O Boas Práticas promoveu e participou de eventos virtuais e presenciais, caracterizados pela abertura da discussão do projeto para a provocação junto com outros atores da sociedade: especialistas da gestão em saúde, antropólogos/as e outros/as profissionais, ativistas de outros movimentos sociais e instituições locais, nacionais e internacionais.
No webinário IUAES “A recomposição dos direitos humanos no Antropoceno: perspectivas desde o Sul Global”, que teve lugar no dia 01 de Junho de 2026, de forma online, as discussões partiram de uma pergunta central: como os direitos humanos podem ser repensados diante da crise climática, da destruição ambiental e das múltiplas formas de violência territorial que atravessam comunidades, povos e seres mais-que-humanos?
Ao longo do encontro, as apresentações mostraram que a crise climática não é apenas uma crise ecológica, mas também uma crise das relações. Ela coloca em questão a formulação moderna e hegemônica dos direitos humanos, frequentemente centrada em um sujeito abstrato, individual, racional e proprietário. Desde diferentes experiências situadas — Índia, Argentina, Tailândia, Brasil e Finlândia — o webinar propôs deslocar esse sujeito universalizado para pensar direitos a partir de territórios, comunidades, florestas, águas, plantas, animais, ancestralidades, formas coletivas de vida e práticas cotidianas de cuidado.
A apresentação de Seema Purushothaman trouxe o caso da Lei de Direitos Florestais da Índia, de 2006, discutindo a soberania ecológica e de meios de vida como dimensões fundamentais dos direitos humanos de povos habitantes das florestas. Sua intervenção evidenciou que políticas de desenvolvimento e ação afirmativa podem produzir bem-estar material, mas também apagar sistemas de conhecimento, instituições socioculturais e agências epistêmicas indígenas quando operam a partir de uma lógica assimilacionista. A questão colocada foi se os direitos indígenas devem significar dignidade, autossuficiência e governança territorial ou apenas a condição de beneficiários passivos de ações estatais.
María Eugenia Flores propôs uma crítica ontológica ao sujeito abstrato dos direitos humanos. A partir de mundos indígenas do Chaco, dos Andes e da Patagônia, sua fala afirmou que a floresta não é simplesmente “bosque nativo” ou recurso ambiental, mas um corpo territorial que respira, comunica e impõe condições. Nessa perspectiva, natureza e cultura não aparecem como domínios separados. A proteção dos seres não humanos emerge, portanto, não como metáfora ou folclore, mas como necessidade epistêmica e política para qualquer transformação real dos direitos humanos na crise climática.
Amporn Marddent, a partir de etnografias realizadas na Tailândia, abordou as lutas cotidianas de mulheres em contextos de degradação ambiental, perda de terra, violência estatal, endividamento e precariedade socioeconômica. Sua apresentação mostrou que a insegurança ecológica atua como multiplicadora de ameaças, afetando desproporcionalmente mulheres, minorias étnicas e comunidades rurais. A terra, nesse enquadramento, não é apenas propriedade: ela condensa memória, parentesco, espiritualidade, sobrevivência e dignidade. Assim, os direitos humanos precisam se deslocar de molduras liberais e jurídico-formais para abordagens mais restaurativas, comunitárias e ecológicas.
Lucrecia Greco trouxe a experiência de Santa Rosa dos Pretos, no Maranhão, refletindo sobre tempo, corpo, território e direitos mais-que-humanos em uma comunidade quilombola do Nordeste brasileiro. Sua contribuição articulou celebração, resistência, ancestralidade e leitura territorial, mostrando como os quilombos são espaços vivos de produção de conhecimento, memória e luta política. Ao “pisar no chão e ler o mundo”, a experiência quilombola evidencia que território não é cenário, mas condição de existência, continuidade histórica e recomposição da vida coletiva.
Paula Balduino de Melo apresentou uma reflexão sobre o ethos matricêntrico em comunidades afrodescendentes, conectando direitos humanos e direitos ambientais a partir de cosmologias africanas e afro-diaspóricas. A noção de matripotência foi mobilizada como força criadora da humanidade e também do mundo, permitindo pensar corpos, paisagens e plantas como mutuamente constituídos. A partir dos povos de terreiro no Brasil e da relação com as folhas, como a Ewe Ìyá, a apresentação propôs uma alternativa às lógicas ocidentais que separam natureza e cultura, matéria e espírito, humano e mais-que-humano.
