ANDRÉ XAVIER*
A 23 de junho de 2016, fomos surpreendidos com a notícia de que os britânicos pretendem sair da União Europeia, arrastando a Escócia e a Irlanda do Norte.
Apesar de ter sido pedido várias vezes um novo referendo, pois 27% da população eleitora não compareceu nas urnas e a margem da vitória foi apenas de 2%, o certo é que definiu o destino da nação, revestindo-se de um caso insólito, pois a Escócia e a Irlanda do Norte discordam da posição até hoje.
A primeira-ministra escocesa mencionou a possibilidade de ser feito um novo referendo sobre a saída da Escócia do Reino Unido, tal como já tinha sido feito em 2014. Porém, para a legalidade deste processo, precisa do consentimento de Westminster (parlamento inglês) e, dada a maioria conservadora no mesmo, é muito improvável que tal aconteça.
Já no fim de 2019, foram convocadas eleições antecipadas para o parlamento inglês, que tiveram como assunto principal o Brexit e NHS (SNS britânico). Devido ao fraco posicionamento do Partido Trabalhista, o Partido Conservador conseguiu, facilmente, uma maioria parlamentar. Todavia, esta vitória não foi só protagonizada por Johnson, mas também por Nicola Sturgeon que, além de aumentar os assentos parlamentares, reafirma o SNP (Partido Nacionalista Escocês) como a maior fação política da Escócia. Além disso, reapareceu o problema da fronteira da Irlanda do Norte que já antes tinha sido difícil de resolver.
Mas porque é que os escoceses querem tanto permanecer na UE ?
Porque estes julgam que o parlamento britânico desconsidera os interesses escoceses, enquanto que a UE os valoriza. Por isso se demonstram tão céticos quando ouvem Johnson dizer “vamos recuperar o controlo” . Tendo em conta que o Brexit já foi aprovado pelo Parlamento Europeu em 31 de janeiro de 2020, a Escócia teria de se separar do Reino Unido e voltar a fazer o pedido de adesão como um país independente o que levaria muito tempo e será muito pouco provável.
Conseguirá a Escócia manter-se, economicamente?
Numa entrevista, o ministro das finanças escocês afirmou que o país podia “mais do que apenas se sustentar” mesmo com um défice de 15 bilhões de euros, devido ao petróleo do Mar do Norte, facto que teria motivado o referendo de independência escocês de 2014.
Porém, o outro lado da moeda também nos mostra que quase 50% das exportações do país são para os membros do Reino Unido. Por isso, também não faz muito sentido erguer uma barreira com o único país com o qual faz fronteira e é ao mesmo tempo o maior parceiro económico. Isto poderia não só prejudicar comunidades, como erguer uma rivalidade semelhante à que existiu na fronteira entre a Irlanda (república) e a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido).
Concluindo, para os escoceses o melhor seria permanecer em ambos os blocos, o que não é possível, mas com a saída do Reino Unido da União Europeia não têm nada a ganhar.
*(embaixador júnior da Escola Embaixadora do Parlamento Europeu)