O Livro da História
(Textos Escolhidos)
Tradução de Rafael Longo.
São Paulo: GloboLivros, 2017.
Frases da Capa
A América é o caldeirão de Deus, o grande cadinho cultural
Uma revolução não é um mar de rosas
Seguindo a luz do sol deixamos o velho mundo
Ações, não palavras
Nos encaramos olho no olho, e acho que o outro cara piscou primeiro
Um homem destinado a ser senhor do estado
Cortaremos sua cabeça com a coroa ainda nela
Consideramos evidentes as seguintes verdades, que todos os homens foram criados iguais
Independência ou morte!
Minha consciência é cativa à palavra de Deus
Eu tenho um sonho
Deem ao sol o sangue dos inimigos para beber
O estado sou eu
Os humanos modernos são a única espécie mamífera global. A partir de sua evolução na África, por volta de 200 mil anos atrás, o Homo sapiens rapidamente se espalhou por todo o mundo — sinal da curiosidade de nossa espécie em explorar as cercanias e de nossa criatividade em nos adaptar a diferentes habitats. Em especial, muitos pesquisadores pensam que a habilidade humana de explorar ambientes costeiros foi crucial em sua rápida disseminação pela costa sul da Ásia.
Nem mesmo a radicalmente distinta flora e fauna da Austrália foi uma barreira; os humanos talvez tenham chegado ao continente há mais de 60 mil anos, apesar de haver dúvidas quanto a essas datas. Pequenos grupos talvez tenham chegado bem entes, mas o grosso das evidências sugere uma colonização generalizada apenas 45 mil anos atrás, quase na mesma época em que o Homo sapiens chegou à Europa.
Outras espécies
O Homo sapiens foi o primeiro hominídeo a chegar na Austrália. Na Eurásia, porém, diferentes espécies ancestrais precisaram competir por espaço. Quando os humanos se espalharam pela Europa, encontraram neandertais que habitavam a região há cerca de 250 mil anos e estavam bem adaptados ao ambiente. Mais a leste, na Rússia, há evidências de uma misteriosa espécie cujo DNA foi encontrado na caverna Denisova, incrustada na Cordilheira de Altai. E na ilha de Flores, no sudeste asiático, fósseis do que possivelmente seria mais uma espécie — o Homo floresiensis de baixa estatura e cérebro menos desenvolvido — datam de 18 mil anos atrás.
De todos esses hominídeos, o Homo sapiens foi o único que sobreviveu aos milênios e partiu para colonizar a América. Como exatamente a nossa espécie chegou ao continente ainda é assunto controverso. A teoria mais conhecida afirma que os humanos atravessaram o Estreito de Bering, um trecho de mar entre a Rússia e o Alasca que ficou congelado durante a última era do Gelo, permitindo a passagem a pé entre os dois continentes. Por esse ponto de vista os artefatos de pedra de 13 mil anos encontrados próximo à cidade de Clovis, no Novo México (EUA) poderiam ser evidências da primeira cultura americana.
Essa explicação é confrontada por teorias que defendem uma colonização da América a partir do sul. O etnólogo francês Paul Rivet foi um dos primeiros a afirmar que nossos ancestrais poderiam ter cruzado o oceano Pacífico a partir da Austrália, passando pela Polinésia por uma série de ilhas hoje submersas. Dois dos principais sítios arqueológicos que confirmam essas teorias estão no Brasil. O primeiro é o de Lagoa Santa, em Minas Gerais, onde em 1975 foi encontrado um crânio de 13 mil anos batizado de Luzia. Já no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, pesquisas conduzidas pela arqueóloga Niede Guidon localizaram vestígios com até 100 mil anos de idade, que derruba por completo as teorias de ocupação da América baseadas na migração pela Beríngia.
O complexo de cavernas de Altamira, perto de Santander na costa norte da Espanha, possui uma série de passagens e câmaras que se estendem por quase 300 metros, mostrando alguns dos melhores exemplos já encontrados de arte em cavernas da Idade da Pedra, ou paleolítico. As pinturas são tão impressionantes que, quando as cavernas foram descobertas em 1880, foram amplamente consideradas falsas, tendo demorado quase vinte anos para serem aceitas como genuínas criações dos caçadores-coletores pré-históricos. Algumas das mais antigas atividades artísticas lá talvez datem de mais de 35 mil anos, apesar de a maioria das pinturas mais famosas ter provavelmente sido criada bem mais tarde, por volta de 22 mil anos atrás. Nestas estão incluídas as imagens da famosa Câmara dos Bisões: seu teto está coberto de representações de animais, incluindo imagens realistas e multicoloridas de bisões, cuidadosamente pintadas nas ondulações naturais das rochas que parecem quase tridimensionais.
O ímpeto artístico
Também se sabe de outras manifestações de arte nas cavernas no sudoeste da França e no norte da Espanha. Elas incluem não só imagens finamente detalhadas de animais, mas também sinais, símbolos e marcas de mãos, tanto esculpidos como pintados. Os arqueólogos seguem divididos quanto ao significado e à função da arte da Idade da Pedra. Uma explicação é que simplesmente aquelas pessoas apreciavam as qualidades estéticas da arte assim como seus descendentes hoje. Outros sugerem que o incrível detalhamento de algumas dessas imagens — por exemplo, o sexo do animal ou a determinação da estação na qual ele foi observado — talvez fosse um meio de comunicar informações vitais para a sobrevivência, como quais animais caçar, quando e como eles podem ser encontrados e abatidos.
Rituais de caça
Também se diz que a arte das cavernas pode estar ligada à visão de mundo ou às religiões dos povos paleolíticos. Até mesmo hoje muitas sociedades que ainda vivem da caça e da coleta compartilham crenças animistas, ou seja, acreditam que entidades como animais, plantas e parte da natureza tenham espíritos com os quais os humanos interagem no curso da vida. Muitos dos especialistas religiosos dessas sociedades, ou xamãs, acreditam ser capazes de se comunicar com esses espíritos para ajudar pessoas enfermas ou feridas, e historicamente a arte nas pedras foi criada por xamãs durante seus momentos de estado de consciência alterada, ou transes, levando alguns pesquisadores a sugerir que sociedades paleolíticas talvez tenham tido crenças comuns. Acredita-se ainda que os xamãs eram capazes de se transformo om animais para que estes fossem encorajados a se entregar aos caçadores, algo que também poderia explicar imagens que combinam características humanas e animais, como o Homem-Leão de Hohlenstein-Stadel, na Alemanha, ou o Feiticeiro da caverna de Les Trois Frères, na França, uma figura com traços humanos e chifres.
Criar imagens de animais ainda pode ter sido parte de rituais "mágicos" desenvolvidos para melhorar as chances de sucesso durante a caça. Para sociedades que baseavam boa parte de sua dieta em recursos animais, a importância desses rituais não parece exagero.
Cerimônias de iniciação
Outros pesquisadores já notaram que muitas das marcas de mãos e pés achadas perto dessas pinturas de cavernas parecem ser de indivíduos bem jovens. Conhecer cavernas escuras, úmidas e potencialmente perigosas com uma lamparina cheia de gordura animal era uma forma de teste de iniciação para jovens — que exigia uma grande dose de coragem.
Sepultamento e pós-morte
Mais evidências de seres humanos envolvidos em práticas religiosas e rituais naquela época também podem ser vistas em sepultamentos. No sítio de Dolní Věstonice, na República Tcheca, por exemplo, três corpos foram sepultados juntos numa posição que parece sexual, com um dos indivíduos masculinos grudado a um esqueleto feminino e apontando para a pélvis dela, enquanto o outro homem, do lado oposto, foi sepultado com a face para baixo. Um pigmento vermelho conhecido como ocre foi jogado sobre suas cabeças e ao redor da pélvis feminina. Interessante é que os três indivíduos tinham a mesma e rara deformidade na estrutura óssea, e talvez fossem parentes. Embora o motivo da posição desses corpos possa continuar a ser um mistério para sempre, é claro que havia algo mais nesse sepultamento além da simples disposição dos restos mortais.
Em outros sítios, alguns indivíduos foram sepultados com vários "objetos fúnebres" — por exemplo, as sofisticadas joias feitas de conchas de dentálio em Arene Candide, na Itália, e as pontudas lanças feitas de marfim de mamute no sítio arqueológico fúnebre de duas jovens crianças em Sunghir, na Rússia. Alguns pesquisadores sugeriram que o fato de esses indivíduos serem adornados com elegância especialmente os mais jovens, que não tiveram tempo em sua curta vida para estabelecer uma reputação que lhes garantisse tal tratamento especial depois de mortos — pode significar que já começava a haver distinções hierárquicas e de status social em alguns grupos. Mas parece que isso, só se generalizou muito mais tarde. É claro, no entanto, que pela primeira vez as pessoas passaram a se preocupar com o que acontecia após a morte e como os mortos deveriam entrar no além-vida.
Marcando território
Outros pesquisadores apontam para o fato de a maioria da arte paleolítica "clássica" em cavernas estar concentrada no sudoeste da França e no norte da Espanha. Tal região talvez tenha sido um lugar razoavelmente favorável para viver: mesmo no ápice do Último Máximo Glacial, os habitats mais ao sul, com clima mais quente, logo mais produtivo, atraíram grandes grupos de animais. Como resultado, talvez as pessoas tenham vivido ali em maior número, em grupos bem coesos, levando a grandes tensões sociais entre eles na luta por territórios e recursos.
Assim como grupos humanos hoje — quer como membros de uma torcida de futebol, quer como cidadãos de países — usam símbolos como bandeiras, vestimentas, fronteiras, territórios e identidades grupais, os grupos paleolíticos talvez também tenham decorado cavernas visando ao mesmo fim, numa época em que havia potencial para uma intensa disputa por recursos.
Cooperação para sobreviver
Essas complexas interações sociais podem ajudar a explicar como o Homo sapiens foi capaz de sobreviver no duro cenário da Era do Gelo na Europa. Os caçadores-coletores provavelmente viviam em pequenos grupos de baixa densidade espalhados em diversos habitats. A maioria dos sítios arqueológicos dessa época não demonstram qualquer evidência de construções ou estruturas complexas, sugerindo que as pessoas se deslocavam muito, de acordo com o clima ou o ambiente local, quase sempre seguindo grandes bandos de animais, como as renas, que se moviam conforme as estações do ano.
A habilidade do Homo sapiens para forjar novas relações rapidamente permitiu que grupos de caçadores se juntassem quando e como fosse necessário. Quando havia muitos recursos, eles caçavam juntos-por exemplo, interceptando bandos de renas em migração em locais onde estivessem mais vulneráveis, como os vales estreitos, ou na travessia de rios. Em tempos de escassez, tais grupos se dividiam de novo e se espalhavam pelo habitat para encontrar recursos selvagens suficientes para se sustentarem.
Tecnologias primitivas
Esses caçadores-coletores gastavam um tempo considerável desenvolvendo tecnologias de caça, já que isso poderia fazer diferença entre a vida e a morte. Eles encaixavam pontas de pedras em bastões transformados em lanças que eram arremessadas no alvo, usando propulsores feitos para aumentar a distância a ser coberta pela lança, além da força com que atingia o alvo. Tais utensílios eram cruciais para o sucesso na caça, logo não é de surpreender que tais propulsores fossem entalhados e decorados com belas formas, quase sempre com a representação dos animais sendo caçados. Do mesmo modo, também entalhavam com muito esforço complexos arpões farpados feitos de ossos e chifres para a pesca.
As primeiras sementes de uma sociedade
Objetos perfurantes e agulhas de ossos cuidadosamente trabalhados sugerem que os humanos da Idade da Pedra também faziam roupas de frio da pele e do pelo de animais com muito mais cuidado que os seus predecessores, além de vários outros itens de joias muito bem elaboradas feitas de dentes de animais e conchas feitas até figuras humanas entalhadas em rocha ou esculpidas em argila. Muitos desses itens talvez tenham sido comercializados, presenteados ou trocados com indivíduos de outros grupos como parte de redes sociais de grande escala.
Os ambientes imprevisíveis da Europa durante o Último Máximo Glacial implicavam que compartilhar recursos com outros grupos em épocas de abundância trazia vantagens significativas depois de certo tempo: se um grupo lutava para encontrar recursos em uma área, outros, em lugares distintos, que haviam sido beneficiados por sua generosidade, estariam mais propensos a retribuir o favor. Esses tipos de relacionamentos de troca conectavam mesmo os grupos mais distantes em complexas redes de relações individuais ou de grupos, fundamentais para a sobrevivência em tais cenários adversos.
Só há pouco tempo os cientistas começaram a apreciar a forma como o relacionamento de mão dupla que existe entre humanos e nosso ambiente afetou o desenvolvimento de nossas sociedades. Os humanos evoluíram durante a última Era do Gelo, vivendo mudanças periódicas entre condições climáticas muito frias (glaciais) e períodos mais quentes, como os que temos hoje (interglaciais). Porém, mais para o fim da Era do Gelo, tais mudanças tornaram-se mais pronunciadas, ocorrendo em intervalos mais curtos e culminando ao redor de 21000 a.C. no "Grande Congelamento", um período de frio intenso conhecido como o Último Máximo Glacial. Pessoas e animais que viviam nas regiões mais ao norte morreram ou migraram para o sul conforme as calotas polares se expandiam, chegando a atingir o sul da Inglaterra. Tal quantidade de água congelada fez com que o nível dos oceanos diminuísse, deixando à vista pedaços de terra que antes estavam submersos, como a Beringia, a passagem continental que conecta a América do Norte à Ásia — a rota pela qual os humanos chegaram pela primeira vez às Américas.
Temperaturas em alta
Por fim, a temperatura subiu de novo, e o clima relativamente quente e estável de hoje se firmou por volta de 7000 a.C. As calotas polares derreteram, o aumento do nível do mar separou a Eurásia das Américas, fez com que o sudeste asiático se tornasse um arquipélago e criou ilhas a partir das penínsulas tanto no Japão quanto na Inglaterra, isolando muitos grupos humanos. O impacto sobre os ecossistemas foi particularmente severo para os grandes animais conhecidos como megafauna — os mamutes, por exemplo. O pasto das estepes então glaciais no qual a megafauna prosperava foi substituído por florestas em expansão, e por todo o globo a combinação de mudança ambiental e caça humana levou muitas espécies à extinção. Florestas e pântanos do novo mundo pós-glacial ofereceram aos humanos muitas novas oportunidades. Eles caçavam grandes animais da floresta, como a rena vermelha e o javali selvagem, e pequenos mamíferos como os coelhos, e buscavam comida num amplo leque de fontes de alimento na costa. Peixes migradores, como o salmão, mamíferos aquáticos como as focas, e crustáceos, aves selvagens e diversos frutos, tubérculos, nozes e sementes também se tornaram importantes para sua dieta.
Estilos de vida em transformação
Em áreas particularmente ricas em recursos naturais, os grupos humanos talvez não tenham se estabelecido num único lugar, e enviaram pequenos grupos em expedições mais além dos campos visando a recursos específicos. As comunidades natufianas do Mediterrâneo oriental, por exemplo, foram capazes de explorar fontes abundantes de cereais selvagens no Oriente Próximo. Alguns grupos começaram a manipular seus habitats, queimando vegetação e cortando árvores para encorajar suas espécies animais e vegetais a crescerem. Eles começaram a selecionar e cuidar de espécies de plantas produtivas e semearam linhagens de sementes que lhes agradavam, enquanto controlavam certos animais. Tal manipulação fez com que essas espécies ficassem cada vez mais dependentes da ação humana — e levou ao desenvolvimento da agricultura, uma mudança radical no tipo de vida humana que, desde então, resultou num impacto ainda mais dramático dos humanos em seu ambiente.
O povoado neolítico de Çatalhöyük, na planície de Konya, na Turquia, foi descoberto por James Mellaart nos anos 1960 e tornou-se um dos mais famosos sítios arqueológicos no mundo devido a seu tamanho, densidade populacional, suas espetaculares pinturas de parede e evidência de complexos religiosos e comportamento ritualístico. Desde sua descoberta, vários outros assentamentos por todo o Oriente Próximo foram encontrados, confirmando a escala crescente de comunidades humanas durante a mudança da era da caça para o estilo de vida agrícola, ou seja, a "revolução neolítica" que se deu entre aproximadamente 10000 a.C. e 7000 a.C. Ou o crescimento da população forçou as pessoas a buscar meios mais estáveis de subsistência ou a agricultura lhes permitiu terem mais filhos, o que fez com que o tamanho de vários assentamentos crescesse substancialmente e se tornassem permanentes. Foi necessário achar novas formas de solução de problemas sociais, como as disputas entre vizinhos.
As primeiras vilas gastaram tempo e esforço no plantio e cultivo da terra, tendo que armazenar a safra para que durasse o ano todo e não precisassem mais se mover como os antigos caçadores faziam.
A coesão da comunidade
Acredita-se que o desenvolvimento de organizações religiosas mais formais e de práticas ritualísticas grupais talvez tenha ajudado na coesão da comunidade. Em vários sítios foram construídas edificações para esse propósito; elas eram maiores que as estruturas domésticas, com características inusitadas, como bancos feitos de gesso de cal, além de novas evidências de arte simbólica e representativa: em Çatalhöyük havia muitos murais e esculturas de vários temas, incluindo animais selvagens como búfalos, leopardos e abutres. Em alguns sítios, muitos habitantes continuavam na comunidade mesmo depois de mortos; eles eram enterrados sob o chão das casas. Às vezes eram desenterrados e seus crânios removidos; a partir deles moldavam-se máscaras faciais de gesso, que eram pintadas com ocre para serem expostas. Em sítios como o de Ain Ghazal, na Jordânia, foram encontradas várias estátuas feitas de gesso de cal, e há muitos exemplares de figuras de animais e humanos (sobretudo mulheres) em argila. Não está claro se esses crânios decorados, estátuas e figuras representam indivíduos específicos, ou se são chefes de família ou de linhagens, ou talvez ancestrais ou deuses míticos. Mas todos devem ter sido parte da ideologia comunitária, de rituais e práticas sociais que ajudaram a diminuir as tensões entre indivíduos e grupos sociais maiores, que estavam estabelecendo vínculos mais formais uns com os outros para o comércio de longa distância ou a troca de bens. Parte do sucesso de Çatalhöyük talvez tenha sido seu papel como um centro de comércio em grande escala de itens feitos de obsidiana, um tipo de vidro vulcânico, de Hasan Dağ
As muitas e drásticas mudanças sociais e econômicas advindas da revolução neolítica ajudaram a moldar tanto a história humana quanto o ecossistema do mundo desde então.
Em 1901, uma placa de pedra negra de dois metros de altura foi encontrada nas ruínas da cidade de Susa. Entalhados em sua face havia 280 "julgamentos", ou leis, constituindo o mais antigo código jurídico escrito conhecido na história. A placa foi originalmente erguida na Babilônia, cerca de 1750 a.C., por Hamurabi, um dos maiores reis da antiga Mesopotâmia.
A revolução da Idade do Bronze
A Mesopotâmia, que quer dizer "entre dois rios", fica entre o Eufrates e o Tigre e é considerada a primeira civilização humana de todos os tempos. Sua escrita, matemática e astronomia também foram as primeiras a ser conhecidas, e suas cidades, com razão, foram os primeiros exemplos no mundo. O crescimento de sua população e de sua riqueza levou ao surgimento de uma hierarquia na sociedade, liderada por governantes, uma corte e sacerdotes no topo, seguidos de mercadores e artesãos, e por servos e trabalhadores na camada mais inferior. Isso é com frequência chamado de "especialização": os membros da sociedade tinham diferentes tarefas, em vez de todos produzirem apenas alimento, como era o caso nas sociedades de subsistência que a antecederam.
As comunidades mesopotâmicas coordenaram o trabalho humano para construir grandes estruturas, como uma muralha de defesa ou enormes templos, além da constituição de exércitos. Elas usavam a engenharia hídrica para desviar a água de rios e irrigar os campos aluviais. As necessidades administrativas como a contabilidade levaram ao desenvolvimento da escrita cuneiforme, o primeiro tipo de escrita conhecido, e a complexos conceitos matemáticos como frações, equações e geometria. Uma sofisticada astronomia foi desenvolvida, visando à criação de um calendário. Às vezes chamada de Revolução da Idade do Bronze, esse enorme passo adiante pode ser visto como a mudança mais importante no mundo humano antes da Revolução Industrial.
A unificação mesopotâmica
Por boa parte do período entre o quarto e o segundo milênio a.C., a Mesopotâmia era um mosaico do confronto de reinos e cidades-estados como Uruk, Isin, Lagash, Ur, Nipur e Larsa. Hamurabi, o rei amorita da Babilônia, unificou a região através da combinação de astúcia, diplomacia, oportunismo, poder militar e longevidade. Como já era tradição de reis conquistadores, Hamurabi usou éditos antigos como base para suas leis, que se distinguiam das demais pelo alcance de seu império e pelo fato de estarem inscritas em placas de pedra para que ficassem registradas para sempre.
As leis de Hamurabi, e seu detalhado prelúdio revelam muito sobre a vida no hoje chamado Período Babilônico. Antigo. Elas contêm julgamentos sobre questões que iam desde a disputa por propriedades, passando pela violência contra pessoas, até a fuga de escravos e bruxaria.
O legado de Hamurabi
Apesar de parecer que as leis de Hamurabi não tinham tanto peso e quase nunca eram seguidas naquela época, e apesar do fato de seu império ter se desintegrado pouco depois de sua morte, seu reino foi um ponto de inflexão para o sul da Mesopotâmia. Ele estabeleceu de modo firme o ideal de um Estado unificado, centrado na Babilônia, e suas leis foram copiadas por escribas mesopotâmicos até pelo menos o século VI a.C. Elas mostram muitos pontos em comum e talvez tenham influenciado as leis da Bíblia hebraica, que, por sua vez, influenciou muitas sociedades atuais.
Por volta de 1264 a.C., o faraó egípcio Ramsés II (c. 1278-1237 a.C.) tinha dois majestosos templos talhados nos penhascos da margem ocidental do Nilo, no sul do Egito. A entrada era guardada por quatro grandes estátuas do faraó, sentado em glória usando os símbolos da realeza divina, incluindo a coroa dupla que significava sua autoridade sobre o Alto e o Baixo Egito. Os templos foram desenhados para significar e corporificar o status único, a ambição e o poder dos antigos faraós egípcios.
A tradição faraônica
Ramsés II herdou uma tradição já muito antiga: cerca de 1.800 anos antes, o rei Narmer (chamado Menés pelo antigo historiador grego Heródoto) foi o primeiro a unificar os reinos do Alto (sul) e do Baixo (norte) Nilo. Os feitos de Narmer foram registrados numa paleta de pedra que foi recuperada de um templo em Hieracômpolis no século XIX e mostra uma das primeiras descrições conhecidas de um rei egípcio. A paleta está inscrita com muitos dos símbolos e tradições que viriam a tipificar os faraós pelos próximos três milênios. Por exemplo, Narmer é representado segurando um inimigo pelo cabelo, a ponto de golpeá-lo, e Ramsés II era com frequência mostrado da mesma forma — o poder militar e a força sobrenatural eram distintivos da realeza egípcia. O faraó, assim como os deuses, era amiúde mostrado muito maior que os mortais comuns.
A posição geográfica do Egito — com o seu extremo contraste entre o fértil Vale do Nilo e o seu delta, que deságua ao norte no Mar Mediterrâneo, e suas cercanias de deserto inabitável — foi a responsável pela civilização e cultura únicas do reino. O faraó era visto como um deus vivo capaz de controlar a ordem do cosmo, incluindo a cheia anual do Nilo, que trazia o lodo para recuperar o solo. Os faraós também eram com frequência representados como agricultores em cenas agrárias, simbolizando seu papel como guardiões da terra.
O Velho Reino
O Velho Reino que sucedeu Narmer foi governado por uma sucessão de dinastias lideradas por poderosos faraós, que canalizaram o poder burocrático e econômico do reino unificado para monumentais projetos arquitetônicos, como a construção das pirâmides. Eles, por sua vez, estimulavam o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico, fazendo crescer o comércio com outros reinos no Oriente Próximo e no Mediterrâneo. No Velho Reino, os deuses predominantes eram Rá, o deus sol; Osíris, o deus dos mortos; e Ptá, o criador. Nos Reinos Médio e Novo subsequentes, que eram governados por famílias de Tebas, Ámon tornou-se a principal divindade. Como supremo governante, o faraó era associado aos deuses, e acreditava-se que ele era a encarnação viva de certas deidades.
O Novo Reino
No século XXIII a.C., O Velho Reino entrou em colapso. Depois daquele que ficou conhecido como o Período Intermediário, as dinastias restauraram o controle unificado do Egito de 2134 a.C. até aproximadamente 1750 a.C., quando foram invadidos pelos hicsos (prováveis semitas da Síria). Estes, por sua vez, foram expulsos do Egito cerca de 1550 a.C. com a chegada ao poder da XVIII dinastia — considerada a maior e mais importante — e o estabelecimento do Novo Reino. Nessa época, acreditava-se que a imortalidade era disponível não só aos faraós, mas também a sacerdotes, escribas e outros que tivessem riquezas para fazer oferendas, encantamentos e mumificações, e muitas tumbas foram escavadas no Vale dos Reis para receber riquíssimos bens funerários.
Sob faraós expansionistas, como Tutmés III e Ramsés II, O controle do Egito atingiu a Ásia quase até o rio Eufrates, e o Nilo acima até a Núbia. Não foi coincidência que Ramsés tivesse construído Abu Simbel na Núbia: além de representar a glória divina dos faraós egípcios em geral, o templo era um símbolo do controle de Ramsés sobre o território recém-conquistado.
Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda, nasceu no final da Era Védica (1800-600 a.C.), no sul de uma Ásia em transição. No sistema de castas do país, os sacerdotes brâmanes e a elite guerreira xátria estão no topo, e Sidarta Gautama nasceu nessa casta.
A Índia, nessa época, era um burburinho de seitas e novas ideologias, algumas das quais assumiram uma filosofia de renúncia ao mundo material. Sidarta desenvolveu uma filosofia similar baseada no hinduísmo místico, mas também rejeitou as cada vez mais rígidas estruturas do ritual védico e a piedade herdada dos brâmanes. Renunciando às posses materiais, ele buscou, e acabou encontrando, a iluminação, tornando-se o Buda. Ele pregou no nordeste da Índia e fundou o Sanga — a ordem monástica no budismo —, para dar continuidade ao seu ministério.
Pelos próximos dois ou três séculos, o budismo seguiu sendo uma entre várias seitas menores, mas, sob o imperador máuria Ashoka, o Grande, ele se tornou a religião estatal da Índia. O reino de Ashoka começou com conquistas sangrentas, mas por volta de 261 a.C. ele teve uma mudança de comportamento. A partir de então adotou um novo modelo de realeza e filosofia religiosa baseado num credo de tolerância e não violência. Expandiu o controle máuria e, usando o budismo como uma poderosa força unificadora, teve sucesso em juntar toda a Índia, exceto o extremo sul, num império de 30 milhões de pessoas.
Uma religião mundial
Tendo feito do budismo a religião estatal, Ashoka fundou mosteiros e financiou diversos estudos. Ele enviou missionários budistas para todos os cantos do subcontinente, chegando a atingir Grécia, Síria e Egito. Suas missões estabeleceram o budismo, a princípio, como uma busca da elite, mas a religião acabou se enraizando em todos os níveis da sociedade no Sri Lanka, sudeste asiático, às margens da Rota da Seda nos reinos Indo-Gregos (no atual Paquistão e Afeganistão), e mais tarde na China, Japão e Tibete. Na Índia — seu berço —, o budismo começou a perder força depois da morte de Ashoka em 232 a.C., afetado pelo ressurgimento do hinduísmo e bem mais tarde pela chegada do islã. Fora da Índia, no entanto, sua tradição e ensino floresceram, evoluindo em muitas vertentes como o zen-budismo, o budismo teravada, ou hinaiana, o budismo maaiana e o budismo vajraiana.
Primeira religião a ter ido bem além da sociedade que a originou — sendo assim uma "religião mundial" —, o budismo também é uma das mais velhas, tendo sido praticado desde o século VI a.C.
Em 1890, o historiador britânico Arthur Evans deparou com antigos selos de argila à venda em Atenas. Sua origem era a relativamente inexplorada ilha de Creta no Mediterrâneo, e para Evans eles ofereciam uma pista preciosa sobre a existência do primeiro sistema de escrita na Europa.
Seguindo os selos até sua origem em Creta, Evans decidiu escavar uma grande área de terra em Cnossos, no norte da ilha, onde encontrou um vasto complexo de palácios. A iconografia do palácio se centrava no culto ao touro, incluindo afrescos que mostravam o esporte da taurocatapsia. Evans chamou tal civilização de "minoica" em homenagem ao rei mitológico cretense Minos, que, de acordo com a lenda grega, construiu um labirinto para conter o Minotauro: uma assustadora criatura, meio homem, meio touro. No processo, Evans descobriu que os minoicos haviam de fato inventado uma forma antiga de alfabeto, à qual chamou de "Linear A".
O Período Palacial
Os minoicos eram um povo de origem desconhecida (talvez na Anatólia) que se estabeleceu em Creta na Era Neolítica, cerca de 7000 a.C. Eles cultivavam a terra, cuidavam de gado e faziam suas adorações em cavernas, no topo de montanhas ou em nascentes de rios, mas em torno de 2700 a.C. começaram a construir enormes complexos de palácios. Por volta de 1900 a.C., no que hoje é conhecido como o Período Palacial da civilização minoica, foram construídos palácios em Cnossos, Festo, Mália e Chania, todos com formas muito similares, sendo o de Cnossos o maior de todos. Este foi destruído, possivelmente por fogo ou talvez por um tsunami, cerca de 1700 a.C., sendo reconstruído logo em seguida no mesmo lugar. No seu auge, por volta de 1500 a.C., o palácio de Cnossos e a cidade que cresceu ao seu redor ocupavam 75 hectares e tinham uma população de quase 12 mil pessoas.
Todos os palácios minoicos tinham um grande corte central, cercado por muitos edifícios em forma de câmaras, e eram ricamente decorados com afrescos de flora e fauna. Em seus extensos armazéns, os governantes — que talvez também tenham desempenhado o papel duplo de reis ou rainhas sacerdotes — acumulavam muitos bens para redistribuição. Os governantes minoicos também controlavam o comércio com outras civilizações mediterrâneas da Idade do Bronze, como Biblos, na Fenícia (hoje Líbano), Ugarit, na Síria, o Egito da época dos faraós, e os assentamentos greco-micênicos nas Cíclades e além.
O desenvolvimento da escrita
Os minoicos desenvolveram sua própria forma de escrita para fins burocráticos, substituindo o registro hieroglífico, no qual desenhos representam ideias e conceitos, por um silábico, conhecido como Linear A. Por volta de 1450 a.C., Creta foi invadida pelos micênicos, que adaptaram a escrita minoica e criaram a Linear B.
Com o colapso de Creta, coube aos fenícios dar o próximo passo no desenvolvimento da escrita moderna. Por ser uma potência comercial e marítima, era essencial para a Fenícia desenvolver uma ferramenta que permitisse se comunicar e escrever em várias línguas. Nasceu assim o alfabeto, sistema em que cada símbolo corresponde não a uma sílaba, mas a uma letra.
O alfabeto fenício foi adotado pelos gregos, depois pelos romanos, e é a base do alfabeto latino usado até hoje.
Leônidas de Esparta ficou à frente de seus trezentos guerreiros, confrontando o exército mais poderoso que o mundo já vira. O emissário de seu inimigo exigiu que abandonasse as armas aos pés do rei-deus persa. "Venham pegá-las", foi a resposta lacônica de Leônidas.
As Guerras Médicas (490-449 a.C.), também conhecidas como Guerras Greco-Persas, atiçaram um vasto e cosmopolita império contra um pequeno bando de cidades-estados no sul da Grécia. O conflito influenciou profundamente o desenvolvimento da identidade e da cultura grega clássicas deixando uma trilha vívida na literatura e nos mitos ocidentais. Em contraste, a história do Império Persa Aquemênida segue razoavelmente negligenciada, ocultando a importância dessa grande civilização do Oriente Médio.
Os aquemênidas
O primeiro Império Persa, governado pela dinastia conhecida como aquemênida, cresceu rapidamente. No seu auge, talvez tenha governado metade da população mundial. Ele começou cerca de 550 a.C., quando o rei persa Ciro, o Grande, derrotou os governantes medos e avançou para conquistar a Babilônia e Lídia (hoje Turquia), o que pôs os gregos iônicos sob governo persa. Os sucessores de Ciro, Cambises п e Dário, estenderam o império até o Egito e os Bálcas, onde Trácia e Macedônia deram aos persas um pé na Europa.
Os aquemênidas estabeleceram o poder persa como um modelo para futuros impérios. A despeito de seu enorme tamanho, o Estado abraçava um grande multiculturalismo, permitindo aos povos conquistados liberdade de religião, língua e cultura. Houve investimento em infraestrutura — como os romanos, os persas construíram uma rede de estradas para ligar seu império — e em militares, além da delegação da administração às províncias locais. Sob os aquemênidas, o Oriente Médio foi unificado sob um único guarda-chuva cultural pela primeira vez.
O conflito com os gregos independentes se deu depois de as cidades-estados de Atenas e Erétria terem apoiado uma revolta malsucedida pelos iônicos contra o domínio persa em 499 a.C. Dário respondeu invadindo a Grécia continental, mas foi derrotado pelos atenienses e seus aliados em Maratona em 490 a.C. Ele planejou uma invasão ainda maior, mas foi somente depois de sua morte que seu filho Xerxes começou a arregimentar um enorme exército para executar seu plano.
Pai das mentiras
A principal fonte sobre as Guerras Greco-Persas é o historiador grego antigo Heródoto de Halicarnasso, conhecido tanto como Pai da História quanto Pai das Mentiras. Heródoto estimou que o exército terrestre de Xerxes era constituído de 1,7 milhão de mas historiadores modernos homens acreditam que o número máximo não passou de 200 mil.
A segunda invasão persa em 480 a.C. foi detida pela defesa heroica de Leônidas e seus trezentos espartanos em Termópilas e pela resistência naval em Artemisio. Tempos depois, a marinha ateniense atraiu a frota persa para uma emboscada em Salamina. Xerxes voltou à Pérsia, deixando uma enorme força para continuar a luta; mas, na Batalha de Plateias em 479 a.C., os gregos liderados pelos espartanos- esmagaram os persas, que também perderam para os espartanos em Micale. O sucesso grego talvez possa ser atribuído às dificuldades de Xerxes em manter seu vasto exército alimentado e animado após as derrotas navais, apesar de Heródoto tê-lo atribuído à superioridade moral de sua causa.
A Liga de Delos
Os gregos agora partiram para o ataque, formando a Liga de Delos para confrontar a Pérsia. Em 449 a.C., os persas finalmente aceitaram a paz, concedendo a independência para os Estados iônicos.
As Guerras Médicas reforçaram a identidade grega e melhoraram a confiança cultural e militar sobretudo de Atenas. Seu poder crescente disparou o conflito com Esparta, levando à Guerra do Peloponeso em 431-404 a.C. O Império Persa havia chegado ao limite de sua expansão, mas seguiu forte até sua derrota por Alexandre, o Grande, em 331 a.C.
O termo "democracia" vem das palavras gregas demos (povo) e kratos (poder). A democracia que se desenvolveu na antiga Atenas por volta de 507 a.C. e floresceu em sua forma mais pura entre 462 e 322 a.C., mesmo com algumas interrupções, ofereceu o modelo para aquela que se tornou a forma dominante de governo no mundo: em 2015, 125 dos 195 países do mundo eram democracias pelo voto. A democracia de Atenas, no entanto, diferia de sua forma moderna, refletindo a história de Atenas e dos estados guerreiros gregos daquela época.
Oligarcas e hoplitas
Depois do caos da Idade das Trevas Grega — um período posterior ao desmantelamento da civilização micênica cerca de 1100 a.C. que durou até quase o século IX a.C. —, a maioria das novas cidades-estados se tornou oligarquias onde os nobres poderosos monopolizavam o governo e serviam a seus próprios interesses. Em Atenas, o Areópago um conselho e tribunal feito de homens de berço aristocrático — controlava a máquina do Estado, indicando autoridades e servindo de corte civil, enquanto os da classe mais baixa (thetes) eram excluídos das decisões.
Mas o desenvolvimento do modelo "hoplita" de soldado-cidadão nos séculos VIII e VII a.C. acabou funcionando de forma disruptiva para os que estavam no poder, já que levou a certo nível de igualdade. Os hoplitas eram homens da artilharia pesada, quase todos cidadãos livres, cuja tática primária era a falange — uma formação militar na qual os soldados ficavam em pé em fileiras muito compactas e o escudo de cada soldado protegia o hoplita à sua esquerda. Qualquer homem que pudesse pagar por armas e armaduras estaria pondo sua vida em risco para defender o Estado. Como resultado, surgiu um tipo de classe média que declarava que o serviço militar deveria garantir a plena cidadania e a representação política. Ao mesmo tempo, as classes mais baixas faziam demandas, e a tensão entre elas e as ordens superiores sobre questões-chave, como reforma agrária e escravidão por dívida, ameaçava levar a uma crise social.
Sólon e Clístenes
Em Atenas, algumas dessas tensões foram dissolvidas, por volta de 594 a.C., pelas reformas do estadista Sólon. Ele implementou a lei que declarava que todos os cidadãos poderiam votar em matérias do Estado e que uma corte penal deveria admitir todos os cidadãos. Ao mesmo tempo, no entanto, fez um afago nas classes superiores ao introduzir uma oligarquia em camadas, na qual o poder correspondia à riqueza — o aristocrata controlaria os cargos mais altos, a classe média os mais baixos, e os pobres poderiam ser selecionados em lotes para servir como jurados.
No final do século VI a.C., Atenas foi dominada pelo tirano Pisístrato e seus filhos. Em resposta a isso, uma facção de aristocratas liderados por Clístenes se aliou a membros de posições inferiores na sociedade para tomar o poder. A instituição da verdadeira democracia em Atenas normalmente guarda esta data: cerca de 507 a.C. Clístenes introduziu o verdadeiro governo popular, ou democracia direta, possibilitando a todos os cidadãos de Atenas que votassem diretamente nas decisões políticas (diferente da democracia representativa contemporânea, onde o povo escolhe representantes que agem como legisladores). Ele também reorganizou os cidadãos em unidades geográficas, não em parentesco, rompendo os vínculos tradicionais que sustentavam a sociedade aristocrática ateniense, e estabeleceu o sorteio a escolha aleatória de cidadãos para posições governamentais, não mais sendo escolhidos por hereditariedade. Além disso, reestruturou a Bulé — um Conselho de Quinhentos, que redigia algumas leis e propunha outras para a assembleia dos votantes (Eclésia). Em 501 a.C., o comando dos militares foi transferido para generais eleitos pelo povo — os estrategos.
Em 462 a.C., Efialtes tornou-se líder do governo democrático em Atenas e, com seu suplente Péricles, desmantelou o conselho do Areopago transferindo seus poderes para a Bulé, a Eclésia e as cortes de cidadãos. Efialtes foi assassinado em 461 a.C. e Péricles assumiu a liderança política, tornando-se um dos mais influentes governantes na história da Grécia antiga.
Uma democracia perfeita?
Agora Atenas tinha uma genuína democracia direta, mas muitas pessoas não podiam participar do sistema, já que não eram consideradas verdadeiros cidadãos. Os direitos políticos eram restritos aos homens adultos de Atenas: mulheres, estrangeiros e escravos estavam excluídos. No século IV a.C., dos mais de 300 mil habitantes de Ática — a região da Grécia controlada por Atenas —, somente 30 mil realmente votavam. Em teoria, homens tornavam-se eleitores aos dezoito anos, mas como quase sempre tinham dois anos de serviço militar, não entravam no rol do conselho até completarem vinte anos e não atingiam plenos poderes políticos até chegarem aos trinta.
Durante a "Pentecontaetia" — as décadas entre a vitória grega na Guerra Médica (479 a.C.) e o começo da Guerra do Peloponeso (431 a.C.) — Atenas atingiu sua glória. Em 447 a.C., Péricles apropriou-se do tesouro da Liga de Delos (a confederação antipersa que havia se tornado um fantoche da hegemonia ateniense) para construir um magnífico templo (o Parthenon) no monte conhecido como Acrópole. A cidadania de Atenas era fruto de muita cobiça, e em 451 a.C. Péricles aprovou uma lei restringindo-a a homens cujos pais fossem ambos atenienses.
Um centro de filosofia
Além de ser a mais poderosa cidade-estado na Grécia antiga, Atenas também era o caldeirão de uma nova direção revolucionária na filosofia, em boa parte devido a Sócrates (c. 469-399 a.C.). Filósofos gregos anteriores, conhecidos em conjunto como pré-socráticos, introduziram sua própria revolução no pensamento humano nos séculos V e VI a.C. Eles rejeitaram explicações sobrenaturais para o mundo, o poder explanatório da mitologia e a autoridade da tradição, dispondo-se a descobrir a origem e o funcionamento do mundo natural através da razão e da observação. Os filósofos naturais pré-socráticos desenvolveram teorias sobre os elementos, a classificação da natureza e as provas matemáticas e geométricas.
Sócrates voltou seus questionamentos para questões mais humanas e subjetivas — como Cícero havia dito: "Ele trouxe a filosofia do céu para a terra". O método de Sócrates era simplesmente fazer perguntas: O que é amizade? O que é justiça? O que é conhecimento? O método socrático costumava despir os limites do pensamento existente, geralmente fazendo as pessoas parecerem tolas ou cheias de pompa. Além disso, Sócrates não era popular, e acabou sendo acusado de dois crimes por seus inimigos: corromper os jovens ao encorajá-los a enfrentar o governo e impiedade ou falta de respeito pelos deuses. Por isso foi sentenciado à morte.
Os sucessores de Sócrates
O destino de Sócrates foi tomado como um indiciamento da democracia por seus seguidores, em especial Platão (c. 428-348 a.C.), que o via como um mártir da verdade. Platão cuidava de uma escola (a Academia) e desenvolveu ideias a respeito de verdades e metafísicas universais que moldaram toda a religião e filosofia que o seguiu no mundo ocidental. Seu aluno Aristóteles (384-322 a.C.) tornou-se igualmente influente, criando a escola do Liceu e escrevendo sobre assuntos tão diversos quanto política, ética, direito e ciências naturais.
Platão se opunha à democracia, já que acreditava que as pessoas não estavam suficientemente equipadas com a graça filosófica para legislar e, se a política fosse deixada nas mãos do cidadão comum, surgiria a tirania. Na sua república ideal, filósofos iluminados governariam como reis. Ele também desafiou o princípio básico da democracia — o da liberdade (eleutheria), o qual julgava ser capaz de desviar as pessoas da adequada busca da ética, causando assim a desunião social.
A queda da democracia
Durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), na qual Atenas acabou derrotada pelos espartanos, a democracia ateniense foi suspensa por duas vezes, em 411 e 404 a.C. Os oligarcas atenienses alegaram que a fraca posição política de Atenas se devia à democracia, e lideraram uma contrarrevolução para substituir o governo democrático por uma oligarquia extrema. Em ambos os casos, o governo democrático foi restaurado em menos de um ano.
A democracia floresceu nas próximas oito décadas. No entanto, depois da conquista macedônica de Atenas sob Filipe п e seu filho Alexandre (mais tarde Alexandre, o Grande), em 322 a.C., a democracia ateniense foi abolida, sendo restaurada de forma intermitente na era helenística nos séculos e II a.C., mas a conquista da Grécia pelos romanos em 146 a.C. acabou por destruí-la.
Apesar de o governo democrático ter sido esmagado, a ciência e a filosofia ateniense sobreviveram. A fama e a influência de Platão e Aristóteles duraram pelas eras que os sucederam, e muito de suas obras continua a influenciar o pensamento ocidental até os dias atuais.
Numa das expansões militares mais rápidas e ousadas da história, Alexandre, o Grande, o jovem rei da Macedônia, nos Bálcás, deixou uma trilha gloriosa de conquistas por todo o mundo conhecido de seu tempo, pondo em ação um processo de helenização — a disseminação da cultura grega e sua fusão com as tradições orientais não gregas — que durou séculos.
O pai de Alexandre, Filipe II, transformou seu Estado periférico num formidável poder militar, e travou campanhas contra seus vizinhos que culminaram no domínio macedônico sobre toda a Grécia. Quando ele foi assassinado, em 336 a.C., Filipe havia planejado uma expedição para a Ásia Ocidental para libertar as antigas cidades-estados gregas então governadas pela maior superpotência do mundo, o Império Persa. Depois de assegurar o trono macedônico ao destruir seus rivais, Alexandre decidiu seguir a jornada de seu pai, ao mesmo tempo que satisfazia sua própria sede de glória.
Rei do mundo
Depois de forçar as outras cidades-estados gregas a aceitar sua autoridade em 334 a.C., Alexandre marchou para a Ásia Menor (atual Turquia) liderando um exército de 43 mil soldados a pé e 5.500 a cavalo. Em seu centro estava a falange macedônica, um comando bem treinado e muito coeso de 15 mil homens armados com a sarissa, uma lança de quase sete metros de comprimento. Quando articulada com a impressionante cavalaria de choque guarnecida pela guarda pessoal do rei, os heteros, a formação não permitia resistência.
Depois de uma vitória inicial contra os persas no rio Granico a noroeste, Alexandre forçou a passagem pela Ásia Menor. Parou em Górdio, no reino central da Frígia, onde a tradição rezava que quem pudesse desatar um complexo nó feito pelo fundador da cidade conquistaria todo o continente. Alexandre, de forma direta, cortou o nó com sua espada. Seguiu adiante para derrotar por duas vezes as forças muito superiores arregimentadas por Dário III, o imperador persa — em Isso (na costa sul da Ásia Menor) em 333 a.C., e em Gaugamela (hoje Iraque) em 331 a.C., subjugando o Egito ao mesmo tempo.
Tendo submetido os persas, Alexandre levou suas tropas para o leste, atravessando montanhas, desertos e rios até chegar ao Afeganistão e à Asia Central, indo além até Punjab, na Índia, esmagando impiedosamente qualquer resistência. Ele poderia ter avançado ainda mais na Índia, mas em 325 a.C. seus homens, exaustos, se recusaram a ir adiante.
O legado helenístico
Alexandre passou a ser o rei de um vasto e etnicamente diverso império que incluía setenta cidades recém-fundadas, unidas por costumes, cultura e língua gregos, ligadas por rotas comerciais. Apesar de o processo de helenização já ter começado na parte ocidental da Pérsia antes de sua expedição, Alexandre acelerou sua disseminação pelo Oriente Médio. Em 323 a.C., Alexandre morreu — muito provavelmente de doença, mas talvez por envenenamento — sem escolher um sucessor. Seu império foi fatiado por seus principais generais, mas algumas das dinastias helenísticas que eles fundaram, principalmente a Seleucida na Síria e na Babilônia, e a Ptolomaica no Egito, sobreviveram até a época dos romanos.
A China é quiçá o Estado mais coerente e duradouro na história do mundo, e até certo ponto, de forma extraordinária, isso se deve à vontade de um único homem: Qin Shi Huangdi, o Primeiro Imperador, com estilo próprio. Antes de ele ter unificado a China antiga em 221 a.C., ela era uma região de diversos Estados, com cultura, etnias e línguas próprias. Durante a era conhecida pelos historiadores chineses como Período da Primavera e do Outono (771-476 a.C.), a região estava nominalmente sob controle dos reis da dinastia Zhou, mas, na verdade, seu sistema feudal de governo implicava que apenas uma fração de autoridade era exercida pelo trono real, enquanto os senhores feudais detinham o genuíno poder sobre o que de fato eram estados autônomos. Quase 140 pequenos Estados competiam por poder e território.
O Período da Primavera e do Outono deu lugar ao Período dos Estados Combatentes (476-221 a.C.), no qual o poder foi consolidado nas mãos de sete reinos: Qi, Chu, Yan, Han, Zhao, Wei e Qin. Nesse ponto da história da China, ainda não estava certo que uma identidade chinesa mais ampla, ou um Estado chinês, surgiria. Se houvesse algo, era mais provável que as consideráveis diferenças geográficas, climáticas, culturais e étnicas entre os vários reinos fariam com que a região se desenvolvesse de forma parecida com a Europa muitos séculos mais tarde, com múltiplas entidades nacionais distintas e divergentes.
A ascensão de Qin
Em 247 a.C., um príncipe de treze anos de idade chamado Ying Zheng ascendeu ao trono de Qin. Ele herdou um Estado militarizado no qual uma burocracia eficiente, exércitos poderosos e competentes generais se uniram para produzir uma formidável e cruel máquina de guerra. Zheng fez com que seus rivais fossem executados ou exilados, escolhendo cada general e conselheiro, e conquistando cada um dos seis estados na região; assim, em 221 a.C. todos os sete Estados estavam unificados sob seu governo. Desprezando o velho título de rei (Wang), preferiu ser chamado de imperador (Huangdi). Já que ele era o primeiro (Shi) imperador da dinastia Qin, ficou conhecido como Qin Shi Huangdi.
A filosofia governante do Estado Qin tinha sido o legalismo: estrita centralização do poder e severidade na imposição e obediência à lei. O imperador passou a aplicar essa filosofia em toda a China, impondo cruelmente unidade cultural, linguistica, econômica e tecnológica. Todas as formas de escrita, exceto a Xiaozhuan (a escrita dos pequenos selos), foram banidas. Além disso, de acordo com a lenda, o imperador deu ordens para que quatrocentos estudiosos confucionistas fossem enterrados vivos e todos os livros existentes fossem queimados. Seu reino viria a marcar um novo "Primeiro Ano" na história e na cultura da China. Ele também introduziu uma série de reformas econômicas - deveria haver um simples e unificado sistema de pesos e medidas, uma uniforme cunhagem de moedas, e até a largura das estradas de carroças foi padronizada, para que o comprimento dos eixos das carroças fosse o mesmo em todo o império.
Uma nova ordem
A nova ordem social e política do império refletia as mudanças que já estavam em curso desde o Período da Primavera e do Outono. O sistema feudal foi abolido, assim as massas de servos agora deviam sua vassalagem ao Estado, em vez de aos senhores feudais ou clãs. Mais de 100 mil famílias nobres foram enviadas para a cidade que era a capital do imperador, Xianyang (perto de Xi'an, na província de Shaanxi), e suas armas foram confiscadas e derretidas e depois transformadas em estátuas gigantes. Durante o Período dos Estados Combatentes, a pressão pela competição militar sem fim favoreceu, na maioria das vezes, o surgimento de caminhos meritocráticos para a ascensão, facilitando a mobilidade social ao mesmo tempo que minava a importância de uma linhagem nobre. Na dinastia Qin, o governo aristocrático foi substituído por uma administração burocrática centralizada, e o país foi dividido em 36 comandos que eram divisões administrativas controladas por governadores escolhidos (não hereditários). Censores, ou inspetores, viajavam pelo país para garantir a obediência à lei de Qin.
A dinastia Qin também viu a emergência de um novo esquema de estratificação social, com a sociedade dividida em quatro classes: os cavalheiros (Shi), os camponeses (Nong) e duas novas classes que surgiram durante a dinastia Zhou — os artesãos (Gong) e os comerciantes (Shang). A elite educada substituiria a nobreza, tornando-se a principal fonte para cargos oficiais. A classe dos comerciantes era oficialmente a mais baixa e a mais desprezada de todas, sujeita à discriminação legal. Mas comerciantes ricos conseguiram usar sua força financeira para se tornarem importantes agentes políticos.
Grandes obras
Dentre os maiores feitos de Qin Shi Huangdi estavam seus ambiciosos projetos de construção civil, apesar de ter havido um enorme custo de vidas humanas perdidas no processo. Costuma-se creditar a ele a construção da primeira parte da Grande Muralha da China para manter as tribos nômades ao norte, conectando partes de velhas muralhas erguidas pelos Estados Combatentes, suplementadas por milhares de quilômetros da nova muralha. Outros projetos incluíam a construção do canal de Lingqu, ligando os rios Xiang e Li para que os suprimentos militares pudessem ser transportados do norte ao sul da China, e a construção de estradas militares, incluindo a "Estrada Reta", que tinha oitocentos quilômetros de extensão e ia de Xianyang até a Grande Muralha.
O mais famoso de todos os seus feitos foi a construção de seu próprio e sofisticado complexo funerário, que demorou 38 anos e precisou de 700 mil operários para ser erguido. Consistia em uma pirâmide coberta de terra para criar um enorme fosso, com cem metros de altura e quinhentos metros de largura. Dentro estava uma tumba na qual seu amado império foi recriado em miniatura, com rios e mares de mercúrio líquido. Enterrados ao redor da tumba havia enormes buracos cheios de milhares de soldados, burocratas e artistas em terracota de tamanho natural, todos incumbidos de servir o imperador no além-vida. Os trabalhadores da tumba eram mortos depois que terminavam as tarefas, para que o segredo da localização do mausoléu e de seu conteúdo morresse com eles, e a tumba não foi descoberta senão 2 mil anos depois.
Apesar dos esforços megalomaníacos do Primeiro Imperador, a dinastia Qin acabou tendo vida curta. A revolta de camponeses causada por profundos ressentimentos devidos à brutal extorsão de dinheiro e aos muitos anos de trabalhos forçados, além da bancarrota resultante de obras civis ambiciosas, combinaram para minar a cuidadosamente organizada administração do imperador e seus principais conselheiros- entre eles o mais importante foi o chanceler Li Si.
Quando o Primeiro Imperador morreu em 210 a.C., seu filho mais novo, Hu Hai, sob influência do conselheiro e ex-tutor Zhao Gao, conquistou o trono e exilou — e executou — Li Si. Hu Hai foi depois assassinado, apenas três anos após subir ao trono, e seu sucessor, Zi Ying, viu sua autoridade tão diminuída que adotou o título de rei, em vez de imperador.
A dinastia Han
A China entrou em colapso com rebeliões e agitações sociais, e, poucos dias depois da ascensão de Zi Ying, o general Han Liu Bang marchou sobre Xianyang. No ano seguinte, em 206 a.C.. ele se declarou imperador da dinastia Han, que governaria a China pelos próximos quatrocentos anos, moldando sua história subsequente de tal modo que o maior grupo étnico na China hoje é considerado Han.
Os Han expandiram o território chinês em todas as direções — a oeste para Xinjiang e Ásia Central, ao nordeste até a Manchúria e a Coreia, ao sul até Yunnan, Hainan e Vietnã. O mais importante: acabaram com o poderoso Império Xiongnu ao norte. Também reintroduziram o confucionismo como a filosofia estatal oficial: a educação e a ética confucionista rapidamente se tornaram a base da burocracia letrada, acabando por formar o alicerce do importantíssimo sistema de concursos para o serviço público que daria uma base meritocrática às instituições imperiais e combateria o poder da aristocracia nos milênios que se seguiram.
O sucesso dos Han em criar e manter uma China unificada e centralizada foi baseado nos alicerces lançados pelo Primeiro Imperador. A dinastia Han finalmente entrou em colapso em 220 d.C., em meio a convulsões sociais e desastres naturais que convenceram os chineses de que sua dinastia havia perdido o "Mandato do Céu", dando espaço para uma era caótica conhecida como o Período dos Três Reinos e das Seis Dinastias. A despeito do custo devastador desse rompimento, que fez com que a população chinesa despencasse de 54 milhões em 156 d.C. para 16 milhões em 280 d.C., o conceito de uma China unificada sobreviveu por 360 anos de divisão, permitindo à dinastia Sui reunificar a China em 581. A influência do Primeiro Imperador ainda pode ser sentida na China moderna, e o líder comunista Mao Tsé-Tung (1893-1976) buscou, de forma explícita, inspiração no imperador. "Vocês nos acusam de agirmos como Qin Shi Huangdi", bravejou Mao numa tirada em 1958 contra os críticos intelectuais. "Vocês estão errados. Nós o ultrapassamos mais de cem vezes. Quando vocês nos censuram por imitar seu despotismo, nos alegramos em concordar! O erro de vocês foi que não disseram o suficiente.
No dia 15 de março, 44 a.C., a vida de Júlio César, ditador de Roma, teve um final sangrento nas mãos de uma facção de senadores aristocráticos que estavam determinados a salvar a República Romana daquilo que viam como a tirania de César. Na verdade, a morte do ditador não salvou a república: simplesmente desencadeou a última de uma série de guerras civis que exauriram o Estado romano. Ela tornou-se indefesa para resistir à ascensão ao poder absoluto do sobrinho-neto de César, Otaviano. Assumindo o título de Augusto, ele criou um novo arranjo político, garantindo a si mesmo governar como imperador e acabando com a República Romana de quinhentos anos em tudo, menos no nome.
Origens republicanas
Desde seu começo antigo como um grupo de pequenas vilas sobre as sete colinas às margens do rio Tibre, Roma cresceu até virar uma cidade-estado, uma entre várias na península italiana. De acordo com a lenda, Roma foi primeiro governada por reis, mas em 509 a.C. a monarquia foi derrubada e se transformou numa república. Uma nova constituição permitia a eleição de dois altos oficiais, conhecidos como cônsules, para governar o Estado; mas, para prevenir o abuso de poder, seu mandato estava restrito a um ano. O cargo de rei também estava proibido, e houve uma provisão especial para a designação de um ditador para substituir os cônsules em tempos de crise — seu mandato foi limitado a seis meses.
A inexperiente República Romana se mostrou extremamente bem--sucedida: entre 500 e 300 a.C., ela cresceu em extensão e poder através da combinação de conquistas e diplomacia, até que incorporou toda a Itália. Entre 202 e 120 a.C., Roma chegou a dominar partes do norte da África, a Península Ibérica, Grécia e o que hoje é conhecido como o sul da França. Os territórios conquistados foram organizados em províncias, lideradas por governadores com mandatos curtos, responsáveis por manter a ordem e supervisionar a arrecadação de impostos.
No século 1 a.C., Roma era uma superpotência mediterrânea, mas, mesmo com uma longa tradição de governo coletivo, no qual nenhum indivíduo poderia concentrar muito controle, ela foi desafiada pelas ambições pessoais de alguns poucos militares extremamente poderosos. Uma série de guerras civis sangrentas, lutas políticas internas e insatisfação civil culminaram na ditadura de Júlio César, um brilhante general e estadista cujo assassinato pelas mãos de seus inimigos políticos levou ao fim da república e ao nascimento do Império Romano.
O desmonte da república
No período no qual Júlio César se tornou proeminente na cena política romana (cerca de 70 a.C.), Roma estava em tumulto: acossada por problemas sociais e econômicos cada vez piores e dividida por conflitos políticos. Antes, na história de Roma, a população de não escravos foi oficialmente dividida em duas classes: os patrícios (membros de uma antiga nobreza hereditária e ricos fazendeiros) e os plebeus (as pessoas comuns). Na formação da república, somente os patrícios tinham direito a ocupar uma vaga no Senado — o conselho governante e consultivo — mas em 368-367 a.C. uma emenda constitucional também permitiu a eleição de plebeus ricos, resultando num arranjo de divisão de poderes.
Mas, na verdade, um pequeno grupo de famílias patrícias conhecido como os Optimates (os "melhores homens") havia há tempos dominado o Senado e cuidadosamente mantido seus privilégios. No fim da República Romana, os que defendiam os direitos da plebe - os Populares ("homens do povo") - buscaram apoio popular contra os Optimates, fosse pelo interesse do povo ou, com mais frequência, em favo de suas próprias carreiras. Os Optimates, agindo por interesse próprio, resistiram a fazer as reformas sociais e econômicas urgentemente necessárias para satisfazer as nova carências do povo romano. Na Itália e nas províncias, um sistema desigual de taxação e governos corruptos estava causando insatisfação social, enquanto na própria cidade de Roma a infraestrutura quase não dava conta da crescente população. A rápida expansão do império trouxe uma enxurrada de trabalhadores escravos das províncias, expulsando muitos camponeses romanos e pequenos proprietários de terra dos campos em direção à cidade em busca de trabalho.
A ascensão de Júlio César
Enquanto isso, um grupo de líderes militares nas províncias de Roma começou a usar seus exércitos para ver quem alcançava a maior proeminência política. Entre eles estava Júlio César, um general muito inteligente e ambicioso vindo de uma família patrícia que havia se aliado aos Populares e subido alguns degraus políticos. César estava focado em fazer as reformas necessárias para satisfazer os desafios da república, por isso se colocou numa posição que lhe permitiria atingir tal meta.
Em 60 a.C., César tornou-se cônsul, e dois anos depois foi escolhido governador da província da Gália, um cargo que lhe permitia continuar a par dos acontecimentos no Senado, ao mesmo tempo que lhe oferecia um trampolim para a glória militar. Numa série de hábeis campanhas durante os oito anos seguintes, conquistou a Gália, abarcando tudo o que hoje é a França, além de partes da Alemanha e da Bélgica, em seu poder. Ele também liderou duas expedições até a Inglaterra, em 55 e 54 a.C. Os ganhos com tais campanhas militares heroicas deixaram César muitíssimo rico e aumentaram seu prestígio pessoal. Ele desfrutava da lealdade de seus exércitos e do amor das massas de Roma e baseado neles agora podia oferecer extravagantes banquetes, além de bancar jogos com o dinheiro.
Encorajado por seus feitos, César tentou ditar os termos pelos quais voltaria à política romana, exigindo que lhe fosse permitido ser cônsul pela segunda vez enquanto manteria seu comando na Gália. Isso o colocou numa rota de colisão com os Optimates no Senado, já que a lei romana exigia que os líderes militares abrissem mão do controle de seus exércitos antes de entrarem em Roma, um pré-requisito para concorrer a um cargo. César sabia que, se concordasse em entrar na cidade como um cidadão civil, sem seus exércitos, seus oponentes políticos muito provavelmente iriam tentar julgá-lo por abuso de poder durante o seu primeiro consulado.
Em Roma, os Optimates, alarmados com as implicações da ascensão meteórica de César, aliaram-se a um dos seus maiores rivais políticos, o famoso general Pompeu. O Senado aprovou leis visando remover César do comando quando voltasse de Gália, e em 49 a.C. eles o declararam hostis, ou seja, um inimigo público. Em resposta a essa ameaça direta, César fez o impensável: marchou com seus exércitos para Roma. A caminho, parou na fronteira entre as províncias gálicas e a Itália, às margens de um pequeno rio chamado Rubicão. César sabia muito bem que atravessar o rio seria considerado uma declaração de guerra contra o Senado, mas, citando o poeta ateniense Menandro, anunciou: Alea jacta est ("a sorte está lançada") e avançou com seus homens.
A nova ordem de César
Na guerra civil que se seguiu, César finalmente triunfou sobre as forças de Pompeu na Batalha de Farsalos, no norte da Grécia, em 48 a.C. O derrotado Pompeu buscou abrigo no Egito, onde acabou sendo assassinado. Depois de esmagar os bolsões de resistência que ainda sobravam, César por fim voltou a Roma em 45 a.C. para consolidar sua posição política. Em 46 a.C., aceitou ser ditador por dez anos. Dois anos depois, recebeu esse cargo de forma vitalícia. Agora numa posição de começar a monumental tarefa de reconstruir o Estado romano e restaurar a estabilidade do império, César deu início a amplas reformas sociais e políticas. Estendeu a cidadania romana; aumentou o Senado ao trazer aliados vindos da aristocracia provincial; estabeleceu colônias fora da Itália para ajudar a disseminar a cultura romana e unificar todo o império; gastou enormes quantias em grandiosas obras públicas e monumentos; cortou impostos; e até mesmo reformou o calendário romano, introduzindo o sistema de anos bissextos que é usado até hoje.
Um assassinato planejado
As soluções pragmáticas de César para restabelecer a unidade no império depois de anos de caos tiveram uma resposta favorável pela maior parte da sociedade, ainda que, ao mesmo tempo, sua atitude cada vez mais autocrática em relação ao poder estivesse alienando outros membros da classe dominante. Eles sentiam que César estava tentando destruir as respeitadas tradições do Estado romano, além de minar o prestígio da nobreza e espalhar o rumor de que estava planejando fazer de si mesmo rei. Infelizmente, César foi incapaz de desfazer as suspeitas. Ele aceitou honras sem precedentes, como assumir o título "Imperator" ("Victorious General") como nome de família. Também permitiu que fossem erguidos templos e estátuas em sua honra e cunhou moedas com sua imagem. Quando adotou seu sobrinho-neto Otaviano, temia-se que estivesse tentando criar uma linha de sucessão dinástica. Alguns membros do Senado concluíram que a única solução para o problema seria assassinar César, e logo conspiraram para que assim o fosse. Representando aqueles que se opunham às reformas do ditador — e o principal agente no plano de matá-lo, Caio Cássio Longino era um general que havia alcançado importância política durante a grande e desastrosa campanha na Pérsia. Antigos historiadores romanos argumentaram que o envolvimento de Cássio se deu por uma combinação de inveja e cobiça. Também se diz que foi ele quem recrutou o mais importante conspirador, Marco Júnio Bruto, um confiável colega e confidente de César, que se opunha às supostas ambições monárquicas do ditador.