Jasmin Immonen, por sua vez, interrogou o conceito finlandês de jokaisenoikeus, o “direito de todos” ao acesso à natureza, perguntando se ele poderia ser estendido aos seres mais-que-humanos. Sua fala evidenciou tensões no interior do próprio Norte Global, mostrando que também ali existem “suis” produzidos pela modernidade capitalista, inclusive quando animais são tratados como propriedade, matéria de consumo ou recurso produtivo. A apresentação colocou em diálogo direitos da natureza, crítica ao antropocentrismo, responsabilidade jurídica e imaginação ancestral, retomando figuras míticas do Kalevala para pensar respeito, reciprocidade e limites ao domínio humano.
Em conjunto, o webinário mostrou que recompor os direitos humanos no Antropoceno exige mais do que ampliar categorias jurídicas já existentes. Exige rever as ontologias que sustentam o direito, a política e a própria ideia de humanidade. As falas apontaram para a necessidade de reconhecer que comunidades humanas e seres não humanos participam de mundos relacionais, nos quais território, memória, corpo, espiritualidade, subsistência e justiça não podem ser separados.
A partir de perspectivas do Sul Global, mas também reconhecendo os “suis” que existem dentro do Norte Global, o encontro propôs compreender os direitos humanos como campo em disputa, em transformação e em abertura. Sua recomposição passa pela escuta de povos indígenas, comunidades quilombolas, mulheres rurais, povos de terreiro, habitantes das florestas, animais, plantas e territórios vivos. Em tempos de transformação planetária, a justiça não pode permanecer restrita ao humano abstrato: ela precisa ser pensada a partir das relações concretas que tornam a vida possível.
Segunda, 01 de Junho de 2026
🌿 Webinar
The Recomposition of Human Rights in the Anthropocene: Global South Perspectives
The IUAES Scientific Commission on Human Rights and the IUAES Commission on Anthropology, Public Policy and Development Practice invite you to join a global conversation on human rights, justice, sustainability, and the Anthropocene from Global South perspectives.
Conveners:
Prof. Dr. Ana Gretel Echazú Böschemeier
Prof. Dr. Raquel Assunção Oliveira
Speakers:
Prof. Dr. Amporn Marddent — Thailand
Prof. Dr. Jasmin Immonen — Finland
Prof. Dr. Lucrecia Greco — Argentina
Prof. Dr. María Eugenia Flores — Argentina
Prof. Dr. Paula Balduino de Melo — Brazil
Prof. Dr. Seema Purushothaman — India
Opening Remarks:
Prof. Dr. Thomas Reuter
Date: Monday, 1 June 2026
Time: 12:00 UTC
Brasília & Campina Grande, Brazil: 9 AM
Salta & Buenos Aires, Argentina: 09:00 AM
Helsinki, Finland: 15:00 PM
Bengaluru, India: 17:30 PM
Bangkok, Thailand: 19:00 PM
Melbourne, Australia: 22 PM
Zoom Meeting ID: 842 3432 9538
Passcode: 712139
The webinar will be held in English via Zoom. A subtitled version will later be made available on YouTube to broaden accessibility and circulation.
This event is organized in collaboration with the Best Practices for Epistemic Justice Research Group - Fiocruz Brasília, strengthening South-South and transdisciplinary dialogues on human rights, environmental crisis, public policy, and epistemic justice.
Join us for this collective reflection on how human rights may be recomposed in times of planetary transformation.
🌿 Webinário
A recomposição dos direitos humanos no Antropoceno: perspectivas do Sul Global
A Comissão Científica de Direitos Humanos da IUAES e a Comissão de Antropologia, Políticas Públicas e Prática do Desenvolvimento da IUAES convidam para uma conversa global sobre direitos humanos, justiça, sustentabilidade e Antropoceno a partir de perspectivas do Sul Global.
