o 3.° campos ligaram-se por meio de uma brecha e já não havia neles nem vigilantes, nem poder do MVD.
Mas o que aconteceu com aqueles que conseguiram penetrar no campo feminino e que agora se encontravam ali isolados? Os acontecimentos superaram o desenvolto desprezo com que os bandidos consideravam as gajas. Quando soaram os disparos no pátio da intendência, aqueles que tinham penetrado no campo feminino não eram já os predadores vorazes, mas companheiros de destino. As mulheres ocultaram-nos. Entraram alguns soldados para os agarrar. As mulheres impediam-nos de procurar e resistiam. Os soldados espancavam-nas a murro e à coronhada, arrastavam-nas para a prisão.
E de repente chegou um soldado a correr à intendência com uma nota para o oficial. O oficial ordenou que recolhessem os cadáveres. Os das dragonas vermelhas saíram e levaram os mortos.
Durante cinco minutos reinaram na barricada o silêncio e a desconfiança. Depois os primeiros presos espreitaram com cuidado para o pátio da intendência. Este estava deserto, apenas aqui e ali jaziam os pequenos bonés negros dos mortos com os retalhos dos números cosidos.
(Mais tarde soube-se que a ordem para limpar o pátio da intendência fora dada pelo ministro dos assuntos interiores do Cazaquistão, que acabava de chegar de avião vindo de Alma-Ata. Os cadáveres recolhidos foram levados para a estepe e ali enterrados, para evitar qualquer peritagem, caso a exigissem depois.)
Soou o «Hurra!… Hurra!…» — e precipitaram-se para o pátio da intendência e para a zona feminina. Alargaram a brecha, libertaram as mulheres da prisão — e tudo se uniu! Tudo estava livre no interior da zona principal! Só o 4.° campo ainda continuava a ser uma prisão.
Que sensações podem ser as que rasgam os peitos de oito mil homens que estiveram sempre, e ainda há pouco, solitários?! Deitados, famintos, nas barracas de Ekibastuz fechadas a cadeado, isto parecia já um contato com a liberdade. Mas aqui, era uma revolução! Tanto tempo esmagada, ei-la que regressa, a fraternidade humana! E nós gostamos dos bandidos! E os bandidos gostam de nós! (É inegável, eles consolidaram a aliança com sangue. E, é claro, gostamos mais ainda das mulheres, que uma vez mais estão ao nosso lado, como deve ser na humanidade, são nossas irmãs de destino.)
No refeitório há proclamações: «Arma-te com o que puderes e ataca em primeiro lugar os militares!» Em bocados de jornais (não há outro papel), em letras pretas ou de cor, os mais fogosos traçaram já à pressa as suas palavras de ordem: «Rapazes, arreiem nos tchekistas!»,
«Morte aos bufos, sabujos dos tchekistas!». Em um, dois, três lugares do campo, há comícios, oradores, não há como assistir a todos! E cada qual faz as suas propostas! Que exigências apresentar? O que é que nós queremos? Julgamento dos assassinos! — isso compreende-se. E depois?… Não fechar as barracas, retirar os números! — e depois?…
Depois… vem o mais horrível: para que começou isto e o que é que nós queremos? Queremos, é claro, a liberdade, só a liberdade! — mas quem é que no-la dá? Os tribunais que nos condenaram, em Moscovo. E enquanto nós estivermos descontentes com o Steplag ou com Karagandá, ainda falarão connosco. Mas se dissermos que estamos descontentes com Moscovo… vão-nos enterrar a todos nesta estepe.
E então, o que é que nós queremos? Derrubar os muros? Fugir para o deserto?…
Horas de liberdade! Arrobas de cadeias caíram-nos dos braços e dos ombros — aquele dia valia isso!
E ao fim do dia de segunda-feira chegou ao campo amotinado uma delegação das autoridades. Uma delegação cheia de benevolência, não parecem feras, não trazem armas automáticas, e não são já sequazes do sanguinário Béria. Ficaremos a saber que de Moscovo chegaram, de avião, uns generais. E consideram que as nossas exigências são inteiramente justas. (Nós mesmos ficamos estupefactos: justas? Nós não somos então subversivos? Não, não, inteiramente justas.) «Os culpados pela fuzilaria serão responsabilizados.» — «E os espancamentos das mulheres?» — «Espancaram as mulheres? — surpreende-se a delegação. — Isso não é possível.» Ania Mikhailevitch traz-lhes uma fila de mulheres espancadas. A comissão fica emocionada: «Vamos esclarecer, vamos esclarecer». — «Umas feras!» — grita Liuba Berchádskaia ao general. E também gritam: «Que não fechem as barracas!» — «Não fecharemos». — «Tirem os números!» — «Tiramos sem falta!» — garante o general, que nunca tínhamos visto (nem voltaremos a ver). — «Deixem ficar as brechas entre as zonas! — ousamos nós. — Precisamos de comunicar uns com os outros!» — «Está bem, comuniquem — concorda o general — Que se mantenham as brechas.» E então, meus irmãos, de que mais precisamos nós? Nós vencemos!! Um dia de revolta, de alegria, de efervescência — e vencemos! E embora alguns entre nós abanem a cabeça e digam — Engano! Engano! — nós acreditamos. Acreditamos nos nossos chefes, que afinal não são assim tão maus. Acreditamos porque essa é a maneira mais fácil de sairmos da situação…
Que mais resta aos oprimidos, se não acreditar? Serem enganados, e voltarem a acreditar. E serem de novo enganados, e de novo acreditar.
E na terça-feira, 18 de maio, os campos de Kenguir saíram para o trabalho, conformando-se com os seus mortos.
E nessa mesma manhã tudo podia ter acabado calmamente. Mas os altos generais que se reuniram em Kenguir, acharam que essa saída era uma derrota pessoal. Não podiam seriamente reconhecer o direito dos reclusos! Não podiam castigar seriamente os militares do MVD! O seu baixo entendimento retirou apenas uma lição: os muros entre as zonas não tinham solidez bastante. Era preciso criar ali zonas de fogo!
E nesse mesmo dia as zelosas autoridades lançaram no trabalho pessoas que estavam desabituadas de trabalhar há anos e há décadas: oficiais e vigilantes envergaram os aventais.
Aqueles que sabiam agarraram nas colheres de pedreiro; os soldados, livres das atalaias, empurravam os carrinhos de mão, carregavam padiolas; os inválidos que tinham ficado nas zonas acartavam e levantavam os adobes. E ao fim da tarde as brechas nos muros estavam tapadas, os candeeiros quebrados estavam reparados, ao longo dos muros interiores haviam sido traçadas umas bandas interditas e nos extremos colocadas sentinelas com a ordem: abrir fogo!
E quando ao fim do dia as colunas de presidiários, depois de darem o seu trabalho diário ao Estado, voltaram a entrar no campo, levaram-nos à pressa para o jantar, sem lhes darem tempo de pensarem, para rapidamente os encerrarem. Segundo as disposições gerais, era preciso ganhar essa primeira noite — uma noite de engano demasiado evidente depois das promessas da véspera — depois, de uma maneira ou de outra, os presos habituavam-se e entravam nos eixos.
Mas mesmo antes do crepúsculo, soaram aqueles mesmos assobios modulados dos bandidos de domingo — a terceira e a segunda zona comunicavam desse modo entre si, como numa grande quermesse de arruaceiros. E os vigilantes estremeceram, e sem terminarem as suas obrigações fugiram da zona.
O campo ficou por conta dos presos, mas estes estavam separados. Quem se aproximasse dos muros interiores, era atingido pelo fogo das metralhadoras das atalaias. Alguns foram mortos, vários ficaram feridos. Os candeeiros foram outra vez todos quebrados com pedradas de funda, mas as atalaias iluminavam com foguetes.
Com as mesas compridas golpeavam o arame farpado, mas debaixo de fogo não era possível nem perfurar a parede nem passar por cima dela — portanto, era preciso escavar. Como sempre, na zona não havia pás, salvo as dos bombeiros. Entraram em ação as facas dos cozinheiros, as gamelas.
Nessa noite de 18 para 19 de maio, sob o fogo das metralhadoras, homens desarmados franquearam todas as paredes através de brechas e de escavações e de novo reuniram todos os campos no pátio da intendência. Agora as atalaias deixaram de disparar. E na intendência havia muitas ferramentas. Todo o trabalho diário dos pedreiros de dragonas foi reduzido a nada. A coberto da noite, derrubaram as vedações da ante-zona e alargaram as passagens nos muros para evitar que se transformassem em armadilhas (nos dias seguintes alargaram-nas até vinte metros).
Nessa mesma noite perfuraram a parede do campo 4, o das prisões. Os vigilantes fugiram, uns para a casa da guarda, outros para as atalaias, por escadas que de lá lhes eram lançadas. Os presos saquearam os gabinetes de investigação. Foram então libertados aqueles que no dia seguinte encabeçariam a revolta: o antigo coronel do exército vermelho Kapiton Kuznetsov (formado pela academia Frunze, já de certa idade; depois da guerra comandou um regimento na Alemanha, e foi condenado porque um dos seus homens fugiu para o Ocidente) e o antigo tenente do exército vermelho Gleb Slutchenkov.
Presos revoltados! — que já por três vezes tinham tentado repelir essa revolta e essa liberdade. Não sabiam como lidar com esses dons e temiam-nos mais do que os desejavam. Mas, com a constância de uma ressaca marinha, eram atirados uma e outra vez para a revolta.
Um fugitivo foge para experimentar ao menos um dia de vida livre. Também o que faziam aqueles oito mil homens era não tanto erguer uma revolta, como fugir para a liberdade, nem que fosse por pouco tempo! Oito mil homens passaram de repente de escravos a livres, e propunha-se-lhes viver! Rostos habitualmente ferozes, suavizavam-se até aos sorrisos bondosos. As mulheres viram os homens, e os homens agarravam-nas pelas mãos. Aqueles que se correspondiam por requintadas vias secretas e nunca se tinham visto um ao outro, conheciam-se agora. Aquelas lituanas cujos matrimónios haviam sido celebrados por padres católicos através do muro, viam agora os seus legítimos esposos pelas leis da igreja — o seu matrimónio descia do Senhor à terra! Pela primeira vez nas suas vidas ninguém impedia os crentes de se reunirem e rezarem. Os estrangeiros solitários espalhados por todas as zonas encontravam-se agora uns aos outros e falavam nas suas línguas sobre esta estranha revolução asiática. Todos os víveres do campo ficaram nas mãos dos presidiários. Ninguém os mandava para a formatura nem os obrigava a uma jornada de trabalho de onze horas.
Por sobre o campo insone e efervescente, que arrancara de si os números de cães, ergueu-se a manhã do dia 19 de maio. Os postes com os candeeiros quebrados pendiam sobre o arame farpado. Pelas trincheiras ou fora delas, os presos movimentavam-se livremente de uma zona para outra. Muitos vestiram as suas roupas de homens livres, que iam buscar ao depósito. Alguns jovens punham os seus gorros do Cáucaso ou do Kuban. (Em breve haverá também as camisas bordadas, os asiáticos andarão de cafetã ou de turbante, o campo cinzento-negro florescerá.)
Os faxineiros andavam pelas barracas e chamavam para o refeitório grande, para a eleição da Comissão — uma comissão para as conversações com as autoridades e para a autogestão (assim se chamava a si própria, com este nome modesto e receoso).
Elegiam-na, talvez, apenas para algumas horas, mas estava destinada a ser o governo do campo de Kenguir durante quarenta dias.
* * *
Logo nas primeiras horas foi necessário definir a linha política da revolta, ou seja, do seu ser ou não ser. Devia ela deixar-se arrastar por aqueles panfletos simplórios que encimavam as colunas mecânicas dos jornais: «Rapazes, arreiem nos tchekistas»?
Mal saíra da prisão, logo às primeiras horas, ainda de noite, percorrendo todas as barracas e proferindo discursos até ficar rouco, na reunião do refeitório e depois ainda mais de uma vez, o coronel Kapiton Ivánovitch Kuznetsov repetia sem se cansar:
— O anti-sovietismo seria a nossa morte. Se apresentarmos agora palavras de ordem anti-soviéticas, esmagam-nos imediatamente. A nossa salvação está na lealdade. Devemos falar com os representantes de Moscovo como é próprio de cidadãos soviéticos!
A sensatez desta linha foi de imediato compreendida e venceu. Muito depressa foram afixados pelo campo grandes palavras de ordem, que se liam bem das atalaias e dos postos da guarda:
«Viva a Constituição Soviética!»
«Viva o poder soviético!»
«Exigimos a vinda de um membro do CC e a revisão dos nossos processos!»
«Abaixo os assassinos berianistas!»
E por cima do refeitório ergueu-se uma bandeira visível para toda a gente. Ali ficou depois durante muito tempo: campo branco, orla negra, no meio a cruz vermelha dos serviços de saúde. Segundo o código marítimo internacional, essa bandeira significava:
«Sofremos uma calamidade. Mulheres e crianças a bordo.»
Foram eleitas para a Comissão doze pessoas, chefiadas por Kuznetsov. A comissão especializou-se imediatamente e criou departamentos:
— agitação e propaganda (dirigido pelo lituano Knopmus, um disciplinar vindo de Norilsk, depois de uma revolta);
— vida quotidiana e gestão;
— alimentação;
— segurança interna (Gleb Sliutchenkov);
— militar, e
— técnico, talvez o mais surpreendente neste governo do campo.
Os departamentos meteram-se ao trabalho. Os primeiros dias foram especialmente animados: era preciso pensar em tudo e tudo organizar.
Todas as brigadas se mantiveram como dantes, mas passaram a chamar-se «secções», e as barracas destacamentos, e foram designados comandantes de destacamento, submetidos ao Departamento militar.
Já sem esperar pela boa vontade do amo, começaram eles próprios a retirar as grades das janelas das barracas. Nos primeiros dois dias, enquanto os patrões não se tinham lembrado de desligar a rede elétrica do campo, os tornos continuaram a funcionar na intendência e das barras dessas grades fizeram uma quantidade de lanças, aguçando as extremidades.
Colocando as lanças aos ombros, os piquetes foram ocupar os seus postos noturnos. Também as secções femininas, que à noite se dirigiam à zona masculina para os lugares que lhes eram destinados, para em caso de alarme saírem ao encontro dos atacantes (havia a ingénua suposição de que os carrascos hesitariam em reprimir as mulheres), circulavam eriçadas de pontas de lanças.
Na atmosfera puritana do início de uma revolução, quando a presença de uma mulher na barricada também se transformava numa arma, homens e mulheres comportavam-se condignamente e marchavam com dignidade, de lanças apontadas ao céu.
O principal cálculo das autoridades era que os bandidos começassem a violentar as mulheres, os políticos interviessem e se desencadeasse um massacre. Mas também nisso os psicólogos do MVD se enganaram! E também isso é digno do nosso espanto. Todos testemunharam que os ladrões se comportaram como homens, não no significado tradicional para eles dessa palavra, mas no nosso.
Se a revolta de Kenguir pode ser atribuída a alguma força, essa força estava na unidade.
Os ladrões também não tocaram no depósito de víveres, o que, para quem os conhece, é causa de não menor espanto. Embora no depósito houvesse produtos para muitos meses, a Comissão decidiu, depois de conferenciar, manter todas as normas anteriores de pão e de outros produtos.
O departamento técnico iniciou a batalha pela luz. Transformaram um motor existente na intendência num gerador e assim começaram a alimentar a rede telefónica do campo, a iluminação do estado-maior e… o transmissor de rádio! As barracas eram alumiadas com estilhas… Esta central elétrica única funcionou até ao último dia da revolta.
Os dias iam passando. Sem desviarem os olhos da zona — olhos dos soldados e dos vigilantes nas atalaias (os vigilantes, que conheciam as caras dos presos, estavam encarregados de fixar e memorizar quem fazia o quê) e até os olhos dos aviadores (talvez com fotografias) —, os generais tiveram de reconhecer com mágoa que na zona não havia massacres, nem pogromes, nem violência, que o campo não ruía por si mesmo e não havia pretexto para enviar as tropas em socorro.
O campo mantinha-se, e as conversações mudavam de caráter. Os das dragonas douradas, em variadas combinações, continuavam a entrar na zona para convencer e para dialogar. Deixavam-nos entrar a todos, mas para isso tinham de erguer bandeiras brancas nas mãos, e depois de passar o posto da guarda da intendência, que era agora o principal posto da guarda, diante da barraca, ser sujeitos a revista, em que uma qualquer rapariguinha ucraniana de casaco acolchoado apalpava os bolsos dos generais, que poderiam conter alguma pistola ou granada. Em contrapartida, o estado-maior dos rebeldes garantia-lhes a segurança pessoal!…
Os pedidos-exigências dos revoltosos foram formulados logo nos dois primeiros dias e eram agora repetidos:
— punição do assassino do evangelista;
— punição de todos os responsáveis pelos assassínios de domingo para segunda-feira na intendência;
— punição daqueles que espancaram as mulheres;
— regresso ao campo daqueles camaradas que devido à greve foram ilegalmente metidos em prisões fechadas;
— não voltar a usar os números no vestuário, não voltar a colocar as grades nas barracas, não fechar as barracas;
— não voltar a erguer os muros interiores entre os campos;
— jornada de trabalho de oito horas, como os trabalhadoras livres;
— aumento do salário pelo trabalho (já não se exigia igualdade de salário com os livres);
— correspondência livre com os familiares e algumas visitas;
— revisão dos processos judiciários.
Esta prolongada resistência de oito mil pessoas cercadas lançava uma mancha na reputação dos generais, podia estragar-lhes as carreiras militares, e por isso eles faziam promessas. Prometiam que essas exigências podiam ser quase todas satisfeitas, mas que seria difícil deixar a zona feminina aberta, isso não é admissível (como se nos ITL tivesse sido de outra maneira durante vinte anos), mas pode-se ponderar, pode-se organizar encontros. Reexame dos processos? Claro, também os processos serão revistos, mas será preciso esperar. Mas o que é completamente inadiável é o regresso ao trabalho, ao trabalho, ao trabalho!
Isso já os presos o sabiam: iam dividi-los em colunas, fazê-los sentar o no chão sob a ameaça das armas, prender os instigadores.
«Não — respondiam-lhes do outro lado da mesa e da tribuna. — Não! — gritavam entre a multidão. — A direção do Steplag fez provocações! Não acreditamos nos dirigentes do Steplag! Não acreditamos no MVD!»
— Nem no MVD acreditam? — surpreendeu-se o vice-ministro, limpando a testa ao ouvir semelhante radicalismo.
— O que é que lhes inspirou esse ódio pelo MVD?
Enigma.
— Um membro da direcção do CC! Queremos um membro da direcção do Comité Central! Então acreditaremos! — gritavam os presos.
— Vejam lá! — ameaçaram os generais. — Será pior!
Mas então Kuznetsov levantou-se. Falava bem, com facilidade e com orgulho.
— Se entrarem na zona com armas — preveniu —, não se esqueçam de que metade dos homens que aqui estão tomaram Berlim. Dominarão também as vossas armas!
E à ameaça de esmagamento militar, Slitchenkov respondeu assim aos generais: «Mandem-nos! Mandem para a zona mais homens de metralhadora! Nós atiramos-lhes pó de vidro aos olhos, tiramos-lhes as armas! Arrasamos a vossa guarnição de Kenguir! Corremos com os vossos oficiais zambros até Karagandá, entramos em Karagandá às vossas cavalitas! E lá, estão pessoas como nós!»
Houve semanas em que toda a guerra se transferiu para a propaganda. A rádio exterior não se calava: através de vários altifalantes que rodeavam o campo, alternava os apelos aos presidiários com informação, desinformação e um ou dois discos enfadonhos, que punham os nervos à flor da pele.
Vai uma rapariguinha pelos campos
Com umas tranças que eu amo.
Na rádio exterior, ora denegriam todo o movimento, afirmando que ele fora iniciado com o único objetivo de violar as mulheres e de roubar. Ora tentavam contar uma qualquer vileza sobre os membros da Comissão. E uma vez mais os apelos: trabalhar! Trabalhar! Porque é que a Pátria vos há de sustentar? Não saindo para o trabalho, vocês causam um enorme prejuízo ao Estado! Há comboios inteiros parados, carregados de carvão, sem ninguém que os descarregue! (Deixá-los estar — riam-se os presos —, cedam mais depressa!)
Entretanto, o Departamento técnico não lhe ficava a dever. Na intendência foram encontradas duas máquinas de cinema ambulante. Os amplificadores foram usados como altifalantes, é certo que com menos potência. Os amplificadores eram alimentados pela central elétrica secreta. Que os insurretos tivessem corrente elétrica e rádio surpreendeu e assustou os patrões. Receavam que os revoltosos conseguissem afinar o seu emissor e começassem a dar notícias da sua revolta para o estrangeiro.)
Não podendo superar a ciência moderna, o pensamento do Departamento técnico tentou, pelo contrário, voltar à ciência dos séculos passados. Usando papel de cigarros, conseguiu por colagem formar um enorme balão de ar. Prenderam-lhe um maço de panfletos, e por baixo um braseiro que produzia uma corrente de ar quente para o interior do balão, aberto por baixo. Para grande contentamento da multidão dos presos ali reunidos (quando os presos se alegram, são como crianças), aquele maravilhoso aparelho aerostático elevou-se e voou. Mas, infelizmente, o vento soprava mais depressa do que o balão ganhava altitude, e ao sobrevoar a vedação o braseiro fico preso no arame farpado; o balão, privado do ar quente, caiu e ardeu juntamente com os panfletos.
Depois deste fracasso, puseram-se a encher balões de fumo. Com vento favorável, estes balões voavam bastante bem, mostrando à povoação as grandes inscrições:
«Salvem as mulheres e os velhos dos espancamentos!»
«Exigimos a presença de um membro do Presidium do CC!»
A guarda começou a abater esses balões a tiro.
Então uns presos chechenos apresentaram-se no Departamento técnico e propuseram que se fizessem papagaios de papel (eram mestres nessa arte). Esses papagaios de papel foram colados com sucesso e voavam até muito longe por cima da vila.
Também disparavam contra os papagaios de papel, mas estes eram menos vulneráveis aos furos do que os balões. Em breve o adversário descobriu que, em vez de mobilizar uma multidão de vigilantes, era mais barato lançar papagaios de papel contra papagaios de papel.
