Na Sala 4 do Museu do Carmo, estão expostos dentro de vitrines os corpos mumificados de dois jovens Chancay, que diariamente são olhados e fotografados por dezenas de visitantes, ao mesmo tempo que ferem e provocam a indignação de tantos outros. Porque estão aqui e não no lugar de repouso escolhido para si pelos seus? Como chegaram até aqui? O que significa a continuada exibição de corpos indígenas num museu de arqueologia português, em 2018? Estas são algumas das questões a que sentimos que o dispositivo expositivo do Museu do Carmo deveria dar resposta.
A Sala 4 homenageia Januário Correia de Almeida, cujo retrato a óleo se vê em frente à porta de entrada da sala. Januário Correia de Almeida viajou pela América do Sul entre 1878 e 1879 numa missão diplomática da qual resultou a assinatura de acordos comerciais entre Portugal e nações sul-americanas. No decurso desta viagem, reuniu 64 peças das culturas indígenas Mochica, Chimú e Chancay e quatro restos mortais humanos. Os investigadores que até agora consultaram registos sobre esta viagem não encontraram informações sobre as condições sob as quais Januário Correia de Almeida chegou à posse destes objectos e restos mortais, ou de quem os desenterrou e com que fim.
Os dois jovens cujos corpos estão expostos viveram no século XVI, a norte de Lima, no Peru, sendo que a sua cultura coexistiu com os Incas e com os colonizadores espanhóis. O seu “desaparecimento” é afirmado em diversos livros, mas estes também sugerem que este não foi um desaparecimento físico, mas antes uma perda da pista que liga esta cultura até aos nossos dias, numa história que se cruza com o encontro com os Incas e com a colonização espanhola. É possível que hoje existam descendentes dos Chancay entre os peruanos, ainda que a história possa ter tornado estes laços mais difíceis de escrutinar.
Até ao início do século XX, os corpos foram expostos num espaço semelhante a um gabinete de curiosidades, atrás de cortinas, que eram levantadas apenas em circunstâncias particulares. Ao longo do século XX, o museu sofreu várias reestruturações, a última das quais em 2001, ano do qual data o actual dispositivo expositivo. Os corpos estão rodeados pela biblioteca histórica do Museu, que reúne os instrumentos de produção do conhecimento - livros de Antropologia, Arqueologia, actas do Congresso do Mundo Português, entre outros -, e encimados por representações de monarcas e de membros da Associação dos Arqueólogos Portugueses, homens brancos de idade, ilustres, retratados em pinturas a óleo e coroados por molduras douradas. A disposição da sala desenha, assim, uma hierarquia visual que coloca os dois corpos na parte inferior, ponto de convergência de todos os olhares. A humanidade dos corpos foi tornada invisível pelo dispositivo museológico, pela história escrita pelos colonizadores europeus e pelo longo processo de objectificação das pessoas racializadas como “não-brancas”. Como fazer ver o humano? E é legítimo continuar a olhar?