A morte de um ditador
O plano do assassinato cresceu rapidamente, chegando a incluir sessenta senadores, entre os quais vários colegas próximos de César. Os conspiradores decidiram atacar numa reunião do Senado que havia sido marcada para o dia 15 de março (os Idos de Março). Naquele dia, se reuniram na casa de Cássio, com cada senador escondendo uma adaga debaixo de suas vestes, antes de irem para o Teatro de Pompeu - parte de um grande complexo cívico que o velho rival de César havia construído -, onde o Senado se reuniria. Um grupo de gladiadores estava a postos no próprio teatro para controlar qualquer problema com as multidões. Mas muitos dos conspiradores estavam nervosos e prontos para fugir, convencidos de que o plano havia sido descoberto.
César, de fato, havia sido alertado: uma lista de conspiradores chegou a suas mãos, mas ele a ignorou. Sua esposa implorou para que ele não fosse à reunião do Senado, mas um dos conspiradores, infiltrado na casa de César, ajudou a acalmá-la. Quando César chegou à reunião, um conspirador distraiu seu assistente, Marco Antônio, atrasando-o fora do teatro. Depois que César se sentou, os conspiradores sacaram suas adagas e atacaram, esfaqueando-o 23 vezes. Numa reviravolta irônica, César deu seu último suspiro apoiado na base da estátua de seu velho rival Pompeu.
O Segundo Triunvirato
Tomados por um fervor maníaco, os conspiradores molharam suas mãos no sangue de César e correram até o Fórum para proclamar seu tiranicídio. No vácuo de poder que se seguiu, Marco Antônio e o herdeiro de César, Otaviano, rapidamente assumiram o controle do Estado formando, em 43 a.C., um triunvirato (um grupo de três homens dividindo o poder) juntamente com Lépido, um dos antigos aliados de César.
Precisando juntar fundos suficientes para estabilizar sua autoridade e para remover a oposição política, o triunvirato preparou uma lista daqueles que apoiaram os assassinos de César e os declarou culpados. Por volta de duzentos senadores e mais de 2 mil équites ("cavaleiros", ou baixa nobreza) foram mortos ou tiveram seus bens confiscados. Com os cofres do tesouro cheios, o triunvirato caçou e destruiu Bruto e Cássio. Em 40 a.C., o triunvirato se reuniu novamente, agora para dividir o mundo romano. A África foi dada a Lépido, o Oriente a Marco Antônio e o Ocidente a Otaviano. Mas não demorou muito para que Otaviano entrasse em guerra com Marco Antônio no norte da África e, depois de derrotar suas forças em Áccio, no oeste da Grécia em 31 a.C., Otaviano se tornou o senhor do mundo romano.
O primeiro imperador de Roma
Otaviano voltou a Roma em 28 a.C. e, em vez de seguir o exemplo de César, renunciou aos poderes ditatoriais a ele concedidos para declarar guerra a Marco Antônio. Em 27 a.C., em gratidão por seus serviços a Roma, o Senado lhe outorgou o nome de Augusto ("personagem reverenciado") em uma série de poderes legais. Por fim, com destreza política, tornou-se o único governante de Roma, controlando todos os aspectos do Estado romano e comandando seu exército.
Um imperador em tudo, menos no nome (ele foi cuidadoso em evitar títulos, chamando a si mesmo de princeps, ou "primeiro cidadão"), nos quarenta anos seguintes Augusto se prontificou a transformar as ruínas do sistema republicano numa autocracia imperial, ao mesmo tempo que mantinha a ilusão de que a sua autoridade dependia da vontade do povo. De forma imprecisa, estabeleceu os limites do império, aprovou reformas para sanear tanto a vida privada quanto pública e esmagou seus opositores. Depois de longos períodos de exaustiva guerra civil, muitos no império estavam gratos pela paz.
A Pax Romana
De fato, o poder dos militares romanos e as consequentes melhoras na segurança e na estabilidade em todo um vasto território, naquilo que ficou conhecido como a Pax Romana ("Paz Romana"), levaram ao crescimento do comércio, da atividade econômica, da população e da prosperidade geral. As artes e a cultura floresceram, houve uma proliferação de construções públicas e privadas, e as províncias fora da Itália passaram por um processo de romanização no qual língua, cultura, leis e instituições romanas foram introduzidas em várias sociedades através de diversas fronteiras étnicas. Os provinciais até receberam a plena cidadania romana depois de um período de serviço militar.
Mas, para as regiões além dos limites do império, a Pax Romana de Augusto quase sempre queria dizer o seu oposto. Mesmo depois de reduzir o exército de oitenta legiões para apenas 28, Augusto ainda teve de encontrar emprego para 150 mil soldados. Ele lançou uma série de campanhas para estender as fronteiras, suprimir ou restringir rebeldes e "bárbaros" e conquistar escravos a partir das terras dominadas.
Um legado imperial
Ao final de sua vida, em 14 d.C., Augusto havia estabelecido um novo sistema imperial que duraria séculos. Alguns anos antes de sua morte, ele preparou o caminho para que um herdeiro o sucedesse e manteve o controle do Estado. Seu enteado, Tibério, foi aos poucos recebendo poderes até que pudesse ser efetivamente considerado um coimperador. Isso suavizou a transferência de autoridade com a morte de Augusto, evitando um vácuo de poder e garantindo a continuidade.
Augusto estabeleceu, assim, o princípio da sucessão direta e garantiu a sobrevivência do cargo de imperador. O sistema continuou por múltiplas dinastias, com o império atingindo seu ápice sob a dinastia nerva-antonina, quando o imperador Adriano ordenou a construção de um muro no norte da Britânia para marcar o limite do império.
A transição de república para monarquia, apesar de drástica, deu a Roma uma nova estabilidade. Mascarado de democrata, Augusto criou um novo sistema autocrático de governo que, a despeito de restringir a participação política, era muito mais capaz de resistir aos levantes compulsivos que haviam infestado a República Romana uma geração atrás.
Em outubro de 312 d.C., o imperador Constantino I estava acampado na ponte Mílvia perto de Roma, esperando o confronto com Magêncio, seu rival, pelo controle do Império Romano do Ocidente (em 285, o império foi dividido em dois, o do Ocidente e o do Oriente, cada um deles governado por um imperador e um substituto). A tradição diz que, nos dias que antecederam o encontro, Constantino teve uma visão de uma cruz flamejante no céu contendo a inscrição in hoc signo vinces ("com este sinal vencerás"). Isso o convenceu de que tinha o apoio do deus dos cristãos, e essa crença foi mantida quando seu exército se pôs em marcha para derrotar os homens de Magêncio. Na verdade, o deus cristão não foi a primeira deidade ouvida por Constantino. Uma versão anterior dessa visão envolvia o deus greco-romano Apolo. Parece que ele estava buscando um apoio teológico para legitimar sua ambição de se tornar o único imperador, e um ser supremo monoteísta talvez tenha lhe parecido uma boa opção: uma imagem espelhada no céu de sua própria posição na Terra.
A despeito da lenda de sua visão divina, a conversão de Constantino ao cristianismo parece ter sido gradual, e não imediata — ele só foi batizado muitos anos depois, em seu leito de morte. Mas, logo após sua vitória na Ponte Milvia, começou o processo de reabilitação e, em seguida, de exaltação do cristianismo. Em 331 d.C., ele publicou o Édito de Milão, uma proclamação que estabelecia tolerância religiosa para o cristianismo dentro do império.
Um império de muitas crenças
Por quase trezentos anos após a vida de Jesus Cristo, a religião baseada em seus ensinamentos seguiu sendo uma seita menor dentro do Império Romano, praticada junto com muitas outras, tanto mono como politeístas. Mas alguns aspectos do cristianismo, como sua natureza igualitária, fizeram dele algo suspeito para as autoridades imperiais, e os cristãos eram perseguidos de tempos em tempos.
Por todo o mundo antigo dessa época, condições sociais, políticas e econômicas em transformação tinham reflexo em mudanças culturais e religiosas. O cristianismo era apenas um entre vários monoteísmos ganhando popularidade no Império Romano, incluindo a seita persa do mitraísmo, com o qual ele tinha muito em comum.
A ascensão do cristianismo
Em 324, depois de se livrar do imperador do Oriente, Constantino se tornou o único governante do Império Romano e buscou usar o cristianismo como a força unificadora de seu domínio tão diverso e fracionado. Para tornar a cada vez mais dominante metade oriental fácil de governar, ele fundou uma nova cidade chamada Constantinopla (hoje Istambul), consagrando-a tanto com rituais cristãos quanto pagãos, mas permitindo apenas a construção de igrejas cristãs. Apesar de ainda demorar um tempo para que todos os cidadãos romanos se convertessem ao cristianismo, no reino de Constantino as camadas mais altas da sociedade, buscando avanço político e favores pessoais do imperador, se voltaram em bloco para a Igreja, e o imperador construiu basílicas por todo o império.
O cristianismo, no entanto, não era uma religião única e uniforme naquela época, havendo divisões, ou cismas. Em 325, Constantino convocou o Concilio de Niceia — o primeiro concílio universal da Igreja cristã — sobretudo para resolver o cisma ariano, uma disputa teológica sobre se Jesus era da mesma substância de Deus.
Roma é cristianizada
Em meados dos anos 300, o imperador Juliano, seguidor da velha religião, tentou reviver o paganismo, mas era tarde demais: os cristãos haviam se tornado maioria, pelo menos no Oriente. A fé foi ficando cada vez mais vinculada ao império, uma vez que o Estado romano adotou e moldou a Igreja num instrumento de controle, unidade e estabilidade, tanto social quanto político.
Sob o imperador Teodósio 1 (que reinou entre 379-395), os templos e cultos pagãos foram suprimidos, a heresia virou crime e o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano. Por fim, também se tornou a fé dos estados sucessores bárbaros no Império Romano do Ocidente, bem como do Império Bizantino no Oriente. No curso de muitos séculos, as Igrejas ocidental (católica) e oriental (ortodoxa) se afastaram em doutrina e organização, mas o cristianismo perdurou.
Em 410 d.C., Roma caiu sob um exército de povos germânicos nômades — os visigodos — que pilharam a cidade em três dias. Apesar de Roma já ter deixado de ser a capital do Império Romano do Ocidente e a destruição ter sido relativamente contida, o saque enviou ondas de choque por todo o mundo. Mudanças conhecidas como o Período das Migrações, ou as Invasões Bárbaras, estavam em curso com grandes movimentos de povos por toda a Eurásia, da China até a Grã-Bretanha. Os povos bárbaros começaram a invadir impérios estabelecidos como os de Roma e da China desde aproximadamente 300 até 650. Eles criaram novos reinos, os quais em muitos casos deram origem às 7 nações da era moderna. Mudanças climáticas na Ásia Central levaram tribo nômades das estepes a buscar, a cavalo, novas pastagens, o que por sua vez forçou seus vizinhos nômades a invadir os impérios chamados civilizados. A China foi devastada pelos Xiongnu, a Pérsia pelos Heftalitas e a Índia pelos Unos Brancos.
Bárbaros à porta
Na Europa, a chegada dos unos às terras a leste do Reno e ao norte do Danúbio deslocaram tribos germânicas que viviam há longo tempo num delicado equilíbrio com o Império Romano. Os visigodos entraram em terras romanas, atacando por fim Roma em 410, enquanto outras tribos, incluindo os vândalos, suevos, alanos, francos, burgúndios e alamanos, invadiram e assentaram território da Gália até a Espanha e o norte da África. Nos anos 440, os unos, sob Átila, devastaram a Europa Oriental antes de serem derrotados por uma coalizão de romanos e germânicos. O Império Romano do Ocidente encolheu a ponto de incluir pouco mais da própria Itália, com seus imperadores fantoches controlados por generais bárbaros. Em 476, o último imperador nominal foi deposto por um desses generais, Odoacro, marcando o fim do Império Romano no Ocidente. O Império Ocidental, no entanto, já estava em decadência desde pelo menos o século III. Sua população e sua economia haviam encolhido, fazendo com que ficasse cada vez mais dependente financeiramente do Império Oriental. O enfraquecimento da autoridade central deu maior autonomia às províncias. Os militares, obrigados a recrutar cada vez mais pessoas das tribos bárbaras, estavam perdendo sua principal força. Na verdade, as Invasões Bárbaras foram muito provavelmente parte de um processo: uma transição, e não uma queda. Os costumes, a cultura, a língua e, especialmente, a religião romana na forma do cristianismo perduraram por todas as províncias, e muitos da nova elite governante viam a si mesmos como continuadores da tradição romana. A própria cidade sobreviveu ao saque de Alarico e seus visigodos, e dos vândalos em 455, e floresceu sob Teodorico, o ostrogodo (489-526).
Por sua vez, os Estados que se sucederam, formados pelas tribos germânicas, nos próximos séculos se viram, por fim, sob ataque de novas ondas de invasores, como os magiares e os vikings.
Em 9 de dezembro de 536 d.C., o exército do Império (Bizantino) Romano do Oriente, liderado pelo general Belisário, entrou na cidade de Roma pela antiga Porta Asinária. A chegada dos bizantinos forçou a rápida saída dos então defensores da cidade, os bárbaros ostrogodos, que fugiram para o norte pela Porta Flamínia. Quase exatos sessenta anos depois que as mãos imperiais perderam Roma, parecia que o berço do antigo império poderia ser devolvido ao domínio romano.
A sobrevivência de Bizâncio
Enquanto o Império Romano do Ocidente finalmente caiu em 476, depois de um século de invasões bárbaras, a porção oriental — o Império Bizantino, com sua capital em Constantinopla (hoje Istambul) — superou a tormenta e, com a retenção de ricas províncias como o Egito montou uma bem-sucedida defesa de seu território. No entanto, a perda do berço do império foi um golpe para o prestígio dos imperadores bizantinos, que se recusaram a aceitá-la. Em 488, imperador Zeno despachou uma tribo de mercenários germânicos bárbaros. os ostrogodos, para que derrubassem outra tribo, liderada por Odoacro, responsável pela deposição do último imperador romano do Ocidente. Em troca, os ostrogodos poderiam governar a Itália como súditos do imperador bizantino. Além disso, os godos estavam se infiltrando em terras imperais, de forma que Zeno esperava que sua mudança para a Itália neutralizasse ambos os problemas.
A Guerra Gótica
Pelos quarenta anos seguintes, o domínio dos godos sobre a Itália seguiu inquestionado. No entanto, a ascensão de Justiniano (c. 482-565) como imperador bizantino em 527 mudou as coisas. Ele estava determinado a restaurar a dignidade romana, e isso queria dizer reconquistar as províncias romanas perdidas. E começou seu intento em 533, ao despachar um exército para o norte da África liderado por Belisário, que rapidamente derrotou os vândalos (um povo germânico cujo domínio da região havia começado nos anos 430).
Orgulhoso do seu sucesso, Justiniano ordenou uma invasão da Itália em 535. O exército de Belisário progrediu veloz e, em 536, teve sucesso em reconquistar Roma. A euforia bizantina com a reconquista de sua antiga capital foi, no entanto, desfeita quando o rei godo Vitige contra-atacou e sujeitou Roma a um cerco esmagador que durou mais de um ano.
Empate na Itália
Belisario lançou um novo ataque, mas foi chamado de volta depois que Justiniano começou a temer que ele se estabelecesse como um rei independente na Itália. O país passou de um lado para o outro, já que a guerra na Itália se arrastou por quase vinte anos.
Por duas vezes os godos retomaram Roma, mas sem recursos para mantê-la a perderam duas vezes para os romanos. Por fim, o último grande exército godo foi derrotado em 552.
O impacto da guerra
Apesar de os bizantinos terem vencido a guerra, a vitória foi vă. A Itália foi devastada as cidades perderam a maior parte de sua população, e a economia rural estava em frangalhos. A classe dominante que falava latim descobriu que os que falavam grego em Constantinopla ficaram com os principais cargos. Roma foi tratada como um posto avançado do Império Bizantino, frustrando a ideia de que a cidade poderia ser restaurada como centro do poder imperial.
Os efeitos da guerra, junto com uma peste que matou um terço dos habitantes do império em 542, dificultaram o recrutamento de tropas que pudessem proteger a Itália. A nova província quase não pagava tributos e se tornou um grande dreno financeiro. O otimismo com a captura de Roma deu lugar a uma profunda tristeza — um sentimento confirmado quando, em 568, os lombardos, outro grupo bárbaro, invadiram a Itália e tomaram boa parte das terras bizantinas no norte e no centro do Estado.
Apesar de o Império Bizantino ter sobrevivido por mais nove séculos, nunca mais pode tentar restaurar o Império Romano no Ocidente. Em vez disso, focou em defender seu centro de fala grega no Oriente, deixando os reinos germânicos na Itália, França e Espanha se desenvolver livremente.
Por volta de 610, numa caverna nas colinas ao norte da cidade de Meca, na Arábia central, Maomé — um homem de quarenta anos vindo de uma família de mercadores —declarou ter recebido uma mensagem divina através do anjo Gabriel. Depois, recebeu revelações parecidas nos meses e anos seguintes, o que levou à fundação de uma nova religião monoteísta, o islã. Em vinte anos esse credo veio a dominar a Península Arábica, e um século depois seus seguidores destroçaram os impérios bizantino e persa, criando um Estado que ia da Espanha, no Ocidente, até a Ásia central, no Oriente.
A Arábia antes do islã
A partir do primeiro milênio a.C., houve sofisticados reinos no sul da Arábia que aumentaram sua riqueza com o comércio de especiarias. Nos primeiros anos, as rotas de comércio seguiam a costa noroeste, mas em torno do século VII isso diminuíra, já que os mercadores passaram a usar cada vez mais a rota marítima pelo Mar Vermelho, deixando muitos lugares que outrora foram relativamente prósperos em decadência. Havia algumas cidades espalhadas, como Medina (então chamada de Yathrib) e Meca, que dependiam mais do comércio local de lã e couro, junto com algumas poucas importações de grãos e óleo de oliva. As regiões centrais do deserto da Península Arábica eram muito pobres: as tribos beduínas seguiam um estilo nômade, e a concorrência por recursos escassos moldou uma sociedade na qual a primeira lealdade era para um grupo de parentes, ou tribo.
No tempo de Maomé, a Arábia estava num estado de agitação religiosa e política. Fortes comunidades judaicas haviam se estabelecido no Iêmen ao sul e nas cidades oásis ao noroeste, como Medina, enquanto o cristianismo ganhava terreno no Iêmen e no leste da Arábia. Apesar de as crenças monoteístas terem conseguido entrar em áreas do tradicional paganismo politeísta dos beduínos árabes, o paganismo seguia forte. Também era comum o conflito entre tribos, e, em Meca, no espaço sagrado conhecido como haram, houve uma trégua para que homens de diferentes tribos pudessem negociar livremente, sem violência.
Maomé em Meca
O haram de Meca era controlado pelo poderoso clã coraixita, do qual fazia parte Maomé. A rejeição do paganismo por Maomé e sua ousada proclamação de que havia um único Deus e que seus seguidores deveriam seguir um conjunto prescrito de observâncias religiosas - incluindo a oração cinco vezes ao dia e o jejum durante o Ramada - dividiram seus seguidores. Sua pregação de uma única comunidade religiosa que ultrapassasse os limites sociais foi recebida como uma ameaça pelos líderes tradicionais, que sentiram que a fonte de sua autoridade fora minada.
A fuga para Medina
Por volta de 622, a atmosfera em Meca ficou tão tensa que Maomé e o seu punhado de seguidores fugiram para o norte em direção a Medina — um evento chamado de hégira (que quer dizer emigração) que acabou marcando a verdadeira fundação da comunidade islâmica. Os medinenses, que não gostavam do poder dos coraixitas de Meca, simpatizaram com a causa de Maomé e lhe permitiram pregar livremente, dando-lhe a oportunidade de atrair mais convertidos.
Os coraixitas não estavam contentes em ver a base de poder de Maomé crescer em Meca, e em dois anos estourou o conflito entre os poderes de lá e os apoiadores de Maomé. O novo líder conseguiu se esquivar dos coraixitas atacando primeiro suas caravanas, derrotando-os na batalha de 627 e, por fim, negociando o direito de voltar a Meca em peregrinação em 629. Ao morrer em 632, Maomé já havia se restabelecido em Meca, e seu sucesso diplomático e militar em atrair outras tribos para sua causa tornou suas posições inexpugnáveis. Conforme sua autoridade se espalhava, cresciam o alcance de sua mensagem religiosa e o número dos novos convertidos muçulmanos. Depois da morte-de Maomé, o islã entrou em crise, e a nova religião poderia ter sido facilmente esmagada. Tribos do leste se separavam da comunidade religiosa muçulmana (a umma) e declararam obediência ao seu próprio profeta, enquanto as de Medina não estavam felizes com a dominância dos de Meca no movimento. A escolha de Abu Bakr, sogro de Maomé, como califa (sucessor) sinalizou que a liderança continuaria com a família do profeta, e isso, junto com uma série de campanhas militares bem-sucedidas contra os desafetos, permitiu a sobrevivência da umma.
Conquistas além da Arábia
Tendo assegurado sua posição, os sucessores de Maomé, em especial Omar (634-44), deram início a campanhas de conquista em áreas mais distantes. Eles tiveram sorte com as profundas mudanças que se deram nos limites do norte da Arábia. Entre 602 e 628, os dois impérios mais antigos da área - os bizantinos a noroeste e os persas sassânidas a nordeste estavam envolvidos numa longa e terrível guerra que acabou em catástrofe para os dois. Seus cofres estavam vazios pelos custos do conflito, e algumas regiões de seus territórios haviam sido totalmente devastadas. Ambos também dependiam dos árabes para defender suas fronteiras, e pequenos e semi-independentes Estados árabes surgiram na periferia dos dois impérios.
Rápida derrota
Os exércitos árabes que varreram as regiões ao norte nos anos 630 encontraram uma resistência bem menor da que teriam meio século antes. As províncias caíam facilmente, já que as guarnições enfraquecidas e a questionável lealdade dos cidadãos minaram a resistência. Apesar de relativamente menor em número e com armas mais leves, os exércitos árabes eram muito ágeis e não precisavam defender posições fixas, o que lhes deu uma enorme vantagem sobre seus oponentes. Quando derrotaram os bizantinos em Yarmuk em 636, toda a estrutura de controle imperial na Palestina e na Síria caiu por terra. No caso da Pérsia, custou aos generais árabes só nove anos para desmembrar o Império Sassânida.
A sociedade islâmica
As terras recém-conquistadas se tornaram parte de um califado islâmico. Muitos dos seus habitantes se converteram, ao passo que os que não o fizeram eram tolerados, caso fossem cristãos, judeus ou zoroastristas, desde que pagassem um imposto especial. O islä transformou as terras que absorveu de diversas formas. Ao mesmo tempo que varria as velhas estruturas imperiais, ofereceu um novo senso de comunidade religiosa, quase sempre unindo os conquistadores com os conquistados. Estudiosos islâmicos ressuscitaram as obras de filósofos e cientistas gregos esquecidas havia séculos, traduzindo-as para o árabe. Lindas mesquitas começaram a embelezar as cidades. As áreas que haviam sido marginalizadas sob os impérios bizantino e sassânida agora se viam no centro de uma nova e vibrante civilização.
O sucesso, no entanto, trouxe seus próprios problemas para o islã. A anexação de terras muito mais urbanizadas que a Arábia implicava que os califas tinham de se adaptar, de chefes guerreiros comandando um grupo de seguidores coeso, a monarcas governando enormes áreas com economias e sociedades complexas. Além disso, os muçulmanos eram minoria, a princípio, e ainda não plenamente unidos.
Divisões crescentes
As tensões sobre a sucessão do califado resultaram num grande cisma no islã. Uma disputa entre Ali, genro de Maomé, e Muawiya, o governador da Síria, levou a uma guerra civil que terminou com o assassinato de Ali e Muawiya assumindo o controle do califado em 661. Enquanto os descendentes de Muawiya (os omíadas) governavam a cidade síria de Damasco, os seguidores de Ali se opuseram à sua autoridade, alegando que o califa deveria ser escolhido entre os descendentes de Ali. Após o assassinato do filho de Ali, Husayn, em Karbala em 680, a divisão entre o xiismo (aqueles que apoiavam o direito dos descendentes de Ali ao califado) e o mais dominante sunismo (que rejeitava isso) se tornou definitiva - uma divisão que continua até hoje.
A unidade islâmica também se partiu em outros aspectos. Governar um império tão vasto era quase impossível quando mensagens dos extremos Oriente e Ocidente poderiam demorar meses até chegarem à corte do califa. Dinastias muçulmanas independentes surgiram em áreas periféricas, e califas rivais apareceram no século X na Espanha, Tunísia e Egito. Apesar de a unidade política ter se esfacelado e a unidade religiosa ser comprometida, o credo de Maomé foi tão popular e bem-sucedido que no século XXI havia quase 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo.
No Natal de 800, um extraordinário evento aconteceu na Basílica de São Pedro em Roma. O papa Leão III coroou o rei franco Carlos Magno com a diadema real, coroando o primeiro imperador no Ocidente em três séculos. A coroa imperial fez de Carlos Magno e seus sucessores os rivais seculares da argumentação papal (como líder espiritual da igreja), com posição de autoridade sobre os governantes ocidentais. Em seu devido tempo, o império de Carlos Magno (que mais tarde ficou conhecido como Sacro Império Romano-Germânico) expandiu-se e cobriu uma vasta área, estabelecendo os alicerces para alguns dos futuros estados-nações da Europa Ocidental.
Novos governantes
Na metade do século antes de o Império Romano do Ocidente finalmente entrar em colapso, em 476 d.C., a maioria das suas províncias foi invadida por tribos bárbaras que estabeleceram pequenos reinos em seu antigo território. A princípio, os imperadores romanos do Oriente não reconheceram a legitimidade do direito desses novos reis de governar em territórios nominalmente romanos. Mas, conforme os novos reinos, sobretudo o dos francos, ficaram mais fortes e unificados, o reconhecimento romano oriental deixou de ter importância.
De reino a império
Carlos Magno, que ascendeu ao trono franco em 768, expandiu muito seus domínios com o tempo, conquistando o norte da Itália e a Saxônia, ganhando algumas áreas dos árabes no norte da Espanha e tomando os territórios avares no Danúbio. Ele fortaleceu a administração franca, estabelecendo uma rede de missi domenici — agentes reais que impunham sua vontade nas províncias. Pela primeira vez em séculos, um poderoso governante controlava a maior parte das terras que formavam o Império Romano do Ocidente, transformando-as numa única entidade política. Em contraste, o papado passou por maus bocados no século VIII, envolto em pequenas disputas políticas, com várias famílias nobres romanas buscando assegurar posições na hierarquia eclesiástica. Depois de Leão ter sido atacado em Roma em 799, ele fugiu pelos Alpes para pedir socorro a Carlos Magno, convidando-o para que trouxesse ordem à Itália e restaurasse o status da Igreja. Um ano depois, Leão coroou Carlos Magno, criando um imperador a um só tempo ocidental e oriental.
A Renascença carolíngia
Carlos Magno avançou com seu programa de reformas, publicando um édito em 802 que exigia um juramento de lealdade e estabelecendo as obrigações de seus vassalos. Também convidou reconhecidos estudiosos à sua corte e encorajou as disciplinas acadêmicas que definharam desde o colapso do Império Romano, incluindo gramática, retórica e astronomia. Música, literatura, arte e arquitetura também floresceram durante o seu reinado.
Depois de sua morte, houve divisão por toda parte. O costume franco de dividir o reino entre vários herdeiros enfraqueceu a autoridade central e levou a guerras civis, permitindo a emergência de poderosos senhores de terras que, com frequência, desafiavam a autoridade real. Por fim, o império se partiu em duas grandes porções, muito parecidas com a França e a Alemanha de hoje. O título de imperador passou para os descendentes diretos de Carlos Magno e daí, a partir do século X, para príncipes germânicos que eram parentes mais distantes. Assim, como Sacro Império Romano-Germânico, ele sobreviveu até o começo do século XIX.
Em 618, a dinastia Tang sucedeu à Sui como governantes da China, desencadeando uma das mais deslumbrantes eras na história do país. Os primeiros imperadores Tang dirigiram campanhas militares que expandiram as fronteiras da China até o interior da Ásia Central, e estabeleceram um governo centralizado com uma burocracia extremamente competente para administrar o império. Os governantes seguintes governaram por longos períodos de paz, relativa estabilidade política e crescimento econômico que dispararam uma renascença cultural e artística, bem como inovações tecnológicas.
Mas, em 755, essa era de ouro foi violentamente interrompida por An Lushan, um descontente general do exército que liderou uma rebelião interna contra os Tang que levou o norte da China a afundar numa guerra devastadora, depois da qual a dinastia nunca mais conseguiu obter o controle do país.
As sementes da rebelião
Sob Xuanzong (712-756), a dinastia Tang alcançou o auge do poder e prestígio, mas vários problemas econômicos, sociais e políticos ameaçavam a sua estabilidade.
Primeiro, o Estado se esforçava por arrecadar impostos suficientes para financiar um grande aumento nas despesas militares. O fu-bing, sistema de milícias nacionais barato e autossustentável no qual os soldados trabalhavam na terra enquanto não eram requisitados para o serviço militar ativo, se mostrou inadequado ante as repetidas invasões por grupos vizinhos. Xuanzong foi forçado a estabelecer províncias militares por toda a fronteira norte da China, administradas por governadores locais que comandavam enormes exércitos e acabaram adquirindo considerável poder e autonomia.
Os cofres de Tang ficaram ainda mais vazios por causa do fracasso do sistema de "campos iguais", um programa de distribuição de terras e arrecadação de impostos que protegia os pequenos agricultores das apropriações de poderosos senhores de terras ao realocar, de vez em quando, as terras para eles. Esse fracasso gradual permitiu à nobreza amealhar terras para aumentar sua base de poder regional e levou à insatisfação dos camponeses. Depois, antigas reformas feitas pelo imperador Taizong (626-649) no sistema de concursos usado para contratar servidores públicos, dando chance a homens capazes vindos de um passado humilde e sem conexões, criou uma burocracia baseada no mérito e que erodiu o poder e a influência da aristocracia. Xuanzong tinha, agora, que gerenciar facções rivais em sua corte — nobres rebeldes, ambiciosos burocratas profissionais e governadores militares, alguns dos quais já interferindo na política.
Mas foram fracassos militares que serviram de faísca para a rebelião contra Tang, incluindo a derrota para os árabes abássidas em 751, que interromperam a expansão da China na Ásia Central.
Uma mudança para a dinastia Tang
O descontentamento explodiu entre os militares que viram sua posição ameaçada, agora que a era de conquistas havia terminado. An Lushan, um proeminente governador militar que se tornara um favorito da corte, se levantou contra seus chefes. Alegando que o imperador havia lhe pedido para remover Yang Guozhong (o ministro- chefe da corte, com o qual An Lushan estava travando uma intensa luta pelo poder), ele mobilizou um exército de rebeldes e marchou para o sul.
A rebelião tinha tudo para dar certo: capturou a capital oriental, Luoyang, no começo de 756 — onde An Lushan declarou uma dinastia rival, a Yan —, antes de atacar Chang'an, a principal capital. Xuanzong fugiu de sua corte, sendo quase capturado por An Lushan.
Depois de oito anos de guerra, os Tang finalmente esmagaram a rebelião, mas o esforço a havia enfraquecido. Durante o século seguinte, perdeu cada vez mais poder para os militares e enfrentou outras rebeliões. Por volta de 907, o império tinha se fragmentado em dinastias e reinos locais que competiram pelo poder por cinquenta anos.
Em 762, o segundo governante da jovem e ascendente dinastia abássida mudou a capital do poderoso califado islâmico de Damasco para a recém-fundada cidade de Bagdá. A mudança é quase sempre vista como a marca do começo de uma era de ouro que levou ao florescimento da ciência, arte e cultura. A extensão do desenvolvimento tecnológico muçulmano ficou demonstrada em 802, quando o califa abássida Harun al-Rashid enviou um embaixador ao governante franco, Carlos Magno, levando de presente um relógio de água que marcava a hora ao deixar cair bolas de bronze em cima de címbalos na base do mecanismo. Esse sofisticado marcador de tempo era apenas um dos avanços que os árabes haviam feito - avanços que deixaram seus pares europeus bem para trás.
A ascensão dos abássidas
Depois da morte do profeta Maomé, em 632, seus sucessores governaram um império (ou califado) islâmico em constante crescimento. Após o assassinato do califa Al-Walid, em 744, um membro da família omíada, que governava de Damasco desde 661, deflagrou uma guerra civil que só acabou quando a dinastia abássida chegou ao poder, em 750. Os abássidas gastaram sua primeira década pacificando o império com a ajuda de tropas de Khurasan no nordeste do Irã. Essas tropas, uma mistura de árabes, persas e centro- -asiáticos, eram uma das principais sustentações dos abássidas e lhes deram uma base de poder independente das tribos árabes instaladas no norte da Arábia, Síria e Iraque, que haviam apoiado os omíadas.
Foi em parte para oferecer terras para seus soldados de Khurasan que Al-Mansur, o segundo califa abássida, estabeleceu a cidade de Bagdá, em 762. O lugar foi escolhido devido a seu clima ameno e sua localização nas rotas comerciais entre Pérsia, Arábia e Mediterrâneo. Também ficava a apenas trinta quilômetros a sudeste do trono real persa em Ctesifonte, que aos poucos perdeu sua importância, permitindo à nova dinastia se apresentar como líder de uma cultura que vinha desde Ciro, o Grande, no século vi a.C. O coração da nova capital era uma fortificação de quase dois quilômetros, em formato circular, na qual ficavam o palácio real e os principais órgãos governamentais.
Busca de conhecimento
Os abássidas alegavam ter não apenas a herança política de seus predecessores, mas também seus feitos culturais e científicos. Apesar de o Império Omíada ter incluído regiões antigas de cultura grega, como Alexandria, no Egito, sob seu domínio, quase não houve apoio ao desenvolvimento científico. Isso mudou com os abássidas, que usavam seu tempo consolidando o domínio islâmico em vez de participar de campanhas de conquistas territoriais. Eles financiavam estudiosos para que explorassem o conhecimento adquirido a partir de obras estrangeiras, em vez de se basearem somente na orientação encontrada no Alcorão e nos hadiths (ditos do profeta Maomé).
Os primeiros avanços se deram na medicina. No final do século VI, uma escola filosófica em Gundesapor, no sudoeste do Irã, tornou-se um centro de estudos médicos. Seus membros eram sobretudo cristãos da seita nestoriana que haviam sido perseguidos no Império Bizantino. Em 765, diz-se que Al-Mansur convocou um desses funcionários, Jurjis ibn Jibril ibn Bukhtishu, a Bagdá para diagnosticar uma complicação estomacal. O califa ficou tão satisfeito com o tratamento que convidou Jurjis a ser seu médico pessoal, e, por oito gerações, até meados do século xi, membros da família Bukhtishu ocuparam uma posição na corte de Bagdá, trazendo consigo o conhecimento de textos gregos e helenísticos sobre práticas médicas. Em 800, o califa Harun al-Rashid pediu a Jibril ibn Bukhtishu, neto de Jurjis, que fosse o chefe do novo hospital em Bagdá, o primeiro no mundo islâmico.
Al-Mansur abriu uma biblioteca em Bagdá para abrigar sua coleção de manuscritos. Essa empreitada ficou mais fácil com a adoção árabe do papel para os livros, além da fundação de uma fábrica de papel em Bagdá, em 795. Mas, como os que falavam árabe não tinham acesso a esse conhecimento, a biblioteca ajudou pouco no desenvolvimento de uma tradição científica árabe local.
Casa da Sabedoria
Para remediar isso, Harun al-Rashid (califa de 786 a 809) e Al-Mamun (reinou de 813 a 833) estabeleceram a Bayt al Hikma (Casa da Sabedoria), que não somente abrigava a crescente biblioteca como também funcionava como uma academia para estudiosos e um centro de tradução das principais obras científicas para o árabe. Entre seus maiores pesquisadores estava Hunayn ibn Ishaq (808-873), um cristão nestoriano de al-Hira, no Iraque, que traduziu mais de cem obras, principalmente médicas e filosóficas, além de Thabit ibn Qurra, membro de uma seita pagã conhecida como sabeus, que traduziu Elementos, a grande obra de Euclides sobre geometria, e o Almagesto, principal obra de Ptolomeu sobre astronomia.
A tradução tornou-se uma empreitada muito prestigiosa. Um investidor árabe pagou a extravagante soma de 2 mil dinares por mês para garantir que seu nome fosse associado à tradução de uma obra do médico grego Galeno (um dinar, feito de ouro puro, pesava o mesmo que 72 grãos de cevada). Em pouco mais de 150 anos, quase todos os principais textos gregos já descobertos foram traduzidos para o árabe. Muitos deles nem sequer estavam disponíveis na Europa Ocidental e, mesmo se estivessem, o conhecimento do grego tinha desaparecido de lá havia tempos. O mundo muçulmano estava, portanto, bem estabelecido por volta de 850 para que pudesse adicionar conhecimento novo às tradições científicas dos gregos clássicos e helenísticos transmitidas e desenvolvidas durante o Império Romano e adquirir uma vantagem de séculos sobre os europeus cristãos do Ocidente.
Cálculos complexos
O entendimento da matemática e da astronomia é essencial para o cálculo das vezes que os muçulmanos devem observar suas cinco orações diárias (que variavam bastante por todo o vasto Império Islâmico); logo ambas as disciplinas foram estudadas com afinco. Outra e separada tradição intelectual contribuiu para o desenvolvimento dessas técnicas de cálculo e chegou, em 771, com uma delegação de estudiosos hindus. Eles estavam visitando a corte de Al-Mansur (que por si só ilustra a abertura e a tolerância dos primeiros abássidas) e trouxeram consigo a relativamente avançada matemática da Índia, incluindo o uso de trigonometria para ajudar a resolver as equações algébricas. Mais importante ainda, os matemáticos hindus também usavam a notação decimal, a qual um dos membros da Casa da Sabedoria, Al-Khwarizmi (c. 780-830), adotou e descreveu em seu Livro da adição e subtração de acordo com o cálculo hindu.
Além disso, Al-Khwarizmi também explicou o método de calcular a raiz quadrada dos números e foi pioneiro no trabalho com equações algébricas. Ele e seus colegas avançaram bastante na geometria, assumindo como ponto de partida as obras de Euclides e Arquimedes sobre esferas e cilindros.
Astronomia e medicina
Al-Khwarizmi compilou a primeira tabela conhecida para as horas das orações diárias em Bagdá, sendo assistido, em seus cálculos, por observação astronômica direta. Os primeiros astrônomos islâmicos se basearam no livro Almagesto, de Ptolomeu, adotando sua visão de que a Terra estava no centro do sistema solar e os planetas giravam ao seu redor seguindo as linhas de oito esferas. Também aprenderam com astrônomos hindus, traduzindo e aperfeiçoando o zij (tabelas hindus de posições planetárias), e continuaram a refinar o sistema de Ptolomeu, se bem que algumas vezes, como na obra do astrônomo Al-Biruni, no século x, brincaram um pouco com um sistema heliocêntrico que tinha o Sol como centro. Seus cálculos ficaram muito mais simples quando, no meio do século VIII, adotaram o astrolábio, instrumento no qual a esfera celeste era projetada num plano achatado marcado com as linhas de latitude e longitude.
Por volta do século XIII, a astronomia islâmica chegou ao seu zênite, e em 1259 um grande observatório foi construído em Maragha, no leste do Irã. Lá, Nasr al-Din al-Tusi e seus sucessores fizeram um ajuste fino para dar conta das pequenas discrepâncias na órbita dos planetas, sendo auxiliados por relógios mecânicos que os capacitavam a registrar suas observações nos mínimos detalhes. Estudiosos islâmicos também fizeram avanços em muitas outras áreas, primeiro baseados nos manuscritos gregos traduzidos para o árabe, depois fazendo suas próprias descobertas. Eles não aceitaram as teorias dos antigos sem crítica: Al-Haythem (morto em 1039) produziu uma obra- chave, o Livro da óptica, no qual especulava que a visão era o resultado da luz viajando de um objeto até o olho, em vez do caminho inverso como teorizava Ptolomeu. Os médicos árabes continuaram a progredir, combinando suas observações práticas com análise teórica. Al-Razi (morto em 925) produziu a primeira descrição da varíola e do sarampo, além de produzir um compêndio médico que deu início à tradição das enciclopédias, culminando em O cânone da medicina, de Ibn Sina (também conhecido no Ocidente como Avicena). Escrito em cerca de 1015, tinha seções distintas para doenças relacionadas a uma parte específica do corpo e para as que afligem o corpo em sua totalidade.
A ciência islâmica se difunde
A expansão islâmica que começou em meados do século vii não apenas absorveu os antigos centros de aprendizado como Alexandria, mas também levou o mundo muçulmano até a beira da Europa Ocidental através da conquista da Espanha (a partir de 711) e Sicília (827). Uma tradição de aprendizado islâmico se embrenhou nessas duas áreas, especialmente na Península Ibérica, conhecida pelos árabes como al-Andalus. A corte que foi estabelecida lá em 756 por Abd ar-Rahman I, um príncipe omíada refugiado que escapou da revolução abássida, tornou-se um ímã para os estudiosos do Oriente, e suas bibliotecas viraram um repositório de preciosos textos antigos traduzidos para o árabe.
Em 967, o clérigo e estudioso francês Gerbert d'Aurillac (que em 999 se tornaria papa Silvestre 1) chegou à Espanha para um período de três anos de estudos num mosteiro na Catalunha. Lá teve acesso a manuscritos contrabandeados através da fronteira do território muçulmano de al-Andalus. Ele retornou à França com o conhecimento de tecnologias árabes como o relógio de água e o astrolábio e com um tipo de ábaco que usava o sistema decimal. Este foi o primeiro exemplo desse sistema a ser usado na Europa medieval. Foi um pequeno começo, que teve paralelo no sul da Itália, onde uma escola de medicina foi estabelecida em Salerno no século IX. Alguns manuscritos islâmicos chegaram até a escola nos primeiros anos, mas muitos mais chegaram no final do século xi, quando o doutor muçulmano Constantino, o Africano, voltou de Kairuan, Tunísia. Ele foi até lá para estudar medicina e trouxe consigo obras como A arte completa da medicina, de Ali ibn al-Abbas al-Majusi (conhecido no Ocidente como Haly Abbas), parte das quais ele traduziu depois para o latim. Essa tradução deu acesso a médicos e estudiosos ocidentais ao relativamente avançado conhecimento médico muçulmano.
Textos gregos clássicos chegaram diretamente do Império Bizantino para o Ocidente (em especial, a Pisa, que tinha um posto comercial em Constantinopla), incluindo obras do filósofo Aristóteles. O principal canal para a transmissão do aprendizado islâmico para a Europa, no entanto, continuou sendo a Espanha. Conforme a Espanha Islâmica encolheu, pressionada pela Reconquista, o fluxo de material acelerou. A reconquista cristã se espalhou cada vez mais pelos emirados muçulmanos, até que, em 1085, Afonso vi, de Castilha, tomou Toledo. A cidade se tornou um centro para tradução de obras árabes por um grupo internacional que incluía o inglês Herbert de Ketton, o eslavo Hermann de Caríntia, o francês Raymond de Marselha, o erudito judeu Abraham ibn Ezra e o italiano Gerhard de Cremona. Em meados do século XII, o grupo traduziu muitos textos árabes para o latim, incluindo obras sobre matemática, medicina e filosofia. A Europa Ocidental passou a ter acesso ao Almagesto de Ptolomeu e às obras clássicas de Galeno, bem como a novas obras de escritores árabes que avançaram ou resumiram trabalhos de seus antecessores antigos, como Ibn Sina e O cânone da medicina. Essa enciclopédia de cinco volumes foi um dos tratados mais amplamente usados nas escolas de medicina europeias até o século XVI.
Apoio real
Essa transmissão de conhecimento para o Ocidente foi reflexo do processo pelo qual o mundo islâmico absorveu o conhecimento grego durante o grande período de tradução para o árabe nos séculos IX e X. Apoiadores nobres e reais desempenharam papéis similares em ambas as fases de transmissão. O rei Rogério II da Sicília (a qual havia sido reconquistada pelos muçulmanos em 1091) convidou o erudito árabe Al-Idrisi para sua corte em 1138, com a incumbência de desenhar um mapa do mundo baseado em obras geográficas e cartográficas islâmicas. O resultado, que demorou mais de quinze anos para ser completado, era, de longe, o mapa do mundo mais preciso jamais disponível aos europeus e mostrava áreas tão distantes quanto a Coreia. O mapa foi acompanhado do Livro das agradáveis jornadas a terras distantes, em que o apoiador real de Al-Idrisi podia ler a respeito de coisas maravilhosas como os canibais de Bornéu e o comércio de ouro em Gana.
Uma tradição de aprendizado
O neto de Rogério, Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico de 1220 a 1250, deu sequência à tradição de seu avô de financiar traduções de textos árabes. Impressionante polímata que conhecia pelo menos quatro línguas, Rogério impressionou tanto seus contemporâneos com sua sabedoria que ficou conhecido como Stupor Mundi ("a Maravilha do Mundo"). Entre seus protegidos estavam o escocês Michael Scot, que traduziu as principais obras de Aristóteles sobre zoologia, e Leonardo Fibonacci, de Pisa, que foi enviado por sua família de mercadores para estudar matemática em Bugia, no norte da África muçulmana. Lá, Fibonacci aprendeu o sistema decimal e em 1202 publicou O livro dos cálculos, o mais detalhado relato jamais visto na Europa a respeito do sistema árabe de numeração.
No começo do século XII, o Império Abássida estava próximo do colapso. As dificuldades de governar um império tão extenso e os efeitos de uma série de guerras civis fizeram com que províncias-chave como Espanha, Tunisia e Egito se separassem e fossem governadas por seus próprios califas. Mesmo em Bagdá, onde os califas abássidas se fixaram, eles apenas governavam no papel. O poder real era mantido por outras dinastias, como os buídas xiitas e, a partir de 1055, os seljúcidas, um grupo turco originário da Ásia Central. O golpe final foi dado pelos mongóis, que avançaram para o oeste em direção ao mundo islâmico no começo do século XIII. Em 1258, o Grande Khan mongol Möngke liderou um exército contra o Iraque, que primeiro cercou e depois saqueou Bagdá, infligindo um terrível massacre contra seus habitantes. O último califa abássida a governar, Al-Musta'sim, foi executado, e o mundo islâmico passou primeiro para os mamelucos no Cairo e, depois da conquista do Egito em 1517, para os turcos otomanos.
Nessa época, os europeus já haviam redescoberto o conhecimento grego e romano em quase todos os campos do saber por meio dos textos árabes. Demorou séculos para o novo material ser absorvido e para uma nova onda de interesse em manuscritos clássicos no século XV desencadear o Renascimento na Europa. A Casa da Sabedoria fundada pelos califas abássidas desempenhou um papel crucial em garantir a sobrevivência da ciência grega e romana no mundo islâmico, permitindo sua transmissão séculos depois para a Europa cristã.
Num dia calmo de junho em 793, um grupo de homens desembarcou na costa da ilha sagrada de Lindisfarne, no norte da Inglaterra, e organizou um feroz ataque ao seu mosteiro. Os invasores mataram alguns dos monges, levaram prisioneiros como escravos e saquearam os tesouros da igreja antes de escapar.
Esse feroz ataque foi a primeira incursão registrada dos vikings — guerreiros navegantes pagãos da Dinamarca, Noruega e Suécia —, e seus relatos alastraram ondas de terror e medo por toda a Europa cristã. Pelos próximos duzentos anos, os vikings iriam assolar e saquear assentamentos em grandes partes do continente. Mas eles também eram colonizadores e comerciantes com uma sofisticada cultura artística que deixaram uma marca duradoura nos lugares onde invadiram e se estabeleceram.
Uma força irreversível
Nos seis anos que se seguiram à incursão a Lindisfarne, bandos de vikings — ou "danes", como eram conhecidos na Inglaterra anglo-saxā — passaram a ter como alvo a riqueza de outros lugares na Inglaterra, Escócia, Irlanda e França. Um dos principais responsáveis pelo sucesso dessas missões foi o drácar viking, um barco fino com um fundo raso que permitia à sua tripulação que navegasse qualquer via e aportasse de forma disfarçada. Cada barco poderia levar até oitenta guerreiros, recrutados por senhores de terra cuja autoridade dependia de suas proezas militares e de seu sucesso em capturar despojos para seus seguidores.
Não houve um motivo único que levou os vikings a se aventurarem pelos mares. Em partes da Escandinávia, o crescimento populacional talvez tenha forçado os jovens a viver como piratas. Em outros lugares, o provável crescimento da força de líderes de clãs locais teria dado início a disputas pelo poder que acabaram expulsando os perdedores para o exílio. E as recém-enriquecidas cidades mercantes do norte da Europa eram irresistíveis para uma sociedade de guerreiros na qual a reputação por bravos feitos era um grande ativo.
Conquistas e assentamentos
Conforme os grupos de ataques vikings cresciam em tamanho, muitos dos homens começaram a se fixar nos territórios que invadiam, incluindo Inglaterra e França. No final do século IX, a Inglaterra foi dividida em vários reinos que não ofereciam nenhuma resistência consistente aos desafios vikings, enquanto a França era dizimada pela guerra civil.
Essa oposição desunida ajudou os vikings a conquistar o norte e o centro da Inglaterra — onde estabeleceram um reino que durou quase cem anos — e a ocupar terras no norte da França, onde seus descendentes se tornaram normandos que falavam francês. A leste, os vikings comerciavam e atacavam as margens dos rios da Rússia, o que lhes trouxe prata do mundo islâmico e contato com o Império Bizantino.
Em torno do século XI, a maioria dos países escandinavos já havia adotado o cristianismo e deixou seus ataques e saques, passando a ter assentamentos mais organizados e conquistas. Canuto da Dinamarca criou um império viking no Mar do Norte que incluía Dinamarca, Noruega e Inglaterra. Mas o império não sobreviveu à sua morte, e, em 1066, uma tentativa de reivindicação do trono inglês pelo rei norueguês Haroldo Hardrada foi o último vestígio da era viking, que começou com o saque de Lindisfarne.
Por três dias, em 1078, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Henrique IV se prostrou penitente, descalço na neve, fora da fortaleza italiana de Canossa, implorando ao papa por absolvição. Esse evento foi o ápice da Querela das Investiduras, uma disputa entre dois homens sobre a extensão da autoridade secular sobre a Igreja cristã e a autoridade de escolher — ou investir — bispos.
Tanto o rei quanto o papa eram governantes de certos domínios, mas ambos também tinham alegações simbólicas rivais para liderar a cristandade. Um imperador tinha que ser coroado pelo papa antes de assumir o título imperial. O papa Gregório VII afirmava que a autoridade do papa era suprema em questões espirituais, e mesmo em questões seculares ela estava muito acima da realeza do mundo.
Quando, por fim, Gregório sinalizou perdão ao penitente imperador, isso marcou um amargo golpe para o prestígio imperial e um enorme triunfo para a independência da Igreja.
O Estado da Igreja
No começo do século XI, o papado estava passando por maus bocados. Ele falhou em impor — ou perdeu — a autoridade sobre as Igrejas nacionais fora da Itália, e os monarcas estavam escolhendo os seus próprios bispos, sobretudo na Alemanha, onde o cargo geralmente trazia consigo enormes domínios territoriais. O sentimento de que a Igreja tinha perdido contato com suas raízes também era generalizado: os mosteiros se tornaram depósitos de tesouros, os bispos estavam administrando suas terras como senhores seculares, e os cargos clericais eram abertamente vendidos. Pregadores itinerantes começaram a criticar essas traições, e clamores por reforma começaram a ser ouvidos dentro da própria Igreja. Gregório promoveu com vigor a autoridade papal, e em 1075 um concílio da Igreja declarou que apenas o papa tinha o poder de indicar bispos ou transferi-los para diferentes áreas. Henrique, confrontando a perda de autoridade sobre várias regiões da Alemanha, continuou a escolher bispos e exigiu que o papa deixasse o cargo. Gregório retaliou ao excomungar o rei e depô-lo. Os nobres alemães, já descontentes com as tentativas de Henrique de centralizar o poder, acharam que isso os havia liberado do voto de lealdade, e muitos se rebelaram. Acossado entre o papado e a nobreza, Henrique acabou indo para Canossa, numa retirada humilhante.
Acordo final em Worms
Mas a submissão de Henrique não durou muito. A questão das investiduras não foi explicitamente resolvida, e temas subjacentes fizeram com que partidários do papa e do imperador entrassem em conflito até 1122, quando o filho de Henrique, Henrique v, aderiu à Concordata de Worms. Espremido entre uma crescente insistência afirmativa da autoridade papal e a cada vez maior independência dos nobres alemães, o imperador abriu mão virtualmente de todos os direitos de investidura.
Fortalecida pelo seu sucesso, a administração papal (ou cúria) se consolidou. Uma crescente sede por educação levou à fundação de universidades, como a de Bolonha, onde muitos pupilos estudavam a lei canônica. Com uma crescente confiança, os papas, sem piedade, perseguiram hereges e varreram práticas lenientes.
As reformas fortaleceram a Igreja, cuja estatura diplomática cresceu até se igualar à do monarca e sobreviveu de forma unida até a Reforma do século XVI. O golpe no prestígio dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico teve a mesma intensidade. Os senhores seculares aproveitaram a oportunidade para aumentar seu próprio poder, fragmentando o império numa constelação de senhorios e autoridades em conflito que pagavam serviço ao imperador apenas de boca.
Quando, em 1192, o líder de clã japonês Minamoto Yoritomo se torna o comandante militar, ou xogum, isso marca a ascensão ao poder de uma classe militar japonesa, os samurais, e estabelece uma linha de governantes militares que governariam o Japão pelos próximos 750 anos.
A corte imperial japonesa era dominada desde meados do século VII por regentes da família Fujiwara, que reduziu os imperadores a meras figuras decorativas. A situação se complicou quando a capital mudou (seguindo o imperador) para Kyoto, em 794. Nobres que não fossem Fujiwara perderam seus benefícios na corte e passaram a buscar posições nas províncias. Surgiu um abismo entre os burocratas que ficavam em Kyoto e a nobreza regional, os samurais, que assumiu um papel dominante no governo local. A corte de Kyoto escolhia os samurais mais talentosos como governadores (zuryo), tanto para atrelá-los ao governo do imperador quanto para prevenir que forjassem suas próprias bases de poder. No entanto, os samurais desenvolveram lealdade à sua família estendida, ou clã, e aos seus líderes em vez de ao imperador, e lutavam uns contra os outros a partir de suas bases de poder nas províncias. Os clãs Minamoto e Taira entraram numa série de disputas como essas que culminou na Guerra Genpei, durante a qual os Taira foram totalmente aniquilados.
O xogunato
Depois dessa vitória, o líder de clã Minamoto Yoritomo estabeleceu um poder paralelo baseado em Kamakura, a quase quatrocentos quilômetros a leste de Kyoto. Outros chefes de clã se tornaram seus vassalos, ou gokenin, e ele enviou governadores militares de terras para consolidar seu controle nas províncias. Em 1192, Yoritomo aceitou do imperador o título de xogum, tornando-se de fato o governante militar do Japão.
Pelos próximos séculos, os imperadores tentaram de vez em quando, mas em vão, reassegurar sua autoridade sobre o xogunato, mas os xoguns, por sua vez, não conseguiam manter o controle dos samurais e de seus senhores da guerra que controlavam suas áreas e lutavam entre si. O Japão se dissolveu numa colcha de retalhos de senhores da guerra, ou daimyo, cada um com sua própria base de poder e um séquito de guerreiros samurais.
A criação do cargo de xogum, que parecia oferecer estabilidade ao Japão em 1192, por fim acabou levando à Sengoku, uma guerra civil que durou quase 150 anos. Essa guerra terminou com a reunificação do Japão sob o novo xogunato de Tokugawa, em 1603.
Em 15 de junho de 1215, o rei João da Inglaterra assina um estatuto em Runnymede, um prado perto do Tâmisa. Planejada para trazer a paz entre o rei e um grupo de barões rebeldes, a Magna Carta, como uma forma do documento ficou conhecida, a princípio parecia sem efeito. Mas a declaração dos direitos dos súditos contra ações arbitrárias da Coroa - o princípio essencial do estado de direito - forneceu um mapa que, mais de oito séculos depois, ainda é visto como uma garantia fundamental de direitos no Reino Unido e em outros lugares.
Sociedade feudal
Quando o rei João ascendeu ao trono em 1199, a Inglaterra era uma sociedade feudal, uma hierarquia baseada em terras e governada por um rei, dono de todas as terras. Os barões recebiam a terra do rei em troca de lealdade e serviço militar. Eles, por sua vez, arrendavam a terra para os seus próprios comandantes armados, que as arrendavam aos camponeses. Mas os monarcas, em especial na Inglaterra, impunham uma série crescente de impostos e outros encargos financeiros adicionais sobre os barões. Os reis ingleses a partir de Henrique I (1100-1135) também tentaram centralizar a administração, estabelecendo uma série de tribunais reais. Estes arrecadavam receita para a Coroa através de multas e taxas — mas à custa dos barões que antes recolhiam esses fundos com seus próprios tribunais locais.
As cobranças do rei João
O descontentamento dos barões contra essas crescentes demandas se intensificou no reinado de João. Campanhas terrivelmente caras contra a França em 1200-1204 já haviam resultado na perda da Normandia (e deram ao rei o apelido jocoso de "Sem-Terra"). Um novo imposto para livrar os barões do serviço militar (Scutage) os deixou ainda mais na mão de agiotas e causou mais ressentimento. O rei não estava apenas se dando muito mal na guerra, mas também quebrara o contrato velado dele com os barões, que lhes permitia administrar suas terras como quisessem.
Esperando o apoio do papa, que havia excomungado João em 1209, os barões rebeldes confrontaram o rei. As tentativas diplomáticas fracassaram, e, em maio de 1215, os barões ocuparam Londres, forçando João a fazer um acordo com eles para evitar uma guerra civil. Depois de uma negociação cuidadosa liderada pelo arcebispo Stephen Langton, de Canterbury, o acordo — de trégua, não de paz — foi assinado.
Provisões da carta
A carta ficou conhecida como Magna Carta, ou Grande Carta, para diferenciá-la da Carta das Florestas, editada em 1217. Muito da Magna Carta tratava de reconsiderar as queixas dos barões, mas a seção que mais exerceu influência no decorrer das eras estava no Capítulo 39. Essa cláusula aberta protegia todos os "homens livres" de ações arbitrárias pela Coroa, como prisões ou confisco de terras. A carta sobreviveu à guerra civil que eclodiu logo depois do acordo e do repúdio do papa aos seus termos em agosto de 1215, que levou à excomunhão dos barões. O Capítulo 39 foi expandido numa lei de 1354 de Eduardo III para proteger não apenas os "homens livres" (uma pequena minoria na Inglaterra onde a maioria das pessoas era tecnicamente servos), incluindo também qualquer homem "de qualquer patrimônio ou condição". Ela durou mais que muitas de outras provisões, incluindo a cláusula de segurança que permitia aos barões confiscar todas as terras do rei se ele não cumprisse suas obrigações no acordo.
O que pareceu ser uma pequena concessão naquele dia em Runnymede acabou sendo um grito revigorante e duradouro para todos os que se opõem à tirania real.
Em março de 1279, guerreiros mongóis varreram o sul da China, capturando as últimas fortalezas da dinastia chinesa Song. Essa derrota, que anunciava o começo da dinastia Yuan, marcou o ápice da ascensão mongol, que, em menos de setenta anos, passou de um obscuro grupo nômade da Ásia Central para os senhores de um vasto império que ia da China até a Europa Oriental. Um dos maiores desafios que tiveram que enfrentar foi a transição de tribalistas nômades para conquistadores fixos.
A ascensão dos mongóis
No começo do século XIII, os mongóis não passavam de vários e distintos clãs de guerreiros. No entanto, em 1206, Temüjin — mais tarde conhecido como Genghis Khan — proclamou-se o governante de uma nação mongol unida. Astuto e cruel, ele distraiu a atenção de seu povo das guerras interclãs para um negócio mais lucrativo: as invasões — primeiro das tribos vizinhas nas estepes, depois para Estados mais organizados como Pérsia, Rússia e o norte da China (1219-1223). Ele deu às hordas mongóis uma estrutura militar adequada e explorou as habilidades que haviam aprendido com seu estilo de vida nômade: especialistas em montaria, os soldados eram os senhores da guerra móvel, capazes de atacar seus inimigos com força devastadora e enorme velocidade.
O domínio mongol na China
O neto de Genghis, Kublai Khan, governou a China a partir de 1260, mas os desafios de mediar as tradições nômades dos mongóis e a complexa cultura dos povos conquistados eram muitos. As velhas e informais hierarquias das estepes já não eram suficientes para administrar uma terra que tinha grandes cidades, e as recompensas imediatas do saque foram substituídas pelos benefícios demorados advindos da boa governança e da tributação. Como resultado, muitos mongóis tinham saudade dos velhos tempos. Para apaziguar seus colegas mongóis, Kublai deu-lhes maiores direitos e privilégios do que os dos chineses nativos. Ao mesmo tempo, para agradar as tradicionais elites chinesas, promoveu os estudiosos confucionistas, fundou templos taoistas e fez seu filho estudar as escrituras budistas. Também fundou escolas para os camponeses e introduziu o sistema postal mongol, que usava cavalos e estações de distribuição para ligar o império, o que beneficiou os comerciantes.
O fim do império
A necessidade de restabelecer a estabilidade no norte da China atrasou os planos de Kublai de subjugar os Song no sul até 1268. Apesar de ter vencido no final, a campanha de onze anos foi terrivelmente custosa. Para preservar sua identidade guerreira, os mongóis precisavam dos despojos das conquistas para financiar seu enorme exército. Os sucessores de Kublai fracassaram na tentativa de preservar sua identidade, ao mesmo tempo que mantinham seu monopólio do poder, assim os militares mongóis foram se enfraquecendo aos poucos. Depois de décadas de fome, epidemias mortais e corrupção na corte, em 1368 os herdeiros de Kublai foram derrotados por uma rebelião liderada por Zhu Yuanzhang, fundador da dinastia Ming. Depois de mais de um século de ocupação, a China voltou às mãos dos nativos chineses (Han).
A chegada do mercador veneziano Marco Polo a Shangdu, capital do Grande Khan Kublai, em 1275, marcou o fim de uma jornada de quatro anos. Ele viajara da Itália até a capital mongol Shangdu usando toda a extensão da Rota da Seda, uma rede antiga de rotas que havia transportado bens entre a China e a Europa por séculos. A Rota da Seda se transformou num canal para o comércio quando a dinastia chinesa Han avançou para a Ásia Central no final do século II a.C. A partir de então, bens como jade e seda eram levados para o Ocidente, passando de caravana em caravana por uma série de comerciantes, até encontrar caravanas de peles, ouro e cavalos viajando na direção oposta. As invenções chinesas como a pólvora e o papel ou a bússola também foram trazidas para o Ocidente pela rota, chegando a Constantinopla e aos portos do Mar Negro, ponto-final ocidental da rota a partir de onde assumiam os mercadores de Génova e Veneza.
O reavivamento mongol da rota
Perto do século XIII, os impérios que controlavam partes da Rota da Seda se fragmentaram. Isso deixou a rota menos segura para os viajantes, impedindo os mercados de usá-lo. No entanto, após a conquista mongol da área em 1205 e 1269, ela foi controlada — de forma frouxa — por uma única autoridade, o Grande Khan; assim um comerciante poderia viajar de Khanbalik (Pequim) a Bagdá sem sair do território mongol. Essa renovada estabilidade encorajou a revitalização do comércio.
Mais ou menos nessa época os horizontes dos mercadores europeus também estavam se expandindo. No começo da Idade Média, os comerciantes somente podiam trabalhar localmente e transportar suas mercadorias para pontos onde pudessem fazer conexões com rotas comerciais de longa distância. A partir do século XII, cidades-estados italianas como Pisa, Génova e Veneza foram pioneiras no comércio marítimo através do leste do Mediterrâneo, permitindo aos mercadores se conectar diretamente com as rotas marítimas que ligavam a Ásia Ocidental e o Egito à China via oceano Índico.
Os lucros para os mercadores beneficiados pela "Pax Mongolica" poderiam ser enormes. No final do século XIII, o custo para montar uma caravana poderia chegar a 3.500 florins, mas a carga, uma vez vendida na China, poderia render sete vezes aquela soma, e em 1326 era fácil encontrar um comerciante genovês no principal porto chinês de Zaitun.