Desencadeou-se uma guerra de papagaios de papel na segunda metade do século XX! — e tudo contra a palavra verdade…
Entretanto, o Departamento técnico preparava uma arma «secreta». Que consistia no seguinte: triângulos de alumínio para bebedouro das vacas, restos de uma fabricação anterior, enchiam-se de enxofre para fósforos com uma mistura de carboneto de cálcio (todas as caixas de fósforos estavam guardados atrás da porta «100.000 vóltios»). Quando se acendia o enxofre e se lançavam os triângulos, estes desintegravam-se com um silvo.
Mas não seriam esses malfadados vivaços nem o estado-maior de campo a escolher a hora, o lugar e a forma do golpe. Um dia, passadas duas semanas desde o início, numa das noites escuras sem qualquer iluminação soaram golpes abafados no muro do campo, em muitos lugares — as próprias tropas da escolta estavam a destruir o muro! Ergueu-se grande alvoroço no campo, acorreram com lanças e sabres, sem compreenderem o que se passava; esperavam um ataque. Mas as tropas não atacaram.
De manhã constatou-se que o adversário tinha aberto uma dezena de brechas em vários locais.
E o rádio troava: reconsiderem! Saiam da zona pelas brechas! Nesses lugares, não dispararemos! Os que saírem não serão julgados por rebelião!
Pelo rádio do campo, a Comissão respondia: quem quiser salvar-se, passe ao menos pela principal casa da guarda, não retemos ninguém.
As brechas ficaram abertas durante muito tempo, mais tempo do que o muro ficou inteiro durante a revolta. E em todas essas semanas só uma dúzia de pessoas fugiram da zona.
Porquê? Acreditariam numa vitória? Não. Não estariam acabrunhadas pelo castigo que as esperava? Estavam. Essas pessoas não quereriam salvar-se pelas suas famílias? Queriam! E atormentavam-se, e por certo milhares meditavam em segredo nessa possibilidade. Mas a temperatura social naquele pedaço de terra estava tão alta que as almas, se não eram completamente refundidas, eram pelo menos alteradas pela fusão, e regras demasiado indignas como «só se vive uma vez», e o ser determina a consciência, e a pele leva o homem à cobardia, não se aplicavam naquele curto tempo, naquele lugar limitado. As leis do ser e da razão ditavam aos homens que se rendessem juntos ou fugissem isoladamente, mas eles não se rendiam nem fugiam! Elevaram-se àquele grau espiritual de onde se diz aos carrascos:
— Vão para o diabo! Ataquem-nos! Mordam!
E a operação tão bem concebida, na ideia de que os reclusos fugiriam em debandada através das brechas, como ratazanas, e ficariam apenas os mais obstinados, que seria possível esmagar — essa operação fracassou porque foi imaginada por poltrões.
Passou a segunda, a terceira, a quarta, a quinta semana… Aquilo que pelas leis do Gulag não podia durar nem uma hora, existiu e prolongou-se por um tempo incrivelmente longo, até dolorosamente longo — metade do mês de maio e quase todo o mês de junho. Era já impossível partir para o deserto: estavam a chegar tropas, que viviam em tendas, na estepe. Todo o campo estava cercado por mais uma dupla cintura de arame farpado. Havia apenas um ponto cor-de-rosa: ia chegar o amo (estavam à espera de Málenkov) e decidir. Ia chegar esse homem bom, e exclamar, e erguer os braços: como é que eles viviam aqui? Como os mantinham vocês aqui? Julgar os assassinos! Desterrar os outros… Mas esse ponto era demasiado ponto, e demasiado cor-de-rosa.
Não havia que esperar clemência. Restava apenas viver os últimos dias de liberdade e entregar-se à repressão do Steplag do MVD.
Há sempre almas incapazes de suportar o estado de tensão. Alguns estavam já interiormente esmagados e apenas se afligiam porque a natural repressão demorava tanto tempo. Outros consideravam tranquilamente que não estavam envolvidos em nada e se tivessem cuidado, assim continuariam. Havia também alguns recém-casados (e até segundo o autêntico rito da igreja, porque uma ucraniana ocidental não se casaria de outra maneira, e o Gulag tinha o cuidado de manter ali sacerdotes de todas as religiões). Para esses recém-casados, a dor e o prazer sucediam-se em tais estratos que as pessoas normais não conhecem na sua lenta vida. Concebiam cada um dos seus dias como o último, e o facto de o castigo não surgir era para eles todas as manhãs uma dádiva do céu.
Os crentes rezavam e, deixando nas mãos de Deus o resultado da revolta de Kenguir, eram como sempre as pessoas mais serenas. No grande refeitório sucediam-se, segundo um horário, os ofícios de todas as religiões.
Mas alguns sabiam que estavam já irreversivelmente envolvidos e só tinham para viver aqueles dias anteriores à entrada das tropas. Mas entretanto era preciso refletir e fazer tudo para se aguentarem o mais tempo possível.
Mas quando todas aquelas pessoas se reuniam em assembleia para decidir se haviam de capitular ou manter-se — voltavam a ser de novo tomados por aquela temperatura social em que as suas opiniões pessoais se fundiam, deixavam de existir até para eles próprios. Ou receavam mais as zombarias do que a morte futura.
E quando votavam — mantemo-nos? — a maioria votava a favor.
Tudo continuava na mesma, e todo o lado fantástico, onírico, desta vida impossível, inédita, suspensa no vazio, de oito mil pessoas, impressionava ainda mais pela ordeira vida do campo: comida três vezes por dia; banhos no prazo; lavandaria; mudança de roupas; cabeleireiro; oficinas de costura e de sapateiro. Até juízes de paz para dirimir conflitos.
Porque é que este tempo se arrastou? O que podiam os patrões esperar? Que se acabassem os alimentos? Mas eles sabiam que isso demoraria muito tempo. Tinham em conta a opinião da aldeia operária? Não precisavam disso. Preparavam um plano de repressão? Podiam fazê-lo mais depressa.
Em meados de junho apareceram na vila muitos tratores. Trabalhavam ou arrastavam qualquer coisa de um lado para outro, nas proximidades da zona. Trabalhavam mesmo durante a noite. Este trabalho noturno dos tratores era incompreensível.
Este ronquido como que hostil aumentava ainda a escuridão.
E de repente, vexame dos céticos! Vexame dos desesperados! Vexame de todos os que diziam que não haveria piedade e que não havia nada que pedir. Só os ortodoxos podiam triunfar. Em 22 de junho a rádio exterior anunciou: as exigências dos reclusos são aceites! Um membro do Presidium do CC vem a Kenguir!
O ponto cor-de-rosa transformou-se num sol cor-de-rosa, num céu cor-de-rosa! Portanto, pode-se conseguir! Portanto, há justiça no nosso país! Cedem-nos alguma coisa a nós, nós cederemos alguma coisa. No fim de contas, até podemos usar os números, e as grades não nos incomodam, não subimos para as janelas. Estarão outra vez a enganar-nos? Não exigem que retomemos o trabalho antes!
Como o toque de uma varinha retira a carga de um eletroscópio e as lamelas tensas caem com alívio, assim a proclamação do rádio exterior retirou a tensão monótona da última semana.
E até os odiosos tratores, depois de terem trabalhado desde a noite de 24 de junho, calaram-se.
Na quadragésima noite da revolta dormiu-se tranquilamente. Provavelmente, ele chegaria no dia seguinte, ou até talvez já tivesse chegado…
Nos primeiros alvores de 25 de junho, uma sexta-feira, apareceram no céu foguetes suspensos de para-quedas, outros surgiram nas atalaias — e os observadores nos telhados das barracas nem soltaram um pio, ceifados pelas balas dos atiradores especiais. Soaram tiros de canhão! Alguns aviões passaram em voo rasante sobre o campo, semeando o pavor. Os famosos tanques T-34, que tinham ocupado as suas posições de partida a coberto do ruído dos tratores, avançavam agora de todos os lados pelas brechas. Alguns tanques arrastavam atrás de si redes de arame farpado, para dividir imediatamente a zona. Atrás de outros tanques corriam tropas de assalto de capacetes e espingardas automáticas. (Tanto os das espingardas como os tanquistas tinham recebido previamente a sua dose de vodka. Por mais que fossem tropas especiais, em estado de embriaguez sempre é mais fácil reprimir pessoas desarmadas e adormecidas.) Juntamente com as fileiras atacantes, vinham soldados de comunicações com aparelhos emissores. Os generais subiram para as atalaias dos atiradores e dali à luz dos foguetes (e uma das atalaias tinha sido incendiada pelos presos com os seus triângulos e ardia) davam ordens: «Ocupem aquela barraca!… Kuznetsov encontra-se além!…»
O campo acordou todo enlouquecido. Alguns permaneceram nas barracas, nos seus lugares, deitaram-se no chão, pensando desse modo escapar e não vendo sentido na resistência. Outros levantavam-nos para resistirem. Outros ainda corriam, debaixo das balas, para combater ou em busca de uma morte rápida.
O 3.° campo, aquele que tinha começado, combatia. Lançavam pedras contra os das armas automáticas e contra os vigilantes, e por certo os seus triângulos com enxofre sobre os tanques. Uma barraca lançou-se por duas vezes no contra-ataque aos gritos «hurra»…
Os tanques esmagavam todos aqueles que apanhavam no caminho, forçavam as entradas das barracas, esmagavam quem ali se encontrava. Rasavam as paredes das barracas e esmagavam aqueles que nelas se penduravam para escapar às lagartas. Semion Rak e a sua amiga atiraram-se, abraçados, para debaixo de um tanque, e desse modo acabaram. Os tanques forçavam as paredes de tábuas das barracas e mesmo dentro das barracas disparavam tiros de pólvora seca dos canhões. Faina Epstein recorda: como num sonho, o canto da barraca ruiu e um tanque passou de través, passando por cima de corpos vivos: as mulheres saltavam e corriam, desvairadas; atrás do tanque vinha um camião para cima do qual atiravam as mulheres seminuas.
Os tiros de canhão eram de pólvora seca, mas as espingardas automáticas e as baionetas eram de combate. As mulheres punham-se à frente dos homens para os proteger — mas trespassavam também as mulheres! Suprun, membro da Comissão, ferida num pulmão, morreu. Era já avó. Alguns escondiam-se nas retretes, onde eram crivados por rajadas.
Kuznetsov foi preso nos banhos, obrigaram-no a ajoelhar-se. Slutchenkov, com as mãos atadas, erguiam-no no ar e atiravam-no ao chão.
Depois o tiroteio cessou. Gritaram: «Saiam das barracas, não dispararemos!» E, de facto, apenas espancavam à coronhada.
À medida que capturavam um grupo de presos, conduziam-no para a estepe através das brechas, através do cordão exterior de soldados da escolta de Kenguir, revistavam-nos e faziam-nos deitarem-se de bruços na estepe com as mãos estendidas acima da cabeça. Aviadores do MVD e vigilantes caminhavam por entre esses crucificados e referenciavam, identificavam aqueles a quem tinham visto do ar ou das atalaias.
Houve mortos e feridos: segundo os relatos, cerca de seiscentos, segundo os materiais da secção de produção e planeamento de Kenguir, que os meus amigos conseguiram conhecer alguns meses depois, mais de setecentos.[83] Os feridos encheram o hospital do campo e começaram a transportá-los para o hospital da cidade.
Era tentador obrigar os sobreviventes a abrirem as sepulturas, mas para evitar uma maior divulgação, isso foi feito pelas tropas: enterraram umas trezentas pessoas num canto da zona, as outras, algures na estepe.
Durante todo o dia 25 os reclusos estiveram deitados de bruços na estepe, ao sol (todos aqueles dias foram impiedosamente escaldantes), enquanto no campo decorria uma busca geral, tudo era quebrado e esmiuçado. Depois trouxeram para o campo água e pão. Os oficiais tinham listas já preparadas. Chamavam pelos apelidos, punham um sinal a indicar que estava vivo, davam a ração e separavam as pessoas conforme as listas.
Os membros da Comissão e outros suspeitos foram encerrados na prisão do campo. Mais de mil pessoas foram separadas, a fim de serem enviadas umas para uma prisão fechada, outras para Kolimá.
Durante todo o dia 26 de junho obrigaram-nos a levantar as barricadas e a reparar as brechas no muro.
Em 27 de junho conduziram-nos para o trabalho. Foi então que as composições ferroviárias conseguiram mão de obra.
O julgamento dos cabecilhas decorreu no Outono de 1955, à porta fechada, é claro, e nem sabemos nada de preciso sobre ele…
Sobre as sepulturas cresce uma erva verde particularmente densa.
E em 1956 toda aquela zona foi liquidada — e então os habitantes locais, os desterrados que não partiram, descobriram em todo o caso onde aqueles tinham sido enterrados — e levavam-lhes tulipas da estepe.
A revolta não pode acabar em triunfo.
Quando ela vence — dão-lhe um nome diferente…
(Burns)
Sempre que em Moscovo passarem ao lado da estátua de Dolgorruki, lembrem-se: foi inaugurada durante os dias da revolta de Kenguir — de modo que é como que um monumento a Kenguir.
Também os ossos choram pela pátria.
Provérbio russo
Certamente, a humanidade inventou o desterro antes da prisão. A expulsão da tribo era já um desterro. Compreendeu-se muito cedo como era difícil para um homem viver separado das pessoas e dos lugares habituais. Nada é como deve ser, nada funciona nem se ajusta, tudo é provisório, artificial, mesmo que à volta haja verdura e não o gelo eterno.
O Império russo também não se deixou ficar para trás nesta matéria: o desterro foi legalizado no tempo de Aleksei Mikhailovitch, pelo Código de 1648. Mas já antes disso, em fins do século XVI, desterravam-se pessoas sem Código nenhum: habitantes de Kargopol caídos em desgraça; depois os habitantes de Uglitch, testemunhas do assassínio do czarevitch Dimitri. A vastidão dos espaços permitia — a Sibéria já era nossa. Assim, havia já em 1645 cerca de mil e quinhentos desterrados. Pedro, pelo seu lado, fez muitas centenas de desterrados. Isabel substituiu a pena de morte pelo desterro perpétuo para a Sibéria. No princípio do século XIX, todo os anos eram desterradas entre duas mil e seis mil pessoas. No final do século, o número de desterrados constantes era de trezentos mil.
O desterro desenvolveu-se assim tanto na Rússia precisamente porque havia muito poucas prisões.
No último século dos czares, o desterro tinha uma característica que então se entendia como natural e que agora nos parece a nós surpreendente: era individual. Fosse por decisão de um tribunal ou como medida administrativa, o desterro era aplicado individualmente a cada pessoa, e nunca por pertencer a um determinado grupo.
E o que foi o desterro de Radíschev? Na aldeia de Ust-Ilimsk Ostrog, comprou uma casa de madeira de dois pisos (a propósito, por dez rublos) e viveu com os filhos mais novos e com uma cunhada, que substituía a esposa. Ninguém pensava em obrigá-lo a trabalhar, ele vivia como queria e tinha liberdade para se deslocar por todo o distrito de Ilimsk. Como foi o desterro de Púchkin em Mikhailovskoie — agora já muitos o compreendem, depois de lá terem ido como excursionistas. Idêntico foi o desterro de muitos outros escritores e ativistas políticos: Turguéniev, em Spasskoe-Lutovinovo, Aksakov em Varvarino (por escolha dele).
Esta forma suave de desterro não estava reservada apenas a pessoas famosas e ilustres. Conheceram-na ainda no século XX muitos revolucionários e frondistas, em especial os bolcheviques: não tinham medo deles. Estaline, que já tinha atrás de si quatro fugas, foi desterrado pela quinta vez… para a própria cidade de Vologdá.
Mas mesmo essa forma de desterro, benigna segundo os nossos padrões atuais, desterro sem a ameaça de morrer à fome, era por vezes muito difícil de suportar. Muitos revolucionários recordam como era doloroso para eles serem transferidos da prisão, com o pão garantido, calor, teto e ócio — para o desterro, onde tinham de procurar, sozinhos entre estranhos, o pão e o abrigo. E quando não tinham de procurar, explicam eles (F. Kon), era ainda pior: «os horrores da ociosidade… o mais horrível é que as pessoas são condenadas à ociosidade» — e alguns refugiam-se na ciência, outros no comércio e no lucro, outros caem no alcoolismo, por desespero. Melhor dizendo, devido à mudança do solo, à rotura com o modo de vida habitual, ao corte das raízes, à perda das relações vivas.
Essa é que é a força sombria do desterro — o simples transplante, com os pés atados, já conhecido dos soberanos da antiguidade e que já Ovídio teve de sofrer.
O vazio. A perda. Uma vida que não parece vida…
* * *
Na lista dos instrumentos de opressão que a nossa revolução devia varrer para sempre, figurava naturalmente também, para aí em quarto lugar, o desterro.
Mas apenas deu os primeiros passos nas suas pernas tortas, ainda antes de amadurecer, compreendeu: sem desterro, não é possível! Eis as palavras autênticas de Tukhatchevski, herói popular, mais tarde marechal, sobre a província de Tambov em 1921: «Foi decidido organizar um vasto desterro de famílias dos bandidos (leia-se, «dos resistentes». — A. S.). Organizaram-se vastos campos de concentração, onde essas famílias eram previamente encerradas.”[84]
Em 16 de outubro de 1922 foi criada junto do NKVD uma Comissão permanente para o Desterro de «indivíduos socialmente perigosos, ativistas dos partidos antissoviéticos», ou seja, de todos os partidos menos o bolchevique.
Mas restava nas tradições do desterro uma dificuldade, a saber: a mentalidade parasitária dos eLivross que o Estado tinha a obrigação de alimentar. O governo czarista não ousava obrigar os desterrados a aumentar o produto nacional. E os revolucionários profissionais achavam que trabalhar era humilhante. Na Iakútia, um desterrado tinha direito a 15 deciatinas[85] de terra. Não é que os revolucionários se lançassem a cultivar a terra, mas os iakutes davam muito valor à terra e pagavam aos revolucionários uma «compensação», uma renda, remível em produtos e em cavalos. E ainda, além disso, o Estado czarista pagava ao seu inimigo político desterrado: 12 rublos por mês para alimentação e 22 rublos por ano para vestuário. Lenine, durante o seu desterro em Chuchenskoie, também recebia (não recusava) 12 rublos por mês. Os preços na Sibéria eram duas a três vezes inferiores aos da Rússia, e por isso a remuneração do Estado ao desterrado era até mais que suficiente. Por exemplo, dava a Lenine a possibilidade de durante três anos se ocupar tranquilamente da teoria da revolução, sem se preocupar com a fonte dos seus meios de subsistência.
É claro que o nosso desterro político soviético não podia assentar em condições tão pouco sãs. A partir de 1929 começaram a elaborar o desterro em combinação com os trabalhos forçados.
«Quem não trabalha, não come» — é o princípio do socialismo.
No entanto, mesmo querendo trabalhar, não era fácil para um desterrado conseguir um ganha-pão. Pois no final dos anos vinte, como se sabe, havia muito desemprego no país.
Tinha de recolher migalhas da mesa e levá-las à boca.
A esse nível decaiu o desterro político russo! Não havia tempo para discutir nem para escrever protestos. E não conheciam o desgosto de ter de suportar uma ociosidade sem sentido… A preocupação era: como não morrer de fome.
Nos primeiros anos soviéticos, no nosso país finalmente liberto de uma escravidão secular, o orgulho e a independência dos desterrados políticos decaiu como um balão de ar perfurado. Assim que a opinião pública foi substituída pela opinião organizada — os desterrados com os seus protestos e os seus direitos foram entregues à arbitrariedade dos agentes obtusos do GPU e das desumanas instruções secretas.
Os desterrados foram também enfraquecidos pelo alheamento da população local em relação a eles: os habitantes locais eram perseguidos sempre que se aproximavam de algum modo dos desterrados, os culpados eram eles próprios desterrados para outros lugares, e os jovens eram excluídos do Komsomol.
Enfraquecidos pela indiferença do país, os desterrados soviéticos perdiam até a vontade de fugir. Para os desterrados do tempo do czarismo as fugas eram um desporto alegre: seis fugas de Estaline, seis fugas de Noguin — o que os ameaçava não era uma bala, não eram os trabalhos forçados, mas apenas serem devolvidos ao lugar depois de uma viagem de distração. Mas a GPU, cada vez mais rotineira, cada vez mais pesada a partir de meados dos anos 20, impôs aos desterrados uma caução solidária: todos os membros de um partido respondiam por um dos seus camaradas que fugisse. E o ar era já tão escasso, o jugo tão pesado, que os socialistas, ainda há pouco orgulhosos e indomáveis, aceitaram essa caução! Agora eles próprios, por uma decisão do seu partido, proibiam-se de fugir!
E fugir para onde? Para junto de quem?…
* * *
Até ao início dos anos 30 manteve-se a forma mais suave: não era o desterro, mas o menos. Neste caso não se indicava ao condenado um lugar preciso de residência, mas dava-se-lhe a escolher qualquer cidade, menos umas quantas.
O menos era um alfinete: com ele espetava-se o inseto nocivo, que assim esperava submissamente até que chegasse a sua vez de ser verdadeiramente detido.
O desterro era o redil preliminar de todas as ovelhas destinadas ao açougue. Os desterrados das primeiras décadas da era soviética iam para o lugar de exílio não para ali viverem, mas para ficarem à espera de serem convocados para lá. (Houve pessoas inteligentes, entre os antigos e entre os simples camponeses, que ainda nos anos 20 compreenderam tudo o que os esperava. E depois de terminada a primeira fase de três anos de desterro, deixavam-se ficar onde estavam, por exemplo em Arkhanguelsk. Por vezes isso ajudava-os a escapar depois ao verdugo.)
Eis no que deu para nós o pacífico exílio de Chuchenskoie.
Eis o peso que para nós se acrescentou à tristeza de Ovídio.[86]
Este capítulo trata de pouca coisa. De quinze milhões de almas. De quinze milhões de vidas.
Claro, não eram pessoas instruídas. Não sabiam tocar violino. Não sabiam quem era Meierhold ou como pode ser interessante dedicar-se à física atómica.
Em toda a Primeira Guerra Mundial perdemos menos de dois milhões de homens, entre mortos e desaparecidos. Em toda a Segunda Guerra, vinte milhões (isto, segundo Khruschov; mas, segundo Estaline, apenas sete milhões). E quantas odes! Quantos obeliscos, fogos eternos, romances e poemas! — durante um quarto de século toda a literatura soviética tem sido impregnada apenas desse sangue.
