Padre Miguel e o Castigo de São Miguel
Em janeiro de 1931, os moradores de uma pequena cidade no sul do Espírito Santo foram surpreendidos por uma mudança inesperada: o nome do município havia sido alterado. Os administradores políticos locais, incomodados com o antigo nome—São Miguel do Veado—e temendo que ele denegrisse a imagem da população, buscaram o apoio do Presidente do Estado, o Interventor João Punaro Bley, para encontrar uma solução. Por sugestão do próprio presidente, a cidade passou a se chamar Siqueira Campos. Naquele mesmo ano, o padre Miguel de Sanctis completava treze anos à frente da paróquia.
Já se haviam passado três anos desde a emancipação política de São Miguel do Veado, um pequeno lugarejo com cerca de 3.500 habitantes. A população era composta por descendentes de indígenas, negros escravizados e, em menor número, proprietários de terras, herdeiros dos primeiros colonizadores. Entre os legados desses pioneiros, destacava-se a devoção a São Miguel Arcanjo, padroeiro da cidade.
Foi para esse pequeno rincão que Miguel de Sanctis, um fervoroso devoto do Arcanjo Miguel, foi enviado ao Brasil após sua ordenação sacerdotal na Itália. Em 11 de dezembro de 1918, ele assumiu a administração paroquial de São Miguel do Veado. Sua missão evangelizadora não se limitava à cidade: sobre um cavalo, um burro ou uma mula, percorria os distritos e outros municípios vizinhos levando a Palavra de Deus.
Dedicado inteiramente à comunidade, padre Miguel iniciou, com seus próprios recursos, a construção do Templo de São Miguel, hoje conhecido como Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo. Foram seis anos de trabalho árduo para erguer aquele que se tornaria o principal marco religioso da cidade. Apesar das dificuldades financeiras, o sacerdote ainda conseguiu mobilizar os paroquianos para arrecadar 1.200.000 réis destinados à construção do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Além disso, com sacrifício pessoal, adquiriu o prédio que futuramente se tornaria o Ginásio São Geraldo, onde milhares de pessoas receberam educação.
No entanto, em setembro de 1931, um evento inesperado abalou a cidade. Uma tempestade de raios, trovões e chuvas de granizo assolou São Miguel do Veado, destelhando inúmeras casas e levando o prefeito a decretar estado de calamidade pública. A destruição foi tamanha que o próprio presidente do Estado visitou o município para avaliar os estragos. Mas um fato chamou a atenção de todos: a Igreja Matriz e a Casa Paroquial permaneceram intactas. Para a população e seus líderes políticos, sob a influência das pregações do padre Miguel, aquele fenômeno era mais do que uma coincidência; era um castigo de São Miguel Arcanjo contra aqueles que haviam apoiado a mudança do nome da cidade.
Convicto de sua missão e inconformado com a substituição do nome do município, padre Miguel travou uma incansável batalha contra os políticos locais. Sua persistência foi recompensada anos depois, quando um novo decreto estadual restaurou a identidade da cidade, agora rebatizada definitivamente como Guaçuí.
Mas sua influência ia muito além da política. Grande conhecedor de talentos, padre Miguel inspirou centenas de jovens a seguir a vida sacerdotal. Sua oratória eloquente, fé inabalável e vasta sabedoria espiritual e intelectual levaram-no a representar o Brasil no Congresso Eucarístico realizado na Argentina, na década de 1950, ocasião em que recebeu o título de Monsenhor.
Monsenhor Miguel tornou-se uma verdadeira referência para os cristãos de Guaçuí. Seu caráter era uma mistura singular de severidade, carisma, seriedade e bom humor. Nunca recusava atender aqueles que o procuravam e dedicava-se incansavelmente à evangelização. Mesmo na velhice, mantinha o mesmo ardor missionário, ministrando sacramentos e orientando espiritualmente sua comunidade.
Sua fé e devoção a São Miguel Arcanjo eram tão profundas que costumava dizer que partiria deste mundo no dia dedicado ao seu santo protetor. E assim aconteceu: em 29 de setembro de 1971, no Dia de São Miguel Arcanjo, padre Miguel de Sanctis entregou sua alma a Deus. Seus restos mortais repousam na Capela do Santíssimo, dentro da Igreja Matriz que ele mesmo construiu.
Hoje, peregrinos de todo o Brasil e até do exterior visitam Guaçuí para prestar homenagem ao homem que marcou para sempre a história da cidade. Padre Miguel não foi apenas um sacerdote; foi um educador, um líder, um defensor da fé e da identidade de um povo. Sua vida e missão continuam vivas na memória daqueles que, geração após geração, ainda se inspiram em seu legado.
A ÚLTIMA HOMILIA
Por Diácono Miguel A. Teodoro
"Os homens passam, mas a Igreja permanece".
Em 1975 éramos ainda muito jovens. Nosso primeiro contato aconteceu de forma rápida, na semana de sua posse. Padre Ênio era muito participativo e nos animava profundamente. Ficou conosco cerca de dezessete anos. De todas as suas homilias, no meu ponto de vista, aquela foi a mais bela que tive a oportunidade de ouvir.
Ênio Fazolo, antes de entrar para o seminário, viveu entre as pétalas e os espinhos das rosas que a vida lhe apresentou. Ainda criança, conheceu as durezas e dificuldades de viver sem o pai, que havia falecido. Sua fé e dedicação o fizeram um homem de qualidades incomparáveis. Talvez tenha sido por isso que Deus o chamou para servi-Lo através da vocação sacerdotal.