O declínio do comércio por terra
A Rota da Seda floresceu por mais um século, mas o colapso do canato mongol na Pérsia em 1335 e a derrota em 1368 de Yuan, a dinastia dominante mongol na China, uma vez mais deixaram a rota dividida entre forças políticas enfraquecidas. Ela também foi bloqueada na sua ponta ocidental pelo crescimento do Império Otomano muçulmano.
Um gostinho do lucro do comércio de longa distância dos bens de luxo encorajou as potências europeias a buscar alternativas à agora morta Rota da Seda, dessa vez pelo mar. Em 1514, mercadores portugueses chegaram à costa da China, perto de Guangzhou, ansiosos por assumir as ligações diretas de comércio com a China, que tinham sido descobertas dois séculos e meio antes pelo seu ilustre predecessor, Marco Polo.
Em 15 de julho de 1099, perto de 15 mil cavaleiros cristãos atacaram Jerusalém depois do cerco de um mês. Os cruzados vitoriosos massacraram tanto os defensores muçulmanos quanto os judeus, num ato sangrento que marcou o começo de duzentos anos de lutas entre muçulmanos e cristãos pela Terra Santa.
Defendendo o cristianismo
Jerusalém havia caído nas mãos dos muçulmanos em 639. Nem os imperadores bizantinos em Constantinopla nem os reis cristãos na Europa Ocidental tinham vontade política ou força para reverter tal conquista, apesar de a cidade ser sagrada para ambos. No século xi, no entanto, o avanço de um novo grupo, os turcos seljúcidas, interrompeu as rotas de peregrinação para Jerusalém, e a derrota dos bizantinos para os turcos em Manzikert ameaçou empurrar as fronteiras da cristandade de volta aos portões de Constantinopla. Em 1095, o Imperador Aléxio I enviou emissários ao papa Urbano II, pedindo ajuda para reforçar a retaliação bizantina.
A Guerra Justa
O papa Urbano facilmente encontrou uma causa que aumentaria o prestigio papal. Num sermão em 1095, descreveu as atrocidades contra os cristãos na Terra Santa, convocando uma expedição para libertá-los. Guerreiros cristãos responderam prontamente ao chamado, dispostos a ganhar tanto a salvação quanto os despojos ao se unirem à chamada Guerra Justa em nome de Deus.
Quase 100 mil cavaleiros cruzados partiram em 1096. O avanço para Jerusalém era lento: os cruzados sofreram várias intempéries nas mãos dos turcos seljúcidas, e o longo cerco de Antioquia testou fortemente sua moral, mas seguiram em frente, liderados pelo cavaleiro francês Godofredo de Bouillon, e finalmente capturaram a Cidade Santa.
Na área que conquistaram, os cruzados estabeleceram quatro estados em Edessa, Antioquia, Trípoli e no Reino de Jerusalém, todos conhecidos como Ultramar. Para resistir aos fortes contra-ataques muçulmanos, construíram uma densa rede de fortalezas que dominou as rotas estratégicas para a Terra Santa. Conforme o fervor cruzado inicial enfraqueceu, o Ultramar começou a sofrer pela falta de homens. Isso foi parcialmente resolvido pela fundação de ordens de cruzados como os Cavaleiros Templários ou Hospitalários, ordens que juraram votos monásticos para defender a Terra Santa.
Outras Cruzadas
Mas isso não bastou, e, quando os exércitos muçulmanos capturaram Edessa em 1144, uma Segunda Cruzada foi convocada. Esta e a Terceira Cruzada foram recrutadas em resposta à catastrófica perda de Jerusalém em 1187 e atraíram a participação num nível superior, já que monarcas como Luís VIII da França e Ricardo i da Inglaterra, bem como o imperador Frederico Barbarossa do Sacro Império Romano-Germânico, assumiram sua liderança.
Até 1270 houve oito cruzadas adicionais, e o movimento foi expandido a ponto de incluir ataques aos muçulmanos no norte da África, incluindo também a Reconquista cristã dos emirados islâmicos na Espanha. Também houve o lançamento de expedições contra grupos pagãos na Europa Oriental, ou mesmo cristãos hereges como os cátaros no sul da França. No Oriente Médio, no entanto, o surgimento de estados muçulmanos mais fortes, como os mamelucos no Egito, capazes de oferecer uma enorme resistência à pressão dos cruzados, fez com que as expedições seguintes fossem menos exitosas.
Jerusalém caiu para os muçulmanos pela última vez em 1244. O último reduto cruzado na Terra Santa, a cidade de Acre, foi tomada pelos mamelucos em 1291.
No início do século XII, os reinos cristãos da Península Ibérica estavam em plena Reconquista, expulsando os muçulmanos que havia séculos ocupavam a região. Como recompensa por sua ajuda decisiva na vitória sobre algumas dessas populações mouras, em 1093 Henrique de Borgonha recebeu do rei Afonso VI de Leão um feudo, parte da atual Espanha. Essa terra era o Condado Portucalense.
Henrique de Borgonha se tornou assim vassalo do rei leonês, mas seus planos eram mais ambiciosos. O duque lutou para gradativamente conquistar autonomia em relação à Coroa de Leão, uma tarefa que só seria completada por seu filho, dom Afonso Henriques.
O Condado Portucalense se rebelou e lutou por sua independência em 1128, na Batalha de São Mamede. Apesar da vitória, Afonso Henriques ainda não era reconhecido pelos demais nobres e pela população como um rei, não havendo entre os portugueses um sentimento nacional. Foi isso que mudou em 1139.
O exército de Afonso Henriques partiu para enfrentar os muçulmanos nos campos da região de Ourique, sul de Portugal. Suas tropas estavam em menor número, e uma derrota parecia inevitável. No entanto, às vésperas da batalha, diz-se que o soberano português teve uma visão de Jesus Cristo, rodeado por anjos, dizendo que sua vitória era certa. Os portugueses de fato venceram os "infiéis" no dia seguinte, e Afonso Henriques foi aclamado pelas tropas como o rei de um país: Portugal. Daquele dia em diante ele passaria a usar a titulação de "rex portugallensis" em sua documentação oficial.
Consolidação da monarquia
O milagre da Batalha de Ourique é até hoje o mito fundador da pátria portuguesa, apesar de o reconhecimento oficial da independência só ter ocorrido em 1179, quando a Igreja católica, por meio de uma bula papal, também passou a chamar Afonso Henriques de "rei". Mas isso não quer dizer que os reinos espanhóis desistiriam tão fácil de parte do seu antigo território.
Em 1383 morreu dom Fernando 1, o último rei da dinastia de Borgonha, iniciada por Afonso Henriques. O rei de Castela, que era casado com a filha de dom Fernando, reivindicou o trono vago, numa tentativa de reanexar Portugal ao território espanhol. Mas ele enfrentou um concorrente: João de Avis, meio-irmão do falecido rei e mestre da Ordem de Avis, um tradicional grupo religioso de cavaleiros portugueses.
A população lusitana, indignada com a possibilidade de se submeter ao país vizinho, apoiou o irmão bastardo, dando início à chamada Revolução de Avis. O levante durou dois anos e foi um fenômeno verdadeiramente popular: nobreza, clero, burguesia e a população mais pobre se uniram em torno da causa, inaugurando assim o sentimento nacional português. A revolução terminou com a coroação de João e o início da segunda dinastia portuguesa.
Pioneirismo
Portugal foi a primeira monarquia nacional da história. Desde a época de Afonso Henriques, o país nunca havia sido um mero aglomerado de feudos sem comando central. Os lusitanos unificaram muito cedo seu idioma, suas unidades de pesos e medidas, sua moeda e sua religião, tendência que seria seguida por praticamente todas as demais regiões da Europa. Depois, com a dinastia de Avis, o país se modernizou, ampliou a força de sua burguesia e passou a investir no desenvolvimento da tecnologia naval. Foi o momento das Grandes Navegações, quando o Império Português esteve no auge.
Nada disso teria sido possível num ambiente descentralizado como a Europa feudal. O modelo de monarquia unificada lançado por Portugal foi fundamental para moldar o perfil da Idade Moderna.
O reino muçulmano de Mali, na África Ocidental, entra no cenário mundial com seu desenvolvimento no começo do século XIV, quando seu governante fabulosamente rico, Mansa Musa, faz uma hajj (peregrinação) a Meca inesperadamente extravagante, apoiado pelos enormes lucros advindos do controle por Mali das caravanas de comércio transaariano. A expedição de mais de ano do imperador tornou-se lendária no mundo muçulmano, até na Europa, e a subsequente promoção da cultura e do aprendizado islâmico em seu reino foi símbolo da gradual infiltração da fé nos impérios comerciais da África Ocidental.
Comércio e islã na África
Por volta do século V, começaram a surgir estados nas margens da região do Sahel (uma zona semiárida pouco ao sul do Saara), começando com o reino de Gana, que se tornou conhecido como "a terra do ouro", uma referência à fonte de sua enorme riqueza. No século VII, a conquista árabe do norte da África deu um novo ímpeto ao comércio transaariano — os estados islâmicos tinham um enorme apetite por ouro e escravos da África Ocidental. Conforme esse comércio crescia, mercadores muçulmanos, e o islã, foram atraídos à área entre as nascentes dos rios Níger e Senegal.
Porém o comércio pacífico foi rapidamente substituído pela conquista. Os almorávidas, uma dinastia berbere marroquina, atacaram ao sul em 1076 e saquearam a capital de Gana, espalhando sua autoridade por toda a região.
O poder reduzido de Gana abriu um vácuo que foi, pouco a pouco, preenchido pelo Mali, um Estado fundado ao redor do alto rio Níger que começou a se expandir em meados do século XIII. Sob Mansa Musa (governou em 1312-1337), Mali alcançou sua maior extensão e poder, tendo criado lucrativas conexões de caravanas com o Egito e outros importantes centros no norte da África. Ouro, sal e escravos eram levados ao norte em troca de tecidos e bens manufaturados.
Um centro de estudo
Mansa Musa não foi o primeiro governante do oeste da África a fazer uma hajj a Meca, mas a enorme escala de seu séquito — mais de 60 mil pessoas, incluindo quinhentos escravos que carregavam cajados de ouro puro — impressionou seus observadores e foi uma poderosa expressão de sua riqueza.
No entanto, a expedição tinha um propósito adicional ao demonstrar o prestígio de Mali, já que o rei convidou eruditos muçulmanos e um grande arquiteto, Abu Ishaq al-Sahili, para que voltassem com ele. Abu construiu, mais tarde, as primeiras mesquitas de tijolos da África Ocidental, em Timbuktu e Gao, centros de comércio recém-capturados dos vizinhos Songai.
Sob a liderança de Mansa Musa, o Timbuktu se transformou no principal centro comercial de Mali — impulsionado por sua privilegiada localização na junção do comércio do deserto e das rotas marítimas no curso do Níger — e começou sua ascensão como capital intelectual e espiritual da região. Um centro de ensino cresceu ao redor da mesquita Al-Sahili Sankore, lançando os alicerces da famosa Universidade Sankore e outras madrasas (escolas islâmicas).
Depois da morte de Mansa Musa, Mali ainda cresceu com seu filho, mas logo em seguida governantes fracos, agressões externas e a necessidade de manter as tribos rebeldes sob controle roubaram sua força até ser eclipsada pelo Império Songhai de Gao: em 1550, ela já não era uma grande entidade política. O grande império de Mansa Musa um dos Estados mais prósperos no século XIV — pode ter durado pouco, mas sua famosa hajj teve efeitos duradouros, ajudando a catapultar a dispersão da civilização islâmica na África Ocidental.
Em 1325, um grupo de guerreiros refugiados da América Central, conhecidos como astecas, viram um sinal que seu deus Huitzilopochtli profetizara muito tempo atrás - uma águia pousada sobre um cacto, marcando o local que lhes foi dito que ocupassem. Em pouco tempo, construíram um templo que se tornou o núcleo de sua capital, Tenochtitlán. Em dois séculos, a cidade virou o centro do mais predominante império na história da Mesoamérica — uma grande região que compartilhava a cultura pré-colombiana e se espalhava do centro do atual México em direção ao sul até Belize, Guatemala, El Salvador, Nicarágua e o norte da Costa Rica. Esse progresso foi parecido com o crescimento, quase simultâneo, de Cuzco, a capital dos incas - um povo andino, de começo, humilde, que em algumas décadas criou o maior Estado que a América do Sul jamais havia visto.
Os alicerces dos astecas
Os astecas talvez tenham começado seus deslocamentos no norte do México em torno de 1200. Pelos próximos cem anos eles viveram uma existência miserável como mercenários ou intrusos que eram tolerados, e de nada ajudou sua reputação como cruéis guerreiros para lhes livrar de seus apuros. Com frequência eles precisavam fugir depois cometer atos violentos, às vezes envolvendo sacrifícios humanos; na verdade, sua fuga para Tenochtitlán se deu por causa de um desses incidentes. Os astecas haviam pedido ao seu anfitrião, o senhor de Culhuacán, que lhes desse sua filha para que se casasse com o seu chefe. Ele concordou, achando que ela teria muitas honras como rainha. Mas, para seu horror, eles a mataram e a escalpelaram como sacrifício ao seu deus Xipe Totec. Expulsos pelo senhor e seus soldados, eles fugiram para o sul em direção ao futuro local de Tenochtitlán.
Apesar de o solo ao redor do lago Texcoco, no qual estava a ilha de Tenochtitlán, ser pantanoso e de não haver muita madeira disponível, a capital poderia ser facilmente defendida, e os astecas a usaram para consolidar sua posição. Primeiro protegidos por um acordo com o governante tepaneca Tezozomoc, que dominou o Vale do México de 1371 a 1426, os astecas acabaram formando uma Tríplice Aliança com as cidades de Texcoco e Tlacopan em 1428 — uma união que foi o pontapé inicial de um período de expansão imperial.
A expansão asteca
No começo, a sociedade asteca quase não tinha uma hierarquia formal. Era baseada em comunidades (calpulli), com propriedade coletiva da terra e cujos chefes, com os sacerdotes, tomavam as decisões mais importantes. Em 1376, os astecas escolheram, pela primeira vez, um líder geral para todos (tlatoani), que serviria como chefe, juiz e administrador para o império em ascensão. Sob Itzcóatl (1427-1440), Moctezuma (1440-1469). Axayactl (1469-1481) e Ahuitzotl (1486- -1503), os exércitos astecas subjugaram seus vizinhos no Vale do México e depois se expandiram, alcançando Oaxaca, Veracruz, até a borda da terra controlada pelos povos maias, no leste dos atuais México e Guatemala.
Conforme o Império Asteca se expandiu, a sociedade foi transformada. Surgiu uma elite guerreira, enquanto, na base da sociedade, os escravos (mayeques), que não tinham terras, estavam presos aos seus senhores pelo trabalho. A natureza militarista da sociedade asteca foi acentuada por um sistema educacional no qual todos os homens recebiam treinamento militar (em escolas separadas para nobres e plebeus). Isso reforçou o espírito guerreiro e deu aos astecas uma incalculável vantagem sobre suas tribos vizinhas no México.
O sistema imperial
Tenochtitlán era adornada por muitos templos para os deuses do panteão asteca. Cada deus tinha seu próprio templo. O Templo Mayor tinha dois altares gêmeos dedicados a Huitzilopochtli e Tlaloc, o deus da chuva. Nesses templos, muitos humanos foram sacrificados - até 80 mil na reconsagração do Templo Mayor em 1487, uns queimados vivos ou decapitados, outros tendo seu peito aberto e seu coração arrancado.
Muitas das batalhas astecas eram "guerra de flores": rituais nos quais os oponentes eram capturados (em vez de mortos) e sacrificados para aplacar os deuses astecas, que se acreditava que precisavam de sangue para seu sustento e para manter o sol se movendo pelo céu. Tenochtitlán também cobrava tributos de seus súditos. Apesar de não ter uma burocracia governamental organizada havia os coletores de impostos que cruzavam as 38 províncias do Império Asteca e cobravam tributos que incluíam 7 mil toneladas de milho, 4 mil toneladas de feijão e centenas de milhares de cobertores de algodão todos os anos. O império dependia desses tributos para recompensar a nobreza e os guerreiros, que garantiam que as cidades subjugadas pelos astecas continuassem sob controle, mostrando pouca misericórdia para as que se rebelassem.
Se por um lado os astecas garantiam alguma segurança aos seus súditos, isso era basicamente tudo o que davam. Em Tenochtitlán foram criadas ilhas artificiais (chinampas), muito custosas, para expandir a terra arável para produzir comida, mas nenhuma dessas obras foi feita nas cidades subjugadas. Os estados derrotados não supriam tropas para o exército asteca, logo não compartilhavam dos despojos de futuras vitórias, e quase não havia esforço para propagar a língua asteca. Era um império construído sobre o medo e, no final, se mostrou bem frágil: quando foi invadido por um pequeno grupo de espanhóis liderados por Cortes em 1519, os povos sujeitados correram em direção aos recém-chegados, em vez de defenderem os astecas, e o império sucumbiu em dois anos.
O início dos incas
Os incas, cujas terras centrais se encontravam na altitude central dos Andes ao redor de Cuzco, atual Peru, compartilharam as origens humildes dos astecas, mas sua ascensão ao status imperial foi ainda mais meteórica. Eles começaram como uma pequena, as vezes desprezada tribo, e acabaram desenvolvendo suas próprias estratégias para cooptar grupos vizinhos, visando formar um grande império.
O mito de origem dos incas dizia que seu surgimento foi a partir de uma caverna nas altas montanhas, de onde seu primeiro líder — Manco Capac — liderou seu povo até Cuzco. Acredita-se que os incas chegaram à região por volta de 1200 e por dois séculos continuaram sendo um quase insignificante grupo de agricultores, com sua sociedade dividida em clãs (ayllus) de status parecido.
A expansão inca
Os incas começaram a deixar sua marca como uma potência cerca de 1438, quando o povo vizinho de Chanca tentou expulsar os incas do Vale do Cuzco. Nessa época, os incas tinham um líder supremo (o Sapa Inca) e, apesar de o então líder Viracocha não ter dado conta da tarefa, seu filho Pachacuti derrotou os invasores, tendo em seguida liderado os exércitos incas a conquistar o resto do vale do Cuzco e as altas montanhas ao redor do Lago Titicaca. Sob o filho de Pachacuti, Topa Inca Yupanqui, e o neto Huayna Capac, eles venceram Chimor (o maior estado na costa) cerca de 1470. Então absorveram o resto das altas montanhas ao norte e estenderam seu domínio a partes dos atuais Equador e Colômbia, e ao sul até os desertos no norte do Chile.
Diferente dos astecas, os incas recrutavam tropas de seus povos conquistados (sob o comando de oficiais incas), garantindo-lhes assim parte dos despojos em troca de sua lealdade.
A comunicação inca
O império dos incas era muito centralizado. Censos registravam o número de camponeses que deviam serviço forçado (mitad) ao Sapa Inca. Esse nível de organização permitiu a construção de obras públicas em grande escala. Especialmente vital era a vasta rede de estradas, com 40 mil quilômetros, dotadas em toda a sua extensão de pontos de parada, como hospedagens, que facilitavam o rápido trânsito do exército e garantiam um eficiente sistema de comunicação por todo o vasto domínio inca. Ao mesmo tempo, a domesticação da lhama facilitou o transporte de cargas pesadas por todo o império.
Diferente dos astecas, os incas buscavam, de forma ativa, espalhar sua própria língua (quéchua) e seu sistema de crenças religiosas, que se baseava, primeiro, na adoração de Inti (o deus sol), mas que acabou dando importância proeminente a Viracocha — um deus supremo da criação —, logo uma divindade mais propícia a uma potência conquistadora. Eles também enviavam colonizadores (miqmaq), mudando grupos problemáticos para áreas mais pacíficas para diluir sua resistência e criar redes de colonos leais nos limites do império. Apesar de não haver estatísticas conhecidas, perto do começo do século XVI o Império Inca- que os incas chamavam Tawantinsuyu ("O Reino dos Quatro Quadrantes") — tinha mais ou menos de 4 a 6 milhões de pessoas no total, atuando a favor da minoria inca e seus súditos.
A despeito de suas muitas forças, a natureza altamente centralizada do Império Inca se mostrou fatal no começo dos anos 1530, quando os invasores espanhóis liderados por Pizarro capturaram o Sapa Inca Atahualpa. Sem os seus líderes, os incas entraram em colapso rapidamente.
Os novos colonizadores
Os astecas e os incas construíram os primeiros verdadeiros impérios em suas regiões nas Américas. Foram capazes disso ao criarem um excedente de comida com seus projetos de irrigação, liberando assim grande parte da sua população para lutar nos exércitos que conduziam suas campanhas de expansão. Também reorganizaram a tradicional estrutura tribal para favorecer a elite dos guerreiros e dos nobres. Em ambos os casos, o impulso das conquistas exigia outras guerras para recompensar a casta de guerreiros ou oferecer um incentivo para que os povos recém-conquistados se mantivessem leais, tendo direito assim a ganhar recompensas pela participação em novas campanhas.
Nem os astecas nem os incas sobreviveram tempo suficiente para governar depois que o ritmo de sua expansão diminuiu. Do contrário, talvez tivessem desenvolvido estratégias para garantir uma estabilidade de longo prazo para seus impérios, ou talvez tivessem declinado ao status de cidades-estados, lutando para controlar recursos limitados. Em vez disso, a conquista espanhola dos astecas em 1521 e sua vitória sobre os últimos incas em 1572 puseram fim à ambição de ambos os impérios e deixaram os espanhóis firmemente estabelecidos como governantes coloniais na região nos próximos trezentos anos.
No final de novembro de 1347, um galeão entra no porto de Génova tendo fugido do cerco tártaro de Caffa, na Crimeia. Ele trazia uma carga mortal: a peste bubônica. Em apenas dois anos, essa peste letal matou mais de um terço da população da Europa e do Oriente Médio, alterando o cenário econômico, social e religioso da região para sempre.
A difusão da Peste Negra
Tendo provavelmente começado na Ásia Central ou no oeste da China nos anos 1330, o progresso inicial da praga em direção ao oeste foi lento, mas, após, ter chegado à Crimeia e a Constantinopla em 1347, se espalhou rapidamente pelas rotas marítimas comerciais. Ao alcançar Gênova, apareceu rapidamente na Sicília e em Marselha. Em 1348, atingiu Espanha. Portugal e Inglaterra, chegando à Alemanha e à Escandinávia em 1349.
O principal vetor da epidemia eram as pulgas infectadas e os ratos que as carregavam, e ambos se multiplicaram com as péssimas condições sanitárias da época. Os principais sintomas da doença eram os inchaços, conhecidos como bubões, que apareciam em testículos, pescoço ou axilas. Em seguida surgiam as manchas pretas na pele (daí o nome "Peste Negra") e, depois, cerca de três quartos dos infectados morriam.
As pessoas daquela época atribuíam a pestilência a causas como punição divina pela imoralidade, conjunção adversa dos planetas, terremotos e vapores ruins. Não havia cura, mas aconselhava-se preventivamente a abstinência de comidas difíceis de digerir, o uso de ervas aromáticas para purificar o ar e — a única medida de fato efetiva — evitar o contato com outros.
Mais de 100 milhões de pessoas podem ter morrido com a peste. Estimativas davam a população do mundo em 450 milhões de pessoas antes de ela chegar, e 350 milhões depois dela. Seus efeitos eram mais mortais em certas áreas que em outras — no Egito, acredita-se que 40% da população tenha morrido. O nível populacional de antes da peste só voltou a ser atingido três séculos depois.
Reações à peste
Os sobreviventes reagiram de diversas formas. As comunidades judaicas na Alemanha foram acusadas de causar a peste ao envenenar poços, e muitas foram atacadas. Só em Estrasburgo, 2 mil judeus foram mortos.
Com a diminuição da população, as terras ficaram vagas, o trabalho, escasso, e o poder de barganha dos camponeses aumentou. Em 1350, os trabalhadores ingleses conseguiam ganhar cinco vezes mais que em 1347, e os inquilinos pagavam seus aluguéis em dinheiro em vez de em trabalho compulsório. Os governos tentaram estancar os salários — O Estatuto dos Trabalhadores de 1351 visava congelar os salários nos níveis de 1346 —, mas os trabalhadores responderam com revoltas como a de Jacquerie, na França em 1358, e as Revoltas dos Camponeses na Inglaterra, em 1381.
Quando acabou, a Peste Negra havia matado tanto leigos quanto clérigos, e alguns destes últimos abandonaram seus postos. Como resultado, a autoridade da Igreja, assim como a da nobreza, foi bastante enfraquecida. A peste afrouxou os laços que haviam previamente mantido a sociedade medieval una, deixando uma população mais livre e volátil para lidar com os desafios postos pelo Renascimento, pela Reforma e pela expansão econômica dos séculos XVI e XVII.
Cercado de autoridades no palácio imperial de Nanjing, Zhu Yuzhuang, filho de pobres agricultores, ofereceu sacrifícios para o Céu e a Terra enquanto era proclamado o primeiro imperador da dinastia Ming ("brilhante").
Foi o ápice de uma impressionante ascensão ao poder de um monge que virou um general rebelde e expulsou a desprezível dinastia Yuan — fundada por Kublai Khan, o conquistador mongol da China — que governava o país desde 1279. Zhu reinou como imperador Hongwu ("Imensamente Marcial" uma referência às suas proezas militares) de 1368 até sua morte, em 1398, em cujo período estabeleceu de forma definitiva umas das dinastias mais influentes da China, e uma das mais autoritárias. Ele e seus sucessores trouxeram três séculos de prosperidade e estabilidade ao país, estabelecendo seu governo e burocracia de tal forma que durassem, com pequenas variações, até o fim do sistema imperial em 1911, expandindo a base da sua economia.
Expulsando os mongóis
A nova dinastia de Zhu surgiu do caos que se seguiu ao declínio dos Yuan. Nos anos 1340 e 1350, o fracionamento da corte mongol, a galopante corrupção no governo e uma série de desastres naturais, incluindo pestes e epidemias, resultaram num disseminado desrespeito às leis, à ordem e à administração, com o levante de grupos de camponeses contra seus senhores estrangeiros, que lhes estavam em falta. O próprio Zhu havia perdido a maior parte de sua família num surto de peste em 1344 e, depois de ter passado alguns anos como um monge mendicante, quando chegou a mendigar comida, ele juntou-se aos Turbantes Vermelhos, uma de muitas sociedades secretas de camponeses chineses Han da região, numa rebelião contra os Yuan. Determinado, cruel e um hábil general, o jovem rebelde galgou as fileiras até atingir a liderança dos Turbantes Vermelhos, vencendo, mais tarde, seus rivais e se tornando o líder nacional contra os Yuan.
Zhu assumiu o controle da maior parte do sul e do norte da China e declarou-se imperador antes de expulsar os mongóis de sua capital em Dadu (Pequim) em 1368. O resto do país foi então subjugado, apesar de os mongóis terem resistido no extremo norte até o começo dos anos 1370; a unificação da China não foi alcançada até a derrota das últimas forças mongóis no sul, em 1382.
Reforma e despotismo
A primeira prioridade de Zhu como imperador Hongwu foi estabelecer a ordem - décadas de conflito arruinaram a China e empobreceram sua população rural. Sua origem humilde talvez tenha influenciado algumas de suas primeiras políticas: a responsabilidade pela avaliação dos tributos foi confiada às comunidades rurais, varrendo o problema dos coletores de impostos ladrões que controlavam as regiões mais pobres; a escravidão foi abolida; houve o confisco de muitas e grandes propriedades; e terras que pertenciam ao Estado na região pouco povoada do norte do país foram dadas aos camponeses sem terra para encorajá-los a se fixar por lá.
A partir de 1380, Hongwu instituiu reformas governamentais que lhe deram controle pessoal sobre todas as principais questões do estado. Depois de executar seu primeiro-ministro, que havia se envolvido numa tentativa de golpe para derrubá-lo, ele aboliu o cargo de primeiro-ministro e do secretariado central e fez com que os chefes do próximo nível hierárquico, os seis ministérios, se reportassem diretamente a ele, garantindo que poderia supervisionar até mesmo as menores decisões.
A partir de então, Hongwu passou a atuar como seu próprio primeiro-ministro. Sua carga de trabalho beirava o insuportável — numa única semana tinha que analisar e aprovar quase 1.600 documentos —, e como resultado o Estado ficou incapaz de responder rapidamente às crises. Apesar de ter surgido, na época, um grande secretariado — um conselho consultivo através do qual o imperador respondia aos seis ministros e a outras agências governamentais —, os Ming mantiveram uma estrutura mais autocrática e altamente centralizada que todas as dinastias anteriores. Isso também se refletia no protocolo da corte Ming: na dinastia Song (960-1279), os conselheiros do imperador ficavam de pé para discutir com ele questões de estado, mas, sob os Ming. exigia-se que eles kowtow — se ajoelhassem e tocassem sua cabeça no chão — diante dele, um reconhecimento reverencial de seu poder absoluto e de sua superioridade.
Impondo limites aos militares
Nos últimos anos da dinastia Yuan, o Estado se dividira por bases de poder em conflito fora da corte central. Para evitar tal cenário, Hongwu diluí a força do exército. Apesar de ele ter adotado o sistema militar dos Yuan — estabelecendo guarnições em cidades-chave, sobretudo na fronteira norte, onde a ameaça de incursões nômades estava sempre presente, e criando uma casta hereditária de soldados que se sustentava nas terras dadas pelo governo —, também garantiu que as unidades militares passassem por um rodízio de treinamento por toda a capital e que um grupo de oficiais selecionados de forma centralizada compartilhasse a autoridade no exército com os comandantes de guarnições, evitando assim a ascensão de influentes senhores da guerra com uma forte base local.
Aperfeiçoando o serviço público
Hongwu também tinha uma profunda desconfiança da classe da elite erudita, que se manteve no coração do governo por séculos. Porém tinha consciência de que eles desempenhavam um papel vital na boa administração do Estado, de modo que promoveu a educação e treinou estudiosos especialmente para a burocracia. Em 1373, suspendeu os concursos tradicionais usados para selecionar servidores públicos e ordenou a abertura de escolas nos níveis local e de condado. A partir delas, os melhores candidatos seriam chamados para estudos adicionais numa universidade nacional na capital, onde estavam inscritos quase 10 mil estudantes das melhores classificações. Os concursos públicos foram restaurados em 1385, quando o imperador considerou que os formandos bem treinados pela universidade já estavam aptos a assumi-los e eram tão competitivos que soldados ficavam de prontidão fora dos cubículos dos candidatos para evitar qualquer colaboração ou uso ilícito de consulta a referências.
O grupo de potenciais candidatos à administração ficou assim bem mais amplo, mas os servidores públicos ainda recebiam uma educação bastante conservadora, baseada nos Quatro Livros e nos Cinco Clássicos do confucionismo e na seleção de obras neoconfucionistas que expandiam as virtudes da lealdade ao imperador e da adesão à tradição chinesa. A inovação era desencorajada, e os burocratas foram postos em seu lugar. Aqueles de quem se desconfiava terem se desviado de suas obrigações eram açoitados em público, às vezes até a morte.
Os maus-tratos aos servidores públicos eram um sinal do lado cruel da personalidade de Hongwu. Ele também tinha uma paranoia violenta e era cruel no combate à discordância. Em 1382, estabeleceu uma polícia secreta, a Guarda Brocado-Folheada, cujos 16 mil oficiais esmagavam qualquer sina de resistência. A influência e o alcance da Guarda eram amplos, fazendo que, até os últimos anos de seu governo, a dinastia Ming não experimentasse nenhuma rebelião significativa, quer pelos militares, quer pela aristocracia.
Diplomacia internacional
A autoconfiança da dinastia pareceu crescer ainda mais sob o sucessor de Hongwu, Yongle (que reinou de 1402 a 1424), que mudou a capital de Nanjing para Pequim, embarcando num ambicioso programa de reconstrução e de obras públicas, incluindo medidas para melhorar a navegação do Grande Canal. Ele também construiu a extravagante Cidade Proibida, berço de um complexo de palácios com mais de 9 mil cômodos.
A inicialmente agressiva política externa de Yongle levou a quatro campanhas contra a Mongólia e um ataque ao Annam (Vietnã), em 1417, que resultou em sua incorporação ao Império Ming. Também buscou o reconhecimento de governantes de estados muito distantes: entre 1405 e 1433, lançou seis expedições marítimas de grande escala ao sudeste asiático, leste da África e Arábia. Lideradas pelo grande almirante de frota Zheng He, » seu propósito era confirmar a dominação da China sobre a área ao estabelecer tributos e outros gestos de reconhecimento ao imperador.
A dinastia Ming posterior
No entanto, os enormes custos das ambiciosas empreitadas de Zheng He tiveram um enorme custo fiscal, e, para garantir que jamais fossem repetidas, todos os registros a elas relacionados foram destruídos. A ideologia oficial considerava a China como o centro do mundo, e os Ming que vieram depois não viam razão para encorajar outros contatos marítimos. Os chineses não consideravam as relações com outras potências exteriores como possíveis em bases iguais: quando havia relações diplomáticas, os estrangeiros eram considerados (pelo menos pelos Ming) como tributáveis. A confiança e a estabilidade da burocracia Ming também criaram um senso de autossuficiência, dependendo pouco de influências externas.
Os barcos que navegavam pelos oceanos eram obrigados a reportar toda a carga que traziam, e o comércio marítimo privado foi várias vezes banido (até ser legalizado de novo em 1567 para qualquer comércio, exceto com o Japão). Em Pequim, o contato não autorizado de um lojista com estrangeiros poderia resultar no confisco de seu estoque. O isolamento diplomático foi reforçado pela incerteza militar: Annam ficou novamente independente em 1428, enquanto se gastavam enormes recursos para conter a ameaça das tribos mongóis na fronteira norte da China. Em 1449, o imperador Zhengtong liderou pessoalmente uma desastrosa campanha contra o líder mongol Esen Khan, na qual a maioria dos 500 mil soldados chineses morreu de fome, foi capturada pelo inimigo ou pereceu numa batalha final conforme batia em retirada.
A extensão da Grande Muralha
Nos anos 1470, a construção dos estágios finais da Grande Muralha — que havia começado a ser construída na dinastia Qin no século II a.C. — não era apenas uma aposta para prevenir desastres similares, mas também para compensar a diminuição da energia dos Ming. Como seus predecessores, eles foram incapazes de absorver as terras dos grupos nômades ao norte da fronteira ou de enviar expedições que tivessem qualquer efeito duradouro para desencorajar seus ataques. Portanto, uma fronteira fixa, com fortes guarnições de defesa, era a melhor compensação.
Durante o século XVI, uma sucessão de imperadores de curto reinado que eram dominados por suas consortes, mães ou por conselheiros eunucos (castrados), foi encerrada pelo longo reinado de Wanli (1573-1620), que simplesmente se retirou por completo da vida pública: nas últimas décadas de seu governo, ele se recusava até a se encontrar com seus ministros. A dinastia começou a declinar: a máquina do governo tinha pouca força para responder à séria ameaça dos jurchen na Manchúria (atual nordeste da China). Em 1619, esse povo tribal, que mais tarde passou a se chamar "manchu", começou a invadir as fronteiras ao norte da China.
Comércio global
Economicamente, no entanto, a grande produtividade da China dos Ming foi um ímã para os estados marítimos europeus em busca de novas conexões comerciais no leste da Ásia, e, no começo do século XVI, os comerciantes europeus finalmente chegaram à costa da China. Em 1513, uma frota portuguesa apareceu em Cantão (hoje Guangzhou) no sul, e, em 1557, Portugal estabeleceu uma base permanente em Macau. Mercadores espanhóis e portugueses (os primeiros operando a partir de Nagasaki no Japão e de Manila, nas Filipinas) e a partir de 1601, os holandeses asseguraram uma parcela importante do comércio com a China.
Apesar de a política Ming desencorajar o comércio marítimo, mercadores individuais chineses participaram ativamente na recuperação da economia. Muito antes disso, já haviam florescido colônias chinesas em Manila e em Java, na Indonésia, perto da cidade comercial controlada pelos holandeses em Batavia, e os mercadores chineses controlavam uma grande parcela do comércio local no sudeste asiático. A sofisticação técnica da indústria da porcelana chinesa sob os Ming levou, pela primeira vez, à produção em massa de cerâmica para exportação a mercados europeus.
Os efeitos desse crescimento no comércio, no entanto, não foram de todo positivos: ao mesmo tempo que um enorme influxo de prata das Américas e do Japão, usada pelos europeus para pagar os bens chineses como seda, bens envernizados e porcelana, estimulou o crescimento econômico, também causou inflação.
Mudança tecnológica
A China Ming havia herdado inovações científicas e tecnológicas da dinastia Song, que deixou o país na vanguarda de muitos campos científicos, incluindo a navegação e as aplicações militares para a pólvora - uma substância descoberta durante a era Tang e cujo uso se espalhou para Europa a partir da China no século XIII. Sob os Ming, no entanto, o ritmo do progresso diminuiu, e, na parte final da dinastia, as ideias começaram a fluir da Europa para a China. Os militares chineses começaram a usar artilharia de fabricação europeia, e o conhecimento da matemática e da astronomia europeia foi introduzido no país por missionários jesuítas, como Matteo Ricci, que morou em Pequim entre 1601 e 1610. Ele traduziu a Geometria, do matemático grego Euclides para o chinês, bem como um tratado sobre o astrolábio (um instrumento astronômico usado para medir a altitude do Sol e das estrelas). Em 1626, o jesuíta alemão Johann Adam Schall von Bell escreveu o primeiro tratado em chinês sobre o telescópio, levando o heliocentrismo (o modelo astronômico no qual o Sol estava no centro do Universo) para uma audiência chinesa.
O colapso Ming
Os últimos Ming começaram a sofrer muitos dos mesmos problemas que levaram à queda dos Yuan. A quebra nas safras reduziu a produtividade da vasta agricultura na China, e a fome e as inundações levaram à uma insatisfação geral nas áreas rurais. Os soldos militares começaram a atrasar, causando problemas disciplinares e deserções, ao passo que levantes camponeses localizados começaram a se juntar em revoltas mais gerais. Enquanto isso, na fronteira nordeste, os manchus haviam construído um Estado ao longo das linhas chinesas em Mukden, na Manchúria — chamando o seu regime de dinastia Qing em 1636 —, e estavam se preparando para se aproveitar do iminente colapso Ming. Foram ajudados, nesse intento, por uma revolta liderada por Li Zicheng, lider rebelde cujas forças entraram, sem resistência, em Pequim em 1644, fazendo com que o imperador se suicidasse. Em desespero, os militares Ming pediram ajuda aos manchus. Os tribalistas varreram a capital e expulsaram os rebeldes, só que logo depois tomaram o trono e proclamaram a dinastia Qing na China.
Um legado duradouro
Apesar de os Ming terem se tornado vítimas de uma crise agrária que coincidiu com novas atividades nômades em suas fronteiras, essa era uma combinação que já havia derrubado outras dinastias antes. A burocracia que dera à China séculos de constância e reduzira a possibilidade, ou até a necessidade, de discordância interna foi lenta em se adaptar aos tempos de crises rápidas.
Ainda assim a era Ming trouxe grande riqueza e sucesso para a China. A população cresceu de quase 60 milhões no começo de seu domínio para quase três vezes mais em 1600. A maior parte desse crescimento foi centrado em cidades mercantis de tamanho médio, em vez das grandes cidades, e um crescimento na produção agrícola levou à ascensão de uma rica classe de mercadores nas províncias. Muitos dos elementos do governo ordeiro inaugurado por Hongwu foram absorvidos pela posterior dinastia Qing, dando à China um grau de unidade, estabilidade e prosperidade que os Estados europeus daquela época só podiam invejar e admirar.
À meia-noite de 2 de janeiro de 1492, Abu 'Abd Allah, o emir muçulmano de Granada, entregou as chaves de sua cidade ao rei Fernando e à rainha Isabel, governantes conjuntos dos Estados cristãos espanhóis de Aragão e Castela. Esse ato marcou o fim de quase oitocentos anos de domínio muçulmano na Península Ibérica e o eclipse de uma grande civilização, famosa por seu esplendor arquitetônico e sua tradição de erudição. Ao mesmo tempo, sinalizou o início de uma Espanha autoconfiante e unida que em breve canalizaria suas energias das Cruzadas contra os vizinhos muçulmanos para a construção de um império ultramarino no Novo Mundo.
As conquistas cristãs
A Espanha muçulmana (ou al-Andalus) começou com a conquista islâmica do reino visigodo, em 711. A resistência cristã sobreviveu em Astúrias, no extremo norte, mas demorou séculos para que os reinos de Castela, Aragão, Leão e Navarra ganhassem força para lentamente avançar ao sul em terras muçulmanas. Essa retomada gradual, conhecida como a Reconquista, se deu durante o século XI, quando a região muçulmana se dividiu em inúmeros e concorrentes emirados (taifas) e perdeu sua importante e estratégica cidade de Toledo, no centro da Espanha, em 1085.
O crescimento do espírito cruzado no oeste da Europa também acelerou o progresso da Reconquista. As Cruzadas formais contra os muçulmanos espanhóis (ou mouros) foram declaradas diversas vezes em meados do século XIV, fazendo surgir uma cultura militar na qual as incursões sobre al-Andalus assumiram ares de expedições justas. A partir do século XII, ordens militares, com as de Santiago e de Alcântara, foram fundadas. Elas com frequência capitaneavam avanços independentes em territórios muçulmanos, juntando enormes riquezas no processo, o que lhes garantiu sustentar campanhas e pagar o resgate de prisioneiros cristãos capturados em batalhas. Também repovoaram as terras que foram sendo conquistadas dos muçulmanos pelos cristãos.
O fim da Espanha muçulmana
Em Portugal, a Reconquista foi completada pela retomada do Algarve em 1249, enquanto na Espanha os muçulmanos mantiveram o poder no sul. Porém isso não duraria muito tempo. Em 1474, a rainha Isabel ascendeu ao trono de Castela, no norte da Espanha. Seu marido Fernando já era rei do Estado vizinho de Aragão, e ambos decidiram expulsar para sempre os muçulmanos do sul. A união das duas Coroas lhes permitiu devotar mais recursos para o fim da Reconquista, dando fim também a séculos de disputas internas entre os cristãos, e essa unidade coincidiu com um período de divisão muçulmana. A partir de 1482, os monarcas fizeram uma série de campanhas militares para conquistar Granada — o último emirado muçulmano na Península Ibérica. Cidades foram cercadas e caíram uma após a outra, até que por fim a grande cidade de Granada se rendeu em 1492.
A despeito de um acordo costurado com a capitulação de Granada, que previa garantias como a liberdade de religião, em 1502 os monarcas decretaram que qualquer muçulmano com mais de catorze anos que se recusasse a se converter ao cristianismo teria que deixar a Espanha em até onze semanas. Esse édito, combinado com a expulsão da grande comunidade de judeus de Granada dez anos antes, deixou a Espanha mais homogênea e menos tolerante, e o impulso cruzado, agora desprovido de alvos claros, teria que encontrar outros canais.
A expedição de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo em 1492 — mesmo ano da queda de Granada — deixou a Espanha com uma única saída, levando à colonização das Américas e à sua subsequente ascensão à primeira superpotência global.
Em 1443, a corte coreana do rei Sejong anunciou a criação do Thangul, um alfabeto nacional para a língua coreana, e lançou um programa de publicações na nova escrita. A medida foi uma dentre várias estratégias encorajadas pelo rei da Coreia desenvolvidas para estabilizar a Coreia e aumentar a prosperidade, tendo permitido que sua dinastia Gojoseon (ou Yi) sobrevivesse por 450 anos.
A ascensão da dinastia Yi
A dinastia mongol Yuan controlou a península coreana do final do século XI até 1368, quando foi derrubada pela dinastia Ming. A Coreia foi deixada no caos enquanto seus reis Koryo tentavam reverter os efeitos de um século de dominação autoritária. A redistribuição de terras e o saque dos ministros pró-mongóis quase levaram a uma guerra civil, mas em 1392 o avô de Sejong. Yi Söngyye, um ex-general, assumiu o poder, depondo o último rei Koryo e assumindo o trono como rei T'aejo.
A prioridade imediata do rei T'aejo foi garantir a estabilidade, e a instalação de uma ideologia estatal baseada no neoconfucionismo foi chave para seu sucesso. Essa ideologia buscava restabelecer boas relações entre o soberano e seu povo e conferir status privilegiado a uma classe burocrática que atuaria como guardiã da hierarquia social. O budismo era a ideologia dominante sob a dinastia Koryo, mas T'aejo minou sua dominação ao dissolver grandes propriedades controladas por templos budistas e redistribuindo as terras, algumas para templos confucionistas.
O neoconfucionismo enfatizava a importância da educação como forma de produzir uma classe de letrados capaz de garantir o funcionamento harmônico do estado. O neto de T'aejo, rei Sejong (reinou de 1418 a 1450), elevou esse princípio a um novo patamar ao fundar, em 1420, a Chiphyon-jon (Sala das Coisas Dignas), um grupo de elite de vinte eruditos cuja tarefa era pesquisar o que promovesse a melhor administração do reino.
O encorajamento a uma educação mais ampla era um importante ideal neoconfucionista, e T'aejo já havia ordenado a fundação de escolas com financiamento estatal. Naquela época, porém, o coreano era escrito em caracteres chineses, os quais não se adaptavam bem à expressão dos sons da língua. Dizem que o próprio Sejon desenvolveu a escrita mais simplificada, o hangul, cujos princípios foram explicados nos Sons adequados para educação do povo, um livro publicado em 1445. Tendo apenas 28 caracteres — mais tarde reduzidos para 24 —, a escrita era muito mais fácil que o chinês para se aprender, mas sua introdução enfrentou uma forte resistência dos nobres tradicionalistas. Eles temiam que ela pudesse abrir os concursos públicos para pessoas de outras classes sociais, o que traria o risco de diluir seu poder. Como resultado, o hangul deixou de ser usado, relegado como "letras vulgares" das ordens inferiores, até ter sido redescoberto no século XIX, desde então muito importante como veículo do nacionalismo coreano.
As reformas de T'aejo e Sejong, no entanto, sobreviveram e criaram uma classe de yangban — uma elite no funcionalismo público dedicada à perpetuação do estado. A yangban também atuava como um freio para qualquer tendência à autocracia entre os monarcas Yi, o que ajudou a dinastia a durar mais de cinco séculos.
Em 1453, os turcos otomanos atacaram e tomaram a cidade do Império Bizantino. A perda desse império cristão milenar, que chegara a ocupar quase toda a extensão às margens do Mediterrâneo, foi um profundo choque para o mundo cristão. Para simbolizar a vitória muçulmana, a Sancta Sophia, uma das maiores catedrais da cristandade, foi convertida numa mesquita.
Os turcos otomanos já haviam conquistado a maior parte do território ao redor antes que o sultão Maomé (1432-1481) cercasse a cidade e a bombardeasse com artilharia pesada. Tendo rompido suas muralhas, seu exército de mais de 80 mil homens destruiu a pequena força que estava ali dentro.
Constantino XI, o último imperador bizantino, foi morto, e com a queda da cidade seu império chegou ao fim. Constantinopla, então, tornou-se a capital do Império Otomano, que durou até 1922.
Um império enfraquecido
O Império Bizantino já estava em profundo declínio quando Constantinopla foi tomada. Ele encolheu a ponto de incluir apenas a cidade, um punhado de terras a oeste e a parte sul da Grécia. O declínio começou na Batalha de Manzikert (1071), durante a qual o exército da dinastia seljúcida expulsou os bizantinos do importantíssimo território da Anatólia. A partir de então, pretendentes rivais ao trono de Bizâncio, disputas por impostos, perda de receita com o comércio e fraca liderança militar contribuíram, como um todo, para a contração do império.
Em 1203, a Quarta Cruzada — uma expedição da Europa Ocidental cuja meta original era a conquista de Jerusalém — viu-se enredada na política do império. Alguns dos líderes cruzados juraram ajudar a restaurar o imperador bizantino deposto, Isaac II Ângelo, em troca de apoio para sua expedição. No início tiveram sucesso: o filho de Ângelo foi coroado como coimperador, mas em 1204 acabou sendo deposto por uma revolta popular. O senado bizantino elegeu um jovem nobre, Nicolas Canabus, como imperador, e ele se recusou a apoiar os cruzados. Não tendo recebido o pagamento prometido, os cruzados e seus aliados, os venezianos, responderam com um cruel ataque à cidade. Violentaram e mataram civis, saquearam igrejas e demoliram inestimáveis obras de arte. Constantinopla chegou perto de ser destruída.
A ascensão dos otomanos
Antes de capturar Constantinopla, o Império Otomano já havia se expandido da Anatólia até os Bálcās. Depois disso, no século XVI, avançou até o leste do Mediterrâneo, às margens do Mar Vermelho, e dali para o norte da África. A derrota dos mamelucos no Egito em 1536 e a guerra contra os safávidas, uma das mais importantes dinastias a governar a Pérsia, deram aos otomanos o controle sobre toda a faixa do Oriente Médio árabe.
O Império Otomano era um Estado muçulmano, e os sultões consideravam seu dever promover a disseminação do islã. Porém ele tolerava cristãos e judeus, com um status inferior, e usava escravos em profusão. Falavam-se muitas línguas, e havia muitos credos dentro de seus domínios, mas o império teve de lidar com as diferenças políticas e religiosas, em potencial conflito, ao estabelecer estados vassalos (subordinados) em algumas regiões. Territórios como a Transilvânia e a Crimeia pagavam tributos regulares ao imperador, mas não eram governados diretamente por ele, fazendo o papel de zonas intermediárias entre as áreas cristãs e muçulmanas. Alguns Estados vassalos, como Bulgária, Sérvia e Bósnia, foram por fim absorvidos pelo grande império, enquanto outros mantiveram seu status de vassalos.
O governo e os militares
Os otomanos desenvolveram um forte sistema de governo que combinava administração local com controle central. O sultão — cujos irmãos geralmente eram mortos quando da sua ascensão — era o líder supremo. Ele tinha um grupo de conselheiros e, mais tarde, um substituto que governava em seu lugar. As áreas locais eram administradas por governadores militares (beis) sob controle geral do imperador, mas conselhos locais restringiam o poder dos beis.
Comunidades não muçulmanas no império tinham certo grau de autogoverno através de um sistema de tribunais distintos, chamados millets — que permitiam às comunidades armênias, judaicas e cristãs ortodoxas julgar de acordo com suas leis os casos que não envolvessem muçulmanos. Esse equilíbrio entre o controle central e o local permitiu aos otomanos preservar unido um império enorme e diverso por muito mais tempo do que teria sido possível com um sistema muito mais centralizado.
O exército otomano também foi crucial para o sucesso do império. Ele era tecnicamente avançado — usando canhões a partir do cerco de Constantinopla — e sofisticado em termos táticos. Suas unidades de cavalaria veloz conseguiam transformar aquilo que parecia uma retirada num devastador ataque pelos flancos, cercando os inimigos numa formação, em forma de lua crescente, que os tomava de surpresa.
No cerne desse exército estavam os janízaros, uma unidade de infantaria que começou como guarda imperial e se expandiu até se tornar a força de elite mais temida do período. A princípio, a unidade era composta por homens que, ainda crianças, haviam sido raptados de famílias cristãs nos Bálcās. Segundo o sistema do devsirme, também conhecido como "imposto do sangue", ou "tributo do sangue", meninos entre oito e dezoito anos eram tomados por militares otomanos, convertidos à força ao islã e enviados para viver com famílias turcas, onde aprendiam a língua e os costumes dos turcos. Então recebiam um rigoroso treinamento militar, e qualquer um que mostrasse talento diferenciado era selecionado para cargos específicos, que iam de arqueiros a engenheiros. Os janízaros não podiam se casar até que tivessem dado baixa do serviço militar, mas recebiam benesses e privilégios especiais para garantir sua obediência única ao governante. Apesar de serem apenas uma pequena fração do exército otomano, tinham um papel de liderança e desempenharam uma parte importante em muitas vitórias, incluindo aquelas contra o Egito, os húngaros e em Constantinopla.
O apogeu otomano
O império atingiu o seu ápice sob o imperador Suleiman, o Magnífico. Ele teceu uma aliança com os franceses, contra os Habsburgo do Sacro Império Romano-Germânico, e assinou um tratado com os governantes safávidas da Pérsia que dividiu a Armênia e a Geórgia entre as duas potências e deixou o Iraque sob domínio otomano. Suleiman conquistou boa parte da Hungria e chegou até a cercar Viena, se bem que não teve sucesso em conquistá-la.
Os otomanos levaram sua fé islâmica aos novos territórios, construindo mesquitas em todos os lugares e com elas vieram os eruditos e a educação. As cidades otomanas eram impressionantes. A própria Constantinopla foi quase toda reconstruída: eles reforçaram suas fortificações, adicionaram muitas mesquitas, bazares e fontes. O deslumbrante centro da cidade era o palácio real de Topkapi, comissionado pelo sultão Maomé 11 por volta de 1460. Pedreiros, britadores e carpinteiros foram trazidos de longe para garantir que o complexo fosse um monumento perene. Continha mesquitas, um hospital, padarias e uma casa da moeda, entre muitas outras coisas, e anexas a ele havia sociedades imperiais de artistas e artesãos que produziam algumas das melhores obras do império.
Declínio gradual
Esse florescimento cultural continuou após a morte de Suleiman, mas o império enfrentou sérios desafios em outras áreas. Uma crescente população fazia pressão sobre as terras disponíveis; houve ameaças militares e revoltas internas; e a derrota para uma coalização de forças católicas na batalha naval de Lepanto em 1571 impediu a expansão do império do lado europeu do Mediterrâneo.
O Império Otomano perdeu prestigio e influência gradualmente, até que atingiu seu declínio e ganhou o apelido de "homem doente da Europa". Incapaz de resolver as convulsões do século XIX, perdeu território e lutou contra uma crescente maré de nacionalismo entre os povos que conquistou. Sua longa história por fim acabou com a derrota na Primeira Guerra Mundial e a fundação do moderno estado da Turquia por Kemal Atatürk.
Cristóvão Colombo (c. 1451-1506), navegador e comerciante italiano de Gênova, fez uma jornada em 1492 que deu início a um contato duradouro entre América e Europa, mudando o mundo.
Quando zarpou, Colombo esperava chegar até a Ásia, já que nenhum europeu da época sabia que existia um continente inteiro bloqueando essa rota. Quando chegou a uma ilha nas Bahamas depois de navegar cinco semanas, ele acreditou haver alcançado alguma parte da Indonésia. A partir de lá, ele continuou a explorar o Caribe, visitando Cuba, São Domingos e várias outras ilhas. Defrontou-se com uma resposta em sua maioria pacífica por parte dos nativos, que observou poderem ser bons servos e escravos. Também percebeu suas joias de ouro e levou amostras do ouro local, bem como alguns nativos prisioneiros, de volta à Europa.
Colombo retornaria ao Caribe em três outras viagens, levando consigo inúmeros visitantes e colonizadores europeus.
Motivações para explorar
Os governantes e mercadores da Europa Ocidental queriam explorar o Atlântico sobretudo por razões econômicas. As especiarias que não podiam ser produzidas na Europa por causa do clima, como canela, cravo, gengibre, noz-moscada e pimenta, eram valorizadas não só pelo seu sabor, mas também por seu uso na preservação de alimentos. Também havia um mercado muito interessado em bens de luxo, como seda e pedras preciosas, mercadorias que vinham principalmente de ilhas da Indonésia, como as Molucas, conhecidas na Europa como as Ilhas das Especiarias.
Trazer tais mercadorias pela Ásia por terra era difícil e perigoso devido a suas guerras locais e instabilidades ao longo da rota. Também custava caro, já que durante a jornada os bens teriam de passar pela mão de diversos mercadores. Com certeza havia excelentes razões econômicas para desenvolver rotas marítimas: qualquer um que pudesse encontrar uma forma mais direta de importar esses bens para a Europa Ocidental ficaria bastante rico.
Outra razão para os europeus começarem a explorar rotas marítimas no fim da Idade Média era para investigar a possibilidade de estabelecer colônias europeias na Ásia Elas poderiam não só funcionar como entrepostos comerciais, mas também como base para missionários, que poderiam converter os locais ao cristianismo. Eles achavam que isso poderia reduzir o risco premente do islamismo.
Nos séculos XIV e XV, espanhóis, portugueses, ingleses e holandeses desenvolveram barcos e treinaram marinheiros para fazer longas jornadas. Os exploradores usavam vários tipos de embarcações, sendo as caravelas as de maior sucesso — eram rápidas, leves e fáceis de navegar, normalmente equipadas com um mix de velas quadradas e triangulares. Estas últimas tornavam possível navegar contra o vento, permitindo aos exploradores avançar, mesmo em condições desfavoráveis de vento. Eles também usavam a nau, um barco maior mas similar. Em sua primeira viagem transatlântica, Colombo usou duas caravelas, cada uma de cerca de cinquenta a setenta toneladas, e uma nau de quase cem toneladas, usando a capacidade adicional para carga.
Houve um rápido desenvolvimento de habilidades e tecnologias tanto na construção de navios quanto na navegação. Os navegantes usavam a balestilha — um instrumento básico de visão — e, mais tarde, o astrolábio marinho para calcular a latitude do barco. Isso era feito medindo-se ângulos, como o ângulo do Sol em relação ao horizonte. Eles usavam uma bússola magnética para a direção, e seus conhecimentos sobre mapas, ventos e correntes foram melhorando a cada viagem.
Navegadores portugueses
Os navegadores europeus já haviam navegado pelo Atlântico por várias décadas. Marinheiros de Bristol, Inglaterra, por exemplo, navegavam nos anos 1470 em busca de uma ilha mítica chamada "Brasil", a qual achavam estar a oeste da Irlanda. Os portugueses estabeleceram colônias comerciais na Madeira, e o príncipe Henrique, o Navegador; filho do rei de Portugal João 1, comissionou diversas jornadas de exploração dos Açores no século XV. Henrique começou a primeira escola de navegação oceânica, com um observatório astronômico em Sagres, Portugal, em cerca de 1418. Lá ele promoveu o estudo de navegação, cartografia e ciência. Enviou navios para a costa oeste da África, atraído em particular pelo seu potencial de comércio de escravos e ouro. Seus barcos foram mais ao sul, estabelecendo entrepostos comerciais ao longo do caminho. Os governantes que o seguiram continuaram a financiar viagens, e, em 1488, o capitão português Bartolomeu Dias contornou a ponta mais ao sul da África. Pouco depois, outro navegador português, Vasco da Gama, liderou o esforço de atravessar o Cabo e seguir adiante através do oceano Índico, ligando a Europa e a Ásia pela primeira vez por uma rota oceânica.
Já que Portugal dominava a rota marítima ao longo da costa da África, seu vizinho e rival europeu, a Espanha, precisava achar uma rota alternativa, caso quisesse ter acesso às riquezas do Oriente. Apesar de as pessoas educadas da época saberem que a Terra era redonda, não conheciam a existência das Américas. Um caminho alternativo para o Oriente parecia ser portanto, navegar a oeste pelo Atlântico. Essa rota parecia ser especialmente atraente para muitos navegantes-incluindo Cristóvão Colombo que acreditavam que o diâmetro do planeta fosse bem menor do que realmente é.
Em busca de financiamento
Em 1485, Colombo apresentou ao rei de Portugal, João, um plano para cruzar o Atlântico até as Ilhas das Especiarias. João, no entanto, se recusou a investir no projeto. Isso se devia, em parte, ao fato de Portugal já estar explorando a costa da África Ocidental com algum sucesso, em parte porque os especialistas consultados por João estarem céticos quanto às distâncias envolvidas.
Colombo lançou sua rede mais além, buscando apoio de cidades marítimas mais poderosas como Genova e Veneza, inclusive enviando seu irmão para a Inglaterra com o mesmo objetivo- mas não recebeu nenhum encorajamento. Ele, portanto, se voltou para Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os "monarcas católicos" que governavam a Espanha juntos. A princípio, eles não aceitaram, já que seus consultores de navegação também eram céticos a respeito da distância da rota proposta, mas por fim, depois de longas negociações, concordaram em financiar a viagem. Garantir uma nova rota comercial decerto traria recompensas materiais mas Isabel também viu a viagem em termos de uma missão religiosa que levaria a luz do cristianismo ao Oriente.
Colombo zarpa para o oeste
Tendo sido prometidos o vice-reinado e o governo de quaisquer terras que pudesse reivindicar para a Espanha, mais alguns benefícios, incluindo 10% de todas as receitas geradas, Colombo partiu para o oeste em 1492. Visitou a Gran Canária antes de ir a oeste, vendo a terra cinco semanas depois. No começo de 1493 voltou à Europa com dois navios, tendo o terceiro afundado na costa do atual Haiti, e foi devidamente apontado governador das Índias.
A segunda expedição de Colombo foi organizada não mais que sete meses depois. Ela contava com dezessete navios carregados com 1.200 homens que fundariam colônias espanholas no Caribe. Junto com agricultores e soldados, os colonizadores incluíam padres que haviam sido especificamente incumbidos de converter os nativos ao cristianismo. A conversão religiosa tornou-se uma parte importante da colonização europeia, ilustrando a ambição colonial de impor sua própria cultura e exercer o controle sobre os povos recém-colonizados.
O feito de Colombo em 1492 é com frequência descrito como a "descoberta" europeia da América. Essa é uma alegação problemática não apenas porque Colombo pensou que havia chegado à Ásia, mas também porque os vikings da Escandinávia já haviam chegado à América do Norte quase quinhentos anos antes — vestígios arqueológicos em L'Anse aux Meadows, em Newfoundland, revelam que eles até tiveram um assentamento lá. No entanto, o povoamento viking não durou muito e era desconhecido de Colombo e seus contemporâneos.
Porém, a jornada de Colombo em 1492 de fato inaugurou um contato duradouro entre as Américas e a Europa. A terrível destruição que ele e seus homens trouxeram aos povos indígenas das Índias Ocidentais que encontrou quando de sua primeira chegada às Américas também iniciou um processo de dizimação das populações americanas nativas que continuaria por um século.
Espanha e Portugal assinaram um tratado em 7 de junho de 1494, em Tordesilhas, na Espanha, que pôs fim às disputas dos países sobre a posse do território recém-descoberto. Os governantes definiram uma linha de demarcação no meridiano de 370 léguas a oeste das Ilhas Cabo Verde. Todas as terras a oeste dessa linha pertenceriam à Espanha; as que estivessem a leste seriam de Portugal. A linha foi escolhida por causa de sua localização: ela ficava, grosso modo, na metade do caminho entre as Ilhas Cabo Verde, que já pertenciam a Portugal, e as Ilhas do Caribe, que foram incorporadas por Cristóvão Colombo à Espanha em 1492. Por volta dos anos 1490, os dois países estavam descobrindo territórios importantes, incluindo as terras no Novo Mundo, apesar de nessa época o tamanho e a extensão das Américas não estarem muito claros para os europeus. Embora a Coroa espanhola tenha financiado as viagens de Colombo, os direitos da Espanha sobre suas novas descobertas não eram fato consumado. Em 1479, o tratado de Alcaçovas entre os monarcas católicos da Espanha e os governantes de Portugal deu todas as terras recém-descobertas ao sul das Ilhas Canárias para Portugal. Quando Colombo desembarcou em Lisboa depois de sua primeira viagem, ele disse a João II, rei de Portugal, que estava reivindicando São Domingos e Cuba para seus apoiadores espanhóis. João escreveu de imediato aos governantes da Espanha para dizer que estava se preparando para mandar seus próprios navios para reivindicar o Caribe para Portugal.
Legalizando a posse
Para prevenir que tais disputas surgissem cada vez que um navegador fizesse uma nova descoberta, es líderes desses países decidiram revisar os termos do tratado de Alcaçovas. O papado esteve envolvido no acordo de 1479, e agora o papa Alexandre vi (um espanhol) propôs uma linha divisória combinada de norte a sul e leste a oeste, sugerindo que quaisquer terras a oeste e ao sul de uma linha de cem léguas dos Açores e das Ilhas Cabo Verde fossem dadas à Espanha. João rejeitou a proposta, considerando-a favorável a seus rivais, e, ao final, todas as partes envolvidas concordaram com o meridiano entre as Ilhas Cabo Verde e o Caribe. O tratado resultante estabeleceu uma agenda para futuras colonizações e influenciou o destino de enormes territórios no mundo.
Colônias portuguesas
Na época em que o Tratado de Tordesilhas foi assinado, Portugal já havia tomado a dianteira na exploração da África e do sul da Ásia. Indo para o sul a partir de uma base norte-africana em Ceuta, os exploradores estabeleceram uma série de entrepostos comerciais na costa da África Ocidental, gradualmente se movendo para o sul, até que, em 1498, Vasco da Gama contornou o Cabo da Boa Esperança e navegou o oceano Índico. No século XVI, Portugal tinha assentamentos na Índia, Molucas, Sumatra, Burma e Tailândia, e cerca de 1557 havia estabelecido o seu enclave permanente em Macau, que se tornou um centro para o seu comércio com muitas comunidades asiáticas.