Mas sobre essa Peste traidora e silenciosa que nos devorou quinze milhões de camponeses — isto segundo o cálculo mais baixo e só até 1932! — e não ao acaso, mas escolhidos porque eram a coluna vertebral do povo russo — sobre essa Peste não há livros. E sobre os seis milhões de mortos devidos à fome artificialmente criada pelos bolcheviques, é o completo silêncio da nossa pátria e da Europa limítrofe. Nas aldeias da rica Poltava, nos caminhos e nos campos jaziam os cadáveres não recolhidos. Era impossível entrar nos pequenos bosques perto das estações, devido ao cheiro dos corpos em decomposição, entre os quais havia também corpos de bebés. No Kuban era talvez ainda pior. E na Bielorrússia, em muitos lugares, eram equipas de fora que recolhiam os cadáveres, porque já não havia ninguém para os enterrar.
E as trombetas não nos vêm despertar e sacudir. E as encruzilhadas de caminhos por onde passaram os comboios de condenados não estão sequer assinaladas por alguns calhaus.
* * *
Como começou tudo isto?
Durante todos os anos 20 brandiram, repisaram, exprobaram: kulak! Kulak! Kulak! Incutia-se na mente dos citadinos que era impossível viver na mesma terra com o «kulak».
A Peste exterminadora dos camponeses preparava-se, tanto quanto se pode avaliar, desde novembro de 1928. Mas no princípio de 1930, anunciou-se publicamente (resolução do Comité Central de 5 de janeiro, a coletivização acelerada): o partido tem «pleno fundamento para passar a aplicar uma política de liquidação dos kulaks como classe».
O princípio da «deskulakização» compreende-se bem pelo destino das crianças. Vejamos o caso de Churka Dmitriev, da aldeia de Masleno (junto ao rio Volkhov). Em 1925, quando o pai, Fiódor, morreu, ele tinha treze anos e era o único rapaz da família. Quem havia de encabeçar a exploração agrícola do pai? Ele tomou o encargo. As irmãs e a mãe ficaram sob a sua autoridade.. Agora saudava na rua as outras pessoas como um adulto, um homem que trabalha. Conseguiu prosseguir dignamente o trabalho do pai e em 1929 tinha os celeiros cheios de cereais. Portanto, era um kulak! E prenderam toda a família!…
Adamova-Sliozberg conta o seu encontro com uma rapariguinha, Mótia, metida na prisão em 1936 por se ter deslocado sem autorização do desterro no Ural para a sua aldeia natal de Svetlovidovo, perto de Tarussa. — Fez dois mil quilómetros a pé! Por isso deviam dar-lhe uma medalha desportiva. — Era ainda uma pequena aluna de escola quando foi desterrada com os pais em 1929, para sempre privada de instrução. A professora chamava-lhe ternamente «Mótia-Edisonitch»: não só era uma excelente aluna, como tinha espírito inventivo; tinha construído uma turbina que funcionava com a água do ribeiro, além de outros inventos para a escola. Sete anos mais tarde sentiu vontade de lançar ao menos um olhar às paredes de troncos da escola inacessível — o que valeu à «pequena Edison» a prisão e o campo.
Mostrem-me um destino de criança como este no século XIX!
A deskulakização atingia sem falta todos os moleiros — e quem eram os moleiros e os ferreiros, se não os melhores técnicos da aldeia russa?
Quem tivesse uma casa de tijolo numa fila de casas de madeira ou uma casa de dois pisos numa fila de casas de um só piso, era um kulak, toca a despachar, emala as tuas coisas, canalha, dentro de sessenta minutos! Não devia haver na aldeia russa casas de tijolo nem de dois pisos! Para trás, para a caverna! Aquece-te no meio do fumo! É o nosso grande projeto de transformação como nunca houve na história.
Mas o principal segredo ainda não está nisso. Por vezes, mesmo aquele que vivia melhor, se entrava imediatamente para o kolkhoze continuava em casa. Mas um pobre teimoso que não fazia o pedido, era desterrado.
Não se tratava de modo nenhum de «deskulakização», mas de obrigar os camponeses a entrarem para o kolkhoze. Aterrorizar os camponeses de morte era a única maneira de lhes tirar a terra prometida pela revolução — e prendê-los a essa mesma terra como servos.
E eis que, pelas aldeias já muitas vezes limpas de cereais, voltavam a passar os ativistas ameaçadores, armados, que espetavam as baionetas no chão dos pátios, martelavam as paredes das isbas — por vezes partiam-nas — e dali escorria trigo. Só para assustar os camponeses, desfaziam também as almofadas com as facas. A filha pequena de um agricultor furou um dos sacos confiscados e retirou algum trigo para si — «ladra!» —, gritou-lhe uma ativista e derrubou-a com um pontapé, espalhou o trigo do regaço da criança. E não a deixou apanhá-lo grão a grão.
Isto era uma segunda guerra civil — agora contra os camponeses. Era a Grande Fratura, sim, só não dizem — fratura de quê?
Da espinha dorsal da Rússia.
* * *
Não, nós errámos em relação à literatura do realismo socialista — ela descreveu a deskulakização, descreveu-a lisamente e com muita simpatia.
Só não descreveu como, numa longa enfiada de casas da aldeia, todas as janelas estão pregadas com tábuas. Ao caminhar pela aldeia, vemos numa entrada uma mulher morta com uma criança morta no regaço. Ou um velho que está sentado junto a uma cerca e te pede pão — e quando voltas para trás, já ele caiu, morto.
Não nos mostrarão as pequenas trouxas com que as famílias eram autorizadas a subir para a telega oficial. Não nos dirão que na casa Tvardovski, no momento da desgraça, não havia toucinho, nem sequer pão preto e que eles foram salvos pelo vizinho, o velho Kuzmá, pobre também ele e pai de muitos filhos, que levou comida para a viagem.
E a própria viagem, o próprio caminho da cruz dos camponeses, esses autores do realismo socialista não o descrevem. Carregaram-nos, partiram — e acabou-se a história.
E de que maneira os carregavam: menos mal se era com tempo quente, nas telegas; se não, era de trenó, com um frio de rachar e com crianças de peito, crianças pequenas e adolescentes. Pela aldeia de Kotchenevo (região de Novossibirsk), em fevereiro de 1931, quando os grandes frios alternavam com as tempestades de neve, passavam esses intermináveis comboios guardados por escoltas, emergindo da estepe nevada e voltando a desaparecer na estepe nevada. E só com autorização da escolta podiam entrar nas isbas para se aquecerem, por poucos minutos, para não retardar o comboio. Arrastavam-se para os pântanos de Narim, e todos ficavam nesses pântanos insaciáveis. Mas antes disso, na terrível viagem, já as crianças tinham morrido.
Desde que Herodes morreu, só a Teoria de Vanguarda nos poderia explicar: como exterminar até as crianças pequenas. Hitler era um aprendiz, mas teve sorte: celebrizaram os seus matadouros, enquanto pelos nossos ninguém se interessou.
Os mujiques sabiam o que os esperava. E se tinham a sorte de atravessar de comboio lugares habitados, nas paragens faziam descer pelas janelinhas as suas crianças pequenas, desde que soubessem ao menos gatinhar: vão lá viver entre as pessoas! Peçam esmola! — tudo menos irem morrer conosco.
(Em Arkhanguelsk, durante a fome de 1932-1933, os filhos indigentes dos migrantes especiais não recebiam os almoços escolares gratuitos nem as senhas para vestuário, como as outras crianças necessitadas.)
Num comboio vindo do Don, em que as mulheres eram transportadas em separado dos cossacos, uma mulher deu à luz na viagem. Davam-lhes um copo de água por dia e 300 gramas de pão nem todos os dias. Um enfermeiro? Nem falar. O leite da mãe secou e a criança morreu. Onde enterrá-la? Dois soldados da escolta subiram para o vagão num trajeto, abriram a porta em andamento e atiraram o pequeno cadáver.
É difícil acreditar nesta crueldade: numa noite de Inverno, na taiga, dizer: é aqui! Podem os seres humanos proceder assim? Mas a viagem fazia-se de dia, e chegava-se ao anoitecer. Centenas e centenas de milhares foram levados assim e abandonados, com velhos, mulheres e crianças.
O que distinguia o desterro dos mujiques de todos os desterros soviéticos anteriores e posteriores é que não os desterravam para nenhum lugar habitado, mas para o meio das feras, para o ermo, para o estado primitivo. Não, pior: porque mesmo no estado primitivo, os nossos antepassados escolhiam instalar-se aos menos nas proximidades da água. Desde que a humanidade existe, ninguém se estabeleceu de outra maneira. Mas para as aldeias especiais, os tchekistas escolhiam lugares (os próprios mujiques não tinham o direito de escolher) em declives pedregosos (sobre o rio Pinega, a uma altitude de 100 metros, onde era impossível escavar até encontrar água e a terra não produzia nada). A três ou quatro quilómetros de distância havia uma pradaria propícia — mas não, segundo as instruções não podiam instalar-se perto dela! Tinham que ir ceifar feno a dezenas de quilómetros de distância e trazê-lo em barcas… Por vezes proibiam-nos de cultivar trigo. (Os tchekistas determinavam também a orientação da vida agrícola.)
Muitas dessas aldeias especiais morreram completamente. E ainda hoje, pessoas que passam ocasionalmente por esses lugares vão queimando pouco a pouco o que resta das barracas e fazem rolar caveiras a pontapé.
Nenhum Gengis Khan exterminou tantos camponeses russos como os nossos gloriosos Órgãos, dirigidos pelo Partido.
Vejamos a tragédia do Vassiugan. Em 1930, dez mil famílias (o que significa entre cinquenta mil e sessenta e cinco mil pessoas, pelos padrões desse tempo), passaram pela cidade de Tomsk, e foram depois conduzidas a pé, de Inverno, primeiro pelo rio Tomi abaixo, depois pelo Obi, e depois pelo Vassiugan acima — sempre sobre o gelo. (Os habitantes das aldeias que ficavam no caminho foram depois mandados recolher os cadáveres de adultos e crianças.) Nos vales superiores do Vassiugan e do Tara, foram deixadas nas elevações de terra firme no meio dos pântanos. Não lhes deixaram nem víveres nem instrumentos de trabalho. Chegado o degelo, ficaram sem caminhos para o mundo exterior, salvo dois carreiros de troncos: um para Tobolsk, outro para o rio Obi. Em ambos os carreiros foram instalados postos de guarda com metralhadoras que não deixavam ninguém sair. Desencadeou-se uma epidemia. As pessoas, desesperadas, aproximavam-se dos postos, imploravam — fuzilavam-nas ali mesmo.
Morreram todas.
E no entanto, alguns desterrados viviam! Nas suas condições isso é inacreditável, mas viviam.
Por vezes acontecia levarem os deskulakizados para a tundra ou para a taiga, deixavam-nos lá e esqueciam-se deles: afinal levavam-nos para morrerem, para quê tê-los em conta? Não lhes deixavam nem um soldado — por ser demasiado isolado, demasiado longe. Então, finalmente liberta das sábias orientações, sem cavalo e sem arado, sem um instrumento de pesca, sem uma arma, essa tribo laboriosa e obstinada, talvez com alguns machados e algumas pás, iniciava uma luta desesperada pela vida em condições um pouco mais leves que na idade da pedra. E contra todas as leis económicas do socialismo, essas aldeias não só sobreviviam mas até se fortaleciam e enriqueciam!
Numa aldeia dessas, algures para os lados do Obi, afastada é claro da zona de navegação, mas perto de um braço do rio, cresceu Burov, para ali levado em criança. Conta ele que certo dia, já perto da guerra, passou por ali uma lancha, reparou neles e atracou. E na lancha seguiam as autoridades distritais. Interrogatório — de onde são, quem são, há quanto tempo? As autoridades ficaram assombradas com a riqueza e o bem-estar deles, desconhecida na sua região de kolkhozes. Partiram as autoridades. Mas alguns dias depois chegaram uns delegados com atiradores do NKVD e de novo, como no ano da Peste, os mandaram abandonar tudo dentro de uma hora, toda a aldeia confortável, e despediram-nos com as suas trouxas para mais longe, para o interior da tundra.
Este relato só por si não será bastante para compreender a essência dos «kulaks», e a essência da «deskulakização»?
O que não seria possível fazer com aquele povo se lhe dessem liberdade para viver, para se desenvolver livremente!!
* * *
Não, a raça condenada não morreu! E mesmo no desterro voltaram a nascer-lhes filhos — que ficavam hereditariamente ligados à mesma aldeia especial. («O filho não responde pelo pai», lembram-se?) Se uma rapariga de fora se casava com um migrante especial, era incluída nessa mesma camada de servos, perdia os seus direitos civis. Se uma filha vinha visitar o pai, inscreviam-na também a ela nos migrantes especiais, corrigiam o erro cometido por não a terem incluído antes.
Até aos anos 50, e em alguns lugares até à morte de Estaline, os migrantes especiais não tinha documentos de identificação.
Mas vejamos — depois de terem vivido vinte anos de imundo desterro, agora livres da tutela do comando, tendo recebido os nossos orgulhosos passaportes — quem são eles e o que são eles interiormente e exteriormente? Bah! — são cidadãos padrão! Idênticos àqueles que foram formados paralelamente pelas vilas operárias, pelas reuniões dos sindicatos e pelo serviço no Exército Soviético. Consomem da mesma maneira a energia não a bater as pedras do dominó (menos os velhos crentes, é claro). Acenam da mesma maneira com ar aprovador cada imagem que desliza no televisor. No momento necessário verberam do mesmo modo a República da África do Sul ou reúnem as suas últimas moedas para ajudar Cuba.
Baixemos pois os olhos diante do Grande Açougueiro, inclinemos as cabeças e curvemos os ombros: quer dizer que ele teve razão, o conhecedor dos corações, ao desencadear a terrível amassadura sangrenta e deixá-la cozer bem de ano para ano?
Tinha razão moralmente: não há agravos contra ele! No tempo dele, diz o povo, era «melhor do que com Khruschov»: no dia 1 de abril, todos os anos, o preço dos cigarros baixava um copeque e os artigos de capelista, dez copeques.
E mais razão ainda do ponto de vista do Estado: com esse sangue consolidou os kolkhozes obedientes. Pouco importa que um quarto de século mais tarde os campos empobrecessem até às últimas e o povo degenerasse espiritualmente.
Até à sua morte ressoavam para ele elogios e hinos, e ainda hoje não é permitido invetivá-lo: não apenas qualquer censor deterá a vossa pena, mas qualquer pessoa na bicha de uma loja ou passageiro numa carruagem se apressará a deter a injúria nos vossos lábios.
Porque nós respeitamos os Grandes Malvados. Adoramos os Grandes Assassinos.
[Neste capítulo segue-se a evolução do desterro na União Soviética desde os anos 20 até aos anos 40 e 50. Conta-se como o desterro «adquiriu mais um novo papel para o Estado — o de reservatório para onde se atiravam os detritos do Arquipélago, para que nunca mais voltassem para a metrópole». ]
Os historiadores poderão corrigir-nos, mas a nossa memória, que é a memória média da humanidade, não reteve casos de transferência forçada e maciça de um povo nem no século XIX, nem no século XVIII, nem no século XVII. Houve as conquistas coloniais, nas ilhas do oceano, em África, na Ásia, no Turquestão, os vencedores adquiriam poder sobre as populações locais, mas não ocorria às cabeças pouco desenvolvidas dos colonizadores arrancar essa população à sua terra ancestral, às casas dos seus antepassados. Talvez só o tráfico de escravos destinados às plantações americanas nos dê uma certa semelhança e um precedente, mas aí não havia um sistema estatal amadurecido: havia apenas alguns escravocratas cristãos, em cujos peitos ardia o fogo do lucro subitamente revelado, que se precipitaram cada qual por sua conta a capturar, enganar e comprar os negros à unidade e às dezenas.
Foi preciso chegar a esperança da humanidade civilizada, o século XX, para que, com base na Única Teoria Justa, a questão das nacionalidades fosse desenvolvida por uma mão augusta, e um alto especialista nessa questão tirasse a patente da erradicação geral dos povos através do desterro dentro de quarenta e oito horas, de vinte e quatro horas e até de hora a meia.
É claro que Ele Próprio não teve essa revelação assim tão depressa. Mesmo depois de esmagar a grande peste camponesa com o rolo compressor do desterro, o Grande Timoneiro não conseguiu compreender de imediato como seria cómodo aplicá-lo às nacionalidades. Em todo o caso, a experiência do seu poderoso irmão Hitler na erradicação dos judeus e dos ciganos aconteceu mais tarde, já depois do início da Segunda Guerra Mundial, e o paizinho Estaline refletiu sobre o problema muito antes disso.
Excluindo a Peste Mujique e antes da deportação dos povos, o nosso exílio soviético, embora contasse algumas centenas de milhares de pessoas, não tinha comparação com os campos, não era tão célebre e abundante, para que o curso da história deixasse nele um rasto. Havia os residentes forçados (pelo tribunal), havia os desterrados administrativamente (sem tribunal), mas uns e outros eram unidades que se podiam contar, com os apelidos, as datas de nascimento, os artigos de acusação, as fotografias de frente e de perfil.
Mas que promoção e aceleração conheceu o desterro quando começaram a desterrar os migrantes especiais! Os dois primeiros termos eram do tempo do czar, este último era soviético. No ano da Grande Fratura, os «deskulakizados» receberam a designação de migrantes especiais. E foi essa denominação que o Grande Pai mandou aplicar às nações desterradas.
A primeira experiência foi muito cautelosa: em 1937, algumas dezenas de milhares daqueles coreanos suspeitos, desde os velhos trémulos até aos bebés chorões, foram transferidos, numa operação rápida e discreta, com uma pequena parte dos seus pobres trastes, do Extremo Oriente para o Cazaquistão. Tão depressa, que o primeiro Inverno foi vivido em casas de adobe sem janelas (onde poderiam eles ir buscar vidraças!?). E tão discretamente que ninguém, salvo os cazaques locais, soube dessa migração, nem uma língua em todo o país proferiu palavra, nenhum correspondente estrangeiro deu um pio. (É para isso que toda a imprensa deve estar nas mãos do proletariado.)
Gostaram. Memorizaram. E, em 1940, esse mesmo procedimento foi aplicado nos arredores de Leninegrado, cidade berço. Mas não foi durante a noite nem sob a ameaça das baionetas que apanharam as vítimas do desterro; chamaram-lhe «partida solene» para a república carélio-finlandesa (acabada de conquistar). A meio do dia, sob o tremular das bandeiras vermelhas e ao som dos metais da orquestra, os finlandeses e os estonianos dos arredores de Leninegrado foram enviados para colonizar a nova terra natal. Depois de os terem conduzido a uma certa distância, retiraram-lhes os passaportes, rodearam-nos por uma escolta e transportaram-nos para mais longe em vagões vermelhos de gado, e depois em barcaças. A partir do desembarcadouro de destino, na Carélia profunda, trataram de reparti-los «para reforço dos kolkhozes».
Tudo isto eram ensaios. Só em julho de 1941 chegou a altura de experimentar o método em pleno: era preciso varrer a república autónoma, e, é claro, traidora, dos Alemães do Volga (com as suas capitais Engels e Marxstadt), e em poucos dias atirá-la algures para leste, o mais longe possível. Aqui foi pela primeira vez aplicado com toda a pureza o método dinâmico do desterro de povos inteiros, e como se revelou mais simples e mais frutuoso usar uma única chave — a pertença nacional — em vez de todos esses processos de instrução e decisões nominais sobre cada indivíduo.
O sistema estava aprovado, ajustado e desde então será implacavelmente usado para apanhar todas as nações que lhe fossem indicadas como traidoras, e de cada vez com mais presteza: chechenos, inguches, caratchais, balcários, calmucos, curdos, tártaros da Crimeia, e finalmente os gregos do Cáucaso. O sistema era especialmente dinâmico porque a decisão do Pai dos Povos era proclamada ao povo, não sob a forma de um processo judicial palavroso, mas sob a forma de uma operação de combate da moderna infantaria motorizada: divisões armadas entram de noite no território da nação condenada e ocupam as posições chave. Ao acordar, a nação criminosa vê um círculo de metralhadoras e pistolas-metralhadoras em volta de cada povoação. E dão-lhe doze horas (mas isto é demasiado para as rodas da infantaria motorizada ficarem paradas, e na Crimeia já são apenas duas horas e mesmo hora e meia), para que cada um reúna as coisas que pode levar nas mãos. Depois sentam-se todos, de pernas dobradas, como prisioneiros, na carroçaria de um camião (velhas, mães com crianças — sentar, foi dada a ordem!) — e os camiões lá vão, bem guardados, até à estação ferroviária. E dali, em vagões para gado, até ao lugar de destino.
Harmoniosa uniformidade! Tal é a vantagem de desterrar de uma vez nações inteiras. Nada de casos particulares! Nada de exceções, nem protestos pessoais! Partem todos docilmente, porque vais tu, e ele, e eu. Vão não apenas todas as idades e os dois sexos: vão também aqueles que estão no ventre da mãe, e que são já desterrados pelo mesmo decreto. Vão também os que ainda não foram concebidos: pois estão destinados a serem gerados sob a força desse mesmo decreto, e desde o próprio dia do nascimento, contra o envelhecido e incómodo artigo 35 do Código Penal («o desterro não pode ser aplicado a pessoas com menos de dezesseis anos»), mal acabem de pôr a cabeça no mundo, já serão migrantes especiais, já serão desterrados para sempre.
E aquilo que ficou para trás — as casas ainda mornas, abertas de par em par, os bens revolvidos, toda a vida estabelecida ao longo de dez ou vinte gerações, tudo ficará, da mesma maneira uniforme, para os agentes operacionais dos órgãos de repressão, para o Estado, para os vizinhos de nações mais felizes, e ninguém apresentará reclamações pela sua vaca, pelos móveis, pela louça.
Para onde enviavam as nações? De bom grado e em grande número para o Cazaquistão, onde, juntamente com os desterrados normais, formaram uma boa metade da república. Também a Ásia Central não foi esquecida, nem a Sibéria (muitos calmucos morreram no Ienissei), o norte do Ural e o norte da parte europeia da Rússia. Devemos ou não considerar como desterro de povos o exílio dos bálticos? Não preenche as condições formais: não desterravam toda a gente, os povos perece terem permanecido no lugar. Parece terem permanecido, mas foram seriamente cortados.