Coordenação:
Prof. Dra. Ana Gretel Echazú Böschemeier
Prof. Dra. Raquel Assunção Oliveira
Palestrantes:
Prof. Dra. Amporn Marddent — Tailândia
Prof. Dra. Jasmin Immonen — Finlândia
Prof. Dra. Lucrecia Greco — Argentina
Prof. Dra. María Eugenia Flores — Argentina
Prof. Dra. Paula Balduino de Melo — Brasil
Prof. Dra. Seema Purushothaman — Índia
Comentários de abertura:
Prof. Dr. Thomas Reuter
Data: segunda-feira, 1º de junho de 2026
Horário: 12:00 UTC
Brasília e Campina Grande, Brasil: 09:00
Salta e Buenos Aires, Argentina: 09:00
Helsinque, Finlândia: 15:00
Bengaluru, Índia: 17:30
Bangkok, Tailândia: 19:00
Melbourne, Austrália: 22:00
Zoom Meeting ID: 842 3432 9538
Senha: 712139
O webinário será realizado em inglês, via Zoom. Posteriormente, uma versão legendada será disponibilizada no YouTube, ampliando a acessibilidade e a circulação do debate.
O evento é organizado em colaboração com o Grupo de Pesquisa Boas Práticas pela Justiça Epistêmica - Fiocruz Brasília, fortalecendo diálogos Sul-Sul e transdisciplinares sobre direitos humanos, crise ambiental, políticas públicas e justiça epistêmica.
Convidamos todes a participar desta reflexão coletiva sobre como os direitos humanos podem ser recompostos em tempos de transformação planetária.
🌿 Webinario
La recomposición de los derechos humanos en el Antropoceno: perspectivas desde el Sur Global
La Comisión Científica de Derechos Humanos de la IUAES y la Comisión de Antropología, Políticas Públicas y Práctica del Desarrollo de la IUAES invitan a participar de una conversación global sobre derechos humanos, justicia, sostenibilidad y Antropoceno desde perspectivas del Sur Global.
Coordinación:
Prof. Dra. Ana Gretel Echazú Böschemeier
Prof. Dra. Raquel Assunção Oliveira
Investigadoras invitadas:
Prof. Dra. Amporn Marddent — Tailandia
Prof. Dra. Jasmin Immonen — Finlandia
Prof. Dra. Lucrecia Greco — Argentina
Prof. Dra. María Eugenia Flores — Argentina
Prof. Dra. Paula Balduino de Melo — Brasil
Prof. Dra. Seema Purushothaman — India
Palabras de apertura:
Prof. Dr. Thomas Reuter
Fecha: lunes 1 de junio de 2026
Hora: 12:00 UTC
Horarios locales:
Brasilia y Campina Grande, Brasil: 09:00
Salta y Buenos Aires, Argentina: 09:00
Helsinki, Finlandia: 15:00
Bengaluru, India: 17:30
Bangkok, Tailandia: 19:00
Melbourne, Australia: 22:00
Zoom Meeting ID: 842 3432 9538
Contraseña: 712139
El webinario se realizará en inglés, vía Zoom. Posteriormente, se pondrá a disposición una versión subtitulada en YouTube para ampliar la accesibilidad y la circulación del debate.
El evento es organizado en colaboración con el Grupo de Investigación Buenas Prácticas por la Justicia Epistémica - Fiocruz Brasília, fortaleciendo diálogos Sur-Sur y transdisciplinarios sobre derechos humanos, crisis ambiental, políticas públicas y justicia epistémica.
Les invitamos a participar de esta reflexión colectiva sobre cómo los derechos humanos pueden recomponerse en tiempos de transformación planetaria.
Entre os dias 29 e 30 de abril, as pesquisadoras Ana Gretel Echazú Boschemeier e Raquel Assunção Oliveira participarão de duas atividades acadêmicas e culturais em Buenos Aires, no âmbito de iniciativas de internacionalização da produção científica e da cultura brasileira.
🟢 29 de abril, às 18h, na Facultad de Filosofía y Letras - UBA (aula 405, Puan 480), participando da conversa “El objeto libro como instrumento de lucha social”. A proposta é refletir sobre o papel dos livros impressos como dispositivos de mobilização política, produção de memória e circulação de saberes em contextos de desigualdade.
🟢 30 de abril, às 17h, como convidadas na Feria Internacional del Libro de Buenos Aires, uma das principais feiras literárias da América Latina, com a apresentação do livro “Gerações de Luta”. A nossa obra coletiva tem sido selecionada para ser apresentada no Instituto Guimarães Rosa, da Embaixada do Brasil, no Pabellón Amarillo — Stand 1801, La Rural.