A linha do tratado cruzava a América do Sul, alocando uma porção noroeste aos portugueses. Em 1500, o explorador Pedro Álvares Cabral desembarcou na costa do Brasil e o reivindicou para Portugal. Os conquistadores exploraram suas novas colônias, forçando os povos indígenas a cultivar cana-de-açúcar e, mais tarde, a plantar café e extrair ouro. Os nativos morreram aos montes, tanto por doenças introduzidas pelos colonizadores como por seu tratamento cruel, e então escravos foram levados da África para substituí-los. O Brasil, administrado desde meados do século XVI por governadores-gerais, continuou sendo uma colônia até o começo do século XIX.
Os espanhóis na América
Após as viagens transatlânticas de Colombo e a assinatura do tratado, a Espanha se voltou cada vez mais para a América, financiando expedições que combinavam explorações com conquistas e colonização. A primeira dessas, liderada por Hernán Cortés, foi ao México, que era então lar do pequeno, mas rico, Império Asteca. A enorme e central capital do império estava em Tenochtitlán (atual Cidade do México). Com uma pequena força de cerca de seiscentos homens, Cortés derrotou o império de mais de milhão, matando ao fim o governante Moctezuma.
Outro líder espanhol, Francisco Pizarro, conquistou o Império Inca, cujo centro estava no Peru, mas que se estendia ao Chile, Equador, boa parte da Bolívia e ao noroeste da Argentina. Uma vez mais, com apenas uma pequena força (180 homens), Pizarro estabeleceu as fundações de outra fortaleza espanhola e fonte de grande riqueza em metais preciosos. A prata peruana se tornou a principal fonte de renda da Espanha com suas colônias.
Vários fatores contribuíram para as impressionantes conquistas de Cortés e Pizarro. Os astecas foram subjugados por um tipo de batalha que lhes era totalmente estranha, envolvendo armas de fogo e a determinada matança dos oponentes — a prática asteca era a de captura de prisioneiros para serem mortos mais tarde num ritual de sacrifício. Os espanhóis também foram ajudados por alianças que fizeram com povos locais, hostis aos astecas. O resultado para a Espanha foi um fluxo de riqueza pelo Atlântico e uma base segura para construir sua presença nas Américas.
Seguiu-se a isso uma maior colonização espanhola, incluindo a Colômbia, conhecida na Espanha como a Nova Granada. No final do século XVII, a maior parte do oeste e do centro da América do Sul estava nas mãos dos espanhóis. As áreas conquistadas, bem como os povos que nelas viviam, foram divididas entre os conquistadores espanhóis, que se empenharam na conversão dos locais ao cristianismo. Eles os converteram, mas também os obrigaram a fazer trabalhos forçados, sobretudo nas minas de prata. Os nativos se tornaram vítimas da doença e da exploração — assim como os seus pares no Brasil, se bem que em menor escala —, e escravos da África foram trazidos como força extra.
A Coroa espanhola tentou controlar esse vasto império, designando vice-reis para governar os colonizadores e os povos nativos americanos, tomando um quinto dos lucros da mineração da prata. Os colonos cada vez mais resistiam a essa influência externa, no entanto, por volta do século XIX, o império passou a diminuir conforme áreas da Colômbia ao Chile ganhavam independência.
Circum-navegação
O Tratado de Tordesilhas estabeleceu o selo de aprovação da atividade espanhola na América, mas isso não impediu nem Espanha nem Portugal de buscar uma rota a oeste até a Ásia Oriental, uma potencial fonte de especiarias, bens de luxo e grande riqueza para os mercadores da Europa. Américo Vespúcio, navegador italiano a serviço da Coroa portuguesa, foi um dos primeiros a levar essa exploração além. Ele explorou a costa da América do Sul, e por isso a América recebeu seu nome por causa dele. O navegador português Fernando de Magalhães foi o próximo a explorar essa rota, dessa vez em nome da Espanha. Ele acreditava que as Ilhas das Especiarias pudessem estar a menos da metade do caminho ao redor do mundo quando navegando a oeste a partir da linha do tratado, o que daria à Espanha o direito sobre elas. Em 1519, partiu com cinco barcos, numa tentativa ambiciosa de fazer a primeira circum-navegação do globo. Apesar de o próprio Magalhães ter morrido durante o trajeto, alguns dos sobreviventes da expedição completaram a viagem, dando à Espanha uma base para sua reivindicação de terras no sudeste asiático.
Em 1529, as coroas rivais assinaram outro tratado, em Saragoça. Esse acordo deu as Filipinas para a Espanha e as Molucas para Portugal.
A herança do Tratado
Os países europeus que não fizeram parte do Tratado de Tordesilhas simplesmente o ignoraram e começaram, pouco depois, a se mover para desenvolver seus próprios impérios. Os britânicos colonizaram a América do Norte, por exemplo, os holandeses tomaram as Ilhas das Especiarias, e vários países europeus estabeleceram colônias no Caribe. O tratado influenciou, no entanto, uma proporção significativa do mundo. Ele enfatizava um desenvolvimento que já estava começando na Europa, no qual a riqueza e a influência estavam passando das antigas potências da Europa Central (baseadas no Sacro Império Romano-Germânico) para as da costa, marítimas, que buscavam construir impérios nos novos territórios. Esses impérios trouxeram enormes riquezas tanto para a Espanha quanto para Portugal, e seus impérios ultramarinos deixaram um legado cultural significativo: muitos da América do Sul e Central falam espanhol, e existe uma grande herança portuguesa em partes da África e da Ásia, sendo a maior de todas no Brasil.
Em 1418, a rica Corporação de Ofício dos Mercadores de La de Florença lançou uma competição para encontrar um projeto para a cúpula, ou domo, para completar sua catedral inacabada — a Cattedrale di Santa Maria del Fiore, mais conhecida como Il Duomo. Florença era uma das mais ricas cidades da Itália, com um centro bancário e de comércio, e portanto teria dinheiro para encomendar um domo para a catedral que seria de um tamanho sem precedentes.
Esse gasto generoso com arte e arquitetura em breve ecoaria por toda a Itália: a crescente prosperidade da região significava que seus governantes e seus ricos residentes poderiam gastar dinheiro para embelezar suas cidades e aumentar o seu prestígio. A economia forte e um profundo orgulho cívico na Itália lançaram os alicerces para um dos mais importantes movimentos intelectuais da história: o Renascimento.
Il Duomo
Na época da competição, a catedral de Florença tinha um vasto espaço octogonal no seu lado leste, mas, desde que a obra para sua construção começara, em 1296, ninguém havia pensado em como fazer um domo que o cobrisse. O domo teria de ser a maior cúpula já construída desde o fim do período romano, e a corporação de ofício especificou que ele deveria ser construído sem nenhum apoio externo, algo de que seus rivais políticos gostavam tanto na França, Alemanha e Milão, se bem que considerado fora de moda. Esta parecia uma tarefa impossível. O jovem ourives e relojoeiro, que virou arquiteto, Filippo Brunelleschi ganhou a competição com seu audacioso plano para um enorme domo com oito lados, feito de tijolos, mas muitos duvidaram que ele seria capaz de construí-lo.
O principal problema era ser capaz de sustentar a estrutura de tal forma que não cedesse nem caísse com seu próprio peso. A solução engenhosa de Brunelleschi foi construir dois domos concêntricos-um interno e outro maior, do lado de fora. Os domos seriam, então, unidos com enormes arcos de tijolos e um complexo sistema entrelaçado de "correntes", feito de elos de pedra e toras de madeira, que eram conectados com grampos de ferro para evitar que o domo se expandisse para fora.
Concluído em 1436, continua sendo o maior domo de tijolos do mundo. Combinando o estilo da Antiguidade com as novas técnicas de engenharia, ele exibia a mistura de sabedoria antiga e conhecimento moderno que tipificava o Renascimento.
O Renascimento na Itália
Significando "nascer de novo", o Renascimento foi um movimento que começou na Itália e se espalhou por toda a Europa em meados do século XIV. Suas raízes estão na redescoberta da cultura da Grécia e da Roma antiga, e ele influenciou todas as artes, assim como a ciência e a erudição. Pintores, escultores e arquitetos se libertaram das tradições da arte medieval. Eles visitaram os monumentos da Roma antiga, olhando para estátuas clássicas e entalhes das construções romanas, e criaram obras de arte no estilo clássico. Esse novo movimento inspirou arquitetos como Leon Battista Alberti e Brunelleschi e uma onda de grandes artistas incluindo Michelangelo e Leonardo da Vinci. A maioria dessas pessoas atuava em vários campos - Brunelleschi era escultor e engenheiro, bem como arquiteto; Michelangelo pintava, esculpia e escrevia poemas; e os feitos de Da Vinci incluíam tanto as artes como as ciências.
Os pintores e escultores renascentistas buscavam representar o mundo físico de uma forma mais realista que os seus predecessores medievais: eles valorizavam a precisão anatômica e desenvolveram métodos científicos de ilustração em perspectiva. Como na arte clássica, havia um foco maior na beleza humana e no nu.
Também havia um reavivamento do interesse no aprendizado clássico, que foi influenciado pelos eruditos clássicos do Império Bizantino que se estabeleceram na Itália depois da queda de Constantinopla (a capital do império) em 1453. Os emigrantes trouxeram com eles a literatura grega antiga, textos históricos e filosóficos que haviam sido perdidos no Ocidente e ensinaram o grego aos italianos para que pudessem ler e traduzir as obras. Isso levou à ascensão do Humanismo Renascentista na Itália, o que incluía o estudo das humanidades — gramática, retórica, história, filosofia e poesia — e, de forma mais ampla, uma consideração maior pela dignidade e potencial da raça humana.
Na época do Renascimento, vida, negócios e política na Itália eram dominados por várias e poderosas cidades-estados — principalmente Florença, Milão, Ferrara e Veneza — junto com Roma, a partir de onde o papa poderia exercer um grande poder secular ("temporal") e ser a cabeça espiritual da Igreja católica. As cidades-estados geraram grande riqueza a partir do comércio e — no caso de Florença — do sistema bancário. As famílias que as governavam, como os Gonzaga em Mântua, os d'Este em Ferrara, os Sforza em Milão e os Médici em Florença, gastavam copiosamente em palácios, igrejas e obras de arte e se tornaram mecenas de muitos e grandes artistas renascentistas. Essas ricas famílias também encorajaram o ressurgimento do aprendizado clássico ao contratarem eruditos como tutores de seus filhos. Além disso, vários membros da família Médici se tomaram papas.
A disseminação do Renascimento
A partir do final do século XV, o Renascimento se espalhou da Itália para outras partes da Europa e levou ao surgimento do Renascimento Nórdico. Países do norte da Europa, sobretudo Holanda e Alemanha, produziram seus próprios artistas como Albrecht Dürer (1471-1528) e Hans Holbein, o Jovem (1497-1543) — ambos ótimos realistas. O Humanismo Renascentista também se espalhou para o norte, mas escritores e filósofos do norte, em especial Erasmo de Roterdã (1466-1546), costumavam dar uma ênfase maior ao cristianismo, educação e reforma que seus pares italianos.
A invenção da imprensa, usando tipos móveis, por Johannes Gutenberg na Alemanha nos anos 1430, permitiu às ideias renascentistas se espalhar ainda mais rapidamente. Antes dela, a única forma de disponibilizar um texto impresso era entalhando à mão cada página numa placa de madeira, mas isso era um trabalho tão árduo que os livros acabavam sendo escritos à mão. O método de Gutenberg envolvia arranjar símbolos de letras e pontuações em linhas e páginas. Depois que várias cópias de uma página fossem impressas, os tipos poderiam ser retirados e reutilizados. Ele combinou essa nova ideia com a já existente tecnologia de fabricação de papel e com o tipo de prensa, que era usado na produção de vinho, tendo como resultado a impressão de várias cópias de livros pela primeira vez.
A invenção de Gutenberg teve um enorme impacto. Ela fazia com que os livros, que antes custavam muito e demoravam vários meses para ser produzidos, ficassem agora facilmente disponíveis e muito mais baratos, assim ideias e informações podiam circular mais rápido e alcançar mais pessoas. Enquanto a Igreja usava principalmente o latim como sua língua universal, os escritores agora escreviam em suas próprias línguas locais, resultando no florescimento da literatura em francês, inglês e alemão, entre outras línguas. Além disso, cópias dos clássicos antigos foram reproduzidas em quantidade, ajudando na disseminação de ideias que eram cruciais tanto para o Renascimento quanto para o Humanismo.
O impacto do Renascimento
Em meados do século XVI, a influência do Renascimento estava diminuindo no sul da Europa, mas durou um pouco mais no norte. Porém, muitas grandes obras renascentistas perduraram e continuaram a inspirar futuras gerações de pintores e arquitetos. De fato, a duradoura popularidade das pinturas a óleo e o estilo clássico de arquitetura, bem como a ascensão do humanismo, não teriam sido possíveis sem o movimento que começou com Brunelleschi em Florença no século XV.
Em julho de 1453, John Talbot, duque de Shrewsbury, marchou Icom quase 6 mil homens em direção à cidade de Castillon, sob domínio inglês, a qual os franceses estavam se preparando para tomar. Os franceses construíram um acampamento fortificado grande o suficiente para conter 10 mil homens, e se armaram com quase trezentos canhões sob o comando do especialista em artilharia Jean Bureau. Esperando reforços, Talbot sinalizou um ataque, mas, quando os ingleses se aproximaram, se viram em menor número em relação a um exército bem mais preparado. A artilharia francesa abriu fogo, seguida por seus arqueiros, e os ingleses foram massacrados. Essa foi a primeira batalha de campo na história europeia a ser decidida pela pólvora.
Acaba a Guerra dos Cem Anos
A Batalha de Castillon foi o clímax da Guerra dos Cem Anos, lutada desde 1337 por Inglaterra e França, países que sempre estiveram bem unidos por suas famílias dominantes. Na época de Castillon já estavam em curso grandes mudanças no tecido da vida europeia, o que mudou profundamente os exércitos com os quais lutavam os monarcas franceses e ingleses.
A Europa do século XV era essencialmente uma economia monetária, e todos, inclusive os soldados, esperavam ser pagos. Os reis, à época, estavam cada vez mais dependentes de mercenários que lutavam por dinheiro. Esse era um enorme contraste com o sistema feudal que havia antes, no qual os guerreiros eram oferecidos pela nobreza em troca de terras. Assim sendo, os governantes começaram a usar mercenários de forma regular: um exército permanente. Mas foi só ao final do século XVII que esse modelo virou a norma.
Canhões e armas
Os reis que lutavam pelo controle da França dependiam cada vez mais de grandes exércitos e de uma cara artilharia. Canhões como aqueles que asseguraram a vitória francesa em Castillon transformaram o campo de batalha. Os grossos muros dos castelos medievais não eram mais páreo para uma bala de canhão. Para se proteger melhor da artilharia, os governantes começaram, a partir do século XVI, a construir um novo tipo de muro, a fortificação abaluartada, em formato de estrela. Esses fortes tinham seus muros enterrados em valetas para fortalecê-los contra o fogo direto e também usavam canhões numa defesa ativa. Ao mesmo tempo, armas de fogo manuais que atiravam projéteis que varavam a armadura de cavaleiros montados, e não exigiam muita habilidade para serem manuseadas, aos poucos substituíram o arco. Uma infantaria bem treinada — empunhando lanças e armas de fogo — substituíra os enormes grupos de arqueiros e passara a ser o cerne de uma nova linha de batalha.Para pagar os exércitos, os governantes começaram a centralizar seus domínios. Sistemas de taxação e burocracias mais eficientes foram estabelecidos, eclipsando o poder de uma aristocracia cuja influência já estava em plena decadência com o declínio do sistema feudal. A vitória de Castillon, assegurada pela pólvora, garantiu a sobrevivência de uma França independente, que se transformava mais num Estado centralizado do que numa terra feudal. Como seu triunfo, a França pôde consolidar o território sob seu controle, e o mapa dessa parte da Europa Ocidental começou a assumir sua forma moderna. A Inglaterra, sem suas possessões europeias, tornou-se mais centralizada, afastou-se da Europa continental, concentrando seus recursos para começar a exploração marítima do Atlântico e da América do Norte.
A chegada, nos anos 1490, dos primeiros europeus a América do Norte e Central reconecta ecossistemas que haviam se desenvolvido em isolamento uns dos outros por milhares de anos. No chamado Intercâmbio Colombiano, vidas e economias que haviam se alterado de forma lenta no decorrer de séculos são transformadas, de repente, pelo influxo de novas colheitas, animais, tecnologias e doenças. Muitos dos efeitos não haviam sido previstos ou foram mal entendidos tanto pelos europeus quanto pelos nativos americanos da época, mas após o primeiro desembarque não havia mais caminho de volta.
Alimentos e agricultura
Quando os europeus começaram a se fixar nas Américas, eles levaram consigo seus próprios animais domesticados e sua comida. Isso incluía várias espécies como frutas cítricas, uvas e bananas; café, cana-de- -açúcar, arroz, aveia e trigo; gado, carneiros, porcos e cavalos. Para cultivar suas plantações e criar seus animais, os colonizadores derrubaram enormes extensões de florestas, destruindo os habitats de algumas espécies selvagens nativas no processo, acabando por contaminar, sem querer, os campos americanos com as sementes de ervas como o dente-de-leão e leitugas. O intercâmbio na outra direção levou batatas, tomates, milho doce, feijões, abóboras, abobrinha e tabaco para o Velho Mundo, além de perus e porquinhos-da-índia.
A introdução de novos alimentos básicos transformou vidas em ambos os lados do Atlântico. As batatas e o milho, ricos em carboidratos e de fácil cultivo, ajudaram a vencer a crônica falta de alimentos na Europa e, junto com a mandioca e a batata-doce, se espalharam para a África e Ásia. No Novo Mundo, o trigo, que cresce bem nas latitudes temperadas da América do Norte e do Sul e nas terras altas do México, acabou se tornando um cultivo fundamental para dezenas de milhões de colonizadores. A chegada de cavalos ao Novo Mundo também foi revolucionária, permitindo uma caça mais efetiva e seletiva e facilitando as viagens e o transporte.
Catástrofe biológica
O impacto mais imediatamente devastador do Intercâmbio Colombiano foi depois da introdução de novas doenças nas Américas. Os colonos e as galinhas, gado, ratos negros e mosquitos que os acompanharam introduziram doenças contagiosas a um povo que não tinha nenhuma defesa natural contra elas. O sistema imunológico dos nativos americanos não era adaptado para lidar com doenças estrangeiras como varíola, sarampo, catapora, influenza, malária e febre amarela. Uma vez expostos a elas, começaram a morrer às centenas de milhares. Metade da nação Cherokee morreu numa epidemia de varíola em 1738, e algumas tribos foram totalmente dizimadas. Os exploradores europeus encontraram e levaram de volta doenças americanas, como a doença de Chagas, mas o efeito sobre as populações do Velho Mundo foi irrelevante quando comparado às consequências das doenças do Velho Mundo no Novo Mundo.
Trocas econômicas
Desde o começo, o Intercâmbio Colombiano teve uma forte determinação econômica. Mercadorias desde ouro e prata, até café, tabaco e cana-de-açúcar foram transportadas em enormes escalas, sobretudo em favor dos comerciantes europeus e dos donos de plantations.
Muito rapidamente o comércio escravista também se tornou uma parte-chave dessa rede. O movimento de pessoas de um continente a outro, em grande volume, garantiu um contínuo suprimento de força de trabalho para a expansão de novas economias à custa de indescritíveis opressão, miséria e morte precoce para muitas gerações. As mudanças dramáticas e irreversíveis levadas a ambos os lados do Atlântico pelo Intercâmbio Colombiano continuaram a moldar vidas por séculos.
No outono de 1517, Martinho Lutero, monge e professor de teologia na Universidade de Wittenberg na Alemanha, desencadeou uma reação em cadeia que transformaria toda a Europa. Profundamente preocupado com o que considerava como práticas corruptas na Igreja católica, escreveu uma série de 95 teses — argumentos contra elas, que em seguida fez circular pela universidade. De acordo com alguns relatos, ele também as pregou na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg. Tais teses rapidamente se tornaram públicas e se espalharam amplamente, o que fez com que o papa Leão X acusasse Lutero de heresia. Ele então rompeu com a fé católica, começando assim a Reforma — a ascensão de Igrejas baseadas nas práticas reformadas e focadas na escritura, em vez de na autoridade dos padres. Por causa da origem das Igrejas em protesto contra a prática e crenças católicas, elas ficaram conhecidas como Igrejas protestantes.
Disseminação da Reforma
Lutero não estava sozinho na busca pela reforma religiosa. O pregador suíço Ulrich Zwingli (1484-1531) liderou uma Igreja protestante baseada em Zurique, e o francês João Calvino rompeu com a Igreja católica por volta de 1530. Forçado a deixar a França, foi para Genebra, na Suíça, onde apoiou o movimento reformador, ajudando a dar forma à doutrina protestante.
Nem sempre havia concordância quanto às crenças dos reformadores. Os calvinistas eram claramente diferentes dos luteranos, e os anabatistas eram perseguidos tanto pelos protestantes quanto pelos católicos, por suas visões radicais. O próprio Lutero apoiou a brutal repressão da Revolta Camponesa liderada pelos anabatistas nos anos 1520. O que os protestantes tinham em comum era que suas visões os colocavam em conflito teológico fundamental com a Igreja católica.
As ideias dos reformadores se espalharam com a recém-inventada tecnologia dos livros impressos. Antes de as prensas e os tipos móveis tornarem possível a impressão de obras nos anos 1450, elas eram escritas à mão e em latim, a língua internacional da Igreja. A impressão permitiu que a informação pudesse ser reproduzida rapidamente e de forma barata, aumentando a demanda por livros escritos nas línguas vernáculas. Lutero escreveu suas teses em latim, mas em pouco tempo foram traduzidas para alemão, francês, inglês e outras línguas. Livros e panfletos descrevendo abusos da Igreja e delineando a teologia protestante logo entraram em circulação, impressos em grandes quantidades.
Importância da Palavra
A ideia central da teologia protestante era de que a autoridade não vinha do sacerdócio, mas da própria escritura. Por essa razão, o acesso à Bíblia era essencial tanto para os reformadores quanto para seus seguidores. Começaram a surgir Bíblias impressas em línguas europeias já no século XVI; a tradução alemã de Lutero do Novo Testamento foi publicada em 1522, e uma tradução de toda a Bíblia, incluindo os livros apócrifos, veio em 1534. Um ano depois, Miles Coverdale (1488-1569), frade, pregador e bispo de Exeter, produziu a primeira Bíblia completa em inglês. Uma tradução para o francês pelo teólogo Jacques Lefèvre d'Étaples (c. 1450-1536) apareceu entre 1528 e 1532.
Em meados do século XVI, as ideias da Reforma já haviam se espalhado amplamente. O luteranismo se disseminou pela Alemanha e Escandinávia; o calvinismo tomou conta de boa parte da Suíça, além de ter avançado bastante na Escócia. Também havia calvinistas na França, onde eram chamados huguenotes, se bem que este país foi dividido entre católicos e protestantes, que lutaram nas Guerras Religiosas na segunda metade do século XVI. Espanha, Portugal e Itália continuaram católicos.
Na Inglaterra, as sementes da Reforma foram semeadas antes. Muitas pessoas discordavam dos abusos como o uso dos fundos da Igreja para o pagamento de clérigos — incluindo o papa e bispos no exterior — que viviam uma vida de luxos. Porém, as ideias protestantes ainda não estavam disseminadas o suficiente para que a fé se mantivesse sozinha. As coisas mudaram quando Henrique vi da Inglaterra rompeu com Roma em 1534, rejeitando a autoridade papal e proclamando a si mesmo chefe da Igreja na Inglaterra. Como líder eclesiástico supremo, exerceu seu direito único de autorizar a publicação da Bíblia em inglês, a Bíblia de Coverdale, mas as práticas religiosas inglesas, bem como sua doutrina, continuaram católicas. Uma forma moderada de protestantismo foi mais tarde estabelecida pela filha de Henrique, Elizabeth I.
Os reformadores arriscaram sua vida ao pregarem num tempo em que a heresia era condenada com a morte. O reformador tcheco Jan Hus morrera na fogueira em 1415, Zwingli, numa batalha entre forças protestantes e católicas em 1531, e o tradutor da Bíblia para o inglês, William Tyndale, foi executado em 1536. Lutero, de quem o papa Leão x exigiu retratação em 1520, jogou tal exigência numa fogueira para que autoridades da Igreja o entregassem a Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia e fundador da Universidade de Wittenberg, para que fosse punido. Frederico convocou uma pesquisa formal, ou "Dieta", em Worms, que foi presidida pelo imperador Carlos V. Este rejeitou os argumentos de Lutero e baniu suas visões do império, mas Lutero se recusou a se retratar, sendo condenado e excomungado. Mas Frederico o salvou da execução ao forjar seu sequestro, para logo em seguida escondê-lo no castelo de Wartburg. Lutero continuou a escrever e a organizar ideias, ganhando apoio crescente.
Aliados poderosos
O apoio de pessoas em posições de poder ajudou na disseminação da Reforma. Como Henrique VIII, na Inglaterra, os príncipes da Alemanha também discordavam da riqueza e da taxação da Igreja, bem como suas cortes jurídicas independentes, e estavam dispostos a aumentar o seu próprio poder. Por toda a Idade Média, os papas fizeram alianças com reis e imperadores e intervieram em assuntos seculares. Muitos príncipes alemães quiseram prevenir tais alianças ao romper com Roma e remover bispos de seus principados, para que seu apoio aos reformadores fosse motivado por interesse político, além da piedade pessoal.
Naquele que viria a ser o primeiro de uma longa lista de conflitos religiosos entre católicos e protestantes, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Carlos v invadiu território luterano, visando estancar o movimento. Os luteranos se uniram contra ele, que, a despeito de seu triunfo na Batalha de Mühlberg em 1547, não conseguiu vencê-los. Por fim, chegou-se a um acordo temporário em Augsburg em 1555, quando o imperador liberou a cada príncipe do império a escolha da religião em seu próprio território. A paz, entretanto, não duraria muito. Divisões amargas criadas pela Reforma fariam com que povos pela Europa pegassem em armas de novo, e o continente foi sacudido por mais de um século de conflitos religiosos.
Reforma a partir de dentro
Mesmo antes de Lutero escrever suas 95 teses, já havia um movimento por Reforma dentro da Igreja. Inspirado em parte pelo humanismo renascentista, ele gerou uma retomada da educação e da filosofia, motivando religiosos como o espanhol Francisco Ximenes, que produziu uma Bíblia com textos em hebraico, grego, latim e aramaico. Mas os claros desafios teológicos de Lutero fizeram com que o papado preparasse uma resposta mais ampla. Em 1545, Paulo III convocou o Concílio de Trento, no qual bispos e cardeais reafirmaram as doutrinas católicas, desde a importância do sacerdócio e dos sacramentos até a legitimidade das indulgências. Porém o concílio também introduziu reformas: proibiu abusos, como um padre ocupar vários cargos, criou os seminários para treinar padres e, numa tentativa de atrasar a disseminação da doutrina protestante, estabeleceu uma comissão para especificar quais livros os católicos estariam proibidos de ler. Além disso, vários papas a partir de Paulo III passaram a viver de forma austera, escolhendo bispos alinhados com isso, além de revisar as finanças papais.
A Contrarreforma
O concílio se reuniu periodicamente por dezoito anos e provocou renovação e ressurgimento do catolicismo a partir de dentro da Igreja, um movimento comumente conhecido como Contrarreforma. A nova Sociedade de Jesus (também conhecida como a Ordem dos Jesuítas), fundada pelo cavaleiro espanhol Inácio de Loyola em 1534, foi aprovada pelo papa em 1540 como uma resposta à Reforma e espalhou uma forte mensagem de Contrarreforma por toda Europa. O reavivamento contemporâneo da arte cristã, que coincidiu com o florescimento do estilo barroco na Itália, adicionou uma ênfase mais vibrante. As igrejas barrocas eram imponentes e ornamentadas, cheias de esculturas, pinturas tocantes e cenas bíblicas em poses marcantes. Essa potente propaganda serviu para deixar clara a diferença entre as igrejas católicas e os templos de seus pares protestantes, geralmente simples e sem decoração. A arte barroca, junto com o zelo de papas e padres jesuítas reformadores, ajudou a garantir que a Igreja católica sobrevivesse e florescesse em países como Itália e Espanha, mesmo com o movimento protestante ganhando força em outros lugares. A Europa, que outrora fora unida sob o papa na Igreja Católica Romana, agora estava irremediavelmente dividida entre estados católicos e protestantes. As sementes foram lançadas para mais de um século de conflitos; conforme súditos pegavam em armas contra seus governantes, reis e príncipes entravam em combate, e nações atacavam nações em nome da religião.
Em maio de 1618, um grupo de líderes protestantes de Praga se reuniu com diversos conselheiros num dos cômodos do Castelo de Praga. Os conselheiros eram católicos, operando como regentes para Fernando, o novo rei da Boêmia (agora parte da República Tcheca). Os protestantes queriam garantir que o rei e os regentes não suspendessem as liberdades religiosas que seus ex-governantes haviam lhes garantido. Quando os regentes se recusaram a se comprometer, os protestantes jogaram dois deles, junto com um clérigo que os acompanhava, pela janela do castelo. O trio caiu uns vinte metros sobre uma pilha de estrume que estava encostada na parede do castelo. Conhecido como a Defenestração de Praga, foi o estopim para a Guerra dos Trinta Anos, uma série de conflitos que devastaram enormes áreas da Europa.
Diferenças religiosas
A Defenestração aconteceu com o despertar de longas e latentes disputas entre católicos e protestantes sobre se as pessoas deveriam ter a liberdade para seguir sua fé como quisessem. Essas diferenças afetaram boa parte da Europa, e, antes de a guerra começar na Boêmia, houve conflitos religiosos violentos em várias outras partes do continente.
As disputas também envolviam rivalidades pelo poder por parte de famílias reais e aristocráticas que defendiam lados distintos e usavam os conflitos para promover seus próprios interesses. A Holanda, por exemplo, abrigava vários protestantes, mas era governada pela Espanha católica, cujo governante, Filipe II, queria eliminar os protestantes. As Sete Províncias ao norte se revoltaram contra o poder do rei. Os conflitos religiosos cresceram e se tornaram violentos contra o que se sentia ser uma repressão da Coroa de Habsburgo, levando à formação da República da Holanda, independente, no norte da região.
Filipe também planejava conquistar a Inglaterra, que era mais ou menos protestante sob Elizabeth I, e queria colocar um monarca católico no trono inglês. Em 1588, ele enviou sua famosa Armada para invadir o país, mas uma combinação de tática naval inglesa e uma tempestade que se formou estragou o plano, deixando a Inglaterra independente.
Essas diferenças religiosas se mostraram especialmente devastadoras na França do século XVI, onde uma grande minoria protestante, conhecida por huguenotes, sofria forte perseguição. Muitos protestantes, sobretudo ministros calvinistas, tiveram sua língua cortada ou foram queimados na fogueira. No chamado Massacre do Dia de São Bartolomeu, em 1572, uma série de assassinatos selecionados foi acompanhada de uma onda de violência da massa contra os huguenotes, que durou várias semanas e deixou milhares de mortos.
Depois houve uma série das chamadas Guerras Religiosas que durou quase 36 anos. Depois de oito períodos de lutas, pontuados por tréguas frágeis e acordos rompidos, as guerras acabaram em 1598, quando o rei francês Henrique IV, que havia sido um líder protestante antes de assumir o trono, promulgou o Édito de Nantes. Esse acordo deu aos huguenotes alguns direitos, inclusive a liberdade religiosa em algumas áreas geográficas. Ele também manteve o catolicismo como a religião oficial da França e obrigou os protestantes a observar feriados católicos e a pagar impostos para a Igreja. Mas ainda houve disputas entre os dois lados, de tempos em tempos, e muitos huguenotes deixaram a França e buscaram abrigo em outros países, como Inglaterra e Holanda.
A Guerra dos Trinta Anos
As guerras e as disputas religiosas na França, Holanda e Inglaterra formaram um pano de fundo perturbador para a Guerra dos Trinta Anos na Europa. A maioria das pessoas na Boêmia era protestante, mas a área era parte do grande Sacro Império Romano- -Germânico, que também incluía Alemanha, Áustria e Hungria, sendo governada por imperadores católicos Habsburgo. Os imperadores atuavam como senhores dos reis, príncipes e duques locais. Alguns deles, em especial Matthias, que estava no trono quando houve a Defenestração de Praga, asseguraram aos seus súditos protestantes o direito de adorarem como quisessem. Matthias conseguiu isso ao ratificar a Carta da Majestade, que havia sido assinada pelo imperador anterior, Rodolfo II, garantindo liberdade religiosa aos protestantes, além de outros direitos básicos. No entanto, o sucessor de Matthias, o exageradamente católico Fernando, não sentiu nenhuma obrigação de honrar a Carta da Majestade. Ele perseguiu igrejas protestantes e escolheu católicos para os cargos mais altos. Isso detonou de novo uma disputa que já existia na Boêmia desde os primeiros levantes da Reforma protestante no século XV.
Depois da Defenestração, ambos os lados começaram a se preparar para a guerra, mas o processo foi acelerado em 1619, quando Matthias morreu. Fernando, que já era rei da Boêmia, tornou-se igualmente imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Os líderes protestantes boêmios tentaram reduzir o poder local do imperador católico, depondo-o do reino da Boêmia e convidando seu próprio candidato, o protestante Frederico V, Elector Palatine, para governar em seu lugar.
As credenciais de Frederico como protestante eram excelentes, não apenas por causa da sua própria fé, mas também pelo seu casamento: sua esposa era Elizabeth Stuart, filha do rei protestante da Inglaterra, Jaime 1. Mas, para fazerem com que Frederico fosse rei, os boêmios tinham de depor um monarca que havia sido legalmente coroado, uma estratégia que os deixaria sem o apoio de vários potenciais aliados.
Em 1620, as forças da Boêmia se reuniram para confrontar os exércitos do Sacro Império Romano-Germânico na Montanha Branca, nos arredores de Praga. Elas pareciam estar equilibradas: os protestantes, sob Frederico e Christian de Anhalt, tinham mais soldados, mas os do império tinham mais experiência e eram liderados pelo nobre hispano-flamengo marechal de campo Tilly, além do renomado general Albrecht von Wallenstein. Após uma hora, as forças boêmias foram esmagadas — 4 mil homens foram mortos ou levados prisioneiros, comparado com setecentas baixas entre as forças do império — e Tilly invadiu Praga. Frederico fugiu, e muitos dos líderes protestantes foram executados. Protestantes comuns foram obrigados a deixar a região ou se converter ao catolicismo. A Boêmia ficou devastada, despovoada e quase sem nenhum poder. A área continuou predominantemente católica até o século XX.
Uma reforma desestabilizadora
O que aconteceu na Boêmia foi um sintoma da instabilidade do enorme Sacro Império Romano-Germânico. Em sua história já aconteceram, com frequência, disputas de poderes entre imperadores e governantes locais, mas havia surgido um equilíbrio geral de poder, e o imperador resolveu respeitar os direitos dos estados individuais que constituíam o império. Esse equilíbrio foi perturbado pelas mudanças da Reforma, quando as crenças protestantes se fortaleceram em alguns lugares (como a Saxônia) e o catolicismo prevalecia em outras (como a Bavária). Uma série de disputas foi crescendo até se tornar conflitos armados.
A maioria das batalhas foi na Alemanha e nas terras da Europa Central. Em poucos anos, o exército imperial Habsburgo, recrutado por Fernando e liderado pelo hábil líder militar Albrecht Wallenstein, esmagou seus rivais na Alemanha, seguindo depois para a Dinamarca. Em 1629, Fernando estava em posição de exigir de volta as terras que haviam passado para as mãos dos protestantes.
No entanto, os protestantes ainda tinham dois poderosos aliados. Um era a Suécia, sob o rei Gustavo Adolfo, um hábil líder militar. Outro era a França, ur pais católico, que porém queria limitar c poder imperial. Em 1630, Gustavo chegou à Alemanha com um grande exército e ganhou uma importante batalha em Breitenfeld em 1631, com ajuda financeira da França.
Em meados dos anos 1630, os Habsburgo reagiram, com a ajuda da Espanha. O conflito agora havia se tornado uma guerra total, envolvendo quase todos os principais países da Europa numa disputa por poder. O imperador queria reconquistar suas terras na Alemanha, enquanto os espanhóis queriam os Habsburgo, seus aliados, no poder para que pudessem cruzar a Europa com facilidade até o seu tão esperado ataque à Holanda. A França, com medo de ser cercada pelos Habsburgo e seus aliados, continuou tentando reduzir o poder imperial.
O fim e as consequências
Por volta dos anos 1640, forças anti- -imperiais estavam se recuperando. A França derrotou a Espanha em Rocroi, no Vale do Oise, em 1643, enquanto em 1645 a Suécia enfrentou o exército imperial em Junkau, a sudeste de Praga. Quase metade dos 16 mil bravos soldados do exército imperial foram mortos nessa sangrenta batalha, e parecia que os suecos marchariam sobre Praga e Viena. No entanto, nesse ponto, ambos os lados estavam exaustos, e não houve nenhum avanço sobre as duas cidades.
As batalhas da Guerra dos Trinta Anos foram conduzidas em grande escala. As forças com milhares de soldados na cavalaria foram arregimentadas, apoiadas com arma de fogo, e usou-se uma enorme quantidade de mercenários. As batalhas eram lutadas com velocidade e crueldade profissionais, mas o que vinha depois era quase sempre pior. Os vastos exércitos cometiam terríveis atrocidades conforme pilhavam enormes campos para encontrar comida e remover qualquer coisa que pudesse ser útil a seus inimigos. As áreas rurais sofreram especialmente mais nas mãos das tropas invasoras — a Alemanha perdeu quase 20% da sua população — mas o comércio e a manufatura também foram afetados pelos estrago e devastação que se seguiram. A Europa. Central precisou de décadas para se recuperar da guerra, apesar de países com fortes rotas comerciais e poder marítimo, como Inglaterra e Holanda, terem se dado melhor.
Repetidas batalhas de artilharia também exauriram ambos os exércitos. Exaustos, os lados por fim decidiram se reunir e buscar a paz. Representantes do império, Espanha, França, Suécia e da República Holandesa, bem como os governantes dos principados e cidades alemãs, além de outras partes interessadas, se reuniram em 1648 em duas cidades ao norte da Alemanha, Osnabrück e Münster, para chegarem ao acordo de Paz de Vestfália. As conversações não conseguiram resolver as diferenças básicas entre os interesses políticos e religiosos, mas produziram um acordo que terminou com a guerra, e a paz estabeleceu um equilíbrio geral entre um grande número de nações independentes.
Apesar de a Europa agora estar permanentemente dividida entre Estados em sua maioria católicos e protestantes, todos concordaram em aprender a coexistir. A paz abriu o precedente da criação de acordos entre as nações por meio de encontros diplomáticos de alto escalão, que passaram a desempenhar um papel-chave nas relações internacionais desde então.
Quando Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, desembarcou em Salvador, ele tinha grandes responsabilidades sobre os ombros. Haviam se passado quase cinquenta anos desde a descoberta do Novo Mundo, mas durante as primeiras décadas a Coroa portuguesa não se interessou pelo território, concentrando suas atenções nas colônias mais lucrativas na África, como Cabo Verde. Os lusitanos se limitaram a extrair o pau-brasil, madeira valiosa no mercado europeu, praticando o escambo com os indígenas e construindo, no máximo, algumas feitorias no litoral para armazenar seus estoques antes de transportá-los.
Isso mudou em 1534, quando dom João III se convenceu do potencial econômico do Brasil e criou as capitanias hereditárias. Estas eram uma espécie de feudo: uma porção de terra, chamada pelos portugueses de sesmaria, era doada pelo rei a um nobre de confiança, que deveria em troca desenvolver alguma atividade agrícola e proteger o território dos indígenas e de invasões estrangeiras. No entanto, o sistema falhou, já que os capitães donatários foram, via de regra, completamente negligentes.
Portugal alterou então sua estratégia e decidiu, em 1548, instalar no Brasil um Governo-Geral, nomeando Tomé de Souza responsável pelas terras americanas. Sua difícil missão era garantir que dessa vez a máquina de exploração colonial funcionasse. Para isso, ele organizou um poder legislativo, centralizou o recolhimento de impostos e nomeou um capitão-mor para defender o litoral. O objetivo era centralizar a administração nas mãos de um funcionário da Coroa. O plano deu certo, e o Brasil foi, até o século XIX, a principal fonte de renda do Império Português.
O sistema colonial
O produto que melhor vingou nas terras brasileiras foi a cana-de-açúcar. Os colonizadores criaram enormes latifúndios no Nordeste do país, onde o clima era privilegiado, e lá instalaram engenhos para moer e embarcar o produto rumo ao mercado europeu. Para dar conta do grande volume de produção, importaram mão de obra escrava em massa da África. A autoridade máxima numa zona produtora de cana era o dono do latifúndio, chamado de senhor de engenho. Ele tinha domínio total sobre seus funcionários, seus escravos e sua família, formando a base cultural autoritária e patriarcal sobre a qual se ergueu a sociedade da colônia.
Todo esse sistema só era lucrativo porque a Coroa mantinha o chamado pacto colonial: os produtores brasileiros deviam negociar o açúcar e comprar artigos manufaturados apenas com comerciantes lusitanos. Isso explica porque praticamente só o litoral brasileiro, onde se plantava a cana e se fazia o comércio ultramarino, foi ocupado nos primeiros séculos de colonização. O frei Vicente de Salvador explicou isso em 1627, dizendo que "da largura que a terra do Brasil tem para o sertão [eu] não trato, porque até agora não houve quem a andasse", já que os portugueses "se contentam em andar arranhando ao longo do mar como caranguejos". Essa situação mudou bastante no século XVIII.
A ocupação do interior
Em meados do século XVI, o ciclo econômico do açúcar estava em declínio. A venda do produto não era mais tão lucrativa no mercado europeu, e Portugal precisou buscar novas fontes de renda no Brasil. A Coroa patrocinou uma série de expedições para tentar achar riquezas no interior do território, o que levou, por exemplo, à extração de especiarias da Amazônia, chamadas de "drogas do sertão", e à criação de gado no atual Rio Grande do Sul.
Então, no início do século XVIII, bandeirantes paulistas encontraram ouro na região de Minas Gerais, dando início a um novo ciclo econômico. Isso atraiu pessoas de todas as partes da América portuguesa e fez com que a Coroa mudasse a capital brasileira em 1763, passando de Salvador para o Rio de Janeiro, mais próximo das regiões auríferas. Esse movimento conectou pela primeira vez as várias províncias, fazendo com que estradas e povoados se formassem no interior do país e a ocupação deixasse de ser uma exclusividade do litoral.
O ciclo do ouro foi curto, mas mudou completamente o perfil da colônia. A interiorização do território e a possibilidade de acumular riqueza no Brasil foram as bases para que um sentimento nacional pudesse emergir no século XIX, época da independência.
Em 1620, um grupo de ingleses que não podiam, pela lei, seguir sua fé como queriam na Inglaterra, cruzou o Atlântico em busca de liberdade religiosa. Esse grupo ficou mais tarde conhecido como os peregrinos. Eles partiram em dois barcos, mas um não tinha condições de cumprir o trajeto, o que os fez continuar em apenas um deles, o Mayflower. As tempestades de inverno castigaram os 66 dias de travessia, e o principal vau do barco se partiu. Ainda a bordo, os peregrinos esboçaram o Mayflower Compact, no qual juravam lealdade à Coroa, mas também indicavam o direito de fazer suas próprias leis segundo o ordenamento legal inglês. Eles se estabeleceram em Plymouth, e, apesar de muitos terem morrido no primeiro inverno, a comunidade se perpetuou.
Começo da colonização
Naquela época, a Inglaterra, assim como outros países, estava na disputa para estabelecer colônias na América do Norte. Jamestown havia sido fundada treze anos antes da chegada dos peregrinos em Plymouth, mas não era uma comunidade religiosa. A Colônia da Virgínia, cujo centro era Jamestown, foi estabelecida pelos colonizadores ingleses em 1607, com uma autorização da Coroa, e foi sua primeira colônia nas Américas. Os exploradores franceses estabeleceram entrepostos comerciais de peles ao longo de rios ao norte do Canadá. Os colonos holandeses e suecos chegaram à América do Norte no começo do século XVII, e em 1613 os holandeses fundaram um entreposto comercial na margem oeste da Ilha de Manhattan.
Governo e comércio
Plymouth e Jamestown desenvolveram instituições representativas nas quais os colonos elegiam autoridades para governar seus próprios assuntos. Inspiradas no modelo parlamentar inglês, e se baseando na definição de direitos articulada no Mayflower Compact, essas primeiras iniciativas criaram um modelo de autogestão que caracterizaria a colonização inglesa na América do Norte.
Cada colônia tinha um governador escolhido pelo monarca britânico e um legislativo eleito pelos colonos. Com frequência havia tensão entre os dois, porque o legislativo tinha de atuar seguindo o ordenamento legal inglês. No entanto, o rei e o governo em Londres, agindo junto com o governador, viam as colônias como um recurso rico em matérias-primas que poderia ser explorado em benefício próprio.
Para garantir que a América continuasse um mercado cativo para as fábricas britânicas, o comércio colonial foi restrito pela Lei da Navegação, que exigia que toda mercadoria comercializada se fizesse em navios britânicos. Os colonos viram essas medidas como uma clara supressão de seu comércio e sua manufatura. Aumentou a tensão em ambos os lados do Atlântico, já que britânicos e comerciantes coloniais buscavam proteger seus interesses.
O crescimento colonial
As relações entre os colonos e os povos indígenas da Costa Leste também estavam começando a se esgarçar. A crescente população colonial sobrecarregou o uso das terras e dos recursos, empurrando as pessoas para o oeste, para se estabelecerem em terras que pertenciam aos índios americanos. Uma paz desconfortável, pontuada por violência, explica como foram as relações entre os colonizadores e os índios por anos.
Durante os anos 1640, a Inglaterra afundou numa série de guerras para decidir o futuro do país, que ficaram conhecidas como Guerra Civil Inglesa. De um lado estavam os partidários do rei - predominantemente a aristocracia rural que apoiava o rei Carlos I e seu direito de governar independente do parlamento. Do outro, estavam os partidários do Parlamento — basicamente os pequenos proprietários de terra e comerciantes, e muitos deles tinham crenças puritanas e não gostavam da postura autocrática de Carlos. Em 1648, os parlamentaristas derrotaram Carlos em batalha, e Oliver Cromwell, seu líder, excluiu do Parlamento todos aqueles propensos a negociar com o rei, deixando os restantes (conhecidos como o Resto do Parlamento) para votar o fim da monarquia. Carlos foi julgado por traição à Inglaterra, sendo decapitado em 1649, quando a Inglaterra começou seu período de onze anos como uma república.
As causas da guerra
O rei Carlos I e o Parlamento eram oponentes naturais. Carlos gostava dos católicos enquanto o Parlamento era protestante, e ele acreditava no direito divino dos reis - a ideia de que a escolha do rei é aprovada por Deus, tendo assim poder absoluto.
O conflito começou por causa das repetidas tentativas do rei de arrecadar dinheiro para uma guerra na França. O Parlamento tentou limitar seu poder ao apresentar uma Petição de Direitos em 1628, tornando necessário que seus membros aprovassem a tributação. No entanto, Carlos se livrou disso ao cobrar impostos usando leis medievais, vendendo monopólios comerciais para levantar dinheiro, governando assim sem o Parlamento. Em 1640, o rei foi forçado a convocar o Parlamento pela primeira vez em onze anos para conseguir dinheiro para abafar uma revolta escocesa. Uma vez convocado, o Parlamento tentou adicionar medidas para limitar seu poder, tais como tornar ilegal ao rei dissolver o Parlamento, mas ele respondeu tentando prender cinco parlamentares. A disputa cresceu até virar a Primeira Guerra Civil, em 1642.
A guerra e seus efeitos
A princípio, os partidários do rei saíram na frente, mas em 1644 os parlamentaristas reorganizaram suas tropas sob Oliver Cromwell. Com sua abordagem disciplinada e profissional, esse "novo modelo de exército" forçou Carlos a se render em 1646. Porém, o rei recomeçou a guerra dois anos depois, e essa Segunda Guerra Civil - que terminou com a derrota dos partidários do rei na Batalha de Preston em 1648 - deu início a uma série de eventos que levaram à sua execução em 1649 e à formação de uma república, sob Cromwell, chamada de Comunidade da Inglaterra.
Assim como Carlos, Cromwell teve relações difíceis com o Parlamento, mas tentou implementar reformas. Ele governou com rígida autoridade puritana, impondo-a de forma cruel aos escoceses e irlandeses. Logo depois de sua morte, o país - talvez cansado da austeridade puritana - convidou o filho de Carlos 1, que estava no exílio, para que voltasse e assumisse o trono. Carlos II concordou com as limitações ao poder real e a manter a fé protestante, mas seu herdeiro — seu irmão católico Jaime II — entrou em conflito com os bispos anglicanos e desagradou os protestantes ao oferecer cargos importantes para os católicos.
O temor de ter um novo rei católico aumentou até que, em 1688, no que acabou ficando conhecida como a Revolução Gloriosa, Jaime foi deposto. O rei foi exilado e substituído por sua filha protestante, Maria, que governou com seu marido holandês Guilherme de Orange. Em 1689, Guilherme e Maria aceitaram a Declaração de Direitos, que garantia aos súditos liberdades civis básicas, como um julgamento com júri, e sujeitando a monarquia à lei da terra. A partir de então, a Grã-Bretanha tem sido uma monarquia constitucional, na qual nenhum rei ou rainha pode desafiar o Parlamento, como fez Carlos I.
Em 1660, a Companhia dos Aventureiros Reais da África foi fundada na Inglaterra. Seu estatuto, endossado pelo rei, dava a seus barcos o direito exclusivo de fazer o comércio na costa da África Ocidental e permitia aos seus membros construir fortes por lá, em troca de dar à Coroa inglesa metade dos lucros obtidos. Doze anos mais tarde, a companhia foi reorganizada como Companhia Real Africana, agora com poderes ainda maiores: construir fortes e "fábricas" (onde os escravos eram mantidos antes de serem enviados através do Atlântico), e ter suas próprias tropas. O significado específico da companhia se deve ao seu papel crucial na facilitação e no desenvolvimento do tráfico de escravos. Ela transportou muitos milhares de africanos para uma vida de escravidão, trabalhando junto com líderes da África Ocidental para criar um mercado que durou até bem depois do seu fim em 1752, e que veria, por fim, milhões de africanos ser transferidos para viver sob trabalho forçado nas Américas.
A fundação da companhia
Logo após sua fundação, a companhia se envolveu na Segunda Guerra Holandesa, um conflito comercial em que a Holanda tomou vários fortes da Inglaterra, excluindo-os do tráfico negreiro durante a guerra. O envolvimento na guerra quase levou a Companhia dos Aventureiros Reais à falência, mas em 1672, com uma nova autorização do rei, ela se reergueu, trocou de nome, se reestruturou e garantiu o direito de levar escravos para serem vendidos na América. Prosperou, transportando cerca de 100 mil escravos entre aquele ano e 1698, quando, com a restrição do poder real pela Declaração de Direitos, ela perdeu o monopólio sobre o comércio. Depois de 1698, foi permitido a outros mercadores entrar no comércio, desde que pagassem uma taxa de 10% de todas as suas exportações africanas. O envolvimento de outros comerciantes fortaleceu o comércio a tal ponto que ele se tornou parte da vida mercantil britânica por todo o século XVIII.
O comércio de escravos era muito mais antigo que a Companhia Real Africana. Os comerciantes portugueses no final do século XIV foram os primeiros europeus a transportar escravos a partir da África Ocidental. No século XVI, estavam levando grandes quantidades de escravos para o Brasil, para trabalhar nas plantations de cana-de-açúcar. O Brasil continuou sendo o maior destino de importação de escravos africanos, até que o comércio foi proibido. As primeiras expedições britânicas em busca de escravos foram nos anos 1560, em que mercadores compravam escravos capturados por líderes africanos. Durante o século XVII, com o crescimento da colonização inglesa, o mercado para escravos africanos cresceu, e a Companhia Real Africana se aproveitou muito disso.
O comércio triangular
O tráfico de escravo transatlântico rapidamente se tornou parte de uma rede triangular de comércio maior, na qual os barcos levavam escravos da África para as Américas, enchiam seus porões de bens para levar para a Europa e levavam bens manufaturados europeus para ser vendidos na África, fechando a triangulação. Os barcos levavam mercadorias como açúcar, melaço e café do Caribe para a Inglaterra; arroz, índigo, algodão e tabaco das colônias sulistas da América do Norte; e peles, madeira e rum do nordeste americano. Na rota Inglaterra-África, levavam uma série de itens como roupas, armas, ferro e cerveja. Bens como o marfim e o ouro eram levados diretamente da África para a Europa não como parte do comércio triangular, mas ainda assim impulsionando o sistema.
A rede de comércio deu lucros enormes aos donos de plantations nas Américas, aos fabricantes na Inglaterra, bem como aos mercadores que comercializavam escravos e outros bens. Todos lucravam: dos operadores de portos aos líderes da África Ocidental, dos banqueiros que financiavam as expedições até os operários das fábricas inglesas cujos empregos dependiam das matérias-primas importadas do exterior.
Como parte-chave dessa rede de comércio, o tráfico negreiro tornou possível a rápida ascensão do capitalismo ocidental no século XVIII. Até fábricas que ficavam a alguma distância dos portos comerciais da Inglaterra se envolveram. Um notável exemplo foi o negócio de fabricação de armas, que ficava no centro da Inglaterra, em núcleos urbanos como Birmingham, convenientemente próximos da oferta de ferro. Quase 150 mil pistolas, a maioria feita em fábricas no interior, eram exportadas para a África todos os anos. Quase todas eram trocadas com mercadores africanos por escravos. Os talheres ingleses de Birmingham e Sheffield também eram comercializados assim. Havia tantas pessoas interessadas no comércio triangular que ficou difícil aos políticos europeus critica o sistema, quanto mais aboli-lo.
O número de pessoas escravizadas e vendidas era enorme. Estima-se que quando o tráfico negreiro foi proibido na Inglaterra em 1807, os mercadores britânicos já haviam forçado algo próximo de 3 milhões de africanos à escravidão nas Américas. Um número desconhecido de pessoas nem sequer chegou à América, morrendo no percurso por causa das terríveis condições de transporte nos navios negreiros. É provável que um número ainda maior tenha sido transportado pelos portugueses para o Brasil. Navios de outras nações também levavam menos escravos. Alguns historiadores estimaram que o número total pode ter chegado a 10 milhões, se bem que outros dizem que foi ainda maior.
As colônias europeias
Os colonos espanhóis, holandeses e franceses foram os primeiros a usar o sistema de plantations no Caribe, produzindo colheitas de cana e café em enormes fazendas, ou plantations. Suas principais colônias caribenhas incluíam Cuba (uma colônia da Espanha), Haiti (França) e as Antilhas Holandesas (Holanda). O uso de trabalhadores escravos nessas plantations dava grandes lucros aos seus donos. A presença britânica na área aumentou no século XVII, quando a colônia britânica de maior sucesso era Barbados, onde havia 46 mil escravos por volta dos anos 1680. No século XVIII, também houve um boom de açúcar na Jamaica.
A maior parte da população nativa foi morta pelas conquistas europeias, e os trabalhadores europeus não se adaptaram bem às condições locais, assim os donos das plantations dependiam cada vez mais da implacável exploração dos escravos. A escravidão também era disseminada nas colônias da América do Norte, sobretudo nas áreas do sul onde se cultivava tabaco, por exemplo, nas plantations. Os escravos eram, com frequência, tratados como objetos não humanos, forçados ao trabalho e sujeitos a crueldades como surras, marcação a ferro ou piores.
A escravidão além do triângulo
Os colonizadores da Europa também praticavam a escravidão além do triângulo comercial do Atlântico. Os holandeses foram os primeiros no comércio de escravos no sudeste asiático, e também comercializavam pelo oceano Índico para áreas como Madagascar e Ilhas Maurício. A maior parte desse comércio era conduzida sob os auspícios da Companhia das Índias Orientais, que tinha sua sede na Ilha de Jacarta, conhecida pelos holandeses como Batávia, além de uma base em Sri Lanka. A partir desses pontos eles transportavam escravos por todo o oceano Índico, do leste da Indonésia até o sul da África. Depois que portugueses e ingleses estabeleceram suas bases, também passou a haver um comércio adicional de escravos pela costa da Índia.
O tráfico negreiro não era feito apenas pelos europeus. Os mercadores muçulmanos também transportavam escravos do leste da África para vendê-los em outras partes do mundo muçulmano.
No entanto, o comércio triangular era um elemento crucial na criação de uma economia global movida pelos europeus e suas crias coloniais para seu próprio lucro. Ele permitiu um fenomenal crescimento na riqueza dos países que faziam o comércio. Na Inglaterra, por exemplo, o valor do comércio exterior subiu de £10 milhões no começo do século XVIII para £40 milhões no final. Mas o custo do comércio de escravos, que influenciou padrões de pensamento e comportamento nos séculos seguintes, continua incalculável até hoje.
A Bolsa de Valores de Amsterdã — o primeiro mercado permanente no mundo para ações e cotas — abriu em 1602, sob os auspícios da Companhia Holandesa das Índias Orientais (conhecida na Holanda como voc). A companhia era um vasto império — na verdade, a primeira corporação internacional — e foi criada para facilitar as expedições comerciais à Ásia. De forma inusitada, o governo holandês deu à companhia o poder não apenas de fazer comércio, mas também de construir fortificações, criar assentamentos, recrutar exércitos e fazer acordos com governantes estrangeiros. Já que a organização tinha uma enorme rede de navios, portos e pessoal, exigia um financiamento considerável, além de muitos investidores. A Bolsa de Valores de Amsterdã foi originalmente estabelecida para permitir aos investidores negociar suas ações da Companhia das Índias Orientais, mas acabou se desenvolvendo e se tornando um vibrante mercado de ativos financeiros e o carro-chefe de uma crescente economia capitalista na República Holandesa.
Uma economia em expansão
No século XVII, a Holanda estava crescendo economicamente, a despeito de estar envolvida numa longa guerra com a Espanha. A parte norte da região (a República Holandesa, que era protestante) se dividiu da metade sul (Flandres, que era católica) no final do século XVI. A República consistia em sete províncias separadas ao norte, cada uma com um alto grau de independência, mas sob o guarda- -chuva de um governo federal chamado Estados Gerais. Mercadores protestantes que viviam em cidades católicas, como Antuérpia, se mudaram para o norte para escapar da perseguição, levando consigo seu capital e vínculos comerciais. Igualmente, artesãos flamengos que dominavam a técnica da produção têxtil (a princípio de lã, seda e linho) emigraram para o norte, para as cidades de Haarlem, Leiden e Amsterdã, dando um impulso adicional à economia da República Holandesa.
Com o avanço do século XVII, a República de fato começou a prosperar. E, mais importante, a nação tinha uma forte tradição naval, o que lhe deu uma enorme vantagem sobre muitos países. Além disso, seus cidadãos tinham uma forte ética de trabalho — em grande parte devido à crença protestante de que o trabalho mundano era uma obrigação e uma rota para a salvação —, então a produtividade era alta. Também havia uma população em crescimento (sobretudo a classe média urbana) e uma grande cidade em expansão- Amsterdã, que provou ser um centro ideal para o comércio. Todos esses fatores positivos fizeram que a economia holandesa se movesse cada vez mais para navegação, comércio e finanças.
Exploração e comércio
Por ser uma nação costeira, a República Holandesa produziu excelentes navegadores e exploradores, portanto o comércio de longa distância era uma consequência natural da história marítima do país. Além disso, avanços na tecnologia da construção de navios permitiram à frota mercante holandesa se expandir rapidamente. Em 1670, os holandeses tinham mais navios mercantes que todo o resto da Europa junto. A crescente classe mercantil via um enorme potencial de lucro no comércio de especiarias com a Ásia, e, como em outras culturas marítimas como Espanha e Portugal, os navegadores procuravam novas rotas para o Oriente. Os holandeses viajaram por todo o globo e estabeleceram colônias, incluindo uma na América do Norte: a Nova Amsterdã, que eles oficialmente fundaram em 1624 e mudou de nome, para Nova York, quando os britânicos assumiram o controle. Em 1596, o explorador holandês Willem Barentsz tentou encontrar uma passagem ao norte para a Ásia e, no processo, descobriu Svalbard (Spitsbergen), que depois se tornou um destino para os baleeiros holandeses.
Mais importante por causa da prosperidade, a partir de 1595 os holandeses começaram a fazer viagens regulares ao sudeste asiático para comercializar especiarias, sobretudo pimenta, noz-moscada, cravo e canela. Fundaram colônias na região e a cidade de Batávia, mais tarde chamada Jacarta. Com essa base permanente, tinham a habilidade de comercializar no longo prazo, dando um enorme impulso à sua economia.
Necessidade de investimento
Enquanto a riqueza gerada pela exploração e pelo comércio era reinjetada na economia holandesa, ao mesmo tempo exigia-se investimento para cobrir os custos consideráveis das expedições ultramarinas. Uma viagem comercial à Ásia no século XVII era uma empreitada arriscada - os lucros potenciais eram altos, mas as tempestades no mar, os piratas, guerras ou acidentes poderiam levar à perda do navio, da tripulação e da carga, acabando com todo o lucro. Fazia então sentido para muitas pessoas investir em cada viagem para diluir o risco, em vez de haver uma única entidade assumindo todos os custos e responsabilidades. Foram fundadas companhias comerciais privadas, cada uma investindo uma pequena quantidade num todo maior, e, se tudo desse certo, todas receberiam uma parte proporcional dos lucros.
O nascimento da Bolsa
Em 1602, essas trading companies se fundiram para formar a Companhia Holandesa das Índias Orientais, e as ações do novo empreendimento foram oferecidas na recém-criada Bolsa de Valores de Amsterdã. Foi estabelecido desde o começo que os donos poderiam comprar e vender essas ações, e logo em seguida outras companhias passaram a listar suas próprias ações na Bolsa de Valores tentando levantar dinheiro. A facilidade na compra e venda de ações tornou a Bolsa de Valores muito ativa, alimentando o crescimento do capitalismo nessa parte da Europa. O investimento crescente resultou em mais negócios, levando a mais investimentos e geração de uma riqueza ainda maior.
Uma história de comércio
A Bolsa de Valores de Amsterdã não se desenvolveu a partir do nada. A compra e venda de títulos — ativos financeiros comercializáveis como ações — já tinha uma longa história na Europa. No século XIV, talvez até antes, os mercadores nas ricas cidades comerciais italianas, como Veneza e Genova, já comercializavam títulos. Porém, as condições existentes na Holanda no século XVII indicavam que o mercado estava especialmente em ebulição. Desde o século XVI, já existia um forte mercado financeiro em Amsterdã, onde havia uma tradição de comércio de mercadorias e especulação para tudo, do óleo de baleia às tulipas. A ideia de comprar e vender ações, portanto, tinha um apelo nessa sociedade empreendedora, sobretudo com as boas perspectivas de grandes lucros no comércio asiático. Além disso, a forma única como funcionava a bolsa - aberta por apenas algumas horas-encorajou as compras e vendas e produziu um mercado muito líquido.
Impulsos à economia
A abertura da Bolsa de Valores de Amsterdã foi seguida, em 1609, pela fundação do Banco de Amsterdã -- precursor dos modernos bancos nacionais. O banco oferecia um lugar seguro para manter dinheiro e metais preciosos e garantia que a moeda local mantivesse seu valor. Isso colaborou para tornar a República Holandesa mais segura em termos financeiros, auxiliando a atividade mercantil, vigorosa mas arriscada, a crescer junto com esse mercado em ascensão.
Em 1623, o mercado teve um impulso adicional quando a Companhia Holandesa das Índias Orientais desenvolveu um novo estatuto, pagando um dividendo regular aos investidores e permitindo aos que quisessem sair da companhia que vendessem suas ações na Bolsa de Valores. Essa iniciativa aumentou ainda mais as operações no Mercado de Ações, impulsionando também outras atividades lucrativas, como os mercados futuros.
O negócio de seguros também estava em ascensão em Amsterdã nessa época - sobretudo o seguro marítimo, que foi criado no século XVI para proteger os donos de embarcações e os investidores contra os riscos das viagens de longa distância. Quando a Bolsa de Valores abriu, uma área especial foi designada para a compra e venda de seguros.
Uma cultura florescente
A atividade financeira em ebulição que prevalecia em Amsterdã no século XVII encorajou a crescente classe média a comprar bens de consumo, incluindo mobílias sofisticadas e pinturas a óleo, impulsionando ainda mais a economia dessa região já tão bem-sucedida. Um notadamente forte mercado de arte se desenvolveu, permitindo a grandes pintores — como Vermeer e Rembrandt, e outros menores, mas numerosos — florescer. Muitos eram especialistas, satisfazendo uma crescente demanda por retratos, paisagens (marinhas ou não) e naturezas-mortas, apesar de grandes artistas como Rembrandt se destacarem em todos os gêneros e formas de arte, incluindo pintura, desenho e gravuras.