Começaram a limpá-los muito cedo: logo em 1940, assim que as nossas tropas lá chegaram, e ainda antes que os povos, contentes, votassem unanimemente a favor da entrada para a União Soviética. A exclusão começou pelos oficiais.
No entanto, em 1940, os povos do Báltico não iam para o desterro, iam para os campos, e alguns eram fuzilados nos pátios de pedra das prisões. E em 1941, na retirada, apanharam o máximo que podiam das pessoas abastadas, importantes, notáveis, levaram-nas e depois abandonaram-nas como estrume na terra gelada do Arquipélago.
O mais importante desterro dos povos das repúblicas do Báltico desencadeou-se em 1948 (os lituanos insubmissos), em 1949 (as três nações) e em 1951 (uma vez mais os lituanos). Nesses mesmos anos, o ancinho passou igualmente na Ucrânia ocidental, onde a última deportação aconteceu também em 1951.
A organização da deportação elevou-se de tal maneira nos anos decorridos desde os tempos dos coreanos e dos tártaros da Crimeia, que já se contava, não por dias nem por horas, mas por minutos. Estabeleceu-se e confirmou-se que bastavam vinte-trinta minutos desde o primeiro toque noturno à porta até que o último salto do sapato da dona da casa transpusesse o limiar da casa da família, para o escuro da noite e para o camião.
Naqueles pequenos vagões de gado, previstos para oito cavalos ou trinta e dois soldados, ou quarenta prisioneiros, transportaram cinquenta e mais dos desterrados de Talin. Com a pressa não equiparam os vagões, e não permitiram logo que se abrisse um buraco no chão. A selha — um balde velho — ficava logo cheia, transbordava e salpicava os pertences das pessoas. Mamíferos bípedes, foram forçados desde o primeiro momento a esquecer que as mulheres e os homens são seres diferentes.
Ficaram encerrados dia e meio sem água e sem comida, uma criança morreu. (Mas já lemos tudo isto há pouco tempo, não é verdade? Dois capítulos antes, a vinte anos de distância — e sempre a mesma coisa…)
Todos os comboios faziam uma longa viagem: para a região de Novosibirsk, de Irkutsk, de Krasnoiarsk. Só Barabinsk recebeu à sua parte cinquenta e dois vagões de estonianos. A viagem para Atchinsk demorou catorze dias e noites.
No que pensavam os estonianos durante a viagem? Em 1940, os siberianos depenavam os bálticos para lá enviados, extorquiam-lhes as coisas, por uma peliça davam-lhes meio balde de batatas. (Realmente, da maneira como nós andávamos vestidos nessa época, os bálticos pareciam de facto uns burgueses…)
Desta vez, em 1949, tinham repetido aos siberianos que lhes iam levar uns autênticos kulaks. Mas dos vagões desciam uns kulaks extenuados e esfarrapados. No exame sanitário, as enfermeiras russas surpreendiam-se com a magreza daquelas mulheres e os farrapos que vestiam, nem sequer tinham um trapo limpo para enfaixar uma criança.
As recém-chegadas foram distribuídas pelos kolkhozes despovoados, onde, às ocultas das autoridades, as kolkhozianas as ajudavam com aquilo que tinham: umas com meio litro de leite, outras com algumas bolachas de beterraba ou de má farinha.
E, agora sim, as estonianas choravam.
* * *
Na estação de Atchinsk deu-se uma confusão divertida. As autoridades distritais de Biriliuss compraram à escolta dez vagões de desterrados, meio milhar de pessoas, para os seus kolkhozes do vale do rio Tchulim, e expediram-nos com presteza para 150 quilómetros dali, a norte de Atchinsk. Mas essas pessoas eram destinadas (sem que o soubessem, é claro) às minas de Sarala, na Khakássia. As minas esperavam pelo seu contingente, mas o contingente tinha sido distribuído pelos kolkhozes, onde no ano anterior a jornada de trabalho tinha sido paga a 200 gramas de pão. Nessa Primavera já ninguém tinha pão, nem batatas, e pairava sobre as aldeias o mugido das vacas, que se atiravam como feras a toda a palha meio apodrecida. Os estonianos ficaram três meses nesses kolkhozes do Tchulim, assimilando com pasmo uma nova lei: ou roubas, ou morres! E pensavam já que era para sempre — quando de repente foram todos expedidos para o distrito de Sarala, na Khakássia (os donos tinham encontrado o seu contingente). Ali não havia nem vestígio dos indígenas locais; todas as povoações eram de desterrados e em cada uma havia um comando. Por toda a parte havia minas de ouro, e perfurações, e silicose.
Mas o pior mal não era serem simplesmente enviados para as minas. O pior era serem colocados à força nos «grupos de garimpeiros». Garimpeiros! Isto soa de uma maneira atraente, a palavra brilha como um leve pó de ouro. Mas no nosso país sabe-se como deturpar qualquer conceito terreno. Empurravam para esses «grupos» os migrantes especiais, que não se atreveriam a levantar objeções. Mandavam-nos ir trabalhar em minas abandonadas pelo Estado devido ao fraco rendimento. Nessas minas não havia já qualquer segurança no trabalho e a água corria constantemente como debaixo de chuva forte. Era impossível conseguir que o trabalho rendesse alguma coisa e obter um salário sofrível; aquelas pessoas moribundas eram simplesmente enviadas para ali a fim de rapar os restos de ouro que o Estado não queria perder.
Mas mesmo isso não era ainda o verdadeiro sumidouro da vida. O completo sumidouro conheciam-no aqueles migrantes especiais que eram enviados para os kolkhozes. Alguns debatem hoje (e a discussão não é vã): tudo considerado, o kolkhoze será menos duro do que o campo de trabalho? Respondemos: e se juntarmos o kolkhoze e o campo? Pois essa era a situação dos migrantes especiais no kolkhoze. No kolkhoze, não se recebia a ração de pão — só durante as sementeiras dão setecentos gramas de pão, feito de cereais meio podres, com areia da cor da terra (por certo varriam o chão nos celeiros). No campo tinha-se a reclusão: bastava o chefe da brigada queixar-se à direção do kolkhoze, esta telefonava ao comando e o comando prendia. Quanto ao salário, era de qualquer modo insuficiente. No primeiro ano, Maria Sumberg recebeu por dia de trabalho vinte gramas de cereal (qualquer passarinho selvagem reúne mais à beira do caminho) e quinze copeques de Estaline (um copeque e meio de Khruschov). Com o salário de um ano inteiro, ela comprou… uma bacia de alumínio.
De que é que eles viviam então? Das encomendas que recebiam do Báltico. Porque nem todo o povo foi desterrado.
Mas quem mandaria encomendas aos calmucos? Ou aos tártaros da Crimeia?
Vão às sepulturas deles e perguntem-lhes.
Em 1952, dos três mil presos do campo «russo» de Ekibastuz «libertaram» uma dezena. Isto pareceu muito estranho na altura: condenados pelo artigo Cinquenta e Oito, e punham-nos fora! Em três anos de existência do Ekibastuz nem uma pessoa tinha sido posta em liberdade e ninguém tinha terminado a sua pena. Isto queria dizer que terminavam as primeiras condenações de dez anos do tempo da guerra, para os poucos sobreviventes.
Esperávamos com impaciência cartas deles. Chegaram algumas. E ficámos a saber que quase todos eles, ao saírem do campo, tinham sido desterrados, embora na sentença não tivesse sido mencionado nenhum desterro. Mas isto não surpreendeu ninguém! Para os nossos carcereiros e para nós, era claro que não se tratava de uma questão de justiça, nem do tempo de pena, nem de papéis e formalidades — a questão era que nós tínhamos sido em tempos apontados como inimigos, e o poder ia agora espezinhar-nos, esmagar-nos e asfixiar-nos até à nossa morte. E essa era a única ordem que parecia normal ao poder e a nós, estávamos acostumados, fazia parte da nossa vida.
O único lugar seguro era aquele para onde nos desterravam. Só nesse lugar, em toda a União Soviética, não nos podiam perguntar com ar reprovador o que vínhamos ali fazer. Só ali teríamos o direito incondicional e definitivo a dois metros quadrados de terreno. E aqueles que saíam do campo sozinhos como eu, sem ninguém à espera em parte nenhuma, parecia que só no desterro poderiam encontrar uma alma gêmea.
* * *
Sempre com pressa de prender, no nosso país não há pressa para soltar. Mas eu fiquei contente, porque depois de cumprir a minha pena me retiveram no campo apenas alguns dias e depois… me soltaram? Não, depois disso meteram-me numa leva. E durante mais um mês transportaram-me já à conta do meu tempo.
E de novo surgiram as prisões de passagem: Pavlodarsk, Omsk, Novosibirsk. Embora tivesse terminado o nosso tempo de condenação, de novo nos revistavam, tiravam-nos as coisas não permitidas, metiam-nos em celas já cheias, em carros celulares, em vagões de presos, misturavam-nos com os de direito comum, os cães da escolta continuavam a rosnar contra nós e os rapazes das pistolas-metralhadoras continuavam a gritar-nos: «Não olhar para trás!»
Na estação de Djambul fizeram-nos descer do vagão-prisão, sempre com a mesma severidade, e levaram-nos por um corredor, entre duas filas de soldados da escolta, para um camião onde tivemos de nos sentar na carroçaria, como de costume. Levaram-nos para uma prisão que nos recebeu sem revista e sem banho. Suavizavam-se, as paredes malditas!
Começam a chamar-nos um a um ao comando regional — que é ali mesmo, no pátio do MVD regional —, um coronel, um major e muitos tenentes, com poder sobre todos os desterrados da região de Djambul.
A experiência do campo faz-me claros sinais no flanco: vê lá! Nestes breves minutos decide-se todo o teu destino futuro! Não percas tempo! Exige, insiste, protesta! Concentra-te, esquiva-te, inventa qualquer coisa, uma razão que te obrigue a permanecer na capital da região ou no distrito mais próximo e mais cômodo.
(E essa razão existe, mas eu não tenho conhecimento dela: há já dois anos que crescem em mim as metástases do cancro que ficaram depois da operação incompleta no campo.)
Nã-ão, eu já não sou o mesmo… Já não sou aquele que começou a cumprir a pena. Um qualquer entorpecimento superior desceu sobre mim e sinto-me bem com ele. Agrada-me não usar a agitação da experiência do campo. Até a maior desgraça pode atingir uma pessoa no melhor dos lugares, e a maior felicidade encontrá-lo no pior dos sítios.
Todos nós recebemos o mesmo destino: o distrito de Kok-Terek. É um pedaço de deserto no norte da região, o início do Bet-Pak-Dala, terra sem vida que ocupa todo o centro do Cazaquistão.
O apelido de cada um de nós é escrito em letras redondas num formulário, impresso num papel rugoso e acastanhado, colocam a data, e apresentam-no-lo — assinem.
Ora bem, o que é que me «notificam nesta data»? Que eu, Fulano, sou desterrado para sempre em determinado distrito sob a vigilância do MGB local e no caso de sair sem autorização dos limites do distrito serei julgado ao abrigo do decreto do Soviete Supremo, que prevê uma pena de 20 (vinte) anos de trabalhos forçados.
Ora bem, nada que nos surpreenda. Assinamos de bom grado.
* * *
Desfilam os quilómetros de estepe. Até onde a vista alcança, à direita e à esquerda, tudo são ervas duras, cinzentas, intragáveis para qualquer animal, e só muito raramente alguma miserável aldeia cazaque com um pequeno tufo de árvores. Por fim, à nossa frente, depois do círculo da estepe, surgem os topos de alguns choupos (Kok-Terek significa «choupo verde»).
Chegamos! O camião avançou por entre as casas de adobe dos chechenos e dos cazaques, levantando uma nuvem de pó e atraindo um bando de cães indignados. Afastam-se os simpáticos burros atrelados às suas pequenas carrinhas, num pátio um camelo vira a cabeça para nós devagar e com um olhar de desprezo. Também há pessoas, mas entre elas os nossos olhos só veem as mulheres, essas invulgares mulheres esquecidas, ali está uma morena que do limiar da sua casa segue com o olhar o nosso camião, fazendo pala com a palma da mão; ali vão três a caminhar na rua, com os seus vestidos multicores em que predomina o vermelho.
Passando o armazém do distrito, a loja de bebidas, o ambulatório, os correios, o comité executivo distrital, o comité do partido com telhado de ardósia, a casa da cultura com telhado de colmo, o nosso camião parou ao lado do edifício do MGB. Todos cobertos de pó, descemos, entramos no pequeno jardim e, nada incomodados por estarmos na rua principal, lavamo-nos ali mesmo até à cintura.
Do outro lado da rua, mesmo em frente do MGB, ergue-se um edifício de um só piso mas alto e surpreendente, com quatro colunas dóricas que sustentam com ar sério um falso pórtico, na base das colunas dois degraus revestidos de pedra lisa e por cima de tudo isto um telhado de colmo enegrecido. O meu coração não pode evitar bater com mais força — a escola! Até à décima classe. Mas não batas, cala-te, coração insuportável: aquele prédio não tem nada que ver contigo.
Atravessando a rua principal em direção àquelas portas almejadas, vai uma rapariga de cabelos anelados, muito asseada, com o casaquinho apertado na cintura, parece uma vespa. Ao caminhar, tocará ela com os pés no chão? É uma professora! É tão jovem que não pode ter concluído ainda o instituto. Portanto, deve ter feito a sétima classe e o instituto pedagógico. Que inveja tenho dela! Que abismo entre ela e eu, simples trabalhador braçal. Somos de camadas diferentes e eu nunca me atreveria a andar com ela de braço dado.
Entretanto, os recém-chegados são fisgados um a um para um gabinete silencioso, … quem havia de passar a ocupar-se deles? O compadre, o delegado operacional! Existe também no desterro, e aqui é ele a personagem principal.
O que tenho eu de preencher? Um questionário, é claro. E uma autobiografia. O operacional lê-os e mete-os numa pasta.
— Não me pode dizer onde fica aqui o conselho académico distrital? — pergunto de repente, num tom despreocupado e cortês.
E ele explica cortesmente. Não ergue as sobrancelhas com ar surpreendido.
— Diga-me, quando é que eu posso lá ir sem escolta?
Ele encolhe os ombros:
— Em princípio, hoje seria preferível que não saísse daqui. Mas se é uma questão de serviço, pode lá ir.
E eu lá vou! Todos compreenderão esta grande palavra livre? Vou sozinho! Nem ao lado, nem atrás, ninguém me aponta pistolas-metralhadoras. Volto-me: ninguém! Se eu quiser vou pelo lado direito, junto à vedação da escola, onde anda um grande porco a fossar numa poça. Se quiser vou pelo lado esquerdo, onde algumas galinhas vagueiam e esgaravatam mesmo em frente do conselho distrital.
Caminho duzentos metros até ao conselho, mas as minhas costas, sempre curvadas, já começaram a endireitar-se um pouco. Nesses duzentos metros subi para a camada social seguinte.
Entro, com a minha camisa militar de lã do tempo da guerra e as minhas velhíssimas calças sarjadas. Os sapatos são os do campo, de pele de porco, que mal escondem as pontas dos trapos que fazem de meias. Há dois cazaques sentados, dois inspetores do distrito, como indicam as tabuletas nas portas.
— Eu gostaria de começar a trabalhar na escola — digo com crescente confiança e até com certa ligeireza, como se perguntasse onde tinham eles ali a garrafa da água.
Ficam atentos. Em todo o caso, numa aldeia no meio do deserto, não é a todas as horas que aparece um novo professor. E embora o distrito de Kok-Terek seja mais vasto do que a Bélgica, todas as pessoas com sete anos de escolaridade são conhecida de toda a gente.
— E qual é a sua formação? — perguntam-me num russo bastante puro.
— Universidade de física e matemática.
Até estremecem. Entreolham-se. Falam depressa em cazaque.
— E… de onde é que veio?
Como se não fosse evidente, eu tinha de lhes dizer tudo. Qual é o parvo que vem para aqui oferecer-se para trabalhar, para mais durante o mês de março?
— Cheguei aqui há uma hora, como desterrado.
Assumem um ar de quem sabe muito, e um após o outro desaparecem no gabinete do diretor. Eles saíram e agora reparo no olhar da datilógrafa fixado em mim — uma russa, dos seus cinquenta anos. Num instante, como uma centelha, e somos conterrâneos: também ela vem do Arquipélago! Nadiejda Nikoláevna Grekova é de uma família cossaca de Novotcherkassk, foi presa em 1937, uma simples datilógrafa. Cumpriu dez anos e agora, como reincidente, desterro perpétuo.
Baixando a voz e olhando a porta entreaberta do diretor, ela informa-me com precisão: com duas escolas de dez anos, várias de sete anos, o distrito tem uma enorme carência de matemáticos, não há um único com formação superior, e quanto a físicos, aqui nunca ninguém viu tal gente. Um toque de campainha vindo do gabinete, chamam-me.
Um tapete vermelho em cima da mesa. Os dois inspetores gordos estão confortavelmente sentados num sofá. Sentada num grande cadeirão por baixo da fotografia de Estaline, está a diretora. Uma pequena cazaque, flexível e atraente, com uns modos de gata e de serpente. Do retrato, Estaline fita-a com um sorriso hostil.
Fazem-me sentar junto à porta, longe deles, como um acusado. Interrogam-me em pormenor, onde e quando lecionei, manifestam desconfiança, se não terei esquecido a matéria ou o método. Em seguida, depois de toda a espécie de embaraços que não há vagas, que as escolas do distrito estão cheias de matemáticos e de físicos e até meio tempo seria difícil de arranjar, que a educação de um jovem na nossa época é uma tarefa muito responsável, chegam ao tema essencial: por que motivo estive preso? Qual fora precisamente o meu crime?
Resolvo assustar aqueles promotores das luzes com um procedimento próprio dos presos: aquilo que eles me perguntam constitui um segredo de Estado, não tenho o direito de lhes dizer. Em suma, só quero saber se me aceitam no trabalho ou não.
Quem seria tão ousado para admitir no trabalho, por sua conta e risco, um criminoso de Estado? Mas eles têm uma saída: tenho de escrever uma autobiografia, preencher um questionário em dois exemplares. Já conheço tudo isso! O papel suporta tudo. Não fiz tudo isso uma hora antes? E, depois de preencher tudo mais uma vez, volto para o MGB.
Os chefes mostram-se condescendentes e autorizam-nos a passar a noite não numa sala fechada, mas no pátio, em cima do feno.
Uma noite ao relento! Tínhamo-nos esquecido do que isso significa!… Sempre cadeados, sempre grades, sempre paredes e tetos. Quem é que consegue dormir! Caminho para lá e para cá, pelo pátio da prisão inundado de luar.
Estamos a três de março, mas a temperatura não arrefeceu durante a noite, continua o mesmo ar estival como durante o dia. Em Kok-Terek, disperso, os burros zurram longamente, apaixonadamente, uma e outra vez, comunicando às burras o seu amor, o excesso de energia que neles aflui.
Não consigo dormir. Caminho, caminho, ao luar. Os burros cantam! Cantam os camelos! E tudo em mim canta: livre! Livre!
Por fim deito-me ao lado de um camarada em cima do feno, debaixo do alpendre. A dois passos de nós estão os cavalos, diante das manjedouras, e toda a noite mastigam tranquilamente o feno. E parece que em todo o universo não era possível imaginar nada mais familiar do que aquele som para a nossa primeira noite de semiliberdade.
Comam, animais sem malícia! Comam, cavalos!…
* * *
No dia seguinte autorizam-nos a alojar-nos na aldeia em casas particulares. Com os meus meios, consigo uma casita-galinheiro — com uma única janelinha e tão baixa que, mesmo no centro, onde o teto é mais alto, não me consigo endireitar completamente. Em contrapartida, é uma casita só para mim! O chão é de terra, estendo nele o meu gabão do campo, é a minha cama! Ainda não tenho uma lamparina a querosene (não tenho nada, todas as coisas necessárias será preciso escolhê-las e comprá-las uma a uma, como se estivesse na terra pela primeira vez) — mas nem lamento não ter lamparina. Tantos os anos nas celas e nas barracas com a luz oficial a ferir-nos a alma, agora delicio-me no escuro. E o escuro pode tornar-se um elemento de liberdade!
Que mais posso querer e desejar?
Contudo, a manhã seguinte ultrapassa todos os desejos possíveis! A minha senhoria, a avó Tchadov, uma desterrada de Nóvgorod, diz-me num murmúrio, não ousando falar em voz alta:
— Vai lá ouvir a rádio. Disseram-me uma coisa que tenho medo de repetir.
Vou para a praça central. Uma multidão de cerca de duzentas pessoas, muita gente para Kok-Terek, está reunida, sob o céu encoberto, em volta do poste que sustenta o altifalante. Entre aquelas pessoas há muitos cazaques, sobretudo velhos. Tiraram das cabeças calvas e seguram nas mãos os sumptuosos gorros de pele de ondatra. Estão muito tristes. Os jovens estão mais indiferentes. Dois ou três tratoristas não tiraram os bonés. Eu também não tiro o meu, claro. Ainda não percebi as palavras do locutor (a voz quebra-se-lhe devido à representação dramática) — mas já se me ilumina a compreensão.
O instante pelo qual rezam todos os presos do Gulag (menos os comunistas ortodoxos)! Morreu o ditador asiático! Pateou, o celerado! Oh, que júbilo deve haver agora lá no nosso Campo especial! Mas aqui estão umas professoras da escola, jovens russas, num choro convulsivo: «Que vai ser de nós agora?…» Perderam o seu querido… Era gritar-lhes agora em toda a praça: «Vai ser assim! Não vão fuzilar os vossos pais! Os vossos noivos não serão presos! E vocês mesmas não estarão em situação extraordinária!»
Mas, infelizmente, os rios da história são lentos.
E mesmo assim o início do meu desterro foi magnificamente assinalado!
Ao fim de um mês de desterro, tinha gasto em comida os meus ganhos no campo como fundidor em «autogestão» — em liberdade mantinha-me com o dinheiro do campo! — e continuava a ir à inspeção distrital para saber quando me aceitariam. Mas a diretora serpentiforme deixou de me receber, os dois inspetores tinham cada vez menos tempo para resmungar comigo algumas palavras, e no fim do mês foi-me mostrada a resolução da direção regional, segundo a qual as escolas do distrito de Kok-Terek tinham os quadros completos de matemáticos e não havia qualquer possibilidade de me dar trabalho.