Apesar de ter empreendido seus estudos filosóficos e teológicos dentro dos parâmetros educacionais de uma Igreja cujo modelo evangelizador refletia a educação pré-conciliar, sua mente e seu espírito já comungavam com as renovações propostas pelo Concílio Vaticano II. Era um verdadeiro amante da natureza e gostava de música clássica. Sempre era pego, de surpresa, cuidando de seu jardim ou ouvindo as sinfonias de Beethoven em sua velha e inseparável vitrola, que o acompanhava para onde quer que fosse. Entretanto, como muitos seres humanos, tinha seus momentos de teimosia e desafeto, mas sua capacidade de se tornar flexível diante das mudanças era impressionante.
Lembro-me de que, levado por minha mãe, fui à sua ordenação sacerdotal e, cerca de doze anos mais tarde, ele foi indicado por Dom Luiz Gonzaga Peluso para assumir nossa paróquia. Isso aconteceu no ano de 1975. Nosso primeiro contato foi breve. Minha irmã e eu o encontramos nas escadas da Igreja Matriz, quando o flagramos olhando para o topo da torre e, ao mesmo tempo, para dentro do templo de São Miguel. De modo particular, eu não podia sequer imaginar o que se passava em sua cabeça, mas sua expressão revelava certa preocupação. Essa paróquia sempre exigiu muito de seus administradores. No entanto, naquele breve encontro, a preocupação deu lugar a um pequeno sorriso.
Em 1975 éramos ainda muito jovens. E ele se sentia bem entre os jovens. Tinha e demonstrava especial devoção ao celebrar para nós, particularmente nas missas de sábado à noite. E como aquelas missas eram animadas e convidativas! Provocavam grandes conversões e despertavam inúmeras vocações. Sabia aproveitar todos os momentos, pois se fazia sempre presente nos acontecimentos da paróquia que administrava.
Padre Ênio era muito participativo e nos animava, assim como os movimentos de adolescentes, jovens e casais; Restaurante Decolores; reuniões dos cursilhistas; encontros; retiros; vicentinos; Jornadas Cristãs; Legião de Maria; Liga Católica, entre tantos outros. Participava de todas as reuniões e tinha especial zelo pelos Ministros Extraordinários da Distribuição da Eucaristia, com os quais fazia questão de se reunir todas as quintas-feiras na capela do hospital. Além disso, visitava constantemente seus paroquianos. Nos meses de maio e setembro, investia todo seu tempo nos leilões e barracas, bem como nas homenagens a Maria e a São Miguel. Durante a Semana Santa, fazia questão de estar presente em todas as celebrações da Via Sacra. Ele se entregava por inteiro.
Tornamo-nos grandes amigos. Carinhosamente, eu o chamava de "Fazolão" e ele a mim de "Miguel do Bruno". Nossos diálogos eram sempre permeados de franqueza e sinceridade. Enquanto foi nosso pároco, conversávamos muito no dia a dia, pois, a seu convite, tornei-me Ministro da Eucaristia e, posteriormente, coordenador do grupo dos MEDE, pelos quais ele tinha especial zelo. Muitas foram nossas conversas, sempre marcadas por uma honestidade recíproca. Quem nos ouvia poderia imaginar que estávamos brigando, mas não! No fim de cada conversa, ele me dizia:
"Miguel do Bruno! Lembre-se bem de uma coisa: os homens passam, mas a Igreja permanece."
Ele sempre repetia essa frase em suas homilias. Para ele, parecia ser um ponto de partida, um marco, um referencial que o movia. Era um estímulo para que continuasse sempre sua caminhada rumo à evangelização.
Ficou conosco cerca de dezessete anos. No início de 1992, foi transferido para outra paróquia. No entanto, em 28 de setembro desse mesmo ano, tivemos a oportunidade de celebrar juntos. Foi a última vez que partilhamos os ofícios do Altar. Depois, alguns anos mais tarde, nos reencontramos em uma missa festiva da novena a São Miguel, que ele presidiu.
Em sua homilia, contou-nos sobre a experiência que teve ao visitar a Itália e ver os restos mortais e as vestes de São Francisco de Assis. Relatou também uma experiência que viveu no Oriente Médio, quando esteve à sombra de uma frondosa árvore em meio ao deserto. Disse-nos que, ao ver aquela árvore solitária no meio da aridez, ficou perplexo diante daquela ação de Deus. Para qualquer pessoa que raciocina logicamente, era impossível que, naquele lugar seco e árido, sobrevivesse uma árvore tão exuberante. Enriquecendo sua pregação, usou como exemplos a simplicidade do Santo de Assis e a Árvore do Deserto. Suas palavras saíam do coração, e não apenas da boca. Penso que foi nessa viagem à Europa e ao Oriente Médio que aconteceu sua verdadeira conversão.
Essa missa ficou para sempre em minha memória. Senti em meu coração que essa foi a última vez que o ouvi pregar. E, por mais incrível que pareça, de todas as suas homilias, aquela foi, para mim, a mais bela - a que mais tocou meu coração. Inexplicavelmente, naquele momento, senti que estava ouvindo-o pela última vez. Apesar da beleza de suas palavras, tive a nítida impressão de que Padre Ênio estava se despedindo de todos nós para sempre.
Ele sempre teve razão ao dizer:
"Miguel do Bruno! Lembre-se bem de uma coisa: os homens passam, mas a Igreja permanece."