A crescente riqueza também levou à expansão das cidades, com novas prefeituras, armazéns e lojas comerciais surgindo em todo lugar. Várias casas de tijolos, das classes médias, ainda sobrevivem em cidades como Amsterdã e Delft, muitas erigidas às margens dos canais construídos nessa época — período de boom econômico que combinou elegância e talento artístico com o sucesso no comércio.
Em 21 de outubro de 1600 houve uma impressionante batalha em Sekigahara, centro do Japão, entre duas facções em guerra —-os exércitos do leste e do oeste —, ambas lutando pelo controle do país. O Exército do Leste, sob a liderança do sr. Tokugawa Ieyasu, teve uma vitória decisiva. Três anos depois, o imperador do Japão deu a Ieyasu o título de xogum, assegurando-lhe o poder de governar o país no lugar do imperador. Ieyasu trouxe estabilidade e paz ao Japão e transferiu a capital para Edo (atual Tóquio), criando um novo foco para a cultura japonesa, além de estabelecer uma base central de poder.
Disputas entre facções
Desde 1192, o imperador do Japão não passava de uma figura decorativa. Ele delegava o poder ao xogum: um comandante militar hereditário e de alta patente que governava com autoridade absoluta. No entanto, por volta dos anos 1460, os senhores feudais locais (daimyos) eram tão poderosos que poucos xoguns tinham poder sobre eles, já que eles seus exércitos de samurais lutaram para conseguir o direito de escolher o sucessor do xogum. Na época da Batalha de Sekigahara, o Japão já estava enfrentando amargas disputas de facções dentro de suas classes dominantes por mais de um século.
A vitória de Ieyasu na batalha pôs fim a esse Período dos Estados Combatentes. Seu governo firme, seguido pelos xoguns Tokugawa que os sucederam, garantiram um período de 250 anos de estabilidade.
Os xoguns Tokugawa
Em muitos aspectos, os xoguns Tokugawa usavam como modelo os antigos governantes - especialmente Toyotomi Hideyoshi. Apesar de não ter tido um berço importante para que se tornasse xogum, Hideyoshi (que governou com o título inferior de regente imperial) trouxe unidade ao Japão nos anos 1580 ao impor um estilo militar e feudal de governar, onde ele exercia grande poder através dos daimyos e de seus guerreiros samurais. Os xoguns Tokugawa decidiram governar da mesma forma, com os daimyos mantendo a ordem em suas localidades. Com uma precaução a mais, Ieyasu fez com que os daimyos passassem anos alternados em Edo para garantir que não construíssem bases locais de poder. Além disso, também reprimiu seus rivais de forma cruel.
Os xoguns encorajaram a ética da lealdade e desenvolveram uma elite burocrática. Melhoraram a rede de estradas do Japão, promoveram a educação e padronizaram a moeda. O xogunato ainda tentou reduzir a influência externa no Japão ao expulsar estrangeiros e limitar o contato com o mundo exterior. Foram abertas exceções para o comércio estritamente controlado com chineses, coreanos e com a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Todos os outros europeus geravam desconfiança, e os xoguns acreditavam que eles queriam converter o Japão ao cristianismo e ganhar poder político. Além disso, o povo japonês foi proibido de viajar e construir navios oceânicos. Essa política de isolamento virtualmente isolou o Japão da influência ocidental até meados do século XIX.
O "mundo flutuante"
A capital Edo tornou-se o centro de uma pujante cultura urbana durante o xogunato dos Tokugawa. As formas literárias japonesas, como o haicai (um poema curto com três linhas e dezessete sílabas), floresceram, bem como formas distintas de teatro como o kabuki (que combinava teatro e dança) e o teatro de marionetes bunraku. Também foi um período de grandes feitos nas artes visuais, sobretudo na arte de paisagens e na xilogravura.
A elite da capital se tornou cada vez mais hedonista, com seu estilo de vida descrito amiúde como o "mundo flutuante" (ukiyo). Originalmente, os budistas usavam o termo ukiyo para descrever o "mundo do sofrimento", refletindo sua opinião de que a vida na Terra era transitória e expressando o desejo de alcançar um lugar mais permanente, livre do sofrimento e de todos os prazeres terrenos. Porém, no Período Edo, o homônimo ukiyo ("flutuante") era usado para descrever o aspecto alegre do mundo efêmero material, refletindo a propensão, à época, de busca do prazer.
Em 1644, os manchus — um povo seminômade que havia construído um grande Estadono nordeste da Grande Muralha da China — conquistaram Pequim de um regime Ming em frangalhos e estabeleceram sua própria dinastia, os Qing, como os governantes do norte da China. Dezessete anos mais tarde, após uma terrível luta de proporções épicas, os Qing venceram a determinada resistência dos partidários dos Ming e estenderam seu poder por toda a China continental. Porém, sua dinastia ainda não estava segura - em 1673, Kangxi, o segundo imperador, foi forçado a enfrentar um grande levante que ficou conhecido como a Revolta dos Três Feudos.
Os Três Feudos eram vastas áreas no sul da China que haviam sido dadas como campos feudais semi-independentes a três generais Ming vira-casacas que ajudaram os Qing em sua conquista da China. Com o tempo, os campos feudais ficaram cada vez mais autônomos, mas, quando Kangxi declarou que eles não seriam mais hereditários, os generais se rebelaram. A disputa que se seguiu foi muito custosa em termos de vidas e de perturbação econômica, e por pouco tempo parecia que um general, Wu Sangui, derrotaria os Qing. Mas ele foi finalmente derrotado pelos partidários de Kangxi, e em 1683 os Qing eliminaram a última cidadela de apoio Ming em Taiwan, que acabaram ocupando.
Como os Qing eram os incontestáveis governantes da China, Kangxi embarcou em campanhas militares que anexaram partes da Sibéria e da Mongólia ao império chinês, e estendeu seu controle sobre o Tibete. Sob sua excepcional liderança, e a dos seus próximos dois sucessores, a China desfrutou de uma era de paz, prosperidade econômica e estabilidade política que durou até o final do século XVIII.
Uma superpotência global
Durante os 61 anos de seu reinado, Kangxi conquistou a cooperação e a lealdade de seus súditos chineses Han — que antes viam os manchus como bárbaros —, ao preservar e honrar a herança cultural chinesa. Ele também deu continuidade à forma de governo da dinastia anterior, e permitiu às autoridades Ming que retivessem seus postos provinciais com as indicações manchus, apesar de estes últimos acabarem supervisionando a maior parte do trabalho.
A China Qing se tornou imensamente poderosa durante o reinado dos dois próximos imperadores — Yongzheng (1722-1735), que também manteve um rígido controle sobre o governo e a burocracia e aumentou as receitas do estado ao reformar o sistema tributário, e Qianlong (1735-1796), sob cujo governo as fronteiras do império alcançaram sua maior extensão e a população cresceu muito. Qianlong era um ávido patrono das artes que escrevia poesia e bancava projetos literários que aumentavam a reputação de seu povo — se bem que, ao mesmo tempo, bania e destruía livros julgados antiQing.
A sociedade Qing
A Era dos Três Imperadores foi conservadora sob várias perspectivas: os chineses Han foram obrigados a usar o corte de cabelo manchu, no qual a frente e o lado da cabeça eram raspados e o restante do cabelo era preso numa trança. A sociedade era rigidamente hierárquica, e havia rígidas convenções a respeito do comportamento das mulheres, leis contra a homossexualidade, além da censura. Ainda assim, a economia do país cresceu substancialmente no começo do período Qing, graças a uma forte demanda no Ocidente por produtos de luxo como seda, porcelana e chá.
No entanto, no começo do século XIX, o tratamento repressivo do regime em relação aos chineses Han, junto com a fome e a ampla dependência do ópio — que havia sido trazido para a China por comerciantes europeus —, fez com que o país entrasse em declínio. Esses fatores lançaram as sementes de rebeliões, disputas comerciais e guerras com os parceiros comerciais europeus em meados do século XIX.
Com a morte do poderoso primeiro-ministro francês Manzarino, o rei Luís XIV, então com apenas 23 anos, declarou que não nomearia um substituto para o cargo, passando a governar sozinho como um monarca absoluto. Durante seus 72 anos de reinado, Luís cultivou a imagem do "Rei Sol", uma semidivindade ao redor da qual o povo francês deveria orbitar. Seguindo tradições políticas medievais que remontam a Carlos Magno, a autoridade do monarca era considerada uma concessão do próprio Deus. Assim, o rei seria a encarnação do Estado e da Justiça, e o resto da população, inclusive a nobreza, dependia dele para ter proteção e liderança.
Claro que todo esse poder não surgiu espontaneamente. Os Bourbon, sobretudo Luís XIV e seu antecessor, Luís XIII, conduziram por décadas um processo de centralização do poder, concedendo cargos e privilégios que fizeram os aristocratas franceses se tornar membros obedientes da corte do Rei Sol. Luís também recuperou os cofres do Tesouro, nomeando novos coletores de impostos para vigiar de perto a arrecadação nas províncias. As taxações eram pesadas e recaíam mais duramente sobre os camponeses. Um dos principais nomes do governo de Luís XIV foi o ministro das Finanças, Jean-Baptiste Colbert. Suas reformas aumentaram a eficiência da arrecadação de impostos e ajudaram o comércio e a indústria da França, tornando o país uma das potências do século XVIII. Eles também tornaram possível a construção do gigantesco Palácio de Versalhes. A nova moradia real era uma espécie de metáfora arquitetônica do poder quase ilimitado do Rei Sol. Não por acaso, Colbert é tido como um dos artífices do sistema político que hoje nomeamos de Absolutismo.
Todo poder ao rei
Na idade moderna, a Europa passou por um processo de centralização política. A nobreza feudal foi enfraquecida pelo crescimento do comércio e da riqueza das cidades, abrindo espaço para a ascensão de uma figura que estava esquecida e sem poder desde a época dos carolíngios: o rei. Os monarcas unificaram seus territórios sob uma única Coroa e concentraram o poder de fato, voltando a controlar o exército e a arrecadação de impostos. Em troca, os senhores feudais foram transformados em nobreza de corte, o que garantia a proteção de seus privilégios ante a ameaçadora ascensão da classe burguesa. O cume desse processo de concentração de poder é o surgimento da Monarquia Absolutista.
O sistema absolutista estava apoiado sobre uma doutrina econômica chamada Mercantilismo. Seu princípio básico era a intervenção do Estado na economia, promovendo políticas protecionistas para garantir um saldo sempre favorável na balança comercial do país. Outro de seus princípios era o metalismo, crença de que a riqueza de um reino é medida pela quantidade de metais preciosos que acumulou. Isso explica a sede de espanhóis e portugueses para arrancar ouro e prata de suas colônias na América. Por fim, o Estado Absolutista também se comprometia a garantir o chamado pacto colonial, isto é, a exclusividade que a metrópole tinha sobre a compra e venda de produtos de suas colônias.
Quase toda monarquia europeia experimentou nos séculos XVII e XVIII um governo absolutista, mas Luís XIV acabou se tornando o grande símbolo desse sistema, porque em nenhum outro país a centralização do poder foi tão completa como na França dos Bourbon.
A expansão da França
O século de Luís XIV foi um momento de crescimento da França também perante os demais Estados europeus.
Em primeiro lugar porque o país saiu vitorioso da Guerra dos Trinta Anos. Embora fossem católicos, os Bourbon apoiaram o lado protestante do conflito graças a uma estratégia inteligente arquitetada pelo cardeal Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII. A guerra terminou em 1648, já durante o reinado de Luís XIV, com um saldo extremamente positivo: a França minou o poder dos Habsburgos austríacos, a mais poderosa família nobre da Europa até aquele momento, e anexou as regiões anteriormente germânicas de Alsácia e Lorena.
O país se envolveu também na Guerra de Sucessão Espanhola, ajudando Felipe d'Anjou, neto de Luís XIV, a vencer seu concorrente, Carlos vi da Áustria. O embate terminou com a assinatura do Tratado de Utrecht (1713), consolidando a soberania dos Bourbon também sobre a Espanha.
Mas esse expansionismo teve um custo: a França se endividou e a opinião pública ao longo do tempo se voltou contra a nobreza. Mesmo assim, o modelo quase perfeito de Estado Absolutista estabelecido por Luís XIV só seria derrubado com a Revolução Francesa de 1789.
O cientista inglês Isaac Newton publica a primeira edição de Princípios matemáticos da filosofia natural, ou Principia, em 1687. O livro examina a forma como os objetos se comportam em movimento, descreve a gravidade e explica os movimentos dos planetas e satélites. Apesar de ele basear sua obra em Galileu, Huygens e Kepler, seu trabalho é revolucionário. Ao ilustrar como a mesma força — a gravidade — é responsável pelos movimentos tanto na Terra como nos céus, ele uniu duas esferas científicas que até então se pensava separadas.
Uma influência duradoura
O uso da teoria baseada na matemática de Newton para explicar fenômenos foi parte de uma revolução científica mais ampla. O ensaísta inglês Francis Bacon insistiu que os cientistas fizessem suas observações usando um argumento racional, e o filósofo francês René Descartes liderou o uso da matemática e da lógica para tratar de questões científicas. Ao enfatizar a importância da razão humana, tais filósofos se libertaram da noção de que as explicações do mundo físico dependiam da fé cristã e da doutrina da Igreja. Isso abriu caminho para o movimento intelectual chamado Iluminismo e até mesmo para obras de outros cientistas mais tarde, como Albert Einstein, que modificou e refinou as teorias de Newton.
No dia 13 de setembro de 1759, 24 soldados britânicos escalaram os penhascos ao sul de Quebec, abrindo caminho para as forças britânicas comandadas pelo general James Wolfe conquistarem a cidade. Essa fundamental batalha acabou com o domínio francês no Canadá e foi um evento-chave para a Guerra dos Sete Anos (1756-1763).
A guerra envolveu a maioria das principais nações europeias numa disputa por território e poder. Seu foco estava em dois grandes conflitos: o primeiro, marítimo e colonial, envolveu batalhas em terra na América do Norte e na Índia, entre os britânicos e os Bourbon da França; o segundo, uma guerra terrestre na Europa que juntou França, Áustria e Rússia contra a Prússia. Colônias ultramarinas também foram envolvidas, o que fez desse o primeiro conflito verdadeiramente global.
Consequências imprevisíveis
A Inglaterra obteve vitórias importantes sobre a França. Os britânicos mantiveram ou ampliaram seu território na África, no Caribe, no atual Canadá e na Índia, passos importantes para consolidar sua posição de maior potência colonial do mundo.
Porém, no médio prazo, o preço da guerra foi maior do que se poderia prever. O conflito de quase uma década elevou os gastos militares da Inglaterra e deixou o país endividado. Para solucionar o problema, a Coroa decidiu aumentar o controle sobre suas colônias na América do Norte, proibindo indústrias e sobretaxando produtos como o açúcar. A revolta dos colonos com essa súbita perda de autonomia foi uma das causas para a proclamação, anos depois, da Independência dos Estados Unidos.
Em meados do século XVIII, o filósofo francês Denis Diderot convidou à alguns dos principais intelectuais do país — escritores, cientistas, acadêmicos e filósofos para escrever artigos para um enorme Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, no qual ele atuava como o editor-chefe e colaborador. Os primeiros volumes da sua Enciclopédia foram lançados em 1751, e a obra foi completada 21 anos depois, com dezessete volumes de texto e mais onze de ilustrações.
A Enciclopédia não foi a primeira grande obra do tipo a ser publicada, mas foi a primeira a ter seu conteúdo assinado por seus autores e a dar especial atenção aos ofícios. Seu mais importante feito, porém, foi a abordagem crítica às ideias e instituições contemporâneas: seus autores eram expoentes do pensamento científico e dos valores seculares. Eles buscaram usar a razão e a lógica para explicar os fenômenos do mundo natural e da existência humana, em vez de dogmas religiosos e políticos. Assim, a obra desafiou tanto a Igreja católica quanto a monarquia francesa, que derivava sua autoridade de ideias tradicionais como a ordem imutável e divinamente estabelecida.
Uma revolução no pensamento
A missão da Enciclopédia era catalogar o conhecimento coletivo do mundo ocidental seguindo o espírito do Iluminismo. Este foi um movimento intelectual de múltiplas facetas que se arraigou ao redor de 1715, apesar de suas origens datarem do século anterior da obra dos pioneiros do moderno pensamento científico e filosófico. Os artigos multidisciplinares da obra, cujo número chegava a quase 72 mil, destilavam as ideias e teorias dos principais pensadores iluministas — incluindo escritores e filósofos como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Montesquieu.
Os artigos eram muito amplos, mas centrados em três principais áreas: a necessidade de basear a sociedade não na fé e nas doutrinas da Igreja católica, mas no pensamento racional; a importância da observação e das experiências para a ciência; e a busca de uma forma de organizar estados e governos em torno de uma lei e justiça natural.
Diderot organizou os artigos da Enciclopédia em três grandes categorias: memória (assuntos ligados à história); razão (filosofia); e imaginação (poesia). De forma controversa, não havia nenhuma categoria especial para Deus ou o divino — a religião, assim como a magia e a superstição, era tratada como parte da filosofia. Essa abordagem foi inovadora e litigiosa. A religião tinha estado no próprio cerne da vida e do pensamento da Europa por séculos: a Enciclopédia e o próprio Iluminismo negaram-lhe essa posição-chave.
Apesar dos repetidos esforços das autoridades de censurar certos artigos e de intimidar e ameaçar seus editores, a Enciclopédia se tornou a obra mais influente e consultada do período. As ideias que ela transmitiu inspiraram revoluções que eclodiram na França e nos EUA no final do século XVIII.
Ciência e razão
O movimento iluminista valorizou o poder da razão e do ceticismo como forma de atingir um conhecimento verdadeiro. Isso significou um rompimento em relação às antigas gerações para as quais as crenças sobre o mundo derivavam de ensinamentos religiosos e doutrinas da Igreja. Esses dogmas governavam tudo, desde as leis do matrimônio até a forma como as pessoas entendiam o movimento dos planetas e a criação do Universo. Para os pensadores iluministas, no entanto, a evidência dos sentidos de uma pessoa e o seu uso da razão eram muito mais importantes que sua aderência cega à fé. Eles argumentavam que as "verdades" a respeito do mundo tangível, que haviam sido estabelecidas na Antiguidade por Aristóteles e outros, e mantidas pela Igreja, deveriam ser testadas através de observação e experimentação, e só depois debatidas.
Esse modo empírico de pensamento teve suas origens na revolução científica do século XVII. Cientistas e filósofos, como Francis Bacon, Johannes Kepler, Isaac Newton e Galileu Galilei transformaram o estudo da natureza e do Universo físico, tornando-o mais observável. Eles conduziram cuidadosos experimentos e sujeitavam seus resultados à análise matemática. No processo, atualizaram e expandiram drasticamente os campos da física, química, biologia e astronomia.
Os cientistas iluministas levaram essa investigação da realidade além, tornando possível, por exemplo, que o botânico sueco Carl von Linné desenvolvesse uma classificação própria, racional e biológica no começo do século XVIII. A abordagem inquisidora, baseada na razão do Iluminismo, também disparou avanços tecnológicos. Nos anos 1760, o físico escocês Joseph Black descobriu o dióxido de carbono, e em 1769 o também escocês James Watt fez melhorias no motor a vapor, aumentando sua eficiência e possibilitando o progresso das fábricas. A Enciclopédia ajudou a publicar esses e outros feitos dos cientistas do século XVIII, bem como os de seus precursores.
A obra também encontrou uma audiência nas sociedades letradas, academias e universidades que floresciam no período do Iluminismo. Apesar de muitos professores e eruditos das universidades europeias mais velhas, dominadas pela Igreja, terem ficado surdos à nova forma de pensamento científico, os que eram mais progressistas ajudaram a ensiná-lo e promovê-lo.
Igualdade e liberdade
A revolução científica e o Iluminismo também encorajaram a crença de que a razão poderia revelar as leis naturais dos assuntos humanos. Em vez de concluir o fato a partir da fé, os iluministas acreditavam que a política deveria ser separada da religião, que nenhuma das duas deveria tolher os direitos do indivíduo e que as pessoas deveriam ser livres para expressar suas opiniões, cultuar à sua maneira e ler o que quisessem. Essa doutrina política, que é amiúde rotulada de liberalismo, tem raízes na obra de filósofos do século XVII, como o inglês John Locke — o pai do liberalismo. Locke enfatizava que existem certos direitos humanos intrínsecos que não dependem de lei ou costume — em outras palavras, existem bem separados daquilo que a Igreja ou o monarca possam decretar. Esses direitos poderiam ser expressos de formas distintas, mas incluíam o direito à vida, à liberdade e à felicidade de possuir aquilo que se produz. Essas ideias eram centrais para os iluministas, que seguiam Locke e achavam que tais direitos naturais deveriam formar a base de qualquer sistema de governo.
Ideias liberais também acharam expressão na obra de Voltaire. O Dicionário filosófico enfatizava as injustiças e os abusos da Igreja católica e abraçava valores como tolerância, liberdade de imprensa e promoção da razão em substituição a doutrina e revelação religiosa. No seu Espirito das leis, Montesquieu advogou a separação dos poderes estatais (legislativo, executivo e judiciário) e defendeu o fim da escravidão. No Contrato social, Jean-Jacques Rousseau rejeitou o poder do monarca em favor do poder do povo, o qual, disse, deveria equilibrar os direitos com os deveres e ser capaz de decidir as leis que governam sua vida. Os contribuidores da Enciclopédia também promoveram valores liberais na economia. Eles criticavam as feiras — onde os bens eram vendidos por comerciantes de fora à custa dos mercadores locais, que com frequência precisavam fechar seus negócios durante tais eventos e apoiavam os mercados, que permitiam aos mercadores locais satisfazer as necessidades da população local.
Ideias como essas se espalharam por toda a Europa. Conversas e debates sobre filosofia, política e assuntos científicos aconteciam em cafés, que pipocaram nas cidades inglesas, francesas, alemãs e holandesas um século antes. Esses cafés agora serviam de centro para o compartilhamento de informações e onde homens de todos os tipos, incluindo escritores, filósofos e cientistas, poderiam se reunir para trocar opiniões.
Em direção à luz
Na Europa, o movimento iluminista e a própria Enciclopédia, que ajudou a promover seus ideais, tiveram um profundo impacto na vida social, política e intelectual. Seus proponentes criam que estavam varrendo uma visão de mundo medieval opressiva e produzindo uma nova era, que acreditavam que seria caracterizada pela liberdade de pensamento, abertura da mente e tolerância. O questionamento, a abordagem racional e a urgente demanda por liberdade do Iluminismo abriram caminho para garantir novos direitos civis. O movimento afetava as políticas dos governantes monárquicos, como a libertação dos servos no Sacro Império Romano-Germânico nos anos 1780. Os reis que aceitaram os valores do Iluminismo assumiram o nome do movimento, chamando a si mesmos de déspotas esclarecidos. O pensamento iluminista também ofereceu o combustível intelectual para a Revolução Francesa de 1787-1799 — que começou com cidadãos inspirados pelas noções de liberdade e igualdade individuais — e a campanha de abolição do tráfico negreiro no Atlântico no século XIX.
O liberalismo e outros aspectos da filosofia política iluminista começaram a influenciar os líderes em muitas partes do mundo, que se prontificavam a desenvolver sistemas jurídicos e estabelecer direitos para seus cidadãos — de forma mais notável nos recém--nascidos EUA, cuja Constituição (1789) adotava a ideia de Montesquieu de separação dos poderes dentro do estado.
De forma mais geral, o movimento promoveu a busca do conhecimento por si só e reconheceu que a busca de alguém por entendimento poderia beneficiar toda a raça humana.
O governante russo Pedro, o Grande, funda São Petersburgo no estuário do rio Neva, em 27 de maio de 1703. Essa nova cidade, uma fortaleza e um porto no Báltico, dá à Rússia um acesso direto por mar à Europa, abrindo novas oportunidades tanto para o comércio quanto para conquistas militares. Em 1712, Pedro fez de sua nova cidade a capital da Rússia, roubando o título de seu antigo lugar, Moscou.
Admirador de palácios ocidentais. Pedro empregou arquitetos europeus para desenhar os prédios do governo, palácios, universidades e casas seguindo o estilo barroco. Também recrutou 30 mil camponeses para sua equipe de pedreiros, junto com trabalhadores russos que estavam na cadeia e prisioneiros de guerra da Suécia. O regime era rígido, e as condições de trabalho, inóspitas. Mais de 100 mil trabalhadores morreram, mas os que sobreviveram puderam alcançar a liberdade.
O design arrojado e a grande escala da arquitetura de Pedro mostraram não apenas sua apreciação pela cultura europeia, como também sua determinação de ser um governante exaltado e absoluto, do estilo dos déspotas ocidentais como Luís XIV. Ele usou seu poder para trazer mudanças significativas à Rússia. Fundou a Marinha russa e reformou seu Exército, que até então dependia de bandos de homens liderados por anciãos, sem treinamento e recrutados das vilas. Reorganizou o Exército segundo os padrões europeus e desenvolveu as novas indústrias de ferro e munições para equipá-lo. Em 1725, a Rússia tinha um Exército profissional de 130 mil homens.
Uma cultura nova e moderna
Pedro transformou sua corte, fazendo com seus membros se vestissem ao estilo dos franceses, em vez de usar suas becas tradicionais, e ordenou que cortassem suas longas barbas. Fundou faculdades, forçou a nobreza a educar seus filhos e promoveu as pessoas a cargos superiores de acordo com seu mérito, em vez de seu berço, como era costume até então.
O imperador também era conhecido por seu tratamento cruel aos que lhe fossem rebeldes, pela sua agressiva política externa e, sobretudo, pelo seu sucesso na guerra contra a Suécia, que lhe deu controle sobre o mar Báltico. Esse estilo de governar foi seguido pelos monarcas que o sucederam, em especial por Catarina, também "a Grande", que expandiu a tendência modernizadora iniciada por Pedro. Influenciada pelo Iluminismo europeu, ela promoveu a educação e as artes, financiou a tradução de obras literárias estrangeiras e escreveu livros. Também aumentou a força imperial da Rússia, com várias vitórias militares sobre o Império Otomano.
Os governantes também foram influenciados pelo exemplo da Prússia, um Estado do norte da Alemanha que se expandiu no século XVI por causa de uma eficiente burocracia, um exército poderoso e a forte liderança sob reis como Frederico II. Entre a Prússia e a Rússia estava a Polônia, cujo território essas duas potências, além da Áustria, desejavam e conquistaram em diversas ocasiões. Isso deu à Rússia influência sobre uma área que ia da Europa Oriental até a Sibéria, e boa parte disso faz parte de seu território atualmente.
Nunca houve uma declaração tão ousada sobre o Estado que a proclamada pela Declaração de Independência adotada pelo Segundo Congresso Continental, em 4 de julho de 1776, e assinada por todos os 56 delegados presentes. O que viria a ser os Estados Unidos consistia de treze colônias britânicas, gradualmente estabelecidas desde o século XVII e espalhadas pela Costa Leste da América do Norte. Elas não estavam apenas geograficamente longe de sua terra natal; a maioria também ficava longe umas das outras. Suas economias eram frágeis, e elas não tinham nenhuma identidade política coerente — os cidadãos da Virgínia, por exemplo, se consideravam virginianos, não americanos —, além de prestarem cada vez menos lealdade à Coroa britânica.
No entanto, as colônias também eram impressionantemente autoconscientes, profundamente cientes das noções iluministas de liberdade política e se preocupavam que sua liberdade estivesse sob ameaça por causa do domínio britânico. Incapazes de afirmar seus próprios direitos naturais, e sujeitos ao que consideravam uma tributação imposta de forma não racional, os colonos questionaram por que um parlamento distante, com um rei, deveria impor sua vontade sobre eles. Impelidos por uma série de líderes excepcionais, em 1776 eles não apenas rejeitaram a autoridade britânica, como também se prontificaram a estabelecer um tipo de Estado totalmente novo, no qual o governo seria derivado do "consentimento dos que são governados". Essa ideia explosivamente nova levaria à criação de um novo e duradouro governo republicano.
Porém, o apoio a uma afirmação formal da independência americana estava longe de ser unanimidade nas colônias. Cinco estados em particular - Nova York, Nova Jersey, Maryland, Delaware e Pensilvânia - temiam que isso atrapalhasse os negócios e, se não funcionasse, desencadeasse duras represálias da Inglaterra. Da mesma forma, quase 500 mil de uma população de 2,5 milhões continuaram leais à Coroa britânica até o fim do conflito, muitos indo morar no Canadá.
O conflito toma forma
Foi necessária uma guerra longa e cruel para tornar a independência uma realidade. A Inglaterra estava determinada a garantir aquilo que via como um domínio legítimo, enquanto as forças recrutadas de modo rápido nos recém-nascidos EUA não estavam menos determinadas a garantir o que viam ser seu direito à independência. Os dois modestos exércitos — o britânico, por causa das dificuldades de enviar forças em massa para a América; e o dos colonos, porque sempre lhes faltavam meios de levantar, e equipar qualquer grupo militar significativo — se confrontaram numa série de pequenos combates por seis anos.
Em seu auge, as forças americanas não chegavam a 40 mil homens e quase não tinham uma Marinha. A Inglaterra usou quase o mesmo número de tropas, mas por outro lado tinha um número de navios muito maior. Em 1778, no entanto, a França declarou apoio aos colonos e enviou 5 mil soldados e uma frota considerável. Confrontada com uma derrota certa, em outubro de 1781, os britânicos se renderam em Yorktown, Virgínia. A guerra não terminaria oficialmente senão depois de um ano, mas em cada aspecto relevante os colonos — e seus aliados franceses — haviam dado um golpe e tanto em seus senhores ingleses.
O envolvimento francês na criação dessa nova nação se deveu, em todos os aspectos, ao desejo de reverter a humilhação sofrida na Guerra dos Sete Anos. Mas as dívidas que isso causaria se tornariam, ironicamente, uma das principais causas da falência da Coroa francesa, levando à Revolução Francesa de 1789. Também havia uma profunda ironia no fato de a França absolutista querer ganhar, para os americanos, as liberdades que não estava disposta a dar a seus próprios cidadãos.
Ideais revolucionários
No cerne da Revolução Americana estava a nova filosofia política encapsulada pela Declaração de Independência. Ela era obra de um distinto patrício da Virgínia, o arrogante e rico proprietário de escravos chamado Thomas Jefferson. Ele era um dos membros de um comitê de cinco encarregado de escrever a Declaração, embora os dois esboços aprovados em junho de 1776 fossem quase inteiramente escritos por ele. É difícil exagerar a importância da Declaração de Independência. Ela fez, para aquela época, uma assombrosa declaração: "que todos os homens foram criados iguais". Além disso, alegava que "governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados".
Esses eram, de forma ativa, sentimentos subversivos pelos quais nem George III da Inglaterra, nem Luís XVI da França poderiam sentir qualquer simpatia. Eles, sem dúvida, formaram a base daquilo que se tornaria os EUA e, de fato, os sistemas políticos liberais por todo o mundo ocidental. Esses credos políticos, derivados das obras de pensadores iluministas britânicos e franceses, levaram à criação do primeiro Estado moderno, que transformou assim o mundo.
O destino da América
Jefferson continua sendo um enigma. Ele odiava a monarquia, mas ainda assim amava a França pré-revolucionária, sendo o primeiro embaixador dos EUA deslumbrado por sua elegância civilizada. Ele alegava desprezar altos cargos, mas foi duas vezes presidente dos EUA. E, como tal, em 1803, conduziu a Compra da Louisiana, vendo uma vasta área a oeste do Mississippi ser transferida a preço de banana da França, que tinha seu domínio nominal, para os EUA. Ele entendia que o destino do país estava na sua colonização das enormes terras a oeste, concordava com a ideia de que seus habitantes nativos deveriam ser removidos e tinha escravos. "Os negros", dizia, "são inferiores aos brancos em seus dotes tanto de corpo quanto de alma." Se por um lado George Washington, também um patrício virginiano, libertou seus escravos, Jefferson optou por não fazê-lo.
Nada disso, no entanto, pode diminuir a importância de Jefferson em articular noções de liberdade que ecoam até hoje. E, mesmo acreditando que a escravidão fosse errada, sua crença pessoal era de que a libertação seria ruim tanto para os escravos quanto para os americanos brancos — a não ser que os primeiros fossem devolvidos à África.
Uma nova Constituição
Apesar de Jefferson poder ser facilmente considerado a cabeça pensante por trás da Declaração de Independência, ele não desempenhou nenhum papel-chave no planejamento do próximo grande documento que moldaria a nação: sua Constituição. Os EUA se tornaram legalmente capazes de garantir sua independência da Inglaterra em 1783. Mas, para os próximos quatro anos, o país existiu num vácuo político cada vez mais instável, tendo seu destino sido decidido por um Congresso Confederado claramente dividido que se reuniu várias vezes, na Pensilvânia, Nova York e Nova Jersey.
Houve sérios motivos para se acreditar que a nova nação poderia fracassar, dividida entre os que defendiam a primazia dos direitos dos estados individuais em relação ao governo central e aqueles a favor de um forte governo central, ou até mesmo a criação de uma monarquia americana. Na primavera de 1787, houve uma convenção constitucional na Filadélfia. A Constituição escrita, formalizada e proposta, só seria ratificada de modo provisório em junho do ano seguinte, e só após longas disputas. O resultado foi a declaração de uma nova forma de governo. Ela era tanto uma declaração de direitos quanto um projeto para um governo ideal, cujos três poderes — executivo, legislativo e judiciário — se vigiariam simultaneamente. Ela se tornaria uma forte influência sobre a Constituição que foi promulgada na Revolução Francesa em 1791, e ainda é um modelo único.
"Negócio inacabado"
Os pais fundadores estavam corretamente otimistas a respeito do potencial dos EUA, mas falharam em resolver uma questão crucial. O primeiro esboço da Declaração de Independência de Jefferson chamava a escravidão "um comércio execrável" e "uma guerra cruel contra a própria natureza humana". Porém, para acalmar os estados escravistas do Sul e os comerciantes de escravos do Norte, essas afirmações radicais foram mais tarde removidas. Quase noventa anos depois, seriam necessárias uma guerra civil e a morte de 620 mil pessoas para pôr fim a essa prática e completar aquilo que Abraham Lincoln via como o "negócio inacabado" da Declaração de Independência e da Constituição.
No dia 14 de julho de 1789, uma turba parisiense enraivecida, buscando armas para defender sua cidade de um suposto ataque real, atacou a decadente fortaleza conhecida como Bastilha e matou seu diretor e seus guardas. Esse desacato violento do poder real se tornou o símbolo da Revolução Francesa, um movimento que tomou toda a França mas que também reverberou por todo o mundo. As ideias articuladas na revolução marcaram o começo do fim das monarquias absolutas na Europa e inspiraram sua derradeira substituição por governos mais democráticos.
A Revolução Francesa foi planejada originalmente para varrer os privilégios aristocráticos e estabelecer um novo Estado baseado nos princípios iluministas de liberté, égalité e fraternité. Mas, apesar de ter começado com um vento de otimismo, logo degenerou numa violência que se manteve por muitos anos e só chegaria ao fim com a ditadura de Napoleão Bonaparte. Permanece uma história de confusão e caos, de uma colisão entre a velha ordem privilegiada, o ancien régime, e um novo mundo que lutou, às vezes com violência, para criar uma nova ordem coerente.
Um país em desordem
O rei francês Luís XVI, bem-intencionado mas indeciso, seria o último homem a confrontar qualquer crise, muito menos uma tão grave como a atravessada pela França em 1789. No século anterior, seu tetravô Luís XIV, o Rei Sol, fizera da França uma monarquia absoluta, com todos os poderes concentrados nas mãos do rei, e seu palácio em Versalhes como a corte mais sofisticada da Europa, um bastião do privilégio aristocrata.
Luís XVI governava um país onde os nobres se recusavam a abrir mão de qualquer privilégio e os impostos eram pagos quase exclusivamente pelos camponeses oprimidos: na prática, a França estava falida. No final do século XVIII, a população da França estava crescendo rapidamente, mas, diferentemente da Inglaterra, não teve uma revolução agrícola e se manteve particularmente vulnerável a qualquer perda de safra, como as que aconteceram em 1787 e em 1788. Esses terríveis verões foram seguidos em 1788 e 1789 por um fortíssimo inverno, o que levou à fome em massa.
A resposta do rei
Com uma crise financeira aguda, Luís tentou desesperadamente arrecadar fundos, enquanto preservava sua autoridade, convocando os assim chamados Estados Gerais, um corpo semiparlamentar que havia se reunido pela última vez em 1614. Este era constituído do clero, o primeiro Estado; dos nobres, o segundo; e dos comuns (essencialmente um tipo de burguesia, quase todos advogados), o terceiro. Os Estados-Gerais se reuniram em Versalhes em 5 de abril de 1789. Quase instantaneamente nobres e clérigos tentaram garantir que seu voto valesse mais que o dos comuns. Em resposta, no dia 17 de junho, os comuns declararam uma Assembleia Nacional, assumindo o poder em vez da Coroa. Em agosto, com levantes camponeses por toda a França rural, a Assembleia aboliu os impostos feudais e os privilégios aristocráticos e publicou aquilo que chamou de Declaração dos Direitos do Homem, listando liberdades fundamentais.
Em outubro de 1789, os eventos de repente se aceleraram quando uma vasta multidão, enraivecida pela falta de pão em Paris, desceu até Versalhes e obrigou, à força, a volta da família real a Paris, aproveitando para saquear o palácio. Naquilo que se tornaria um inquietante prelúdio da violência que viria a seguir, as cabeças cortadas dos guardas em Versalhes foram penduradas em estacas e perfiladas conforme Luís e sua família eram escoltados até a capital.
Em termos comparativos, foi razoavelmente fácil derrotar o governo real existente, mas se provaria infinitamente mais difícil estabelecer um novo governo. Supunha-se que um tipo de monarquia constitucional seria a solução mais óbvia. Assim, a França se encontrou espremida entre os que defendiam essa opção mais ou menos moderada e aqueles a favor de uma alternativa republicana mais radical.
A Primeira República
Apesar de nos principais aspectos o reino de Luís já parecer estar condenado, ele ainda não havia perdido a esperança de recuperar sua autoridade. Um grande número de aristocratas franceses — emigrés — já havia deixado a França, temendo que a revolução a tivesse tornado insegura. Ao tentar persuadir outros regimes europeus — a Áustria acima de todos, cujo imperador era irmão da rainha francesa Maria Antonieta —, eles instigaram a oposição à revolução, mas seu principal impacto foi reforçar a determinação na França de ver a revolução chegar a bom termo.
Em junho de 1791, Luís tentou escapar, mas foi interceptado perto da fronteira com a Holanda e trazido de volta a Paris, sob os gritos alegres de um povo cada vez mais violento e politizado, os sans-culottes, cujo nome remetia às suas calças rasgadas e puídas. Havia um enfrentamento cada vez mais hostil entre as facções políticas em Paris, como os girondinos e os mais extremistas jacobinos, que atraíram o apoio dos sans-culottes e do governo francês.
Uma ameaça externa
Apesar da óbvia instabilidade, houve um progresso em direção a uma nova ordem social. Em setembro de 1791, foi proclamada uma monarquia constitucional. De forma similar, a posição privilegiada da Igreja foi acabada à força, se bem que isso também provocou levantes e violências duradouras. Igualmente crítica, a liberdade de imprensa foi garantida.
Ao mesmo tempo, a França revolucionária enfrentou uma ameaça externa da Áustria e da Prússia, ambas determinadas a reafirmar a primazia da monarquia hereditária e a prevenir tendências revolucionárias em seus próprios países. Em abril de 1792, a França declarou guerra às duas, uma guerra que continuaria, em diferentes disfarces, por 23 anos. Em agosto, as forças conjuntas da Áustria e da Prússia estavam a menos de 160 quilômetros de Paris.
Um tipo de histeria tomou conta da cidade. Uma turba atacou as Tuileries, onde a família real estava detida, matando sua Guarda Suíça. No mês seguinte, uma nova rodada de matanças, os Massacres de Setembro, foi direcionada a qualquer um suspeito de simpatia pela monarquia. Setembro de 1792 também marcou o estabelecimento da Convenção Nacional e da Primeira República Francesa, diretamente eleitas. Uma de suas primeiras ações foi julgar Luís XVI como traidor. Em janeiro de 1793, ele foi executado, uma das primeiras vítimas da guilhotina, considerada uma forma de morte compassiva e igualitária.
O sentimento de crise continuou a crescer. Em abril de 1793, o Comitê de Segurança Pública foi criado para salvaguardar a revolução. Por quase um ano, sob o comando de um advogado provincial, Maximilien Robespierre, o mais influente dos agora poderosos jacobinos, ele quase se tornou o governo da França. Seu impacto na França, a despeito de curto, foi devastador. Isso foi o Terror. Movimentos contrarrevolucionários por todo o país foram cruelmente reprimidos, de forma mais clara na região de Vendée, a sudoeste, onde quase 300 mil morreram. As igrejas viraram alvos especialmente ricos. As vítimas do Terror eram cada vez menos o resto da aristocracia e cada vez mais qualquer um que Robespierre suspeitasse de pensamentos impuros, incluindo quase todos os seus oponentes políticos.
A busca determinada de Robespierre pela pureza revolucionária alcançou um inesperado clímax com sua criação, em 1794, de uma nova religião, o Culto do Ser Supremo. Ela deveria ser um foco de, e um estímulo para virtudes patrióticas e revolucionárias, substituindo a superstição da Igreja católica por uma crença dedicada à razão, celebrando as leis naturais do universo. A megalomania que sugeria contribuiu significativamente para sua abrupta queda, e no final de julho de 1794 Robespierre foi guilhotinado.
A ordem restaurada
Com o fim das matanças - mais especificamente com o estabelecimento de um novo governo, o Diretório, ao final de 1795-, a ordem foi restaurada, sendo alcançada em parte pela disposição do Diretório de usar a força contra a turba de Paris, ordenada por Napoleão Bonaparte, então um jovem general no exército revolucionário.
Além disso, o Exército da França, fortalecido por alistamentos obrigatórios em massa, estava revertendo antigas derrotas, aparentemente disposto a levar a revolução a novos territórios. Fortalecida, a França reforçou sua reivindicação daquilo que alegava ser suas "fronteiras naturais" no Reno, o que na verdade queria dizer uma audaciosa extensão do domínio francês sobre a Alemanha. Em 1797, ela havia imposto derrotas esmagadoras sobre a Áustria na Holanda e no norte da Itália. A França estava pronta para reafirmar o que via como sua supremacia natural na Europa.
Significado histórico
Qualquer que tenha sido a importância da Revolução Francesa, ela seguiu sendo o assunto de contínuo e intenso debate histórico. Suas metas nominais eram claras: o fim da monarquia repressiva e dos privilégios acumulados; o estabelecimento de um governo representativo; e a valorização dos direitos universais. Mas a realidade foi confusa e quase sempre violenta.
Além disso, em 1804 Napoleão trocara efetivamente uma forma de absolutismo por sua própria, embora muitíssimo mais eficiente que qualquer outra que a França já houvesse conhecido desde Luís XIV. Ainda assim, as consequências da revolução reverberaram até o século XX. Ela permanece um movimento icônico na crença de que a liberdade deve sustentar o mundo civilizado.
A derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo, ao sul de Bruxelas, em 18 de junho de 1815, marcou sua derrota final como imperador dos franceses, pondo fim a 25 anos de guerras europeias. Foi um encontro épico, combatido num lamaçal, no qual 118 mil soldados britânicos, holandeses e prussianos finalmente prevaleceram sobre um Exército francês de 73 mil homens arregimentados às pressas por Napoleão.
As Guerras Revolucionárias francesas, que começaram em 1792, foram lançadas para espalhar os princípios revolucionários para os Estados vizinhos e defender a França de seus inimigos. Sob Napoleão, elas se tornaram, de fato, guerras de conquista, a despeito de terem sido declaradas em nome da Revolução.
A nova forma do continente
Durante as Guerras da Revolução, a França estabeleceu repúblicas irmãs no norte da Itália e nos Países Baixos. Sob Napoleão, muitas delas foram reformadas em reinos cujos monarcas vieram da família do imperador. Estados por toda a Alemanha foram divididos, à custa da Prússia, para se tornarem fantoches franceses, ao mesmo tempo que o Sacro Império Romano-Germânico de oitocentos anos foi abolido. A partir de 1807, boa parte da Polônia era controlada pelos franceses com o nome de Grande Ducado de Varsóvia. Esses Estados foram reformados ao modelo francês: o poder do clero foi reduzido, a servidão abolida e os privilégios aristocratas, cortados. Mas tais reformas provocaram inevitáveis ressentimentos.
As conquistas de Napoleão foram resultado não apenas de seu gênio militar, mas também devido ao Exército francês, que se tornou enorme. O alistamento militar, introduzido em 1793, aumentou o Exército de 160 mil para 1,5 milhão de homens. Somente a Inglaterra, protegida pelo Canal da Mancha, continuou imbatível, com sua posição de principal potência marítima do mundo, confirmada pela vitória em Trafalgar, no sul da Espanha, em 1805. Mas o poder marítimo sozinho não era capaz de derrotar Napoleão. O papel mais importante da Inglaterra foi financiar as infindáveis e diversas alianças que enfrentaram os franceses.
Em resposta, Napoleão impôs um Sistema Continental que proibia o comércio entre a Europa continental e a Inglaterra. No entanto, Portugal e Rússia continuaram a comercializar com a Inglaterra, levando a invasões em 1807 e 1812, respectivamente.
A resistência ao domínio napoleónico só aumentava. Os espanhóis começaram uma brutal guerra de guerrilha que drenou os recursos franceses, à qual Napoleão se referia como a "úlcera espanhola".
A derrota final
Napoleão cultivou um sentimento de invencibilidade francesa, e isso fez de sua derrota algo muito mais traumático para a nação. Dos 450 mil homens que ele liderou contra a Rússia em 1812, nem 40 mil sobreviveram.
Napoleão sobrepujou a si mesmo. Em Leipzig, Alemanha, em 1813, com um terço do tamanho das forças da Áustria, Prússia, Rússia e Suécia juntos, ele sofreu sua primeira grande derrota. Em Waterloo, suas forças se recuperaram um pouco, e a proporção era de um para dois, mas o gênio militar de Napoleão falhou em corrigir o equilíbrio, e sua ambição imperial acabou na lama de Waterloo.
A situação de dom Pedro às vésperas da independência era delicada. Por um lado, o príncipe era pressionado a retornar a Portugal, onde o Congresso votava uma nova Constituição que pretendia restabelecer a submissão do Brasil à Coroa lusitana. Nessas circunstâncias, era extremamente inconveniente que o herdeiro do trono vivesse na América como uma espécie de "rei paralelo". Por outro, a elite brasileira alertara que, se Pedro embarcasse rumo à Europa, a Independência seria deflagrada no minuto seguinte.
No dia 7 de setembro de 1822, na iminência de ser levado à força por uma esquadra portuguesa, ele precisou tomar uma decisão. Seguindo o projeto do ministro José Bonifácio, principal nome do movimento independentista brasileiro, dom Pedro escolheu um meio-termo: proclamou ele mesmo a independência, separando o Brasil de Portugal mas mantendo o país nas mãos da família Bragança. O ato ficou imortalizado pelo grito de "Independência ou morte!" às margens do rio Ipiranga, mas não houve nada de heroico ou arriscado nisso. Dom Pedro apenas buscava uma solução apaziguadora para o impasse brasileiro, afastando o país do risco de uma verdadeira revolução social que poderia ameaçar a monarquia.
Apesar do simbolismo do Grito do Ipiranga, a história da independência brasileira começara muito antes. No final do século XVIII, dois fatos abalaram a política internacional: a Revolução Francesa e a independência dos EUA, em 1776. Não tardou para que as ideias iluministas de liberdade, soberania nacional e cidadania propagadas por esses eventos chegassem ao Brasil, inflamando setores descontentes com a dominação colonial. O primeiro movimento independentista de peso foi a Inconfidência Mineira, em que as elites urbanas de Vila Rica, incomodadas com o declínio do ciclo do ouro, reivindicaram liberdade econômica e autonomia política para a província. Mais tarde, no século XIX, levantes independentistas ocorreram também na Bahia e em Pernambuco, dessa vez com um caráter mais popular, incorporando pautas como o fim da escravidão. Mas o golpe fatal para o sistema colonial brasileiro viria mesmo em 1808.
Uma metrópole dentro da colônia
Em 1807, Napoleão invade Portugal. Incapaz de se defender da maior força militar da época, o rei dom João vi pede ajuda à Inglaterra, inimiga dos franceses. A corte lusitana foge do país e, escoltada pela Marinha britânica, se instala com segurança no Rio de Janeiro, longe das garras do exército bonapartista.
Isso gerou uma situação única: a sede do império passou a ser a capital de uma de suas colônias. Logo adaptações precisaram ser feitas. A principal delas foi a abertura dos portos brasileiros para o comércio com as nações amigas, em especial a Inglaterra. Essa medida de 1808 é considerada por muitos historiadores o marco da independência "de fato" do Brasil, já que o pacto colonial estava oficialmente rompido. Essa anomalia também explica o caráter incrivelmente pacífico e conservador da nossa emancipação. Mesmo com o retorno de dom João VI para Portugal após a queda de Napoleão, a presença do príncipe regente no Brasil garantiu que a independência fosse feita sem modificar o modelo econômico agroexportador e escravista, sem acabar com o regime de monarquia e sem tampouco trocar a família real que ocupava o trono.
Apesar de atípica, a independência brasileira não foi isolada: o início do século XIX foi o momento em que as antigas colônias espanholas também proclamavam sua autonomia, aproveitando o declínio do sistema colonial ibérico, locais, os criollos buscavam se defender do excessivo controle espanhol sobre o comércio sul-americano e da política fiscal punitiva da Coroa, extremamente desvantajosa para a colônia.
Seu movimento ganhou força quando Napoleão invadiu a Espanha em 1808 e depós o rei Fernando VII, coroando seu irmão, José Bonaparte. As colônias espanholas não reconheciam a legitimidade do novo rei, passando, portanto, por um período de autogoverno "involuntário".
Os colonos se viram pela primeira vez livres do Absolutismo e em contato com os ideais iluministas. Essa experiência de autonomia tornaria impossível para a Espanha retomar completamente seu controle sobre a América. Mesmo com a expulsão de Napoleão e a volta de Fernando VII ao poder em 1813, era tarde demais.
Revolução social no México
Na época colonial, o atual México era parte do vice-reino de Nova Espanha, uma área imensa que ia do Wyoming, nos EUA, até o atual Panamá, incluindo também a maior parte do Texas.
A guerra de independência começou em 1810, quando o padre Miguel Hidalgo liderou uma revolução popular contra as gritantes desigualdades sociais do México. A revolta foi brutalmente reprimida pela Espanha e terminou no ano seguinte com a execução de Hidalgo. Outra revolta malsucedida teve início em 1813, dessa vez liderada pelo sacerdote José Morelos.
A independência só veio em 1821, quando a resistência espanhola já era praticamente simbólica. O general Agustín de Itubirde, líder do movimento, se proclamou imperador do México, mas seu governo durou menos de um ano. Até a metade do século XIX, o antigo vice-reino de Nova Espanha perderia territórios para os EUA e veria surgir novos países na América Central, reduzindo o México ao tamanho que ele tem hoje.
Bolívar e a Gran Colombia
A independência dos territórios sul- -americanos, incluindo os vice-reinos de Nova Granada, do Peru e do Prata, seguiu um percurso histórico bastante diferente. O principal nome desse processo foi Simón Bolívar, um criollo membro da elite local e de boa educação. Bolívar visitara diversas vezes a Europa e era um entusiasta do modelo de estado-nação lançado pela Revolução Francesa. Também acreditava que os diversos povos sul-americanos poderiam partilhar uma identidade comum, unindo-se num único e gigantesco país independente.
Foi essa ideia que animou a criação da República da Colômbia em 1819, um marco importantíssimo para o movimento independentista da América Latina. A "Gran Colombia", como seria chamada pelo autodenominado "Libertador" Simón Bolívar, era bem maior do que o país que conhecemos hoje, englobando territórios dos atuais Equador, Peru, Venezuela e Panamá.
Mas o sonho de Bolívar não se concretizou. Em pouco tempo a Gran Colombia se fragmentou, dando origem a vários países menores. Isso porque as elites regionais nunca concordaram unanimemente com as ideias de Bolívar para o futuro da América do Sul. Discutia-se, por exemplo, se o governo deveria ser liberal, conservador ou autoritário. Bolívar era um líder relativamente progressista e crítico feroz da escravidão. Isso contrariava diretamente os interesses dos caudilhos, poderosos latifundiários donos de forças militares próprias. Esses senhores de terra exerciam autoridade absoluta sobre os camponeses, que precisavam trabalhar em suas propriedades, chamadas de haciendas, e rapidamente voltaram-se contra a ideia de uma América do Sul centralizada.
Bolívar morreu de tuberculose em 1830, aos 47 anos. Naquela data, a Gran Colombia já não passava de uma lembrança. Sua visão de uma América do Sul unida e independente não pôde florescer num contexto de extrema desigualdade social, alimentada pelas intervenções imperialistas britânicas e pela força das velhas elites latifundiárias.
Em 15 de setembro de 1830, foi aberto o primeiro serviço ferroviário comercial de passageiros movido a uma máquina a vapor — o Rocket, de George Stephenson. Era a Liverpool and Manchester Railway, com 56 quilômetros e servida por locomotivas, também desenhadas por Stephenson, que conseguiam alcançar a velocidade de 48 quilometros por hora.
O Rocket de Stephenson simbolizava o que ainda hoje é um desenvolvimento-chave na história do mundo nos últimos 250 anos: a transformação de uma sociedade agricola que dependia de moinhos de vento e de água, cavalos e outros animais de carga, para uma sociedade industrial na qual os motores a vapor eram capazes de gerar uma força confiável até então inimaginável.
Os antecedentes
O processo de industrialização que começou na Inglaterra em meados do século XVIII iniciou-se com a revolução científica na Europa no final do século XVII. De igual importância foram as mudanças financeiras iniciadas pelos holandeses, em seguida importadas pelos britânicos: o crédito, disponível de forma rápida, ajudou a estimular as atividades empresariais. Nunca havia sido tão fácil para membros de uma classe média cada vez maior e abastada achar formas de investir seu dinheiro para apoiar novas invenções e tecnologias.
Um terceiro fator foi a revolução agrícola, que começou na Holanda e na Inglaterra, onde os agricultores perceberam que a rotação dos campos dispensava o costume de deixar a terra descansar a cada três anos. Em ambos os países, os aterros aumentaram a disponibilidade de terras aráveis. O rendimento das colheitas cresceu bastante, assim como a seleção artificial produziu animais domésticos maiores e mais lucrativos — fonte tanto de carne quanto de lã. Sem nenhum sinal de fome em massa, a população da Inglaterra cresceu, entre 1750 e 1800, de 6,5 para mais de 9 milhões. Isso implicava, por sua vez, em novos mercados e numa força de trabalho maior.
Finalmente, na Inglaterra, uma rede de transportes melhorada permitiu que os bens, produzidos em escala cada vez maior, pudessem ser transportados de modo mais rápido e confiável. Entre 1760 e 1800, quase 6.840 quilômetros de canais foram construídos na Inglaterra.
Os pensadores quiseram entender os impulsos por trás dessas mudanças na sociedade. A publicação, em 1776, de A riqueza das nações pelo filósofo escocês Adam Smith sustentava o que se tornou conhecido como economia política e o papel central do lucro e da concorrência para o crescimento da eficiência e da queda dos preços.
Essa transformação econômica também contribuiu e foi, por sua vez, impulsionada pela emergência de mercados globais - uma consequência do crescimento dos impérios coloniais, que ofereciam maior acesso a matérias- -primas e também mercados para bens finais. Um mundo com mapas melhores e o avanço nos tipos de navios e na navegação pelo mar também facilitaram o mercado global.
Energia a vapor
A força predominante na transformação econômica, porém, foi o desenvolvimento da máquina a vapor. Num impressionante curto espaço de tempo, ela revolucionou a Inglaterra, tornando-a na primeira potência industrial do mundo, acabando por transformar o mundo todo. Ainda assim, ela talvez nunca alcançasse um impacto global tão drástico se a Inglaterra não tivesse enormes reservas do combustível necessário para fazê-la funcionar: o carvão. A substituição da madeira como a principal fonte de combustível foi crucial para o desenvolvimento industrial. Da mesma forma, o desenvolvimento do coque (carvão processado que queima a temperaturas muito mais altas que o carvão) no começo do século XVIII tornaria a produção do ferro - 0 material central e indispensável das novas tecnologias - mais rápida e simples.
Máquinas a vapor de vários graus de confiabilidade já existiam desde 1712, quando Thomas Newcomen construiu uma "máquina atmosférica". Mas foi apenas com o primeiro motor rotativo a vapor de James Watts em 1781 que o extraordinário potencial da máquina a vapor ficou claro. Os primeiros motores a vapor haviam sido usados sobretudo como bombas hidráulicas. O motor rotativo de Watts, por outro lado, poderia servir de energia para máquinas. A companhia de engenharia que ele e Matthew Boulton fundaram em Birmingham em 1775 produziu mais de quinhentos motores a vapor.
Quando a patente de Watts expirou, em 1800, outros começaram a produzir suas próprias máquinas a vapor. As indústrias têxteis no nordeste se beneficiaram em especial com a maior disponibilidade de energia a vapor, e a produção fabril em larga escala, quase toda mecanizada, rapidamente substituiu a pequena manufatura doméstica. Em 1835, existiam mais de 120 mil teares mecânicos nas tecelagens. Não mais dependentes de rios como fonte de energia, as fábricas podiam ser construídas em qualquer lugar e acabaram se concentrando em cidades no norte e no centro da Inglaterra, que cresceram rápido até virarem grandes centros industriais com o passar do século.
Mudanças sociais
Uma enorme quantidade de trabalhadores foi atraída para essas novas cidades, que se tornaram sinônimo de péssimas condições de vida e de trabalho para a força de trabalho. Esse influxo levou à criação de uma subclasse urbana. Demorou muito tempo até que os trabalhadores pudessem ver qualquer melhoria em sua vida e tivessem a percepção de que deveriam participar das recompensas dessa transformação social e econômica, em vez de simplesmente serem explorados como burros de carga. Nesse meio-tempo, porém, os cada vez mais ricos donos de fábricas surgiram como uma voz política importante.
O resto do mundo
Até o final de 1860, a Inglaterra ainda era, de certa forma, a maior potência industrial e mercantil do mundo, mas outras nações ocidentais apertaram o passo para ver como também poderiam ser beneficiadas. Na Europa continental, a industrialização ainda era incerta, inibida pelo tipo de instabilidade que a Inglaterra conseguiu evitar, como as revoluções de 1848. Tempos depois, o ritmo de seu desenvolvimento passaria a rivalizar com o dos britânicos. Em 1840, a Alemanha e a França tinham, cada uma, quase 480 quilômetros de ferroviais em 1860, ambas tinham 16 mil quilômetros. De forma similar, a produção de gusa de cada uma subiu de 125 mil toneladas em 1840 para 1 milhão em 1870.
No entanto, o mais impressionante desenvolvimento veio dos EUA, onde havia cerca de 5.300 quilômetros de ferrovias em 1840, quase todas concentradas no nordeste. Em 1860, esse número já chegava a 51.500, e em 1900 disparou para 310.600 quilômetros de trilhos. A produção de gusa acompanhou esse crescimento: em 1810, era de pouco menos de 100 mil toneladas por ano; em 1850, era de quase 700 mil toneladas; em 1900, já passava de 13 milhões de toneladas.
O papel do aço
Na segunda metade do século XIX, tanto na Europa quanto nos EUA, começou uma segunda onda de industrialização na qual o petróleo, os produtos químicos, a eletricidade e o aço se tornaram cada vez mais importantes. A produção de aço havia sido transformada a partir de 1855 quando o engenheiro inglês Henry Bessemer desenvolveu uma forma de fazer o metal mais leve, forte e versátil. A partir de então, o aço provaria ser o elemento mais importante da indústria. Em 1870, a produção mundial de aço era de 540 mil toneladas, mas em 25 anos subiu para 14 milhões de toneladas, e as ferrovias, a produção de armamentos e a indústria naval se beneficiaram de sua disponibilidade imediata.
Enquanto a Alemanha começava a ameaçar a proeminente posição industrial britânica na Europa, quadruplicando sua produção industrial entre 1870 e 1914, os EUA estavam rapidamente se transformando na maior potência industrial do mundo. Em 1880, a Inglaterra ainda produzia mais aço que os EUA, mas, em 1900, os americanos já produziam mais aço que a Inglaterra e a Alemanha juntas.
Ao mesmo tempo, também surgiram os navios a vapor. O tempo de navegação, não mais dependente das condições de vento, tornou-se mais controlável, e os tempos de viagem diminuíram. Os navios também eram significativamente maiores. Enquanto o maior navio de madeira quase nunca tinha mais de sessenta metros de comprimento, o Great Eastern, lançado em 1858, tinha 210 metros. A tonelagem total de barcos a vapor em 1870 era de 1,4 milhão; em 1910, já havia chegado a 19 milhões.
Vencedores e perdedores
Os benefícios da industrialização se espalharam de forma desigual. O sul da Europa demorou para reagir a ela, assim como a Rússia. Os impérios chineses e indianos não estavam dispostos, ou eram incapazes de se industrializar, a América Latina o fez, mas somente em alguns espasmos, e a África foi dominada pelas potências tecnologicamente superiores. Em contraste, depois de 1868, o esforço concentrado do Japão em se industrializar fez dele uma potência mundial.
A industrialização também permitiu um novo tipo de guerra, capaz de matar numa escala nunca vista antes. Uma interessante ironia da industrialização é que as nações que mais se beneficiaram dela se voltaram umas contra as outras em duas guerras mundiais, usando armas de extraordinário poder destrutivo.
A Revolução Industrial lançou os alicerces para o mundo desenvolvido. Alimentada por um enorme sentimento de novas possiblidades, em alguns lugares ela melhorou o padrão de vida em todos os setores da sociedade de forma impensável em outras eras. No entanto, no rico Ocidente também produziu um sentimento de que a superioridade material era equivalente a um tipo de superioridade moral que não apenas permitiu que o Ocidente dominasse o mundo, mas também exigiu que assim o fosse.
A aprovação, em 1807, da Lei Proibindo a Importação de Escravos nos EUA e da Lei da Abolição do Comércio de Escravos na Inglaterra marcou uma mudança radical no pensamento ocidental. No final dos anos 1780, o comércio de escravos ainda era considerado uma atividade econômica "natural". Tanto os recém-constituídos EUA, "concebidos em liberdade", como as colônias europeias no Caribe dependiam do trabalho escravo, que era facilmente obtido na África Ocidental. O Brasil, governado pelos portugueses, dependia ainda mais dos escravos. E a Inglaterra, em especial, se viu numa posição desconfortavelmente parecida. Não apenas a escravidão nunca tinha sido legal por lá — um ponto que foi bastante reforçado em 1772, naquele que ficou conhecido como o Caso Somersett, que definiu que qualquer escravo estaria livre assim que pisasse em solo britânico, como os britânicos se orgulhavam de sua firme defesa de tais liberdades fundamentais. Mesmo assim, a Inglaterra era, sem dúvida, a líder no Ocidente do mercado de escravos. Foi essa contradição que ofendeu a sensibilidade política tanto dos religiosos quanto dos iluministas.
Mudanças globais
Para políticos avançados e ativos como William Wilberforce e Thomas Clarkson, a abolição da escravidão se tornou crucial. Uma campanha muito efetiva foi lançada e, apesar de forte oposição, rapidamente ganhou o apoio da grande massa e do Parlamento. Em boa parte do século XIX, a Marinha Real esteve na dianteira da campanha para interceptar os que ainda estivessem envolvidos no comércio de escravos.
Se por um lado a Inglaterra assumiu a liderança, o movimento tinha apoio importante em outros lugares. A revolucionária Convenção Nacional Francesa aboliu a escravidão em 1794 (apesar de isso ter sido parcialmente mudado por Napoleão em 1802). Diferente do Brasil, onde a escravidão só foi extinta em 1888, todos os Estados recém-independentes que surgiram na América Latina após 1810 também baniram a escravidão.
Foi só em 1833 que a própria escravidão, não só o comércio, se tornou ilegal no Império Britânico. Independente dos esforços de um novo grupo de ativistas, como Elizabeth Heyrick, o motivo não foi exclusivamente humanitário. A revolta no Haiti, que começou em 1791 e levou à independência do país em 1804, deixou o Ocidente desconfortavelmente ciente de que qualquer tipo de levante parecido seria difícil de reprimir. Uma revolta escrava na Jamaica (dominada pelos britânicos) em 1831 confirmou esse temor: no longo prazo, libertar os escravos seria menos problemático que mantê-los cativos.