Entretanto escrevi uma peça de teatro (acerca da contraespionagem em 1945)[87], sem ter de passar pela revista da manhã e da tarde nem precisar de destruir tantas vezes o que escrevera, como dantes. Ia uma vez por dia à «casa de chá» e por dois rublos comia uma sopa quente — a mesma sopa que aqui forneciam num balde aos detidos da prisão local. O pão negro era vendido livremente na loja. Já tinha comprado batatas e até um naco de toucinho. Eu próprio já tinha trazido, num burro, saksaul cortado no mato, podia acender o fogão. A minha felicidade estava perto de ser plena, e comecei a pensar: não me dão trabalho, não é preciso, por enquanto tenho algum dinheiro — vou escrever, é caso raro tanta liberdade!
De repente, na rua, um dos oficiais do comando chamou-me com um dedo. Conduziu-me à cooperativa distrital de consumo, ao gabinete do presidente, um cazaque gordo, e disse em tom significativo:
— Um matemático.
E que milagre foi este? Ninguém me perguntou por que motivo tinha sido preso, nem me mandaram preencher autobiografias nem questionários — imediatamente a secretária, uma jovem desterrada grega, bela como uma atriz de cinema, escreveu à máquina, só com um dedo, uma ordem em que eu era nomeado economista-planificador com o vencimento de 450 rublos por mês. Nesse mesmo dia e com a mesma facilidade, sem quaisquer questionários de informações, foram contratados pela cooperativa mais dois desterrados sem trabalho, e fomos os três lançados na mesma tarefa: a alteração dos preços das mercadorias.
Todos os anos, na noite de 31 de março para 1 de abril, a cooperativa era atingida por esta agonia, e nunca tinha nem podia ter pessoas bastantes. Era necessário inventariar todas as mercadorias, alterar os preços e logo de manhã começar a vender pelos novos preços, muito vantajosos para os trabalhadores. Mas o imenso deserto do nosso distrito tinha zero quilómetros de vias férreas e de estradas asfaltadas, e nas lojas distantes esses preços vantajosos para os trabalhadores nunca podiam de maneira nenhuma ser aplicados antes do 1.° de Maio: durante um mês inteiro as lojas praticamente não funcionavam, até que na cooperativa se fizessem os cálculos e se confirmassem as listas, e depois as enviassem a lombo de camelo.
Quando chegámos à cooperativa havia já umas quinze pessoas envolvidas nessa tarefa — empregados e eventuais. Listas do tamanho de lençóis, em péssimo papel, estavam estendidas em cima de todas as mesas, e só se ouvia os estalidos das contas dos ábacos, em que contabilistas experientes multiplicavam e dividiam, e as habituais discussões de serviço. Puseram-nos também a nós a trabalhar ali. Fartei-me rapidamente de fazer multiplicações e divisões no papel e pedi uma calculadora. Não havia nenhuma na cooperativa e também ninguém sabia trabalhar com ela, mas alguém se lembrou de ter visto num armário da direção de estatística uma máquina qualquer com uns algarismos. Mas também lá ninguém trabalhava com ela. Telefonaram, foram lá, trouxeram a máquina. Comecei a matraquear e a alinhar rapidamente colunas — os contabilistas principais a olhar-me de lado: não seria eu um concorrente?
Quanto a mim, acionava a máquina e ia pensando: com que rapidez o preso se torna atrevido, ou, para usar uma linguagem literária, com que rapidez crescem as necessidades do homem. Eu estava descontente porque me tinham afastado da minha peça, que estava a escrever no meu cubículo escuro; estava descontente porque não me aceitaram na escola; estava descontente porque me obrigaram pela força… a quê? A cavar a terra gelada? A amassar com os pés barro para adobes na água gelada? Não, instalaram-me pela força a uma mesa limpa para fazer girar a manivela da máquina de calcular e escrever algarismos em colunas. Mas se no início do meu tempo de campo me tivessem proposto que passasse todo esse tempo a fazer este bendito trabalho doze horas por dia, gratuitamente, eu teria rejubilado! Mas aqui pagam-me por este trabalho 450 rublos, agora até vou comprar um litro de leite por dia, e estou a torcer o nariz?
Assim passou uma semana, com a cooperativa afundada na alteração dos preços, e nenhuma loja podia começar a vender.
Mas não me coube assegurar o bom funcionamento das cooperativas rurais do Cazaquistão. Subitamente apareceu na cooperativa um jovem cazaque, responsável pedagógico da escola. Antes da minha chegada, ele era o único que em Kok-Terek possuía estudos universitários, e orgulhava-se muito disso. No entanto, o meu aparecimento não lhe causou inveja. Fosse pelo desejo de reforçar a escola antes da primeira formatura ou de pregar uma partida à serpentiforme diretora escolar do distrito, o certo é que ele me propôs: «Traga depressa o seu diploma!» Corri como um rapazinho e levei-lho. Ele meteu-o no bolso e foi para Djambul, a uma conferência sindical. Três dias depois apareceu de novo e colocou à minha frente uma cópia da decisão do departamento regional da instrução pública. A mesma assinatura impudente que em março certificava que todas as escolas do distrito tinham os seus quadros preenchidos, nomeava-me agora, em abril, professor de matemática e de física, nas duas classes terminais, três semanas antes dos exames de fim de curso!
Falar da minha felicidade ao entrar na sala de aulas e pegar no giz? Aquele foi o dia da minha libertação, a restituição da cidadania. Eu já nem reparava em tudo o resto que fazia de mim um desterrado.
Quando eu estava em Ekibastuz, a nossa coluna passava muitas vezes ao lado da escola local. Como quem olha um paraíso inacessível, eu observava a correria das crianças no pátio da escola, os vestidos claros das professoras, e o som rouco da campainha magoava-me. De tal modo estava consumido pelos anos negros da prisão e dos trabalhos gerais no campo! De tal modo me parecia o cume de uma felicidade que dilacerava o coração: ali mesmo naquele buraco estéril de Ekibastuz, a viver como desterrado, ao som daquela campainha entrar na sala de aulas com o livro de chamadas e, com ar misterioso, prometedor de coisas invulgares, dar início à lição.
As crianças desterradas eram especiais. Cresciam com a consciência da sua situação de oprimidos. No conselho pedagógico e noutras sessões de conversa fiada também se falava deles e se lhes falava a eles, dizendo que eram crianças soviéticas, que cresciam para o comunismo e só temporariamente estavam limitados no seu direito de movimentação, e era só isso. Mas eles, no seu conjunto e individualmente, sentiam a sua coleira — desde a mais tenra infância, desde que tinham consciência de si. Todo o mundo interessante, rico, fervilhante de vida (segundo as revistas ilustradas, o cinema), lhes era inacessível, e nem os rapazes teriam acesso (porque não os aceitavam no exército). Era muito fraca e muito rara a esperança de obter do comando uma autorização para ir à cidade, ser ali admitido a exame, e ainda ser admitido num instituto e concluí-lo com êxito. Assim, tudo o que podiam aprender acerca do mundo vasto e eterno, só aqui o poderiam obter. Esta escola foi para eles, durante muitos anos, a primeira e a última instrução. Além disso, dada a pobreza da vida no deserto, eles estavam livres das distrações e divertimentos que tanto estragam a juventude urbana, de Londres a Alma-Ata. Lá, nas metrópoles, as crianças já se desabituaram de estudar, perdem o gosto, estudam como quem cumpre uma tarefa enfadonha, só para se inscreverem algures até passar a idade escolar. Mas as nossas crianças desterradas, se as ensinavam bem, isso era para elas a única coisa importante na vida, isso era tudo. Estudando com avidez, como que se elevavam acima da sua condição de crianças de segunda e igualavam-se às crianças de primeira. Só no estudo a sério se satisfazia o seu amor-próprio.
Tudo o que acabo de dizer é acerca das classes «russas» da escola de Kok-Terek (ali quase não havia russos propriamente ditos, mas alemães, gregos, coreanos, alguns curdos e chechenos, ucranianos das famílias desterradas no início do século, e também cazaques das famílias de «funcionários responsáveis» — estes educavam os filhos em russo). Mas a maior parte das crianças cazaques constituíam as classes «cazaques». Eram ainda uns autênticos selvagens, na maioria (quando não estavam estragados por uma família de funcionários) — muito diretos, francos, com noções radicais sobre o bem e o mal. Mas quase todo o ensino em língua cazaque era uma reprodução alargada da ignorância: primeiro, bem ou mal, levavam os da primeira geração até ao diploma, que depois, com a sua formação incompleta, se espalhavam e iam com ar importante ensinar aos mais novos; às raparigas cazaques davam-lhes um «suficiente» e deixavam-nas sair das escolas e dos institutos pedagógicos com a mais crassa e completa ignorância. E quando estas crianças primitivas entreviam de repente o verdadeiro ensino, absorviam-no não apenas com os ouvidos e os olhos, mas até com a boca.
Com a receptividade destas crianças mergulhei a fundo no ensino em Kok-Terek e durante três anos (que podiam ter sido ainda muitos mais) fui feliz só por causa disso. O horário não me chegava para corrigir os exercícios e preencher as lacunas, e eu propunha-lhes aulas suplementares noturnas; círculos, visitas de estudo, observações astronómicas — e eles compareciam com uma vontade e um entusiasmo que não mostravam para ir ao cinema. Nomearam-me também diretor de turma, mas até isso quase me agradou.
Todo o lado luminoso estava no entanto limitado pela porta da aula e pelo toque da campainha. Na sala dos professores, na direção e na inspeção distrital, reinava a habitual rotina desgastante de todo o Estado, agravada ainda por se tratar de um país de desterro. Entre os professores tinha havido, antes de mim, alemães e desterrados administrativos. A nossa condição era a de oprimidos: não se perdia uma oportunidade de nos lembrar que tínhamos sido admitidos no ensino por favor e que sempre podíamos perder esse favor. Os professores desterrados temiam mais que os outros (que de resto também eram dependentes) irritar os altos dirigentes distritais, ao atribuírem aos filhos deles avaliações insuficientemente elevadas. Temiam também irritar a direção com um aproveitamento geral pouco elevado — e elevavam as notas, favorecendo assim o alargamento da reprodução da ignorância a todo do território do Cazaquistão. Mas, além disso, sobre os professores desterrados (e sobre os jovens professores cazaques) pesavam obrigações e alcavalas: 25 rublos do salário de cada um deles eram retidos não se sabe em benefício de quem; de repente o diretor podia declarar que a sua filha pequena fazia anos, e os professores deviam contribuir com 50 rublos cada um para a prenda. E ainda, todos os chefes distritais estudavam por correspondência, e todos os exercícios de controlo escritos eram os professores da nossa escola que tinham de os fazer. (Isto era transmitido de maneira feudal, através dos responsáveis pedagógicos, e os professores-escravos nem sequer eram dignos de ver os seus alunos.)
Não sei se devido à minha firmeza, baseada no facto de eu ser «insubstituível», o que se tornou imediatamente claro, ou se por ser uma época já suavizada, ou pelas duas coisas, consegui não submeter o pescoço a esse jugo. Para que as crianças trabalhassem de boa vontade nas minhas aulas era necessário que eu lhes desse notas justas, e eu atribuía-as sem ter em conta os secretários distritais do partido.
* * *
Depois das formas de desterro acima descritas, deve-se reconhecer que a nossa situação em Kok-Terek, como em todo o sul do Cazaquistão e na Quirguízia, era privilegiada. Aqui instalavam-nos em zonas habitadas, ou seja, onde havia água e o terreno não era completamente estéril. No nosso Kok-Terek havia quatro mil pessoas, na sua maioria desterrados, mas o kolkhoze incluía apenas os bairros cazaques. Todos os restantes ou conseguiam empregar-se na MTS ou arranjar outro trabalho qualquer, mesmo que o salário fosse ínfimo.
Até a secção operacional era preguiçosa em Kok-Terek — caso particular e benéfico da geral indolência cazaque. Mas a principal causa da sua inatividade e do regime suavizado era o início da era Khruschov. Sob a forma de vagas e balanços amortecidos pelas muitas transmissões, ela chegava até nós.
Primeiro, a «amnistia de Vorochilov»: foi precisamente com a assinatura de Vorochilov que o governo se riu de nós em 27 de março de 1953. Deram a amnistia aos pequenos e grandes bandidos, mas entre os do artigo Cinquenta e Oito só os condenados «a cinco anos ou menos» beneficiaram dela. Um estranho, julgando segundo os costumes de um Estado normal, poderia pensar que «até cinco anos» significava que três quartas partes dos presos políticos vão para casa. Na realidade, apenas um a dois por cento de nós tinham uma pena tão infantil. (Em contrapartida, os ladrões caíram em cima dos habitantes locais, e só ao fim de muito tempo e com muitos esforços a milícia voltou a meter os bandidos amnistiados atrás das mesmas grades.)
A amnistia repercutiu-se de uma maneira interessante no nosso desterro. Era precisamente aqui que se encontravam há muito aqueles que tinham conseguido cumprir esses infantis cinco anos e que não foram mandados para casa, mas para o desterro sem julgamento. Em Kok-Terek viviam velhas e velhos originários da Ucrânia e da região de Nóvgorod — a gente mais pacífica e mais infeliz. Ficaram muito animados depois da amnistia, esperavam ser mandados para casa. Mas ao fim de dois meses chegou o esclarecimento, rude como de costume: visto que o seu desterro (adicional, sem julgamento) não era por cinco anos, mas perpétuo, a condenação inicial a cinco anos não era tida em conta e não eram abrangidos pela amnistia.
Assim, ninguém obteve nada da amnistia. Mas com o passar dos meses, em especial depois da queda de Béria, foram-se insinuando no país, impercetivelmente, algumas verdadeiras atenuações. Começaram a admitir nos institutos mais próximos os filhos dos desterrados. Passou a ser livre a deslocação pelo distrito, mais livre a deslocação a outras regiões. Eram cada vez mais intensos os rumores: «deixam-nos voltar para casa, para casa!» E de facto, deixaram voltar os turcomanos (desterrados por terem sido prisioneiros dos alemães durante a guerra). Depois os curdos. A emoção fustigava os desterrados, suscitava-lhes uma ardente agitação: será possível que também nós nos vamos embora? Será possível que também nós…?
Ridículo. O campo tinha-me ensinado a desconfiar! E eu nem precisava muito de acreditar: não tinha nem família, nem amigos próximos na grande metrópole. E aqui, no desterro, quase sentia felicidade.
É certo que, durante o primeiro ano de desterro, estive oprimido por uma doença mortal, como que aliada dos carcereiros. E durante um ano inteiro ninguém em Kok-Terek conseguia sequer determinar que doença era. Mal me sustendo de pé, eu continuava a dar aulas; já pouco dormia e comia mal. Tudo aquilo que antes tinha escrito no campo e que conservava na memória, e mais o que de novo escrevera no desterro, tive de o escrever à pressa e enterrar no chão. (Lembro-me muito bem dessa noite antes da viagem para Tachkent, a última noite de 1953: assim parecia acabada toda a minha vida e toda a minha literatura. Pouca coisa era.)
No entanto, a doença largou-me. E começaram os dois anos do meu verdadeiro Belo Desterro, apenas ensombrado por um penoso sacrifício, de não ousar casar-me: não havia mulher a quem eu pudesse confiar a minha solidão, a minha escrita, os meus esconderijos. Mas vivia todos esses dias num permanente estado de beatitude, de entusiasmo, não notava qualquer falta de liberdade. Na escola tinha todas as aulas que queria, nas duas turmas, e essas aulas proporcionavam-me uma felicidade constante, nenhuma delas me fatigava nem era enfadonha. E todos os dias ficava com uma hora para a escrita. E ao domingo, quando não nos mandavam para a apanha das beterrabas do kolkhoze, passava o tempo a escrever — domingos inteiros! Iniciei ali um romance[88], e tinha ainda muito que escrever no futuro. Mas de qualquer modo só me publicarão depois da minha morte.
A minha casinha ficava no extremo oriental da aldeia. Para lá da cancela, havia um canal de rega e depois a estepe e todas as manhãs o nascer do sol. Bastava que soprasse um ventinho da estepe e os pulmões não se cansavam de respirá-lo. Ao crepúsculo e durante as noites, no escuro ou com luar, eu caminhava por ali e respirava como um louco. A menos de cem metros de mim não havia nenhuma habitação, nem à direita nem à esquerda, nem à frente, nem atrás.
Resignei-me por completo à ideia de que iria viver aqui, talvez não «para sempre», mas pelo menos uns vinte anos. Parecia-me até que já não tinha vontade de ir a parte nenhuma (ainda que o meu coração desfalecesse sobre o mapa da Rússia Central).
Mas uma inquietação de alegria e de esperança sacudia a quietude do nosso desterro.
Do meu deserto puro, imaginava a capital fervilhante, agitada, vaidosa, e não me sentia nada atraído por ela.
Mas os meus amigos moscovitas insistiam: «Que ideia foi essa de quereres ficar aí?… Exige uma revisão do teu processo! Agora estão a rever!»
Para quê?… Aqui, no silêncio do meu desterro, via de maneira irrefutável o verdadeiro curso da vida de Púchkin: a primeira felicidade, o desterro para o Sul, a segunda e suprema felicidade, o desterro para Mikhailovskoie. Era ali que ele devia viver anos e anos, não partir para lado nenhum. Que fatalidade o levou para Petersburgo? Que fatalidade o impeliu a casar-se?…
Mas é muito difícil para um coração humano manter-se no caminho da razão. É difícil para uma estilha não flutuar para onde toda a água corre.
Começou o XX congresso. Durante muito tempo não soubemos nada do discurso de Khruschov, mas mesmo num simples jornal bastaram-me as palavras: «este é o primeiro congresso leninista» em tantos anos[89]. Compreendi que o meu inimigo Estaline tinha caído, e portanto eu elevava-me.
Escrevi um pedido de revisão.
E então, na Primavera, começaram a levantar o desterro de todos os do artigo Cinquenta e Oito.
E eu, fraco, abandonei o meu desterro transparente. E parti para o mundo turvo.
Aquilo que um antigo zek sente ao passar do leste para o sul do Volga, e depois um dia inteiro pelos bosques russos, não tem lugar neste capítulo.
Neste livro há o capítulo intitulado «Detenção». Será agora necessário o capítulo «Libertação»?
Porque daqueles sobre quem um dia caiu a detenção (falamos apenas dos do artigo Cinquenta e Oito), é pouco provável que uma quinta parte, a oitava parte já seria bom, tenha conhecido essa «libertação».
E depois — libertação! — quem não conhece isso? O tema está tão descrito na literatura mundial, foi tão mostrado no cinema: abram-me as portas da masmorra, o dia ensolarado, a multidão jubilosa, os abraços dos familiares.
Mas sob o céu sem alegria do Arquipélago a «libertação» é funesta, e na liberdade o céu torna-se ainda mais sombrio por cima de nós.
Se a detenção é um golpe de gelo sobre um líquido, a libertação é apenas um tímido degelo entre dois períodos de gelo.
Entre duas detenções, aí está o que era a libertação durante os quarenta anos anteriores à era Khruschov. Uma boia de salvação lançada entre duas ilhas, para que vão chapinhando de uma zona para outra!…
De um toque a outro toque, é isso o tempo de pena. De uma zona a outra zona, é isso a libertação.
O teu passaporte está manchado a tinta da China preta segundo o artigo 39 do regulamento. Com essa mancha não é possível conseguir autorização de residência em nenhuma cidade, nem te aceitarão em nenhum bom emprego. No campo, ao menos, davam-te a ração de pão, e agora não dão nada.
É um círculo vicioso: no trabalho não te aceitam sem autorização de residência, e sem trabalho não há autorização de residência. Sem trabalho também não há senhas de racionamento para o pão. Os antigos presos, de um modo geral, não sabiam que o regulamento obrigava o MVD a arranjar-lhes trabalho. Mas mesmo quem sabia tinha medo de reclamar: não fossem voltar a prendê-lo…
Estás em liberdade — podes chorar à vontade.
No tempo de Estaline, a melhor coisa a fazer quando nos punham em liberdade, era sair os portões do campo e ficar por ali. Esses eram já conhecidos nos locais de trabalho e aceitavam-nos para trabalhar. E os agentes do NKVD, quando encontravam um na rua, olhavam-no como pessoa de confiança.
Bem, não completamente. Em 1938, Prokhorov-Pustover, ao ser liberto, manteve-se como engenheiro livre do Bamlag. O chefe da secção operacional, Rozenblit, disse-lhe: «Você é posto em liberdade, mas lembre-se que vai caminhar sobre a corda bamba. Ao mais pequeno deslize, será outra vez preso. E para isso nem é necessário o tribunal.»
Esses presos razoáveis que se mantinham junto do campo, escolhendo voluntariamente a prisão como uma variante da liberdade, são ainda centenas de milhares em todas as regiões perdidas, como Nirob e Narim. E em Kolimá não havia praticamente opção: ali retinham as pessoas. Ao ser libertado, o preso assinava logo um compromisso voluntário: continuar a trabalhar na Dalstroi (a autorização para voltar «ao continente» era ainda mais difícil de obter do que a libertação).
Escrevem-me assim: «No campo era um dia na vida de Ivan Deníssovitch, mas na liberdade era um segundo dia».
* * *
Tal como uma mesma doença evolui de maneiras diferentes em diferentes pessoas, também a libertação é sentida por nós de maneiras muito diversas.
Também fisicamente. Alguns puseram demasiada tensão nervosa no desejo de chegar com vida ao fim da sua pena. Suportaram-na como se fossem de aço: durante dez anos não consumiram aquilo de que o corpo tinha necessidade, derreavam-se a trabalhar; seminus, partiam pedra com um frio gélido e nem se constipavam. Mas de repente, terminou a pena, acabou-se a desumana pressão exterior, e enfraqueceu também a pressão interior. E a descompressão matava esses homens. Tchulpeniov, um gigante que durante sete anos de abate de floresta não sofreu nem um resfriado, em liberdade foi vítima de numerosas doenças.
Como se dizia antigamente: nos maus dias aguento, nos dias felizes rebento. Houve quem perdesse os dentes todos num ano. Este envelheceu de repente. Aquele mal chegou a casa, enfraqueceu, consumiu-se e morreu.