“Gerações de Luta” é uma obra realizada em coautoria que reúne retratos visuais e narrativas de 22 lideranças tradicionais e populares do Nordeste brasileiro, articulando pesquisa acadêmica e saberes comunitários no marco do dispositivo contracolonizador do Encontro de Saberes. A obra apresenta narrativas multilíngues — em português brasileiro, tupi nheengatu, finlandês e inglês — e dialoga com temas como saúde, gênero, raça-etnicidade, território e direitos.
A programação do estande da Embaixada do Brasil reúne a presença de autoras e autores como Adriana Calcanhotto, Daniel Munduruku, Marcelo Rubens Paiva e Socorro Acioli, compondo um panorama diverso da produção cultural contemporânea do país.
A participação integra estratégias de cooperação Sul-Sul e de popularização internacional do conhecimento produzido nas Ciências Humanas e Sociais em Saúde, em consonância com o compromisso da Fundação Oswaldo Cruz e do Instituto do Semiárido (INSA) com a promoção do bem viver, da justiça social e do diálogo intercultural.
Mais informações:
29/04 – Conversa “Libros impresos como instrumentos de lucha social”: https://www.instagram.com/p/DXIGuEvARk9/?igsh=dW9kcGFkNWJ1NDNn
30/04 – Apresentação do livro “Gerações de Luta”: https://www.instagram.com/p/DXXXKYMlkqD/?igsh=ZDgyeDdsbWd1Mjlq
No dia 26 de dezembro de 2025 houve o lançamento da edição impressa do livro quadrilíngue "Gerações de Luta: honrando as faces da resistência", publicado em 2024 na versão digital. O evento de apresentação foi aberto ao público aconteceu no Mahalila Café e Livros, em Natal/RN, e contou com a presença de lideranças homenageadas, pesquisadores e demais interessados/as. O evento foi marcado pela leitura de trechos do livros, depoimentos e trocas de experiências acerca do projeto.
O livro, publicado em português, tupi-nheengatu, inglês e finlandês, conta como a homenagem ilustrada a 22 lideranças de comunidades tradicionais e movimentos sociais do Nordeste brasileiro que atuaram como pesquisadoras no Projeto Boas Práticas de Enfrentamento à Covid-19.
Fotos: Diego Potyguara
A entrevista, concedida por Ana Gretel Echazú Böschemeier, foi ao ar na Rádio Universitária de Natal (88.9 FM) no dia 22 de dezembro de 2025, às 12h. Clique no player abaixo para ouvir na íntegra.
Ficha técnica:
Gabriely Garcia Ferreira de Araújo - Produção
Mavi Mendes - Edição
Pedro Ubiratan Gomes dos Santos - Locução
Levando as nossas demandas para o Norte Global com o tema Tecendo redes, descolonizando mundos.
O Projeto Boas Práticas de Enfrentamento à COVID-19 marcou presença na Feira Literária do I Seminário Estadual de Promoção à Saúde do Governo do Rio Grande do Norte. O evento aconteceu no dia 14 de junho, na Escola de Governo Dom Eugênio Sales, localizada no Centro Administrativo.
Na ocasião, participantes do projeto estiveram presentes para apresentar o e-book Pontes e Ruas de Pluralidade Epistêmica: relatos, etnografias e traduções no enfrentamento à COVID-19 com comunidades e movimentos sociais, frutos dos esforços coletivos dos/as integrantes do Projeto nos três estados que ele abrange: Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará.
A gravação do momento foi disponibilizada na íntegra no canal do YouTube do Governo do RN, que por enquanto está indisponível, dado o ano eleitoral, e poderá ser conferida clicando aqui, a partir do minuto 29.
O cordel "Boas Práticas, o mar e o sertão" foi escrito e declamado pelo professor Luan Gomes para exibição no evento Being Human, no evento Bora Conversar? e no evento do Asian Institute of Technology, da Tailândia.
Guest Lecturers: Ana Gretel Echazú Böschemeier e Breno Carvalho
Titulo do Trabalho: Participatory research from the perspective of Anthropology and Collective Health in Paulo Freire's homeland
Departamento de Gênero, Saúde e Comunicação
Realização: Asian Institute of Technology (Tailândia): https://www.ait.ac.th/
16/09/2021 - 7h às 9h.
Participação no Ciclo de Intercambios: Debates en torno al desarrollo humano e no Seminario Equipos de salud e interculturalidad: desafios del quehacer sanitario en contextos de diversidad