Os EUA, progressista e em expansão, continuou sendo a grande e problemática ferida. Quanto mais os abolicionistas nos seus estados do Norte denunciavam a escravidão, mais os estados do Sul, cujas economias agrárias dependiam do trabalho escravo, se esforçavam por mantê-la. Seria preciso uma guerra civil de quatro anos e 670 mil mortos para resolver a questão.
Em 24 de fevereiro de 1848, Luís Filipe da França, o "Rei Cidadão", abdicou quando Paris explodiu em protestos pela recusa do governo em dar início a reformas — exigidas pela classe média junto com os trabalhadores — para introduzir a liberalização política e acabar com as desigualdades. No seu lugar, foi declarada a Segunda República. Em junho, temendo que um governo autoritário tivesse sido substituído por outro, as classes trabalhadoras francesas se levantaram de novo, mas a revolta foi cruelmente reprimida. Em dezembro, Luís Napoleão Bonaparte — sobrinho de Napoleão, que havia morrido em 1821 — foi eleito presidente. Em 1851, ele orquestrou um golpe e, no ano seguinte, foi proclamado imperador Napoleão III.
A França sofreu instabilidade política por todo o século XIX. A revolução de 1848 aconteceu depois de um levante similar em 1830, e seria seguida por um protesto ainda mais violento 23 anos depois, em 1871.
A faísca da revolução de 1848 foi a fome dos últimos dois invernos. Isso provocou uma insatisfação disseminada entre os pobres nas cidades, junto com as demandas da burguesia ascendente por reformas políticas liberais. O ardor da revolução também detonou revoltas parecidas por toda a Europa continental, mais claramente na Confederação Germânica, na Áustria multiétnica e na Itália. Cada uma dessas revoltas foi suprimida, na maioria das vezes pela força.
A ascensão do socialismo
Antes e depois da derrota final de Napoleão em 1815, e preocupados com levantes de cidadãos em outros lugares, os governantes da Europa se reuniram em Viena para tentar criar uma ordem política que os sufocasse. A meta era a preservação das elites aristocráticas dominantes, sustentando a velha ordem e mantendo as fronteiras.
Esse desejo, no entanto, seria confrontado por uma nova realidade política constituída por inúmeros fatores, incluindo o desejo de garantir que as liberdades advogadas pela Revolução Francesa fossem mantidas. Essa nova realidade também foi resultado do que acabou sendo chamado de nacionalismo: o direito dos povos, sob qualquer definição, de determinar seu próprio futuro como nações independentes. Quase tão importante foi o surgimento de um novo credo político — o socialismo — que buscava acabar com as desigualdades aceleradas pela Revolução Industrial, que levou os trabalhadores empobrecidos a ser explorados pelos donos das fábricas.
A velha ordem é restaurada
Na atmosfera febril de 1848, no entanto, essas metas provaram ser irreconciliáveis. Com a ameaça de caos, a classe média de tendências liberais se alinhou muito mais naturalmente com as já existentes elites políticas para restaurar a ordem, em vez de se juntar com os radicais, que buscavam reconstruir sociedades e criar novas nações.
Os beneficiários finais das revoluções foram as monarquias na Itália e Alemanha, que explorariam um tipo de nacionalismo popular para unificar seus países. Mas, ao mesmo tempo, conforme as mudanças econômicas traziam mudanças sociais em seu bojo, a gradual ascensão dos sindicatos pelo menos nas democracias liberais da Europa Ocidental — levou a melhoras no padrão de vida dos que antes eram despossuídos.
A cerimônia de inauguração, em 17 de novembro de 1869, do Canal de Suez, ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, foi uma enfática declaração da tecnologia e das fontes financeiras dos europeus — sobretudo da França. Também foi um importante exemplo de uma nascente economia global cada vez mais interdependente, onde bens de todas as partes do mundo eram trocados numa escala cada vez maior. Esse foi um processo dominado pelas potências coloniais europeias e pelos EUA, sem dúvida alguma seus principais beneficiários. Também foi, ao mesmo tempo, um impulso adicional às ambições imperiais europeias.
O Canal de Suez encurtou a rota comercial entre Londres e Mumbai em 41%, e a rota entre Londres e Hong Kong em 26%. O impacto no comércio saltava à vista. Porém, a navegação em tempo mais curto também simplificou a defesa da Índia e seus mercados mais importantes, a principal meta imperial da Inglaterra. No final do século XIX, O comércio no oceano Índico, protegido por não menos que 21 bases da Marinha Real, havia se tornado quase que um monopólio britânico, algo confirmado quando os britânicos tomaram o controle do Canal de Suez em 1888, depois de terem invadido e ocupado o Egito seis anos antes. A "diplomacia da canhoneira" provou ser um meio bastante efetivo de proteger os interesses britânicos.
O Canal do Panamá
O Canal de Suez foi apenas uma entre várias e similares iniciativas a serviço do comércio imperial. Um projeto ainda mais desafiador foi a construção, iniciada em 1881, do Canal do Panamá, na América Central, ligando o Atlântico ao Pacífico. Ele também foi uma iniciativa francesa, mas atrapalhado por controvérsias e por um clima inóspito que custou a vida de 22 mil trabalhadores. Por fim, os EUA completaram o Canal do Panamá em agosto de 1914, assumindo o projeto quando os franceses finalmente admitiram sua incapacidade. Ele foi o maior e mais caro projeto de engenharia no mundo e também abreviou bastante o tempo de navegação, encurtando a rota de Liverpool a San Francisco em 42%, e a rota de Nova York a San Francisco em 60%.
O envolvimento americano
O fato de os EUA terem assumido a construção do Canal do Panamá está por trás de uma mudança crucial na atitude dos americanos: eles estavam comprometidos não apenas com a expansão do comércio, mas também com o avanço dos interesses americanos no exterior. Isso começou em 1898, quando os próprios EUA se tornaram uma potência colonial, conquistando as Filipinas da Espanha.
Esse processo começou a acelerar durante a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909). Ele defendia, de forma ativa, o envolvimento militar americano, sobretudo na América Latina, para implementou uma variação mais legalista dessa política — a Diplomacia do Dólar, através da qual os interesses comerciais americanos, principalmente na América Latina e no Extremo Oriente, fossem sustentados pelo governo dos EUA por meio do encorajamento de enormes investimentos no exterior.
Trens e telégrafos
Ao mesmo tempo, enormes ferrovias foram construídas, tanto nos EUA quanto na Europa. As Costas Leste e Oeste dos EUA foram ligadas, pela primeira vez, por estradas de ferro em 1869, com a abertura da Central Pacific Railroad, com 3.070 quilômetros. Em 1905, havia outras oito ferrovias transcontinentais cruzando os EUA e uma cruzando o Canadá.
A construção da Ferrovia Transiberiana na Rússia, entre 1891 e 1905, seguiu o mesmo espírito. Seus impressionantes 7.400 quilômetros cruzando sete fusos horários continuam sendo a mais longa ferrovia contínua do mundo. Ela desempenhou um papel crucial não apenas na ocupação dos vastos territórios siberianos da Rússia, mas também na incursão, pela Rússia, em partes do norte da China.
O impacto do telégrafo foi tão importante quanto, permitindo que mensagens fossem enviadas através de linhas elétricas. Samuel Morse projetou o sistema nos EUA nos anos 1830, e a primeira linha telegráfica foi inaugurada em maio de 1844. Na década seguinte, já havia 32.200 quilômetros de cabos telegráficos nos EUA.
O primeiro cabo telegráfico a cruzar o Atlântico, instalado em 1858, operou por apenas duas semanas. Em 1866, um novo cabo fora instalado, capaz de transmitir 120 palavras por minuto. Em 1870, foi estabelecida uma ligação telegráfica entre Londres e Mumbai, que foi expandida até a Austrália em 1872 e à Nova Zelândia em 1876. Em 1902, os EUA se ligaram ao Havaí. Esse foi o primeiro sistema de comunicação internacional quase instantâneo.
O Great Eastern
O navio responsável por instalar o cabo transatlântico em 1866 foi o Great Eastern, projetado pelo engenheiro mais visionário da primeira fase da Revolução Industrial, Isambard Kingdom Brunel. Projetado para carregar 4 mil passageiros da Inglaterra à Austrália sem escalas (e voltar para a Inglaterra sem reabastecer), o navio foi ambicioso demais em sua concepção e um fracasso comercial.
No entanto, ele era sinal de uma tendência para barcos maiores, mais rápidos e seguros. Diferentes do Great Eastern, que foi feito com ferro, os posteriores, feitos de aço e movidos a hélices, se mostraram muito mais versáteis. Sua introdução coincidiu com o desenvolvimento de motores a vapor mais poderosos e eficientes.
Navios a vapor e o comércio
O declínio dos navios a vela transformou ainda mais o comércio imperial. Um resultado notável foi a introdução de uma série de navios de passageiros cada vez maiores. A rota transatlântica viu os mais óbvios desenvolvimentos. Em 1874, o vapor Britannic, impulsionado por 5.500 cavalos de força, estabeleceu um novo recorde da travessia do Atlântico em pouco menos de oito dias. Em 1909, o Mauretania, com 70 mil cavalos de força e com capacidade de 2 mil passageiros, estabeleceu um novo recorde de quatro dias e dez horas, navegando a uma velocidade média de 26 nós, ou 48 quilômetros por hora.
Novos tipos de embarcações mercantes sobretudo — navios refrigerados — também foram construídos. Tais desenvolvimentos mostram como a tecnologia ajudou a impulsionar o comércio, possibilitando alcançar mercados globais. As fazendas de gado e ovelhas na América do Sul (especialmente na Argentina), na Austrália e na Nova Zelândia cresciam, em tamanho, junto com sua população. Ao mesmo tempo, o número de pessoas na Europa também estava crescendo — por exemplo, a Inglaterra aumentou de 28 para 35 milhões de pessoas entre 1850 e 1880. Alimentar e vestir a população eram prioridades. A lã poderia ser facilmente transportada, mas a carne de carneiro e de vaca, não, porque apodreceriam no trajeto — até 1877, quando oitenta toneladas de carne congelada foram embarcadas da Argentina para a França a bordo do primeiro navio refrigerado do mundo. Em 1881, já havia embarques regulares de carne congelada entre a Austrália e a Inglaterra. O primeiro carregamento de carne de carneiro da Nova Zelândia foi feito no ano seguinte. Houve um enorme crescimento da exportação de carne a partir desses três países - a Nova Zelândia, por exemplo, exportou 2,3 milhões de toneladas de carne de carneiro congelada em 1895, 3,3 milhões em 1900 e 5,8 milhões em 1910.
A demanda por algodão — acima de tudo nas grandes tecelagens do noroeste da Inglaterra, que em 1850 produzia quase 50% dos tecidos do mundo — levou a um enorme crescimento no cultivo de algodão. Nos estados do Sul dos EUA, a produção de algodão cru cresceu de 100 mil fardos em 1800 para 4 milhões em 1860. Durante a Guerra Civil americana, os estados do Sul, confederados, restringiram a exportação de algodão, na tentativa de forçar uma intervenção da Europa na guerra. No entanto, o plano fracassou, uma vez que a Inglaterra simplesmente aumentou suas importações de algodão cru da Índia. Depois de tecer o algodão, ela o exportava de volta para a Índia com enormes lucros.
As finanças globais
Essa complexa rede comercial não poderia ter crescido sem o desenvolvimento dos setores bancários e financeiros. Por todo o século XIX, surgiram novos bancos, cujo capital era usado para apoiar os negócios por todo o mundo. Ao mesmo tempo. Londres surgia como a capital financeira do mundo. Ao final do século XIX, a libra esterlina britânica, cujo valor estava lastreado por 113 gramas de ouro, era a moeda contra a qual todas as outras eram medidas.
Os investimentos estrangeiros ocidentais cresceram de forma drástica. Em 1914, os EUA tinham investimentos estrangeiros de US$ 3,5 bilhões, a Alemanha de US$ 6 bilhões, a França de US$ 8 bilhões e a Inglaterra de quase US$ 20 bilhões. Entre eles, a participação da América do Norte e do norte da Europa na renda mundial em 1860 era de quase US$ 4,3 bilhões por ano, 35% do total mundial. Em 1914, era de US$ 18,5 bilhões, ou 60% do total mundial.
Os padrões de imperialismo foram diversos no século XIX. No Império Britânico, por exemplo, havia uma distinção clara e crescente entre as colônias cujas populações nativas eram governadas pelos europeus - como na África e na Ásia, sobretudo — e aquelas como Canadá, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia — que eram consideradas capazes de se autogovernar. Em 1907, todas as quatro receberam o status de domínios. Esse privilégio não foi estendido a nenhuma colônia britânica na África ou Índia.
Talvez o mais importante cientista do século XIX, Charles Darwin pretendia, de início, seguir a carreira de seu pai na medicina, sendo, depois, mandado para Cambridge para ser treinado como um clérigo anglicano. Com uma curiosidade sem limites, ele se interessava por quase todas as questões científicas. A publicação de seu livro A origem das espécies (1859) introduziu um novo entendimento científico daquilo que aos poucos passou a ser conhecido como evolução. No livro, Darwin fazia perguntas fundamentais. O mundo tem uma abundância de vida vegetal e animal: de onde e do que ela veio? Como foi criada? Ele estava longe de ter sido o primeiro a propor que um processo de mudança que durou um tempo enorme produziu tal diversidade, mas foi o primeiro a sugerir uma linha de explicação, à qual chamou de "seleção natural".
A seleção natural
No cerne da ideia de Darwin estava a controvérsia de que toda a vida animal havia derivado de um único ancestral comum- que os ancestrais de todos os mamíferos, inclusive os humanos, eram, por exemplo, os peixes. E, num mundo natural que nunca foi menos que uma violência sem fim, somente aqueles mais aptos sobreviveriam no processo, evoluindo para novas espécies.
Essas visões foram em grande parte formadas pela sua viagem ao redor do mundo como naturalista do navio de pesquisa britânico HMS Beagle entre 1831 e 1836, cuja maior parte foi na América do Sul. Ele demoraria dez anos para organizar suas volumosas notas e analisar todas as amostras que havia coletado em viagem.
O livro de Darwin inevitavelmente gerou controvérsia, acendendo a ira dos cristãos que viam o mundo como tendo sido criado intacto e sem mudança por uma deidade benevolente. Ainda assim, a despeito do caloroso debate inicial, rapidamente houve uma aceitação generalizada das visões de Darwin e uma percepção de que ele dera uma contribuição decisiva para o entendimento do mundo. No processo, o status da ciência sofreu um enorme avanço.
A primazia da ciência
Apesar de tudo, era possível que o darwinismo estivesse distorcido. O que veio a ser chamado de "sobrevivência do mais apto" acabaria, mais tarde, tendo influência na justificação do imperialismo, do racismo e da eugenia.
A origem das espécies foi publicada na época em que um crescente entendimento do mundo natural e um rápido progresso tecnológico implicavam que o estudo científico tinha um valor prático muito maior do que jamais teve. Darwin foi um dos últimos cavalheiros cientistas amadores numa disciplina que estava se profissionalizando conforme a sociedade passava a dar mais valor à ciência. Em parte resultado da obra de Darwin, mas também por causa dessas mudanças nas percepções das pessoas, a ciência começou a ter um papel mais central na vida pública. No fim da vida de Darwin, o progresso contínuo do conhecimento científico se tornou quase que uma expectativa-padrão.
Em 11 de maio de 1860, o patriota e guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi desembarcou na Sicília, então parte do Reino das Duas Sicílias sob o domínio dos Bourbon, no sul da Itália, liderando uma força de voluntários arregimentados por toda a Itália, e não mais de mil homens, daí seu nome I Mille (Os Mil). Sua meta era derrubar os Bourbon, mas não estavam muito certos sobre qual tipo de governo substituiria a família dominante.
Assim como outro grande partidário da liberdade itakana no século XIX, Giuseppe Mazzini, que em 1849 havia, por pouco tempo, estabelecido uma república romana, Garibaldi estava comprometido a pôr fim aos privilégios reais, clericais e aristocráticos. Também estava motivado em acabar com o domínio austríaco no norte do país e pela ideia de uma Itália unificada. O desejo de formar novas entidades políticas baseadas em elementos nacionais comuns como a geografia e a história veio a ser conhecido como nacionalismo.
Chegando a um acordo
Em 1859, boa parte da Itália já estava unificada sob o Estado de Piemonte-Sardenha, no noroeste da Itália, um processo dirigido por seu astuto e pragmático primeiro-ministro Camillo Cavour e apoiado, de forma importante, pela assistência militar francesa na expulsão dos austríacos.
Para Cavour, a unificação significava a criação não de uma Itália republicana, mas de um Estado centralizado sob uma monarquia constitucional. Ele acreditava ser essa a única forma de a Itália atingir seu potencial — acima de tudo, para prosseguir com a industrialização e competir com as principais potências da Europa.
As forças dos camisas vermelhas, complementadas por cidadãos locais que correram para se juntar a elas, rapidamente derrotaram os mal liderados exércitos do Reino das Duas Sicílias.
Quando chegou a hora de decidir sobre o governo da recém-unificada Itália — com a exceção de Veneza e Roma, ainda que ambas tenham sido incorporadas em 1866 e 1870, respectivamente —, Garibaldi reconheceu a inevitável dominação piemontesa. Em novembro de 1860, com Garibaldi a seu lado, Victor Emmanuel II da Sardenha entrou em Nápoles e, em março de 1861, foi coroado rei da Itália.
Metas diferentes
A diferença entre as metas de Garibaldi e Cavour ilustra as contradições no cerne do nacionalismo da Europa do século XIX. Provocado pelas noções de liberdade e direitos iguais prometidas pela Revolução Francesa, o nacionalismo desenvolveu uma visão idealista de uma sociedade mais justa. Grupos nacionais oprimidos por domínio estrangeiro acreditavam ser capazes de garantir a independência como um direito natural. Além disso, o nacionalismo foi caracterizado por uma visão romântica do direito dos povos de assumir seus destinos históricos e de governar a si mesmos: a independência. No lugar da lealdade a uma dinastia dominante estabelecida, surgiram novas lealdades. a grupos nacionais definidas por língua, cultura, história e identidade própria. A ideia do estado-nação tornou-se cada vez mais comum, assim como a crença no direito à autodeterminação nacional.
O fracasso das revoluções de 1848 na Europa Central e na Itália, que buscavam avançar em direção a essas metas, deixou clara a definição das elites dominantes europeias em se opor a tais iniciativas e em preservar a Europa criada pelo Congresso de Viena em 1814-1815, depois da derrota de Napoleão uma Europa de monarcas, impérios multinacionais e fronteiras de antes da Revolução Francesa.
Os fracassos de Metternich
A nova Europa estava longe da estabilidade, e o principal arquiteto do Congresso de Viena, o príncipe austríaco Metternich, acabaria admitindo: "Gastei minha vida tentando escorar edifícios podres". Em 1830, a Bélgica se revoltou contra o Reino da Holanda, do qual era província. No ano seguinte, garantiu sua independência com apoio britânico. Levantes nacionalistas parecidos aconteceram na Polônia em 1831 e em 1846, ambos selvagemente reprimidos pela Rússia.
O nacionalismo alemão
O crescente nacionalismo teve enormes consequências, sobretudo nos diversos estados da Alemanha. A unificação do país sob o chanceler Otto von Bismarck da Prússia em 1871 e a declaração de um império alemão chacoalharam a Europa para uma nova era. Para Bismarck, assim como foram para Cavour, os benefícios da unificação eram claros. Haveria os meios pelos quais uma nacionalidade alemã comum pudesse ser expressa, permitindo ao país satisfazer a necessidade de um abrangente caráter alemão identificado pelo filósofo Georg Hegel. Também acabaria com o domínio da Áustria dos Habsburgo sobre o mundo de fala alemã — em especial afastando os estados católicos do sul da Alemanha, sobretudo a Bavária, da influência austríaca.
Buscando a construção desse grande Estado alemão, Bismarck aplicou um tipo de nacionalismo conservador. A meta não era a reforma social ou democrática para estabelecer um Estado mais justo ou liberal; era a criação de um país que desafiaria o mundo. O nacionalismo alemão sob Bismarck se traduziu na adoção de um tipo específico de industrialização e na criação de um exército maior e mais eficiente.
E o foco único no militarismo foi o que Bismarck usou para criar essa nova Alemanha. Ele organizou três grandes campanhas militares. A primeira, contra a Dinamarca em 1864, fez com que a Prússia incorporasse os territórios do sul desse outro país, Schleswig e Holstein, com apoio austríaco. Em 1866, as tropas prussianas venceram a própria Áustria. Finalmente, em 1870-1871, um exército, de toda a Alemanha derrotou a França de forma completa e humilhante, derrubando o governo de Napoleão III e submetendo Paris, inclusive cortando- -lhe a comida. Tais vitórias militares enfatizaram um aparentemente irresistível destino alemão, cuja consequência lógica foi um império alemão sob um rei prussiano, agora imperador, Guilherme I.
Aspirações nacionalistas
Em nenhum outro lugar os impulsos conflitantes do nacionalismo foram tão emaranhados quanto no Império
Austríaco Habsburgo, uma imensa colcha de retalhos de grupos étnicos espalhados por toda a Europa Central sob o domínio nominal de Viena. Em 1867, logo após a derrota da Áustria para a Prússia no ano anterior, a Hungria conseguiu assegurar uma independência quase completa da Áustria. A "monarquia dual" resultante -o Império Austríaco, agora Império Austro-Húngaro — somente impulsionou um senso afirmativo de autoidentidade húngara, mas também garantiu à Hungria importantes concessões territoriais, principalmente a Transilvânia e a Croácia. Ainda assim, apesar das contínuas tensões entre Áustria e Hungria, as duas nações preferiram continuar unidas exatamente pelo medo de mais agitações nacionalistas vindas de seus próprios cidadãos, com profundas divisões étnicas. Os húngaros, por exemplo, relutavam bastante em conceder os direitos políticos, que exigiam para si mesmos, para os grupos eslovacos, romenos e sérvios. Ao mesmo tempo, o controle otomano dos Bálcãs também encorajou aspirações nacionalistas — a Sérvia, por exemplo, surgiu como um Estado mais ou menos independente já em 1817. A Valáquia e a Moldávia, hoje quase toda a Romênia, também tiveram pretensões de independência em 1829. Os gregos, considerando a si mesmos o legado da antiga civilização grega, um papel que lhes rendeu o apoio dos liberais por toda a Europa, conseguiram sua independência em 1830, depois de nove anos de guerra.
Tanto a Áustria quanto a Rússia competiram para preencher o vácuo deixado pelos otomanos. A ocupação, em tom de provocação, da Bósnia pela Áustria em 1878, que acabou sendo anexada em 1908, criaria tensões que levaram diretamente à eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. As Guerras dos Bálcãs entre 1912-1913-na verdade uma amarga disputa por supremacia pela Sérvia, Bulgária e Grécia eram evidências adicionais do efeito desestabilizador da construção dos Estados provocados pelo nacionalismo.
As consequências
A noção de que a justiça social poderia ser garantida aos povos que buscassem o direito da autodeterminação não se concretizou no século XIX - Viena continuaria a governar sobre seu império multiétnico até sua derrota no final da Primeira Guerra Mundial em 1918, por exemplo. Da mesma forma, o povo da Polônia não conseguiu por nenhum meio exercer tais direitos nacionalistas de autodeterminação. E os judeus da Europa continuaram oprimidos de forma persistente, a despeito da promessa do sionismo a partir dos anos 1890 de criar uma nação judaica na Terra Santa.
O cerco de Lucknow, que se deu entre maio e novembro de 1857, levou a cenas que se multiplicaram por todo o norte e centro da Índia durante o Motim Indiano de 1857-1858: os enclaves britânicos passam a ter grande oposição dos que antes eram leais às tropas locais. Quando os britânicos começaram a restaurar a ordem, a revanche não foi menos severa. A violência de ambos os lados chocou o público e imediatamente levou a clamores de reforma.
O motim começou quando as tropas indianas — os sipais — se convenceram de que os cartuchos de seus novos rifles eram lubrificados com gordura de bois e porcos, algo ofensivo tanto para hindus quanto muçulmanos. Mas sua raiz estava na transformação que muitos na Índia sentiram em relação ao controle britânico — a erradicação de governantes tradicionais, a aparente ameaça às religiões locais e a agressiva afirmação do domínio estrangeiro.
A resposta inicial britânica após o motim tinha por objetivo garantir à Índia as intenções pacíficas da Inglaterra, mas na verdade havia o fato de a Índia estar agora totalmente subjugada pelos britânicos, tanto econômica quanto politicamente.
Conforme cresceu o número de membros da elite indiana com educação europeia, estes acabariam por desafiar os direitos dos britânicos sobre o subcontinente. A Inglaterra continuaria a afirmar seu destino imperial, mas tinha de cada vez mais se convencer de que isso não poderia mais ser feito. Se houve uma verdade duradoura, foi a de que o domínio britânico na Índia nunca foi tão robusto quanto parecia.
A emancipação de 20 milhões de servos russos (trabalhadores não livres) por Alexandre I em 1861 não foi um ato humanitário. Sua meta era mais uma tentativa de modernizar a Rússia, que, apesar de seu potencial, havia ficado para trás das nações em industrialização no Ocidente. Para assumir aquilo que considerava seu devido lugar no mundo, a Rússia adotou amplas reformas nas áreas políticas, sociais, econômicas e militares.
O efeito dessas reformas foi dúbio, na melhor das hipóteses. A emancipação fez muito pouco para melhorar o bem-estar dos servos ou a produtividade agrícola, e Alexandre não aceitou nenhuma reforma constitucional de fato: ele continuou sendo um autocrata, convencido de seu direito divino de governar como um monarca absolutista. No entanto, suas reformas alimentaram as esperanças de que haveria certo grau de liberalização.
Um estado policial
Seu assassinato em 1881 provocou um retrocesso reacionário já esperado. Seu sucessor, Alexandre III, demonstrou grande disposição de encampar a reforma industrial, mas também acabou criando um estado policial, introduzindo uma censura severa, suprimindo protestos e proibindo sindicatos.
No entanto, a Rússia czarista buscava um lugar ao sol no mundo industrializado. O país poderia lançar mão de significativos recursos militares, mesmo não tão eficientes. Politicamente, no entanto, sua não disposição em propor reformas causaria sua completa destruição na revolução soviética.
Em novembro de 1863, pouco depois da metade da Guerra Civil Americana, em Gettysburg, Pensilvânia, o presidente americano Abraham Lincoln fez o que ficou conhecido como o Discurso de Gettysburg. Nele, definiu a Guerra Civil como uma disputa tanto pela unidade nacional quanto pela garantia de igualdade para todas as pessoas.
Lincoln estava falando na inauguração do Cemitério Nacional dos Soldados, marco para os 7.058 soldados mortos na Batalha de Gettysburg, que ocorreu entre 1o e 3 de julho do mesmo ano e deixou outros 27.224 feridos. Gettysburg havia sido a batalha mais sangrenta da Guerra Civil Americana, bem como um ponto de inflexão no qual o exército sulista em menor número, com menos armas e com poucas chances de sucesso (o Exército do Norte da Virgínia), liderado por Robert E. Lee, sofreu sua maior derrota.
As causas da guerra
A Guerra Civil Americana não foi apenas uma guerra sobre a escravidão; foi uma guerra sobre se um problema tão desagregador seria capaz de rachar OS EUA. O país, como disse Lincoln, era uma nação "concebida em liberdade e dedicada à proposição de que todos os homens foram criados iguais", ainda que os estados do Sul tivessem uma população de 4 milhões de escravos negros. Segundo a Constituição dos EUA, eles eram juridicamente uma propriedade. Para os abolicionistas do Norte cada vez mais desenvolvido — sempre uma minoria, mas com uma forte voz ativa —, a escravidão era moralmente repugnante e uma ofensa aos seus sentimentos cristãos.
No entanto, a escravidão não era apenas a espinha dorsal da prosperidade agrícola dos estados do Sul; para os senhores de escravos sulistas, ela era um direito. Para eles, a "liberdade" tinha outro sentido: a liberdade de possuir escravos.
A discordância estava por trás da questão do Direito dos Estados - até que ponto os direitos de cada estado individual deveriam prevalecer sobre a autoridade de um governo central, federal, em Washington. Essa questão voltou à tona quando os territórios no Oeste foram ocupados e pediam para ser aceitos na União: eles seriam estados escravocratas ou "livres"?
O Compromisso do Missouri de 1820 declarava que a escravidão só seria permitida nos novos estados ao sul de uma linha que se estenderia a oeste a partir da fronteira sul do Missouri. Mais tarde chegou-se ao acordo de que os colonos dos novos estados deveriam decidir por si mesmos se seriam estados escravocratas ou livres - uma decisão que era reforçada pela Lei Kansas-Nebraska de 1854. Já que tanto o Kansas quanto o Nebraska estavam ao norte da fronteira sul de Missouri, o que se deu, sobretudo no Kansas, foi um repentino influxo de colonizadores tanto a favor quanto contra a escravidão, cada um deles lutando pela hegemonia. Os dois lados se confrontaram de forma repetida e violenta.
O Sul se separa
Esse conflito levou à fundação de um novo partido antiescravagista, os Republicanos, pelo qual Abraham Lincoln, com quase nenhum apoio dos estados escravocratas, foi eleito em novembro de 1860. A vitória de Lincoln causou uma reação quase imediata da Carolina do Sul de se dividir, deixando a União. Em fevereiro, outros seis estados também participaram dessa secessão, e os quatro declararam-se uma nova nação: os Estados Confederados da América. Em maio, quando Richmond, na Virgínia, foi transformada na capital do novo país, quatro outros estados se juntaram a eles. No entanto, cinco estados escravagistas, os chamados Estados da Fronteira, optaram por continuar na União original.
A Confederação argumentou que, como a Constituição tinha sido livremente aceita, qualquer estado poderia, de forma legítima, se separar da União caso se sentisse oprimido. Como homens livres, os cidadãos do Sul tinham um direito "inalienável" de moldar seu próprio destino, assim como os pais fundadores tiveram quando rejeitaram a tirania do domínio britânico. Na cabeça de muitos sulistas, o governo dos EUA era culpado exatamente do mesmo tipo de tirania que busca limitar essas liberdades.
Era uma decisão profundamente arraigada. Como disse Alexander Stephens, vice-presidente da Confederação, o alicerce desse novo estado "se baseava na grande verdade de que o negro não é igual ao homem branco; que a escravidão... é sua condição normal e natural...".
Como um importante operador político, Lincoln percebeu a necessidade de avançar com cautela. A princípio, sua posição era de que buscava apenas restringir a expansão da escravidão, ao mesmo tempo que preservava a União. No segundo aspecto, Lincoln era irredutível: ele achava que a autoridade do governo federal se sobrepunha à dos estados individuais.
Os EUA, O único país do mundo que já nasceu como uma democracia, haviam sido criados segundo Lincoln como "uma grande promessa para o mundo", e garantir sua sobrevivência era uma obrigação moral absoluta. Quando da sua Proclamação da Emancipação, em janeiro de 1863, Lincoln sentiu-se politicamente seguro o suficiente para ordenar a libertação de todos os escravos no Sul. Mas, no curto prazo, a Guerra Civil foi combatida para manter sua "grande promessa" intacta.
A vitória final do Norte
O resultado da Guerra Civil Americana foi ditado, ao final, pelas discrepâncias humanas e materiais entre o Norte e o Sul. Havia 21 estados da União com uma população de 20 milhões de pessoas, e onze estados do Sul com uma população de 9 milhões, dos quais 4 milhões eram escravos, logo não autorizados a pegar em armas. A despeito do fato de, em 1864, 44% dos homens do Norte com idade entre dezoito e sessenta anos estarem no serviço militar, contra 90% nos estados sulistas, o Norte ainda foi capaz de alistar 2,2 milhões de homens durante a guerra, comparado com 800 mil do Sul.
O Norte era três vezes mais rico que o Sul. Ele tinha 3,8 quilômetros de ferrovias para cada 1,6 quilômetro no Sul. Suas fábricas produziam dez vezes mais bens. Ele produzia vinte vezes mais ferro que o Sul, 38 vezes mais carvão e 32 vezes mais armas de fogo. A única área em que o Sul era melhor que o Norte era na produção de algodão (24x1).
Em face dessa superioridade, o fato de o Sul ter conseguido resistir às forças do Norte por quatro anos, chegando perto de vencer em 1862 e 1863, era um reflexo da profunda crença dos soldados sulistas em sua causa. O Sul também tinha melhores generais o virginiano Robert E. Lee acima de todos. Em contraste, pelo menos até a ascensão de Ulysses S. Grant e William Sherman como comandantes em chefe das forças da União, o Norte só conseguiu arrolar uma sucessão de generais tímidos e ineptos que desperdiçaram as vantagens que possuíam em abundância.
Revigorado por Grant e Sherman, o Norte prevaleceu. A completa destruição de Atlanta, em setembro de 1864, foi acompanhada da "marcha para o mar" de Sherman em Savannah, Geórgia. Finda em dezembro, ela deixou um rastro de destruição de 96,5 quilômetros, deliberadamente atacando propriedades civis. "A guerra é cruel", afirmou Sherman. "Quanto mais cruel ela for, mais rápido terminará."
Uma nova liberdade
A Guerra Civil nos EUA foi uma das primeiras guerras industriais do mundo, a primeira a fazer uso extensivo, de ferrovias e a primeira a ser amplamente coberta por um novo tipo popular de imprensa. Houve concentração de mortes numa escala nunca vista antes: cerca de 670 mil mortos, 50 mil deles civis, em pouco mais de quatro anos.
Para Abraham Lincoln, a guerra representou aquilo que no Discurso de Gettysburg ele chamou de "negócio inacabado". A Constituição deixou sem solução a questão de como a escravidão poderia existir numa nação "concebida em liberdade". A despeito da destruição e do enorme número de mortos, a guerra possibilitou um "novo nascimento da liberdade". O fim da escravidão, confirmado pela 13a Emenda, em 1865, representou uma oportunidade para os EUA se remodelarem como uma terra genuinamente livre para todos os seus cidadãos, negros ou brancos.
A crença do jornalista John L. O'Sullivan de que o "destino manifesto" dos Estados Unidos está em sua expansão para o Oeste foi enormemente inflamada pela descoberta de ouro num rio no norte da Califórnia, em janeiro de 1848. Mesmo levando em conta as inevitáveis dificuldades de comunicação e transporte da época, a descoberta causou uma reação frenética. Nos cinco anos seguintes, quase 300 mil "49ers" — uma referência ao ano no qual começou o enorme influxo de pessoas — foram atraídos para aquele que em 1850 se tornaria o 31o estado dos EUA. A consequência imediata foi tanto uma selvagem e desregrada busca de riqueza instantânea quanto a confirmação da costa do Pacífico da América como uma terra prometida. A população de San Francisco, o principal ponto de entrada, não chegava a duzentas pessoas em 1846. Em 1852, já era mais de 30 mil e, em 1870, já passava de 150 mil.
Um punhado de pessoas, na maioria as que chegaram antes, fez fortunas, enquanto outras ganharam algum lucro e a maioria não conseguiu nada. A febre do ouro da Califórnia parecia uma obsessão nacional. Na verdade, foi mais um exemplo extremo da determinação de colonizar a América do Norte pelos EUA, algo que já estava em ação muito antes de o ouro ter sido descoberto. Em 1803, Vermont, Kentucky, Tennessee e Ohio haviam se tornado estados. Além da anexação do Texas em 1845, outros treze estados foram anexados em 1848. No mesmo ano, o Novo México e a Califórnia foram conquistados do México.
Novas tecnologias
Para chegar à Califórnia, os 49ers suportaram jornadas extremamente difíceis, viajando de carroça pela imensidão das Grandes Planícies, ou por barco, contornando o Cabo Horn, ou às vezes atravessando o istmo do Panamá. Demorava pelo menos seis meses para se fazer essa enorme empreitada.
No entanto, uma extraordinária resolução de ligar todos esses vastos territórios estava sendo concebida, aproveitando a nova tecnologia para se chegar à construção de uma enorme nação numa escala épica. Em 1861, foi inaugurada a primeira linha telegráfica entre as Costas Leste e Oeste. Em 1869, foi completada a primeira linha ferroviária intercontinental, reduzindo drasticamente o tempo de viagem: em 1876, era possível viajar de Nova York para a Califórnia em três dias e meio.
Colonizadores e vítimas
A imigração foi o combustível que permitiu essas transformações, quando as novas terras exigiam um vasto influxo de novos colonos. Em 1803, a população americana era de 4 milhões. Em 1831, era de 31 milhões. E, na virada do século, já era de 76 milhões. Sem dúvida havia custos inevitáveis para um crescimento tão rápido, e os índios americanos pagaram o maior preço. Expulsos de suas terras tribais com enorme violência, sua população caiu de quase 4,5 milhões para 500 mil. Presos em reservas, com sua forma de vida destruída, ficaram desamparados em face dessa aparentemente irresistível expansão.
Em meados do século XIX, o mundo estava experimentando luma explosão populacional sem precedentes, sobretudo na Europa. Esse crescimento continuaria por todo o século XX e além. Ele se deu em parte devido a melhorias na saúde, sustentadas por acesso mais fácil à comida como consequência de eficazes métodos agrícolas. Também foi resultado da industrialização e do crescimento urbano, bem como da riqueza e da melhoria de vida que ambos produziram. A estabilidade política também cumpriu seu papel. Depois da derrota de Napoleão em 1815, a Europa desfrutou de quase cem anos de paz ininterrupta. A natureza também deu uma força para o aumento das migrações. A fome da batata na Irlanda nos anos 1840, fruto de uma quebra de safra, talvez tenha sido a última maior fome na Europa, mas trouxe sofrimento em escala avassaladora: quase 1 milhão de pessoas morreram. Ela provocou entre os sobreviventes uma enorme onda de emigração de mais de 1 milhão, quase todos para os EUA. A população da Irlanda em 1841 era de 6,5 milhões de pessoas; em 1871, havia caído para 4 milhões.
Subclasse urbana
A industrialização produziu um paradoxo similar. A despeito do orgulho cívico e das falas grandiosas sobre os imensos e novos centros urbanos da Revolução Industrial, sobretudo na Inglaterra, uma nova subclasse urbana estava sendo criada, desesperadamente pobre e vivendo em extrema imundície.
Para os cidadãos da Europa continental, a atração para novas terras nas quais fosse possível ser livre e prosperar se mostrou irresistível. Muitos alemães, tchecos e húngaros deixaram a Europa Central depois da repressão das revoltas nacionalistas de 1848. A partir de 1870, um grande número de judeus russos e poloneses — 1,5 milhão entre 1901-1910 — também emigrou, fugindo de perseguições antissemitas.
O número envolvido nessa enorme transferência de pessoas foi impressionante. Desde meados do século XIX até 1924, 18 milhões de pessoas emigraram da Inglaterra, 9,5 milhões da Itália (principalmente do sul), 8 milhões da Rússia, 5 milhões da Áustria-Hungria e 4,5 milhões da Alemanha. Entre 1820 e 1920, os EUA atraíram 33,6 milhões de imigrantes, onde quase sempre acabavam em péssimas condições de vida em cidades em franco crescimento como Chicago e Nova York, ajudando no avanço da indústria americana com seus baixos salários. No mesmo período, 3,6 milhões de europeus se estabeleceram na América do Sul, e 2 milhões na Austrália e na Nova Zelândia.
Hóspedes indesejados
Esse processo de realocação não foi exclusivamente europeu. Indianos mudaram para a África do Sul, migrantes chineses se espalharam pelas Índias Orientais e emigrantes japoneses se fixaram na Califórnia, e muitos deles não se sentiram muito bem-vindos.
Eles também foram vítimas de emigração forçada. Um número desconhecido de escravos africanos negros ainda estava sendo para todo o mundo.
Em 1910, mais do que um em cada sete habitantes dos EUA havia nascido em outro país.
A derrubada, em 1868, do xogunato Tokugawa, governantes do Japão por 250 anos, foi liderada pelos barões feudais das províncias sulistas de Choshu e Satsuma, consequência direta da fraqueza em face das agressivas demandas dos EUA, Inglaterra, Rússia e Holanda de estabelecer laços de comércio. No lugar dos xoguns, o dócil imperador Meiji de catorze anos "exerceria autoridade suprema". A meta dos barões não era assumir o poder e manter o Japão do jeito que existiu durante o xogunato — com uma hierarquia rígida, deliberadamente isolado do resto do mundo. Em vez disso, achavam que o claro destino do Japão somente poderia ser estabelecido pela adoção não só dos meios tecnológicos ocidentais, mas também dos seus sistemas político e financeiro.
O Japão transformado
Seguiu-se uma transformação que nenhum tipo de sociedade já havia experimentado antes, nem depois. Usando o Ocidente como modelo, em trinta anos o Japão tornou-se uma das potências industriais mais dinâmicas do mundo e a principal potência militar do leste da Ásia.
Quase nenhum aspecto da sociedade japonesa ficou intocado por esse turbilhão de mudanças. Em 1871, o Japão aboliu o feudalismo e estabeleceu o iene como sua moeda. Em 1872, teve início a construção da primeira ferrovia; em quinze anos já havia 1.600 quilômetros de trilhos. Em 1873, implementou o recrutamento militar, junto com o uso de armas e uniformes europeus. O mesmo ano viu a reforma do sistema educacional, e em 1877 a primeira universidade do Japão foi fundada em Tóquio. Também introduziu um novo código legal em 1882 e uma nova Constituição sete anos depois. Conforme a industrialização avançou, cresceram as exportações. As cidades se expandiram, junto com suas populações, crescendo de 39,5 milhões em 1888 para 55 milhões em 1918.
O estímulo à modernização era temido há tempos no Japão, pois se pensava que ele pudesse se transformar, como a China, num peão colonial ocidental. Na verdade, aconteceu exatamente o contrário.
Expansão militar
Nos anos 1890, o Japão era uma potência colonial. Em 1894, a Coreia pediu tanto ao Japão quanto à China para que ajudassem a controlar uma revolta lá. Quando, mais tarde, ambos os países tentaram invadir a Coreia, os japoneses puseram os chineses de lado, exigindo e conseguindo a posse de Taiwan, além do direito sobre a Manchúria. Lá entraram em conflito com os russos. A vitória japonesa em 1905 sobre uma frota russa desorganizada na Batalha do Estreito de Tsushima foi a primeira vez que uma potência industrial europeia foi derrotada por uma potência asiática. O Japão chamou a atenção do mundo.
Em 6 de outubro de 1860, após anos do esporádico conflito conhecido como Segunda Guerra do Ópio, uma força anglo- -francesa capturou a capital imperial em Pequim, na China, para forçar os chineses a se submeterem a " concessões comerciais. A questão ficou mais clara quando os europeus queimaram o suntuoso Palácio de Verão do imperador. Os chineses concordaram em negociar, e a subsequente Convenção de Pequim não apenas aumentou o número de portos comerciais abertos ao Ocidente, como estendeu as zonas de influência britânica e francesa no sul da China às margens férteis do rio Yangtze. Menos de setenta anos antes, a Inglaterra enviou um embaixador à China para abrir negociações comerciais, mas ele foi rejeitado. A China Qing do século XVIII era o país mais rico, populoso e poderoso do mundo, logo podia tomar tal decisão. Porém, em meados do século XIX, a nação estava praticamente falida, sofrendo com fomes e revoltas, sendo cada vez mais explorada e humilhada pelo Ocidente.
Levantes e revoltas
Os problemas da China eram tanto internos quanto externos. Um aumento populacional — 100 milhões de habitantes em 1650, 300 milhões em 1800 e 450 milhões em 1850-causou contextos de fome recorrentes. Entre 1787 e 1813, houve três grandes levantes. Suas províncias de fronteira, conquistadas a duras penas nos séculos XVII e XVIII, estavam num permanente estado de agitação.
Em 1850, a Rebelião Taiping eclodiu por todo o centro da China, resultando na morte de quase 20 milhões de pessoas. Quando foi por fim derrotada, em 1864, os ocidentais já haviam intervindo no país. A dinastia Qing, com sua administração cada vez mais ineficiente, praticamente perdera o controle da China.
Os intrusos ocidentais
O Ocidente explorou esse crescente tumulto, enfraquecendo ainda mais a China no processo. A princípio, o país fez a primeira modesta concessão comercial, estipulando que todos os bens chineses fossem pagos com prata. No entanto, a partir do começo do século XIX, os comerciantes europeus, através da corrupção de autoridades locais, conseguiram aos poucos usar o ópio, cultivado a custo baixo na Índia, para pagar as mercadorias. Nos anos 1820, 330 toneladas de ópio entravam na China todos os anos.
A tentativa chinesa de pôr fim ao comércio do ópio e seus efeitos debilitantes levou a uma esmagadora derrota na Primeira Guerra do Ópio de 1939-1942, com as potências europeias, sobretudo a Inglaterra, obtendo enormes concessões comerciais. Foi a insistência ocidental em 1856 para que essas concessões fossem ainda mais estendidas que levou à Segunda Guerra do Ópio, encerrada em 1860 pela Convenção de Pequim. Em 1900, uma série de portos comerciais ocidentais se espalhava por toda a costa da China. Inglaterra, França, Japão e Rússia agora controlava o que antes haviam sido os estados acessórios em sua fronteira. A China, devastada pelos conflitos, estava praticamente se desintegrando.
A abertura da Torre Eiffel no dia 31 de março de 1889 foi uma I impressionante afirmação da grandiloquência parisiense nos anos entre as humilhações da Guerra Franco-Prussiana em 1870-1871 e a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. Foi al belle époque, período em que Paris queria — e conseguiu — autodenominar-se Cidade Luz, essencialmente cosmopolita, a capital artística do mundo e o epicentro da vida civilizada. Paris era a cidade renascida, sobre a qual se postava a torre de Gustave Eiffel, com trezentos metros de altura, não apenas a estrutura mais alta do mundo, mas também um monumento triunfante ao progresso tecnológico.
A cidade ideal
A Paris moderna foi criação de Napoleão III. Em 1853, o imperador francês derrubou bairros inteiros, substituindo prédios medievais e um emaranhado de ruelas por bulevares largos e imponentes. Era o planejamento urbano numa escala nunca antes vista. Foram construídas estações de trem, houve melhora no abastecimento de água, construíram um sistema de esgotos e lindos parques, criando assim lindas vistas da cidade. A meta era ter uma cidade modelo, que não apenas refletisse a glória da França, mas também toda a maestria da era moderna.
Foi um processo que se reproduziu nas principais cidades do Ocidente industrializado. Em 1850, havia três cidades europeias com população acima de 500 mil habitantes: Paris. Londres e Constantinopla. Cinquenta anos depois, havia nove cidades com mais de 1 milhão, sendo Londres a maior de todas, com seus 6,5 milhões de pessoas. O mesmo e assustador crescimento também se deu nos EUA; entre 1850 e 1900, a população de Chicago, por exemplo, triplicou de 560 mil para 1,7 milhão de habitantes.
Dificuldades e invenções
A primeira consequência dessa explosão populacional foi a chocante imundície urbana. Doenças como a cólera e o tifo proliferavam em todo lugar. Ficou claro que a infraestrutura exigida por qualquer cidade moderna teria de incluir não apenas um transporte público de qualidade e ruas bem iluminadas, por exemplo, mas também uma enorme melhora na saúde púbica - acima de tudo, nas condições sanitárias.
A mudança na qualidade de vida nessas grandes metrópoles urbanas foi extraordinária. Ela se deu em paralelo com o rápido desenvolvimento do consumo de massa, consequência direta de melhores padrões de vida, menos horas de trabalho e educação: obrigatória, tornando comum as pessoas serem alfabetizadas e aprenderem a aritmética básica. Foi a era das salas de concertos, do teatro popular e, depois, do cinema, do fonógrafo, dos jornais de grande circulação, do crescente interesse pelos esportes.
Centrais a essa era de riqueza crescente e aumento no lazer — pelo menos para alguns — foram as lojas de departamento. Elas eram a parte ostentatória da revolução no varejo, cuja outra face da moeda foi a explosão na propaganda, com a produção, pela primeira vez, de cartazes coloridos e impressos em massa. E, a partir dos anos 1890, nos EUA, os cenários urbanos foram transformados ainda mais por um novo tipo de construção: os arranha-céus. Assim como a Torre Eiffel antes, eles rapidamente se tornaram símbolos da transformação na vida urbana.
A Conferência de Berlim não precipitou o abrupto controle europeu da África após 1880. Ela só confirmou o direito autoproclamado de se impor sobre um continente considerado atrasado, ignorante e selvagem. Convocada por Otto von Bismarck, o chanceler alemão, a conferência se deu no inverno de 1884-1885 e contou com representantes de catorze países. Ela devia, em parte, legitimar a mais ou menos forçada sujeição da África e, ao estabelecer regras comuns sobre a colonização, evitar conflitos entre as potências coloniais da Europa, em especial a França e a Inglaterra. Ela foi vista como uma forma de acabar com o comércio escravo, sobretudo pela ação de missionários cristãos. Ao mesmo tempo, abriu caminho para Alemanha e Bélgica, duas nações sem nenhum domínio colonial, se tornarem grandes potências imperiais. Para a Alemanha, isso foi apenas um passo adicional lógico em seu desafio à Inglaterra e à França. Se elas podiam ter enormes possessões coloniais, a Alemanha também achava que devia ter.
O controle europeu
Antes da colonização, a África possuía uma variedade de estados e territórios, alguns muito bem definidos, outros um amontoado amorfo de tribos - havia um contraste extremo entre a sofisticação, do Egito, por exemplo, e o Congo na África tropical. Ao mesmo tempo, a maior parte do Norte era muçulmana. Os primeiros enclaves europeus na África foram seus fortes comerciais, sustentados pelo comércio de ouro e escravos. O interior seguia impenetrável, mas, conforme se revelou desde o começo dos anos 1800, o controle europeu da África ganhou forte impulso.
O subsequente aumento das tensões resultou na quase completa redução da África ao domínio europeu. Colônias africanas não passavam de criações artificiais, linhas traçadas sobre mapas para satisfazer as potências coloniais. Elas não levavam em conta as histórias e culturas locais, e qualquer resistência local à colonização era invariavelmente abafada por meios militares.
O domínio belga e alemão
Em 1885, Leopoldo II, rei dos belgas, proclamou a fundação do Estado Livre do Congo, uma área 76 vezes maior que a Bélgica. Apresentado como uma colônia modelo, dedicada a fins humanitários e ao livre comércio, na verdade não era nada disso.
Tratado por Leopoldo II como sua possessão pessoal, o Congo testemunhou brutalidades numa escala próxima do genocídio. Os números precisos jamais serão conhecidos, mas acredita-se que entre 2 e 10 milhões de congoleses tinham morrido. As condições na África Oriental alemã, rapidamente conquistada em 1884 e hoje parte da Namíbia, também foram brutais. O verdadeiro preço das riquezas produzidas pela África para seus senhores europeus - marfim, ouro e diamantes foi o sofrimento extraordinário.
A Revolução dos Jovens Turcos, em julho de 1908, foi instigada por oficiais nacionalistas do Exército, desalentados pelas perdas territoriais do Império Otomano. Ela forçou o sultão — o ineficiente, mas repressivo, governante otomano Abdul Hamid — a reintroduzir a monarquia constitucional que ele havia suspendido em 1878 em favor de seu governo pessoal, depois de apenas dois anos. Em 1909, foi forçado a abdicar em favor de seu irmão, Mehmed V, que era, na verdade, apenas uma figura simbólica.
A revolução fez muito pouco para barrar o declínio otomano, se restringindo apenas a sublinhar as tensões entre os que defendiam os valores islâmicos turcos e os liberais que acreditavam que apenas as reformas em moldes ocidentais poderiam salvar a Turquia.
Declínio territorial
Em 1800, a despeito das repetidas derrotas nas mãos dos russos, a Turquia otomana ainda governava um enorme império multinacional que ia dos Bálcäs até o Oriente Médio e o norte da África. Em 1805, ela perdeu o controle do Egito, que acabou finalmente independente sob um dos generais do sultão, Muhammad Ali.
Em 1830, ano em que a França começou sua conquista da Argélia (encerrada em 1857), a Grécia conquistou sua independência. E, por volta de 1878, Sérvia, Montenegro, Bulgária e Romênia também se tornaram independentes, menos no nome. Em 1881, a Tunísia também foi dominada pela França.
Depois da Revolução dos Jovens Turcos, continuou o cruel declínio da Turquia otomana. Em 1911, a Líbia foi perdida para a Itália, enquanto as Guerras dos Bálcãs de 1912-1913 viram a rendição de quase todos os restantes territórios europeus da Turquia.
Uma aliança desastrosa
Depois da crise dos Bálcãs, o governo militar otomano lançou um esforço de modernizar o país segundo preceitos ocidentais. Em outubro de 1914, a Turquia entrou na Primeira Guerra Mundial como aliada dos Poderes Centrais — Alemanha e Áustria-Hungria —, convencida de que a ajuda militar alemã lhe permitiria restabelecer sua força. Esse foi um erro calamitoso, e a derrota em 1918 fez com que a Turquia se reduzisse ao seu centro na Anatólia, perdendo o que lhe restava de territórios no Oriente Médio, que foram divididos sobretudo entre Inglaterra e França.
Os traumas da derrota turca na Primeira Guerra ficaram muito claros em 1920 com o Tratado de Sèvres, uma clara imposição franco-britânica. Ele confirmou as perdas de territórios otomanos e ainda cedeu boa parte do oeste da Turquia para a Grécia, provocando um imediato retrocesso nacionalista liderado por Mustafa Kemal, bem como a derrubada do último sultão, Mehmed VI.
A Turquia que surgiu com Kemal, mais tarde chamado de Atatürk ("Pai dos Turcos"), foi exatamente o Estado secular centralizado ao estilo ocidental que os reformadores nacionalistas como os Jovens Turcos defendiam.
No dia 4 de junho de 1913, Emily Davison invadiu a pista do Derby, a principal corrida de cavalos da Inglaterra, e foi atropelada por um cavalo que pertencia ao rei George v. Ela morreu quatro dias depois. Não ficou claro se esse foi um protesto que deu errado ou se foi uma tentativa premeditada de martírio. No entanto, a iniciativa era típica da União Social e Política das Mulheres (wSPU), à qual Davison se filiou em 1906.
Inglaterra: as sufragistas
As mulheres no Ocidente começaram a sentir que elas, e por extensão todas as outras, não deveriam mais ser consideradas cidadãs de segunda classe. A extensão do direito ao voto para um número crescente de homens em países como Inglaterra e Estados Unidos as fez questionar por que as mulheres não tinham o mesmo direito. Em 1903, Emmeline Pankhurst fundou a wSPU, visando usar táticas militares para avançar nessa causa. Seu slogan dizia "Ações, não palavras", e a tática das sufragistas, como passaram a ser jocosamente conhecidas as mulheres que queriam votar, se tornou cada vez mais violenta. Acorrentar-se a prédios públicos e interromper reuniões deram lugar a quebra de vitrines, incêndios e explosões.
As participantes mais ativas da WSPU eram com frequência presas: Pankhurst foi condenada sete vezes; Davison, nove. Em 1909, a wsPU começou a fazer greves de fome nas prisões. Como resposta, passaram a ser alimentadas à força, um processo doloroso e degradante.
Os EUA: as sufragistas
A experiência daquilo que passou a ser conhecido como as sufragistas nos EUA tinha outros similares. A União da Temperança Cristã das Mulheres defendia, pacificamente, os direitos das mulheres, defendendo que elas não conseguiriam influenciar as decisões políticas — nesse caso, a Proibição — sem poderem votar.
No entanto, o Partido Nacional das Mulheres (NWP), criado em 1916, imitava as táticas militantes das britânicas do WSPU. Isso não foi surpresa, já que sua fundadora, Alice. Paul, havia sido membro da wSPU de 1907 a 1910 e havia sido condenada três vezes. As chamadas Sentinelas Silenciosas do NWP, que protestaram fora da Casa Branca a partir de janeiro de 1917, também foram presas e alimentadas à força.
Finalmente o sucesso
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a wsPU parou com o ativismo, passando a se mobilizar para apoiar o esforço de guerra. A contribuição dada pelas mulheres durante a guerra de fato demonstrou quão amplo poderia ser seu papel, muito além do que tradicionalmente se esperava delas como esposas e mães. Em 1918, todas as mulheres com trinta anos conquistaram o direito de voto. Em 1928, o sufrágio na Inglaterra foi estendido às mulheres com 21 anos ou mais.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, o NWP continuou seus protestos até 1919, quando o Congresso aprovou a 19a Emenda, ratificada no ano seguinte, que garantia às mulheres o mesmo direito de voto dos homens.
Passchendaele, oficialmente conhecida como a Terceira Batalha de Ypres, foi um ataque de grande escala contra o front alemão ao redor de Ypres, Bélgica, durante a Primeira Guerra Mundial. O objetivo dos aliados era avançar na Bélgica e liberar os portos dominados pelos alemães na costa, que estavam sendo usados para atacar os navios britânicos. O maior desafio era romper as posições de defesa dos alemães no sulco ocidental de Flandres. O mais importante para o sucesso seria o cerco da vila de Passchendaele.
Os preparativos para a batalha começaram em 7 de junho de 1917, com um bombardeio pesado, por duas semanas, das posições alemãs. A ofensiva da artilharia começou em 31 de julho de 1917. Em poucos dias, as forças aliadas ficaram presas na lama, já que chuvas torrenciais transformaram a área num pântano. Quando os aliados - formados pelas tropas britânicas, francesas, canadenses e australianas - capturaram Passchendaele, em 6 de novembro, a vila estava em ruínas. O conflito custou a vida de 300 mil soldados aliados, para ganhar oito quilômetros, e 260 mil alemães. Mesmo saudado como uma vitória pelo governo britânico, tomou-se um lema para a enorme futilidade da guerra.
Diplomacia secreta
Duas grandes disputas levaram à Primeira Guerra Mundial: uma entre a Alemanha e a França, e outra entre a Rússia e a Áustria-Hungria. A longa história de antipatia mútua entre Alemanha e França atingiu o ápice em 1870, com a humilhante derrota da França para a Alemanha na Guerra. Franco-Prussiana, que levou à anexação da maior parte das províncias de Alsácia e Lorena.
Na Europa Oriental, os impérios Austro-Húngaro e Russo já tinham uma longa disputa sobre qual deles era o mais forte na reivindicação dos Bálcas. Ambos dependiam da área para acesso ao Mediterrâneo, e cada um via os movimentos do outro com enorme suspeição.
Cada Estado precisava de aliados, e em 1882 Áustria-Hungria, Alemanha e Itália assinaram a Tríplice Aliança, prometendo dar uns aos outros apoio militar em caso de guerra. Então, nos anos 1890, Rússia e França assinaram um acordo de se protegerem mutuamente em caso de uma guerra contra a Alemanha. Na virada do século, os discursos nacionalistas e provocadores do kaiser Wilhelm II, bem como sua expansão naval, empurraram a Inglaterra a formar laços mais próximos com a França. Em 1904, Inglaterra e França concordaram com a entente cordiale, ou aliança amiga, que acabou ampliada na tríplice entente, com a inclusão da Rússia em 1907. A tríplice entente ficou conhecida como as Potências Aliadas. A atmosfera gerada por esse empurra-empurra internacional levou a um aumento nos gastos militares pelos governos europeus e à expansão dos exércitos e das marinhas.
Eclode a guerra
Não era preciso mais que uma faísca para detonar a chama de inimizade entre as duas alianças. E ela apareceu em 28 de junho de 1914, quando um servo-bósnio assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Habsburgo, em Sarajevo. Os austríacos suspeitavam que a Sérvia, seu principal inimigo nos Bálcas, estava por trás do ataque. Depois de garantir o apoio de seu aliado alemão, a Áustria-Hungria deu um ultimato à Sérvia em 23 de julho, exigindo que parasse com toda atividade anti-Áustria-Hungria. A Sérvia aceitou a maior parte das demandas, mas a Áustria-Hungria declarou guerra ao país em 28 de julho. A Inglaterra pediu mediação internacional, mas a crise rapidamente cresceu e virou uma guerra europeia. Quando a Rússia se mobilizou contra a Áustria-Hungria, a Alemanha declarou guerra à Rússia em 1o de agosto, e à França dois dias depois. A Inglaterra entrou na guerra em 4 de agosto, depois de os alemães terem invadido a neutra Bélgica. A Força Expedicionária Britânica (BEF), uma pequena tropa profissional liderada pelo Sir Douglas Haig, chegou à França em 22 de agosto. Ela ficou lotada próxima à fronteira franco-belga, alinhada aos planos militares de antes da guerra acordados com o governo francês.
A Alemanha teve de lutar uma guerra em dois fronts. No Front Ocidental, nas primeiras semanas do conflito, os alemães invadiram a Bélgica e a França, mas seu avanço foi barrado por franceses e britânicos na Batalha do Marne. No final do outono, os dois lados haviam chegado a um beco sem saída. Enquanto isso, no Front Oriental, a luta seguia solta. A Alemanha dominava, conseguindo uma grande vitória sobre os russos em Tannenberg, mas seus aliados austro-húngaros sofreram várias derrotas. No Front Ocidental, porém, uma linha de trincheiras de 645 quilômetros passava pela costa belga no norte e cortava o leste da França até chegar à fronteira suíça. Os dois lados ficavam cara a cara no espaço aberto, entre as duas linhas do front. Essa área - a terra de ninguém - tinha arame farpado na frente das trincheiras para atrasar os oponentes. Uma luta constante a partir das trincheiras, entrecortadas por terríveis e sangrentas batalhas, fracassou em romper o impasse. Mais de 600 mil tropas aliadas foram mortas ou feridas só na Batalha do Somme.
Guerra total
No início do conflito, ambos os lados estavam convencidos de que seria uma batalha curta e decisiva. Ninguém havia previsto uma guerra de atrito. Novas armas mecanizadas aumentaram as taxas de mortes. Os tanques foram usados pela primeira vez, e metralhadoras como a alemã MG08 Maxim conseguiam disparar até seiscentas balas por minuto. Os aviões, usados primeiro para reconhecimento, foram mais tarde utilizados em bombardeios. Ambos os lados usaram gás venenoso. Os cavalos eram a espinha dorsal das operações logísticas, mas, conforme a guerra avançou, ferrovias e caminhões foram usados para transportar bens para o front.
Os civis foram incluídos na frente de batalha, com os bombardeios de Londres e Paris por aviões e bombardeiros. Em 1917, submarinos alemães afundavam um em cada quatro navios mercantes que iam para a Inglaterra, tentando privar os britânicos de suprimentos para que se rendessem. O bloqueio naval britânico da Alemanha também levou a uma enorme falta de alimentos. Essa foi a primeira "guerra total", ou seja, não apenas soldados, mas os civis também foram envolvidos.
A Inglaterra foi forçada a fazer alistamentos obrigatórios pela primeira vez em sua história. A partir de janeiro de 1916, todos os homens solteiros entre 18 e 41 anos poderiam ser chamados. Inglaterra e França também arregimentaram exércitos a partir de suas colônias ultramarinas, como a Índia e a África, bem como dos domínios britânicos na Austrália, Nova Zelândia e Canadá. A guerra trouxe muitas mudanças sociais, sobretudo para as mulheres, que ocuparam posições em fábricas e escritórios. Elas também eram usadas cada vez mais nas fábricas de munição conforme os governos começaram sua produção em alta escala.
Conflito global
Os principais estados beligerantes trouxeram seus vastos impérios para a guerra com eles, e o conflito rapidamente se transformou numa guerra mundial. As colônias alemãs na China e no Pacífico foram invadidas pelo Japão, que entrou na guerra no lado dos aliados. As colônias alemãs na África foram tomadas pelas tropas britânicas, francesas e sul-africanas. Em maio de 1915, a Itália se juntou aos aliados, enfrentando a Áustria-Hungria e a Alemanha nos Alpes.
No começo de novembro de 1914, o Império Otomano, uma potência islâmica, abandonou sua neutralidade e declarou uma jihad militar (uma guerra santa) contra França, Rússia e Inglaterra. Os EUA foram impelidos à guerra por causa dos ataques de submarinos alemães aos navios comerciais no mar, como a embarcação britânica Lusitania, em 1915, com 128 americanos a bordo. Depois da descoberta de uma conspiração alemã de persuadir o México a participar de uma aliança anti-EUA, O Congresso declarou guerra em abril de 1917.
Quando os bolcheviques na Rússia negociaram um tratado de paz com a Alemanha em Brest-Litovsk em 22 de dezembro de 1917, parecia que a Alemanha havia obtido uma vitória significativa. Ela também conseguiu avanços no Front Ocidental em 1918, mas, em julho e agosto, os aliados contra-atacaram, começando uma ofensiva que duraria até novembro. Quatro milhões de novos soldados americanos ajudaram a derrotar as Potências Centrais e a levar os alemães à mesa de negociações de paz.