Mas outros, só depois da libertação recobravam ânimo. Só então rejuvenesciam e se endireitavam em toda a sua estatura. De repente, era a revelação: afinal é tão fácil viver em liberdade! Tudo o que aos livres parecia insolúvel e torturante, nós resolvemo-lo de uma vez com um estalo da língua. Porque temos esta medida animadora: «já foi pior!»
Mas o novo destino de uma pessoa é delineado de modo ainda mais determinante pela fratura espiritual que ocorre na libertação. Essa fratura assume formas muito diversas.
Os caracteres das pessoas revelam-se no campo, mas revelam-se também na libertação! Eis como Vera Alekséievna Kornéieva deixou o Campo especial em 1951: «Fecharam-se atrás de mim os portões de cinco metros, e eu própria não acreditava que, ao sair em liberdade, choraria. Porquê?… Tinha o sentimento de que arrancava o coração àquilo que tinha de mais precioso e mais querido: os meus camaradas de desgraça. Fecharam-se os portões e tudo se acabou. Nunca mais verei aquelas pessoas, não receberei delas nem a mínima notícia. Como se estivesse de partida para o outro mundo…»
Para o outro mundo!… A libertação como uma forma de morte. Pois nós éramos libertos? — Nós morríamos para uma qualquer nova vida além-túmulo. Um pouco fantasmagórica. Onde tateamos com cuidado os objetos, a tentar reconhecê-los. No entanto, as pessoas são diferentes umas das outras. E muitas sentiam a passagem à liberdade de maneira muito diferente: hurra! Estou livre! Agora uma só promessa: nunca mais ser preso! Agora é recuperar o que foi perdido!
Uns recuperam nas funções, outros nos títulos, outros nos salários e na caderneta de poupanças. Outros, nos filhos. Outros nos alimentos, nos móveis, no vestuário. Comprar torna-se outra vez a mais agradável ocupação.
E como censurá-los por isso, se na verdade perderam tantas coisas? Se lhes cortaram um tão grande pedaço da vida?
Às duas maneiras diferentes de encarar a liberdade, correspondem duas atitudes para com o passado.
Viveste uns anos horríveis. Parece que não és nenhum pérfido assassino, nem um escroque repugnante, e então por que hás de tentar esquecer a prisão e o campo? Por que tens de te envergonhar deles? Não valerá mais considerar que eles te enriqueceram? Não será mais justo orgulhares-te deles?
Mas são igualmente numerosos (e não dos mais fracos, nem dos mais tolos, de quem nunca se esperaria) os que tentam esquecer! Esquecer o mais depressa possível!
Esquecer tudo por completo! Como se não tivesse acontecido! «Esquecer como um sonho, esquecer, esquecer as visões do maldito passado do campo» — diz, apertando os punhos contra as têmporas, Nastenka Vesteróvskaia, que foi parar à prisão de um modo pouco vulgar, mas com um ferimento de arma de fogo, ao fugir. Porque é que A.D., especialista em filologia clássica, que pelas suas ocupações sopesa espiritualmente as cenas da história antiga, porque é que também ele impõe a si próprio «esquecer tudo»? O que pode ele então compreender de toda a história da humanidade?
Evguénia Doiarenko, ao contar-me em 1965 a sua passagem pela Lubianka em 1921, ainda antes de se casar, acrescentou: «Nem sequer falei disso ao meu defunto marido, esqueci». Esqueceu-se de contar? À pessoa mais próxima, com quem viveu toda a vida? Que poucas coisas nos contam ainda!
Mas talvez não se deva julgar com tanta severidade? Talvez isso seja a humanidade mediana? Porque afinal de alguém surgiram os provérbios:
Uma hora bem vivida, e toda a desgraça é esquecida.
Um caso que se esquece, e o corpo que se restabelece.
Um corpo que se restabelece! — aí está o que é um homem!…
Mas como é que esquecem isto? Como se aprende?…
«Não! — escreve M. I. Kalinina —, não se esquece nada… qualquer coisa continua a roer o coração, e é uma fadiga interminável. Espero que você não vá escrever, acerca das pessoas que foram libertadas, que elas esqueceram tudo!»
Tamara Pritkova: «Estive presa doze anos, e há já onze que estou em liberdade, mas não consigo compreender — viver para quê? E onde está a justiça?»
Que diferentes sulcos traça a vida nas nossas almas: não esquecer nada ao fim de onze anos, e esquecer tudo logo no dia seguinte…
Ivan Dobriak: «Ficou tudo para trás, mas nem tudo. Fui reabilitado, mas não tenho sossego. É rara a semana que me decorre tranquila, sonho quase sempre com a zona.»
Ans Bernstein, mesmo ao fim de onze anos, ainda só tem sonhos sobre o campo. Também eu, durante cinco anos só sonhava comigo como preso, nunca como homem livre, e ainda hoje me acontece sonhar que estou preso (e no sonho isso não me surpreende nada).
Nos aniversários da minha detenção, organizo para mim mesmo o «dia do preso»: de manhã corto 650 gramas de pão, ponho ao lado dois torrões de açúcar, sirvo-me de água quente simples. E para o almoço peço que me façam uma sopa aguada e um pouco de papas muito líquidas. E muito depressa retomo a antiga forma: ao fim do dia já apanho as migalhas e meto-as na boca e lambo a minha escudela. E erguem-se em mim vivamente as velhas sensações!
Trouxe também e conservo os bocados de pano com os números. Mas serei só eu? Em muitas casas tos mostrarão como relíquias.
No nosso tempo, se receberes uma carta sem queixumes, verdadeiramente otimista, só pode vir de um antigo preso. Acostumaram-se a tudo neste mundo, nada os faz desanimar.
Orgulho-me de pertencer a essa tribo poderosa! Não éramos uma tribo, fizeram com que fôssemos! Soldaram-nos uns aos outros de uma maneira como nós próprios, no crepúsculo e na dispersão de vontades em que cada um tem medo do outro, nunca poderíamos soldar-nos. Não precisamos de combinar para nos apoiarmos uns aos outros. Não precisamos de nos pôr à prova uns aos outros. Encontramo-nos, olhamo-nos nos olhos, trocamos duas palavras — e que mais explicar? Estamos prontos a apoiar-nos uns aos outros. Em todo o lado encontramos gente nossa.
As grades deram-nos uma nova medida das coisas e das pessoas. Varreram dos nossos olhos o betume quotidiano que constantemente cobre os olhos do homem a quem nada comove.
E não fizeram penitência dos seus homicídios… Apocalipse, 9:21
É claro que nós não perdíamos a esperança de que um dia se havia de falar de nós: porque mais cedo ou mais tarde se conta toda a verdade de tudo o que aconteceu na história. Mas afigurava-se-nos que isso só aconteceria daí a muito tempo, depois da morte da maioria de nós. Eu considerava-me como o cronista do Arquipélago, escrevia constantemente, mas também esperava ver muito pouco na minha vida.
O curso da história surpreende-nos sempre com o inesperado, mesmo aos mais perspicazes. Não podíamos prever como seria: que sem qualquer causa motora visível tudo estremeceria e começaria a mover-se, que os abismos da vida pareceriam entreabrir-se, um pouco e por pouco tempo. E que dois ou três passarinhos da verdade conseguiriam voar antes que os batentes voltassem a cerrar-se bruscamente e por muito tempo.
Quantos dos meus predecessores não conseguiram terminar os seus escritos, nem conservá-los, não conseguiram correr os últimos metros nem elevar-se! Mas coube-me a mim essa felicidade: pela fresta dos painéis de ferro, antes que eles voltassem a fechar-se, fazer passar o primeiro punhado de verdade. E como a matéria envolvida na antimatéria, ela explodiu de imediato!
Explodiu e provocou atrás de si uma explosão de cartas das pessoas — mas isso era de esperar.
Quando os antigos presos souberam, pelo trombetear de todos os jornais, que tinha sido publicada uma descrição qualquer dos campos[90] e os jornalistas em coro a elogiavam, decidiram unanimemente: «Mais disparates! Também aqui conseguiram mentir.»
Mas quando começaram a ler, foi como se um gemido unido se erguesse, um gemido de alegria e um gemido de dor. Começaram a chover as cartas.
Conservo essas cartas:
«A verdade triunfou, mas tarde!» — escreviam eles.
E mesmo mais tarde ainda, porque ela não triunfava…
Mas havia também os sóbrios, que não assinavam no fim da carta ou que de imediato, no próprio auge dos elogios feitos pelos jornais, perguntavam: «Fico surpreendido, como é que Volkovoi te deixou publicar esta descrição? Responde-me, estou inquieto, tu não estás no BUR?… ou: «Como é que ainda não te engavetaram a ti e ao Tvardovski?»
Mas não, a armadilha deles emperrou, não funcionou. E que tiveram os Volkovoi de fazer? Pegar também na pena! E escrever cartas. Ou refutações nos jornais.
Por essa segunda torrente de cartas ficamos a saber como eles se chamam, como eles se chamam a si próprios. Andámos à procura de uma palavra, patrões do campo, quadros do campo, mas não — trabalhador prático, assim mesmo! Uma expressão que é um mimo!
Escrevem:
«Por Chukhov, não sentimos nem simpatia, nem respeito.»
(Iuri Matvéiev, Moscovo)
«Chukhov foi justamente condenado… E o que têm os presos a fazer em liberdade?»
(V. I. Silin, Sverdlovsk)
«Quanto às normas de alimentação, não se deve esquecer que eles não se encontravam numa estância balnear. Deviam expiar a sua culpa só pelo trabalho honesto. Esta novela ofende os soldados, sargentos e oficiais do MVD. O povo é o criador da história, mas como nos mostram esse povo… — como uns “patetas”, uns “papalvos”, uns “estúpidos”.»
(sargento Bazunov, Oimiakon, 55 anos, fez carreira ao serviço dos campos)
«Soljenítsin descreve todo o funcionamento dos campos como se ali não houvesse direção do partido. Mas já antes, tal como agora, existiam organizações do partido que orientavam todo o trabalho segundo a sua consciência. E porque é que os nossos Órgãos permitem que se achincalhem os funcionários do MVD?… Isto é desonesto!»
(Anna Filippovna Zakharova, Irkutsk, funcionária do MVD desde 1950, membro do partido desde 1956)
Isto é desonesto! — Isto é um grito da alma. Durante 45 anos martirizaram os indígenas, e isso era honesto. Mas publicar uma descrição, é desonesto!
«Não deviam ter publicado este livro, mas entregar o material aos órgãos do KGB.»
(Anónimo, contemporâneo de Outubro)
Em suma:
«O livro de Soljenítsin deve ser retirado de todas as bibliotecas e salas de leitura.»
(A. Kuzmin, Oriol)
Assim o fizeram gradualmente.[91]
«A história nunca necessitou de passado, e menos ainda precisa dele a história da cultura socialista.»
(A. Kuzmin, Oriol)
A história não necessita do passado! Até onde chegam os Bem-Pensantes. Mas de que é que a história necessita? Será do futuro?… E são eles que escrevem a história…
E o que se pode agora objetar a todos eles, o que se pode opor à sua ignorância compacta? E como se pode explicar-lhes agora?
A longa ausência da livre troca de informações dentro do país conduz a um abismo de incompreensão entre grupos inteiros da população, entre milhões e milhões.
Deixamos simplesmente de ser um único povo, pois falamos de facto em línguas diferentes.
* * *
Não, nós somos pó! Estamos sujeitos às leis da poeira. E nenhuma medida do nosso sofrimento é bastante para nos fazer sentir para sempre a dor geral. E enquanto não dominarmos em nós próprios a poeira, não haverá na terra organizações justas — sejam democráticas, ou autoritárias.
É de crer que os Campos especiais se contassem entre as criações preferidas do espírito de Estaline, já envelhecido. Depois de tanto procurar nos domínios educativo e punitivo, nasceu este primor de maturidade: essa organização uniformizada, numerada, secamente articulada, já psicologicamente cortada do corpo da Pátria-mãe. Com uma entrada mas sem saída, que devorava apenas os inimigos e que rendia apenas valores produzidos e cadáveres. É até difícil imaginar o sofrimento que o Arquiteto Previdente sentiria na sua alma de criador se testemunhasse o falhanço de mais este seu grande sistema. Já em vida dele o sistema passara por estremecimentos, fulgurações, cobrira-se de fendas — mas, provavelmente, por prudência, isso não lhe fora relatado. O sistema de Campos especiais, a princípio pesado, inerte, nada ameaçador, depressa conheceu um aquecimento interno e em poucos anos passou a um estado de lava vulcânica. Se o Corifeu tivesse vivido mais ano e meio, não haveria maneira de esconder dele essas erupções.
[O autor qualifica os anos 1955-1956 como fatídicos para o Arquipélago. «Não teria sido a altura para o dissolver?» Contudo, entre o XX e o XXII congressos do partido (1956-1961), Khruschov voltou a reforçar os campos. Este capítulo dá voz às novas testemunhas do Arquipélago da última época: de novo a fome, de novo o regime especial, os fatos às riscas. O escritor fala das suas campanhas em janeiro de 1964 junto da comissão do Soviete Supremo e do ministro dos assuntos internos, com requerimentos sobre o Arquipélago moderno. Mas…]
Não há histórias intermináveis. Qualquer história tem de ser interrompida em dado momento. No limite das nossas possibilidades modestas e insuficientes, seguimos a história do Arquipélago desde as purpúreas salvas que acompanharam o seu nascimento, até ao nevoeiro róseo das reabilitações. Nesse glorioso período de suavidade e desagregação, em vésperas do novo endurecimento dos campos por Khruschov e da publicação do novo Código Penal, damos a nossa história como terminada. Haverá outros historiadores — aqueles que, por sua infelicidade, conhecem melhor do que nós os campos do tempo de Khruschov e depois dele.
E eles já começaram a surgir e serão ainda mais numerosos, pois que em breve, muito em breve, chegará na Rússia a era da transparência.
[Neste capítulo fala-se da revolta de Novotcherkassk, em 1 e 2 de junho de 1962 e da repressão armada da população trabalhadora. Dos distúrbios em Aleksandrov e em Murom. Do «diálogo» de força com a Igreja. Do decreto sobre o «parasitismo». Fala-se dos falsos testemunhos que não foram punidos; do facto de a lei ter no nosso país efeito retroativo. Apresentam-se muitos exemplos de injustiça e de violação das leis nos anos 1960.]
Muitas Bases, muitos Decretos e Leis se têm editado e impresso, uns contraditórios, outros harmonizados — mas não é segundo eles que o país vive, não é por eles que se fazem detenções, e julgamentos, e peritagens. Só nos poucos casos (15%?) em que o objeto da investigação e do processo não abrange nem os interesses do Estado, nem da ideologia dominante, nem os interesses pessoais ou a tranquilidade de algum alto funcionário — só nesses casos os magistrados podem gozar desse privilégio: não telefonar para lugar nenhum, não receber de ninguém instruções, mas julgar — no fundo, em boa consciência. Em todos os outros casos, na sua esmagadora maioria, criminais ou civis — não há diferença — fazem-se telefonemas de um gabinete tranquilo para outro gabinete tranquilo, em voz baixa e amistosa aconselham, corrigem, orientam — como deve ser resolvido o processo de um pobre diabo sobre o qual se lançaram desígnios incompreensíveis e desconhecidos para ele, de personagens colocadas acima dele. E o pobre leitor confiante dos nossos jornais entra na sala do tribunal com a sua razão a pulsar-lhe no peito, com os argumentos razoáveis que preparou e, emocionando-se, expõe-nos diante das máscaras sonolentas dos juízes, sem suspeitar de que a sua sentença já está escrita — e não há instância de recurso, e não há prazos nem vias para rever uma decisão sinistra e interesseira, cuja injustiça lhe queima o peito.
Mas há um muro. E os tijolos desse muro estão assentes na argamassa da mentira.
Intitulámos este capítulo «A lei hoje». Mas seria justo chamar-lhe: «Não há lei».
Sempre a mesma pérfida dissimulação, sempre a mesma bruma de iniquidade continua a pairar no ar que respiramos, paira nas cidades, mais densa do que o fumo das chaminés.
Há mais de cinquenta anos que se ergue esse imenso Estado, mantido por círculos de aço, e os círculos existem, mas a lei não existe.
Este livro não devia ter sido escrito só por mim, deviam ter sido repartidos os capítulos por pessoas competentes que depois, num conselho redatorial, ajudando-se umas às outras, corrigiriam tudo.
Mas não houve tempo para isso. E aqueles a quem propus que se encarregassem de certos capítulos não aceitaram, substituindo isso por relatos, orais ou escritos, colocados ao meu dispor. Propus a Varlam Chalamov escrevermos o livro juntos, mas ele também recusou.
O que teria sido necessário era um escritório completo. Anúncios nos jornais, na rádio («comentem!» «revelem-se!»), correspondência aberta, como se fez com a fortaleza de Brest-Litovsk.
Mas não só eu não podia dispor dessa amplitude, como tinha de dissimular e fragmentar o meu projeto, as cartas e os materiais, e fazer tudo em profundo segredo. E até o trabalho no livro tinha de o disfarçar, fingindo trabalhar noutras coisas.
Quantas vezes iniciei e abandonei este livro. Não conseguia decidir: devo ou não escrever isto sozinho? E em que medida serei capaz? Mas quando, acrescentando-se aos materiais que já tinha reunido, começaram a chegar-me muitas cartas de presos de todo o país — compreendi que, uma vez que me era dado tudo isso, eu tinha esse dever.
Devo explicar: nem uma única vez todo este livro, com todas as suas partes, esteve numa mesma mesa! No auge do meu trabalho com o Arquipélago, em setembro de 1965, o meu arquivo foi devastado e um dos meus romances foi apreendido. Nessa altura, as partes já escritas do Arquipélago e os materiais para outras partes foram espalhados por diversos lugares e nunca mais se juntaram: eu temia correr o risco, para mais com todos os nomes que nele constavam. Andava sempre a escrever, para me lembrar, onde era preciso confirmar alguma coisa, o que havia que suprimir, e deslocava-me de um esconderijo para outro com essas folhinhas. Mas quê, essa convulsão, esse caráter inacabado é o verdadeiro sinal da nossa literatura perseguida. Aceitem pois o livro tal como ele é.
Pus fim ao meu trabalho não porque o livro estivesse acabado, mas porque já não tinha mais vida para ele.
Não peço apenas indulgência, mas quero também lançar um grito: quando chegar o tempo, a possibilidade, juntem-se, os amigos que sobreviveram, que conhecem bem, e escrevam um comentário a acrescentar a isto: corrijam o que for necessário, acrescentem onde for preciso (mas não em excesso, sem repetir coisas idênticas). Só então o livro ficará completo, com a ajuda de Deus.
Surpreendo-me por ter conseguido terminar isto em segurança e diversas vezes pensei: não me vão permitir.
Termino-o num ano memorável, de duplo jubileu (e dois jubileus ligados entre si): 50 anos da revolução, que criou o Arquipélago, e 100 anos da invenção do arame farpado (1867).
O segundo jubileu passará por certo em silêncio…
Abril de 1958 — fevereiro de 1967
Riazan — Refúgio
BASMATCHIS — nacionalistas da Ásia Central.
BUR — Barraca de regime agravado.
CADELA — preso comum, em geral bandido, que aceita colaborar com as autoridades do campo.
CHARACHKA (ou charaga) — Instituto científico onde os investigadores trabalhavam sob vigilância policial.
DOPR — Casa de trabalho forçado.
FZO — Ensino técnico para oficinas e fábricas.
GPU — Direção política do Estado. Uma das várias designações por que foi conhecido o KGB.
GUEBISTAS — tchekistas.
GULAG (ou Gulag) — Glavnoe Upravlénie Ispravitelno-trudovikh Lagueriei — Direção central dos campos de trabalho correcional.
ITK — Colónia de trabalho correcional.
ITL — Campo de trabalho correcional.
KGB — Komitet Gossudarstvennoi Bezopastnosti; Comité de segurança do Estado.
KPZ — local de prisão preventiva.
Lag — significa laguer (campo) e surge muitas vezes como sufixo: Minlag, BAMlag, etc.
LUBIANKA — prisão central do KGB, na Praça Lubianka, antiga Praça Dzerjinski.
MGB — Ministério de Segurança do Estado.
MST — Estação de máquinas e tratores.
MVD — Ministerstvo Vnutrennikh Diel; Ministério do interior.
OLP — unidade de base do Gulag.
NEP — Nova política económica, lançada no tempo de Lenine.
OGPU — outra designação do KGB.
OSO — Comissão deliberativa especial.
NKVD — Narodni Komissariat Vnutrennikh Diel; Comissariado do Povo (antiga designação do Ministério dos Assuntos Internos).
PKR(b) — Partido Comunista da Rússia (bolchevique).
RSFSR — República Socialista Federativa Soviética da Rússia.
SAMIZDAT — edições clandestinas.
SMERCH — abreviatura de Smert Chpionam (morte aos espiões), contraespionagem das forças armadas.
SOVNARKOM — Conselho (Soviete) de comissários do povo, ou seja, conselho de ministros. A designação manteve-se até 1946.
TCHEKA — É a vocalização do acrónimo Ч/К (Tché/Ká) — Comissão Extraordinária (de combate à contrarrevolução). Teve esta designação entre 1918 e 1922, mas manteve-se o uso do termo.
TCHEKISTA — Agente da Tcheka, ou seja, do KGB.
TON — Prisão especial.
UITLK — Direção dos campos e colónias de trabalho correcional.
ZAK — zakliutchonni (presidiário). Zek é uma variante.
ZEK (zeks) — designação dos presos do Gulag, baseada nas consoantes Z/K, de zakliutchonni (presidiário).
ABAKUMOV, Viktor Semiónovitch (1908-1954) — membro dos Órgãos de segurança desde 1932, chefe do serviço de contraespionagem SMERCH (1943-1946), ministro da segurança do Estado da URSS (1946-1951), preso em 1951; em fins de 1954 foi condenado à pena capital pelo tribunal militar supremo da URSS.
BERDIÁEV, Nikolai Aleksándrovitch (1874-1948) — filósofo, um dos autores da coletânea «Vekhi» (Marcos) (1909); juntamente com S. N. Bulgákov pertenceu ao movimento que iniciou o renascimento filosófico-religioso na Rússia, no início do século XX; em 1922 foi expulso da Rússia Soviética e viveu em França; entre a sua imensa produção escrita, contam-se os livros O Sentido da História, A Visão do mundo de Dostoievski, Origens e sentido do comunismo russo, A Ideia russa, O Autoconhecimento.
