CISNANDO FERREIRA*
O período que medeia o referendo de 2016 e a consumação do divórcio do Reino Unido e da União Europeia, no recente 31 de janeiro de 2020, foi um filme em que só de um lado da barricada estiveram três protagonistas, encarnados nos três primeiros-ministros, com cenas dramáticas e controversas ocorridas no Parlamento Britânico. Mas os britânicos já nos habituaram a cenas insólitas. O Primeiro Ministro, na altura, David Cameron, que despoletou o plebiscito, em resultado do mesmo acabou por se demitir. Depois de mais de quarenta anos de integração europeia, a diferença de 2% dos eleitores britânicos derrubou um edifício que tanto custou a construir.
O problema é que as consequências são mais profundas e abalam outras construções. Não se restringe à saída da União Europeia e às negociações com os restantes vinte e sete países mas, em sequência, ganharam mais dois problemas: a reivindicação da independência da Escócia e a reunificação irlandesa, pois manter a unidade territorial do País é outro grande desafio.
A democracia também tem destas coisas. Numa democracia, por vezes o mais fácil é mandar a maioria decidir, mas antes de convocar a população para decidir seria fundamental avaliar a conjuntura política, económica e social do momento que, por vezes, pode ditar uma sentença que pode não ser benéfica para o País, para a Europa ou mesmo à escala Mundial.
Os britânicos ingressaram na Comunidade Económica Europeia em 1973 e logo em 1975 foram chamados a pronunciar-se, em referendo, sobre a continuidade ou não, tendo o resultado sido favorável à permanência.
Recuando um pouco no tempo, mesmo antes da constituição da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e da Comunidade Económica Europeia, alguém falava assim num discurso proferido em Zurique, a 19 de setembro de 1946, logo após o fim da segunda Guerra Mundial, tendo em conta a tragédia que assolara a Europa: “Existe um meio de solucionar (referindo-se à recuperação da Europa) (…). Em que consiste a solução? Consiste em refazer a família europeia, na medida do possível, e depois acarinhá-la de tal forma que ela se possa desenvolver na paz, na segurança e na liberdade. É necessário edificar uma espécie de Estados Unidos da Europa (…).
Quem teria dito isto? Um grande britânico – Winston Churchill.
Insólito é também não serem membros fundadores nem da CECA nem da CEE. Qual será a justificação? Talvez os princípios que orientam as decisões. Em vez de se privilegiar a paz, a segurança e a liberdade, que tanto se apregoa, dá-se primazia exclusiva ao princípio económico.
Estaremos a pensar e a decidir bem?
* (EMBAIXADOR SÉNIOR DA ESCOLA EMBAIXADORA DO PARLAMENTO EUROPEU)