Quando o conflito terminou, às 11h do dia 11 de novembro de 1918, a aliança liderada por França e Inglaterra surgiu como vitoriosa. Mais de 65 milhões de tropas foram envolvidas na guerra, das quais pelo menos metade morreu ou foi ferida. Os impérios russo, austríaco e alemão entraram em colapso. Depois da guerra, o Tratado de Versalhes redesenhou o mapa da Europa, deixando nações, sobretudo a Alemanha, muito rancorosas. Uma assembleia pública de países, a Liga das Nações, foi fundada para ajudar a manter a paz. No entanto, a Liga se mostrou impotente em relação aos países que optaram por ignorá-la. Quando o fascista Benito Mussolini subiu ao poder na Itália, em 1922, ele denunciou o Tratado. Na Alemanha, onde a resposta ao Tratado foi de profundo ressentimento, o Partido Nazista começou a ganhar fôlego. Longe de ser a "guerra que acabaria com todas as guerras", a Primeira Guerra Mundial acabou por cultivar as sementes de um novo conflito.
Em outubro de 1917, a Rússia estava em agitação depois de sofrer enormes perdas na Primeira Guerra Mundial. Havia falta de alimento, e os trabalhadores nas cidades sofriam com baixos salários e péssimas condições de trabalho. A Revolução de Fevereiro expulsara o czar, mas o Governo Provisório que o substituiu estava próximo do colapso.
Vladimir Lênin, um membro do revolucionário Partido Bolchevique, assumiu a dianteira. Ele estava comprometido com uma revolução dos trabalhadores (proletários) e lançou uma série de propostas para derrubar o governo, naquilo que ficou conhecido como as suas Teses de Abril. Seu slogan simples, "Paz, terra e pão", tornou-se um clamor revolucionário agregador. Em 24 de outubro (6 de novembro, segundo o calendário gregoriano — cg), houve tentativas do governo de cercear as atividades dos bolcheviques para evitar um golpe. Foram dadas ordens para prender os principais líderes do partido, e o seu jornal, Pravda (A Verdade), foi fechado. Lênin, discreto em seu apartamento, clamava por ação: "Não devemos esperar! Podemos perder tudo! O governo está cambaleando. Demorar para agir é o mesmo que a morte".
No dia 25 de outubro (7 de novembro CG), o governo tentou, sem sucesso, conseguir apoio militar. O partido Soviete dos Operários e Soldados de Petrogrado, do qual os bolcheviques eram uma facção, poderia contar com o apoio das tropas em Petrogrado (mais tarde, São Petersburgo). A Guarda Vermelha paramilitar bolchevique ocupou os principais escritórios dos telégrafos, do correio e das estações de energia. Só faltava o Palácio de Inverno, sede do governo. A pequena unidade de cadetes militares que o guardava se rendeu prontamente aos soldados revolucionários. O regime foi derrubado, e o poder passou para Lênin e os bolcheviques.
Lançando as bases
A Revolução de Outubro foi o cume da insatisfação civil que durou meses. No dia 23 de fevereiro de 1917 (8 de março — CG), em Petrogrado, começou uma revolta liderada por mulheres frustradas pelas filas de espera de mais de hora por pão. Elas marcharam pela cidade, juntando apoiadores no caminho. Isso acabou virando uma greve geral, e os participantes assumiram uma natureza mais política. Começaram a surgir bandeiras vermelhas, e estátuas do czar Nicolau I foram derrubadas. Soldados se recusaram a obedecer ordens de atirar na multidão, mas a polícia atirou e matou cinquenta pessoas.
Ascensão dos partidos revolucionários
Com a violência nas ruas das cidades, o czar abdicou em março, entregando o poder para o Governo Provisório em fevereiro, tendo o príncipe Georgi Y. Lvov como chefe. O governo ainda representava apenas a classe média e continuava a apoiar o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Grupos como o Soviete dos Operários e Soldados de Petrogrado, um conselho feito de trabalhadores e camponeses agitando por mudanças, ficou mais forte e ganhou poder dentro do Governo Provisório. Lênin, no exílio por suas atividades revolucionárias, estava ansioso por voltar para Petrogrado, convencido de que o colapso do mundo capitalista fosse iminente. Ele recebeu ajuda do governo alemão, que achava que ele poderia desestabilizar ainda mais a situação política na Rússia em seu esforço de guerra, e chegou secretamente num trem de carga. Cheio de zelo revolucionário, estava determinado a moldar o novo governo russo de acordo com suas próprias ideias, e acusou seus colegas de não fazerem o suficiente para derrubar o regime atual.
O primeiro-ministro Lvov resignou-se depois da desastrosa Ofensiva de Julho no Front Ocidental. Seu sucessor, Alexander Kerensky, formou um novo governo socialista com o Soviete de Petrogrado, mas ele também insistia na permanência da Rússia na guerra. Depois de demonstrações em massa em Petrogrado, encorajadas pelos bolcheviques, Kerensky os baniu e prendeu muitos de seus líderes. Lênin fugiu para a Finlândia.
A revolução está próxima
Em agosto, Kerensky enfrentou uma nova ameaça. O general Lavr Kornilov, comandante em chefe do Exército da Rússia, enviou suas tropas para Petrogrado. Kerensky achava que Kornilov estava armando um golpe para assumir o poder. Desesperado, soltou os bolcheviques, que armaram aqueles que quisessem evitar uma contrarrevolução. Esse foi um enorme fôlego para sua causa. Eles puderam se apresentar ao povo como os defensores de Petrogrado. Em setembro, os bolcheviques assumiram o controle do Soviete de Petrogrado. Lênin aproveitou o momento, voltou à Rússia e renovou seu chamado à revolução. Ele atribuiu a responsabilidade pelas táticas militares a Leon Trotski, um colega marxista. Os camponeses e agricultores se revoltavam na zona rural, e os operários nas cidades. Lênin achou que havia chegado a hora de os bolcheviques assumirem o poder. Eles invadiram prédios governamentais e o Palácio de Inverno, onde o gabinete de Kerensky havia buscado refúgio.
Na noite de 25 de outubro (7 de novembro — cg), Lênin fez um breve pronunciamento ao povo russo: "O Governo Provisório foi derrubado. Vida longa à revolução dos operários, soldados e camponeses!". Depois desse triunfo inicial, Lênin foi compelido a fazer eleições democráticas, mas os bolcheviques ganharam apenas um quarto dos votos. Lênin dissolveu o governo eleito e enviou guardas armados para evitar que se reunisse novamente. Em fevereiro de 1918, ele assinou um tratado de paz com a Alemanha, mas os termos eram muito duros. A Rússia cedeu os Estados bálticos para a Alemanha, enquanto Ucrânia, Finlândia e Estônia foram transformadas em Estados independentes. A Rússia também foi forçada a pagar 6 bilhões de marcos alemães em reparações. Essa iniciativa livrou os bolcheviques da ameaça alemã, mas os termos do tratado eram profundamente impopulares. Muitos o consideraram como uma traição ao país.
Guerra civil
Os bolcheviques haviam ganho o poder, mas agora teriam de mantê-lo. Lênin estabeleceu um sistema de governo altamente centralizado baniu toda oposição e começou o Terror Vermelho, uma campanha de intimidação, execuções e prisões de todos que ameaçavam os bolcheviques.
Os bolcheviques eram uma minoria na Rússia, e seus oponentes coordenaram suas forças contra eles, principalmente os Brancos, formados por ex-czaristas, oficiais do Exército e democratas. Os bolcheviques eram conhecidos como os Vermelhos.
Conforme várias facções brigavam pelo futuro do país, eclodiu na Rússia uma guerra civil caracterizada pela extrema violência, indo de 1918 a 1921. Os Brancos receberam ajuda dos antigos aliados da Rússia - Inglaterra, França, EUA e Japão, que temiam a expansão do comunismo. A princípio, eles tiveram ganhos significativos. No entanto, tinham uma péssima coordenação, e Trotski provou ser um brilhante estrategista militar.
Em 1920, Lênin ordenou uma guerra contra a Polônia para liberar os trabalhadores do leste e do centro da Europa, mas na Batalha de Varsóvia, após um impressionante contra-ataque, o Exército Vermelho foi rechaçado.
Um país em ruínas
Em 1921, os Brancos foram vencidos, e Lênin pôde finalmente voltar sua atenção para a reconstrução da economia russa. Ele enfrentou um país à beira do colapso. No campo, quase 6 milhões de camponeses morreram de fome, e havia protestos nas cidades. A rebelião naval de Kronstadt em março de 1921 minou ainda mais o regime. Kronstadt era uma cidade naval numa ilha na costa de Petrogrado. Em 1921, 16 mil soldados e trabalhadores assinaram uma petição querendo "Sovietes sem bolcheviques". Eles queriam sovietes eleitos livremente e liberdade de expressão e de imprensa. Os Vermelhos reagiram de forma cruel, executando várias centenas de líderes e expulsando mais de 15 mil marinheiros da frota.
Em maio de 1922, Lênin sofreu um derrame. Em dezembro, o governo soviético declarou a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), uma união federal constituída da Rússia Soviética e de áreas vizinhas que eram governadas por braços do movimento comunista. Desde sua criação, a URSS foi baseada numa premissa de governo a partir de um único partido, proibindo todas as outras organizações políticas.
Lênin ficou desanimado com a luta política interna e preocupado com a forma como a URSS funcionaria após sua morte. Entre final de 1922 e começo de 1923, ele ditou aquilo que ficou conhecido como seu "testamento", no qual expressava arrependimento com a direção que o governo soviético havia tomado. Ele era especialmente crítico de Joseph Stálin, então secretário-geral do Partido Comunista. O comportamento agressivo de Stálin o pôs em conflito com Lênin.
Lênin morreu em 1924, mas seu legado continua vivo. O Partido Bolchevique, com sua criação do primeiro Estado socialista do mundo em sua maior nação, afetou todos os países do mundo. A revolução socialista vitoriosa inspirou trabalhadores como uma alternativa ao capitalismo e aos velhos regimes imperialistas.
Após quatro anos de conflito global, 16 milhões de pessoas morreram e impérios e dinastias centenários entraram em colapso. Em janeiro de 1919, os vencedores da Primeira Guerra Mundial se reuniram para discutir os termos de paz. O presidente americano Woodrow Wilson esboçara um plano que achava ser capaz de trazer uma nova ordem à Europa com base na democracia. Ele propôs que a Liga das Nações agisse como árbitro e pacificador em disputas nacionais.
Inglaterra e França queriam garantir que a Alemanha jamais fosse capaz de ameaçar a paz europeia. O Exército alemão deveria ser reduzido e a Renânia desmilitarizada. A Alemanha também teria de abrir mão de terras ao seu oeste para a França, e ao norte e ao leste para a Polônia. Além disso, o império austro-húngaro deveria ser dividido em novas nações, como Tchecoslováquia e Iugoslávia; o Império Otomano também foi fatiado em favor da Inglaterra e da França.
Cláusula de culpa de guerra
Digno de destaque, numa "cláusula de culpa de guerra", os alemães tinham de admitir que começaram a guerra e pagar 6,6 bilhões de libras em reparações. Eles assinaram o Tratado de Versalhes em 28 de junho de 1919, mas se recusaram a pagar as indenizações, então em 1923 a França ocupou o industrializado Vale do Ruhr na Alemanha. Mas, no período entre guerras, nenhuma das duas nações fez nada para deter agressões da Alemanha nazista. Quando Adolf Hitler tomou a França, em 1940, ele ordenou que o documento original do tratado fosse queimado.
Depois da Revolução de Outubro de 1917, o líder da Rússia, Vladimir Lênin, criou um Estado de partido único e escolheu Joseph Stálin como secretário-geral. Stálin, então, usou sua posição para lançar sua candidatura a líder supremo, tornando-se ditador em 1929, cinco anos após a morte de Lênin.
Stálin levou o país a um período de rápida industrialização. Ele confiscou terras que pertenciam aos fazendeiros para transformá-las em grandes fazendas a serem geridas coletivamente, para garantir comida para a nova força de trabalho. Em 1931-1932, confiscou grãos dos camponeses, o que levou a uma terrível fome na Ucrânia, matando milhões de pessoas.
O Comissariado do Povo para Assuntos Internos (polícia secreta) recebeu a tarefa de caçar os opositores políticos de Stálin. Milhares de cidadãos soviéticos morreram nos "expurgos sangrentos" dos anos 1930, conhecido como o "Grande Terror", e milhões de não russos foram deportados para campos de trabalho. Apesar disso, Stálin falava de seu país como uma terra de paz e progresso, e de si mesmo como um homem trabalhando para o benefício do povo. O ditador buscava oportunidades de expandir o comunismo além das fronteiras soviéticas e, após a Segunda Guerra Mundial, conseguiu seu intento na Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e outros, formando o chamado Bloco Soviético Oriental. Partidos comunistas assumiram o poder na Coreia do Norte em 1948, na China em 1949, em Cuba em 1959 e Vietnã em 1975.
Stálin acabou se tornando um dos homens mais poderosos do mundo. Logo depois de sua morte, em 1953, sua nação era uma superpotência capaz de ameaçar os Estados Unidos.
Por seis dias desesperadores em outubro de 1929, as ações na Bolsa de Valores de Nova York despencaram. A queda começou no dia 23 de outubro, quando as ações da fabricante de automóveis General Motors foram vendidas com perdas e o mercado começou a entrar em colapso. Veio o pânico, e no dia seguinte o mercado afundou.
Na terça, 29 de outubro, que passou a ser conhecida como a Terça-Feira Negra, os preços das ações despencaram ainda mais. No total, US$ 25 bilhões, mais ou menos US$ 319 bilhões no presente, foram perdidos. Foi a maior catástrofe financeira até então e afundou o mundo na Grande Depressão.
Os Roaring Twenties
Os EUA se recuperaram rapidamente da Primeira Guerra Mundial, e as fábricas que produziam suprimentos para o esforço de guerra se transformaram para produzir bens de consumo como carros e rádios. O crescimento das novas tecnologias e a produção em massa viram a economia crescer quase 50%; a era de prosperidade e consumismo resultante disso ficou conhecida como os Roaring Twenties (Os Loucos Anos Vinte).
Jornais e revistas estavam cheios de histórias de pessoas que ficaram ricas da noite para o dia se aventurando no mercado de ações, e milhares de americanos comuns compraram ações, aumentando a demanda por elas e inflacionando seu preço. Entre 1920 e 1929, o número de acionistas subiu de 4 milhões para 20 milhões.
No final de 1929, já havia sinais de problemas na economia americana: o desemprego estava em alta, a produção do aço caía, a construção desacelerou e a venda de carros despencou. Ainda confiantes de que conseguiriam fazer fortuna, algumas pessoas continuaram a investir no mercado de ações. No entanto, quando o preço das ações começou a cair, em outubro de 1929, veio o pânico. O crash que se seguiu detonou uma recessão mundial conhecida como a Grande Depressão.
A Grande Depressão
Nos EUA, fábricas foram fechadas e empregados despedidos. Na primavera de 1933, o setor agrícola estava à beira do desastre: 25% dos agricultores estavam sem trabalho, e muitos até perderam suas fazendas. O desemprego foi de 1,5 milhão em 1929 para 12,8 milhões, ou 24,75% da força de trabalho, em 1933, um padrão visto em todo o mundo.
O desemprego na Inglaterra subiu para 2,5 milhões, 25% da força de trabalho, com a indústria pesada, como os estaleiros, sendo afetado duramente. A Alemanha sofreu terrivelmente, já que sua economia de pós-guerra estava apoiada em enormes empréstimos americanos que ela não conseguia pagar.
O New Deal
O crash ajudou a levar o democrata Franklin D. Roosevelt à Casa Branca, em 1932. Sua política, o New Deal, implementou um programa de bem-estar social para os pobres e gastos públicos em enormes projetos que criaram novos empregos.
A Grande Depressão marcou o fim do boom americano no pós-guerra. Na Europa, muitos se voltaram para partidos de extrema-direita, como o Partido Nacional Socialista de Adolf Hitler na Alemanha, com sua promessa de restaurar a economia. Em muitos países, a recuperação só veio com o aumento do emprego trazido pela Segunda Guerra Mundial.
Quando houve o incêndio no Reichstag, o prédio do parlamento alemão, logo depois das 21 horas de 27 de fevereiro de 1933, o chanceler Adolf Hitler alegou que isso havia sido um plano dos comunistas para derrubar o governo — uma manobra cínica que deu a ele a desculpa para dizimar seus rivais comunistas.
O contexto era perfeito: haveria eleições em março de 1933. Se por um lado o Partido Nacional Socialista, ou Nazista, de Hitler era o maior do parlamento, por outro não tinha a maioria, porque os outros dois maiores partidos mais votados (o Socialdemocrata e o Comunista) estavam ambos à esquerda, e ele temia que o seu partido não se desse bem nas eleições. Hitler se afobou para pôr a culpa do incêndio num único comunista holandês, o que levantou suspeitas de que os nazistas estavam por trás do fogo criminoso, já que eles teriam muito a ganhar com o descrédito dos comunistas.
No dia seguinte, o Decreto do Incêndio do Reichstag baniu o Partido Comunista. A resposta de Hitler se valeu do temor da tomada do poder pelos comunistas, e muitos alemães acreditaram que a ação decisiva de Hitler salvara a nação. Em abril, sob pressão dos nazistas, a Lei de Concessão de Plenos Poderes foi aprovada pelo Reichstag. Isso garantiu a Hitler o direito de fazer suas próprias leis sem a aprovação do Reichstag, e solidificou seu lugar como um ditador fascista com controle completo sobre a Alemanha.
Os ditadores tomam o poder
O fascismo surgiu por toda a Europa nos anos 1920 e 1930. Conforme os governos lutavam contra as dificuldades da economia do pós-guerra e o medo de revoluções comunistas, os movimentos de extrema-direita — o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha —-se colocaram como os defensores contra o comunismo. Eles usavam grupos paramilitares para intimidar seus oponentes e espalhavam propaganda para ganhar popularidade. Na Itália, Benito Mussolini era visto como o único homem capaz de restaurar a ordem. Assim que virou primeiro-ministro, em 1922, passou gradualmente a assumir poderes ditatoriais, tornando-se Il Duce, o líder. Em 1928, a Itália havia se tornado um Estado totalitário.
Na Alemanha, Hitler trabalhou sem cessar para transformar os nazistas numa força política importante. Baseado numa mistura de retórica nacionalista, anticomunismo, um vicioso antissemitismo e um clamor incessante para reverter os termos de Versalhes de 1919, ele surfou numa onda de popularidade. Em 1933, tornou-se chanceler e, pouco depois, ditador, chamando-se Führer.
Os fascistas unidos
Em 1936, Hitler e Mussolini começaram a enviar apoio militar para ajudar o general Franco na Guerra Civil Espanhola, que colocou frente a frente os direitistas nacionalistas contra os esquerdistas republicanos. A vitória de Franco contra o governo esquerdista da Frente Popular encorajou os ditadores e enfatizou as fraquezas das democracias ocidentais.
O incêndio do Reichstag foi um momento impar na história nazista. Ele levou à ditadura absoluta de Adolf Hitler e ao crescimento do fascismo, colocando a Europa na rota de uma guerra mundial.
Em agosto de 1939, a Alemanha nazista e a União Soviética assinaram um pacto de não agressão, concordando, secretamente, em invadir a Polônia e dividi-la entre si. Stálin decidiu que, em caso de guerra, a Alemanha oferecia a melhor esperança de segurança para os soviéticos. Uma semana depois, em 12 de setembro de 1939, mais de 1 milhão de tropas alemãs invadiram a Polônia a partir do oeste. Depois, em 17 de setembro, as tropas russas atacaram a Polônia a partir do leste. O contexto desse ataque não provocado, conforme declarado pelo Führer alemão, Adolf Hitler, era conseguir a Lebensraum, o "espaço vital" considerado necessário para a expansão do povo alemão, o qual Hitler via como uma "raça ariana" superior, com o direito de ocupar o espaço de raças inferiores.
A invasão durou pouco mais de um mês. Enclausurados entre duas enormes e bem armadas potências, a força aérea e o Exército poloneses lutaram bravamente, mas não tinham aviões ou tanques modernos. A Luftwaffe Alemã conseguiu rapidamente controlar os céus. No final, aviadores e soldados poloneses, lutando em dois fronts, foram dizimados.
A invasão resultou numa vitória retumbante e ajudou Hitler a aumentar a crença de que era um gênio militar. Algumas áreas na Polônia ocidental foram absorvidas pela Alemanha, enquanto territórios a leste do rio Bug foram anexados pela URSS.
O regime nazista na Polônia
Os nazistas impuseram um regime brutal na parte alemã da Polônia. Hitler pregava a eliminação de qualquer um que se pusesse no caminho da dominação alemã.
Como parte do plano de limpeza étnica de Hitler, quase 5 milhões de judeus poloneses foram agrupados em guetos. A invasão da Polônia deu um aviso prévio da violência que em breve seria enfrentada por países e pessoas por todo o globo.
A ascensão do Partido Nazista
Apesar de a Segunda Guerra Mundial ter começado pela invasão da Polónia por Hitler, suas origens são de muito antes, com a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e a exigência de pagamento de reparações de guerra. As nações derrotadas perderam território e prestigio, causando um profundo ressentimento. A Alemanha foi forçada a devolver a Alsácia e Lorena à França, e todas as suas colônias ultramarinas foram anexadas pelos aliados.
A República de Weimar na Alemanha começou sua recuperação econômica nos anos 1920, mas não conseguiu sobreviver ao golpe dado pela quebra da economia dos EUA em 1929. Essa crise financeira ajudou a ascensão do Partido Nacional Socialista (Nazista), liderado por Hitler, que prometeu ao povo alemão que faria sua nação grande de novo.
Hitler lutou na Primeira Guerra Mundial, e a experiência da guerra de trincheiras, o choque da derrota e os termos do Tratado de Versalhes influenciaram o resto de sua vida. Ele desenvolveu visões extremistas baseadas num nacionalismo de extrema-direita. Quando se tornou chanceler do governo de coalizão da Alemanha em 1933 e ditador do país no ano seguinte, seguiu à risca suas políticas de nacionalismo, antissemitismo e anticomunismo.
O Lebensraum de Hitler
Segundo esse credo, Hitler embarcou numa ambiciosa política externa. Em 1935, posicionando-se contra o Tratado de Versalhes, começou um maciço programa de rearmamento. Em 1936, ocupou a zona desmilitarizada do Reno, mas nenhuma das potências interveio. Em março de 1938, anexou a Áustria à Alemanha, antes de voltar seu olhar para a parte da Tchecoslováquia que falava alemão, a Sudetenland. Políticos britânicos e franceses queriam evitar uma repetição dos horrores da Primeira Guerra Mundial e acharam que a Sudetenland não seria digna de luta. No Acordo de Munique de 29 de setembro de 1938, a Sudetenland foi entregue a Hitler em troca da promessa de acabar com sua expansão territorial. O primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain declarou que havia assegurado "paz para o futuro", mas logo depois os nazistas invadiram o resto da Tchecoslováquia em março de 1939.
Fascismo na Europa
O ditador fascista italiano Benito Mussolini também tinha aspirações a glórias no exterior. Em outubro de 1935, ele invadiu a Abissínia (Etiópia), como retaliação pela derrota dos italianos por lá em 1896. Em maio de 1936, conquistou o país sem qualquer oposição das potências ocidentais.
Uma evidência adicional da fraqueza das democracias ocidentais em confrontar a ameaça fascista foi dada no mesmo ano, quando tanto Mussolini quanto Hitler enviaram "voluntários" para lutar na Guerra Civil Espanhola, para ajudar o nacionalista general Franco em sua campanha contra os apoiadores esquerdistas da República Espanhola. Reino Unido e França nada fizeram, e a vitória de Franco em 1939 impulsionou a causa fascista.
O Ocidente intervém
A invasão da Polônia por Hitler, que começou em 1º de setembro de 1939, finalmente forçou Reino Unido e França a entrar na guerra que tentaram desesperadamente evitar. Ao decidirem que precisavam de uma postura mais dura contra Hitler após a invasão da Tchecoslováquia, as duas nações garantiram apoio à Polônia no caso de agressão alemã. Honrando sua promessa, declararam guerra à Alemanha no dia 3 de setembro, o que implicava que as colônias britânicas e francesas também entrariam no conflito: os domínios britânicos da Austrália e da Nova Zelândia declararam guerra imediatamente, a União da África do Sul as acompanhou em 6 de setembro, e o Canadá no dia 10.
A Alemanha invadiu rapidamente a Polônia com sua tática de blitzkrieg ("guerra relâmpago"), que usava uma divisão de tanques apoiada pela Luftwaffe, a força aérea alemã. Os britânicos enviaram uma Força Expedicionária (BEF) para a França, mas nem Reino Unido nem França tentaram uma ofensiva contra a Alemanha. Eles não estavam prontos para um ataque em larga escala, e alguns políticos ainda acreditavam que daria para negociar os termos de paz.
Esse período ficou conhecido como "Guerra de Mentira". Esperando ser bombardeado, o Reino Unido começou a evacuar suas crianças das grandes cidades. Foram construídos abrigos antiaéreos, e houve distribuição de máscaras de gás. A Guerra de Mentira acabou em abril de 1940, quando a Alemanha atacou e conquistou a Dinamarca e a Noruega. Um mês depois, os nazistas se voltaram contra França, Bélgica e Holanda. O Exército francês tinha uma fraca liderança e estava mal equipado. A França confiava na Linha Maginot, uma rede de fortalezas ao longo da fronteira da Alemanha, para bloquear qualquer ataque. Mas a fortificação não se estendia ao longo da fronteira franco- -belga, e os alemães simplesmente deram a volta pelo norte. Em seis semanas, a França caiu sob o violento ataque alemão.
A Batalha do Reino Unido
Só a hesitação de Hitler, que talvez tenha planejado deixar suas tropas descansar e poupá-las de um possível contra-ataque, evitou a destruição das forças britânicas antes que pudessem ser evacuadas por mar a partir de Dunkirk, Milhares de soldados aliados foram transferidos através do Canal em todos os tipos de embarcações na Operação Dinamo. Winston Churchill, o Primeiro Lorde do Almirantado e mais tarde primeiro-ministro britânico por todo o resto da guerra, disse ao seu Parlamento: "A Batalha da França acabou. Acredito que a Batalha do Reino Unido está para começar".
Mas as tentativas de Hitler de invadir o Reino Unido na Operação Leão Marinho tiveram que ser abandonadas depois que a Luftwaffe fracassou em vencer a batalha nos céus. Com a Luftwaffe triunfando tanto na Polônia quanto na França, os alemães achavam que o Reino Unido poderia ser derrotado só com o poder aéreo. No entanto, as tripulações alemãs estavam exaustas, o serviço de inteligência era fraco e o uso do radar pelo Reino Unido permitiu à Força Aérea Real (RAF) localizar os aviões invasores e decolar a tempo de enfrentar um ataque. A Batalha do Reino Unido no verão de 1940 foi o primeiro freio ao progresso de Hitler, mas o Reino Unido sozinho não poderia lutar contra uma potência que agora tinha controle sobre quase todo o continente.
O mundo em guerra
Aquilo que começou como uma guerra europeia aos poucos se tornou uma guerra mundial. Em junho de 1940, a Itália, encorajada pelo sucesso alemão, declarou guerra ao Reino Unido e à França, cumprindo os termos do acordo do Eixo feito entre Hitler e Mussolini em 22 de maio de 1939. Mas os fracassos da Itália na Grécia e no norte da África forçaram Hitler a enviar exércitos alemães para essas áreas, bem como para a Iugoslávia.
Em 7 de setembro de 1940, a Alemanha deu início ao seu primeiro grande ataque aéreo sobre Londres. O Blitz, nome dado aos bombardeios da capital inglesa, incluiu os civis na guerra e pôs uma pressão enorme sobre a indústria, os portos e o moral dos britânicos. Já que os homens tinham de se alistar no Exército, as mulheres foram usadas no trabalho das fábricas e das fazendas. O racionamento de comida começou no Reino Unido em janeiro de 1940, e as pessoas foram encorajadas a plantar sua própria comida. A Europa ocupada pelos nazistas também experimentou a falta de alimentos, cujo peso maior estava sobre as populações das áreas conquistadas.
Colaboração ou exílio
Em alguns lugares, os alemães trabalhavam junto com governos já existentes e apoiavam plenamente as administrações de fantoches, como a de Vidkun Quisling pró-nazista na Noruega e o regime de Vichy no sul da França. Liderada pelo marechal Philippe Pétain, Vichy era oficialmente neutra, mas colaborou de perto com a Alemanha, lutando contra a resistência francesa e implementando uma legislação antissemita.
A Alemanha tinha controle total sobre a Polônia e parcial dos Estados bálticos. Monarcas e políticos de mais de uma dúzia de países ocupados fugiram para o Reino Unido. Ministros poloneses abriram seus quartéis-generais em Londres, e as operações do governo da Bélgica foram transferidas para lá. A família real holandesa, sob a rainha Wilhelmina, também buscou refúgio em Londres. Quando a França foi tomada pela Alemanha, Charles de Gaulle, que se opunha ao recém-instalado governo de Vichy, tornou-se a voz da oposição francesa à ocupação alemã.
Em 1940, a maior ameaça ao Reino Unido vinha dos submarinos U-boats. Por ser uma ilha, o Reino Unido era dependente de seus navios mercantes para transportar suprimentos vitais, mas também para exportar os equipamentos para suas forças no exterior, e os U-boats alemães estavam afundando dezenas de embarcações aliadas todos os meses. Os navios mercantes viajavam em comboio para aumentar as chances de os suprimentos chegarem ao destino final de cada jornada, mas as perdas eram altas.
Lutando contra a URSS
Em junho de 1941, o Reino Unido ganhou um novo aliado quando a Alemanha invadiu a URSS na Operação Barbarossa. Hitler já olhava para a URSS como um novo território para o povo alemão. Isso também removeria qualquer futura ameaça a partir do leste, mas em essência punha em prática seu plano de acabar com o comunismo. A princípio, parecia que a Alemanha e seus aliados teriam tanto sucesso contra a Rússia quanto tiveram contra França. No inverno, a Alemanha já havia chegado a um quilômetro e meio de Moscou, e Leningrado, a segunda cidade da URSS, estava cercada.
Outro e poderoso argumento a favor da guerra no leste estava baseado na ideologia racista e no ódio de Hitler a eslavos e judeus. Conforme as tropas alemãs avançavam na Rússia, infligiam uma terrível campanha de genocídio contra os comunistas e os judeus. As tropas russas suportaram enormes dificuldades. Tanques alemães rompiam as defesas do Exército Vermelho. Os prisioneiros de guerra eram mortos a tiro ou deixados para morrer de fome. Os civis em fuga eram abatidos sem nenhuma hesitação. A dureza do inverno russo segurou um pouco os alemães, e os contra-ataques russos empurraram o front de batalha de volta várias centenas de quilômetros. Na Batalha de Moscou, do começo de outubro de 1941 a janeiro de 1942, estima-se que 650 mil soldados do Exército Soviético perderam a vida. Na primavera de 1942, os alemães retomaram sua ofensiva na URSS, empurrando de volta o Exército Vermelho e chegando perto de tomar os campos de petróleo russos.
O Pacífico e a África
Em dezembro de 1941, o Japão entrou na guerra ao atacar a frota americana em Pearl Harbor, no Havaí, como parte do seu plano de expulsar as forças americanas do Pacífico. A Alemanha que tinha um acordo tripartido com o Japão e a Itália para suprir assistência militar mútua em caso de qualquer um deles ser atacado por uma nação ainda não envolvida na guerra - imediatamente declarou guerra aos Estados Unidos. O Reino Unido agora tinha dois aliados, a URSS sob Stálin, e os EUA, liderados por Franklin D. Roosevelt. Ambos foram fundamentais na derrota das potências do Eixo. As indústrias americanas se tornaram um triunfo da produção nos tempos de guerra, dando aos americanos em combate na Europa e na Ásia as ferramentas de que precisavam para lutar contra o Eixo.
O Japão teve rápidas vitórias no Pacífico. Teve sucesso em capturar Filipinas, Malásia, Burma, Indonésia e Singapura, a principal base naval britânica no Extremo Oriente.
No norte da África, enquanto isso, uma nova tentativa de ofensiva do Eixo liderada pelo general Erwin Rommel levou os exércitos alemão e italiano a uma curta distância do Cairo e do Canal de Suez. A primeira grande vitória aliada foi no Egito. Em julho de 1942, Rommel foi parado em El Alamein; em outubro, foi forçado a bater em retirada pelo 8o Exército britânico, liderado pelo marechal de campo Montgomery.
Naquele mesmo inverno, o Exército Vermelho derrotou os nazistas em Stalingrado. Os soviéticos cercaram os alemães, forçando sua rendição em fevereiro de 1943
A mudança da maré
Numa conferência em Teerā, em novembro de 1943, os líderes aliados concordaram com a estratégia de libertar a Europa. Enquanto os russos faziam os alemães recuar no leste e os britânicos e americanos avançavam devagar pela Itália, uma enorme força de invasão aliada chegou à Normandia em junho de 1944. Onze meses depois, ela já havia chegado ao rio Elba no norte da Alemanha, enquanto as tropas russas avançavam quarteirão a quarteirão em Berlim. A Alemanha já estava sendo atacada sem parar pelos aviões bombardeiros britânicos Lancaster, sob o Comando de Bombardeios e do 8° Comando da Força Aérea dos EUA. Prevendo a derrota, Hitler se matou em 30 de abril, e a Alemanha se rendeu incondicionalmente uma semana depois.
O último ato de guerra veio em agosto de 1945, quando os EUA, após lutar ilha a ilha por todo o Pacífico, puseram fim à resistência japonesa ao lançar duas bombas atômicas, uma sobre a cidade de Hiroshima, outra sobre Nagasaki. Os efeitos das bombas foram cataclísmicos, infligindo um horror sem precedentes nas duas cidades japonesas.
União de nações
A invasão da Polônia por Hitler marcou o começo da Segunda Guerra Mundial, a maior e mais destrutiva guerra da história, no final da qual estima-se que 60 milhões de pessoas foram mortas. Assim como seus predecessores em 1918, os aliados estavam determinados a fazer desta a última guerra desse tipo.
Representantes de cinquenta nações se reuniram em 1945 para criar a Organização das Nações Unidas. Havia esperança de que isso marcaria o começo de uma nova era de entendimentos internacionais.
Em 20 de janeiro de 1942, quinze membros do Partido Nazista e autoridades alemãs se reuniram no subúrbio de Berlim chamado Wannsee para discutir a implementação da "Solução Final para a Questão Judaica" — nome secreto para a aniquilação sistemática dos judeus europeus. Durante a conferência, houve a apresentação de uma planilha com todos os judeus da Europa, país por país, bem como a meta de extermínio: 11 milhões. A reunião durou duas horas e foi objetiva e sem sentimentalismos. Depois de aprovadas a "Solução Final" e a matança dos judeus, os presentes celebraram com brandy e charutos. A Conferência de Wannsee de forma alguma foi o começo da brutalidade nazista contra os judeus. Adolf Hitler chegara ao poder em 1933, espalhando a crença de que os alemães eram uma raça ariana superior a todas as outras e seu sangue não poderia ser contaminado. Ele identificou os judeus como uma raça, não apenas um grupo religioso. Os judeus alemães foram proibidos de se casarem com não judeus alemães e sujeitos a uma crescente discriminação e segregação. Quando a Alemanha tomou a Áustria em 1938, a brutalidade nazista contra os judeus só piorou. Os judeus que queriam fugir da Alemanha não conseguiram encontrar nenhum país disposto a recebê-los.
Aumenta o ímpeto
Depois de invasão alemã da Polônia em 1939, a campanha nazista contra os judeus alcançou um novo e terrível nível. Colocados em guetos, os judeus poloneses começaram a morrer em grande quantidade, tanto de fome quanto por doenças. Quando os alemães invadiram a Rússia, em 1941, esquadrões da morte paramilitares matavam os judeus em massa nas áreas conquistadas. No começo, as vítimas eram mortas a bala, quase 30 mil de cada vez, mas depois a ss começou a matá-los com gás tóxico nas carrocerias de vans. O gás venenoso mostrou ser uma forma muito mais eficiente de fazer assassinatos em massa.
Até 1941, a liderança nazista previa resolver o "problema judeu" enviando-os para lugares distantes. Na época da Conferência de Wannsee, porém, eles estavam comprometidos a matar sistematicamente a população judaica na Europa. Seis campos exclusivos para essa matança foram construídos na Polônia. Adolf Eichmann, das forças paramilitares nazistas, a ss, conseguiu transportar os judeus de toda a Europa, incluindo França, Grécia, Hungria e Itália, para os campos. Os judeus dos guetos poloneses também eram levados para lá, para serem exterminados. Os prisioneiros chegavam a essas enormes fábricas de trem e eram mortos com gás, que saía através de chuveiros em enormes banheiros, e os seus corpos eram queimados em grandes crematórios. No campo de Beltżec, quase meio milhão de judeus foram mortos, e só se sabe de sete deles que conseguiram sobreviver. O campo da morte de Auschwitz, no entanto, tinha uma área de trabalho anexada, onde os que não eram mortos na chegada tinham de trabalhar. Os alemães precisavam de trabalho escravo para apoiar seu esforço de guerra, e isso acabou garantindo aos judeus uma chance maior de sobrevivência. Junto com outros prisioneiros — socialistas, homossexuais, ciganos e prisioneiros de guerra —, muitos judeus foram enviados a campos de concentração. Suas cabeças eram raspadas, e recebiam um uniforme que lhes tirava a identidade. Quando os aliados libertaram os campos em 1945, tiveram uma visão do inferno. Os sobreviventes eram pele e osso e estavam traumatizados.
Genocídio estatal
O Protocolo de Wannsee representa o inimaginável. Pela primeira vez um Estado moderno se comprometera com o assassinato de todo um povo. Quase 6 milhões de judeus perderam a vida, e estima-se que outros 5,5 milhões entre eslavos, homossexuais e comunistas, também foram mortos.
Nas conferências de Ialta e Potsdam, em 1945, os aliados de guerra concordaram em dividir a Alemanha derrotada em quatro zonas, cada uma administrada separadamente por França, Inglaterra, URSS e EUA. A capital, Berlim, ficava bem no interior da Alemanha Oriental, controlada pela URSS. Ela também foi dividida em quatro zonas. Em 24 de junho de 1948, a URSS impôs um bloqueio a Berlim Ocidental, cortando todas as linhas de comunicação por ferrovias, rodovias e canais para impedir que suprimentos vitais chegassem à população. Ao todo, 2,5 milhões de pessoas tiveram de decidir entre morrer de fome ou aceitar um regime comunista. O confronto entre Oriente e Ocidente tinha o potencial de levar a outra guerra mundial, mas as nações ocidentais desenvolveram um plano que usaria aviões para lançar suprimentos sobre Berlim. Nos próximos 24 meses, foram feitas 278.288 missões humanitárias aéreas sobre a cidade. No auge dessa ponte aérea, um avião aterrissava a cada três minutos.
A Guerra Fria
A era de cooperação entre os vitoriosos da Segunda Guerra Mundial durou pouco. Os países ocidentais entraram em choque com a URSS sobre os tipos de governo que seriam instalados na Europa. A URSS baniu os partidos não comunistas de todos os países da Europa Oriental e criou um bloco de estados-satélites subservientes à liderança soviética. As potências ocidentais buscavam criar democracias que excluíssem os comunistas no poder. A Alemanha continuaria dividida entre o leste comunista e o oeste democrático, um emblema da polarização da Europa. Em 1946, o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill resumiu bem a situação, ao dizer que "uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Essa profunda divisão entre o Oriente e o Ocidente se tornou conhecida como Guerra Fria, já que nunca chegou ao ponto de conflito militar direto. A luta sobre o futuro de Berlim se tornou a primeira grande crise da Guerra Fria.
Um plano para matar Berlim de fome
Em junho de 1948, os três aliados ocidentais anunciaram planos para fundir suas zonas e criar uma nova moeda. A resposta de Stálin foi rápida: seu bloqueio buscava matar Berlim de fome até que se rendesse, roubando o poder do Ocidente. As potências ocidentais não quiseram dar o controle aos soviéticos sobre o setor ocidental e decidiram ficar.
A ponte aérea de Berlim foi um sucesso, e Stálin acabou com o bloqueio em maio de 1949. Instigados pela crise de Berlim, os países europeus ocidentais formaram uma aliança defensiva - a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os Estados comunistas da Europa Oriental organizaram uma aliança rival, o Pacto de Varsóvia, em 1955.
A crise de Berlim exacerbou a animosidade entre os EUA e a URSS. Após a Segunda Guerra Mundial, a Coreia também foi dividida - os soviéticos ocuparam a zona ao Norte e os americanos ao Sul. O Norte, apoiado pela URSS, invadiu o Sul em junho de 1950. OS EUA ofereceram tropas para um exército das Nações Unidas, que passou a apoiar os sul-coreanos. A Guerra da Coreia acabou em 1953, mas ela, o conflito de Berlim e o teste soviético de sua primeira bomba atômica em 1949 criaram um clima de medo no Ocidente quanto à expansão comunista.
Por mais de um século, a Índia foi a joia da Coroa do Império Britânico, mas, na última batida da meia-noite de 14 de agosto de 1947, ela se tornou uma nação independente. Na Assembleia Constituinte da Índia, em Délhi, foi convocada uma reunião especial do parlamento à meia-noite. Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia, levantou-se e declarou a liberdade da Índia. Mas essa independência também abriu uma ferida social e geográfica que teria de ser cicatrizada.
O novo Estado indiano foi dividido em dois estados-nações: o Paquistão, com maioria muçulmana, e a Índia, de maioria hindu. O próprio Paquistão foi dividido entre o nordeste e o noroeste, já que ambos tinham maioria muçulmana. Imediatamente, milhões de muçulmanos começaram sua marcha para o Paquistão Ocidental e Oriental (este último agora conhecido como Bangladesh), enquanto milhões de hindus e sikhs se dirigiram para o recém-independente Estado da Índia. Milhares jamais conseguiram completar a jornada, e muitos morreram de fome e doenças. Por toda a Índia houve explosões de violência sectária, com os hindus e os sikhs de um lado e os muçulmanos de outro.
Em 1948, com o fim da grande migração, mais de 15 milhões de pessoas foram deslocadas, e entre 1 e 2 milhões morreram. A Índia era independente, e os muçulmanos da Índia tinham seu próprio Estado independente, mas a liberdade veio a um grande custo.
O caminho para a independência
O espírito do nacionalismo na Índia ganhou corpo em meados do século XIX e foi fortalecido em 1885 pela formação do Congresso Nacional Indiano (INC). Durante a Primeira Guerra Mundial, aumentaram as expectativas de uma maior autogovernança quando os britânicos prometeram entregar seu domínio em troca da contribuição da Índia para o esforço de guerra. Mas a Grã-Bretanha previa um processo gradual para o autogoverno, começando com a Lei do Governo da Índia (1919), que criou um parlamento onde o poder era compartilhado entre autoridades indianas e britânicas. Isso não satisfez os nacionalistas indianos, e os britânicos responderam aos protestos com uma repressão às vezes brutal.
O empurrão para a independência a partir dos anos 1920 até os 1940 foi galvanizado pelo esforço de Mohandas Karamchand Gandhi, que não apenas lançou a campanha da Satyagraha, promovendo protestos não violentos, mas também se tornou uma figura importante para milhões de seguidores. Em 1942, Gandhi liderou a campanha "Deixem a India", convocando a desobediência civil para atrapalhar os esforços britânicos na Segunda Guerra Mundial. Os britânicos de imediato prenderam Gandhi e outros líderes nacionalistas. No final da Segunda Guerra, ficou claro que os britânicos não tinham os meios necessários para derrotar a campanha nacionalista. As autoridades britânicas na Índia estavam próximas da exaustão e a própria Grã-Bretanha estava perto da bancarrota, e então concordou com a independência completa da Índia. Enquanto Gandhi e Nehru defendiam a unidade indiana, a Liga Muçulmana, fundada em 1906 para garantir os direitos dos muçulmanos, exigiu um Estado muçulmano separado. Seu líder, Mohammed Ali Jinnah, temia que os muçulmanos não conseguissem proteger seus direitos de minoria se continuassem sob o domínio dos hindus. O Congresso rejeitou a proposta, o que alimentou a violência nas ruas entre hindus e muçulmanos.
Nasce o Paquistão
Em 1947, o lorde Louis Mountbatten voou para Délhi como último vice-rei britânico da Índia. Diante das diferenças irreconciliáveis quanto à exigência de um Estado separado para os muçulmanos indianos, ele convenceu todos os envolvidos da divisão do país entre a Índia hindu e o Paquistão muçulmano.
Desde seu nascimento, o Paquistão enfrentou muitos desafios. Tinha poucos recursos e um enorme problema com os refugiados. Havia diferentes tradições, culturas e línguas, e Jinnah, primeiro governador-geral, morreu no ano seguinte. Em 1948, Índia e Paquistão lutaram por Caxemira, a única área com maioria muçulmana que ficou na Índia.
As colônias conseguem a liberdade
Após a Segunda Guerra Mundial, as potências coloniais europeias - sobretudo Grã-Bretanha, França e Holanda, além de Portugal - reconheceram que a mudança era inevitável. Algumas colônias conseguiram sua independência de forma pacífica, como Burma e Ceilão (1948), mas com frequência as potências europeias tentaram manter seus domínios.
Durante a Segunda Guerra, o Japão, já uma importante potência imperial, expulsou as potências europeias da Ásia. Depois da rendição japonesa em 1945, movimentos nacionalistas nas antigas colônias asiáticas passaram a lutar por independência em vez de voltarem ao domínio colonial europeu. O dr. Ahmed Sukarno, líder do movimento nacionalista na Indonésia, declarou a República Independente da Indonésia em 1945. Os holandeses mandaram tropas para restaurar sua autoridade, e nas duas campanhas militares que se seguiram estima-se que 150 mil soldados indonésios morreram, contra 5 mil soldados holandeses. Por fim, a pressão internacional forçou os holandeses a conceder a independência em 1949. A ocupação japonesa da Malásia durante a guerra unificou o povo malaio, aumentando sensivelmente os sentimentos nacionalistas. A Grã-Bretanha endureceu a repressão aos protestos, o que levou a ala militante do Partido Comunista malásio a declarar guerra ao Império Britânico em 1948. A Grã-Bretanha respondeu declarando um estado de emergência e desencadeou uma implacável campanha contra os "terroristas comunistas" chineses. A Malásia não conseguiu sua independência senão em 1957.
Insatisfação na África
No Quênia, a imposição do estado de emergência em 1952, em resposta ao levante dos rebeldes Mau-Maus, levou a uma grande insurgência e à prisão de dezenas de milhares de suspeitos. Em 1956, a rebelião fora esmagada, mas os métodos usados pelos britânicos para reconquistar o controle trouxeram condenação internacional. Na África Central, a descolonização também nasceu com a violência. Na Rodésia, aconteceram conflitos selvagens entre a maioria negra e a liderança branca racista e cruel, que havia declarado unilateralmente a independência em 1965. O processo de descolonização coincidiu com a nova Guerra Fria entre a URSS e os EUA. Estes temiam que, conforme as potências europeias perdessem suas colônias, os partidos comunistas apoiados pelos soviéticos pudessem assumir o poder nos novos Estados. Os EUA usaram enormes pacotes de ajuda para encorajar as recém- -independentes nações a adotar governos que fossem alinhados com o Ocidente. A URSS usou táticas parecidas, num esforço de encorajar as novas nações a se juntarem ao bloco comunista. Muitos resistiram à pressão para ser engolfados pela Guerra Fria e acabaram se juntando ao "movimento dos não aliados". Esse movimento começou com uma reunião, em 1955, em Bandung, Indonésia, e incluía 29 países africanos e asiáticos. Os países membros decidiram que não se envolveriam em alianças para defender pactos com as principais potências mundiais, focando, em vez disso, no desenvolvimento interno.
O terrorismo na França
A França estava determinada a manter seu status político na Argélia. Quando a independência não foi alcançada após a Segunda Guerra Mundial, eclodiu uma guerra entre os nacionalistas argelinos e os colonos franceses. Em 1958, a Frente de Libertação Nacional (FLN), principal grupo nacionalista, organizou vários ataques terroristas, primeiro na Argélia, depois em Paris. A crise levou de volta ao poder Charles de Gaulle, o líder da França Livre durante a guerra. Em 1960, De Gaulle, para horror dos colonos franceses, concordou em emancipar a Argélia. Depois de um longo e sangrento conflito no qual se estima que 150 mil pessoas morreram, a Argélia conquistou sua independência em 1962.
A conquista da independência
Durante os anos 1960 e 1970, muitos dos países que haviam sido colônias britânicas tornaram-se Estados independentes e se juntaram à Commonwealth britânica, formada em 1931, que se tornou a sucessora do velho Império Britânico, preservando a influência britânica na economia e na política mundial. Em 1931, a Grã- -Bretanha estendeu o status de domínio para as já autogovernadas colônias do Canadá (1867), Austrália (1901), Nova Zelândia (1907) e Newfoundland (1907). A Grã-Bretanha e seus domínios compartilhavam um status comum, e eles aceitaram o monarca britânico como chefe da Commonwealth. Em 1949, a Commonwealth Britânica se transformou na "Commonwealth", uma associação livre e igualitária de Estados independentes, mas o fim do império estava próximo. A Grã-Bretanha lutou uma guerra para manter as Ilhas Malvinas em 1982, e Hong Kong continuou um protetorado britânico até 1997.
Gandhi teve uma profunda influência na política mundial. Outros ativistas pacifistas — como Martin Luther King Jr. e Dalai Lama do Tibete — seguiram seus métodos. Por todo o mundo, uma luta de países para se separarem de nações que os dominavam continuou, como Escócia (Reino Unido), Quebec (Canadá) e Palestina, que lutaram para ser considerados nações com seus próprios direitos.
Ao nascer do sol do dia 14 de maio de 1948, a bandeira britânica foi baixada na Casa do Governo, no Monte de Evil Counsel em Jerusalém, pondo fim aos 26 anos de dominação britânica sobre a Palestina. David Ben-Gurion, antigo líder dos colonizadores judeus, ou sionistas, que fugiram para a Palestina vindos da Europa, proclamou as boas-novas da criação do Estado judeu na Palestina. Os vizinhos muçulmanos de Israel, unidos na Liga Árabe, rejeitaram a criação do Estado e reagiram com um ataque. Suas tropas saíram da Transjordânia, Egito, Líbia e Síria. Já calejados depois de tantos anos de luta protegendo seus assentamentos na Palestina, os judeus impediram o avanço árabe.
Uma terra problemática
Os judeus já imigravam para a Palestina para evitar a perseguição na Europa desde os anos 1880, crendo que ela é a terra prometida por Deus para eles. Com a Declaração de Balfour, em 1917, o governo britânico passou a apoiar um território judeu. A população de maioria árabe se opôs à reivindicação dos colonos sobre seu país. Sofrendo cada vez mais ataques, os judeus formaram grupos locais de defesa sob o nome comum de Haganah.
Aumento da violência
Em 1939, a ascensão do antissemitismo na Europa, em especial na Alemanha nazista, forçou os judeus a fugirem para Jerusalém. Diante de um influxo muito maior de colonos do que o esperado, os britânicos propuseram uma restrição ao livre assentamento dos refugiados judeus na Palestina.
Após a Segunda Guerra Mundial, aumentou a violência na Palestina, e em 1947 o governo britânico disse que encerraria seu domínio e transferiria o "problema palestino" para as Nações Unidas. O Holocausto convenceu a ONU de que os judeus precisavam de um lar, então ela resolveu dividir a Palestina numa área para os árabes (cerca de 44% do total), sendo o resto para o Estado judeu. Os judeus concordaram com o plano, mas os árabes o recusaram. Apesar disso, em 14 de maio de 1948 nascia o Estado de Israel.
A prioridade imediata de Israel foi constituir uma força de defesa confiável a partir da Haganah. Depois da Guerra dos Seis Dias (1967), Israel controlou o Sinai, Gaza, a Cisjordânia, as Colinas de Gola e Jerusalém. Enfrentou muitos ataques de seus vizinhos árabes, além das ameaças do Exército de Libertação da Palestina (OLP), um grupo paramilitar formado em 1964.
Os palestinos árabes insistiram por muitos anos na criação de um Estado independente na Cisjordânia e em Gaza. Nas zonas ocupadas, eles sofrem com péssimas condições de vida, ataques militares e restrição em ir e vir.
No outono de 1933, o Partido Comunista Chinês (PCC) estava quase extinto. Os nacionalistas haviam tomado o controle do país e lançado uma grande ofensiva contra sua base em Jiangxi, uma província no sudeste do país. Em outubro de 1934, os comunistas foram forçados a abandonar sua cidadela e romper o bloqueio dos nacionalistas. Quase 80 mil pessoas partiram para uma extraordinária jornada de 6 mil quilômetros que durou 368 dias e ficou conhecida como a Longa Marcha.
Guiados pelo seu futuro líder Mao Tsé-Tung, os comunistas enfrentaram bombardeios e tiros de metralhadora vindos dos aviões e estavam sob constante ataque das tropas nacionalistas em terra. Eles se moviam quase sempre à noite, com a unidade se dividindo em diferentes colunas para não chamar a atenção.
As montanhas do Tibete, o Deserto de Gobi e quilômetros de natureza selvagem ficavam entre eles e o seu destino: chegar à segurança no norte da China e estabelecer uma nova base comunista por lá. Centenas morreram de fome: dos 80 mil que partiram, só 8 mil sobreviveram. Longe de ser visto como um fracasso, no entanto, seu feito foi saudado como um triunfo da perseverança a garantiu a sobrevivência do PCC.
Unificando a nação
Em 1895, a China sofreu uma enorme derrota para o Japão. O sentimento antijaponês só cresceu durante a agressão do Japão contra a China na Primeira Guerra Mundial. Enormes protestos acompanharam a decisão, em 1919, segundo o Tratado de Versalhes, de entregar as antigas colônias alemãs na China para os japoneses. No bojo desses protestos, os ideais comunistas ganharam apoio, e em 1921 foi fundado O PCC. O Kuomintang, um partido nacionalista, também cresceu e em meados dos anos 1920 começou a unificar o país.
Massacre em Xangai
Os nacionalistas uniram forças com os comunistas em 1926 sob Chiang Kai-shek (Jiang Jieshi), na Expedição do Norte para reconquistar territórios controlados pelos senhores da guerra. Durante a expedição, conforme o PCC ficava mais forte, uma forte rivalidade levou a um ataque dos nacionalistas contra o PCC em Xangai, em abril de 1917. Centenas de comunistas foram presos e torturados. O massacre detonou anos de violência anticomunista, e os comunistas se retiraram para o campo em Jiangxi.
A luta pela sobrevivência
Depois da Longa Marcha, o PCC se reagrupou no norte. Os nacionalistas e comunistas foram forçados a uma aliança difícil em 1937, quando o Japão invadiu a China. Em 1939, grandes áreas no norte e no leste haviam sido conquistadas. Depois da derrota do Japão na Segunda Guerra, a tensão entre os nacionalistas e os comunistas aumentou novamente, levando a uma guerra civil em 1946. Os comunistas ganharam, depois de enormes batalhas com mais de meio milhão de tropas de cada lado. Em 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-Tung criou a República Popular da China.
A Longa Marcha foi um feito de impressionante perseverança. Para os sobreviventes, ela ofereceu um sentimento profundo de missão e contribuiu para a percepção de Mao como um líder de destino e luta revolucionária.
Em fevereiro de 1948, na época em que a Costa Dourada, uma colônia britânica na África Ocidental, já exigia independência há muitos anos, um grupo de ex-combatentes africanos desarmados marchou até o governador britânico com uma petição de queixas. Quando ordenados a parar, eles se recusaram, e a polícia abriu fogo. Em resposta, em 1949, o nacionalista Kwame Nkrumah formou o Partido da Convenção do Povo (PCP), uma organização que lutava por autogovernança. Nkrumah iniciou uma campanha de ação positiva inspirada na filosofia de Gandhi, que pregava a não cooperação não violenta na Índia contra os britânicos. As greves e os protestos que encorajavam continuaram pacíficos, mas paralisaram o país, e os britânicos concordaram com eleições no começo de 1951. O PCP conquistou 35 das 38 cadeiras, e a Costa Dourada seguiu rapidamente em direção à independência, que foi proclamada em 6 de março de 1957, quando Nkrumah se tornou primeiro-ministro da nação de Gana. Foi um momento de enorme esperança para um novo tipo de África.
As potências europeias que governaram a África empobreceram após a Segunda Guerra Mundial, e as atitudes em relação ao colonialismo começaram a mudar. As nações que lutaram contra o fascismo passaram a ter dificuldade em justificar o imperialismo.
Efeito dominó
Os eventos em Gana tiveram um impacto significativo na África Ocidental. Em 1958, a Guiné votou para se separar da França. Determinada a não ser deixada para trás, a Nigéria celebrou sua independência da Grã- -Bretanha em 1o de outubro de 1960. Em 1964, a independência também já havia chegado ao Quênia, Rodésia do Norte (Zâmbia), Nyasaland (Malaui) e Uganda.
Os franceses lutaram uma guerra de oito anos para não perder a Argélia, cuja independência só aconteceu em 1962.
Os portugueses, a primeira potência colonial europeia na África, lutaram uma longa guerra (de 1961 a 1974) para manter suas colônias de Angola, Moçambique e Guiné. O colapso da autoridade belga no Congo em 1960 levou a uma onda de violência por todo o país e ao assassinato do primeiro primeiro-ministro, Patrice Lumumba, em 1961. Muitos países africanos conquistaram a independência durante a Guerra Fria. Usados como peões entre as superpotências capitalista e comunista, aceitaram empréstimos e ajuda militar: nos anos 1970, a Etiópia recebeu uma ajuda de bilhões de dólares em equipamentos militares soviéticos. Também houve muitas guerras civis, como a guerra civil étnica em Ruanda e Zaire, além dos confrontos entre senhores da guerra em relação às doações de alimentos na Somália.
Governantes ditatoriais
Uma vez alcançada a independência, os líderes nacionalistas africanos buscaram consolidar seu poder banindo os políticos rivais. Em todo lugar havia golpes e governos militares — como o de Idi Amin em Uganda. No começo dos anos 1970, só o Zimbábue e a África do Sul ainda eram governados pela elite política branca. A corrupção, no entanto, existia em quase todos os países africanos. Nkrumah queria que Gana fosse uma referência de sucesso, mas seu pan-africanismo fracassou, e a sorte de Gana começou a mudar conforme foi se tornando, cada vez mais, uma ditadura.
Por catorze dias, da segunda feira (15/10) até o domingo (28/10) de 1962, o mundo chegou à beira do abismo da destruição nuclear. O líder soviético Nikita Khrushchev instalou armas nucleares em Cuba, e o presidente americano John F. Kennedy exigiu que fossem removidas. Os dois lados ameaçaram iniciar uma guerra nuclear. Isso não foi uma ameaça vazia: desde os anos 1950, essas superpotências haviam começado a estocar enormes arsenais nucleares. Os estrategistas articularam uma doutrina conhecida como MAD (Destruição Mútua Assegurada), que previa que, se a Rússia atacasse o Ocidente, o Ocidente garantiria a retaliação. Em poucas palavras, não haveria vencedores. Quando Kennedy tornou-se presidente, em 1961, ele herdou uma relação deteriorada com Cuba. Os EUA e Cuba tiveram uma história de cooperação mútua, mas isso mudou com a Revolução Cubana, quando, em 12 de janeiro de 1959, Fidel Castro derrubou o governo do presidente general Fulgencio Batista.
Embargo comercial
OS EUA aceitaram Castro como governante de Cuba, apesar de suas inclinações comunistas, e tinham uma grande presença econômica na ilha. No entanto, Castro começou a desmantelar o domínio americano sobre a economia, nacionalizando todas as fábricas sem nenhuma indenização. Em resposta, os EUA impuseram um fortíssimo embargo comercial, então Castro voltou-se para a URSS em busca de apoio. Temendo a expansão comunista, os EUA tentaram derrubar o governo de Cuba com a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, com a ajuda de exilados cubanos apoiados pela CIA.
Também em 1961, os EUA instalaram quinze mísseis nucleares Júpiter na Turquia, prontos para atingir a URSS caso houvesse necessidade. A Turquia compartilhava fronteiras com a URSS, e isso foi visto como uma ameaça direta ao território soviético.
Um ultimato
Khrushchev sofreu enorme pressão dos linhas-duras soviéticos para que tomasse uma atitude firme. Isso, junto com o desejo de defender seu aliado cubano da agressão americana, levou-o a instalar mísseis em Cuba capazes de transportar ogivas nucleares. Em 14 de outubro de 1962, fotografias tiradas por um avião espião U-2 mostravam instalações de armas nucleares sendo construídas pelos soviéticos. Os conselheiros militares de Kennedy queriam um ataque imediato a esses lugares, mas Kennedy defendia um bloqueio naval a Cuba para evitar a instalação de mais mísseis. Ele declarou um ultimato a Khrushchev para que retrocedesse, e avisou o mundo que a guerra nuclear era uma possibilidade iminente. Enquanto isso, Khrushchev ordenou que os capitães das embarcações soviéticas mantivessem seu curso em direção aos portos cubanos.
Desatando o nó
Uma atuação diplomática frenética, nos bastidores, levou a um acordo que desatou o nó: Kennedy concordou em remover os mísseis da Turquia em segredo, se Khrushchev desativasse todas as armas nucleares em Cuba. O líder soviético concordou — só se a América também abortasse seu plano de invadir Cuba. Em 28 de outubro, Khrushchev ordenou que seus navios dessem meia-volta — um momento crucial da Guerra Fria. As superpotências ficaram mais cuidadosas, e a ameaça de guerra nuclear começou a enfraquecer.
No dia 4 de outubro de 1957, a URSS lançou o primeiro satélite artificial do mundo, o Sputnik 1, carregando um simples radiotransmissor para informações sobre as condições no espaço, o satélite ficou em órbita até 4 de janeiro de 1958, quando reentrou na atmosfera e se desintegrou.
O Sputnik simbolizou muito mais que uma inovação científica. Ele foi um golpe sensacional dos soviéticos durante a Guerra Fria com o Ocidente. Nenhum tiro foi dado, mas as ramificações militares e politicas foram imensas. Os americanos se sentiram mais vulneráveis a um ataque nuclear. A URSS agora era uma superpotência, chocando os EUA e dando a largada na "corrida espacial", uma competição frenética entre as nações por superioridade tecnológica.
Os EUA correm atrás
O Sputnik foi um evento de grande mídia que lançou a "Era Espacial", capturando a imaginação coletiva do mundo. Houve um boom de livros de ficção científica, com filmes e séries de TV falando sobre o espaço. Em 1958, os EUA criaram a Nasa, a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço, mas só puderam assistir, com inveja, quando os soviéticos puseram Yuri Gagarin em órbita em 1961, o primeiro humano a ir ao espaço.
Os EUA Correram atrás ao enviar John Glenn ao espaço em 1962, e em 1967 haviam construído um foguete, o Saturn V, poderoso o suficiente para chegar até a Lua. Em 1969, doze anos depois do lançamento do Sputnik 1, o americano Neil Armstrong deixou a Apollo 11 e se tornou o primeiro homem a andar na Lua.
A Marcha de Washington em 28 de agosto de 1963 reuniu I quase 250 mil pessoas — a maioria afro-americanas — na capital do país. Elas reivindicavam igualdade, fim da segregação racial e acesso a todos os americanos a uma boa educação, moradia digna e empregos que pagassem um salário decente.
Um dos oradores foi o reverendo Dr. Martin Luther King Jr., que havia sido preso em abril daquele ano nos protestos antissegregação no Alabama. "Eu tenho um sonho", clamou King, começando seu famoso discurso.
Reivindicações de igualdade
A abolição da escravidão depois da Guerra Civil Americana de 1861-1865 fez com que escravos emancipados pedissem cidadania americana. No entanto, se por um lado não eram mais escravos, por outro não eram iguais aos brancos e se sujeitaram a discriminação, segregação e ataques racistas violentos. Nos anos 1950, diversos grupos afro-americanos reagiram à discriminação com uma política de não violência. Nos anos 1960, as marchas pelos direitos civis em Birmingham, Alabama, lideradas por King, foram cruciais para a campanha. Alguns extremistas, sobretudo no Sul, reagiram com abomináveis atos de violência.
Depois da Marcha de Washington, o Congresso dos EUA aprovou a Lei dos Direitos Civis de 1964, proibindo a discriminação, e a Lei dos Direitos ao Voto de 1965. Mais de meio século depois, porém, muitas das metas estabelecidas naqueles dias ainda estão fora do alcance dos negros americanos.