BÉRIA, Lavrenti Pávlovitch (1899-1953) — chefe do partido comunista da Geórgia (1931-1938), ministro dos assuntos internos da URSS (1938-1945, 1953), vice-presidente do conselho de ministros da URSS (1941-1953), curador do «projeto atómico da URSS», foi preso em 1953, condenado à pena capital pelo supremo tribunal da URSS.
BULGÁKOV, Serguei Nikoláevitch (1871-1944) — filósofo, teólogo, sacerdote (a partir de 1918); em 1917-1918 participou ativamente no concílio das igrejas ortodoxas de toda a Rússia; em 1922 foi preso e expulso da Rússia Soviética; viveu em Praga e depois em Paris, onde participou na criação do Instituto Teológico Ortodoxo, de que foi reitor.
BUKHÁRIN, Nikolai Ivánovitch (1888-1938) — teórico do partido, economista, membro do Politburo do CC do PCR(b) em 1924-1929, ativo colaborador do «nova política económica» (NEP); em 1928 pronunciou-se contra a coletivização intensiva, pelo que foi acusado de «desvio de direita». De 1934 a 1937 foi diretor do jornal Izvestia. Preso em 1937, foi condenado à pena capital no processo do «Bloco trotskista de direita».
CHALAMOV, Varlam Tikhonovitch (1907-1982) — escritor, detido pela primeira vez em 1929 e condenado a três anos de prisão; em 1937 foi detido segunda vez, tendo passado dezassete anos em Kolimá; em 1956 foi reabilitado. Os versos escritos na prisão e no desterro (1937-1956) constituíram a coletânea Cadernos de Kolimá, publicada na URSS a partir de 1957. Os mundialmente conhecidos Contos de Kolimá, que escreveu entre 1954 e 1973, publicados em Londres em 1978 e depois traduzidos para francês e inglês trouxeram ao autor fama mundial; na URSS só foram publicados em 1987, depois da sua morte.
CHEININ, Lev Románovitch (1906-1967) — instrutor de processos especialmente importantes da Procuradoria da URSS, escritor, argumentista; em 1934 ocupou-se da investigação do assassínio de Kírov e de processos políticos da segunda metade da década de 1930. Em 1936 foi preso, mas liberto pouco depois. Em 1945-1946 participou nos trabalhos do Tribunal de Nuremberga; novamente detido (1951-1953), a partir de 1953 dedicou-se apenas à atividade literária, sendo autor de livros de espionagem e de peças de teatro.
CHECHKOVSKI, Stepan Ivánovitch (1727-1794) — secretário da Chancelaria Secreta (1757-1762), gozava da especial confiança da imperatriz Catarina II. Conduziu os inquéritos dos processos políticos de Pugatchov, de Radíchev, de Novikov e outros. Puseram-lhe a alcunha de «chicoteador».
DZERJÍNSKI, Féliks Edmundovitch (1877-1926) — fundador e chefe da Tcheka (KGB) de 1917 a 1926. Um dos organizadores do terror vermelho; comissário do povo dos assuntos internos (1919-1923) e das vias de comunicação (1923-1924), presidente da comissão de luta contra o abandono infantil.
EJOV (ou Iejov), Nikolai Ivánovitch (1895-1940) — comissário do povo dos assuntos internos da URSS (1936-1938), comissário-geral da segurança do Estado (sucessor de Iágoda); no seu tempo atingiram o máximo as prisões e deportações em massa, as torturas. Detido em 1939, em 1940 foi condenado à morte pelo supremo tribunal da URSS.
FIÓDOROV, Nikolai Fiódorovitch (1829-1903) — pensador religioso, filósofo-futurólogo, fundador do pensamento cósmico russo. Fundador da filosofia da «Causa Comum»; durante vinte e cinco anos foi bibliotecário do Museu Rumiántsev (atual Biblioteca Estatal Russa), onde foi o primeiro a criar um catálogo sistemático; exerceu profunda influência em filósofos, escritores e cientistas russos.
FLORENSKI, Pável Aleksándrovitch (1882-1937) — sacerdote, cientista, filósofo (a sua obra mais conhecida: Pilar e Sustentáculo da Verdade); desde 1918 ocupou-se da proteção de monumentos artísticos; a partir de 1921 foi colaborador científico do Instituto eletrotécnico experimental, redator da Enciclopédia Técnica, para a qual escreveu cerca de 150 artigos; em 1933 foi detido e condenado a dez anos de prisão, e em novembro de 1937 condenado à morte por um tribunal especial do NKVD.
GUERCHUNI, Evguéni Andréievitch (1870-1908) — um dos fundadores e dirigente do partido dos Socialistas-Revolucionários e da sua Organização de Combate, dirigiu alguns atos terroristas (em 1902, o assassínio do ministro do interior D. S. Sipiáguin; ferimentos no governador de Kharkov, I. M. Obolenski; assassínio do governador de Ufá, N. M. Bogdanovitch; em 1903 foi preso, condenado à pena de morte, substituída por prisão perpétua; em 1906 fugiu da prisão e emigrou.
GUERCHUNI, Vladímir Lvovitch (1930-1994) — sobrinho de G. A. Guerchuni, passou dezasseis anos no Gulag.
GUINZBURG, Evguénia Semiónovna (1904-1977) — professora de história do Partido Comunista da Rússia (bolchevique), chefe do departamento de cultura do jornal Krassnaia Tatária, presa e desterrada (1937-1956, Kolimá, Magadan), autora de memórias Um Percurso Rude; mãe do escritor V. P. Aksiónov.
IÁGODA, Guenrikh Grigórievitch (1891-1938) — vice-presidente da GPU-OGPU (1923-1924), chefiou depois (1934-1936) o NKVD; sob a sua direção alargou-se a rede de campos de trabalho correcional e começou a construção do canal mar Branco-mar Báltico (Bielomorcanal). Ativo organizador de processos judiciais contra os «assassinos» de Kírov, participou pessoalmente no fuzilamento de Kámenev e de Zinoviev. Em 1937 foi detido e, em 1938, no processo do «Bloco antissoviético trotskista de direita», foi condenado à pena capital e fuzilado.
ILIN, Ivan Aleksándrovitch (1882-1954) — filósofo, jurista; em 1922 foi expulso da Rússia Soviética no «barco filosófico»; a partir de 1923 e até 1934 foi professor do instituto científico russo em Berlim; despedido em 1934. Viveu a partir de 1938 na Suíça, onde morreu; em 2005 os seus restos mortais foram trasladados para um mosteiro de Moscovo; em 2006, o imenso arquivo de Ilin foi entregue à biblioteca da Universidade de Moscovo.
IVANOV-RAZÚMNIK (1878-1946) — literato, historiador da literatura, escritor, sociólogo; várias vezes, detido e desterrado a partir de 1919; a partir de 1941 em território ocupado, esteve internado num campo de concentração alemão até 1943; emigrou; autor de memórias, A prisão e o desterro.
KAGANOVITCH, Lazar Moisséievitch (1893-1991) — a partir de 1922 fez parte do aparelho do Comité Central do PCR(b), a partir de 1924 foi membro do CC e, de 1930 a 1957, membro do Politburo do PCUS; um dos principais organizadores da coletivização e da repressão de massas, das deportações e depurações. Foi ministro das vias de comunicação, da indústria pesada e da indústria petrolífera; em 1961 foi excluído do PCUS.
KÁMENEV, Lev Boríssovitch (1883-1936) — a partir de 1919 foi membro do Politburo do CC do PCR(b), e de 1918 a 1926 presidente do Soviete de Moscovo; fez parte da oposição interna do partido a partir de 1925; detido em 1934, foi julgado em 1936 no processo do «Centro unificado antissoviético trotskista-zinovievista» e condenado à pena capital.
KANÁTCHIKOV, Semion Ivánovitch (1879-1940) — de origem camponesa, aos dezasseis anos era operário em fábricas de Moscovo; a partir dos dezanove, membro do Partido Social-Democrata da Rússia. Foi reitor da universidade comunista de Petrogrado, e a partir de 1924 chefe do departamento de imprensa do CC do PDR(b). Depois de 1928 foi redator da revista Terra Vermelha, redator responsável da Gazeta Literária ( Literatúrnaia Gazeta). Preso em 1936, morreu na prisão.
KÍROV, Serguei Mirónovitch (1886-1934) — membro do Comité Central do PCR(b) desde 1923, a partir de 1926 foi primeiro-secretário do comité regional e urbano de Leninegrado e secretário do CC do PCR(b). Sob a sua direção fizeram-se obras da península de Kola para a extração de apatites, construiu-se o canal mar Báltico — mar do Norte e o Campo especial das Solovki do OGPU. Foi morto no Smolni em 1 de dezembro de 1934. A morte de Kírov deu origem a uma vaga de prisões e desterros e aos processos políticos dos anos 1930.
KOSMODEMIÁNSKAIA, Zoia Anatolievna (1923-1941) — Guerrilheira da resistência, enforcada pelos alemães.
KRÁSSIKOV, Piotr Ananievitch (1870-1939) — principal acusador no processo religioso de Petrogrado em 1922. Procurador do Supremo tribunal da URSS desde 1924, vice-presidente do Supremo Tribunal a partir de 1933, ativista das campanhas anti-religiosas, um dos organizadores da «União dos ateus».
KRILENKO, Nikolai Vassílievitch (1885-1938) — primeiro comandante supremo bolchevique (1917), a partir de 1918 ocupa vários cargos dirigentes soviéticos: presidente do Supremo Tribunal, procurador da RSFSR, acusador público nos processos políticos dos socialistas-revolucionários, das minas, do «partido industrial», do «gabinete unido dos mencheviques»; a partir de 1931, comissário do povo da justiça da RSFSR e, desde 1936, da justiça da URSS. Detido em 1938, condenado por «espionagem» à pena capital e fuzilado.
LATSIS, Martin Ivánovitch (1888-1938) — membro da direção colegial da Tcheka em 1918, presidente da Tcheka da Ucrânia (1919-1921). A partir de 1922 trabalhou no setor da economia; em 1935-1937, foi diretor do Instituto Plekhánov da economia nacional; detido em 1937, foi condenado à pena capital.
MEKK, Nikolai Karlovitch von (1863-1929) — engenheiro ferroviário, um dos fundadores do primeiro clube de automobilistas da Rússia. Depois da revolução foi consultor do comissariado do povo das vias de comunicação. Em 1919-1921 foi várias vezes detido por suspeita de ser «contrarrevolucionário», mas soltavam-no em seguida. Em 1929 foi preso pela última vez, condenado à pena capital e fuzilado.
MEREJKOVSKI, Dmitri Serguéievitch (1866-1941) — poeta, prosador, crítico literário, pensador religioso, claro representante da idade da prata, um dos fundadores do simbolismo russo, autor da trilogia Cristo e o Anticristo, de O Reino da Besta e do livro Tolstoi e Dostoievski; a partir de 1920 viveu na emigração com a mulher, Zinaida Guippius.
MOLOTOV, Viatcheslav Mikháilovitch (1890-1986) — membro do Politburo do CC de PCR(b) de 1925 a 1952; chefe do governo da URSS de 1930 a 1941; comissário do povo e depois ministro dos assuntos estrangeiros da URSS (1939-1949; 1953-1956), foi ele que assinou o pacto de não agressão com a Alemanha (1938, «pacto Molotov-Ribbentrop»), e participou em todas as conferências (Teerão, Ialta, Potsdam) que determinaram a ordem mundial depois da guerra; em 1961 foi excluído do PCUS.
MORÓZOV, Pavlik (Pável Trofómovitch; 1918-1932, assassinado) — aluno da escola na aldeia de Guerassimovka, região de Sverdlovsk, «herói-pioneiro», celebrizado pela propaganda soviética como participante na luta contra os kulaks: por devoção à ideia da coletivização, denunciou o próprio pai e os conterrâneos e foi encontrado degolado na floresta. O assassínio foi amplamente explicado como um episódio do «terror kulak»; quatro parentes do jovem, suspeitos, foram condenados à pena de morte. O nome de Pavlik Morózov foi atribuído na URSS a kolkhozes, escolas, grupos de pioneiros, ruas, foram erguidos monumentos. No final dos anos 1980 saíram publicações que colocaram em dúvida muitos elementos desse mito canónico.
ORDJONIKIDZE, Grigóri Konstantínovitch (1886-1937) — membro do Politburo do CC do PCR(b), comissário do povo da indústria pesada de 1932 a 1937, não aprovava a campanha para descobrir «sabotagem de massas» e liquidação dos «velhos bolcheviques». Em 1937 suicidou-se (segundo outra versão, teria sido fuzilado).
PIATAKOV, Iuri (Gueorgui) Leonídovitch (1890-1937) — revolucionário, em 1918-1919 foi chefe do governo provisório da Ucrânia, e em 1922 presidente do Supremo Tribunal; depois da guerra civil trabalhou na economia: dirigiu a indústria do carvão do Donbass, foi comissário do Banco popular da RSFSR, vice-presidente do Plano Estatal, presidente do Banco Estatal da URSS, e a partir de 1934 vice-ministro da indústria pesada; em 1936 detido no processo do «Centro paralelo antissoviético trotskista», condenado e fuzilado.
PILNIAK, Boris Andréievitch (1894-1938) — escritor, em 1918 saiu o seu primeiro livro, No último vapor, e depois O Ano nu (1922), a novela A Lua não extinta, com uma insinuação à participação de Estaline na morte do comissário do povo da defesa M. Frunze (1926), A Árvore vermelha (1929); foi repetidamente perseguido na imprensa soviética, e em 1937 detido, acusado de crime contra o Estado e em 1938 condenado à pena máxima e fuzilado.
RADEK, Karl Berngardovitch (1885-1939) — social-democrata polaco no início do século XX, durante a primeira guerra mundial aproximou-se de Lenine; a partir de 1917 foi chefe da secção de relações internacionais do Comité Executivo Central, e participou nas conversações de Brest-Litovsk; a partir de 1923 foi um partidário ativo de Trotski, em 1927 foi excluído do partido comunista e desterrado para Krasnoiarsk; reintegrado em 1930, em 1936, detido. Em 1937 foi condenado a dez anos de prisão no processo do «Centro paralelo antissoviético trotskista», e em 1939 foi morto na cela por disposição direta de L. P. Béria.
RIKOV, Aleksei Ivánovitch (1991-1938) — membro do Politburo do CC do PCR(b) em 1922-1929, chefe do governo (presidente do conselho de comissários do povo da URSS, em 1924-1930), ministro dos correios e telégrafos (1931-1936), foi detido em 1937 e em 1938, no processo do «Bloco antissoviético trotskista de direita», foi condenado à pena capital e fuzilado.
ROMÁNOV, Panteleimon Serguéievitch (1884-1938) — escritor, o seu conto «Sem Cerejas» (1926) fez dele uma celebridade em toda a Rússia, mas suscitou uma dura crítica na imprensa; a partir de 1922 até aos últimos anos escreveu o romance-epopeia Russ.
SAVINKOV, Boris Viktorovitch (1879-1925) — socialista-revolucionário, dirigente da Organização Combatente do partido socialista-revolucionário (1903-1911), organizou atos terroristas estrondosos (assassínio do ministro do interior V. K. Pleve, em 1904; do grão-príncipe Serguei Aleksándrovitch em 1905, etc.); literato com o pseudónimo V. Ropchin, depois da Revolução de Fevereiro fez parte do governo de Kerenski; avaliou a Revolução de Outubro como a «tomada do poder por um punhado de homens», participou na formação do Exército Voluntário e até 1923 lutou ativamente contra o poder soviético; em 1924 voltou ilegalmente à URSS, foi logo detido e em 1925 condenado ao fuzilamento, pena substituída por dez anos de prisão; em maio de 1925 suicidou-se na prisão, segundo a versão oficial, mas segundo outra versão terá sido morto.
SLIOZBERG (Adamova-Sliozberg) Olga Lvovna (1902-1991) — economista, detida pela primeira vez em 1936, condenada a oito anos de prisão, que cumpriu nas Solovki e depois em Kolimá; em 1949 foi novamente detida, desterrada para Karagandá, desterro anulado em 1954; autora do livro de memórias Caminho.
SOKOLNIKOV, Gridóri Iákovlev (1888-1939) — revolucionário, ministro das finanças da URSS em 1923-1926, vice-presidente do Plano de Estado da URSS em 1926-1928, pronunciou-se contra a via de Estaline para a coletivização; foi embaixador da URSS na Grã-Bretanha (1929-1932); detido em 1936, em 1937, no processo do «Centro paralelo trotskista antissoviético» foi condenado a dez anos de prisão; em 1939 foi morto na cela por ordem direta de L. P. Béria.
SPIRIDÓNOVA, Maria Aleksándrovna (1884-1941) — uma das dirigentes do partido dos socialistas-revolucionários de esquerda, em 1906 matou o repressor da revolta dos camponeses da província de Tambov, G. N. Lujenovski; foi condenada à pena de morte pela forca, substituída pelos trabalhos forçados. Em 1917 foi liberta e participou ativamente no trabalho do seu partido; em 1918 foi detida pelos bolcheviques e desde então repetidamente desterrada e presa: em 1937 foi condenada a 25 anos de prisão e em 1941 à pena capital. Fuzilada antes do abandono da cidade de Oriol às forças alemãs.
TCHUKÓVSKAIA, Lídia Kornéieva (1907-1996) — escritora, em 1926 foi detida e desterrada; a partir de 1928 foi redatora da secção infantil das edições do Estado, dirigida por Samuil Marchak (essa experiência reflete-se no livro Laboratório de uma redatora). A sua longa amizade com Anna Akhmátova deu origem ao livro Recordações de Anna Akhmátova, traduzido em muitas línguas, brilhante testemunho sobre a grande poeta; as suas novelas Sofia Petrovna e Descida Subaquática ocupam um lugar especial na literatura acerca do terror de massas; pela sua defesa dos perseguidos, em especial de Iossif Brodski, Andrei Sakharov e Aleksandr Soljenítsin, foi expulsa da União de Escritores (1974).
TÍKHON (Belávin, Vassili Ivánovitch; 1865-1925) — Patriarca de Moscovo e de toda a Rússia (eleito em 1917, quando na Rússia, depois de dois séculos de interrupção, foi restabelecido o patriarcado). De 1898 a 1907, foi bispo das Aleutas e da América do Norte; em 1917-1918, os numerosos assassínios e torturas de sacerdotes levaram o patriarca Tíkhon a publicar um Apelo e uma Solicitação ao Conselho de Comissários do Povo; depois do decreto do governo soviético sobre o confisco dos bens da igreja e das agitações a ele ligadas, o patriarca foi repetidamente detido e mantido em prisão domiciliária.
TIMOFÉIEV-RESSOVSKI. Nikolai Valdímirovitch (1900-1981) — biólogo, geneticista, trabalhou no Instituto do Cérebro, na Alemanha (1925-1945). Em 1945 foi detido e conduzido à Lubianka; condenado a dez anos de privação da liberdade, cumpriu a pena no Karlag, na instalação especial Sungnul, no sul do Ural. De 1945 a 1955 chefiou o departamento de biofísica no Instituto Académico de biologia em Sverdlovsk; de 1964 a 1969 trabalhou no Instituto de medicina radiológica em Oblinsk; laureado com vários prémios estrangeiros e membro de muitas academias e sociedades científicas estrangeiras.
TOLSTAIA, Alkeksandra Lvovna (1884-1979) — filha de Lev Tolstoi, conservadora da casa-museu de «Iassnaia Poliana», durante a primeira guerra mundial foi enfermeira. Julgada no caso do «Centro Tático», presa no mosteiro de Novosspask (1920-1921). A partir de 1931 viveu na emigração e em 1939 dirigiu nos EUA o Fundo Tolstoi de ajuda aos refugiados russos, com secções em muitos países da Europa e da América do Sul.
TOMSKI, Mikhail Pávlovitch (1880-1936) — membro do Politburo do CC do PCR(b) em 1922-1930, foi presidente dos sindicatos soviéticos entre 1922 e 1929. Pronunciou-se contra as medidas extraordinárias da coletivização, pelo que foi acusado por Estaline de «desvio de direita». Suicidou-se em 1939, numa situação de grandes repressões de massas.
TREPOV, Fiódor Fiódorovitch (1809-1889) — chefe da polícia (1866-1878) e primeiro governador da cidade de Petersburgo (1873-1878), no seu tempo foi criada a polícia fluvial, aumentados os ordenados dos polícias, criados os albergues noturnos para os indigentes e sem abrigo, as oficinas de costura para as mulheres pobres, as leituras públicas («Universidade de Trepov»); chamava a polícia para combater as agitações dos estudantes; reformou-se depois da absolvição, pelo tribunal de jurados, de Vera Zassúlitch, que tinha disparado contra ele.
TROTSKI, Lev Davidovitch (1879-1940) — dirigente do movimento comunista internacional, organizador da Revolução de Outubro de 1917 em Petrogrado; foi um dos fundadores do Exército Vermelho e da Internacional Comunista; de 1918 a 1925, foi comissário do povo do exército e da marinha e presidente do Conselho Militar Revolucionário; a partir de 1923 foi o líder da oposição interna de esquerda. Em 1927 foi afastado de todos os cargos, desterrado, e em 1929 expulso da URSS. Foi assassinado no México por um agente do NKVD.
TUKHATCHEVSKI, Mikhail Nikoláevitch (1893-1937) — chefe militar, comandou o esmagamento das revoltas de Kronstadt e de Tambov; marechal da União Soviética, participou no reequipamento técnico do exército e na criação de uma série de academias militares. Foi detido em 1937, juntamente com outros altos comandantes militares, e julgado no processo «conspiração militar fascista no Exército Vermelho», condenado à pena capital.
TUR (irmãos) pseudónimo de Tubelski, Leonid Davídovitch (1905-1961) e Rijei, Piotr Lvovitcvh (1908-1978) — escritores e dramaturgos, coautores do guião do filme Encontro no Elba, de Lev Cheinin.
UTIÓSSOV, Leonid Ossípovitch (1895-1982) — cantor de música ligeira, ator de teatro e de cinema, nos anos 1930 as canções de criminosos tinham um importante lugar no seu repertório.
VENIAMIN (Kazanski, Vassili Pávlovitch) (1873-1922) — metropolita de Petrogrado, preso em 1922 e condenado à pena capital devido às revoltas motivadas pelo confisco dos bens da igreja; canonizado em 1992.
ZAMIÁTIN, Evguéni Ivánovitch (1884-1937) — escritor, engenheiro, membro do grupo de escritores «Irmãos Serapião» (1921). Autor das novelas O Provinciano, Na Casa do Diabo, do romance Nós; a partir de 1932 viveu em França, onde veio a morrer.
ZAOZERSKI, Aleksandr Nikoláevitch (1879-1922) — prior do templo de Akhotni Riad, detido em 1922 no caso do «confisco dos bens da igreja», no processo religioso de Moscovo, foi condenado à pena capital; em 2000 foi declarado santo pela Igreja Ortodoxa Russa.
ZINÓVIEV, Grigóri Evséievitch (1883-1936) — presidente do Soviete de Petrogrado (1917-1926), presidente do Comité Executivo da Internacional Comunista (1919-1926), a partir de 1925 fez parte da oposição interna do partido; depois de se aliar a Trotski foi repetidamente vítima de desterros e detenções. Em 1934 foi detido pela última vez, e em 1936, no processo do «Centro unificado antissoviético trotskista-zinovievista», foi condenado à pena capital.
[1] Ver glossário no final do volume.
[2] No seu livro O Bezerro marrou contra o carvalho (1966) A. I. Soljenítsin fala dos seus preciosos colaboradores «invisíveis». Em 2007, o autor publicou pela primeira vez a lista completa das «testemunhas do Arquipélago, cujos relatos, cartas, memórias e correções foram usados na composição deste livro». Essa edição do Arquipélago Gulag (Ekaterinburgo: U-Faktoria) foi, também pela primeira vez, provida de um Índice de nomes anotado; desde então, todas as edições completas do livro são publicadas com a lista de testemunhas e o Índice de nomes. (Nota da edição russa.)
[3] E coisa surpreendente: em todo o caso é possível ser um homem! – Travkin não sofreu nada. Recentemente encontrámo-nos e pela primeira vez travámos conhecimento. Ele é general reformado e inspetor da união de caçadores.
[4] V. I. Lenine, Obras Completas em 55 tomos. Moscovo, Editora estatal de literatura política, 1958-1965, t. 35.
[5] Ao que parece, o monárquico Boris Koverda vingou-se em Voikov a título pessoal: P. L. Voikov, comissário regional para o abastecimento no Ural em julho de 1918, dirigiu o fuzilamento da família do czar e depois a destruição dos vestígios desse fuzilamento (desmembramento dos corpos, cremação e dispersão das cinzas).
[6] No «Processo da contrarrevolução económica no Donbass» foram acusadas de sabotagem 53 pessoas. Cinco foram fuziladas, quatro ilibadas, as restantes apanharam de um a dez anos de prisão. No ano de 2000, todos os condenados nesse processo foram reabilitados por ausência de delito. (Nota da edição russa.)
[7] Processo do «Partido Indutrial» (25 de novembro – 7 de dezembro de 1930) – sobre a «sabotagem» organizada pelos engenheiros e cientistas que teriam organizado um «Partido Industrial» clandestino e uma «União de organizações de engenheiros». Cinco dos oito acusados foram condenados ao fuzilamento, substituído depois por dez anos de prisão; três deles a oito anos de privação da liberdade. (Nota da edição russa.)
[8] Oposição no interior do partido, que defendia a direção da economia nacional pelos sindicatos e acusava a direção do partido de degenerescência e de afastamento das massas. Existiu desde fins de 1919 até 1922, quando foi derrotada no IX congresso do Partido. De todos os dirigentes da «oposição operária» depois de 1937 apenas sobreviveu Aleksandra Kollontai, que se tornaria a primeira mulher embaixadora em todo o mundo. (Nota da edição russa.)
[9] A «torrente de Kírov»: em 1 de Dezembro de 1934 foi assassinado Serguei Kírov, primeiro-secretário do comité do partido naquela cidade, membro do Politburo. Seguiu-se-lhe uma repressão de massa: em dezembro de 1934 foram fuzilados 14 membros da «oposição interna», em janeiro e fevereiro de 1935 foram detidos cerca de mil membros do partido, e durante o ano de 1935 efetuaram-se «purgas de passaporte», e o desterro maciço de Leninegrado e da sua região. (Nota da edição russa.)
[10] Cinco deles, torturados durante a instrução do processo, morreram antes de chegar a tribunal. Vinte e quatro morreram nos campos de trabalho. O trigésimo, Ivan Aristaulovitch Punitch, voltou, foi reabilitado. (Se ele tivesse morrido, não mencionaríamos aqui nenhum desses trinta, como não citamos milhões de outros.) Muitas «testemunhas» do processo deles prosperam hoje em Sverdlovsk: são funcionários da nomenklatura, ou pensionistas a título pessoal. Seleção darwinista.
[11] Partidários de Stepan Bandera (1909-1959), chefe de um exército insurrecional ucraniano que combateu o poder soviético ao lado dos alemães. (N. do T.)
[12] O processo contra um grupo de médicos, que eram acusados de conspiração e assassínio de uma série de altos dirigentes soviéticos (1952-1953). A investigação com recurso à tortura foi lançada contra 37 detidos e acompanhada de uma campanha antissemita na imprensa. Um mês depois da morte de Estaline, em abril de 1953, todos os detidos no «caso dos médicos» foram libertados, as acusações feitas contra eles declaradas inconsistentes e os métodos de investigação «inadmissíveis». (Nota da edição russa.)
[13] Ernst Biron (1690-1772), favorito da imperatriz Anna Ioánovna, foi regente do império em Outubro-Novembro de 1740. (N. do T.)
[14] Corruptela do alemão polizei. Eram polícias recrutados como auxiliares pelo exército alemão de ocupação. (N. do T.)
[15] Em 21 de fevereiro de 1913, dia do tricentenário da Casa Románov, uma lei imperial proclamou uma amnistia, que reduzia em um terço todas as penas por processos políticos. (Nota da edição russa.)
[16] M. I. Latsis. Dois anos de luta na frente interna. Editora do Estado, 1920, pp. 74-76.
[17] K. Kh. Danichevski. Os tribunais militares revolucionários. Moscovo, Ed. do Tribunal Revolucionário da República, 1920.
[18] M. I. Latsis. Dois anos de luta na frente interna, p. 75.
[19] N. V. Krilenko . Em cinco anos. 1918-1922: Discursos acusatórios nos maiores processos no Supremo Tribunal Revolucionário de Moscovo. Moscovo. Editora do Estado, 1923.
[20] V. I. Lenine, Obras Completas. T. 54, pp. 265-266.
[21] Ficou conhecido como o «Navio dos filósofos». (Nota da edição russa.)
[22] Pseudónimo de Estaline na clandestinidade. (N. do T.)
[23] Dária Saltikova (1730-1801), latifundiária célebre pela sua extrema crueldade para com os servos. Condenada, morreu na prisão. (N. do T.)
[24] No falar do norte da Rússia, o «o» é pronunciado distintamente, ao contrário de outras regiões em que é pronunciado quase como «a».
[25] bTIUR/bemnoie bZAK/bliutchenie (Prisão, pena de prisão, designação oficial).
[26] Uma das torres do castelo-prisão de Butirski, construído pelo arquiteto M. F. Kazakov em 1771. No subsolo dessa torre esteve encerrado em 1775, acorrentado, Emelian Pugatchov até ao dia da sua execução. (Nota da edição russa.)
[27] Alusão ao quadro Manhã da execução dos atiradores, do pintor Vassili Súrikov (1848-1916). (N. do T.)
[28] O Primeiro Círculo, romance sobre uma «charachka de Marfino», onde cientistas detidos elaboravam uma «telefonia secreta». (Nota da edição russa.)
[29] NTS (União de trabalhadores e solidaristas russos), organização anticomunista de emigrantes russos; criada em Belgrado em 1930, por jovens emigrados brancos; foi legalizada na Rússia na década de 1990. (Nota da edição russa.)
[30] Gutsul (ou hutsul), grupo étnico ucraniano que vive nos Cárpatos. (N. do T.)
[31] Cruzador que fez os disparos dando ordem de assalto ao Palácio de Inverno em 1917.
[32] V. I. Lenine, Obras Completas.
[33] Compilação de leis e disposições do Governo Operário e Camponês, editada pelo Comissariado do Povo da Justiça. 1918: Sec. 1. N.° 65, p. 710. Sobre o Terror vermelho.
[34] V. I. Lenine. Obras Completas.
[35] A coletânea fundamental em sete volumes História do GULAG estalinista, publicada pelo Arquivo Estatal da Federação Russa, contém materiais que mostram que, segundo os dados oficiais, em 1930-1952, foram fuziladas cerca de 800 mil pessoas; pelos campos, colónias e prisões passaram nesse período cerca de 20 milhões de pessoas; as populações especiais deportadas (kulaks, povos deportados, etc.) constituíram não menos de 6 milhões. Em 1953, ano da morte de Estaline, estavam presas nos campos 2 481 247 pessoas, e os deslocados, deportados e eLivross em aldeamentos especiais sob vigilância do MVD, eram 2 826 419 pessoas. ( História do GULAG estalinista: fim dos anos 1920 — primeira metade dos anos 1950: coletânea de documentos em 7 volumes, vol. 4. «A população do Gulag: número e composição», p. 135; t. 5. «Deportados especiais na URSS», p. 172. Moscovo, ROSSPEN, 2004-2005.) É claro que nos anos em que Soljenítsin trabalhava no Arquipélago gulag, não havia quaisquer números oficiais acessíveis. Além disso, escreve ele no Posfácio, «eu tinha de esconder o meu projeto, as cartas e os materiais, fragmentar tudo e fazer tudo em profundo segredo». No entanto, a avaliação fundamental do número global do Arquipélago Gulag, como mostram os números acima indicados, era exata: a população que na URSS, num ou noutro ano, se encontrava em condições de privação da liberdade era comparável à de países europeus como a Suécia ou a Grécia (v. Primeira Parte, cap. 4). (Nota da edição russa.)
[36] Mikhail Príchvin (1873-1954), escritor russo. (N. do T.)
[37] Os especialistas em história da técnica dizem que Filipp Kolitchev (que elevou a voz contra Ivan, o Terrível) introduziu no século XVI a técnica agrícola das Solovki, de tal modo que três séculos mais tarde ninguém teria vergonha de apresentá-la em qualquer parte.
[38] Direção especial para os campos das ilhas Solovki. (N. do T.)
[39] Revista Ilhas Solovki, 1929, N.° 1, p. 3. (Estas linhas não figuram nas obras completas de Gorki.)
[40] Campo de Svir. Lag é abreviatura de laguer: campo, acampamento.
[41] BelBaltlag: campo do mar Branco e do mar Báltico. (N. do T.)
[42] O canal Estaline do mar Branco ao mar Báltico: História da sua construção. Sob a direcção de M. Gorki, L. L. Averbakh, S. G, Firin. Moscovo: História das oficinas e fábricas , 1934. — pp. 213, 216.
[43] Ao fim de 64 anos, em 1998, foi reeditado em fac-símile. (Nota da edição russa.)
[44] Aldeia de Povenets, ponto inicial do canal mar Branco — mar Báltico, que liga o lago Onega ao mar Branco. Nessa zona começa a «Escada de Povenets» — doze quilómetros do canal que incluem sete eclusas e as barragens, diques e quedas de água que as acompanham. (Nota da edição russa.)
[45] Instrução a todos os funcionários do partido e dos sovietes e a todos os órgãos do OGPU, do tribunal e da procuradoria (8 de maio de 1933). (Arquivo do comité regional de Smolensk do VKP(b). Mensageiro socialista: Órgão da delegação do RSDRP no estrangeiro. Nova Iorque, 1955, N.° 4 (681), p. 52.
[46] Estaline, Obras ( Sotchinénia) em 13 tomos. Moscovo. 1949-1955. T. 13, p. 211.
[47] Das prisões aos estabelecimentos correcionais. Sob a direção de A. I. Vichinski; Instituto de política criminal e correcional junto da Procuradoria da URSS e do Ministério da Justiça da RSFSR. 1934. Prefácio de A. I. Vichinski, p. 7.
[48] Idem, p. 449.
[49] Do italiano pellagra, pele rugosa. Doença provocada pela avitaminose, consequência da má alimentação prolongada. (Nota da edição russa.)
[50] Livre. (N. do T.)
[51] Há testemunhos de todos os séculos. No século XVII, Iúri Krijánitch escreve que os camponeses e os artesãos da Moscóvia vivem com mais abundância do que os ocidentais, que os habitantes mais pobres da Rússia comem bom pão branco, peixe e carne. Mesmo no Período das Revoltas «as tulhas antigas não se esvaziaram, nos campos erguiam-se as medas e as eiras estavam cheias de roleiros e de medas que chegavam para catorze anos» (Avraamii Palitsin). No século XVIII, Fonvizin, comparando o bem-estar dos camponeses russos e dos camponeses do Languedoc, na Provença, escreve: «acho, julgando desapaixonadamente, a condição dos nossos camponeses incomparavelmente mais feliz». No século XIX, Púchkin escrevia acerca da aldeia dos servos: por toda a parte sinais de abundância e de trabalho.
[52] Aldeias inteiras afetas ao trabalho em minas e manufaturas, públicas ou privadas. Não possuíam terras, pelo que dependiam inteiramente dos patrões. (N. do T.)
[53] Aleksandr Araktchéiev (1769-1831), general e político, favorito de Alexandre I, praticou uma política de despotismo e arbitrariedade. (N. do T.)
[54] Segundo o direito feudal, em vez de Vsessoiuznaia Kommunistitcheskaia Pártia (Partido Comunista (de toda a) União Soviética). (N. do T.)
[55] Rab otchaia sila é força de trabalho; mas rab significa escravo. É essa a alusão. (N. do T.)
[56] No Inverno daquele ano, Boris Gámmerov morreu no hospital de Butirka de exaustão e de tuberculose. Respeito nele o poeta a quem não deixaram fazer ouvir a sua voz rouca. Era uma figura espiritual elevada, e na altura os seus versos pareciam-me muito fortes. Mas não consegui memorizar nenhum deles e agora não consigo encontrá-los em parte nenhuma, para ao menos com essas pedrinhas formar uma lápide.
[57] Fiódor Dostoievski (1821-1881) passou quatro anos nos trabalhos forçados, na ilha de Omsk (de 1849 a 1853). Em 1860-1861 escreveu as Memórias da Casa dos Mortos, em que descreve em pormenor a vida quotidiana dos condenados. (Nota da edição russa.)
[58] Anton Tchékhov (1860-1904) visitou a Sacalina em 1890, onde durante três meses reuniu imenso material sobre a vida dos condenados da Sacalina e dos habitantes locais; em 1895 publicou o livro A Ilha de Sacalina, que teve enorme repercussão na Rússia. (Nota da edição russa.)
[59] cheliábinsk Traktorni Zavod — Fábrica de Tratores de Tcheliábinsk. (N. do T.)
[60] P. I. Biuriukov. Biografia de L. N. Tolstoi, t. 3. Cap. 5. Bondarev. Palkin. Deruled. (Nota da edição russa.)
[61] George Orwell (1903-1950), no romance anti utopia 1984 chama «bem pensantes» aos membros ortodoxos da sociedade totalitária. (Nota da edição russa.)
[62] Citação de uma das várias traduções russas da Internacional. (N. do T.)
[63] Menor de idade. (N. do T.)
[64] Instituto de História, Filosofia e Literatura de Moscovo; em 1941 foi inserido na universidade de Moscovo. Enquanto estudava na faculdade físico-matemática da universidade de Rostov (de 1936 a 1941), Soljenítsin começou em 1939 a seguir o curso por correspondência de história da arte do MIFLI, onde estudou durante dois anos antes da guerra. (Nota da edição russa.)
[65] Quando viajarem numa lancha pelo canal, lembrem-se sempre daqueles que ficaram lá no fundo.
[66] Henrik Ibsen. Um Inimigo do Povo, comédia em 5 actos.
[67] General A. V. Gorbatov. Os Anos e as Guerras. Novi Mir, 4, 1964, p. 109.
[68] Os Demídov: desde fins do século XVII proprietários de fábricas de fundição e de armamento, que tratavam com crueldade os seus operários; Kabanikha (Marfa Ignatievna Kabanova, personagem central da peça de Aleksandr Ostrovski A Tempestade; Grigori Petrovitch Tsibukin, personagem da novela de Anton Tchékhov No Barranco. (Nota da edição russa.)
[69] Personagem do romance Guerra e Paz, de Lev Tolstoi. (N. do T.)
[70] Inscrição no Templo de Apolo, em Delfos, como apelo a todos aqueles que lá entram. (Nota da edição russa.)
[71]Havia ainda outras formas pouco conhecidas, como: expulsão do partido, despedimento do trabalho e envio para um campo como trabalhador livre. Assim foi desterrado em 1938 Stepan Grigórievitch Ontchul. Naturalmente, essas pessoas eram consideradas pouco seguras. Durante a guerra, Ontchul foi levado para um batalhão de trabalho, onde morreu.
[72] Primeira assembleia geral dos funcionários do ensino superior da URSS — ao camarada Estaline. Pravda, 20 de maio de 1938, p. 2.
[73] O decreto sobre a terra foi aprovado pelo II Congresso de toda a Rússia dos Sovietes de deputados operários e soldados na noite de 26 para 27 de Outubro de 1917. «É imediatamente abolida a propriedade latifundiária sobre a terra, sem qualquer resgate», todas as terras de apanágio, dos mosteiros, da igreja, com todos os pertences e todas as construções, são colocadas à disposição dos comités da terra e dos Sovietes de deputados camponeses; as terras dos camponeses pobres e dos cossacos não são confiscadas. (Nota da edição russa.)
[74] Príncipe mongol, neto de Gengis Khan, conquistou a Rússia (1238-1240). (N. do T.)
[75] Aleksandr Soljenítsin, Um Dia na vida de Ivan Deníssovitch, Sextante Editora. (N. do T.)
[76] Nikolai Gumiliov (1886-1921), poeta, foi preso em 3 de agosto de 1921, e fuzilado em 21 de agosto nos arredores de Petrogrado por participação numa conspiração contrarrevolucionária. Em 1991 o processo relativo a Gumiliov foi encerrado «por ausência de crime». (Nota da edição russa.)
[77] Vera Ivánovna Zassulitch (1849-1919), revolucionária populista. Em janeiro de 1878 feriu com vário tiros de pistola o chefe da polícia de Petersburgo, F. F. Trepov, que seis meses antes mandara açoitar um estudante detido. Foi absolvida. (Nota da edição russa.)
[78] Cito este exemplo por consideração pelos parentes inocentes. O próprio Tukhatchevski começa agora a ser objeto de um novo culto que eu não tenciono apoiar. Ele colheu aquilo que semeou, ao dirigir o esmagamento de Kronstadt e da revolta dos camponeses de Tambov.
[79] O bastião Trubetskoi é uma das prisões da fortaleza Pedro e Paulo. Devido a uma proclamação de 9 de janeiro de 1909, em que apelava ao derrube da autocracia, M. Gorki foi detido e passou um mês no bastião Trubetskoi. A peça Filhos do Sol que ali escreveu foi encenada nesse ano no Teatro de Arte de Moscovo. (Nota da edição russa.)
[80] Um meu companheiro de enfermaria no pavilhão de oncologia de Tachkent, um uzbeque que fazia parte da escolta, falou-me dessa fuga dizendo, pelo contrário, que ela foi bem-sucedida, e comprazendo-se com ela a contragosto.
[81] Pele de má qualidade, a que se chamava também «pele de peixe». (N. do T.)
[82] Por mais que nos tenhamos há muito habituado a tudo, por vezes surpreendemo-nos: o segundo marido da mulher deixada foi preso, e por isso temos de renegar um filho de quatro anos? E isto para um comandante de brigada da Tcheka?
[83] Em 9 de janeiro de 1905, foram mortas cerca de 100 pessoas. Em 1912, nas célebres fuzilarias do Lena, que emocionaram toda a Rússia, foram mortas 270 pessoas e 250 ficaram feridas.
[84] M. Tukhatchevski, «O combate às sublevações contrarrevolucionárias» na revista Guerra e revolução, Moscovo, 1926 n.° 8, p. 10.
[85] Uma deciatina = 1,09 hectare. (N. do T.)
[86] Públio Ovídio Nasão (43 a. C. — 17 d. C.) — poeta latino. No ano 8 a. C. foi desterrado pelo imperador Otaviano Augusto para Dobrogeia, na costa do mar Negro. Suportou com dificuldade o exílio, o que é testemunhado pelas suas elegias Os Tristes e Os Pônticos; pediu clemência, mas nem Augusto, nem Tibério depois dele, fizeram o poeta voltar do exílio, onde morreu no nono ano de desterro. (Nota da edição russa.)
[87] A peça Os Prisioneiros foi publicada pela primeira na Rússia 37 anos depois, em 1990. (Nota da edição russa.)
[88] O Primeiro Círculo. Nos anos 60 o romance circulava em Samizdat; no país só foi publicado pela primeira vez em 1989. (Nota da edição russa.)
[89] O XX Congresso do PCUS decorreu entre 14 e 25 de fevereiro de 1956, em Moscovo. No último dia dos trabalhos, 25 de fevereiro, o secretário-geral do PCUS, Nikita Serguéievitch Khruschov, interveio na sessão de encerramento (sem os representantes dos partidos estrangeiros) com o relatório «Sobre o culto da personalidade e as suas consequências». No relatório condenava-se o culto da personalidade de J. V. Estaline, apresentavam-se casos de crimes (terror, acusações falsas, torturas, execuções sem julgamento) da segunda metade dos anos 30 até ao início dos anos 50, cuja culpa era atribuída a Estaline. Uma variante «suavizada» do relatório foi publicada em junho de 1956, e o texto completo foi publicado na URSS só em 1989. (Nota da edição russa.)
[90] Um dia na vida de Ivan Deníssovitch (edição portuguesa: Sextante), foi publicada no número de novembro de 1962 da revista Novi Mir. (N. do T.)
[91] E definitivamente, por uma ordem secreta da Direção Central de proteção dos segredos de Estado na imprensa, n.° 10 de 14.2.1974 — apreender e destruir Ivan Deníssovitch, A Casa de Matriona e outras obras publicadas (assinado Romanov).