No pós-Segunda Guerra Mundial, os estados do sudeste asiático lutaram para criar sistemas políticos estáveis, e a região acabou enredada na Guerra Fria entre os EUA e a URSS. Em poucos lugares a linha de batalha ficou tão claramente definida como no Vietnã. Depois de o domínio colonial francês ter chegado ao fim em 1954, o Vietnã foi dividido, na Conferência de Genebra, entre o Vietnã do Norte, com um governo comunista sob a liderança do líder revolucionário comunista vietnamita Ho Chi Minh, e o Vietnã do Sul, apoiado pelos EUA. Em 1960, Ho Chi Minh, com o apoio das superpotências comunistas Rússia e China, criou a Frente de Libertação Nacional (NLF) no Vietnã do Sul e começou uma guerra de guerrilha para unir o país sob o domínio comunista.
A tensão cresceu rapidamente até 1964. Em agosto daquele ano, o destróier Maddox da Marinha americana estava operando na costa do Vietnã do Norte, no Golfo de Tonkin, monitorando sinais de radar e rádio das instalações na costa do Norte para dar apoio aos ataques feitos pela Marinha sul-vietnamita. O Vietnã do Norte, achando que o Maddox teria participado de alguns assaltos em sua costa, lançou um ataque de torpedos. Dois dias depois, o Maddox reportou uma vez mais estar sob ataque. Esse segundo ataque nunca foi confirmado, mas o presidente americano Lyndon B. Johnson, reconhecendo que o Vietnã do Sul não conseguiria dar conta sozinho de um movimento de guerrilha liderado pelos comunistas, que já controlavam boa parte do país, usou a disputa para conseguir aprovar, no Congresso, a Resolução do Golfo de Tonkin. Tal lei lhe permitia tomar quaisquer medidas necessárias para lidar com ameaças a forças dos EUA no sudeste asiático.
Intervenção dos EUA
OS EUA temiam que, se o Vietnã se tornasse um regime comunista, outros países da região o seguissem. Usando a Resolução do Golfo de Tonkin, Johnson encheu o Sul de tropas e bombardeou o Vietnã do Norte pelo ar. Um número enorme de civis foi morto, mas, apesar de sua superioridade tecnológica, eles fracassaram em esmagar as guerrilhas vietcongues. As tropas americanas sofreram enormes baixas e acabaram desmoralizadas.
O espectro do comunismo
A Guerra do Vietnã foi a primeira televisionada na história dos EUA. Conforme o público assistia ao desenrolar dos terríveis eventos, um número cada vez maior deles passou a se opor ao conflito. Por todo o mundo, movimentos pacifistas organizaram grandes manifestações contra a guerra.
A Ofensiva Tet, dos comunistas em 1968, uma série de violentos ataques em mais de cem cidades e vilas no Vietnã do Sul, esmagou a esperança dos americanos de um fim iminente para o conflito, então as conversações de paz começaram em 1969. Em março de 1973, as últimas tropas americanas foram retiradas do Vietnã, e em abril de 1975. o Vietnã do Sul foi tomado pelo Norte.
As autoridades americanas interpretaram errado os movimentos nacionalistas como se fossem inspirados no comunismo soviético. No fim das contas, no entanto, o que os EUA temiam nunca chegou a acontecer, e, com exceção de Laos e Camboja, a região continuou fora do controle comunista.
Em 15 de abril de 1961, uma tropa de exilados cubanos começou uma invasão de Cuba para derrubar o regime esquerdista de Fidel Castro e substituí-lo por um mais aberto aos interesses americanos. Oito bombardeiros americanos B-26 decolaram da Nicarágua para destruir a força aérea de Castro no chão. O ataque aéreo parecia ter tido sucesso, mas pelo menos seis caças de Castro sobreviveram. No dia seguinte, a força aérea de Castro afundou dois navios cheios de suprimentos vitais. Nas primeiras horas de 17 de abril, um grupo de quase 1.400 exilados cubanos cujo codinome era Brigada 2506 lançou um ataque anfíbio à costa sul de Cuba, na Baía dos Porcos. Eles foram rechaçados pelas forças de Castro e ficaram sem munição. Levaram não mais que três dias para exterminar a invasão dos exilados.
Castro tem de sair
Após a Segunda Guerra Mundial, a América Latina tornou-se um campo de batalha, por procuração, de dois sistemas ideológicos em conflito: o capitalismo e o comunismo. Os EUA estavam determinados a erradicar o comunismo e apoiar ditadores de direita com regimes antirreformistas em países como Cuba, Honduras e Guatemala.
Durante os anos 1950, a corrupção e a brutalidade no governo cubano de Batista forçaram uma lenta retirada do apoio americano. Quando Castro derrotou Batista em 1959, o governo dos BUA tinha receio das inclinações comunistas do líder revolucionário. Em 1960, Castro já havia nacionalizado todos os interesses americanos em Cuba sem indenização e rompido com as relações diplomáticas. Para proteger seus ativos econômicos e derrotar o comunismo, as autoridades americanas decidiram que Castro teria de deixar o poder.
Em menos de um ano após Castro tomar o poder, vários grupos contrarrevolucionários foram formados por exilados cubanos em Miami. A Agência Central de Inteligência (CIA) americana se interessou por esses grupos, oferecendo-lhes treinamento e equipamentos para que derrubassem o governo de Castro. O fracasso na Baía dos Porcos se deveu, em grande parte, a um péssimo planejamento e à relutância de Kennedy em se envolver demais com a trama.
Manifestações pró-Cuba
Castro desenvolveu uma aliança mais próxima com a URSS, seu aliado contra a agressão americana, permitindo-lhe exportar seus ideais por toda a América Latina. A invasão provocou manifestações pró-Cuba e antiamericana do Chile ao México. Castro apoiava ativamente a guerra de guerrilha, e milhares de guerrilheiros latino-americanos foram para Cuba em busca de treinamento. A revolução em Cuba inspirou levantes parecidos durante os anos 1960 e 1970 na Nicarágua, Brasil, Uruguai e Venezuela, onde havia insatisfação com o analfabetismo, desigualdade e pobreza.
A América Latina continuou a preocupar a política externa americana. OS EUA intervieram em diversas ocasiões tentando conter o comunismo. Eles apoiaram golpes militares no Chile em 1973, na Argentina em 1976 e, temendo uma vitória comunista, financiaram os militares de El Salvador no final dos anos 1970 para dar força a seu regime. Em 1983, os EUA invadiram Granada e, em 1989, o Panamá.
A Revolução Cultural foi um dos períodos mais sombrios na história chinesa. Desde que assumiu o poder em 1949, o líder do Partido Comunista Mao Tsé-Tung não conseguiu criar sua China ideal nem assegurar seu poder. Para alavancar sua relevância e despertar o fervor revolucionário, ele decide purgar qualquer oposição e transformar capitalistas e intelectuais em proletários - trabalhadores comuns. Implantou a Revolução Cultural, que atacaria os "Quatro Velhos": velhas ideias, velhos hábitos, velhos costumes e velha cultura. Esquadrões de jovens comunistas, incitados por Mao e conhecidos como a Guarda Vermelha, aterrorizaram intelectuais, burocratas e professores. Algo próximo de 36 milhões de pessoas foram perseguidas e quase 1 milhão morreram no tumulto, que durou até 1976.
O Grande Salto Adiante
Depois de criar a República Popular da China em 1949, Mao lançou reformas para transformar a sociedade semifeudal e essencialmente agrícola da China num estado socialista industrializado. No final dos anos 1950, numa aposta para alcançar o rápido crescimento econômico, implementou o Grande Salto Adiante. A produção industrial disparou com a fabricação de aço e carvão, a rede ferroviária dobrou e mais da metade de toda a terra chinesa estava irrigada em 1961.
Porém esse desenvolvimento trouxe consigo um terrível custo. Mao transformou a China rural numa série de comunas agrícolas nas quais os camponeses compartilhavam terra, animais, ferramentas e cultivos. As autoridades confiscavam grandes volumes de grãos das comunas para alimentar os trabalhadores urbanos, e isso, com uma série de desastres naturais, levou à fome em grande escala. As consequências foram impressionantes: estima-se que 45 milhões de pessoas tenham morrido.
Uma nova política externa
Depois da Revolução Cultural, Mao precisava da expertise americana para restaurar a China, e os EUA queriam um aliado contra a URSS. Em 1972, o presidente americano Richard Nixon viajou para Pequim para se encontrar com Mao. Quando Mao morreu em 1976, a China havia se transformado num grande produtor de petróleo, além de deter o poder nuclear.
Deng Xiaoping, que dirigiu a China de 1978 a 1997, estava disposto a usar as ideias capitalistas para focar no crescimento econômico. Mas se por um lado ele tomou novas e abrangentes medidas, como convidar firmas estrangeiras para investir na indústria chinesa e apoiar o desenvolvimento tecnológico, por outro, resistia à pressão para fazer reformas democráticas.
No começo do novo milênio, o crescimento econômico da China foi espetacular. Em 2001, o país foi aceito na Organização Mundial de Comércio, e em 2008 foi palco dos Jogos Olímpicos em Pequim. Alguns economistas preveem que, em 2026, a China terá um produto interno bruto (PIB) maior que o do Japão e da Europa Ocidental.
Depois da morte de Mao, o Partido Comunista Chinês condenou a Revolução Cultural como um desastre. No entanto, conforme o país experimentava um período de crescimento econômico sem paralelos, um sentimento de nostalgia dos ideais de Mao, focado no povo e na autossuficiência, cresceu entre os camponeses e membros da classe trabalhadora urbana. Hoje o legado de Mao continua deixando uma grande sombra sobre uma China modernizada.
Em 26 de julho de 1956, o líder egípcio coronel Gamal AbdelNasser discursou para uma multidão na cidade de Alexandria declarando a nacionalização do Canal de Suez, o caminho marítimo por onde a maior parte do petróleo que chegava ao Ocidente tinha de passar. Para os egípcios, a nacionalização simbolizava a libertação do país do domínio imperialista britânico, ao qual havia se submetido desde os anos 1880. Em resposta à ousada iniciativa de Nasser, um plano secreto foi gestado por Inglaterra, França e Israel. A França queria a queda de Nasser por causa de seu apoio aos insurgentes argelinos contra o domínio colonial francês na Argélia. Israel tinha muitas razões para derrubar Nasser, incluindo a proibição egípcia de passagem no canal de qualquer barco com bandeira israelense. Os três conspiraram que Israel atacaria o Egito, e Inglaterra e França interviriam alguns dias depois, fingindo ser pacificadores e tomando o controle do canal. Em 26 de outubro de 1956, os israelenses começaram o ataque. Tropas britânicas e francesas invadiram em 31 de outubro, mas enfrentaram pressões diplomáticas imediatas para um cessar-fogo. Os EUA, que estavam tentando cultivar boas relações com os Estados árabes, ficaram chocados com a invasão anglo- -francesa, achando que seria uma ameaça à estabilidade de toda a região. O presidente Dwight Eisenhower forçou um cessar-fogo através de uma resolução nas Nações Unidas, e as tropas britânicas e francesas tiveram de fazer uma humilhante retirada.
Dividindo a terra
O forte sentimento antiocidental no Oriente Médio vinha de séculos, alimentado pelo crescente envolvimento do Ocidente na região. O colonialismo nos anos 1800 e a divisão do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial foram amargas humilhações para pessoas que achavam que sua religião, o islã, era a mais elevada forma de revelação divina. Em 1948, a seção da Palestina para formar Israel dividiu a região em dois Estados, um árabe, outro judeu, e foi veementemente rejeitada pelos árabes israelenses e enraiveceu outras nações árabes. Os exércitos regulares dos Estados árabes — incluindo Iraque, Líbano, Síria, Transjordânia, Arábia Saudita, Iêmen e Egito — atacaram Israel na primeira guerra árabe-israelense, em maio e junho de 1948. A guerra acabou em derrota para os árabes e desastre para os palestinos: mais da metade dos árabes do país foram expulsos como refugiados e perderam qualquer chance de ter um Estado próprio.
Planos ambiciosos
O Egito continuou com sua postura beligerante em relação a Israel ao fechar o Canal de Suez para seus navios. Quando Nasser derrubou o regime do rei Farouk em 1954, exilando-o, importou armas da URSS para fortalecer seu arsenal para futuros confrontos com Israel. A Inglaterra concordou em retirar suas tropas da zona de Suez em junho de 1956, mas, quando as últimas tropas deixaram o Egito, Nasser ainda dependia de fundos da Inglaterra e dos EUA para financiar seus planos ambiciosos de desenvolver o Egito. Isso incluía o projeto da Represa de Assuã no Nilo. Nasser ficou bravo quando Inglaterra e EUA retiraram sua oferta de empréstimos para ajudá-lo a pagar pela represa. Os britânicos e os americanos, voltaram atrás por causa da associação de Nasser com os soviéticos e suas infindáveis diatribes contra o Ocidente. Nasser sentiu-se insultado e de imediato nacionalizou o Canal de Suez. A ação foi popular no Egito, já que o canal era uma fonte de orgulho árabe.
Nasser foi um modernizador secular que defendia a separação entre a religião e a vida política, acreditando no selo da modernidade árabe, mas isso não foi universalmente aceito. A Irmandade Muçulmana, fundada no Egito em 1928, argumentava que o islã deveria ter um papel central no governo. Após repetidas exigências a favor da aplicação da lei da sharia - um sistema jurídico baseado no islã — e uma tentativa de assassinato contra Nasser, a organização foi enfim banida em 1954.
Em 1967, os países árabes sofreram uma esmagadora derrota nas mãos de Israel na Guerra dos Seis Dias, na qual Israel tomou o Sinai do Egito, as Colinas de Golã da Síria e a Cisjordânia e Jerusalém Oriental da Jordânia, o que representava que o país passara a ser uma força de ocupação. Nos anos 1970 e 1980, o conflito árabe-israelense acabou se movendo em direção à paz: em 1979, o acordo de paz entre Israel e Egito acabou com uma guerra de trinta anos. A ascensão do Exército de Libertação da Palestina e de outros grupos palestinos atacando Israel, no entanto, bem como a invasão israelense do Líbano, em 1982, onde muitos desses grupos tinham suas bases, continuamente desestabilizaram a frágil paz.
A Guerra Irã-Iraque
Assim como muitos países no Oriente Médio, o Iraque moderno foi formado a partir das ruinas do Império Otomano no pós-Primeira Guerra Mundial. O Iraque era uma terra dividida por linhas étnicas entre árabes e curdos e por linhas sectárias entre muçulmanos sunitas e xiitas, sendo este último o grupo majoritário. Saddam Hussein, um sunita, tornou-se líder em 1979, suprimindo as etnias curda e xiita com enorme brutalidade. Ele, assim como Nasser no Egito, abraçou o nacionalismo árabe e governou o Iraque como um Estado secular.
Em 1979, eventos no Irã inspiraram islamitas por todo o Oriente Médio. O estilo de vida secular ocidental foi abolido numa revolução islâmica na qual o xá, apoiado pelos EUA, foi deposto. O novo regime, sob o aiatolá Khomeini, um muçulmano xiita, baseou suas leis e sua ideologia nos estritos ensinamentos do Corão. Saddam sentiu-se ameaçado pela revolução islâmica e por um possível levante xiita em seu próprio país e por isso invadiu o Irã em 22 de setembro de 1980, sob pretexto de uma disputa territorial sobre Shatt al-Arab, uma linha-d'água entre os dois países.
A invasão deu início a uma guerra brutal de oito anos que devastou os dois países e aumentou as tensões no Oriente Médio. O principal aliado do Irã era a Síria, mas Líbia, China e Coreia do Norte também enviaram armas. O apoio ao Iraque veio sobretudo dos países do Golfo Árabe, que viam o Irã como um о grande perigo à sua segurança. A Arábia Saudita e o Kuwait deram bilhões de dólares em empréstimos. No fim, o Irã foi derrotado, e o Iraque, entupido de armas fornecidas por várias nações ocidentais, incluindo Inglaterra, França e Estados Unidos, invadiu o Kuwait, país rico em petróleo, em 1990. A ONU exigiu a retirada, mas Saddam anunciou que o Kuwait havia sido anexado pelo Iraque. Os EUA, Com apoio. de uma coalizão de forças, enviaram tropas durante a Primeira Guerra do Golfo (1990-1991) e tiraram Saddam do poder.
Os ataques de 11/9
O continuo apoio americano a Israel levou a profundas mágoas entre os islamitas. Para eles, os EUA capitalista e secular, sedento por petróleo, simbolizava tudo que havia de errado no Ocidente, e ataques terroristas em alvos americanos passaram a ser mais frequentes. A Al-Qaeda levou a cabo o mais chocante deles, em 11 de setembro de 2001, contra quatro alvos nos Estados Unidos, incluindo o World Trade Center em Nova York.
Em resposta aos ataques de 11/9, uma intervenção internacional bem- -sucedida e liderada pelos EUA derrubou o regime talibã no Afeganistão, que os americanos acreditavam ter dado cobertura a Osama bin Laden e à Al-Qaeda. Depois de 11/9, o presidente Bush declarou "Guerra ao Terror" e, em 2002, com ajuda do governo britânico, atacou o Iraque com a premissa de acabar com as "armas de destruição em massa" consideradas uma ameaça à segurança nacional. A intervenção ocidental no mundo muçulmano aumentou a crença entre os islamitas de que o Ocidente era o inimigo do islã.
A Primavera Árabe
Os ataques de 11/9 foram inspirados por uma ideologia e uma crença radicais que diziam que os problemas fundamentais que oprimiam árabes e muçulmanos poderiam ser resolvidos, com o ataque a potências estrangeiras, vistas como opressoras do isla. Em 2011, jovens árabes - olhando para dentro de seus países e culpando seus próprios líderes por décadas de decadência política, econômica e cultural estavam no centro dos levantes por todo o mundo árabe. Em seu cerne, aquilo que ficou conhecido como Primavera Árabe era a tentativa de uma nova geração de mudar a ordem do Estado. Uma série extraordinária de levantes pró- -democracia, a Primavera Árabe causou enormes transtornos no Oriente Médio e no norte da África. Ela começou na Tunísia em 17 de dezembro de 2010, quando um vendedor ateou fogo a si mesmo em protesto contra a brutalidade policial. Manifestantes por toda a Tunísia exigiam democracia, e o presidente Zine el Abidine fugiu do país em 14 de janeiro. A desordem se espalhou para a vizinha Argélia, onde a insatisfação era pelo alto desemprego.
Em 25 de janeiro, milhares de manifestantes tomaram as ruas do Egito, e, depois de dezoito dias de protesto, o presidente Hosni Mubarak renunciou. Em meados de fevereiro, a insatisfação civil se espalhou para o Bahrain, onde foi brutalmente sufocada, e para a Líbia. A resposta violenta de Muammar al-Gaddafi aos dissidentes levou à guerra civil. Uma coalizão internacional liderada pela Otan lançou uma campanha de ataques aéreos focada nas forças de Gaddafi, que acabou morto em outubro de 2011.
Novos levantes aconteceram na Jordânia, Iêmen e Arábia Saudita, mas a pior violência contra os civis foi vista na Síria, onde o presidente Bashar al-Assad prometeu reformas mas usou da força para esmagar os dissidentes - uma atitude que só endureceu a resolução dos manifestantes. Em julho de 2011, centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas, e o país entrou em guerra civil. Em agosto de 2015, as Nações Unidas reportaram que mais de 210 mil pessoas haviam sido mortas no conflito. Aproveitando-se do caos na região, o chamado Estado Islâmico (também conhecido como Isis ou Isil), grupo muçulmano extremista que substituiu a Al-Qaeda, assumiu o controle de enormes fatias do território ao norte e a leste da Síria, bem como no vizinho Iraque.
Instabilidade no Oriente Médio
A Crise de Suez foi o fim de uma era na política do Oriente Médio e o começo de outra. Ela marcou o humilhante fim da influência imperial por dois países europeus, Inglaterra e França, cujo papel foi rapidamente assumido pelos EUA. Estimulou o nacionalismo árabe e abriu uma era de guerras árabe-israelenses e de terrorismo palestino.
Nos tempos modernos, o Oriente Médio nunca foi visto como tão instável. Guerreia-se por religião, etnia, território, política e comércio, e esses conflitos levaram à pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, com milhões de pessoas fugindo da anarquia e do fanatismo.
Por décadas, o Muro de Berlim, que separava Berlim Ocidental da Oriental, serviu de lembrança da Guerra Fria, a amarga divisão entre o comunismo soviético e o capitalismo ocidental. Em 9 de novembro de 1989, o governo da Alemanha Oriental suspendeu as restrições a viagens, e milhares de pessoas começaram a se dirigir para o muro. Os guardas de fronteira da Alemanha Oriental não intervieram em face da multidão em êxtase. Em 10 de novembro, em cenas extraordinárias, os soldados de ambos os lados ajudaram os berlinenses a romper o muro. Nos próximos dois dias, mais de 3 milhões de pessoas cruzaram a fronteira.
Governando o Bloco Oriental
No final da Segunda Guerra Mundial, a URSS havia banido os partidos anticomunistas em todos os países do Leste Europeu e criou um bloco de estados-satélites sob a liderança soviética, reprimindo cruelmente qualquer oposição. No outono de 1956, a Hungria se levantou contra seu governo comunista, só para ser esmagada por tanques soviéticos, e em 1968 a URSS invadiu a Tchecoslováquia para remover um governo que considerava liberal demais.
Nos anos 1960, a Alemanha ainda estava dividida entre Oriental e Ocidental, e sua antiga capital, Berlim, dividida entre a Ocidental, operada pelos aliados, e a Oriental, controlada pelos soviéticos. Cada uma tinha sua própria administração alemã: democrática no Oeste, comunista no Leste. Milhares de alemães-orientais fugiram para o Ocidente, causando uma debandada de seus trabalhadores mais qualificados. Em 13 de agosto de 1961, o governo isolou Berlim Oriental da Ocidental com uma cerca que, com o passar do tempo, se tornou uma barreira fortificada dividindo a cidade, a nação, famílias e amigos.
Em 1985. Mikhail Gorbachev foi escolhido secretário-geral do Partido Comunista soviético. Buscando uma melhor relação com o Ocidente, ele propôs novas reformas: a glasnost ("abertura" política) e a perestroika ("reestruturação" econômica liberal). De forma crítica, revogou a proibição sobre os países do Bloco Oriental para que pudessem reformar seus sistemas políticos.
O colapso do comunismo
Sem a ameaça da intervenção militar soviética, os cidadãos de todos os países do Bloco Oriental protestaram pelo fim do domínio comunista. Em junho de 1989, o Solidariedade da Polônia, de início um sindicato clandestino, foi eleito para liderar um governo de coalizão. Conforme o impulso para reformas ganhava força, o governo da Alemanha Oriental declarou que seus cidadãos poderiam visitar Berlim Ocidental através de qualquer cruzamento na fronteira, inclusive o Muro de Berlim.
A queda do Muro de Berlim foi um evento monumental, marcando uma era que viu o fim da Guerra Fria e a dissolução da URSS. Também permitiu a milhões de pessoas viajar mais livremente, e economias antes sufocadas por toda a Europa Oriental e na antiga URSS se abriram para o mundo. Muitos antigos países comunistas foram bem-vindos à Otan e se juntaram à União Europeia.
O mundo mudou seu curso em 1989. O comunismo estava morto no Leste, e uma Alemanha reunificada estava pronta para assumir seu lugar no centro da Europa.
Em 1968, uma pequena manifestação por melhoras no campus da Universidade de Nanterre, num subúrbio de Paris, França, se espalhou pelo país. Em março, a tropa de choque da polícia foi chamada para reprimir o protesto, e centenas de estudantes invadiram Nanterre. Em maio, o levante mudara-se para o centro de Paris, e o número de manifestantes cresceu para milhares. A tensão se espalhou pelas ruas, conforme manifestantes clamavam por mudanças sociais revolucionárias e o fim do governo. Em poucos dias, 8 milhões de trabalhadores entraram numa greve que paralisou a França.
Um ano impressionante
A jornada da França até chegar perto da revolução é o evento mais significativo de 1968, um ano de protesto global. Muitos eram contra a Guerra do Vietnã, mas muitas pessoas também protestaram contra regimes opressores. A política ficou mais radical: a "saída do armário" de minorias sexuais, a liberação das mulheres e a igualdade de gênero vieram à tona. Nos EUA, grupos como os Panteras Negras lutavam por igualdade racial; e o Movimento dos Estudantes Alemães, liderado por Rudi Dutschke, se opunha à velha geração que havia participado da Segunda Guerra Mundial.
Os protestos franceses perderam fôlego, já que as eleições mostraram um apoio enorme ao governo. Os movimentos revolucionários de 1968 acabaram fracassando, mas inspiraram uma geração a questionar a autoridade. Em seu bojo houve um aumento de grupos terroristas de esquerda que usavam bombas e sequestravam pessoas enquanto diziam lutar por justiça social.
Nelson Mandela foi sentenciado à prisão perpétua em 1964 por seu papel nos protestos antiapartheid em Sharpeville, África do Sul. Mandela era um membro militante do Congresso Nacional Africano (ANC), criado para combater o apartheid, um sistema de segregação racial imposto pelo governo dominante branco. Na prisão, Mandela virou um símbolo da luta por igualdade racial. Quando solto, em 1990, foi saudado com euforia.
Quando o Partido Nacional foi eleito em 1948, os brancos africâneres implementaram uma brutal política de apartheid - os negros foram segregados e não podiam votar. Muitos no movimento antiapartheid defendiam protestos não violentos, o que ajudou a atrair brancos sul-africanos à sua causa. O apartheid foi condenado por todo o mundo, e duras sanções internacionais foram impostas.
Um novo começo
Em 1990, o presidente F. W. de Klerk espantou o mundo ao suspender as restrições ao ANC. Vendo a necessidade de mudanças fundamentais, ele havia participado de negociações secretas por dois anos para acabar com o sistema de apartheid.
Houve eleições multiraciais em 1994, e Mandela ganhou com larga margem. Sua libertação foi um dos principais eventos do final do século XX, acabando com trezentos anos de dominação branca na África do Sul. O país virou uma democracia racial sem a guerra civil sangrenta que muitos temiam.
O cerco de Sarajevo, Bósnia, foi uma das mais marcantes tragédias na guerra civil da Jugoslávia (1991-2002). Durante o cerco de 44 meses, os suprimentos de comida e eletricidade da cidade foram cortados, e a população civil foi bombardeada pelos sérvios bósnios nacionalistas. Milhares de bósnios muçulmanos foram atacados e mortos.
Uma nova onda de nacionalismo
A Iugoslávia era composta de seis repúblicas socialistas: Croácia, Montenegro, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia e Sérvia, cada uma com seu primeiro-ministro e Constituição. O controle geral da Iugoslávia era mantido por um presidente, o líder comunista Josip Broz Tito de 1953 a 1980.
Depois da dissolução da URSS, em 1991, um reavivamento nacionalista tomou conta da Europa Oriental. A reivindicação de independência pela Croácia e Eslovênia teve oposição da Sérvia, e Vulkar, no leste da Croácia, foi destruída pelo Exército iugoslavo sob a liderança do sérvio Slobodan Milošević. Quando a Bósnia também declarou independência em 1992, a violência se intensificou. Os sérvios bósnios queriam criar um Estado sérvio etnicamente puro e separado, a Republika Srpska, tomando um pedaço da nova República da Bósnia e Herzegovina. Sérvios bósnios nacionalistas, apoiados pela vizinha Sérvia, lançaram uma campanha para expulsar os não sérvios e, durante o cerco de Sarajevo, lançaram seus ataques contra a população bósnia muçulmana, que era maioria.
A Guerra da Bósnia acabou em 1995, mas a luta continuou em Kosovo, onde a etnia albanesa iniciou um movimento separatista contra os sérvios. Um nacionalismo baseado em etnias também levou aos sangrentos pogroms antiarmênios na região de Nagorno-Karabakh e em Baku, capital do Azerbaijão. Na Geórgia, a violência explodiu entre os georgianos e os abecazes.
As guerras na Iugoslávia trouxeram à tona a questão da responsabilidade da comunidade internacional para resolver disputas que ameaçassem uma instabilidade maior ou causassem sofrimento humano inaceitável ou violações de direitos.
Em 11 de setembro de 2001, um grupo de islamistas extremistas lançou um devastador ataque contra os EUA. Dois aviões sequestrados colidiram com o World Trade Center em Nova York; outro atingiu o Pentágono, em Washington, DC; e um quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3 mil pessoas foram mortas.
As sementes do extremismo
O 11/9 não foi o primeiro grande ataque terrorista em solo americano por extremistas islâmicos. Em 26 de fevereiro de 1993, uma bomba explodiu no World Trade Center, posta por homens que se julgava terem conexões com a Al-Qaeda, uma organização militante islamista. Alguns muçulmanos haviam sido radicalizados e adotaram o terrorismo internacional durante seus conflitos contra Israel. Em 1979, a invasão soviética do Afeganistão levou a uma mobilização mundial de militantes muçulmanos para combater o invasor. Nessa época, Osama bin Laden formou a Al-Qaeda. Relatórios de segurança sugeriam que ele era o organizador por trás do 11/9. Ele foi morto em 2011. A guerra civil na Síria desde 2011 e o vácuo de poder deixado pelas forças americanas no Iraque levaram ao surgimento do Isis, o Estado Islâmico do Iraque e da Síria, que assumiu o controle de várias cidades da região.
Os eventos do 11/9 marcam o maior ataque terrorista de todos os tempos em solo americano. Ataques subsequentes em Londres, Madri e Paris, planejados por uma rede difusa de grupos terroristas regionais, adicionaram uma dimensão assustadora à ameaça do terrorismo islâmico.
O primeiro site da internet recebeu o nome de "World Wide Web" e dava informações básicas sobre o projeto da World Wide Web e como criar páginas na rede. Ele foi construído por Tim Berners-Lee, um cientista da computação britânico da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) em Genebra, Suíça. Berners-Lee estava interessado em facilitar a troca de ideias entre os cientistas em universidades e institutos de pesquisa, e apresentou sua ideia de uma rede mundial de computadores compartilhando informações em 1989. Seu site entrou no ar em 1991 e foi acessado por um pequeno grupo de colegas pesquisadores no Cern. O mais importante foi que Berners-Lee convenceu o Cern de que a World Wide Web deveria ser disponibilizada ao mundo como um recurso gratuito.
Apesar de ter revolucionado o mundo dos computadores e das comunicações como nada antes, a World Wide Web só foi possível pela junção de várias tecnologias já existentes: telefone, televisão, rádio e internet.
A internet
O lançamento pela URSS do satélite Sputnik 1, em 1957, estimulou o Departamento de Defesa dos EUA a considerar formas de comunicação no caso de um ataque nuclear. Isso levou à formação da Arpanet (Rede de Agência de Pesquisas em Projetos Avançados) em 1969, um sistema, a princípio, com quatro computadores. Em meados de 1980, essa rede crescente de computadores interconectados passou a ser conhecida como internet. Tanto a internet quanto a World Wide Web eram limitadas às organizações acadêmicas e de pesquisa.
Foi só com o lançamento em 1993, de um navegador da web fácil de ser usado chamado Mosaic que a web passou a ser usada por um público mais amplo. O Mosaic era capaz de mostrar tanto figuras quanto texto, e os usuários podiam seguir links na web simplesmente clicando sobre eles com o mouse. A web tornou-se sinônimo de internet, mas elas são diferentes entre si. A World Wide Web facilitou a navegação da internet e ajudou a fazer desta um modo efetivo de comunicação.
A revolução na computação
O surgimento, em 1981, do computador pessoal 5150 da mм trouxe uma revolução na computação nas casas e nos escritórios. Menores e mais baratos que os grandes computadores comerciais, ele e seus sucessores tinham acesso à internet e e-mail. Com os computadores pessoais, a internet viu um grande crescimento. As primeiras ferramentas de busca começaram a aparecer no começo dos anos 1990. O Google, que hoje é quase sinônimo de busca na web, chegou um pouco mais tarde, em 1997. O lançamento do mercado on-line Amazon, em 1994, revolucionou a forma como as pessoas faziam compras, permitindo a compra de tudo, de livros e CDS a reservas de hotéis e bilhetes aéreos, tudo no conforto do lar.
A internet trouxe mudanças significativas no modo como os negócios são administrados. A globalização aumentou, e o mundo parecia ter se tornado um lugar pequeno, com a comunicação melhorada pela velocidade e eficiência da internet. Tarefas foram terceirizadas, e as companhias passaram a ser efetivamente "de país nenhum", já que era mais fácil operar de qualquer lugar do mundo.
A próxima onda de avanços tecnológicos viu os aparelhos ficarem menores e mais móveis devido a componentes eletrônicos em pequenos circuitos integrados, ou "chips".
O futuro é agora
Em nenhum lugar a introdução da tecnologia de microchip teve maior impacto que no lançamento do iPhone da Apple, em 2007. Os chamados smartphones fizeram da internet um recurso móvel, com conectividade sem fio, oferecendo acesso em qualquer lugar e a notícias e navegação via satélite, por exemplo. Informações e ideias podem ser compartilhadas de qualquer lugar com um toque, via sites de redes sociais como Facebook e Twitter. Os smartphones também tiveram um impacto na educação, na saúde pessoal, e na cultura e mudaram o cenário político pelo uso, por manifestantes, da organização de protestos via mídias sociais, podendo transformar regimes. Levantes como a Primavera Árabe, que começou em 2010, eram em parte empoderados por ativistas que se comunicavam através da internet. O ativismo na internet, ou "clicktivismo", desde então se tornou uma forma poderosa de compartilhar ideias, conscientizar as pessoas ou apoiar uma causa. Com mais de 3 bilhões de usuários, a World Wide Web transformou todos os aspectos da vida cotidiana moderna.
A virada do século XXI trouxe sinais perturbadores de uma recessão mundial. Taxas de juros baixas e crédito não regulado induziram mais e mais pessoas a se endividar a um ponto insustentável. Os banqueiros, principalmente nos EUA, ofereciam hipotecas a clientes com um histórico de crédito ruim. Essas hipotecas eram chamadas de "hipotecas subprime". Esperava-se que, se as pessoas não conseguissem pagar as prestações de suas hipotecas, elas seriam retomadas como garantia e revendidas com lucro, mas isso dependia de o preço das casas continuar a subir. Em 2007, as taxas de juros aumentaram inesperadamente, e o preço das casas nos EUA caiu. As pessoas começaram a atrasar o pagamento das prestações. Por todo o país, casas foram tomadas pelos bancos com perdas enormes, e os banqueiros temiam não receber seu dinheiro de volta.
A crise se espalha para a Europa
Em agosto de 2007, o banco francês Paribas revelou que estava correndo risco por causa do mercado de hipotecas subprime. Os banqueiros haviam feito apostas com trilhões de dólares de investimentos em hipotecas arriscadas que talvez não valessem mais nada. O pânico se espalhou, e os bancos pararam de emprestar uns aos outros. O banco britânico Northern Rock enfrentou falta de dinheiro para uso imediato e foi forçado a pedir ao governo britânico um empréstimo emergencial.
Por todo o mundo, ações começaram a despencar. Em setembro de 2008, as refinanciadoras de hipotecas americanas Fannie Mae e Freddie Mac foram socorridas pelo governo americano, enquanto o Lehman Brothers, um poderoso banco de investimento muitíssimo envolvido com o mercado de hipotecas subprime, foi forçado a pedir falência. O governo americano considerou o Lehman Brothers muito insolvente e decidiu não socorrê-lo.
O caos nos mercados financeiros levou a uma severa queda na economia da maioria dos países ocidentais. O preço das ações despencou, e o comércio mundial caiu porque os governos gastaram menos. A Irlanda se tornou o primeiro país europeu a entrar em recessão, um período de declínio econômico. O governo da Islândia renunciou em outubro de 2008, depois de o próprio país quase quebrar. Alguns governos — como os dos EUA, China, Brasil e Argentina — planejaram pacotes de estímulo para impulsionar suas economias. Eles aumentaram os gastos do governo e diminuíram os impostos. Outros, sobretudo na Europa, optaram pela austeridade, congelando os gastos públicos e aumentando os impostos. Protestos e greves varreram a Europa em resposta a essas medidas. Portugal, Espanha e Grécia sofreram pressões da União Europeia (UE) para baixar suas dívidas. A UE gastou bilhões socorrendo economias fracas, na esperança de manter viáveis a Zona do Euro e o próprio euro. Mas o efeito da crise econômica foi devastador, e muitas pessoas perderam suas casas e empregos. Foi a pior queda na economia desde a Segunda Guerra Mundial.
A economia do pós-guerra
Após a Segunda Guerra Mundial, a maior parte da Europa, Japão, China e URSS foi devastada pela guerra e precisava de tempo para se recuperar. Os EUA, que haviam experimentado um enorme aumento na manufatura de itens para o esforço de guerra e não vivenciaram nenhuma destruição, continuaram a fabricar bens a níveis ainda maiores que antes e dominaram a economia do mundo. Os planejadores da economia do pós-guerra buscaram uma nova ordem econômica baseada na força industrial e num dólar estável. Em 1944, o foi formado para estimular o reavivamento do comércio global. A forte economia americana no pós-guerra e o Plano Marshall de 1947, uma iniciativa dos EUA para ajudar países ocidentais, revigoraram o comércio mundial através do encorajamento do capitalismo e da livre troca de mercadorias entre as nações. Assinado em 1947, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt) definiu que tarifas fossem removidas para abrir mercados ao redor do mundo.
O tigre asiático
O Japão, enquanto isso, viu um enorme crescimento econômico. O governo japonês implementou reformas com base na eficiência e restringiu a importação. Eles não assinaram o acordo do Gatt senão em 1955. O Japão investiu em seu carvão e siderúrgicas, bem como em estaleiros e montadoras de automóveis. Nos anos 1960, o país se especializou em produtos de alta tecnologia, como câmeras e chips de computador. Países como Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Malásia experimentaram um crescimento parecido, com ênfase em eletrônicos e tecnologia. Esses casos de sucesso ficaram conhecidos conjuntamente como "as economias dos tigres asiáticos".
O papel do petróleo
Nos anos 1970, o mundo estava dividido entre países industriais ricos e nações em desenvolvimento pobres, e o petróleo se tornou cada vez mais importante. Em 1960, a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (APEC), incluindo Arábia Saudita, Egito, Iraque e Ira, foi fundada. Conforme as reservas de petróleo em outros países diminuíam, os Estados ao redor do Golfo Pérsico, onde esse recurso se manteve abundante, se tornaram dominantes. Em outubro de 1973, quando Egito e Siria invadiram Israel durante a Guerra do Yom Kippur, a OAPEC fez um embargo de petróleo contra todos os países que ajudassom Israel, o que fez os preços triplicar. Sem o petróleo, a produção industrial caiu. Os Estados Unidos implementaram um forte racionamento de combustíveis que terminou em março de 1974, quando o embargo do petróleo foi revogado.
Um novo modelo econômico
A crise do petróleo de meados dos anos 1970 levou a uma profunda recessão global, à disparada na inflação e ao alto desemprego. Em resposta, uma nova política econômica "neoliberal" foi adotada, transferindo o controle dos fatores econômicos do setor público para o privado. Programas de bem-estar social foram consideracios como uma das causas dos fracassos econômicos, e houve enormes cortes. A desregulação tornou-se a força motriz da economia mundial, acabando com muitos controles governamentais e liberando organizações para fazer negócios em muitos territórios. Isso foi necessário sobretudo nos Estados Unidos, que enfrentavam dura concorrência de um mundo que já se reconstruíra após a Segunda Guerra Mundial. Algumas das rígidas leis e regulações que haviam sido implementadas para proteger os consumidores eram agora consideradas como interferências na livre-iniciativa.
A pressão global por desregulação resultou na adoção de novos mercados, numa maior concorrência e abertura, sobretudo quando o mundo se adaptava ao fim da Guerra Fria e ao colapso da URSS. O exemplo dado no leste da Ásia influenciou as autoridades em outros países asiáticos, como Índia e China. México e Brasil baixaram suas barreiras ao comércio e iniciaram reformas econômicas, levando a uma melhora nos padrões de vida. Com a reunificação da Alemanha em 1989, depois da queda do Muro de Berlim, a União Europeia (UE), união econômica de 28 países europeus, surgiu como uma grande força na economia do mundo. Também nos anos 1980, a China se abriu para o comércio exterior, e enormes somas de investimento estrangeiro inundaram o país, levando a um crescimento extraordinário.
A economia global
A economia do mundo está, agora, muito mais aberta. O uso da internet permite às pessoas encomendar bens em uma parte do mundo para serem entregues em qualquer lugar numa questão de dias. O comércio mundial é feito de parcerias globais, com companhias multinacionais que geram enormes receitas. Por todo o mundo pessoas tendem a migrar para cidades para arranjar emprego, resultando no aumento da urbanização.
Uma reclamação que em geral se faz contra a globalização é que algumas companhias exploram trabalho barato e se comportam de forma antiética na sua busca por lucro. Outra é que a globalização contribuiu para uma extraordinária acumulação de riqueza nas mãos de poucos indivíduos, aumentando assim a desigualdade. Além disso, alguns países continuaram extremamente pobres — áreas da África Subsaariana, por exemplo, não tiveram bom desempenho e foram deixadas para trás, devendo às nações mais ricas.
Houve recessões econômicas por toda a história, mas a crise financeira de 2008-2011 foi a pior — ao menos desde a Grande Depressão de 1929 —, e talvez a pior de todas. Muitos acharam que foi um desastre que poderia ter sido evitado, causado por falhas generalizadas em regulação governamental e riscos negligentes por parte de bancos de investimentos. Somente enormes estímulos monetários e fiscais evitaram a catástrofe. As dívidas das famílias e dos negócios continuaram altas, e houve uma grande fúria direcionada aos banqueiros, que muitos acham que sobreviveram quase ilesos. Medidas de austeridade provocaram insatisfação popular. Houve demonstrações contra o capitalismo. O movimento Occupy se espalhou, com dezenas de milhares de manifestantes om Nova York, Londres, Frankfurt, Madri, Roma, Sydney e Hong Kong. Enquanto os financistas discutiam sobre as causas da Recessão Global, o impacto na vida das pessoas comuns teve consequências profundas e, ao que tudo indica, duradouras.
N o dia 31 de outubro de 2011, um bebê nascido em Manila, capital das Filipinas, foi escolhido pelas Nações Unidas (ONU) para simbolicamente representar a 7a bilionésima pessoa na Terra. Para enfatizar esse marco na população mundial, 31 de outubro foi chamado de Dia dos Sete Bilhões, mas, como havia registros de que 1 bilhão de pessoas passariam fome naquele dia, ressurgiram debates sobre se a Terra poderia suportar tantas pessoas.
Antes do século XVII, a população do mundo crescia muito devagar, mas começou a se expandir mais rapidamente depois de 1850. Isso se deu em parte por causa de uma redução no número de crianças mortas na infância, mas as taxas de mortalidade também caíram como um todo, conforme novas tecnologias na agricultura aumentaram a oferta de alimentos e diminuíram o risco de fome generalizada. O importante aumento da industrialização e avanços na medicina melhoraram a saúde pública e os padrões de vida.
Em 1927, a população chegou a 2 bilhões. No começo do século XX. O crescimento populacional foi mais alto no Ocidente rico e industrializado, mas esse padrão começou a mudar. Em meados do século, muitos países europeus experimentaram uma queda nas taxas de natalidade, enquanto o crescimento populacional aumentou sensivelmente em áreas relativamente menos desenvolvidas como Ásia, África e América do Sul, devido a uma taxa de natalidade maior. Em 1987, nasceu a pessoa de número 5 bilhões; em 1999 foi a de número 6 bilhões. Demorou 123 anos para a população mundial ir de 1 bilhão para 2 bilhões, mas custou apenas doze anos para dar o salto de 6 para 7 bilhões.
A Revolução Verde
Durante o século XX, muitos países importavam grandes quantidades de alimentos que não eram capazes de produzir sozinhos, para lhes permitir satisfazer as demandas de uma população em crescimento. A Inglaterra, por exemplo, importava 55 milhões de toneladas de alimentos por ano.
No começo dos anos 1940, o México importava metade do seu trigo, e sua população crescia rapidamente. O país pediu ajuda técnica aos EUA sobre modos de aumentar sua produção de trigo. Em 1944, com o apoio financeiro da Fundação Rockefeller americana, um grupo de cientistas americanos, incluindo o bioquímico Norman Borlaug, começou a pesquisar métodos para desenvolver uma variedade de trigo de alta produtividade capaz de resistir a doenças, além de ser mais curto, o que reduzia o estrago feito pelo vento. O trabalho no México teve enorme sucesso: em 1956, o país estava totalmente autossuficiente e não precisava mais importar trigo ou milho. Esse êxito lançou o que ficou conhecido como a Revolução Verde - disseminação de novas tecnologias agrícolas modernas nos anos 1960 e 1970 que aumentaram bastante a produção de alimentos ao redor do mundo. A Revolução Verde beneficiou países como Filipinas, Bangladesh, Sri Lanka, China, Indonésia, Quênia, Ira, Tailândia e Turquia.
Cientistas indianos, em especial, seguiram o trabalho de Borlaug e seus colegas. Em meados de 1960, a Índia havia sido atingida por duas secas anuais, o que levou à necessidade de importar grandes quantidades de alimentos dos EUA. Em 1964, tanto Índia quanto Paquistão começaram a importar e testar variedades de trigo semianão do México, e os resultados foram promissores: na primavera de 1966, as colheitas foram maiores que qualquer outra produzida no Sul da Ásia, a despeito de aquele ter sido um ano seco.
O arroz milagroso
Em 1960, um novo arroz, chamado "milagroso" é conhecido como IR-8, foi desenvolvido no Instituto de Pesquisa Internacional do Arroz nas Filipinas. Com um ciclo de crescimento muito mais curto, esse novo produto trouxe uma transformação drástica na vida dos agricultores. Em países como o Vietnã, agora dava para produzir duas colheitas completas do novo arroz por ano, ao passo que o arroz que ele substituiu só podia produzir uma colheita. Inovações impressionantes como essa na ciência agrícola permitiram que países cronicamente pobres, em especial na Ásia, se alimentassem e suprissem as demandas de suas populações em crescimento.
A Revolução Verde não aconteceu sem controvérsias, já que envolvia uma guinada para o uso de pesticidas químicos. Durante os anos 1940, o inseticida DDT (diclorodifeniltricloroetano) foi apresentado como um modo de controlar uma série de doenças, incluindo o mosquito que transmite a malária, com um único tratamento. No entanto, em 1962, a bióloga americana Rachel Carson enfatizou os perigos do DDT em seu revolucionário livro Primavera silenciosa, alegando que ele podia causar câncer, além de fazer mal ao ambiente. O livro levou à proibição do DDT nos EUA e foi o estopim para a criação da Agência de Proteção Ambiental (EPA), entidade independente de proteção ao ambiente. A Revolução Verde também enfrentou enormes desafios em muitos países na África, onde havia pouca irrigação, chuvas irregulares, fertilizantes caros e falta de crédito para comprar novas variedades de sementes.
Cultivos GM
Cultivos geneticamente modificados (GM) foram saudados com entusiasmo nos anos 1990 e considerados parte da Segunda Revolução Verde, mas isso também se mostrou controverso. Cultivos GM são alimentos produzidos a partir de organismos que tiveram alterações em seu DNA via engenharia genética. Eles surgiram nos EUA em 1994, quando a us Food and Drug Administration (FDA) aprovou o tomate Flavr Savr para venda. O tomate que demorava mais para amadurecer tinha uma vida mais longa nas prateleiras que os convencionais, mas experiências usando batatas sugeriram que o produto GM era tóxico para ratos. A maioria dos países da União Europeia (UE) baniu o uso de cultivos Gм, ao passo que os que os apoiavam sugeriram que sem a intervenção genética o mundo estava fadado a passar fome. Defensores dos GM - sobretudo EUA, Brasil, Canadá, Argentina e Austrália - acreditam que ele tem o potencial de combater doenças e a fome. O sentimento na Europa, África e Ásia é mais cuidadoso, preocupado com pesticidas e seu possível dano à saúde.
A despeito de tal oposição, a tecnologia Gм ainda está em desenvolvimento. Estima-se que 670 mil crianças morrem por falta de vitamina A todos os anos, uma deficiência que causa doenças como malária e sarampo e leva à cegueira. Avanços no trato de tais deficiências incluem, por exemplo, a criação do "arroz dourado", no qual a vitamina A é adicionada ao arroz comum.
O desaparecimento de terras aráveis
Ao mesmo tempo que colheitas maiores — e mais fortes — eram necessárias para alimentar a população mundial em crescimento, cidades engoliram grandes áreas aráveis e zonas rurais. No começo do século XXI, a China experimentou um enorme crescimento no desenvolvimento urbano, que significou a perda de um grande número das pequenas fazendas do país.
As pessoas têm sido historicamente atraídas para as cidades em busca de emprego e oportunidades sociais. Em 1800, um em cada quatro britânicos vivia nas cidades, mas em 1900 isso cresceu para três em cada quatro. Muitos se mudaram das áreas rurais para a cidade, mas as pessoas também mudaram de um país para o outro, buscando refúgio e uma vida melhor. A população urbana em 2014 era responsável por 54% da população total do mundo, bem mais que os 34% em 1960. Em 2014, a ONU previu que dois terços do mundo estarão vivendo nas cidades em 2050. No entanto, a falta de moradias é um fator importante: na África Subsaariana, 70% dos habitantes urbanos vivem em favelas. Saúde ruim e violência são um problema para as grandes cidades, e há uma enorme disparidade entre ricos e pobres.
Mudanças climáticas A urbanização e o desenvolvimento impõem um estresse crescente sobre o ambiente. Conforme a população do mundo cresce, torna-se um desafio global melhorar os padrões de vida sem destruir o ambiente. Os cientistas acreditam que a atividade humana merece a culpa pela mudança climática (ou "aquecimento global"). Desde a Revolução Industrial no século XIX, as temperaturas globais continuam a aumentar, sendo que o período de 2011 a 2015 foi o mais quente já registrado.
Algumas das mudanças climáticas se devem a ocorrências naturais, mas no começo dos anos 1970 a ascensão do ambientalismo levantou questões sobre os benefícios para o planeta da atividade humana. Nações em desenvolvimento deveriam reduzir as emissões de carbono, que, como se pensa, afetam as mudanças climáticas. Em 2015, a Índia abriu uma mina por mês para poder tirar seu 1,3 bilhão de habitantes da pobreza mais rapidamente. Países desenvolvidos que contribuíram para as mudanças climáticas criaram certa tensão ao sugerirem que nações em desenvolvimento deveriam parar de explorar seus próprios recursos naturais para melhorar o bem-estar econômico de seu povo. Os cientistas têm advertido que os humanos podem ultrapassar o limite além do qual as mudanças climáticas se tornariam catastróficas e irreversíveis se as emissões de gases de efeito estufa continuar crescendo. O nível do mar também está subindo, erodindo áreas costeiras e submergindo pequenas ilhas no Pacífico Sul. Os padrões de chuvas estão mudando, levando a severas secas na África, e muitas espécies de animais correm o risco de extinção.
A ameaça das mudanças climáticas. é agora considerada tão séria que líderes de todo o mundo se reuniram em 2015 em Paris, França, numa conferência para chegar a um acordo quanto à redução da acumulação de gases de efeito estufa. Nas negociações tensas, os países em desenvolvimento exigiram que as nações mais ricas os ajudassem a pagar a conta para que se adaptassem aos efeitos das mudanças climáticas, como o aumento das inundações ou das secas. Ao todo, 196 nações adotaram o primeiro acordo climático global de que se tem notícia e é universal e juridicamente vinculante, limitando o aquecimento global ao relativamente seguro nível de 2ºC.
Um mundo faminto
Nos anos 1970, movimentos ecológicos previram que centenas de milhões morreriam de fome em meados dos anos 1980. Essa previsão catastrófica não se confirmou, mas com impressionantes 7 bilhões de pessoas no planeta existe uma drenagem inevitável dos recursos naturais. O excesso de pesca, sobretudo na Indonésia e na China, fez com que os estoques de peixes vivos ao redor do mundo caíssem rapidamente, e a demanda por água pode, em breve, ser maior que a oferta. Em 2015, a ONU previu que 1,8 bilhão de pessoas estarão vivendo em países ou regiões com escassez absoluta de água em 2025. O carvão, que impulsiona a indústria e a produção, está com sua demanda em crescimento, mas um dia também se extinguirá.
A ONU estima que em 2050 a população global será de 9,7 bilhões, e, em 2100, 11,2 bilhões de pessoas habitarão a Terra. As dinâmicas populacionais estão em transformação, de alta mortalidade e alta fertilidade para baixa mortalidade e baixa fertilidade, com uma crescente população de idosos por todo o mundo, o que será difícil de manter. Desafios como mudança climática, crises migratórias e de refugiados, insegurança alimentar e de água, pobreza, dívida e doenças são muito exacerbados pelo rápido crescimento populacional. Estabilizar o crescimento da população do mundo talvez seja a chave para a sobrevivência global.
Anexação O ato de anexar: de conquistar território novo para adicionar a um país ou Estado, geralmente usando a força.
Autocracia Uma comunidade ou Estado no qual a autoridade ilimitada é exercida por um único indivíduo.
Bárbaro Nos tempos antigos, um grupo de pessoas, terra ou cultura que não pertencia a uma das grandes civilizações (grega, romana), logo considerado menos avançado socialmente ou incivilizado.
Burguesia A classe social detentora dos meios de produção (fábricas, maquinário, terras) numa sociedade capitalista.
Burocracia Um governo caracterizado pela especialização de funções, obediência a regras fixas e com hierarquia de autoridade.
Califado O governo islâmico liderado por um califa, líder político e espiritual seguidor dos princípios estabelecidos pelo profeta Maomé.
Campos de trabalho Um campo de prisioneiros onde as pessoas são obrigadas a fazer trabalho manual árduo, geralmente em péssimas condições.
Capitalismo Um sistema econômico no qual os meios de produção são de propriedade privada, em que firmas concorrem para vender bens visando ao lucro e os trabalhadores trocam seu trabalho por um salário.
Classe Uma hierarquia de status dentro do sistema social, refletindo poder, riqueza, educação e prestigio.
Colônia Área ocupado por um grupo de colonos vivendo em um território novo geralmente já ocupado por povos indígenas, que está sujeita ao controle da metrópole de onde os colonos vieram
Comunismo Uma ideologia que defende a eliminação da propriedade privada em troca da propriedade comunal, baseada no manifesto político de Karl Marx e Friedrich Engels.
Conscrição Alistamento obrigatório no serviço militar.
Constituição Uma coletânea escrita dos princípios fundamentais e leis de uma nação.
Consumismo O estado de uma sociedade capitalista avançada no qual a compra e venda de vários bens e serviços define uma era. O termo também se refere a uma percepção de que os indivíduos desejam bens para construir uma identidade própria.
Cruzada Guerra santa praticada em nome de uma causa religiosa. Com frequência usada para se referir às expedições lançadas pelos cristãos europeus nos séculos XI, XII e XIII para a reconquista da Terra Santa dos muçulmanos.
Democracia Uma forma de governo na qual o poder supremo cabe ao povo e é exercido por seus representantes eleitos.
Democracia direta Governo pelo povo de fato, em vez de apenas em princípio — os cidadãos votam em todos os aspectos que os afetam —, conforme praticado na antiga Atenas.
Dinastia Uma linha de governantes da mesma família ou grupo, ou um período de tempo quando o país é governado por eles.
Direitismo, de direita A ideologia da "direita" política, amplamente definida como a favor de atitudes conservadoras, pró-mercado, preferência pelos direitos dos indivíduos ao intervencionismo do governo, abordagem rígida quanto à lei e à ordem e, em vários casos, também nacionalista. O conceito originado na França no século XVIII, onde aqueles que eram amplamente a favor da monarquia se sentavam do lado direito do rei.
Direito divino dos reis Uma doutrina que diz que o monarca deriva sua legitimidade de Deus, não sendo sujeito a nenhuma autoridade terrena.
Ditador Um governante absoluto, que assume controle completo e pessoal sobre o Estado. Esse governante pode exercer seu poder de forma opressiva.
Emancipação O ato de ser livre de restrições legais, sociais ou políticas.
Embargo Uma ordem governamental que interrompe o comércio ou qualquer atividade comercial com um país especifico, com frequência usada como uma medida diplomática.
Emigração O ato de deixar o seu próprio país e se mudar permanentemente para outro.
Era espacial Um período no século XX caracterizado pela exploração espacial. Diz-se que seu início foi em outubro de 1957, quando a URSS pôs pela primeira vez o satélite Sputnik 1 em órbita.
Esquerdismo, de esquerda Ideologia da "esquerda" política. É caracterizado por uma abordagem intervencionista para o bem-estar social e uma visão do mundo internacionalista. O conceito surgiu na França do século XVIII, quando a nobreza que buscava melhorar as condições dos camponeses se sentava à esquerda do rei.
Estado Uma autoridade organizada que tem controle legítimo sobre um território e o monopólio do uso da força nesse território.
Estado fantoche Um país que é normalmente independente, mas de fato se baseia numa potência estrangeira que geralmente controla o Estado usando força militar.
Estado-nação Um Estado soberano habitado por um grande grupo homogêneo de pessoas que compartilham características comuns como língua, descendência ou tradições.
Eugenia A crença, ou o estudo da crença, de que a população humana pode ser melhorada pelo controle da sua reprodução.
Fascismo Uma ideologia tipificada por forte liderança, com ênfase na identidade coletiva, e pelo uso da violência ou guerra para expandir os interesses do Estado. O termo deriva do italiano fascio — um feixe de gravetos — se referindo à identidade coletiva, e foi primeiramente aplicado ao regime de Mussolini
Feudalismo Um sistema político medieval que consistia de pequenas unidades geográficas — como principados ou ducados —governadas pela nobreza, onde a população camponesa vivia atrelada a seu governante.
Genocídio A matança deliberada de um grupo de pessoas pertencentes a uma mesma religião, etnia ou nação.
Golpe de estado Um ato repentino, ilegal e violento de derrubada de um governo ou de um líder. Geralmente é cometido por membros do atual establishment politico.
Guerra civil Uma guerra lutada por habitantes de um mesmo país que se opõem.
Guerrilheiro Membro de um grupo militar não oficial, em geral motivado politicamente, que usa ataques surpresa e sabotagem contra forças regulares maiores como um Exército oficial ou a polícia.
Hegemonia A conquista e a manutenção do poder, e a formação de grupos sociais, durante o processo.
Ideologia Um arcabouço de ideias que oferecem um ponto de vista ou um conjunto de crenças para um grupo social.
Igualitarismo Uma filosofia que defende igualdade social, politica e econômica.
Iluminismo Também conhecido como a Idade da Razão, um período de avanços intelectuais no século XVIII que envolve o questionamento da visão religiosa do mundo e a aplicação da razão.
Imigração O ato de entrar em um país estrangeiro para lá viver permanentemente.
Imperialismo A política de estender o domínio de um país ou nação diretamente (através de anexação territorial ou governo) ou indiretamente (através de controle político e econômico de outros países), e a defesa ou apoio de tal expansão.
Império Um grande grupo de países ou povos que é governado por um único líder, oligarquia ou Estado soberano.
Insurreição Uma condição de revolta contra um governo ou autoridade constituída, que é menos organizada que uma revolução e não é reconhecida como uma guerra.
Jihad No Islã, um dever religioso de lutar contra os inimigos do Islã; também espiritual quanto doutrinário.
Lei marcial A lei temporariamente imposta pelos militares quando a lei civil é suspensa num país ou Estado.
Liberalismo Uma filosofia originada no século XVIII que defendia os direitos do indivíduo contra o governo e também restringia os poderes absolutos e no direito divino dos reis.
Marxismo A filosofia dos escritos de Karl Marx, propondo que a ordem econômica da sociedade determina as relações políticas e sociais nela.
Meritocracia A crença de que o governante deveria basear-se em sua habilidade e talento, não em riqueza ou berço.
Milícia Um corpo de cidadãos, que pode ter algum treinamento militar, mas que é chamado para o serviço somente em emergências, geralmente para defender sua comunidade em tempo específico.
Nacionalismo Lealdade e devoção à pátria mãe e a crença política de que seus interesses devem ser buscados como a meta principal da política.
Nômade Relacionado a, ou uma característica dos nômades — um grupo de pessoas que se mudam de um lugar para outro em vez de viver em um lugar fixo, geralmente seguindo os padrões de estações e dentro de um território específico.
Oligarquia Uma forma de governo na qual o poder é mantido por um pequeno grupo e exercido para seus próprios interesses, que sempre estão acima do bem-estar da população como um todo.
Paramilitar Um grupo civil que tem estrutura e treinamento semelhantes aos de um exército e geralmente opera em apoio à força militar oficial de um país.
Partidarismo Apoiador absoluto de um líder político específico, um partido ou causa que geralmente exibe uma devoção não razoável.
Peregrinação Uma jornada para um templo ou santuário considerado como um ato de devoção religiosa.
Plantation Sistema de plantação de apenas um tipo de produto destinado à exportação, mediante uso de mão de obra escrava.
Pré-história O período do passado humano antes do começo da história registrada e compreendido através de simples artefatos da história, arqueológicos.
Proletariado A classe trabalhadora, empregados assalariados que não possuem ou não conseguem meios de produção próprios e precisam vender sua força de trabalho em troca de um salário.
Propaganda A disseminação organizada de informação, boatos e opiniões para promover ou prejudicar um governo, movimento, instituição etc.
Racionalismo Corrente filosófica segundo a qual a razão, fonte do intelecto e das intuições, das emoções ou dos dados empíricos, pode levar a um conhecimento seguro que deve servir de base para boa parte da ciência moderna.
Racismo A crença de que todos os membros de uma certa raça compartilham características e habilidades comuns e que essa raça é superior ou inferior a outra.
Reforma Um movimento religioso e político do século XVI na Europa que buscava reformar a Igreja Católica Romana e é considerada a base do protestantismo (das igrejas protestantes).
Renascimento Um período de tempo na Europa Ocidental e Central marcado por grande florescimento nas artes, letras e aprendizado que geralmente representa a transição do mundo medieval para o mundo moderno.
Reparações Compensações — em geral monetárias — exigidas de um país que perdeu uma guerra pelo país vencedor para pagar por um dano, estrago ou perda durante a guerra, ou por outro país como resultado da guerra.
República Um Estado sem monarca, no qual o poder reside no povo e é exercido por seus representantes eleitos.
Revolução A derrubada de um regime em vigor, ou uma ordem social, às vezes por meio da violência, para pôr um outro em seu lugar.
Revolução Industrial Um estágio de desenvolvimento tecnológico iniciado na Grã-Bretanha no século XVIII, durante o qual as economias foram transformadas por uma forma de manufatura baseada em fábricas, um crescimento essencialmente agrícola e passando a ser urbana e industrializada.
Separatistas Um grupo de pessoas que defendem a separação de uma organização ou grupo.
Servo Essencialmente na Europa medieval, uma pessoa de classe inferior obrigada a fazer trabalho agrícola nas terras de seu senhor e que não podia deixar a terra; no caso de esta ser vendida a um novo proprietário.
Sionismo Um movimento político mundial que proclama que o povo judeu constitui uma nação, portanto com direito a uma terra. Focou originalmente na criação de um país para o povo judeu e agora busca desenvolver e proteger um moderno Estado de Israel.
Soberania Poder supremo ou exercido por um Estado ou governante autônomo, livre de qualquer influência externa ou controle. Geralmente usada para se referir à autonomia e autodeterminação em assuntos internos e nas relações internacionais com outros países.
Socialismo Uma ideologia e um método de governo que defendem a propriedade estatal e a regulação da indústria, bem como o controle central sobre a alocação de recursos, em oposição à permissão que eles sejam determinados por proprietários privados.
Sufrágio O direito ao voto em eleições ou referendos. O sufrágio universal se refere ao direito de voto dos cidadãos, independentemente de sua riqueza, renda, raça, status social ou gênero. O sufrágio das mulheres descreve o direito das mulheres de votarem nas eleições; esse direito foi inicialmente defendido no começo do século XX por ativistas chamadas de "sufragistas".
Superpotência Uma nação-soberana com grande poder político e militar, capaz de exercer influência em escala global.
Teoria da guerra justa Uma doutrina de ética militar que inclui o Jus ad bellum ("direito à guerra"), que é a necessidade de uma base moral e legal para uma guerra, e a Jus in bello ("justiça na guerra"), que é a necessidade da conduta moral na guerra.
Totalitarismo Um regime que subordina os direitos do indivíduo em favor dos interesses do Estado e requer obediência cega. Controla a política e a economia e dita a determinação de atitudes, valores e moral da população.
Tratado Um contrato formal entre Estados ou soberanos — como uma aliança, o fim de hostilidades, um acordo comercial — entre dois ou mais países.
Vassalo Num sistema feudal, um homem que recebia o direito ao uso da terra por um rei, senhor ou outro proprietário de terra superior, em troca de homenagem e obrigações.
Vice-rei Um governante que constitui um soberano em um lugar de seu soberano